| O Paraíso Azul Waldemar Costa | |||||||
Romance
de Ficção Científica | |||||||
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Capítulo 1 Fúbio acende o cigarro no exato instante em que a aeromoça lhe oferece um drinque. O rapaz agradece e sorve a bebida vagarosamente, enquanto suas pupilas vistoriam o interior do avião completamente lotado. Lembra-se como foi difícil sair de Brasília em outras aeronaves de carreira. A Capital Federal vive momento de verdadeiro êxodo. Quase todos os habitantes querem comemorar a passagem do século à beira-mar. Apesar do grande prestígio na área governamental, ele não conseguiu lugar nos jatos da FAB, que partiam para o Rio de Janeiro, pois as vagas foram distribuídas aos ministros, parlamentares e funcionários públicos do primeiro escalão. A despeito de tudo, se encontra a bordo de um avião comercial em plena manhã do dia 31 de dezembro do ano 2000. Antes de seguir para o aeroporto, colocou óculos escuros e boina vermelha, a fim de disfarçar a fisionomia, porque sua imagem apareceu durante dias nos noticiários da televisão. Quer viajar incógnito. Desfrutar o anonimato. Olha para o lado de fora. Os grande cirros, que se assemelham a flocos de neves, excitam a imaginação. Seu espírito cria figuras das mais variadas, e sente um vazio por não estar pilotando. Balança a cabeça e sorri. Recorda-se das vezes na carreira de oficial da Força Aérea Brasileira que furou aquelas nuvens em jatos supersônicos. Sua mente reproduz a cena chorona e temerosa da mãe, na época da sua entrada na Academia da Força Aérea. Mesmo sem aprovação dela, ele formou-se com as melhores notas, para logo depois ser considerado o melhor piloto militar do Brasil. Agora, seu sonho de voar alcançava patamar mais amplo. Uma coisa que nem nas fantasias de garoto concebeu: participar de um vôo tripulado ao planeta Marte, acompanhado por dois outros astronautas. Um norte-americano e um russo. Fúbio relembra com alegria as ocorrências daquela semana. Vem, ao pensamento a voz do Ministro da Aeronáutica, comunicando que o Governo dos Estados Unidos o selecionou para ser o terceiro astronauta da missão tripulada da Nasa. O momento em que o Presidente da República do Brasil o cumprimenta também é reproduzido em sua mente. Após um ano de treinamento nas bases da Nasa, fora o escolhido entre aviadores de diversos países, a maioria bem mais rica do que o Brasil. Sente-se orgulhoso e recompensado pelo esforço e dedicação nos exercícios físicos e nas aprendizagens das matérias relacionadas com as ciências da Astronomia e da Astronáutica. Seu pensamento volta-se para a esposa Pamela. Como está ansioso para chegar ao Rio de Janeiro e encontrá-la. Abraçá-la, vibrar juntos e comentar pessoalmente sobre o grande acontecimento. Algo mais envolvente do que o telefonema que dera de Brasília, tão logo saíra do Ministério da Aeronáutica. Sua emoção multiplica-se ao desembarcar no Rio de Janeiro. Em poucos minutos, após retirar o automóvel da garagem do aeroporto, enfrenta o engarrafamento na Linha Vermelha. Rumo à sua casa no Grajaú, passa longo tempo irritado com o caótico trânsito da cidade. Mas seu coração se enche de alegria ao chegar finalmente ao lar. Pamela o espera também radiante. Dá um pulo, agarra o marido e o beija com sofreguidão. Eles sobem, passam pela varanda e atingem o salão principal da confortável residência. Emocionado, ele narra os detalhes do encontro com as autoridades. Pamela ouve com a máxima atenção. - Vibrei muito ao ser informado que fui o preferido da Nasa - completa ele. - Eu também fiquei comovida, quando vi a notícia pela televisão. - É... A minha cara apareceu na telinha de todas as casas brasileiras. Cheguei a ficar com medo... Por isso, me camuflei para a viagem... Coloquei óculos e boina. Pamela sorri e beija o marido. - Estou muito feliz por você ter conseguido o que almejava - diz ela. - Valeu aquele empenho nos Estados Unidos. - Você igualmente deveria ter aparecido na televisão, Pamela. A vitória também é sua. Você me deu ânimo e moral, quando decidiu ir morar comigo nos Estados Unidos... Você foi formidável... Com você perto de mim, criei força para enfrentar as durezas e superar os concorrentes de outros países. Ela olha para o receptor de televisão desligado. Seu rosto demonstra certa irritação. - O que houve, Pamela? - Estou lembrando-me da fala de um comentarista ontem na TV... Não gostei do que ele disse... Insinuou que a sua escolha foi política... Que estranhava muito ser escolhido uma pessoa do Terceiro Mundo... O praguento levantou até a suspeita que há, por trás de tudo, interesse dos Estados Unidos nas riquezas naturais do Brasil... O desgraçado encerrou sua imprecação dizendo que os norte-americanos agora estão mais próximos de anexar a Amazônia. - Eu também assisti ao programa... Aquele infeliz não sabe onde tem o nariz... Esbravejava sem conhecer a verdade... Ele deveria ter ido na época às bases da Nasa, para acompanhar o processo de treinamento... Ele deveria ter aparecido por lá no final do curso, quando outros alunos, que eram meus concorrentes, achavam que meu desempenho tinha sido muito bom. Na opinião deles, eu seria o escolhido... É pena que algumas pessoas no nosso país não dêem valor à capacidade do brasileiro e inventam essas estórias bobas... Mas vamos esquecer isso... Hoje é dia festivo... o último do ano... o último do século XX... Não podemos nos preocupar com as palavras de um idiota. - É mesmo, Fúbio... Os seus pais estão nos esperando para o reveillon em Copacabana... Seu irmão telefonou cedo... Ele pensou que você já havia chegado. - Ah! Sim!... Quando embarquei para Brasília, o papai falou sobre a reunião de hoje... Ele disse que o Professor Serapião também vai. - Que chatice, Fúbio! - Por que, Pamela?... Você não gosta dele? - Não... Não é isso... Até que é um velho muito educado... É por causa da sua mania de dissertar sobre história universal... Ele deve achar que somos alunos dele. - O Professor Serapião é catedrático e conselheiro internacional de História... Meu pai diz que é o melhor mestre do mundo em História e Geografia... Você pode ficar descansada... Não acredito que hoje ele vai falar sobre personalidades históricas... Hoje, marca o final do Século XX, Pamela... As conversas serão outras... Você vai ver. - Não tenho certeza, Fúbio... Vamos ver o que acontece lá. Pamela sorri. - Eu tenho uma novidade... Uma coisa que estava guardando em segredo... Uma surpresa para você... Não quis comentar antes, para não impedir o extravasamento da felicidade pela sua escolha para a missão tripulada à Marte. - Então, é notícia ruim? - Não!... É muito boa! Pamela levanta-se, passa a mão na própria barriga e olha sorridente para o marido. - Eu estou grávida. O rapaz dá um salto e abraça a esposa. - Quando soube?... Como estou contente! - Estava já desconfiada, antes de você viajar à Brasília... No início da semana, consultei o ginecologista, que confirmou tudo... Estou esperando um bebê, Fúbio! - Já avisou a minha família?... Já telefonou para seus pais em São Paulo? - Não... Queria que você fosse o primeiro a saber... No final da tarde, antes de irmos para Copacabana, telefonarei para São Paulo e contarei as novas para meus pais. - Como estou feliz, Pamela!... Temos que dar nome ao menino. - Quem disse que vai ser menino?... Será menina!... Eu já tenho um nome para ela... Sara... Gosta do nome, Fúbio? - Sim... É bíblico... Mas quero opinar sobre um nome, caso nasça um menino... Não se esqueça que, quando ele vier ao mundo, não estarei aqui. Me encontrarei a milhares de quilômetros da Terra. - Já pensei nisto, Fúbio... Isso me aflige muito... Quanto tempo você passará viajando? - Em janeiro, voarei para os Estados Unidos... Lá ainda haverá dois meses de treinamento com o astronauta norte-americano e o russo. O lançamento da nave para Marte será logo em seguida... A duração da viagem será de um ano e meio. - Ida e volta? - Sim, Pamela... Passarei quase dois anos longe de você... O bebê deve nascer, quando eu estiver chegando à Marte. - Isso me dá uma tristeza, embora esteja contente por você ter conseguido o que queria... É lúgubre pensar não ter você perto, quando nascer a criança... Sua primeira filha... Você não verá os melhores dias da vida dela... As primeiras gracinhas e seus passos iniciais. Fúbio abaixa a cabeça. Pamela senta-se novamente e coloca o braço em volta do corpo dele. - Peço desculpas, por ter falado assim. - Você disse a verdade, Pamela... Como gostaria de compartilhar com você dos primeiros meses do nosso bebê... Mas é impossível... A menos, que desista da viagem. - De maneira alguma, Fúbio... Farei gravações com a criança... Quando você regressar, verá tudinho no videocassete e no computador... Não deixe de ir à Marte... Sua própria filha, quando crescer, terá enorme orgulho de você. Eles se abraçam e se beijam. - Você é uma mulher maravilhosa, Pamela! - Já escolheu o nome, caso seja menino, Fúbio? - Sim, querida... Será Aquiles. Eles ainda conversam um pouco, antes de se ocuparem dos afazeres pessoais. Depois, Pamela telefona para São Paulo. Ao pôr-do-sol, partem para o apartamento do seu Fabrício, pai do Fúbio, na Avenida Atlântica. Ao chegar em Copacabana, eles encontram o Professor Serapião e sua esposa. Todos cumprimentam Fúbio por motivo da sua escolha pela Nasa. O rapaz pergunta à mãe, Dona Delfina, pelo irmão Florêncio. Dona Delfina explica que Florêncio foi passear à beira da praia, mas que já deve estar de volta. Pamela conta a todos que seu Fabrício e Dona Delfina brevemente serão avós. O Professor Serapião propõe um brinde ao futuro papai. Dona Delfina enche as taças. O mestre levanta bem alto o braço. - Ao jovem astronauta brasileiro e ao seu filho que há de vir - grita ele. O velho historiador aproxima-se de Fúbio. - Eu soube que é o mais jovem da tripulação. -
Sim, professor. Tenho 27 anos. O astronauta americano tem 38 anos. O russo tem
35 anos. - Estamos a poucas horas do final do ano... Do fim do século XX - diz o mentor, procurando iniciar uma conversa. - Não só do fim do século, Serapião... Mas também o término do segundo milênio da Era Cristã - acrescenta seu Fabrício. - Sim... Sim... A partir da meia-noite, começará o terceiro milênio - concorda o preceptor. - Nós devíamos nos orgulhar de poder comemorar um fato que gerações de vários séculos não tiveram: a passagem de um milênio - declara Fúbio, interrompendo os velhos. - Exato, meu brilhante astronauta... Só há mil anos aconteceu a primeira mudança de milênio da Era Cristã. Mas os povos da Idade Média não tinham noção, para festejar uma transição entre dois milênios... Aliás, só naquela época é que o nosso calendário expandia-se pela Europa, à medida que o Cristianismo penetrava no mundo medieval. Pamela cutuca o marido, em virtude do professor começar a falar em temas históricos. Fúbio sorri discretamente para a esposa. O mentor continua sua explanação. - O calendário cristão custou a surgir no mundo antigo... O Imperador Constantino concedeu tolerância para a fé cristã. Tempos depois, Teodósio declarou o Cristianismo religião oficial do Império Romano, mas a folhinha vigente continuou sendo a que tinha por marco inicial a fundação de Roma. Somente no ano romano de 1279 é que o monge siciliano Dionísio, conhecido por "O Pequeno", pelo seu grande senso de humildade, fixou como data de nascimento de Jesus Cristo o dia 25 de dezembro do ano romano de 753. A partir de então, o ano 754 passou a corresponder ao ano um da Era Cristã. O próprio ano romano de 1279, quando Dionísio estabeleceu o atual calendário, passou a ser considerado como ano 525. - Então, tivermos mais de um ano mil no mundo antigo! - exclama Fúbio. - Sim... O mil do calendário romano, que corresponde a 246 da Era Cristã; e o 1000 DC da nossa atual cronologia... Há, porém, um detalhe importante: Dionísio errou nos seus cálculos para determinar a data de nascimento de Jesus Cristo... Estudiosos dos textos bíblicos chegaram à conclusão que o Messias nasceu no ano 748 de Roma... portanto, cinco anos antes da data fixada pelo monge siciliano. - Consertaram o erro? - pergunta assustada Dona Delfina. - Quando foi descoberto o engano, já haviam se passado muitos séculos. Os teólogos nunca pensaram em mudar a cronologia fundada por Dionísio, inclusive por não se conhecer ao certo a data do nascimento de Jesus Cristo... Não se sabem nem a data de Seu falecimento... O importante é que o calendário cristão transformou-se em universal e usado por todos os habitantes do Planeta, inclusive por aqueles que, por motivo religioso, adotam diferentes calendários... O mundo hoje é outro... Há mil anos, no final do primeiro milênio cristão, tudo era mistério e primitivo. A conversa é interrompida com a chegada de Florêncio, irmão de Fúbio. Após os cumprimentos, o Professor Serapião retorna ao assunto. - Como eu dizia a orbe do ano 1000 era bem diferente da atual. Naquela época, o mundo conhecido era a Europa, pequena parte da Ásia e o norte da África... Haviam outros povos em outros continentes, mas o europeu os desconhecia... A civilização era Europa; e Roma, a sua capital. - Nessa época os Astecas já viviam no atual México - intervém, muito convicto, seu Fabrício. - Não... os Astecas chegaram lá quatro séculos depois. No ano 1000, o atual México era habitado pelos Toltecas, Olmecas e Zapotecas. Na América Central, o Império Maia já estava em decadência... Na América do Sul, os Incas ainda não existiam. Só iriam aparecer no ano 1200. Há indícios que grande civilização floresceu no mesmo sítio dos Incas, mas nem esses souberam informar as origens das fabulosas ruínas encontradas pelos espanhóis. Em outros continentes, também havia povos no ano 1000. Na Ásia Oriental, os chineses, japoneses e o desaparecido Império Khmer. Na África, o reino de Gana e a grande civilização de Zimbabwe. O Professor Serapião respira profundo, mas não pára de falar. - O Homem já habitava no final do ano 1000 todos os continentes, mas os valores atuais da nossa civilização são heranças da Europa, norte da África e parte da Ásia, com as culturas grega, romana e muçulmana. A Europa pode ser considerada o mundo do ano 1000... Um mundo que não tinha conhecimento das civilizações pré-colombianas, de boa parte do continente africano e que acreditava serem lendas as narrativas obscuras sobre a existência dos chineses e japoneses. Aliás, os europeus daquela época julgavam que a Terra era plana, com limites pouco além da área que idealizavam. Pitágoras e Aristóteles já haviam defendido a esferidade da Terra bem antes de Cristo, mas os próprios gregos achavam a teoria mais intuição do que uma verdade... O ano 1000 era a Europa da queima das bruxas e feiticeiras nas fogueiras e da pedra filosofal, que os alquimistas pretendiam usar para transformar metal comum em ouro. - Uma pedra dessa, eu queria como presente de Natal - brinca Florêncio. Todos riem, inclusive o mentor. - Deixe o Professor Serapião continuar... A história é muito interessante - retruca Dona Delfina. O mestre ajeita-se no sofá, enquanto Pamela cutuca novamente Fúbio. - Bem, senhores e senhoras... como estava dizendo... Era uma Europa rural, feudal e cristã. A Igreja, que teve bom período nos últimos anos do Império Romano no Ocidente, havia sofrido terrível retração com as invasões dos bárbaros... Mas no ano 1000 retornava ao poder e administrava o mundo europeu junto com os imperadores. Os cristãos estavam cercados pelos temíveis Vikings ao norte e pelos muçulmanos ao sul... Os muçulmanos eram o perigo maior para a Europa Cristã. Dominavam grande parte do litoral do Mar Mediterrâneo, com as faixas africana e do Oriente Médio. Também ocupavam os atuais territórios de Portugal e Espanha, onde haviam fundado o Califado de Córdoba... A outra parte da Espanha era domínio dos cristãos no ano 1000. Existiam nesse lado cristão, a monarquia Asturiana-Leonesa, os Condados de Castela e de Barcelona e o Reino de Navarra. - A França era governada nessa época pela Dinastia dos Capetos - interfere Fúbio, a fim de mostrar aos presentes seus conhecimentos sobre História Medieval. - Sim... O rei dos francos era Roberto II, filho de Hugo Capeto. Foi um dos monarcas mais dedicado ao Cristianismo. Tornou-se amigo do Papa Silvestre II, do qual foi aluno...O Papa teve papel muito importante na propagação do Cristianismo no final do século X. No ano 1000, ele coroou o futuro São Estevão como primeiro rei da Hungria. O Papa Silvestre II dirigia a Igreja sob tutela do Sacro Império Romano Germânico, pois o imperador alemão tinha o poder de aprovar ou rejeitar as eleições papais. O conselheiro pigarreia por instantes. - Naquela época, o imperador era Oto III, neto do fundador do Sacro Império Romano Germânico. Ele também foi discípulo do Sumo Pontífice... Subiu ao trono com apenas três anos de idade. No ano 1000, contava apenas vinte anos. Morreu dois anos depois nos braços do Papa Silvestre II. A sua morte ilustra muito bem as dificuldades que na Europa Medieval se tinha em transmitir notícias para lugares não muito longe... É o seguinte: o imperador iria se casar com uma princesa grega. Ela partiu da Grécia para as núpcias sem saber da tragédia do soberano, apesar do falecimento ter ocorrido há algum tempo. A prometida do rei só soube do acontecido quando chegou à Roma, cidade onde Oto III morreu. - Que coisa horrível!... Como a princesa deve ter ficado triste - comenta Pamela, enquanto Fúbio espanta-se pelo interesse da esposa pela conversa. - Minha jovem senhora - fala o Professor Serapião, apontando para Pamela. - No século X, houve muitos casamentos românticos entre reis e princesas. Nem todos tão infelizes como o do Imperador Oto III com a princesa grega... Vou lhe contar a história de Vladimir I, Grão-Príncipe de Kiev e cognominado de Belo Sol, que foi o fundador da Rússia... Vladimir era pagão como todos os habitantes ao norte do Império Romano do Oriente, que também era conhecido como Império Bizantino... O Império do Oriente, no século X, ainda adotava o Cristianismo sob a autoridade papal. Somente no século seguinte, os bizantinos sairiam do controle de Roma e fundariam a Igreja Cristã Ortodoxa. Mas, nos anos 1000, Basílio II, o imperador romano do Oriente, ainda ajudava a propagar o Cristianismo dentro das orientações do Papa Silvestre II. Pamela fica inquieta à espera do lado romântico prometido pelo professor. - O Imperador Basílio II, a poucos anos do final do primeiro milênio, conseguiu converter Vladimir I ao Cristianismo. Como símbolo da conversão, o soberano bizantino ofereceu a irmã Ana ao príncipe russo. Vladimir ficou tão encantado ao ver a jovem bizantina que abandonou suas 800 concubinas para casar com a princesa, e tornou-se o maior propagador da religião cristã na Rússia. Pamela sorri. O Professor Serapião bebe um pouco de vinho e olha muito sério para todos. - Esta conversa parece ser despropositada para o dia festivo de hoje. Mas não é... Daqui a pouco, começará o terceiro milênio da Era Cristã... Por isso, acho que é oportuno esta discussão de como era a época que marcou o final do primeiro milênio e o início do que agora se finda... Como o nosso planeta se transformou em mil anos! - Principalmente neste século que também termina hoje - esclarece seu Fabrício. - Sim... Sim... O século XX foi de um avanço tecnológico fabuloso... Veja o caso do nosso jovem astronauta Fúbio, que daqui a dois meses viajará para o planeta vermelho... Há menos de 100 anos ninguém acreditava que alguém pudesse voar numa engenhoca a poucos metros da superfície. Sair da Terra numa nave para outro astro não poderia passar pelas cabeças dos nossos ancestrais, mesmo os que não tinham nada de céticos... Isso no século passado... Os habitantes da Terra há mil anos como poderiam imaginar o mundo de hoje?... Não tinham a mínima condição de fazê-lo. - Como será daqui a mil anos, professor?... Como será o ano que marcará o final do terceiro milênio?... Como será o ano 3000? - inquire Fúbio. - O ano 3000 seria fantástico... Muita coisa aconteceria fora da nossa concepção... Neste assunto, passamos a ser iguais aos habitantes do mundo do ano 1000, pois não temos também a mínima condição de saber como será o ano 3000... Infelizmente, porém, creio que a Civilização não vai chegar lá... Os próprios humanos se autodestruirão e não alcançarão o século XXX. - O senhor se refere à guerra nuclear, que exterminará todo tipo de vida na face da Terra? - indaga Florêncio. O Conselheiro Serapião vira-se para o irmão de Fúbio. - O aniquilamento é outro, bem maior do que esta badalada possibilidade de guerra atômica... Os dirigentes das potências temem o conflito de mísseis intercontinentais, porque sabem que será o fim do mundo... Eles têm medo por causa da própria carne... A destruição do mundo que também moram suas esposas, seus filhos, seus parentes e seus amigos...Com o fim da União Soviética, tornou-se ainda mais difícil a possibilidade de uma guerra nuclear... Não acredito em eclosão nuclear apocalíptica... Não, meus amigos... O perigo do aniquilamento da raça humana é outro... No momento, é só uma ameaça e não chega a ser um cataclismo, mas já age sobre nós. Num futuro distante, quando a atual geração e muitas que ainda virão tiverem passado pela Terra, começará a hecatombe irreversível. O mundo não agüentará e sucumbirá. O Professor Serapião pára e olha sério para o grupo, com o objetivo de fazer suspense. Seu Fabrício levanta-se nervoso e grita. - De que se trata, professor?... Que grande malefício é este? - A explosão demográfica, Fabrício... A explosão demográfica. - Lá vem você com conversa fiada... A explosão demográfica é problema para a Ásia. No Brasil, temos espaço... É só dividir a população pelo nosso imenso território - explica seu Fabrício. - É erro a afirmação que o Brasil possui imensas áreas praticamente desabitadas que podem alojar boa parte da superpopulação das grandes cidades... A floresta amazônica ocupa quase a metade do nosso território, Fabrício... Essa enorme superfície ecológica tem que ter população bastante reduzida, caso realmente se queira poupá-la. Não podemos pensar, Fabrício, em povoá-la... temos que esvaziá-la... de gente e não de vegetação. Então, neste raciocínio, a Amazônia está fora dessa imaginária transferência de habitantes das nossas megalópoles... Há outros lugares impraticáveis, pois o Brasil é rico em acidentes geográficos. Não temos o direito de obrigar as pessoas a morar nas montanhas ou em palafitas dentro das lagoas e rios. Ou mesmo perto das margens fluviais e lacustres. Não, Fabrício... O Brasil já está sem área disponível até para suportar a atual população. O professor trinca os dentes e deixa visível a aurificação no incisivo superior. Coça o bigode e retorna ao assunto. - Ainda temos que resguardar espaços para a agricultura e pecuária... Na Ásia, o problema é realmente mais grave, mas isso não pode nos levar a pensar que a superdensidade demográfica brasileira é só nos grandes centros... Há superpopulação no interior, mas achamos que não existe por ser insignificante em relação às das nossas megalópoles... Além do mais, Fabrício, o ser humano precisa de espaços, para se sentir realmente livre. - Mas nos jornais há notícias que a população do Brasil está regredindo... Que não há mais lugar para os alarmistas - reage Fabrício. - Quem diz isso nos jornais? Os cientistas, Fabrício? Fabrício fica calado. O Professor Serapião é que responde à sua própria pergunta. - A população brasileira está crescendo muito, Fabrício. Não se pode ficar iludido com números percentuais... Esses índices podem estar diminuindo, criando a ilusão irreal do que na verdade acontece... Os números absolutos aumentaram de modo assustador... Assim, hoje em dia qualquer índice percentual, mesmo que seja pequeno, já faz com que a população aumente muito mais do que épocas passadas... Discutir sobre o assunto não é ser alarmista... Há muitas provas que a população continua a ser o problema capital do nosso planeta... Por isso, perguntei se eram os cientistas que dizem o contrário nos jornais... Os cientistas, Florêncio, procuram avisar sobre o problema... Mas são notas pequenas, raras e sem destaque nos jornais. - Concordo com o senhor, professor... Mas diminuir o índice percentual é melhor do que os índices maiores de antigamente - esclarece Fúbio. - Lógico que sim... Mas o que os jornais não sabem é que a própria superpopulação é que se encarrega de diminuir o índice percentual de crescimento. Não é nenhum planejamento de governo, órgãos privados ou iniciativa geral da população. Como disse, a superpopulação é que se encarrega de fazer um trágico controle de natalidade. E a natureza, nos casos que mencionei das pessoas ocuparem lugares indevidos. São os acidentes nas cidades e também nos campos, em virtude da gigantesca circulação de pessoas... São os assassinatos em grande número... É a própria superpopulação que se encarrega de abaixar o índice de crescimento. - Os acidentes das máquinas produzidas pelo homem, como, por exemplo o automóvel, matam muito nas cidades superpovoadas - interfere Fúbio. - Exato - responde o professor. Há também o problema surgido no último quartel do século... O problema do vírus da Aids... Esse terrível mal se encarregou de fazer um trágico controle de natalidade, com as pessoas evitando praticar o ato sexual desordenadamente... É o controle mais por medo do que consensual. - Mas eu acho que o mundo vai chegar ao ano 3000... Você se esqueceu que vai morrer muita gente até lá, inclusive de Aids? - interrompe seu Fabrício. -Vai nascer também, Fabrício!... Fiz a projeção com o índice de crescimento vegetativo, que é a diferença da natalidade sobre a mortalidade... O
professor passa a mão na cabeça e olha para Fúbio. - O homem não chegará ao ano 3000, Fúbio. A população da Terra continuará a crescer, porque ninguém quer debater sobre o problema demográfico. É mais fácil chamar os outros de alarmistas, quando não se tem argumentos. O nosso planeta não suportará um número fantástico de habitantes... A casa dos 100 bilhões de habitantes já é mais do que suficiente para gerar o fim da Humanidade. - Nunca teremos 100 bilhões de habitantes - pondera seu Fabrício. - Estamos caminhando rapidamente para esse número - insiste o professor. - Qual é o tempo previsto para a população mundial ser de 100 bilhões? - interroga Florêncio. Seu Serapião retira a calculadora do bolso e faz algumas operações. - Se crescer no mesmo índice de dois por cento, chegaremos a 100 bilhões daqui a 150 anos... Mesmo que esse índice abaixe muito e a população chegue a 50 bilhões já é o final do mundo... É necessário saber que mesmo com um reduzido índice de 0,1 por cento com a população em bilhões já é um grande aumento demográfico. Não se iludam... No universo da percentagem, só tem valor quando os números absolutos também sejam baixos... Acontecerão cataclismos sem similares na história da Humanidade. À medida que a população avoluma-se, a falta de espaço obriga o homem a ocupar locais sujeitos aos fenômenos naturais. As tragédias serão bem maiores do que as do século XX. Morrerão centenas de milhões de pessoas a cada furacão, enchente, nevasca e terremoto... E ninguém poderá ajudar ninguém, pois a Humanidade, por falta de alimentos, estará passando pela maior fome da sua história. Então, o mundo de 100 ou 50 bilhões será aniquilado, com os seres humanos se devorando uns aos outros. - Que coisa horrível!... Que coisa terrível! - interfere Dona Delfina. - Não é possível evitar essa macabro canibalismo? - Calma, Delfina... O meu amigo Serapião está exagerando... Sua profecia não é correta - replica seu Fabrício. - Não sou futurólogo... Nem um genetliólogo... O que falo não é um simples futurível... Estou trabalhando com números... com a ciência exata... A implosão demográfica já está presente na Terra, fazendo o homem destruir a natureza e morrer por habitar lugares impróprios... Só que no momento as mortes por sinistros são bem menores do que serão no futuro. O professor respira bem fundo. - Agora, faço uma pergunta a vocês: não é crime deixar nascer tanta gente, para ocasionar séries intermináveis de tragédias?... Não seria de bom senso controlar a natalidade, para a Humanidade ocupar a Terra dignamente; e as mortes também acontecerem de maneira natural e digna? Ninguém responde. Fúbio levanta-se e vira-se para o pai. - O professor tem razão. A falta de um programa enérgico de controle da natalidade mundial pode proporcionar uma desgraça para a Humanidade. - Então, o mundo está condenado? - murmura Dona Delfina. - Sim... Insisto na afirmação que a explosão demográfica existe e é a maior ameaça que paira sobre a Terra... Uma possível guerra nuclear para ser iniciada precisa que alguém comprima um botão... Mas ninguém vai fazer isso... Entretanto, o botão da expansão populacional já foi apertado há muito tempo. Infelizmente, não existe nenhuma conjuntura de âmbito mundial capaz de chamar atenção para desligá-lo. - Na Europa, há programas de planejamento familiar - interrompe Fúbio. - Por isso, o nível de vida de lá é melhor do que em outros lugares. Até nos Estados Unidos, que é o país mais rico do mundo... A Suécia é um exemplo de como o controle da natalidade torna superior o padrão social da população... Mas a Europa também não sobreviverá, caso o plano de diminuição da população não for de caráter mundial... Como aconteceu no início da Idade Média, ela será invadida por uma massa humana incontrolável vinda da Ásia e da África. Bilhões de pessoas esfomeadas devorando e destruindo tudo pelo seu caminho... Os Estados Unidos e o Canadá também sofrerão invasões da superpopulação da América Latina... Não sobrará ninguém para contar a história. - Professor Serapião! - gesticula Florêncio. - Recentemente, li numa revista que, quando se esgotar as riquezas nos continentes, o homem irá extraí-las do fundo dos oceanos. Algas, musgos e liquens serão usados na alimentação... O mar é muito rico, professor. Existem toneladas de ferro, níquel, cobre o outros metais. - Até isso vai acabar!... É preciso que você conscientize que estamos falando não de décadas, mas sim de séculos e séculos com uma população que nunca existiu na face da Terra... O homem na sua irrefreável expansão demográfica destruirá primeiro a ecologia continental... Depois, o fundo dos oceanos... Quando chegar essa época, sem comida e espaço para viver, o homem retrocederá à condição selvagem... Será o apocalipse da civilização! - Há a hipótese do homem se expandir e habitar outros planetas... Ou construir também cidades-satélites no espaço em torno da Terra - observa Fúbio. - Mesmo que seja possível, o Sistema Solar terá também superpopulação em algum tempo do futuro... Caso isso aconteça, o problema demográfico da Terra será resolvido temporariamente... Os séculos, porém, passarão; e a Terra e todo o Sistema Solar acabarão com o mesmo óbice populacional... No final do século XVIII, a Europa superpovoada assustou ao inglês Thomas Malthus. Ele, nas suas obras literárias, aconselhou à Humanidade a combater a miséria com a limitação dos nascimento... Porém, foi contestado pelos donos da Revolução Industrial, que precisavam do aumento da população para a solução da mão-de-obra necessária para a produção. Ironicamente, Karl Max, o defensor dos operários, também repudiou a Doutrina Malthus, alegando que era uma manobra dos ricos, para não terem que repartir parte dos seus bens com os pobres. O professor aponta o dedo na direção de Fúbio. - Mas não foram os industriais e nem os marxistas os principais responsáveis pela não aceitação dos ensinamentos de Malthus... No século passado, houve grande emigração da Europa para as Américas, que esvaziou o Velho Mundo. Foi isso que derrubou a teoria do inglês. Todavia, a partir do último quartel do século XX a população voltou a assustar, fazendo renascer o malthusianismo... Por isso, não adianta procurar lugar fora do planeta... Sem controle de natalidade, todo o Sistema Solar acabará também apinhado de gente. - Eu estou esperando um bebê - lembra Pamela. - Eu e o Fúbio já decidimos que só teremos esta filha... Queremos dar todo o conforto e carinho à menina que vai nascer... Não acredito na estória de solidão por não ter irmãos... Será muito mais fácil a gente criá-la do que dois, três ou mais filhos. Fúbio sorri. - Já optamos parar neste primeiro, seja menino ou menina... Mas tenho certeza que será um varão - retruca ele. O Professor Serapião também sorri. - É uma pena que poucos pensem iguais a vocês... Os ricos, é claro. Os pobres, na sua maioria, não possuem a mesma cultura e não são orientados pelos que tinham obrigação de guiá-los... Por isso, quase todos desconhecem o problema... Além disso, os anticoncepcionais são caros e só têm acesso a eles pessoas de posses... As mulheres pobres já estão cheias de obstáculos na vida para superar. Não podem pensar em controle de natalidade. Se o dinheiro não dá para os alimentos, como podem cogitar em comprar pílula?... Controle de natalidade e planejamento familiar numa democracia é a mesma coisa... Ninguém vai obrigar por força da lei ao casal ter número determinado de filhos... Controle de natalidade é a sociedade constituída debater o problema... Após isso, se for tratado cientificamente e não por interesses próprios, se chegará a conclusão que a superpopulação existe e ameaça a humanidade... Então, as entidades públicas e privadas explicarão ao povo... A população esclarecida é que vai por expontânea vontade decidir os filhos que terão... Isso é que é controle de natalidade... Tentar debater o problema não é ser alarmista... A própria natureza faz controle de natalidade. Os animais diminuem sua procriação por instinto natural, quando notam que não há condições de terem muitos filhotes. Existem alguns pássaros que põem muitos ovos quanto há fartura de alimentos e poucos ovos no caso contrário. Isso é um instinto da natureza, que o homem por se julgar superior abandonou. - Eu sei uma solução para não abalar o direito do casal ter quantos filhos quiser, ao mesmo tempo que incentiva o controle de natalidade - interfere Fúbio. - Qual é? - inquire seu Serapião. - O Governo poderia premiar casais com somente um filho... Pagaria um salário extra, enquanto eles mantivessem essa condição... Se tivessem outro, a pensão cessaria... Seria um bom investimento para diminuir os problemas relacionados com a superpopulação... e os casais teriam livre arbítrio de aceitar ou não - esclarece Fúbio. - Infelizmente, os nossos políticos não estão interessados no assunto - responde o professor. O conselheiro bate no ombro de seu Fabrício. - Fabrício!... Os governantes do mundo estão covardemente transferindo o problema para um futuro distante, pois, no momento, a crise populacional ainda não chega ao ponto de tragédia total. Eles vivem em palácios ou em luxuosas mansões, com seguranças contra os atuais óbices demográficos... As religiões também são culpadas, pois se prendem a conceitos morais, esquecendo de analisar o fato cientificamente. - O homem habita a Terra há milhares de anos. Por que só agora vem ocorrendo este aumento apavorante da população?... Por que não aconteceu em outros tempos? - indaga Florêncio. - A proporção do crescimento demográfico é determinado pela diferença entre o coeficiente de nascimentos sobre o coeficiente de óbitos. O avanço da Medicina e a falta de guerras em escala mundial diminuiram bastante o índice de mortalidade de pessoas jovens, mesmo nos países do Terceiro Mundo... Nos séculos passados, as doenças epidêmicas e as sucessivas guerras controlavam desintencionalmente a população mundial... Eram mortes horríveis... na juventude... na flor da idade... Uma forma terrível de redução demográfica... O controle de natalidade é diferente: ninguém mata para desinchar de gente o Planeta... Controlar nascimentos não é nenhum crime... Nem um atentado à vida, pois ninguém existe antes de nascer... Crime é deixar desamparado o indivíduo que já nasceu. E isso vem acontecendo em todos os lugares da Terra. - E o aborto, professor? - indaga Dona Delfina. -
Em discussão de controle de natalidade não deve entrar a questão
de aborto...Em controle demográfico não se pode sair por aí
matando gente... Na minha opinião, Dona Delfina, o feto é gente...
Por isso, não quero falar sobre aborto... O assunto é outro, Dona
Delfina. - São apenas alertas ou relatórios aos países filiados. A ONU deveria impor aos governos rigorosa programação de controle de natalidade... Isso é necessário, para evitar a hecatombe do Planeta. O professor aponta para Florêncio. - Concluindo a resposta à sua pergunta, acrescento que, mesmo na época das guerras e epidemias, a população cresceu... Pouco, mas cresceu... Quando Jesus Cristo nasceu, o mundo tinha cerca de 350 milhões de pessoas. Passaram-se muito séculos, até atingir 550 milhões em 1650... Em 1850, a população mundial alcançou um bilhão de habitantes... Vejam só, senhores... O homem demorou milhares de anos, desde sua origem na Terra até o século XIX da Era Cristã, para chegar ao seu primeiro bilhão de habitantes... Depois, em apenas 80 anos, ou seja, em 1930, já somava o segundo bilhão... Após a Segunda Guerra Mundial, a população continuou a crescer, atingindo três bilhões em 1960, trinta anos após os dois bilhões. O quarto bilhão veio mais rápido ainda, em apenas 14 anos: 1974... Em 1987, cinco bilhões de pessoas provocavam problemas em todos os setores da atividade humana... Atualmente, a explosão demográfica persiste avassaladora e descontrola qualquer bem organizado programa social com os seis bilhões de pessoas. O Professor Serapião respira profundamente. - Há necessidade da fiscalização rigorosa da natalidade mundial... Ao menos para que a bruxa não alcance patamares destruidores em poucos anos. O governo da China foi obrigado a fazer severa política de controle, por causa do insuportável índice de crescimento demográfico... Mas encontrou dificuldades em pôr em prática o programa, embora num regime autoritário. As chinesas simplesmente não cooperaram, e o projeto não teve completo êxito... Só arrefeceu um pouco a escalada do crescimento... Se for encarregada pelos governantes do Planeta para controlar os nascimentos, a ONU encontrará obstáculos análogos aos da China... Por isso, o problema é grave, mesmo sob o controle rigoroso das autoridades... Não podiam ter deixado a população mundial alcançar os números atuais. A maior intensidade do espocar dos foguetes, faz Fúbio consultar o relógio. O rapaz levanta-se abruptamente. - Meia-noite! - vibra ele. - Feliz 2001! Todos se abraçam festivamente. Seu Fabrício ergue a taça de champanha. - Salve o século XXI! - grita ele. - Salve o milênio que está entrando... Tomara que as profecias do mestre não sejam verdadeiras! - exclama Dona Delfina. O Professor Serapião dá uma gargalhada. Todos seguem até a grande varanda com visão para a Praia de Copacabana. O espetáculo pirotécnico e a multidão na orla da Avenida Atlântica contagia o grupo, que grita e bebe alegremente. Capítulo 2
Três meses se passam, após o reveillon. O lançamento na plataforma de Cabo Canaveral é um sucesso. A astronave segue rumo a Marte, com a tripulação bastante descontraída. Os instrumentos e o computador central são testados. Os três vestem macacões brancos. Adornando a parte de cima da fatiota de Fúbio, no peito bem junto do coração, há duas bandeirinhas: uma dos Estados Unidos e outra do Brasil. Abaixo dos pavilhões, tauxiada em ouro, a palavra Nasa. Em letras menores, mas também bordada a ouro, o nome: Fúbio Rolando Rangel. Ao seu lado, está o astronauta russo, com a farpela ornada com as bandeiras estadunidense e do seu país. Acima o seu nome: Bóris Katov. O chefe da missão, o coronel norte-americano David Fine, um pouco mais à frente, termina a conversa com os técnicos e cientistas que dirigem o vôo em Cabo Canaveral. Fine, com o macacão enfeitado só com o pendão dos Estados Unidos, mas com a palavra Nasa e seu próprio nome gravados no peito, relaxa-se e vira-se para os companheiros. - Agora, a longa viagem ao planeta vermelho... Um longo tempo distante da Terra... longe das nossas famílias. Fúbio volve-se para ouvir o comandante. Pensa em Pamela e no filho que está para nascer. Aponta para David. - Você tem filhos? - Sim... Um casal... Duas crianças lindas. - Quantos anos? - A menina tem doze... Vai fazer treze este ano... O menino fez dez em janeiro... Nos próximos aniversários deles, não estarei presente na minha casa em Springfield... A minha esposa sempre realiza festinhas para nossos filhos... Eu pedi para ela fazer as reuniões, mesmo com a minha ausência, pois me lembrarei das datas aqui na nave espacial. - Eu não conheço Springfield... É cidade bonita? - pergunta Bóris. - Sim... É onde nasci e criei meus filhos... É cidade pequena... É a capital de Illinois... Bem mais tranqüila do que Chicago, outra cidade do meu Estado, que é uma das maiores da América... E você, Bóris! Nasceu em Moscou? - Não... Eu também sou de cidadezinha... Vivo com a minha família em Voronej, localidade industrial na confluência do Rio Voronej com o Don... É região aprazível... Tenho três filhos... Todos meninos, com oito, sete e cinco anos. David olha para Fúbio, que está com a cabeça baixa. - E você, Fúbio... Tem filhos? - Minha esposa está grávida... O bebê vai nascer no final do ano. Estarei bem longe e não acompanharei os primeiros meses do meu filho... Por isso, estou pensativo... Embora esteja ouvindo vocês, minha mente parece que ficou no Rio de Janeiro. - Você tem razão de estar apoquentado, Fúbio... Eu tive a felicidade de assistir ao nascimento dos meus filhos e adorava as peraltices que faziam - conta Bóris. - Eu também - concorda David. - Por isso, mal iniciamos a nossa viagem, já estou pensando no retorno ao Rio de Janeiro. - Eu não conheço o Rio... Dizem que é cidade encantadora, cercada por belíssimas paisagens naturais - gesticula David. - É realmente bela... As autoridades, porém, tem que tomar providências, pois a irascibilidade urbana aumenta assustadoramente a cada ano... Temo muito pelo futuro do meu filho, porque, quando chegar à adolescência, a violência estará a níveis insuportáveis. - O mundo está tornando-se iracundo, Fúbio... O Rio de Janeiro, como todas as grandes cidades, o problema é mais grave, por causa da superpopulação... Nas pequenas cidades, não chega ser tão alarmante. Em Springfield, por exemplo, a violência é bem menor do que Chicago ou Nova York. Fúbio mexe ligeiramente a cabeça em sinal de aprovação. - E os Governos não fazem nada para atenuar esse estado de coisas - completa David. - E há ainda aquelas pessoas que pensam ser altruístas, mas na realidade ajudam a recrudescer a violência - intervém Fúbio. - Um bom exemplo é a declaração de um advogado, conhecido por suas idéias contra a pena de morte. Depois de explicar alguns casos de pessoas inócuas condenadas por engano da Justiça, ele asseverou que era preferível deixar de punir mil assassinos para salvar a vida de um possível inocente... Acho esta afirmação absurda, pois esses mil criminosos, após cumprirem alguns anos na cadeia, voltarão às ruas e cometerão outros homicídios... O erro judiciário não pode de maneira nenhuma servir de pretexto para a impunidade. - Concordo com você, Fúbio - diz David. - Infelizmente, para se combater o mal com eficácia muitos inocentes morrem. O agravamento atual da violência é exatamente por que as autoridades não querem ser enérgicas, para não fazer vítimas inocentes em suas ações... Mas, assim, fazem crescer muito mais o número dessas vítimas nas mãos dos criminosos... É uma ingrata ilusão... Imagine se na Segunda Guerra Mundial o pensamento fosse o mesmo, e os Aliados evitassem combater os nazistas, a fim de poupar vidas inocentes... Hitler dominaria o mundo, e o número de mortes teria sido bem maior do que as que houve. - Morreram 55 milhões por causa da Segunda Guerra Mundial - lembra Bóris. - Se Hitler vencesse a guerra, teria matado o dobro em campos de concentrações... Por isso, muitos inocentes pagam com a vida, para que o futuro da Civilização seja melhor... As religiões interpretam de várias formas o fato de Jesus Cristo morrer na cruz para salvar o mundo. Na minha opinião, acho que Ele quis transmitir aos homens que para triunfar sobre o mal é inevitável a perda de vidas inocentes, como a Dele - conclui o Coronel David Fine. - Eu sou ateu, mas respeito Jesus Cristo - declara Bóris. - Suponho que as religiões estão afastando-se dos seus fundamentos e entrando na área política. - Também acho - afirma David. - Os sacerdotes se divorciam do seu estado clerical ao defender partido político. Fúbio toca a mão no ombro do comandante. - Coronel... Às vezes nos meus devaneios vejo na imensidão sideral um planeta desabitado com climatização idêntica à Terra... Sei que é minha fantasia... Mas como seria bom se existisse mesmo... Se pudesse levar minha família e amigos... Não me olhem assim... Não estou maluco... Apenas, especulando igual a uma criança. As conversas entre eles prosseguem nos dias, semanas e meses seguintes. Também jogam xadrez. Bóris Katov domina muito bem as teorias das aberturas. Fúbio é exímio condutor dos finais de partida. David Fine gosta de sacrificar peças, mas nem sempre consegue o sucesso esperado. O melhor jogador é Katov, que poucas vezes perde para os companheiros. Descontraídos, jogando, conversando ou trabalhando; quase não notam a velocidade do tempo. Os meses passam. A nave já está bem próxima do Planeta Marte. O comandante Fine, após comunicação diária com a base na Terra, aproxima-se sorridente. - Acabei de falar com a Nasa... Tenho notícias também do Rio de Janeiro! - Para mim? - brada Fúbio. - Sim. - Da minha esposa?... Nasceu a criança? - Sim, Fúbio... Não fique nervoso, pois tudo foi bem... É menino... Saudável, robusto e bonito. - Menino!... Que maravilha!... Então, o nome é Aquiles. - Sim... É Aquiles... Você é papai, Fúbio... Meus parabéns. Fine e Bóris aproximam-se e o abraçam efusivamente. O comandante dá outras notícias. - Os engenheiros da Nasa passaram muitas tarefas para nós, pois dentro de três dias estaremos em Marte... Já podemos ver o planeta lá longe. Notem o seu brilho... Que colosso! A nave desloca-se fantasticamente pelo espaço sideral. À medida que se avizinha do planeta vermelho, os olhos deles tornam-se reluzentes por causa do espetáculo deslumbrante. Os satélites Deimos e Fobos estão bem próximos. Ao fundo, Marte. Sua cintilação no éter ao mesmo tempo assusta e entusiasma. No dia seguinte, estão quase junto do menor e mais externo dos satélites do planeta. Distantes vinte mil quilômetros de diâmetro, o fascinante Deimos. - Deimos e Fobos eram seres mitológicos, filhos do deus Marte - explica David. - Homero narra no poema Ilíada que Deimos e Fobos conduziam o pai Marte para as guerras numa carruagem de quatro cavalos. Fobos significa terror; Deimos, fuga. - A nossa Lua é mais redonda e mais bonita - replica Fúbio. A nave continua sua suave navegação. Pouco depois, surge o satélite Fobos, maior que Deimos, com 16 quilômetros de diâmetro. - Fobos parece uma batata! - exclama Bóris. Fúbio acha graça da afirmação do companheiro, já que Fobos realmente tem aparência de uma batata. Balança a cabeça e sorri. O Coronel David Fine chama a atenção dos dois, apontando para outra direção. Eles viram-se. Ficam estupefatos ao ver a superfície marciana. Tão próxima que podem observar os acidentes físicos do planeta. Logo depois, David os orienta nos trabalhos para fazer a nave entrar em órbita. Fúbio fala com a base na Terra, enquanto Bóris verifica os instrumentos e computadores. O comandante David controla a nave, que, em poucos minutos, começa a circular em volta do planeta. Sem deixar os olhos desviarem do solo de Marte, David avisa seus companheiros. - Agora, vamos dar algumas voltas em torno do nosso objetivo. Em pouco tempo, estaremos na parte escura de Marte. Até o momento, só o vimos iluminado pela luz solar, pois, durante a nossa viagem, o Sol sempre esteve atrás de nós. Agora, finalmente, veremos a noite marciana. A nave começa o vôo orbital. Ao pôr-do-sol marciano, Bóris aponta para outro espetáculo deslumbrante. Fúbio e David giram a cabeça para o lugar indicado. - Que maravilha! - clama David. - É a Terra vista após o poente de Marte... Parece que estamos vendo Vênus lá da Terra ao cair da tarde. - Só que este espetáculo de ver a Terra daqui é muito mais belo do que a visão da Estrela Dalva lá do nosso planeta - brada Fúbio. A nave prossegue em seu vôo orbital e penetra na noite marciana. Ao chegar o nascente, os astronautas voltam a avistar a luz refletida pelo seu planeta de origem. Depois, iniciam o trabalho de pesquisa da atmosfera marciana, enviando centenas de fotografias para a Nasa. Outra câmera transmite imagens de vídeo. - Não há formação de tempestade de poeira na superfície - comenta o Coronel David. - Portanto, poderemos pousar no solo com segurança... Vamos dar mais algumas voltas orbitais, antes do início do plano de amartissagem na planície Chryse. Os astronautas alternam os dias com as noites marcianas, enquanto a nave orbita o planeta vermelho. Chega o momento da missão atingir o clímax: pousar na superfície marciana. David e Fúbio colocam seus escafandros. Bóris examina se está tudo hermeticamente fechado. O russo também examina o aparelho de controle de temperatura, o eliminador de gás carbônico e o reservatório de oxigênio dos companheiros. Observa se as válvulas estão funcionando. Depois, faz sinal com o polegar levantado. David e Fúbio sorriem e se dirigem para o módulo de excursão. Bóris permanece impassível no módulo de comando. Em poucos minutos, dá-se a separação das duas unidades da nave. Bóris Katov, em vôo orbital, controla os computadores e informa a operação de amartissagem aos engenheiros da Nasa. David e Fúbio, ao aproximar-se lentamente do solo de Marte, ficam maravilhados com as coisas que vêem: gigantescas montanhas vulcânicas, sistemas de desfiladeiros, enormes fossas e imensas planícies. - Coronel David... Estou emocionado... Tudo aqui é grande demais... Bem maior do que os acidentes geográficos da Terra... Como é possível, se o nosso planeta tem muito mais volume do que Marte. - A Terra tem o dobro do volume de Marte - informa David. - É impressionante como este planeta tão pequeno tenha superfície tão colossal como esta que vemos. Enquanto o módulo de excursão avizinha-se cada vez mais do solo, David aponta para o horizonte marciano. - Aquele lá longe é o famoso Monte Olympus. - Formidável... O nosso Himalaia perto do Olympus pode ser considerado uma colina...É uma coisa portentosa... Nunca vista... É muita emoção. Estou feliz por ver tudo isto com os meus próprios olhos. David Fine consente com a cabeça, enquanto examina as pranchas do Planeta Marte. - Diz aqui que o Monte Olympus é um dos maiores vulcões do Sistema solar, com 600 quilômetros de largura e a extraordinária altitude de 25 mil metros... O nosso Pico do Everest tem 8.848 metros de altitude. O módulo prossegue sua exploração, transmitindo para Terra imagens dos acidentes físicos. O veículo, voando bem junto do solo, entra na zona das gigantescas crateras. David as identifica, através das pranchas. Uma a uma, elas passam pelos olhos dos astronautas: Conches, Mega, Cartago, Huancayo, Dingo e Rana. O módulo toma direção da planície de Chryse. Fúbio examina os grandes desfiladeiros e os canais nas extremidades. - Estes canais são fabulosos... Parecem que foram cavados por enorme volume de água. - É difícil, Fúbio... É difícil saber as origens deles e também destes desfiladeiros... Eu igualmente sinto a impressão que foram arquitetados por muita água... Mas, agora, temos uma visão triste de Marte...É um planeta moribundo. - Mas, se houve água, talvez tivesse havido vida. - Talvez, Fúbio. O
módulo afinal atinge a planície de Chryse, com 840 quilômetros
de diâmetro, onde a sonda espacial Viking pousou em 1976. Suavemente eles
descem na superfície. Suas imagens são acompanhadas por Bóris
Katov no módulo de comando e a milhares de quilômetros pelos técnicos
e engenheiros da Nasa e a população da Terra. O comandante David
é o primeiro a sair e pisa com emoção o solo do planeta vermelho.
Depois, Fúbio também caminha pela superfície marciana e ajuda
o companheiro a colher amostras. Ao mesmo tempo, enviam para a Terra, por intermédio
de instrumentos, dados científicos sobre o planeta. Após o trabalho,
eles começam a operação de retorno. Com muita perícia,
fazem o módulo de excursão acoplar no módulo de comando.
Depois, os três astronautas festejam o sucesso da missão e recebem
elogios do pessoal técnico, que controla o vôo do Centro Espacial,
em Cabo Canaveral. A volta à Terra, então, é iniciada. Passam-se
meses. A nave desliza pelo cosmo até chegar nas proximidades da Terra.
David, muito contente, conversa com os companheiros. - Eu também - diz Bóris. Fúbio sorri para os amigos. - Meu filho já está crescido... Já deve até andar... Estou contando nos dedos as horas que faltam para vê-lo e abraçá-lo... Minha ansiedade é tanta que nem tenho conseguido dormir direito. - Nota-se pela sua cara que você está insone... Vou lhe dar um sonífero... Você precisa descansar bastante, para chegar à Terra com a fisionomia de um conquistador espacial. O comandante abre um compartimento, apanha pequena drágea e a entrega a Fúbio. O astronauta brasileiro engole o comprimido e, em poucos minutos, dorme profundamente. Os outros também deitam-se e pegam no sono, enquanto a nave se dirige para a Terra. Pouco depois, um sinal constante no computador central acorda o Coronel David Fine. O comandante examina rapidamente as informações computadorizadas. Leva um susto, mas procura ficar calmo. Retorna ao local onde os companheiros repousam. - Acordem... Acordem... Preciso da ajuda de vocês... O computador identificou um objeto que se aproxima da nossa nave. Fúbio e Bóris levantam-se assustados e acompanham David à cabine da comando. - Que será? - interroga Fúbio, com voz sonolenta por causa do sonífero. - Vamos operar o sensor de foco do telescópio e esperar o objeto aparecer na tela do computador. Os três digitam o aparelho e, logo, uma imagem surge diante deles. O Coronel David grita apavorado. - É um meteoróide que vem em nossa direção numa velocidade espantosa. Temos que alterar nosso rumo... O tempo é curto... Precisamos trabalhar o mais rápido possível... O choque será nosso fim. Bastante perplexos com a situação de perigo, eles apertam os diversos botões dos dispositivos eletrônicos, a fim de mudar a direção da nave. Na telinha, continua a visão sinistra do meteoróide cada vez mais próximo. - Isto é igual ao jogo de xadrez. Temos que fazer somente os lances certos - alerta Bóris. A manobra sai perfeita. O comandante David, após a operação dos companheiros, faz a nave deslocar-se bruscamente no espaço. Segundos depois, o meteoróide passa exatamente no local que ela deveria estar, caso não houvesse sido desviada por seus tripulantes. - Por um triz! - exclama David. - Vamos fazer a nave retornar ao caminho da Terra... Bóris, corrige a direção, com ajuda dos computadores. O comandante aponta para o astronauta brasileiro. - Estabeleça o contato com a Nasa, Fúbio... Não sei a razão do pessoal do Centro Espacial não ter tomado conhecimento do nosso problema... Faça um relato bem sucinto sobre o ocorrido. Os astronautas trabalham com alegria, após o susto da possível colisão com o meteoróide. Mas logo tornam-se novamente apreensivos. - Não consigo fazer a nave retornar ao rumo da Terra - grita Bóris. O Coronel aproxima-se. Mas vira-se ao ouvir a voz suplicante e abafada de Fúbio. - Está difícil falar com a Terra... A nossa antena está perfeita... Os painéis solares também... Mas o sinal com a Nasa está interrompido... Não sei o porquê desta pane toda... O computador não informa a causa do defeito. David Fine fica nervoso, porém, procura dominar-se, para não deixar a tripulação apavorada. - Não se preocupem... Os engenheiros da Nasa devem estar testando o sistema de comunicação... Nós três trabalharemos em conjunto, a fim de fazer a nave retomar o rumo da Terra. - A nossa velocidade está aumentando - fala Bóris. O Coronel David Fine verifica alguns instrumentos e digita rapidamente o computador central. - Estamos nos afastando da Terra em direção aos confins do Sistema Solar... Precisamos urgentemente mudar o rumo da nave - conclui Bóris. - O sistema elétrico está perfeito? Pergunta o comandante. - Sim... Os painéis solares também continuam bem... Parece ser o único sistema que está sob nosso controle - responde Fúbio. - E a nossa velocidade? - vira-se para Bóris. - Aumentando... Aumentando sempre... Estamos com uma velocidade jamais atingida pelo homem. David fita o astronauta europeu. - Qual é a velocidade? - inquire ele. - Quinhentos mil quilômetros por hora! - exclama Bóris. O Coronel sai da frente dos instrumentos e achega-se a Bóris. Olha para Fúbio e o chama. - Vamos largar a operação de correção de rumo... Precisamos o mais rápido possível baixar esta incrível velocidade. - Está acelerando a cada segundo que passa, comandante... Já ultrapassamos a cada de um milhão de quilômetros por hora! - Nossa!... Alguma coisa terrível está acontecendo com os controles da nave - observa Fúbio apavorado. - Estamos perdidos - retruca Bóris. - Precisamos fazê-la regredir - gesticula nervosamente David. - Estamos cada vez mais se afastando da Terra. Se continuarmos com esta velocidade, em poucos dias estaremos próximos aos planetas Júpiter e Saturno - esclarece Fúbio, também muito tenso. - Ou até fora do Sistema Solar, pois a velocidade continua aumentando assustadoramente - brada Bóris, igualmente excitado. Eles continuam a trabalhar sob forte tensão. O medo toma conta da tripulação. A velocidade em aceleração contínua. Não é contada mais por hora e sim por segundos. O Coronel David, muito agitado, bate diversas vezes na própria cabeça. Bóris controla-se, para não ter uma crise de nervos. Fúbio sente-se sonolento e com os movimentos lentos, em virtude do sonífero que tomou. Todos estão próximos de um colapso emocional. O Coronel David, com a pouca fibra que lhe resta, tenta manter as esperanças dos companheiros. - A velocidade está a 40 mil quilômetros por segundo... É incrível, mas vamos encontrar uma solução. - Ela é maior a cada segundo - interrompe Bóris. - Estamos nos aproximando da velocidade da luz. - A velocidade da luz é o limite para a nave... Ninguém pode suportar a 300.000 quilômetros por segundo... Vamos virar energia... A matéria não pode atingir ou transpor a velocidade da luz - explica David. - Mas a nossa nave está bem perto da velocidade da luz, comandante... Já estamos a mais de 100 mil quilômetros por segundo - interfere Bóris, bastante pálido. - Todos nós seremos transformados em energia - declara Fúbio. O Coronel David Fine olha para os dois. - Talvez sim... Mas não podemos ficar descontrolados... Enquanto estivermos vivos, temos que agir. O comandante examina os instrumentos e a tela do computador. O telescópio de bordo capta uma luminosidade que chama sua atenção. - Parece um cometa - anuncia David. - Vou pedir informações ao computador central. Ele digita rápido o computador, e logo vem a resposta. - É o cometa periódico Kopff... Ele está se dirigindo para a Terra... Acho que nossa única salvação é abandonar a nave, e tentar pousar no núcleo de Kopff. - É uma loucura, comandante! - clama Fúbio. - Ao redor do núcleo sólido dos cometas, há área imensa de gases e poeira, além das camadas de gelo seco... É uma loucura comandante... Se sairmos da nave, morreremos. - Mas se ficarmos, também... Temos que tentar... Eu acredito na nossa salvação por este método... Vamos sair nas cápsulas espaciais individuais. Não podemos ir no módulo de excursão; pois nesta velocidade, é impossível a operação de desacoplamento... Não devemos continuar aqui dentro... Estamos próximos da desintegração. - A velocidade já alcançou 250 mil quilômetros por segundo - informa Bóris. O Coronel David alonga os olhos até Fúbio. - Vamos todos ser transformados em energia, Fúbio... Temos que sair cada um em uma cápsula espacial. O cometa Kopff está indo em direção à Terra. Vamos atingir o seu núcleo... Depois, tentaremos sinalizar para o nosso planeta. Eles têm nave de reserva para nos socorrer. A Nasa só precisa saber onde estamos. - Como será a nossa sobrevivência no núcleo do Kopff? - indaga Fúbio, com a voz lenta por causa da sonolência. - Procuraremos viver com o oxigênio fabricado nas cápsulas e com os suprimentos que temos. As cápsulas têm sistema de microondas. Assim, continuaremos conversando, embora isolados... Se for necessário, usaremos instrumentos para congelar nossos corpos... Ficaremos em estado de animação suspensa; e nossas células não apodrecerão, nem envelhecerão... Permaneceremos assim até chegar o socorro da Terra. Aí, seremos descongelados e prontos para viver. - Temos que agir rápido, comandante - suplica Bóris. - A nave está cada vez mais perto da velocidade da luz. Eles preparam as cápsulas espaciais individuais. Antes de entrarem, David e Bóris ajudam Fúbio a subir na sua cápsula. O sonífero faz enorme efeito no astronauta brasileiro, que está com os movimentos bastante lentos e os membros quase paralisados. Com todos dentro das cápsulas, o comandante transmite a ordem final aos companheiros. - É agora... Quando eu avisar, apertem o botão para as cápsulas serem ejetadas para o espaço. No início, teremos a mesma velocidade atual. Mas, aos poucos, elas irão diminuindo até praticamente parar. Quando isso acontecer, poderemos manobrá-las para chegar ao cometa Kopff... Atenção, vou contar até três... Um, dois, três e já... As cápsulas de David e Bóris saltam para o espaço sideral. Fúbio, pelo efeito do remédio, não consegue mover o braço até o botão de ejeção. A voz do comandante David é ouvida pelo astronauta brasileiro. - Vamos, Fúbio... Acione o botão... O que houve? Fúbio responde, quase sem voz, que está com o corpo dormente. Não ouve mais o Coronel David Fine. A nave vai ganhando mais velocidade. Ele, preso na cápsula, sente a cabeça rodar. Uma pressão inebriante. Um terror se apodera dos seus pensamentos, e perde totalmente os sentidos. Ao abrir os olhos, é possuído por sensação que longo tempo se passou, enquanto esteve desacordado. Percebe também que a aceleração fantástica acabou. A nave parece estar parada no espaço. Ele procura articular os braços e as pernas. Fica aliviado, porque os movimentos retornaram ao normal. Levanta a cabeça até o visor mais próximo e treme de susto. Seus olhos verificam que a cápsula não está mais dentro da nave. Ela flutua livre na imensidão do espaço sideral. Procura girar a cabeça. Não vê a nave-mãe por perto e nem as cápsulas dos companheiros. A solidão e o medo tomam conta da sua mente. Experimenta outro desmaio, mas esforça-se para se manter consciente. A cápsula continua vagando pelo éter e muda lentamente de posição. Fúbio volta a olhar pelo visor. Sofre outro abalo ao avistar um estranho veículo espacial. O objeto misterioso se aproxima e pára a pouca distância da sua cápsula. Ao contemplar aquela cena espectral, um calafrio percorre todo o corpo de Fúbio. A grandiosidade e formas aerodinâmicas da espaçonave o impressionam. "Não é uma nave do meu mundo - pensa. - Sua natureza é inconcebível para a minha mente. São seres extraterrestres que estão ali dentro. E já me localizaram. Não posso imaginar como são e o que farão comigo". Seus pensamentos são interrompidos ao perceber que alguma coisa se mexe na lateral do veículo fora do comum. Com os olhos esbugalhados, vê enorme braço mecânico sair da nave extraterrestre. Acompanha apavorado os movimentos do engenho robótico. O estranho objeto avizinha-se e agarra sua cápsula. Fúbio estremece ao sentir a colisão e seu aprisionamento. Impassível e temeroso, assiste o braço cibernético carregá-lo em direção à fantástica nave. De repente, o objeto pára, mas não solta a cápsula. A astronave desconhecida está bem próxima. Na pequena distância, Fúbio pode observar melhor o enigmático veículo sideral. Com aquelas colossais concepções, não tem dúvida que os ocupantes da nave são seres bastante avançados em relação à inteligência terrestre. Novo
tremor sacode o rapaz. Na abertura da espaçonave, bem junto da base do
braço mecânico, aparece algo se deslocando para fora. Aos poucos,
percebe sua semelhança com uma pessoa humana, embora envolta numa incrível
vestimenta espacial. Há pernas, braços e cabeça exatamente
iguais ao corpo humano. E ainda um cordão umbilical preso à nave,
parecido com os usados por astronautas da Terra nas incursões fora da nave.
"É um extraterrestre que está vindo na minha direção.
Ou será outra engrenagem cibernética que os alienígenas siderais
estão mandando ao meu encontro - pensa ele". O ente cósmico
chega bem junto da cápsula e balança minúscula peça
que tem na mão. Deve ser um detetor. Ele está estudando a minha
cápsula - pensa Fúbio". A cabeça do extraterrestre aparece
no visor. Fúbio prende a respiração. Dois olhos idênticos
aos seus brilham em sua direção e, depois, reviram examinando todo
o interior da cápsula. Fúbio continua imóvel em estado fóbico.
Acalma-se um pouco ao ver o extraterrestre se afastar. Toma coragem, levanta a
cabeça e vê o inimigo entrar na astronave. - De onde você vem? O corpo de Fúbio estremece. Ele sofre grande impacto ao ouvir o extraterrestre falar português. O astronauta brasileiro não consegue pronunciar nenhuma palavra. O estranho guarda a arma e avizinha-se ainda mais de Fúbio, sem tirar os olhos das bandeiras. - Por que você está com a bandeira do Brasil no peito? A emoção é demais para Fúbio. Sua cabeça rodopia, fica tonto e as pernas trêmulas. O ser espacial pressente que ele está passando mal. Corre em sua direção, o apara e o faz sentar. Fúbio recupera-se rapidamente e fita o desconhecido com perplexidade. - O que faz com a bandeira do Brasil?... Você me entende? Fúbio continua calado e pasmado. O extraterrestre passa a mão na cabeça e tenta se comunicar por mímica. Aponta diversas vezes para a bandeirinha e gesticula com os braços. "Ele pensa que não entendo o que fala. Não sabe que posso me comunicar com ele por palavras. Preciso dizer alguma coisa, mas não tenho coragem". O suor escorre pelas faces. Aos poucos, vai perdendo o medo pelo estranho. Afinal, decide responder. - Estou com a bandeira do Brasil, porque sou brasileiro. O alienígena recua e encosta-se na parede do compartimento. Fúbio nota que ele também se abala ao ouvir sua voz e tomar conhecimento que falam o mesmo idioma. Eles ficam imóveis e olhando-se mutuamente. - Não é possível! - diz o estranho, quebrando o silêncio. - Eu também sou brasileiro!... Eu nasci no Brasil... Não entendo o que está acontecendo. Fúbio lembra-se da grandiosidade da nave vista do espaço e das concepções de tudo ali dentro. "Não é possível que ele seja da Terra... Do Brasil... Tudo aqui está muito além da inteligência humana, inclusive a roupa dele". Fúbio cria forças dentro de si, principalmente por não considerar mais aquele ser um inimigo. Resolve partir para a investigação, a fim de saber a verdade. - Mas... esta nave... É da Terra? - Sim... Pertence ao Brasil. Fúbio sente um arrepio. "Será que estamos em outra dimensão". Continua sua indagação. - Mas que Brasil você é?... Que cidade nasceu? - Rio de Janeiro. A resposta surpreendente nada esclarece. Fúbio está cada vez mais confuso. Levanta-se, mas torna a sentar ao notar que o estranho fica intranqüilo com seu movimento. Procura criar ambiente amável. - Nós falamos a mesma língua, nascemos na mesma cidade e no mesmo país... Mas não consigo entender o principal... É terrível... Não posso conceber a Terra com uma nave tão evoluída... Também não compreendo o Brasil com capacidade de possuir qualquer tipo de nave espacial... Há algum fato irreal entre nós, que não sei se existe explicação... Vou acabar ficando maluco. - Eu igualmente estou desorientado pelo que está ocorrendo conosco. - Estamos com problema recíproco e crucial. A primeira decisão nossa é sermos amigos... Ninguém com medo do outro... Concorda? - Concordo - responde o estranho sorrindo. - Eu me chamo Fúbio Rolando Rangel... E você? - O meu nome é Porfírio Zara Abreu Coutinho Veiga. Os dois apertam as mãos. - Já tinha lido seu nome no macacão - Diz Porfírio. Você possui apenas dois sobrenomes? - Sim - responde Fúbio, sem entender a pergunta. Porfírio persiste a olhar para a parte bordada do macacão de Fúbio. - Nasa!... O que é Nasa? - Interroga ele. - É a Agência Espacial dos Estados Unidos... A responsável pelo vôo que estava fazendo ao planeta Marte. - Não estou compreendendo... Você estava perdido no espaço...Você foi lançado da Terra? - Sim... do Cabo Canaveral, na Flórida. - Hã!... Hã!... Hã!... Agora, sei o que significa o nome Nasa... Mas é inacreditável o que estou pensando. - Inacreditável o quê? Porfírio mostra na cara todo o seu espanto. Trinca os dentes nos lábios e aponta para a cápsula. - Com esta cápsula!?... Com esta cápsula que você foi à Marte? - Não... Eu estava em uma nave com mais dois tripulantes... Uma nave grande, mas não tão colossal como a sua... Nós nos perdemos no espaço. - É inadmissível o que estou pensando!... Qual foi o ano que vocês foram lançados da Terra? - Em 2001... No início do ano 2001. Porfírio leva a mão à cabeça e cambaleia. - O que houve com você? Porfírio levanta-se, segura o corpo de Fúbio e o apalpa, como se quisesse certificar se ele é real. - É fascinante, Fúbio... Você veio do passado... Um passado bem longe... Nós estamos no ano 3000. Fúbio estremece com a afirmação de Porfírio. - Você viajou pelo tempo... Você está afastado mil anos da sua época. - Não posso acreditar que seja verdade... Um viajante temporal bem diante de mim. Fúbio fica com o corpo frio com a revelação. Os dois sentam-se nas banquetas e ficam cabisbaixos. Entreolham-se demoradamente. Recuperam-se em parte, e Fúbio conta todo o drama na nave espacial junto com David e Bóris. Porfírio ouve tudo com atenção sem interrompê-lo. No fim da narrativa, bastante estupefato, Porfírio vira-se para Fúbio. - Você foi vítima da velocidade da luz... Do conceito de Lorentz. - As transformações de Lorentz, que Eistein estudou na Teoria da Relatividade? - Exatamente, Fúbio. - Os cálculos de Eistein teorizam que a tripulação de uma nave, que chegasse próxima da velocidade da luz, gastaria tempo bem menor do que o tempo ocorrido na Terra!! - Sim... A Constante de Lorentz diz que a relação do tempo da nave com o tempo da Terra é igual à raiz quadrada de um menos a relação entre a velocidade da astronave e a velocidade da luz elevada ao quadrado. - Não pode ser!... Se passaram mil anos!!!... Não posso acreditar! - Eu também estou perturbado com o fato, Fúbio. - Você que vive numa época tão distante da minha, deve saber muito mais coisas do que eu... Diga-me, se a ciência já conseguiu provar que a Teoria de Eistein tem veracidade... Se é possível mesmo viajar para o futuro na velocidade da luz. - Continua sendo apenas uma teoria, Fúbio... A humanidade avançou bastante no campo cibernético nos últimos mil anos... As velocidades atingiram parâmetros feéricos em relação à sua época...Porém, ainda consideramos utopia a pretensão do homem de chegar próximo à velocidade da luz... Por isso, os cálculos de Eistein sobre as viagens pelo tempo continuam sendo apenas fantasia... Não temos ainda condições de atingir essa fantástica velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo. Fúbio persiste atônito por tudo o que lhe acontece. Porfírio está mais descontraído, talvez por se encontrar em sua era. - Vamos à cabine-piloto... Lá, faremos os cálculos sobre a Constante de Lorentz. - Existem outros tripulantes? - Não, Fúbio... Estou sozinho... A nave é controlada por computadores... Venho da base na Lua... Regresso ao meu lar na Terra. Eles
sobem até o compartimento de comando. Fúbio continua admirado com
as forma e estrutura da gigantesca nave. Ao chegar à cabine, Porfírio
manipula o computador. Após a operação, balança a
cabeça. Porfírio apanha um pequeno espelho numa gaveta e o entrega a Fúbio. - Veja você mesmo a própria cara. Fúbio segura firme o espelho. Sua imagem é refletida. Ele sente intenso alívio ao ver o rosto. - Estou exatamente como era, quando aconteceu a tragédia da nave... Não envelheci nem um dia. - Era o que eu imaginava... Pela sua narrativa, concluí que não deve ter passado muito tempo, desde que você desmaiou na cápsula até aparecer ao lado da minha nave. - Então, não foi a Teoria da Relatividade... Não foi por causa da velocidade da luz que avancei mil anos. - Não creio... A teoria de Eistein, caso seja real, pode levar um homem a um futuro no máximo de um século... Jamais, mil anos. - E se a minha nave ultrapassou a barreira da luz? - Isso é impossível... Só energia pode viajar com igual aceleração da luz... Uma velocidade maior não deve existir. - Eu sei... Mas, se existisse e a minha cápsula continuasse matéria. Em assunto de espaço sideral, devemos acreditar em tudo... Talvez tenha sido isso que me trouxe mil anos após minha época. Uma velocidade bem maior do que a da luz. - Mesmo assim não está enquadrada na Teoria da Relatividade... Segundo a Constante de Lorentz, os tripulantes de uma nave retornam ao passado da Terra ao transpor a velocidade da luz... Não vão ao futuro. - Sim... Sim... Realmente, Porfírio... Estou tão confuso que até me esqueci deste detalhe da teoria. - Não deve ter sido por efeito da teoria de Einstein... É possível que tenha acontecido outra coisa... Pode ser que a imensa velocidade que atingiu a nave fez com que você entrasse em alguma anomalia cósmica... E, em conseqüência dessa anomalia, você viajou pelo tempo... Transpondo a barreira de mil anos em milésimos de segundos... Isto, porém, é pura especulação... O seu caso está além da mente humana... Um enigma. Fúbio medita ao olhar para todos os objetos que se encontram ao seu redor. Não há dúvida que está num futuro bem longe da sua era. Porfírio segura seu braço e o aperta com força. - Você é do passado, mas tem vida real... Respira... É de carne e osso... Não podemos ficar imaginando como veio parar no século XXX... Você está aqui no meu tempo... É uma realidade, apesar de ser uma pessoa do século XXI. - Eu sou do século XX... Saí da Terra no limiar do século XXI... Não posso me considerar do século XXI, pois o primeiro ano desse século passei no espaço sideral. Porfírio abraça Fúbio. - Gostei de você e aceito seu pedido para sermos amigos... Vou ajudá-lo a se aclimatar no meu mundo... Mas precisamos manter segredo sobre a sua identidade... Você se tornaria prisioneiro da ciência... Uma espécie de cobaia da história do século XX... Você terá que se portar como se fosse realmente pessoa do meu tempo... Mas será muito difícil você esconder sua identidade... O século XXX é muito bem organizado... Não é como na sua época... Você fatalmente será descoberto. Mas ninguém na Terra poderá saber da verdade de imediato... Vou procurar um meio de torná-lo uma pessoa normal da minha época. Fúbio fica calado. A iminência de retornar à Terra em pleno século XXX o assusta. Como encontrará o Planeta. Pensa no Professor Serapião. Apavora-se com a idéia de superpopulação. Observa Porfírio, que ajusta os instrumentos fantásticos da cabine de comando. Apesar de nervoso, sente segurança perto do rapaz do ano 3000. Porfírio o desperta de seus pensamentos. - Você precisa retirar estas vestes do século XX... Aqui na nave tem roupas... Vou apanhar uma para você... É bom chegar à Terra como verdadeiro cidadão do século XXX. Eles entram em outro compartimento. Fúbio experimenta diversas roupas até achar a que lhe ajusta no corpo. - Parece que foi feita para você, Fúbio. - Esta vestimenta do ano 3000 é muito confortável... Eu nem sinto ela no corpo. Porfírio recolhe as roupas antigas de Fúbio. - Vamos descer até o local onde está sua cápsula espacial... Vamos jogá-la fora junto com suas roupas... As suas coisas do século XX vão ficar no espaço sideral vagando eternamente... Seria perigoso levar a sua cápsula para a Terra... A cápsula e seus trajes poderiam despertar desconfianças. Fúbio continua mudo. A expectativa de como encontrará a Terra o deixa bastante temeroso. Porfírio nota sua angústia. - Você não precisa se preocupar... Sou amigo sincero. Fúbio olha para Porfírio. Permanece calado, enquanto o rapaz do ano 3000 mexe na complicada aparelhagem da astronave. - Venho da base espacial da Lua... É de lá que partem as grandes naves para todos os lugares do Sistema Solar... A Lua é do Governo central da Terra. Lá, está instalado um potente observatório... As viagens da Terra à Lua, entretanto, não são realizadas pelo Governo central; mas sim pelos grandes países... Estou carregando minérios que vieram do planeta Júpiter e estavam armazenados na Lua... Estou a serviço do Governo do Brasil... O nosso país agora é uma potência mundial. Fúbio
arregala os olhos, mas não faz comentários. Entrega-se à
sua meditação e lembra-se novamente da conversa com o Professor
Serapião sobre a catastrófica superpopulação no futuro
da Terra. Capítulo 3 A proximidade do planeta Terra faz Fúbio sentir, ao mesmo tempo, alegria e apreensão. Alegre por estar de volta ao astro que nasceu, após o susto na nave anterior. Apreensivo por não saber como vai encontrá-lo. Apesar do seu estado emocional, sente-se seguro ao lado de Porfírio. Lá no fundo, vê o azul maravilhoso. "É a Terra - pensa sorridente". A preocupação faz surgir em sua mente imagens de pessoas comprimidas e asfixiadas. "A superpopulação! Como estará o mundo no ano 3000?". Porfírio avisa que a astronave vai entrar na atmosfera terrestre. Fúbio procura o cinto de segurança, mas não o encontra. Então, firma com força os braços na poltrona. Para sua surpresa, a nave penetra com facilidade na atmosfera. Porfírio nota o receio de Fúbio. - Pode ficar tranqüilo e solto na poltrona. Esta manobra era muito difícil no século XX, mas agora é fácil... Não fique preocupado, tudo vai correr bem... Vamos aterrissar no planalto central brasileiro... Você não pode sair junto comigo. Vai ficar escondido em um contêiner... Não tenha medo, quando for carregado para o hangar da base... Espere-me lá... Não saia do contêiner... Irei apanhá-lo, e nós iremos no meu PVM para o Rio de Janeiro. - PVM!... O que é isso? - É um dos meios de transporte da Terra... Para você ter uma idéia, é o avião do seu século... Porém, bastante diferente... O PVM não é tão rudimentar como avião do século XX. A nave pousa suavemente. Em nenhum momento, Fúbio nota qualquer comunicação de Porfírio com a base durante a aterrissagem. Só o vê apertar diversos botões. Com o veículo firme no solo, Porfírio sai e deixa Fúbio, muito emocionado, deitado em cima da carga dentro do contêiner. Passa-se algum tempo. O rapaz não sabe o que acontece. Por um orifício, vê que ainda está no interior da espaçonave. De repente, tudo começa a se movimentar. O veículo espacial trepida no solo da base. "Como disse o Porfírio, estão levando a nave para o hangar". Após alguns minutos parado, ele ouve barulho perto do contêiner. Olha novamente pelo orifício e nota vultos de pessoas. Mas, com a aproximação, repara que se enganou. "Não são pessoas. São andróides. Estou realmente no futuro. Que cena fantástica. Robôs metálicos com formato de gente, que se mexem e agem como pessoas reais". Os autômatos levantam a pesada carga como se fosse tão leve como algodão. No interior, Fúbio não se agita e prende a respiração. Após descarregar toda a carga com facilidade, os andróides se afastam e saem do hangar. O rapaz deita-se e continua a meditar. Pouco depois, chega Porfírio, que abre o contêiner. Fúbio respira fundo ao ver-se livre. Porfírio aponta para a parte da frente do hangar. - Lá estão os PVMs que falei. O de cor vermelha é o meu. Eles caminham até o local. Fúbio surpreende-se com o formato dos PVMs. Bastante curioso, vira-se para Porfírio. - Isso aí é o avião do século XXX? - Sim, Fúbio... Procure ficar calmo... Não se esqueça que você, daqui por diante, é amigo meu do planalto goiano... Espere um pouco aqui, enquanto converso com o chefe do hangar. Fúbio fica boquiaberto bispando os enormes objetos com a forma de piões. Lembra-se da sua infância no século XX. "É impressionante. São gigantescos, mas simetricamente iguais àqueles pequeninos piões de brinquedo que, com um barbante enrolado neles, eu os fazia girar no chão ou na palma da minha mão". Sua perplexidade é maior por não entender como eles, estacionados somente com as pontas no solo, conseguem ficar imóveis e equilibrados, sem tombar para os lados, como seria normal. Porfírio regressa. Coloca a mão no ombro de Fúbio, e dos dois caminham em direção ao PVM vermelho. O interior do veículo é fantástico. O grande número de telinha de vídeo faz Fúbio olhar para todos os lados da cabine, enquanto Porfírio opera o computador. - Agora, vamos voar... Daqui a quatro minutos estaremos no Rio de Janeiro. - Quatro minutos!... Mas se estamos próximos de Brasília!... Como é possível ir ao Rio em apenas quatro minutos? - Lembre-se, Fúbio... Nós não estamos no século XX... Passaram-se mil anos da sua época... O meu mundo é completamente diferente... Este meu universo agora também é o seu... Você precisa se acostumar... PVM é sigla de Pião Voador Multifário... Este último nome é por causa das variadas funções que exerce durante o vôo. Uma delas é a criação de um campo magnético para neutralizar as moléculas ao seu redor, anulando, assim, o atrito do veículo com o ar... Outra função importante é a que diminui a força da gravidade, tornando o PVM mais leve... Tudo isso conjugado permite o pião se deslocar com a velocidade de 200 quilômetros por minuto, mesmo estando na troposfera. Porfírio acende as várias telinha de vídeo que chamaram a atenção de Fúbio logo que entrou no PVM. - O PVM é todo fechado. Não há janelinhas como nos aviões do século XX. Estamos no centro do pião. A nossa visão do exterior é por estes vídeos. Através deles, temos uma vista de 360 graus. Naquela tela, vemos o céu... Naquela outra, o solo. As demais completam o panorama para qualquer ângulo. Fúbio revira os olhos pelas telinhas e observa que as imagens estão em movimento. O fato o deixa intrigado, pois achava que o pião não havia decolado. Chega-se até Porfírio, que continua operando o computador. - Já estamos voando? - Sim, Fúbio... a 200 quilômetros por minuto. - Mas como?... Nem percebi a decolagem! Porfírio sorri. - Não se esqueça que estamos no ano 3000. Fúbio olha para a telinha à sua esquerda e vê passar outro pião voador. - Não há perigo de colisão - inquire ele. - Não, Fúbio...Não existe esta possibilidade em hipótese alguma...O PVM desvia com precisão de qualquer obstáculo, seja outro PVM, pássaros ou montanhas... No século XXX, não acontece desastre aéreo... Pode ficar tranqüilo. Fúbio senta-se defronte da telinha que mostra o solo. As imagens passam rápidas diante de seus olhos. A seqüência interminável de florestas o surpreende, pois esperava encontrar um mundo devastado por apocalíptica população. "Como é possível? Onde está a superpopulação da Terra do ano 3000? Será que vive em redomas sob o solo? Debaixo daquelas imensas florestas?" Fúbio olha para Porfírio e pensa sobre a melhor maneira de falar com o amigo o assunto. Mas interrompe seus pensamentos com o grito alegre do companheiro. - Chegamos ao Rio de Janeiro!... Agora, vou desacelerar o PVM para a velocidade de passeio, pois quero que você veja a cidade... Depois, iremos para a minha casa, na Baixada Fluminense. - Você mora na Baixada Fluminense!... Lugar de violência e pobreza... Pensei que você fosse rico! - Eu sou de família rica... A Baixada Fluminense é toda tomada por mansões... Não existe miséria no século XXX... Em nenhuma parte do mundo. O cérebro do rapaz já não permite sensação de completo espanto por causa dos fatos inusitados que surgem sucessivamente. Mas fica abalado pela afirmação de Porfírio. - O aeroporto é perto da sua casa? - indaga ele, para tentar adiar a pergunta que deseja fazer ao Porfírio sobre o desaparecimento da miséria na face da Terra. - Todas as casas da Baixada Fluminense têm áreas para pousos de PVMs. As famílias da Baixada possuem um ou mais piões voadores. Fúbio
fica perplexo, mas prefere ficar calado. Procura olhar a paisagem do Rio de Janeiro.
A cidade está completamente diferente, mas reconhece lá longe o
Pico do Dedo de Deus, os contornos da Baía de Guanabara e o Pão
de Açúcar. "Não há dúvidas, é o
Rio de Janeiro mesmo - pensa". Uma outra imagem enche seu coração
de alegria. - A estátua do Cristo Redentor ainda está no mesmo lugar! - Sim... Houve muitas reformas nesses últimos mil anos... O Cristo ainda está abençoando a nossa cidade. Fúbio também espia os enormes parques espalhados pela cidade, com as frondosas árvores no lugar onde no seu tempo haviam aglomerados de casas e edifícios. Vem à mente do rapaz a recordação da conversa na noite do reveillon em Copacabana. Lembra-se das palavras do Professor Serapião sobre a superpopulação. Examina atentamente os morros com uma inesperada cobertura florestal. Muito surpreso, vira-se para Porfírio. - E as favelas? - Favelas!... Não sei o que você está falando!... Lá em casa, eu vou procurar o significado no computador. O PVM aumenta um pouco a velocidade e se dirige à residência de Porfírio. Fúbio toma coragem e pergunta sobre o assunto que não sai da sua cabeça. - Qual é a atual população do Rio de Janeiro? - A cidade tem cerca de 800 mil habitantes. - Oitocentos mil!... Só oitocentos mil!!... Quando viajei para Marte a população era quase oito milhões... E a tendência era subir. Duplicar, triplicar e continuar a aumentar seguidamente. Porfírio bate no ombro de Fúbio. - Este tema é para uma conversa com calma... Na minha casa, teremos tempo para falar sobre isso. O PVM sobrevoa a residência de Porfírio. Fúbio fica extasiado com a estrutura arquitetônica da casa do amigo e com os imensos jardins e gramados, que a circundam. O PVM pousa no pátio da propriedade. Os dois saltam do veículo. Um pouco além, um robô abre o portão do hangar. - Aquele andróide chama-se Babe... Está ligado a um computador central, que controla os outros cibernóides e os instrumentos e dependências informatizadas da casa... O Babe é uma espécie de mordomo do século XXX... Joga xadrez magistralmente... Eu nunca o ganhei... Nem sequer empatei ao menos uma partida... Só perco para ele. Fúbio olha para tudo com curiosidade. A imagem que viu na base do planalto goiano do pião estacionado só com sua ponteira no chão o deixa novamente perplexo. - Como o PVM pode ficar naquela posição parado sem tombar? - pergunta ele. - Uma das funções que o Pião Voador Multifário tem é manter o equilíbrio, mesmo parado em sua parte pontiaguda. O andróide achega-se a eles. Com a voz fanhosa, parecida com um gravador, transmite todos os recados para Porfírio, que fica sabendo que sua mãe está na casa da irmã e que o pai viajou para Nova York. Depois, o ser robótico retira a bagagem de Porfírio do pião voador. - Amanhã, programarei o Babe, para ele saber que você é o novo morador da casa e tem todas as regalias. - Seus pais não se incomodarão de eu ficar aqui? - De jeito nenhum... Pode ficar tranqüilo, Fúbio. Enquanto o andróide segue para o interior da residência, Porfírio mostra a parte externa para Fúbio. Ao ultrapassarem a cerca que dá para o aprazível jardim, eles vêem a aproximação de três fortes e bonitos cães. Fúbio se retrai um pouco. - Não há perigo... Não o atacarão perto de mim... Em poucos dias, eles compreenderão que você é amigo... Aí não precisará estar ao meu lado para transitar pela mansão. Os cães festejam a chegada abanando o rabo e lambendo as mãos de Porfírio. O macho late em direção a Fúbio, mas pára ao ouvir a voz de Porfírio. As duas fêmeas continuam bem juntas do dono. Uma delas, de pelugem branca e preta, chama mais atenção de Fúbio pelo excesso de carinhos que faz em Porfírio. - Ao meu redor, noto diferenças impressionantes em relação à minha época... Mas parece que os cães continuam idênticos aos do passado, principalmente pela amizade que nutrem pelo dono. Porfírio faz gesto concordando. Fúbio, sem demonstrar nenhum medo, afaga a cabeça de uma das fêmeas. Depois, eles seguem para o interior da casa. - Vamos à cozinha... Estou com fome... Você também deve estar. - É claro... Eu não me alimento há mil anos - brinca Fúbio. - Até que enfim você abandonou a cara perplexa e medrosa. Os dois caminham pelos cômodos da residência e chegam à cozinha, que mais parece sala de informática. Porfírio aperta um botão e vários letreiros luminosos surgem em cada uma das esquisitas mobílias. Fúbio lê nomes conhecidos de alimentos leguminosos, gramíneos, frugais e de origem animal. - Estes são terminais energéticos da alimentação - diz Porfírio, apontando para as mobílias. - O abastecimento vem diretamente dos campos de produção... É só acionar os botões que a comida pedida chega pronta para ser usada. Fúbio fica abobalhado. - Você diz que a comida não está aqui na cozinha... Que vem, após nosso pedido, dos campos de produção. - Sim. - Por tubulações!... Igual à água encanada! - Não, Fúbio... Nós não estamos no século XX, para a explicação ser tão fácil assim... A tecnologia avançou mil anos, não se esqueça... Os alimentos chegam dos campos de produção por um sistema de teleimaterialização. - Você me deixa confuso... Não sei se estou entendendo... Será que quer dizer que os alimentos chegam a esta cozinha desmaterializados e não por meio de uma transportação normal. - Não são transportados, Fúbio... São teleportados... Os alimentos são desmaterializados nos campos de produção e chegam à cozinha dos usuários, onde retornam ao estado de matéria. - Não é possível!... Não posso acreditar!... Quero que você me esclareça como é feito esse processo de teleportação. - É difícil de ser explicado. Você ainda não está preparado... É a mesma coisa de um homem da Idade Média surgir no seu século XX... Você também não conseguiria fazê-lo entender como a televisão produz imagens e sons na casa do consumidor... Para você, a televisão é coisa normal... Mas para o homem da Idade Média, não... Seria impossível, ele compreender o processo da televisão. Porfírio apanha duas bandejas e entrega uma a Fúbio. - Escolha seus alimentos nos respectivos terminais... Não esqueça de digitar a quantidade que deseja e como você quer que sejam feitos. Fúbio, orientado por Porfírio, processa os terminais. Em poucos minutos, a comida chega ao bandejão tal como ele pediu. - Formidável! - exclama ele. Os dois iniciam a refeição. - Está muito gostosa... Parece comida de verdade... Não posso acreditar que foi teleportada. Porfírio sorri. - Mas ela existe mesmo, Fúbio... Você está se alimentando com ela... Só que o processo de ela chegar até aqui é completamente diferente do de sua época. - A comida é grátis? - Não... É cobrada uma taxa mensal, conforme o consumo de cada residência... Mas esse tributo, como todos os outros do século XXX, é bastante módico. Eles vão para a sala e sentam para fazer a digestão. Porfírio retira um minúsculo computador do bolso. Olha para Fúbio e processa o aparelho. - Aqui tem o significado de todas as palavras em todas as línguas que já existiram na Terra. Quero saber o significado da palavra que você pronunciou, quando o PVM sobrevoava o Rio de Janeiro. - Favela. - Sim... Favela... Vou digitar o nome. Em fração de segundos, a definição do vocábulo aparece na telinha do computador. Porfírio lê em voz alta. - Tipo de habitação insalubre, insegura e miserável; que milhões de pobres dos séculos XX e XXI eram obrigados a usar. Esse tipo de moradia inferior começou a desaparecer no século XXII, quando a população do mundo iniciou a escalada para o decrescimento, fazendo a qualidade de vida dos habitantes da Terra subir. A época da existência das favelas é uma das mais cruéis da história da Humanidade. - Não existe mais favelas no Rio de Janeiro do Rio? - Não, Fúbio... Nem no Rio de Janeiro, nem em outra parte do mundo. - Mas para onde foram os favelados? - Eu acho que foram morar em Copacabana e em outros bairros da então classe média do século XX, porque todos os pobres da cidade passaram a residir lá, quando o padrão social melhorou... Os antigos habitantes da Baixada Fluminense também mudaram-se para os grandes imóveis das Zonas Sul e Norte... A Baixada teve reduzida a sua densidade demográfica... As grandes mansões começaram a aparecer na região. - A miséria acabou!?... Onde vivem os pobres? - Não... Não, Fúbio... Não existe mais pobreza no mundo... Atualmente, há três categorias sociais: classe-muito-rica, classe-rica e classe-menos-rica. Qualquer cidadão do Planeta pode atingir as duas classes mais altas. Tudo dependerá da sua inteligência ou do seu trabalho. Ou a inteligência e o trabalho juntos. Fúbio fica calado espantado. Porfírio continua sua explicação. - Não há pobre no século XXX... O ser humano até 18 anos de idade vive a custa dos pais. Após essa idade, seja homem ou mulher, passa a receber um salário vitalício e não é obrigado a trabalhar... Essa pessoa pertence a classe-menos-rica...Para você ter uma idéia, quem é desse grupo mais baixo possui pelo menos três casas próprias: uma na cidade, outra no campo e uma terceira em balneário afastado do centro urbano. - Sem nunca ter trabalhado? - inquire Fúbio. - Sim... Mas só as pessoas que optaram a ficar na classe-menos-rica, ou seja, as pessoas que optaram nunca trabalhar até a morte. - Quem paga? Como há dinheiro para pagar? - São as máquinas... As máquinas é que trabalham para o homem... As pessoas que agilizam as máquinas são da faixa social da classe-muito-rica e classe-rica. Elas ganham pelo seu trabalho, além do salário do governo igual ao da classe-menos-rica... As empresas altamente computadorizadas ganham dinheiro e pagam um imposto por usar máquinas... A arrecadação desse imposto por uso da máquina é que paga o salário de todos os habitantes da Terra maiores de 18 anos... Mas quem trabalha também não pega no pesado... O serviço é feito pela cibernética-robótica. A função do trabalhador humano é só operar a complexa mecanização automática em turnos diários de poucas horas. - É inacreditável! - exclama Fúbio. - No meu mundo quem não trabalha ganha dinheiro simplesmente por estar vivo e pertencer à espécie humana... Mas quem trabalha ganha muito mais... Só que ninguém é obrigado a trabalhar para ter uma vida confortável.. Não há analfabeto no século XXX, Fúbio...Os atuais habitantes da Terra possuem de boa para excelente cultura. Fúbio está muito perplexo. Seu pensamento fixa-se na reunião com o Professor Serapião em 31 de dezembro de 2000. Agora, no ano 3000, vê que a situação é bastante diferente do que esperava. Sua curiosidade confunde-se com sua perplexidade. Olha para Porfírio. - Você disse que o Rio de Janeiro só tinha oitocentos mil habitantes. Estou abismado com tal situação... Quantos habitantes tem o mundo atual? - Mais ou menos um bilhão... Mas deixe-me ver no computador... A está aqui... Do Rio eu disse ter cerca de oitocentos mil... O dado preciso do dia de hoje é de 811 mil pessoas... No mundo também no dia de hoje há precisamente um bilhão, duzentos e cinqüenta e cinco mil e vinte e três habitantes. Fúbio leva a mão à cabeça. - Você tem razão de ficar assustado, Fúbio... Sei que no final do século XX a população mundial era seis vezes maior do que agora, com tendência de aumentar muito mais... Mas não aconteceu... E nós temos no ano 3000 uma população global menor do que a da China do século XX... Este é o motivo das pessoas de qualquer parte da face da Terra possuírem excelente condição de vida... A Humanidade tornou-se socialmente soberba. Não há classe pobre... Veja só, Fúbio: nós estamos com a mesma população do meado do século XIX e com tecnologia mil vezes maior do que a do século XX... Esta é a causa do nosso sucesso no combate aos problemas sociais ... E os habitantes do seu tempo, imbuídos de interesses mesquinhos, não tomaram conhecimento deste simples método... Preferiram ignorar que o vertiginoso crescimento demográfico era a origem de todos os pesares e que eclipsava os fantásticos avanços do próprio século XX nas áreas das ciências e da tecnologia. - Estou realmente espantado com tudo... Você me deu as populações exatas do dia de hoje do Rio de Janeiro e do mundo... Estou perplexo. - Tem razão, Fúbio... Você veio de uma época em que o nosso planeta era completamente desorganizado... No século XX, não se sabia com exatidão o total de seres humanos da Terra... Havia os arcaicos censos demográficos, que só davam uma idéia. Era uma estimativa ao invés de uma contagem exata. O ser humano era tratado igual aos ratos de esgoto, pois ninguém sabia o total real da população... No século XXX, todos os habitantes estão cadastrados em um órgão único que serve todo o planeta. Nesse órgão, chegam diariamente as comunicações de nascimentos e falecimentos de todos os cantos do mundo... A máquina opera em fração de segundos... Por isso, eu sei dentro da minha casa o número atual e exato da população... E só consultar meu computador. Porfírio bate no ombro de Fúbio. - Aí que está o perigo de você ser descoberto... Você não tem registro como habitante do planeta... Você não tem família no século XXX... As famílias também estão todas registradas... Lembra-se que eu perguntei ainda na espaçonave se você só possuía dois sobrenomes? - Sim. - Fiquei espantado... Como acontece com tudo, existe organização da família no século XXX... Os pais podem colocar qualquer pré-nome no filho que nasceu. Mas é obrigado a colocar quatro sobrenomes dos quatro avós... O meu nome é Porfírio Zara Abreu Coutinho Veiga... Um estranho que o lê, mesmo não me conhecendo e nem minha família, sabe que o Zara vem do meu avô paterno; o Abreu, da minha avó paterna; o Coutinho, do meu avô materno; e o Veiga, da minha avó materna... Todos os habitantes da Terra são registrados ao nascer com os sobrenomes dos avós nessa ordem... Cada sobrenome é escolhido entre os quatro de cada avós... Ninguém muda de nome no século XXX... Nem a mulher, quando se casa... O nome é muito importante... É a história da família... Isso é uma das coisas que me levou a afirmar que você será fatalmente descoberto. - Eu corro perigo aqui no século XXX? -
Não é bem isso... É o que já falei... Você poderia
ficar ao dispor da ciência, a fim de ser estudado... Nós sabemos
da história do século XX pelo que está escrito... A ciência
na certa o faria uma espécie de prisioneiro, a fim de você narrar
ao vivo as coisas e fatos dos século XX... Seria uma posição
ruim para você... Deixa passar um tempo, a fim de eu saber o que fazer...
Até lá temos que tomar certos cuidados... Além do mais, muitas
pessoas do século XXX não gostam do que passou no século
XX. Assim, você pode se tornar um ser hostilizado...A negativa dos habitantes
da sua época em não tratar com prioridade o controle da natalidade
quase levou à destruição da Civilização...
Se dependesse do século XX, a Terra agora estaria deserta e morta... Não
haveria um homem sequer há muitos séculos. Fúbio continua perplexo. - Mas como!... Como foi evitado isso?... Como se impediu a explosão populacional? - Aconteceu em meados do século XXII, quando a população mundial chegou a um ponto insuportável, provocando fome em toda a Terra... Os ricos, por causa da violência, foram obrigados a viver presos em cidades próprias e fechadas, parecidas com os castelos da Idade Média... O caos era terrível. Morriam milhares de pessoas por dia, mas também nasciam centenas de milhares de crianças igualmente por dia. O nível de vida do cidadão comum era pior do que um animal abandonado, esfomeado e encurralado por outros animais... Era o início do apocalipse bíblico... Os políticos, talvez sentindo-se também ameaçados, tentaram esboçar leis rígidas para o controle em massa da natalidade... Mas não deram resultados, porque vieram muito tarde... Então, um bilhão de crianças de pais miseráveis continuavam a vir ao mundo por ano... Não havia meios de conter tais nascimentos... Quando a situação era desesperadora, ocorreu um milagre... Um inexplicável milagre. Fúbio ouve atentamente. - De repente, sem nenhuma justificação científica, por volta do ano 2150, as mulheres pararam de engravidar... Um ano se passou sem nascer uma criança em toda a Terra... Houve reuniões entre obstetras e ginecologistas. Foram realizados estudos pormenorizados, que não apresentaram nenhuma solução sobre a causa... Os cientistas proclamaram o fim da Humanidade, caso não nascesse mais ninguém, pois o homem desapareceria do Planeta ao morrer o último daqueles que viviam naquela época. Fúbio está tenso e na expectativa pelo desenrolar da narrativa. Porfírio prossegue. - Após um ano de infertilidade, surgiram em todas as partes do mundo mulheres grávidas... Os cientistas ficaram ainda mais perplexos com a nova situação. Não tinham explicação para a esterilidade de um ano, nem para a súbita aparição de gestantes depois... O caso ficou ainda mais obscuro com o retorno da infecundidade das mulheres por outro longo período. No século seguinte, o XXIII, a situação persistiu, alternando intervalos de meses de infertilidades para poucos dias de procriação até a população do Planeta se estabilizar na casa de um bilhão de habitantes... Nos últimos anos século XXIII, tudo voltou ao normal, não havendo mais períodos infecundos nesses últimos oito séculos. - Agora, no século XXX, já se sabe a causa da anormalidade? - Não, Fúbio... O que aconteceu com as mulheres nos séculos XXII e XXIII permanece um mistério... No início, foi considerado um flagelo... Mas, ao passar das décadas, o homem percebeu os benefícios que o milagre proporcionou ao mundo... Compreendeu que, com uma população menor, conseguia resolver com muito mais facilidade os problemas que afligem a Civilização... As mulheres foram as primeiras a achar que aquela enigmática influência sobre elas foi boa para a Humanidade. - Mas, com poucos nascimentos, a população mundial não ficou envelhecida? - Sim, Fúbio... Houve época em que a maioria da população era de velhos. - Mas isso também não é grave para a Civilização? - Sim... É lógico que o mundo daqueles séculos precisava ter população de maioria jovem, para trabalhar... A cibernética ainda não tinha atingindo o alto grau de tecnologia como acontece agora, proporcionando que a maior parte da população da Terra não trabalhe como já disse para você. Só que essa maioria necessária cresceu a níveis de colocar em perigo a própria permanência do homem no Planeta... Assim, era mister amplo domínio sobre os nascimentos... Quando se começa um controle de natalidade, é claro que a população envelhece, fazendo com que os jovens sejam minoria... Todavia, isso é apenas passagem temporária no processo, já que a própria natureza faz com que as coisas voltem à normalidade, pois as pessoas idosas seguem a tendência da existência humana e morrem... Quando as crianças que nasceram no início da execução do plano alcançarem a velhice, a pirâmide etária retorna ao normal, mas com a virtude da população ser bem menor... É isso que você está vendo no seu primeiro contato com o século XXX... O homem do seu século, porém, era egoísta... Só pensava no presente... Por isso, dizia que a redução da taxa de natalidade provocaria uma população velha, prejudicial à Civilização... Mas, por ignorância ou maldade, os teóricos do século XX não informaram nas suas especulações que esse envelhecimento seria transitório. Fúbio continua ouvindo calado. - Naquela época, também surgiu no Brasil uma entidade altruística de assistência social... A Fundação Nizolo... Quando a população do mundo diminuiu e os idosos passaram a ser a maioria, esses anciãos não ficaram a esmo... Receberam da Fundação Nizolo recursos para viver com conforto. - Essa fundação pertenceu ao Governo brasileiro ou à ONU? - pergunta Fúbio. - Ela ainda existe... É entidade privada... Muito querida por todos os habitantes da Terra. A Fundação Nizolo apareceu pouco depois do fenômeno da infecundidade, dando início ao amparo financeiro aos velhos e incapacitados. Ela cresceu rapidamente e expandiu seus benefícios para o mundo inteiro. Não só para os idosos, mas para as crianças que nasciam nos períodos de fertilidade. A partir do final do século XXII, tornou-se a mais rica empresa internacional... Seu capital provêm dos serviços prestados para a descoberta de crimes. - É uma agência policial? - Sim, Fúbio... A Fundação Nizolo investiga crimes para as polícias municipais de todos os países. Descobre com facilidade e rapidez qualquer tipo de delito na face da Terra... A cidade que deseja ajuda para esclarecer o crime só precisa fornecer detalhes da ocorrência. Em poucas horas, a fundação consegue as provas do crime, a identidade do criminoso e o local onde ele está escondido... Não adianta o delinqüente escapulir do seu refúgio, pois a fundação o localiza durante a fuga... Tudo isso é fornecido instantaneamente à polícia que solicitou auxílio. - Inacreditável!... Como ela obtém toda essa informação com tanta precisão e rapidez? - Não sei, Fúbio... Não tenho ciência de como a fundação soluciona os crimes... Só posso afirmar que todos os criminosos apontados por ela são condenados pela Justiça, porque as provas que apresenta são perfeitas e irrefutáveis... A Fundação Nizolo cobra uma taxa aos governos e aos particulares... A arrecadação faz com que seus funcionários recebam excelentes salários... Mas a maior parte do capital da empresa é destinada à assistência aos velhos e às crianças... A fundação teve papel fundamental na época que a população começou a diminuir, pois amparou a velhice, deu maior vigor aos poucos que nasciam e acabou com a impunidade dos criminosos. - Será verdade o que estou pensando? - O que é? - Que não se mata mais no ano 3000! - O assassino igual ao do século XX não existe mais. A certeza que será descoberto em poucas horas fez desaparecer o banditismo e o terrorismo em todo o Planeta... Os homicídios que ocorrem são raríssimos e acontecem poucas vezes no meu mundo... São muitas vezes crimes passionais, por desespero, amor ou vingança... Neste caso, o criminoso não se preocupa em ser descoberto... Quer matar a pessoa que lhe causa sofrimento ou ódio, sem se importar com as conseqüências... Mas isso também é coisa rara nos últimos séculos. Desde que eu nasci, eu acho que não houve um crime de morte na Terra.... Além do mais, as pessoas do século XXX sempre foram informadas que se cometerem homicídio doloso passarão o resto de suas vidas na cadeia. As crianças quando entram pela primeira vez nas escolas recebem também esse ensinamento, que prossegue por toda sua vida... Isso é lógico que ajuda a evitar os assassinatos. - Há pena de morte? - Não... As pessoas que matam são condenadas à prisão perpétua... Conforme falei, os homicídios hoje em dia são raros. Os poucos condenados por crime de morte cumprem degredo perpétuo na Antártida... É tão incomum uma pessoa ser assassinada atualmente; que, quando isso acontece, a notícia é comentada por todos os habitantes da Terra... Outra coisa; no ano de 3000 não existe arma de fogo... Não se fabrica há mais de cem anos armas de fogo na Terra. - O quê!?... Não existe mais arma de fogo? - Sim, Fúbio. Os poucos assassinatos que aconteceram no século XXX foram por pancadas ou cortes com objetos comuns... Como eu disse, nunca existiu arma de fogo no meu século. Fúbio apenas balança a cabeça admirado. - Você tem razão de ficar espantado, pois no século XX as armas de fogo eram objetos de venda ao consumidor... Era uma das coisas podres da sua sociedade... Vendiam um objeto que era fabricado para matar... E os habitantes do seu século ainda diziam cinicamente que a arma de fogo era para uso pessoal de defesa... Veja que barbaridade, Fúbio: as pessoas do seu século se defendiam matando as outras. - Mas você na nave espacial portava uma arma de fogo... Chegou a ficar com ela na mão. - Não, Fúbio... Aquilo que você viu não era arma de fogo... Era um disparador que envia um raio que faz a pessoa atingida dormir... Não faz mal a saúde e sua finalidade é imobilizar animais e até pessoas... Não é arma para matar e nem para causar qualquer ferimento... As armas de fogo de uso pessoal e de guerra foram abolidas gradativamente da face da Terra a partir do século XXIII pela forças do bem que surgiram no mundo, lideradas pela Fundação Nizolo... No início desses tempos, as armas de fogo só foram usadas pela polícia e Forças Armadas. Eram fabricadas pelos governos e proibidas de serem produzidas por particulares... Depois, foram sendo reduzidas até acabar por completo... Agora, no ano de 3000, as forças policiais só usam o disparador imobilizante que você viu comigo na nave... Não se mata para prender um marginal da lei. - É impressionante, Porfírio... Como tudo é diferente do meu mundo. - No seu século muita gente pensava que era o meio que fazia a pessoa matar. Não foi assim? - Sim, Porfírio... A maioria dos sociólogos dizia que o grande número assassinatos era em virtude de problemas sociais... da pobreza... da miséria. - Eles estavam completamente errados, Fúbio... É o pior é que faziam enorme injustiça com bilhões de habitantes daquela época da Terra que passavam tremendas necessidades sociais de todos os tipos e permaneceram bons, sem cometerem atrocidades... Se fosse como eles diziam que a miséria causavam a violência, o seu mundo seria muito pior do que foi, pois bilhões de pessoas pobres estariam cometendo barbaridades a cada esquina das cidades... Seria um genocídio... Não, Fúbio... O que faz a pessoa matar ou não matar é ser má ou boa... A miséria pode ajudar um pouco, mas a pessoa tem que ser má, para tirar a vida de seu semelhante... Até as pessoas más não matam se souberem que vão passar o resto da vida na cadeia... Mas isso tem que ser para valer, Fúbio... Ninguém que matou pode deixar de cumprir a pena... Senão será aberto um precedente, e outros acharão que também podem matar e não ser punidos. - As leis penais do meu mundo também eram complicadas. - Eu sei disso, Fúbio... Agora, você está em outro mundo... As leis são bem singelas... O homicídio doloso é qualificado na lei de maneira bem simples, sem a prolixidade do seu tempo: desde que fique provado a culpabilidade, o criminoso perde todos os seus direitos de cidadão e ficará preso até morrer na Antártica... Isso é uma das razões de não se matar no ano de 3000...É um mundo feliz... O Presidente da fundação é Artur Nizolo... Como todos os habitantes da Terra, ele tem mais quatro sobrenomes, mas eu não me lembro quais são... Ele é a pessoa mais querida do Planeta. A sede da empresa é aqui no Rio de Janeiro... O Brasil foi o primeiro país a ser beneficiado pela filantropia da fundação, tanto na parte do combate à criminalidade quanto na assistencial. - Naquele momento fantástico em que descobri que tinha acontecido uma anomalia temporal comigo, você disse que a sua nave pertencia ao Brasil. - Sim. - Então, o Brasil tem capacidade de possuir naves espaciais!... O Brasil é uma potência mundial? - Sim, Fúbio... Além da Fundação Nizolo ter sido criada no Brasil, também coincidiu que o milagre da diminuição da população começou em nosso país... Assim, o brasileiro teve condições de explorar suas riquezas naturais, sem corrupção e bagunça... Tornou-se líder mundial, voltado para o amor e a caridade... Seu maior produto de exportação foi a própria Fundação Nizolo, com sua característica altruística. - Na viagem no PVM, vi extensas florestas... Os morros do Rio de Janeiro também estão cobertos por densas matas.... Como aconteceu isso? - Quando a população encolheu, os governantes criaram florestas artificiais no mundo inteiro... Na região Nordeste do Brasil, acabou-se a secular seca... No local, atualmente, há grande e bonita floresta tropical e semi-equatorial... Recuperou-se totalmente a Mata Atlântica... E a Amazônia está tão bela e virgem como na época de Pedro Álvares Cabral... Os homens que realizaram tal proeza já morreram há séculos. Eles lançaram a semente para as novas florestas, apesar de saber que nunca veriam sua obra no apogeu, pois era preciso mais de cem anos para isso acontecer... Mas plantaram... Eram autênticos dendrólatas... Isso jamais aconteceu na sua época, Fúbio... Os homens do século XX nunca levantaram uma palha, pensando num futuro remoto... Alguns, apenas se preocupavam com um futuro próximo... Mas quase todos somente com o presente. - Você não se sente bem por eu ser do século XX? - Não é isso, Fúbio... Falo mal dos habitantes da sua época, mas sei que você é bom... Sei também que existiram muitas pessoas boas no século XX. - Se você diz que as pessoas do ano 3000 são de bom coração e felizes, para que tenho de manter segredo quanto à minha identidade... Será que elas vão me tratar mal?... Com crueldade? - Não, Fúbio... Não é isso que quero dizer... É lógico que haverá um impacto ao saber que você é do século XX. Por isso, quero preparar o melhor momento, para falar com as autoridades do meu mundo sobre você... Mas corre risco de você ser descoberto antes. Como já expliquei, a Terra do ano 3000 tem uma organização perfeita sobre a população e a família. Porém, não precisa se assustar, Fúbio... Você está num mundo de paz. Eles caminham até uma espaçosa sala. Fúbio examina com atenção o luxo ao seu redor. - Sua família é da classe-muito-rica? - Não, Fúbio... Somos do grupo do meio... a classe-rica. - Mas com esta casa e um PVM particular!? - Temos três PVMs... Um é meu... Minha mãe também tem um, e o terceiro está com meu pai em Nova York... A classe-muito-rica tem muito mais do que você pensa... Todavia, a menor, a classe-menos-rica, faria inveja à classe média alta do século XX... Este paraíso social foi conseguido com uma combinação simples: população pequena e estável com o avanço constante da tecnologia. Porfírio puxa Fúbio pelo braço. - Depois, nós voltaremos a dissertar sobre este assunto... Agora, quero me comunicar com a minha mãe... Ela está na casa da minha irmã. Eles atravessam o salão, chegam ao lado oposto e entram em uma reentrância quadrada, onde está instalado confortável sofá. Porfírio manda Fúbio sentar e manipula estranho aparelho. - Vou ligar para a residência da minha irmã... Ela também mora na Baixada Fluminense. Porfírio manipula a pequena máquina e faz sinal para Fúbio olhar à sua frente. O rapaz nada vê de anormal na parede de alvenaria, idêntica à de sua época. De repente, surge um foco intenso de luz, que se transforma em imagem de uma sala de estar. Fúbio sente algo diferente, pois a representação gráfica lhe dá impressão de ser prolongamento natural do ambiente onde ele está. Observa as três poltronas, a jarra com flores sobre uma mesinha. Tudo com estrutura e dimensão reais. Não há ninguém na saleta. O único barulho que vem da imagem é o intercalado som parecido com as chamadas telefônicas do século XX. - Está tocando... Minha irmã já deve estar vindo atender. Uma jovem senhora, também em tamanho real, aparentando no máximo 40 anos, movimenta-se na saleta, aperta o botão de uma máquina igual a que Porfírio tinha acabado de operar. A senhora olha para a direção deles. - Oh! Porfírio!... Você já regressou da viagem à Lua! - Cheguei ainda pouco... O Babe me informou que a mamãe está aí. - Sim... Ela está aqui comigo. A jovial senhora vira-se e examina Fúbio com ar interrogativo. Porfírio coloca a mão no ombro do companheiro. - É meu amigo Fúbio... Ele é do planalto goiano... Vai passar algum tempo aqui em casa. - Muito prazer - fala a irmã de Porfírio. - Igualmente... fico muito alegre em conhecer a irmã do meu amigo Porfírio. Ela sorri e gira a cabeça em direção ao irmão. - Esperem um pouco... Eu vou chamar a mamãe lá dentro. Ela sai apressadamente. Fúbio não desvia a pupila da saleta da casa do amigo. Continua com a mesma sensação ilusória de penetrabilidade da imagem na parede. - É impressionante! - diz ele. - Parece que podemos ir até lá com as nossas pernas. - É um processo tridimensional muito avançado. - Enquanto sua irmã falava, eu lembrei do sistema de teleportação dos alimentos... Será que existe no século XXX a teleportação de pessoas? - Não, Fúbio... Os seres vivos não podem ser teleportados... Só é possível usar essa técnica com os alimentos. Porfírio olha para a saleta da casa da irmã. - Elas estão demorando... Vou ligar para o meu pai em Nova York... Procure conversar com mais tranqüilidade... Notei você muito tenso com a minha irmã; - Fiquei com enorme temor de ela descobrir quem eu sou. - Pode ficar calmo... Eu estou atento a tudo. Porfírio volta a mexer na maquininha. Logo surge outra imagem na parede ao lado. Fúbio vê na tela um senhor bastante grisalho. - É o meu pai - aponta Porfírio para a segunda imagem. Fúbio o cumprimenta com ligeira menção de cabeça. - Este é meu amigo Fúbio... Ele mora em Goiás... Veio passar as férias no Rio de Janeiro... Eu o convidei para ficar aqui em casa. O pai de Porfírio sai da tela e aperta a mão de Fúbio. - Você fez bem... O rapaz será tratado como um filho - declara o pai de Porfírio. Uma outra voz soa do telão da casa da irmã de Porfírio. - Também concordo que ele passe suas férias em nossa casa... Está se vendo pela sua fisionomia que é um rapaz exemplar. O súbito aparte faz eles olharem para a outra imagem. Fúbio vê a irmã de Porfírio ao lado de uma mulher idosa. "É a mãe de Porfírio - pensa ele". A senhora fita Fúbio com satisfação. As duas também saem da tela. Fúbio está impressionado com tudo o que vê. - Seja bem-vindo à nossa casa - completa a mãe de Porfírio, apertando a mão de Fúbio. - Ele é do Planalto Central - esclarece Porfírio. Fúbio encolhe-se no sofá, enquanto os membros da família palestram. Ele vê estupefato que todos participam do colóquio ali diante de si na mesma sala. O pai, ao mesmo tempo que conversa com Porfírio, também o faz com a esposa e a filha . "Como é possível tudo isso - pensa Fúbio. - As imagens na parede . As pessoas saindo da parede. Vou acabar ficando louco". O pai de Porfírio avisa que vai se preparar para retornar ao Rio de Janeiro e volta para seu lugar na tela da parede. A mãe e a irmã aproveitam também para se despedir e também retornam para a outra tela. Porfírio desliga a máquina, e as imagens somem. Fúbio não tira os olhos da parede. - Você precisa relaxar, Fúbio... Está com a cara muito assustada. - É que seu pai em Nova York, sua mãe e sua irmã aqui no Rio de Janeiro em outra casa... E todos reunidos neste compartimento que estamos. - Você precisa se acostumar com o meu mundo... Agora, vou ligar para a Aline. Porfírio torna a operar a máquina. Surge nova imagem na parede: uma saleta com algumas mobílias, mas sem nenhuma pessoa. Logo, chega uma jovem de rosto bastante delicado. Porfírio apresenta a moça ao amigo. - Esta é Aline, a minha namorada... Este é meu amigo Fúbio, que está hospedado em minha residência. - É um prazer imenso conhecê-lo - brada a moça. - Igualmente - responde Fúbio. Aline vira-se para Porfírio. - Que bom, Porfírio!... Que bom que você voltou... Estava ansiosa para avisá-lo que o nosso grupo vai fazer um passeio a cavalo pelas montanhas da cidade no próximo domingo... Leve seu amigo... Ele está parecendo bastante tímido. - É que ele nunca veio ao Rio de Janeiro... É de Goiás... Nós iremos. Pode avisar o pessoal. A conversa é rápida. Logo, Porfírio desliga o aparelho. Fúbio fica aliviado por estar novamente sozinho com o amigo. - Passeio a cavalo pela cidade! - exclama ele. Só faltava esta!... Após tantas coisas fantásticas e imagináveis, eis que surge o romântico passeio a cavalo... Um divertimento abolido das grandes cidades no século XX. - É, Fúbio... Nós não vivemos só de cibernética e de informática... Fazemos lazer igual aos habitantes dos séculos anteriores ao seu, aproveitando o enorme espaço bucólico que as nossas metrópoles hoje possuem. - Será que devo ir... Estou com medo de encontrar seus amigos. - Até domingo, você já estará mais entrosado com o meu mundo. - Sua família me impressionou muito... Nesse primeiro contato, notei que tanto sua mãe, seu pai e sua irmã são bons. - Eles em pessoa ainda são melhores... Você verá quando meu pai e minha mãe chegarem aqui em casa. - Mas eles não estiveram aqui neste compartimento? - Não, Fúbio... Minha mãe está na casa da minha irmã, e meu pai está em Nova York... Eles não estiveram aqui... Aquilo que você viu foram as imagens deles. - Mas eu senti as mãos do seus pais, quando eles me cumprimentaram... Assim, vou acabar ficando louco... Aquilo não eram imagens. - Eram sim, Fúbio... Já pedi para você se acostumar ao ano 3000... É um mundo bem diferente do seu... Não se esqueça nunca de que você está num lugar bem distante do seu... Houve um avanço da tecnologia de comunicação de mil anos... Não adianta eu explicar como a imagem chegou de Nova York e apertou a sua mão como fosse de verdade... Você não está preparado para entender ... E a mesma coisa que falei com você na cozinha. - Eu tenho que ser muito forte, para agüentar essas novidades do ano 3000. - Você é forte, Fúbio... Vai suportar tudo...Não se preocupe... Agora, vou colocar o PVM no hangar... Espere-me aqui, para você ir se acostumando a ficar sozinho na casa. Porfírio sai; e Fúbio, muito assustado, não se arreda do sofá. Examina com os olhos a maquininha em que Porfírio fez as ligações. Não tem coragem de tocá-la. Sente medo por estar só num mundo desconhecido. Sem sair do sofá, contempla as paredes onde surgiram as imagens fantásticas. Um barulho no salão contíguo faz ele girar o pescoço. "Deve ser o Porfírio retornando - pensa". Procura levantar a cabeça acima do espaldar do sofá. Vê um andróide cruzar o salão. Retrai-se, deixa o corpo cair e fica algum tempo sem se mexer. O silêncio volta ao recinto, e ele arrisca um olhar. Não vê mais o robô e levanta-se. Avizinha-se da parede e a atinge com os dedos. "É igual à da minha época, revestida de argamassa. Como pôde desafiar a foronomia, para fazer surgir aquelas cenas fantásticas? - pergunta aos seus botões". Um ruído do lado de fora da casa o atemoriza novamente. Caminha até o meio do salão. Quando a porta se abre, aparece Porfírio. - Que cara é essa, Fúbio?... Viu algum fantasma? - É que ainda não me habituei com o seu mundo... Fico sobressaltado com qualquer estrépito. - Mas você vai se acostumar. - Outra coisa que me assusta é o caso das mulheres... Por que elas ficaram inférteis?... Você disse que o problema começou no século XXII... Por que ninguém descobriu a causa da doença? -
Não foi doença, Fúbio... As mulheres procriavam, apesar de
ser em certos períodos... Não consideramos o que aconteceu nos séculos
XXII e XXIII uma enfermidade, mas sim um fenômeno... Os habitantes atuais
da Terra não estão preocupados em descobrir a causa... Todos estão
satisfeitos com o nível de vida que levam. E sabem que o motivo é
pelo baixo índice demográfico... No século XXII, porém,
o mundo vivia atormentado com a ocorrência do fenômeno da esterilização
temporária. Os Governos daquela época gastaram fortunas em programas
científicos, mas não conseguiram decifrar a razão da infertilidade
das mulheres. - Os jornais do século XXII noticiaram sobre o caso? - Sim, Fúbio. - Gostaria de vê-los... Creio que deve haver bibliotecas públicas para eu ler esses jornais. - Bibliotecas!?... Não existe mais isso, Fúbio... Os livros e jornais da sua época estão guardados em museus, espalhados pelos bairros das cidades... Só servem como peças de antigüidades, nunca como consulta... Todas as informações sobre o passado e presente da Terra estão em forma de digitação... É muito simples fazer uma consulta sobre o saber humano e acontecimentos de qualquer época do nosso planeta. - O local onde podemos consultar é muito longe da sua casa? Porfírio fita Fúbio e sorri. Com a ajuda do braço faz o amigo o acompanhar. Eles atravessam outro salão e entram num espaçoso cômodo com complexas mobílias. Fúbio está bastante curioso. Permanece calado, embora com fisionomia interrogativa. Porfírio senta-se junto de uma mesa e faz Fúbio também se acomodar numa cadeira. O rapaz admira curiosa e minúscula máquina em cima da mesa. - Esta maquininha é na verdade um intricado complexo cibernético... Por meio dela, podemos consultar tudo o que o saber humano criou e publicou em diversas épocas... Todas as notícias estão aqui... Vou atender seu pedido... Você vai ver os jornais do século XXII, que noticiavam alarmados sobre o fenômeno da infertilidades das mulheres. Fúbio não vê nenhuma tela. Não sabe como o pequenino aparelho pode fazer o que Porfírio diz. - Mas como? - pergunta. Porfírio aperta um botão. - Este aparelhinho cibernético é um guia que capta as informações de uma enorme central computadorizada que contém todos os dados do conhecimento humanos em qualquer época... Olhe para a parede em frente. Fúbio levanta os olhos para uma parede igual a do outro compartimento em que viu as imagens da família de Porfírio. Porfírio aperta outro botão na minúscula máquina. Várias luzes coloridas aparece como uma mágica na parede. - Nossa! - exclama Fúbio. - Não se espante, Fúbio... Estamos no século XXX. - Fantástico!... Todas as residências do Rio de Janeiro têm estes aparelhos cibernéticos? - Em todas as residências do mundo... Em todos os lugares, Fúbio... Nas escolas... nos locais de trabalho e diversão... Em qualquer lugar, você encontra um. Porfírio manipula a máquina cibernética. - Digitei o código de entrada dos periódicos do Rio de Janeiro do século XXII ... Vamos examinar os jornais brasileiros da época em que apareceu o fenômeno da esterilização temporária. Eles ficam bastante tempo a examinar os jornais dos séculos XXII e XXIII. As notícias iniciais são alarmantes e falam sobre a possibilidade da extinção da raça humana por causa da falta de nascimentos. Os jornais do século XXIII, porém, são otimistas e enaltecem a desaceleração demográfica. Porfírio interrompe a leitura. - No início do século XXIII, a Humanidade compreendeu a importância de uma população reduzida... A partir de então, ocorreram melhorias em diversas atividades, desde a científica e tecnológica até a social. - Mas as manchetes dos jornais que lemos eram sobre grandes tragédias, falências e crises econômicas. - Ah!... Sim... Sim, Fúbio... Mas isso foi no século XXII, no começo da era da esterilização temporária... No primeiro ano que não nasceu ninguém na Terra, as indústrias e as empresas obstétricas e pediátricas e, também, o comércio de toda a parafernália infantil quebraram... Aliás, toda a sociedade de consumo de massa sofreu profundamente com a queda da natalidade... O consumismo estava enraizado no mundo desde a Revolução Industrial do século XIX. A partir do século XX, tornou-se uma espécie de verme devorador, cuja energia alcançava mais força com os aumentos desordenados e progressivos da população... A sobrevivência da era consumista tinha elo estreitamente relacionado com o superpovoamento da Terra. - Então, a sociedade de consumo era contrária ao controle da natalidade? - Exatamente, Fúbio. - Eu nunca meditei sobre esse fato. - Quando a população começou a diminuir, os donos da sociedade de consumo de massa não admitiam nascer crianças em intervalos de tempo... Queriam tudo como era antes... Assim, ajudaram financeiramente a tentativa dos Governos em descobrir a causa da infecundidade... Como os cientistas não obtiveram êxito, os empresários do consumismo partiram para uma empreitada utópica e fantástica. Convocaram e reuniram os maiores geneticistas do mundo, com a finalidade de executar um projeto incrível: a criação artificial de superespermatozóides. - Superespermatozóides! - Sim, Fúbio... Os donos da sociedade de consumo achavam que a razão da infertilidade das mulheres não era delas. Mas sim porque os gametas masculinos tinham se enfraquecidos por algum motivo, não conseguindo mais atingir com facilidade o óvulo no útero... Chegaram a esta conclusão em virtude dos períodos de esterilidade da mulher seguidos de outros de fecundidade... Com a criação dos superespermatozóides, eles supunham que tudo iria voltar à normalidade do início do século XXII, ou seja, nascimentos de quatro milhões de crianças por dia. - Eles conseguiram?... Produziram os superespermatozóides? - Sim, Fúbio... Foi fabricado em laboratório, a partir de espermas de alguns homens selecionados, que dotaram os gametas artificiais com os caracteres hereditários masculinos. Assim que a produção em massa foi iniciada, eles contrataram equipes para despejarem milhares de espermatozóides artificiais nas vaginas das mulheres. - E elas?... Consentiram?... Deixaram eles fazerem isso? - Foram forçadas, Fúbio... Agarradas e amordaçadas, enquanto eram derramados em suas vaginas os tubos com os superespermatozóides. - Que coisa horrível!... Ninguém impediu tal violência? - Não, Fúbio... Quando isso aconteceu, nos primeiros anos do fenômeno da esterilização, apesar dos poucos nascimentos, o mundo estava prestes a explodir demograficamente... Era uma sociedade descontrolada, que não conseguia obstar as violências em cada esquina das cidades... Por isso, as mulheres ficaram indefesas até dentro de seus lares... Além do mais, as turmas sinistras de propagadores dos superespermatozóides artificiais atacavam as mulheres dos redutos mais miseráveis da população, porque essas não tinham o poder de fazer ouvir as suas reclamações. - Mas o que interessava à sociedade de consumo o nascimento de crianças de classe tão deplorável?...De poder aquisitivo quase nulo!? - O consumismo atingiu todas as classes, inclusive a pobre, que era maioria bastante acentuada da sua época até o final do século XXII... Havia milhares de coisas que também o pobre tinha condições de adquirir. A norma para a prosperação desse tipo de indústria de consumo era a produção de massa, visando milhões e até bilhões de compradores, mesmo que muitos fossem indigentes... Por isso, é que eles inseminaram as mulheres da classe baixa daquele jeito brutal. Porfírio nota a revolta no semblante de Fúbio. - É, Fúbio... A ganância é uma ambição que faz o homem se transformar em diabo... Mas, felizmente, os superespermatozóides fabricados em laboratório não surtiram o resultado que os donos da sociedade de consumo esperavam, pois ficou provado que não possuíam o mesmo efeito dos espermatozóides normais do homem... Mulher nenhuma ficou grávida com aquela brutalidade... As crianças continuaram a nascer em certos períodos, não por vontade dos geneticistas, mas sim pelo fenômeno da fecundação temporária... Quando terminou o fenômeno da infertilidade temporária, o mundo já era outro, quase igual ao atual. Assim, mesmo com as mulheres férteis o tempo todo, a própria sociedade resolveu controlar os nascimentos... Estava consciente dos benefícios decorrentes de uma população pequena. - Então, no meu século, era a sociedade de consumo que tornava inviável o controle da natalidade? - Exato, Fúbio... Para os donos da sociedade de consumo, o aumento populacional significava vender mais... Ter mais lucros... Ser mais ricos e poderosos... Por isso, o fenômeno da esterilização temporária fez com que gastassem uma fortuna em pesquisas científicas para neutralizá-lo. Queriam a todo custo impedir que a população continuasse a diminuir... Não conseguiram nem fazer clones de seres humanos. Fúbio está atento ao amigo do ano 3000. Porfírio prossegue na narrativa. - Mas a sociedade de consumo de massa foi derrotada... No lugar dela, nasceu uma civilização nova e feliz, onde as pessoas têm tudo ao seu alcance. - Eu acho que a felicidade total também traz problemas, pois provoca tédio ao ser humano. - Nada disso, Fúbio... Esta estória é do seu século... Não é verdadeira... Viver permanentemente feliz é um estado sublime que o homem do seu tempo não conheceu. Por isso, igualmente não tinha direito de definir se era prejudicial... Agora, no século XXX, só há ventura e paz; e todos são felizes justamente por causa disso... A Terra vista do espaço é azul... Por esse motivo e por sermos afortunados, chamamos o nosso planeta de Paraíso Azul. Porfírio levanta-se. Fúbio o acompanha até a porta da saleta. - Há também sofrimentos, Fúbio... Mas são aqueles normais da vida... Por exemplo, o falecimento de um ente querido... A morte ainda existe, apesar do avanço milenar da Medicina... Isso faz com que as pessoas sofram com o passamento dos amigos e familiares... A maioria das pessoas do século XXX morre de velhice... Os jovens, só por acidentes. Mas, se forem socorridos antes da paralisação cerebral, têm boas chances de sobreviver. O cérebro é a única parte do corpo que ainda se gasta com o tempo... Que envelhece... Que é vítima de avaria... Por isso, as pessoas morrem... Podem-se substituir todos os órgãos humanos por peças não naturais, menos o cérebro. - E as máquinas?... Não pensam como nós? - Não, Fúbio... Não atingiram a perfeição do processo mental igual ao nosso... O cérebro artificial não tem vida. Os robôs cibernéticos são apenas máquinas... Não têm almas... A alma existe, Fúbio... Ela está no cérebro humano junto com a vida. - Há muitas pessoas com órgãos artificiais? - Não muitas, Fúbio... A Medicina preventiva no século XXX é excelente... É difícil alguém contrair doenças graves... As enfermidades provocadas por vírus, bactérias e fungos não existem mais. Foram banidas há dois séculos... As poucas pessoas que vivem com um ou mais órgãos artificiais esquivam-se de ter filhos. - Por quê? - Para evitar que nasçam com problemas congênitos por causa do órgão artificial dos pais... O homem do ano 3000 não é individualista... Ele age e pensa em prol do futuro da Civilização... As pessoas só se casam após os trinta anos de idade, depois de se divertirem muito em estado de solteiros... As mulheres jovens evitam ter filhos... Só o têm também após os trinta anos... E apenas um filho ou no máximo dois. Eles vão para o quintal e sentam-se num banco ao lado de extensa jardineira, com variedades de roseiras sarmentosas e multicoloridas, que exalam suave e agradável perfume pelo ambiente. Os cães aparecem. Abanam os rabos e farejam os pés de Fúbio. O rapaz repara, como da primeira vez que a viu, que a fêmea de cor branca e preta não se afasta e nem tira os olhos de Porfírio. - Esta cadela é muito agarrada a você. - Ela é bastante carinhosa... Nasceu aqui em casa... É nulípara. - Hã... Então, é isso... As cadelas nulíparas têm muito mais afeição pelo dono do que uma que já teve filhotes. - Observo que você não tem medo deles... Você é cinófilo? - Sim... Já criei muitos cães, quando era solteiro... O último foi pouco antes do meu casamento com Pamela. Fúbio sente frio intenso ao lembrar da esposa. Porfírio nota. - O que houve, Fúbio?... Parece que você vai desmaiar! - Senti uma vertigem, mas já estou melhor... Não consigo entender esta minha situação. Estou com saudades imensas dos meus familiares... Será que não vou retornar jamais ao meu tempo? - É uma resposta difícil... Você tem que fazer força para se acostumar com esta situação inusitada. - Eu sei... Mas às vezes minha mente parece que quer sair do meu corpo. Fúbio olha para a cadela nulípara e passa suavemente a mão em sua cabeça. - Eu dizia que o último cão que possuí foi pouco antes do meu casamento com Pamela... Eu gostava muito dele... Ele morreu repentinamente... Como eu sofri... Eu acho que a angústia pela morte de um animal é mais acentuada do que o falecimento de uma pessoa igualmente amada, por causa da discriminação e diferenciação que muita gente faz sobre o amor de alguns seres humanos para com os bichos... Por isso, na morte de um cão, sofremos na solidão, mesmo com muitas pessoas ao nosso redor. - Concordo plenamente com você, Fúbio. Fúbio fixa o olhar demoradamente nos cães deitados no chão. Sua mente vaga por diversos pensamentos. Relembra a conversa sobre a Fundação Nizolo. Vira-se para Porfírio. - Como a Fundação Nizolo descobre os crimes?... Como ela consegue saber o paradeiro dos criminosos? - Não sei, Fúbio... É uma investigação ultra-secreta... O importante, porém, é seu papel preponderante para o mundo atual... O povo está satisfeito e a trata com respeito e carinho. A conversa é interrompida com a chegada da mãe de Porfírio. Fúbio levanta-se para cumprimentá-la. Depois, torna a sentar. Fica calado no banco, enquanto mãe e filho dialogam. Um pouco depois, sente algo se movimentar no céu. Olha para o alto e vê um PVM lentamente sobrevoar a residência. A mãe de Porfírio sai em direção ao pátio do outro lado da casa. Fúbio espanta-se ao ver o pião voador parado no ar. Passado alguns segundos na inércia, ele se move e começa a descer. - É meu pai que está chegando de Nova York. - Poxa!... Como veio depressa! Eles também seguem para o local do pouso do Pião Voador Multifário. Fúbio procura se acalmar perante os pais do amigo. Pouco fala. Só confirma com a cabeça tudo que Porfírio diz sobre a sua pessoa. À noite os quatro se reúnem na grande sala da residência. Uma hora depois, Fúbio fica aliviado, quando Porfírio o chama para ir ao seu quarto. Eles sobem ao segundo andar. No aposento, Fúbio mostra o suor na camisa. - Como fiquei nervoso perto dos seus pais... Tive medo de cair em contradição... Senti perigar a minha real identidade. - Eu observei sua intranqüilidade... Por isso, o trouxe para assistir as notícias de hoje no meu quarto... A partir de amanhã, começarei a esclarecer sobre o mundo do ano 3000... Estudaremos os principais acontecimentos dos últimos mil anos... Você tem que estar bem informado sobre o meu mundo, para ficar mais tranqüilo e seguro de si mesmo. Porfírio abre a janela. Fúbio chega perto do amigo. Debruça-se no peitoril e sente o ar fresco vindo do jardim e da intensa vegetação da Baixada Fluminense. Olha para o céu e vê a Lua cheia. Um estranho objeto luminoso em movimento ao lado do satélite natural da Terra chama sua atenção. Nunca tinha visto tal imagem nas suas perscrutações noturnas no século XX. Fúbio vê a luz desaparecer atrás da Lua. Porfírio aproxima-se outra vez da janela. - Que cara é esta?... Não vai me dizer que a Lua não era assim no século XX!? - Não é com a Lua que estou espantado... Ela continua bonita... Estava admirando um objeto que sumiu... Uma luz muito intensa... Parecia estar bem próximo da Lua. - Ah!... sim... sim... É uma espaçonave... Ela está na órbita da Lua. Neste momento, encontra-se na face oculta... Daqui a pouco, você a verá novamente. - Deve ser muito grande para ser vista daqui da Terra com aquele brilho. - Sim, Fúbio... É gigantesca... Por causa do seu tamanho não pode pousar na Lua... Ela foi construída no espaço, para fazer longas viagens pelo Sistema Solar... Quando regressa, sua carga é transferida para o nosso satélite natural em pequenos módulos, a fim de ser conduzida para a Terra em naves menores. Quando o encontrei no espaço, eu estava transportando os minérios descarregados na Lua por aquela colossal espaçonave. Porfírio aponta para a direção da Lua. - Lá está ela de volta! - É um espetáculo lindo! - exclama Fúbio com a boca aberta. - Há outras espaçonaves em jornadas pelo espaço sideral... Elas pertencem ao governo central da Terra... Demoram muito a retornarem, pois estão a distâncias enormes... Quando uma delas regressar e entrar em órbita da Lua, esta que estamos vendo já terá partido para outra missão... Normalmente, os habitantes da Terra só vêem uma astronave de cada vez em volta da Lua... às vezes, por coincidência, acontece de ter duas ou mais. Mas isso demora muitos anos.. Lembro-me da minha infância, quando uma noite, assisti ao espetáculo maravilhoso de três espaçonaves ao redor da Lua. - Uma sozinha já oferece esta ostentação que contemplamos... Fico a imaginar como seria belo ver três! Eles afastam-se da janela. Porfírio liga um aparelho que está em cima de uma mesinha. Aparece uma grande imagem na parede. - Isto é uma espécie da televisão do século XX - esclarece Porfírio. O programa é noticioso. Porfírio aproveita para iniciar suas aulas sobre o mundo do ano 3000. As imagens da televisão parecem que estão dentro do quarto, com o som surgindo de todos os lugares. O que mais o deixa perplexo é o real odor que vem das coisas televisadas. O aroma peculiar do mar, a fragrância da vegetação, as essências de muitos objetos e até o mau cheiro de outros. De repente, Fúbio estremece. Porfírio toca a mão de leve na cabeça do amigo. - Calma, Fúbio... Eu devia ter falado com você, antes de aparecer este povo na tela... São cenas de outro corpo celeste... De um mundo extraterrestre. - Extraterrestre!... Como são anômalos!... Como são diferentes de nós! - São seres de uma galáxia a milhares de anos-luz da Terra... Não poderiam ser iguais a nós... Estas imagens vêm do planeta Virpa. Fúbio não tira os olhos da imagem. Porfírio prossegue a sua explicação. - Nós captamos reproduções dinâmicas de dois mundos inteligentes. O planeta Virpa é habitado por uma raça superior... Estas cenas que agora estão passando são de outro planeta... É Furpa, também afastado de nós por milhares de anos-luz. - Eles se comunicam com a gente? - Não, Fúbio... Nós é que atraímos os sinais de televisão desses mundos além do espaço intergaláctico, por intermédio de possante radiotelescópio instalado em Plutão, que chegam à Terra através de repetidoras em Saturno, Marte e Lua... Não há possibilidades de contato com eles, em virtude da distância astronômica... As imagens que estamos vendo de Virpa e Furpa são de um passado remoto... Viajaram pelo espaço na velocidade da luz, a trezentos mil quilômetros por segundo... Como a distância é enorme, essas imagens demoraram milhares de anos para chegar à Terra. - Incrível! - Talvez nem existisse a Terra, quando essas ondas luminosas partiram desses planetas... E só agora estão chegando! - Incrível!... Quer dizer que eles não sabem que estamos vendo seus programas de televisão? - Exato, Fúbio... Nós, por outro lado, ignoramos se esses dois planetas ainda estão no firmamento. - Será que um planeta mais adiantado do que o nosso possa também estar roubando imagens de televisão da Terra? - Pode ser, Fúbio. - Será que estamos sendo observados por seres extraterrestres desde o advento da televisão no século XX? - É provável que sim, Fúbio. - Isso nunca me passou pela minha cabeça!... Imagens de televisão da Terra ultrapassando espaços estelares!... Chegando a mundos extraterrestres! - É uma hipótese possível... Nós do ano 3000 conseguimos apanhar sinais de televisão de dois planetas fora da Via Láctea, a nossa galáxia. Assim, acredito que, em muitas partes do Universo, seres vivos e superinteligentes saibam da nossa existência, desde o século XX, através do poder de captar as nossas ondas de televisão. A luminosidade do quarto perde um pouco da sua força. - Vai faltar luz! - alerta Fúbio. - Não... Houve queda na energia da casa por causa do desgaste de um dos fotônogos. - Fotônogos!? - É a fonte energética do século XXX... O Babe já vai trocar o cartucho velho por um novo... Daqui a pouco, a luz voltará ao normal... Estamos funcionando com o cartucho de fotônogo reserva. - Este andróide faz tudo na casa!... Mas não consegui entender o que é fotônogo. - O fotônogo é uma potente forma de energia bastante superior às forças energéticas do século XX, como a eletricidade e a energia termonuclear... Substitui todos os tipos de combustíveis conhecidos no seu tempo. As usinas atômicas e hidrelétricas não existem mais.. . O fotônogo não é radioativo e não causa mal nenhum à ecologia... Os cartuchos, depois de usados, podem servir de brinquedos para as crianças e cães, sem prejuízo nenhum para a saúde... Podem ser quebrados sem perigo, pois o material no seu interior é inofensivo... Nem o cartucho com carga faz mal, mesmo se for partido. Porfírio olha para Fúbio e sorri. - Compreendo sua perplexidade, embora seu espírito já esteja preparado, em virtude de descobertas de outras coisas fora do comum para sua época. - Mas esta é a mais fantástica. - De fato, Fúbio... Um cientista do século XX jamais poderia ter imaginado um pequeno e simples cartucho, que pode ser escondido na mão fechada, proporcionar energia sem precisar daquele gigantesco complexo de usinas hidrelétricas ou nucleares e as respectivas redes de distribuições. A luz volta a brilhar com intensidade. - O Babe já trocou o fotônogo usado por um novo... O fotônogo é a maravilha do século XXX... A energia para o funcionamento cibernético de toda a nossa residência vem dele... Tudo no meu mundo é regido pelo fotônogo... A iluminação pública e das residências, as indústrias, PVMs, naves espaciais e muita coisa mais. Porfírio desliga a televisão. Os dois vão à janela. Apreciam a Lua e a nave espacial ao seu redor. - Aquele carregamento de minério que eu trouxe da Lua é o principal componente do fotônogo... É um metal que não existe na Terra, mas é abundante nos planetas afastados do Sol... Seu nome é jupitônio, pois foi em Ganimedes, satélite do planeta Júpiter, que o homem viu pela primeira vez esse elemento revolucionário. - Então... O contêiner que eu estava escondido continha jupitônio? - Sim, Fúbio. - Que perigo!... Eu tão perto de tanta energia. - O jupitônio não é perigoso, Fúbio... Não tem radioatividade. Porfírio afasta-se da janela. -
O fotônogo solucionou um óbice grave no setor de energia. Na segunda
metade do século XXI, acabaram as reservas mundiais de petróleo
e urânio. Na mesma época, cientistas aperfeiçoaram os reatores
de plutônio auto-regeneradores, que criavam suas próprias energias
para exportação... Mas foi o genial fotônogo que realmente
resolveu o problema de energia do mundo. Porfírio sorri ao ver que Fúbio continua com a cara espantada. - Agora, vamos dormir... Amanhã, iremos dar um passeio pela cidade... Você vai ficar deslumbrado com outras descobertas. - Maior do que essas todas que já vi?... Maior do que o fotônogo? - Não sei... talvez... talvez seja maior... Ao menos pelo prazer que você irá sentir... Mas só amanhã você saberá o que é. Porfírio faz aparecer duas camas ao apertar um botão. Em poucos minutos, os dois estão deitados. Fúbio nota que o amigo adormece bem rápido. Ele sente-se só. Medita sobre a sua incrível situação. Não consegue compreender o abismo de mil anos separando-o da sua época. Pensa na esposa Pamela, no pai, na mãe, no irmão e no filho que nasceu durante a viagem à Marte. A possibilidade de nunca mais vê-los faz sentir-se profundamente triste. Uma dor imensa toma conta do seu coração. Chora baixinho, para não despertar o novo amigo. Levanta-se e examina a cama ao lado. Porfírio continua a dormir. Caminha até a janela, mas volta ligeiro e deita-se. Está insone, porém, com o corpo bastante cansado. Afinal, consegue pegar no sono. Na manhã seguinte, acorda ao ouvir um ruído no quarto. Levanta a cabeça e vê Porfírio já arrumado para sair. - Já ia chamá-lo, Fúbio... Escolhi estes trajes para você usar. Porfírio segura as roupas excêntricas do século XXX. - Acho que cabem certinhas em você. Enquanto Fúbio se veste, Porfírio apanha dois cintos bastante esquisitos e dá um para ele. O rapaz o segura muito espantado. A fivela é bem grande e tem um painel, que parece ser um controlador manual. - Teremos que usar esses cintões? - É claro, Fúbio... Sem eles é impossível a gente voar. - Voar!? - Sim... Nós vamos voar... Estes cintos são antigravitacionais. - Será que estou entendendo bem?... Esses cintos anulam a gravidade? Neutralizam a força do campo gravitacional sobre nossos corpos? - Reduzem... A gravidade zero não é alcançada... O cinto diminui a dinâmica de atração... O peso do nosso corpo fica igual ao de um pássaro. É só controlar estes botões, para se poder voar até uma altura máxima de mil metros. Eles descem à cozinha e fazem o desjejum. Depois, colocam os cinturões e seguem para o jardim. - Agora, voaremos até a linha do TURE... Fica próxima daqui, Fúbio. - Explica-me primeiro o que é TURE. - É o veículo de massa do século XXX... TURE é a sigla de Transporte Urbano Rotativo Esteirado. - Fiquei na mesma, Porfírio. - São linhas viárias subterrâneas. - Igual ao metrô do século XX? - Parecido apenas no método, pois o metrô de século XX era sistema muito rudimentar... Digamos, uma tênue embrionária do atual TURE... Vamos voar até a estação... Lá será mais fácil você entender minhas explicações. Porfírio sobe ao ar igual a uma pluma. Fúbio fica nervoso e não tem coragem de levantar vôo. Muito fascinado, vê o amigo dar voltas em cima da casa a baixa altura. Porfírio desce ao lado dele. - Está com medo, Fúbio?... Nem parece um astronauta... É só fazer o que lhe disse: impulsionar o corpo para o alto... Como se fosse um pulo. Depois, com os braços e as pernas, você se desloca e se direciona no ar... É só fazer como se estivesse numa cabine de uma nave espacial em estado de imponderabilidade. Fúbio toma coragem e faz força impelindo o corpo para o alto. Porfírio o segue, segura seu braço e o reboca pelo espaço. Os dois ganham altura. Fúbio sente a mesma sensação do salto de avião antes do pára-quedas abrir. Lembra-se dos inúmeros exercícios de pára-quedismo feitos na Força Aérea Brasileira e na Nasa. Por isso, não encontra dificuldade. Logo aprende a voar. Porfírio percebe a agilidade do amigo. - Vou me afastar de você, Fúbio... Você está voando igual um pássaro. - Estou muito tranqüilo, Porfírio... Como é bom estar aqui em cima... solto... dando cambalhotas. Os dois voam sorridentes. Um pouco adiante, Porfírio faz sinal para o amigo. - Vamos descer, Fúbio. Eles pousam em uma grande praça arborizada. Porfírio indica a entrada de um túnel. - Lá embaixo é a linha do TURE. No fim da escada, Fúbio fica extasiado com a feérica cena de cores, luminosidade e movimento. Vê, com bastante perplexidade, a fantástica locomoção de objetos luzentes, parecidos com minúsculos vagões, nos dois lados da plataforma. Percebe que os que passam pela sua esquerda são os mesmos que viu à sua direita há frações de segundos, antes de fazerem a curva no final da estação. Olha para a outra extremidade e nota que esses movimentos inversos perdem de vista. Os dois rapazes ficam parados no último degrau. Alguns transeuntes descem a escada, passam por eles e se colocam em pequenos quadriláteros verdes na beira da plataforma. Fúbio observa que há muitos lugares vazios e outros ocupados da cor verde, mas que os vermelhos estão todos sem gente. A velocidade dos objetos começa a diminuir. Numa sincronia impressionante, pára tudo: como se fosse uma parafernália de brinquedo infantil. Fúbio descobre que estava enganado: não são vagonetes; mas sim poltronas, dentro de uma cabine de vidro, engatadas umas às outras. Algumas pessoas desembarcam, e as que estavam nos quadriláteros verdes sobem e sentam-se nas poltronas. Ao reiniciar o movimento, Fúbio vê muitos quadriláteros do piso mudarem de cor: de verde para vermelho e de vermelho para verde. Olha bastante curioso. Porfírio quebra o silêncio. - Fiquei calado de propósito, para você observar esta linha do TURE, que liga a Baixada Fluminense à Cidade... Agora, é muito mais fácil explicar o que é Transporte Urbano Rotativo Esteirado... Estas poltronas são movimentadas por engrenagem parecida com esteira rolante e circulam em volta de uma imensa plataforma com o formato de uma elipsóide achatada. - Será que estou entendendo bem?... Esta plataforma em que estamos é contínua?... Vai da Baixada Fluminense até a Cidade? - Sim, Fúbio... Nós estamos numa das extremidades... A outra é no Centro da Cidade... São 75 mil poltronas unidas, que formam um anel elíptico no percurso de ida e volta... A cada intervalo de trinta segundos, o mecanismo pára em toda a sua extensão, e as pessoas embarcam e desembarcam... Já sei que você observou os espaços verdes e vermelhos no piso da plataforma. - Sim... Notei também que as pessoas só ficam no verde. - É simples, Fúbio... As poltronas que vão parar defronte dos quadriláteros verdes estão vazias... Nos de cor vermelha, ocupadas... Vamos ficar naqueles dois quadrados verdes que estão juntos. Assim, sentaremos em poltronas pegadas. Eles caminham até o local apontado por Porfírio. O fantástico trem do século XXX pára, e o vidro se abre automaticamente. Os dois se instalam nas confortáveis poltronas. O TURE se movimenta e, em apenas cinco segundos, atinge velocidade incrível. No painel inclinado e à altura do seu umbigo, Fúbio vê imagens de paisagens urbanas. Levanta a cabeça e olha para Porfírio de costas para ele na poltrona adjacente. O amigo vira-se e sorri. - Estas cenas que você assiste no vídeo vêm da superfície... À medida que o TURE avança, vai captando a paisagem e a movimentação lá de cima... É bom para o passageiro se distrair. Fúbio abaixa os olhos e contempla no vídeo a bela visão do Rio de Janeiro do ano 3000, com as ruas arborizadas e os prédios residenciais cercados por grandes bosques. No painel, há também um letreiro informador que indica os nomes dos logradouros da próxima parada. Um pequeno mostrador, com contagem regressiva, registra os segundos que faltam para o TURE parar. Eles chegam ao Centro do Rio e fazem baldeação para outra linha, que liga o Centro à Zona Sul. Em Copacabana, vão a pé até a praia, mas não demoram muito na areia. Resolvem sobrevoar por vôo próprio a Baía de Guanabara. Contornam o Pão de Açúcar e voam para o Centro da Cidade. - Lá está o edifício da sede da Fundação Nizolo - aponta Porfírio ao baixar a altitude no Centro do Rio. Do
Centro da Cidade, retornam à Baixada Fluminense pelo TURE. Chegam em casa
cansados. Fúbio está muito mais sereno do que no dia anterior. Ao
entrar no salão da residência, brinca até com os pais de Porfírio.
Na parte da tarde, Porfírio dá início aos estudos sobre as
novidades dos últimos mil anos. Fúbio fica fascinado com tudo que
o amigo mostra na mesma aparelhagem cibernética em que viu os jornais do
século XXII e XXII no dia anterior. Horas depois, Porfírio resolve
parar as aulas. - Muito bem, Fúbio... Você já aprendeu muita coisa hoje... Já pode conversar com outras pessoas do meu tempo sem dificuldades... Amanhã, continuaremos os estudos. - Quantas maravilhas aconteceram no mundo em mil anos!... Continuo surpreso com a Terra do ano 3000... É realmente o Paraíso Azul. - Você ainda vai descobrir muita coisa... Mas vamos com calma... Amanhã, prosseguiremos com as lições. As feições de Fúbio mudam repentinamente. - O que houve? - pergunta Porfírio. - É um fato sobre minha pessoa... Como fui o primeiro astronauta do Brasil, creio que alguma enciclopédia do século XXI possa ter alguma coisa sobre mim. - Vamos examinar. Porfírio manipula a máquina. Em poucos segundos, surge na tela a capa da enciclopédia procurada. Ele digita o nome do amigo. A página do verbete com a palavra Fúbio aparece na parede. Eles lêem extasiados: "Fúbio Rolando Rangel - primeiro astronauta brasileiro. Realizou um vôo ao planeta Marte, em companhia de um norte-americano e um russo. Nasceu no Rio de Janeiro, em 19 de novembro de 1973 e faleceu na mesma cidade em 10 de maio de 2020". Fúbio cai da cadeira. Porfírio também fica assustado e ajuda o amigo a se levantar. - Eu morri... Eu morri no ano de 2020... Não é possível... Então, eu retornei à Terra... Voltei ao Rio de Janeiro da minha época. Porfírio, em silêncio, relê o que está escrito. Fúbio fica bastante agitado. - Vamos tentar saber mais fatos sobre mim... Quero saber a causa da minha morte... Quero saber como eu morri... Como regressei à Terra. Eles consultam outras obras e jornais de maio de 2020, que não acrescentam mais nada além do que souberam no texto do primeiro livro. Procuram também pesquisar sobre os astronautas David Fine e Bóris Katov. Acham verbetes ainda mais sucintos sobre o norte-americano e o russo, com as datas de seus nascimentos. - Não tem quase nada sobre meus companheiros de viagem... Não sabemos se eles conseguiram retornar à Terra. Porfírio fica calado. Somente fita o amigo. - Não é possível, Porfírio... A notícia sobre mim é terrível... Minha cabeça não pára de rodopiar... Como posso ter morrido?... Como posso, se estou aqui? - O desvio temporal que você entrou é incompreensível para a mente humana... Mas a realidade é que você está aqui em pleno ano 3000... Você deve se acalmar... Afinal, está começando nova vida... É como tivesse renascido adulto... Você está num mundo muito superior ao seu. - Já deu para notar que a Terra do ano 3000 é melhor para se viver do que no século XX... Porém, há coisas insubstituíveis... Os meus familiares... A minha esposa e meu filho que nasceu sem eu estar presente... Jamais os verei... Eles morreram para mim. Fúbio senta-se na cadeira e chora. Porfírio procura confortá-lo. - Você tem razão em estar sofrendo... Mas tem que vencer esta adversidade... Deve manter a lembrança dos seus entes queridos, mas não deixe que essa recordação o destrua... Você tem que iniciar nova vida... Nós estamos num mundo mais feliz do que o da sua época. - Você tem razão, Porfírio... Tenho que considerar que a Pamela, o Aquiles, meu pai, minha mãe e meu irmão estão mortos... Afinal, se passaram mil anos... Ninguém consegue viver tantos anos... Só eu... E não sei como aconteceu. Eles se levantam e vão para fora da casa. Passam o final da tarde percorrendo a grande propriedade da família de Porfírio.
Capítulo 4
A vida de Fúbio no último ano do século XXX vai se tornando normal. Todos os dias, à tarde, estuda com Porfírio sobre os acontecimentos do mundo nos últimos mil anos. Quase sempre procura ler os jornais da época que ocorreu o desastre com a sua astronave, mas não encontra nada sobre a sua volta à Terra e nem dos dois companheiros de viagem. A data de 10 de maio de 2020, dia da sua morte, não sai da sua mente. Ao chegar o dia do passeio a cavalo, porém, encontra-se mais tranqüilo e feliz. Está ansioso por conhecer os amigos e a namorada de Porfírio. Bem cedo, os dois rapazes partem para o grande clube de equitação, no Parque Municipal dos Eqüídeos, nas bordas da serra da Tijuca. Fúbio mostra-se encantado com a beleza do lugar. Olha para as montanhas cobertas por densas florestas, no mesmo lugar que no seu tempo existiam favelas. Vira o rosto ao notar que uma bonita moça se aproxima. Porfírio apresenta a jovem ao amigo. - Esta é Aline. - Ao longe, já sabia que era Aline... Não esqueci sua fisionomia, desde o dia em que vi sua imagem na casa do Porfírio. - Também sei que você é o Fúbio, o grande amigo do meu namorado. Enquanto os três conversam, junta-se a eles um rapaz aparentando a idade de Porfírio. Ele cumprimenta Aline e demonstra muita intimidade com Porfírio. Fúbio não tira os olhos do recém-chegado. Porfírio percebe a sua demora em apresentá-lo. - Ah!... Que indelicadeza a minha... Esqueci de apresentar meu grande amigo do Planalto Central... Seu nome é Fúbio. Os dois se cumprimentam. Porfírio bate levemente nas costas do estranho. - Este é o Benito Nizolo. Fúbio o encara com admiração. O nome Nizolo lembra-lhe a Fundação Nizolo. Benito também o olha com ar interrogativo. Depois, vira-se para Porfírio. - Grande amigo do Planalto Central... Você nunca me falou que tinha um amigo lá... Você nunca mencionou nada sobre Fúbio, apesar da nossa amizade ser desde a infância. Porfírio fica sem graça. - Grande amigo é modo de se dizer... É que sempre converso com ele na base espacial... Nesta última viagem, soube que viria ao Rio de Janeiro para conhecer a cidade... Assim, ofereci a minha residência para ele se hospedar. - A sua família não tem casa no Rio de Janeiro? - indaga Benito. - Não - responde Fúbio, com a voz embargada. Aline interrompe, dizendo que vai apanhar o seu cavalo. Benito também se retira. Fúbio, com o corpo trêmulo, acompanha com os olhos até Benito Nizolo entrar na baia. Porfírio o puxa pelo braço. - Você não pode ficar assim tão intranqüilo... Notei que estava tremendo ao lado do Benito. - É que ele ficou desconfiado de mim. Será que vai fazer mais perguntas?... Será que o Benito pode descobrir que eu sou do século XX? - Que pensamento louco, Fúbio... Jamais alguém poderá desconfiar que você é do século XX... Pode ficar descansado.. Nunca passará na mente de uma pessoa que você viajou pelo tempo. - Você tem razão... Mas ele se chama Benito Nizolo. Tem alguma relação com a Fundação Nizolo? - É neto do Artur Nizolo, presidente da fundação. Eles têm mais três sobrenomes como todos os habitantes do século XXX, mas são conhecidos como Nizolo. - Você nunca procurou saber o segredo com ele? - Que segredo? - O método que a fundação usa para descobrir os autores dos crimes e o paradeiro deles. - Ora, Fúbio... Você ainda está pensando nisso... Nunca conversei com o Benito a respeito disso... Nem ele comigo... A sociedade do século XXX não se questiona sobre esse assunto... O povo da minha época não quer saber como a Fundação Nizolo soluciona os crimes... O essencial para nós é que os criminosos são presos rapidamente, com provas irrefutáveis para a Justiça... Isso que é importante... É isso que faz o nosso mundo ser muito mais feliz que o mundo da sua época... É isso que faz todas as nossas crianças andarem sorrindo pelas ruas. Fúbio abaixa a cabeça. Porfírio dá um tapinha em suas costas e diz que vai apanhar os cavalos para eles montarem. O rapaz fica sozinho e se distrai vendo o grupo de rapazes e moças nos dorsos dos eqüinos. O tropel de outros faz ele virar os olhos para os fundos das baias. Avista duas moças galopando. Reconhece Aline. Elas diminuem o galope e aproximam-se com os cavalos em marcha. Param a poucos metros dele. Fúbio fica embevecido com a fisionomia meiga e alegre da acompanhante de Aline. Também percebe que elas falam sobre ele. Disfarça e não encara diretamente as moças, mas pressente que elas olham em sua direção. "Estão conversando sobre mim. Tenho certeza. Como é bonita esta moça!" As duas afastam-se e juntam-se ao grupo. Fúbio observa os cabelos da jovem esvoaçarem pela ação do vento. Está tão aturdido com a aparição dela que não sente a chegada de Porfírio com os cavalos. - O que houve, Fúbio?... Você está tão esquisito... Imóvel e com o olhar distante. - Não é nada, Porfírio... É que ainda estou preocupado em me reunir com a juventude do ano 3000. - Deixe de bobagem, Fúbio. É só responder sobre assuntos que você já sabe... O que eu ensinei... Quando alguém falar alguma coisa que você desconhece, fique calado... Só balance a cabeça... Eu estarei por perto, para ajudá-lo. O rapaz monta no cavalo. Eles partem em direção ao pessoal. Fúbio vira-se para Porfírio. - Quem é a moça que está com Aline? - É a Fanny. Os dois juntam-se aos demais. Cavaleiros e amazonas sobem o morro em sinuosos caminhos pela floresta. Fúbio sente sensação estranha. Parece que retornou a um passado referente à sua época, e não a mil anos à frente. Tudo ao seu redor o faz pensar assim: o aspecto bucólico da montanha, com cheiro silvestre e o barulho da água que desce encachoeirada pelos córregos. Mas de duas dezenas de moças e rapazes avançando pela vereda, com suas montarias alazães, tordilhas e zainas. Fúbio não perde Fanny de vista. Com satisfação, nota que a moça vira-se diversas vezes em sua direção e gesticula com Aline. "Ela está falando de mim com a amiga". A turma pára numa enorme clareira Todos desmontam dos cavalos, espalhando-se e formando agrupamentos menores. Fúbio sente-se isolado. Porfírio, porém, o chama e o apresenta às moças e aos rapazes. Ele se entrosa na reunião alegre dos jovens, mas persiste a bispar Fanny e Aline, que estão um pouco além com outras pessoas. Porfírio vai ao encontro delas e deixa Fúbio com os desconhecidos. Ele sente-se inseguro, mas procura falar com seus acompanhantes. De repente, vê Fanny separar-se do seu grupo e vagar solitariamente pela clareira até a borda da mata. O rapaz observa que a moça lança um olhar para ele. Depois, ela some no bosque. Ele também arreda-se do pessoal. No meio do terreno, examina atentamente se alguém percebe sua movimentação. Os jovens continuam conversando alegremente. Num dos grupos, vê Porfírio abraçado com Aline. Verifica que ninguém o espia. Então, rapidamente, entra no mesmo caminho que viu a moça desaparecer. Logo adiante, avista Fanny saltando pelas pequenas pedras da mata. Tem a impressão que, mesmo de costas, ela está consciente que ele a segue. Subitamente, ela grita de dor e cai no chão. Apavorado, Fúbio corre, a fim de acudi-la. - O que houve? Você se machucou? - Meu tornozelo está doendo... Pisei em falso na pedra. Fúbio agacha-se. Segura a moça pela cintura e tenta erguê-la. - Não... Não... Não faça isso... Minha perna dói muito... Vamos ficar sentados até passar a dor. Fúbio senta-se. Fanny fita-o demoradamente. O rapaz fica extasiado com a beleza do rosto da moça. Mas procura desviar o olhar para o córrego próximo. Ela estica a perna machucada. - É aqui que está doendo. Ele curva o corpo e segura o tornozelo da moça. - Onde é que dói? - Bem aqui - aponta Fanny. Fúbio massageia com carinho o local durante alguns segundos. - Melhorou? - Sim... Já não está mais doendo. O rapaz torna a sentar-se ao lado dela. Sente-se alegre por estar bem junto da jovem, mas procura ficar calado. Fanny sorri. Resolve puxar conversa. - Você é amigo do Porfírio? - Sim... Eu me chamo Fúbio. - Eu já sei seu nome... Aline me disse... Nós estávamos ainda a pouco falando sobre você. Fúbio fica surpreso com a sinceridade da moça, que não esconde aquele fato que ele já desconfiava. - Ela só não me disse a sua idade... Qual é, Fúbio? Fúbio fica estonteado. Pensa nos mil anos que separam aquele momento da sua época. - Quantos anos você tem? - pergunta ela outra vez., bastante sorridente. - Vinte e oito. - Pensei que tivesse menos. Fúbio abaixa a cabeça. "Nem eu sei minha idade certa. Estou com o físico e a fisionomia dos vinte e oito anos que tinha, quando houve a tragédia com a nave espacial. Mas isso aconteceu há mil anos. É incrível! Na verdade, eu tenho mais de mil anos". - O que houve? Você ficou tão absorvido... Tão distante. - Não... Não, Fanny... Não houve nada. - Você sabe meu nome!... Como descobriu? - Eu perguntei ao Porfírio... Só não sei a sua idade. - Eu sou mais velha que você. Tenho trinta e um anos. Fúbio
fica espantado com a idade da jovem que parecia ter muito menos. Lembra-se de
que Porfírio lhe falou que as moças do século XXX só
se casam e têm filhos após os trinta anos. Estalidos de passos em
folhas secas, fazem eles levantarem as cabeças. Vêem Porfírio
e Aline se aproximando. - Eu caí e machuquei o tornozelo. Aline dá um sorriso malicioso para Fanny. Fúbio logo desconfia que Fanny caiu de propósito e fingiu-se machucada. Porém, procura mostrar-se ingênuo. - Foi uma pequena torção... Mas já passou - declara ele. - A dor terminou, graças ao seu amigo - murmura Fanny, olhando para Porfírio. Eles saem sorridentes do bosque e juntam-se aos demais participantes do passeio. Fúbio cavalga ao lado de Fanny. Sua felicidade é tão imensa, que consegue esquecer o problema de ser uma pessoa do passado. O surgimento de Fanny cria novo ânimo na vida de Fúbio. A moça não sai mais da sua cabeça. Nos dias seguintes, tem outros encontros com ela. Sem se aperceber, fica completamente apaixonado pela jovem do século XXX. Mas há constante luta em sua mente, pois a lembrança da esposa Pamela e o filho Aquiles faz ele retroceder o pensamento ao século XX. O mundo no ano 3000, porém, o contagia por motivo da felicidade total da população. Então, somando-se o amor correspondido com Fanny, sente-se também feliz. Resolve somente idear seu espírito para as coisas factíveis; e não em fatos impossíveis, como um reencontro com a esposa. Além do namoro, Fúbio continua os estudos com Porfírio. Aproveita para tirar dúvidas sobre o mundo do século XXX. - O Brasil é um país livre e soberano, não é? - inquire ele. - Exato, Fúbio. - Eu pensei que não fosse, pois já sei que há um governo único para toda a Terra. - Deixe eu explicar... Existem diversos países no ano 3000, com governos eleitos pelo povo em seus limites geográficos... Mas há um governo central, escolhido por todos os habitantes do Planeta... Esta direção centralizadora é quem coordena toda a administração na face da Terra, pois nossas leis são para todo o mundo e não uma para cada país, como era no seu tempo... Não há fronteiras na época atual... A Terra do século XXX é uma única nação... O poder judiciário é um só para todos os continentes, e a polícia é vinculada diretamente à Justiça... A função do poder executivo é administrar e fiscalizar... No século XXX, existem três poderes: povo, executivo e judiciário. - E o poder legislativo? - É o povo! - Mas... e os políticos?... Os deputados e senadores que são eleitos para defenderem o povo?... Não fazem parte do poder? - Não existem mais políticos, Fúbio... Não há mais deputados e senadores. - Mas como?... E a democracia? - É muito mais real do que no seu tempo. - Porfírio respira fundo. - Ao falar em democracia, fico emocionado, pois nós do século XXX temos um perfeito regime de soberania popular... Chegamos a um período de alta tecnologia cibernética... Este fato ajuda a organizar um sistema de verdadeira democracia. Fúbio está bastante curioso e não desvia o olhar do amigo. Porfírio prossegue na sua explanação. - O povo tem participação direta em todo o processo democrático... O cidadão comum, sem prerrogativa e remuneração, é legislador e eleitor ao mesmo tempo em sua própria casa, por intermédio da cibernética... A individualização do processo é fidedigna, pois a pessoa, ao dedilhar a tecla do computador, se identifica pelas impressões digitais. Assim, não há fraude eleitoral. Ninguém engana o computador... O cidadão do ano 3000 vota em quem ele acha certo para os poderes executivo e judiciário. Não há partidos. O eleitor escolhe sempre um governante digno, em virtude da alta faculdade altruística e esclarecida da população do mundo atual. - Você disse que todas as leis são mundiais? - Sim, Fúbio. - Se não há deputados e senadores, como é possível ser feita a legislação constante por toda a população da Terra? - Nem todos participam do direito de votar e legislar, mas, quando fazem, é por intermédio da cibernética, que torna o processo rápido e seguro... As crianças não participam por causa da idade. Aos adultos, é facultativo esse direito... Por outro lado, o povo é pouco chamado para reformar a legislação, porque as leis do século XXX são corretas e de interpretação fácil e única. E foram feitas para durar séculos e séculos... Praticamente, no mundo atual, não há o que legislar. Tudo já está feito em matérias de leis, que são antigas e perfeitas... O povo só é convocado, pelo poder judiciário, para aprovar ou reprovar as decisões dos governos. E essa consulta é feita pelos computadores a todos os eleitores em poucos minutos... Não se assuste, Fúbio... Não se esqueça que estamos a mil anos da sua época. Eles se levantam, e Porfírio muda de assunto. - Como vai a Fanny?... E o namoro? - Estou muito feliz com ela. - Eu fico alegre por vê-lo assim. A Fanny é uma boa moça. - Gosto muito dela... Amanhã, vamos passear pelo litoral da Baía de Sepetiba... Ela quer me mostrar o lugar... Pensa que eu não conheço. Vamos de TURE... Mas, depois, voaremos juntos com cintos antigravitacionais. No dia seguinte, pela manhã, Fúbio vai ao encontro da namorada. O céu está lindo, completamente azul. Os dois embarcam no TURE. Chegam em Guaratiba e colocam os grandes cintos. Sorridentes, voam pela Baía de Sepetiba. A moça gesticula com os braços e mostra os belos acidentes geográficos. Fúbio observa tudo e se assusta com a enorme diferença da região para a sua época. A vegetação é imensa e há poucas casas de veraneio. Ele aponta para uma pitoresca ilhota. - Mora alguém lá? - Não... É uma ilha deserta. - Vamos até lá... Precisamos descansar... Já estamos voando há muito tempo. - Vamos - grita ela bastante feliz. Eles descem na ilha e sentam-se à sombra das palmeiras. Ao longe, as ondas provocam sons ao bater nas pedras. Fanny e Fúbio trocam beijos apaixonados. De repente, vem à cabeça do rapaz imagens do século XX. A mente reproduz o rosto da esposa Pamela. Sua fisionomia torna-se melancólica, e seus olhos fixam o horizonte no mar. - O que houve, Fúbio?... Às vezes, sinto-o tão diferente... Você fica tão esquizóide. - Você acha, querida?... É por causa do mar... Eu gosto de olhar o mar. - Mas você também fica assim em outros lugares. - Você acha... Eu não noto este meu procedimento... Mas eu não sofro de esquizoidia... Não tenho tendência à solidão... Nem poderia ter com uma moça tão bonita ao meu lado. Ele toma-a nos braços e beija-a ardorosamente. Ela deixa-o envolvê-la por alguns minutos, antes de desvencilhar-se. Levanta-se, mas torna-se a sentar. - Eu gosto muito de você. E me preocupo com seus instantes depressivos. Você muda da alegria para tristeza com rapidez extraordinária... É completamente diferente dos outros rapazes... Em casa, eu medito muito sobre este assunto... Penso até que você seja um sideriano. Fúbio olha para Fanny com perplexidade. - Você é um sideriano? - interroga ela. Ele não sabe o que responder. "Sideriano! O que será isso? - pensa intricado. O Porfírio nunca me falou sobre sideriano. Tenho que proceder com cuidado. Essa palavra pode ser muito comum no século XXX. A Fanny ficará desconfiada, se eu falar que não sei o significado. Vou fingir que sei o que é." - Você acha que sou sideriano, Fanny? A moça balança a cabeça. - Não... Você não é um sideriano... A maioria dos siderianos é velha. Você é muito jovem para ser um sideriano. Fúbio continua perplexo, mas responde de imediato. - Eu não sou sideriano. Ela ri muito. Ele procura sair da conversa incômoda, com outra indagação. - O que você acha do ser humano do século XX? - Do século XX... Tão distante... Por que me faz esta pergunta? Fúbio estremece. Ao tentar sair do embaraço provocado pela palavra sideriano, entra num assunto que sempre o deixa nervoso na presença de alguma pessoa do século XXX. Mas esforça-se para aparentar calma. - Ontem, fiz pesquisa no computador sobre o século XX... Achei interessante. Fanny segura a mão do namorado. - Eu não gosto de me aprofundar em história antiga... Não sou boa conhecedora do século XX. Mas meu pai tem uma definição sobre aquela época... De tanto a proferir, já sei até de cor. Fúbio aperta a mão de Fanny com ansiedade. - Ele fala mal do século XX? - Sim... Para ele, as pessoas do século XX tinham estranho conceito sobre o valor da vida humana. Segundo meu pai, os novecentistas que se diziam esclarecidos, só o eram por interesses próprios ou de grupos. Enganavam o povo ao fazer transparecer que lutavam pelo bem estar da população, mas na verdade só queriam vantagens. Por isso, o século XX, segundo meu pai, foi marcado por injustiças sociais. - Ele tem razão. O mundo de hoje é bem melhor do que o do século XX - intervém Fúbio rapidamente, a fim de não despertar suspeita. - É mesmo... Viver naquele mundo superpovoado devia ser sufocante... Nós somos privilegiados, pois temos muito mais espaço... Eu queria ser mãe... Se eu fosse mãe, acho que me sentiria ainda mais feliz... Já cheguei na idade de ser mãe. O assunto provoca grande lasciva em Fúbio. Torna-se ardente e apaixonado. Sente um desejo imenso pela jovem. Percorre com os olhos as curvas bem feitas do corpo da moça. Fanny continua a falar, sem notar a transformação do namorado. - Mesmo com vontade de possuir um filho, não sofrerei se chegar à velhice sem tê-lo. - Mas você pode ter um filho... As mulheres podem ter um filho com qualquer idade... Até com menos de vinte anos... Só que as moças só decidem engravidar após os trinta anos... Não é, Fanny? - Lógico que sim... Que pergunta esquisita... Você devia saber que isso é coisa normal, Fúbio... Todo mundo sabe. Fúbio tenta justificar-se. - É claro que sei... Mas é que estou um pouco tonto... Estou perdidamente apaixonado por você... E esta conversa mexeu com meus instintos... Estou sentindo um desejo enorme por você. Ela quer se levantar ao perceber as intenções do rapaz. Ele a abraça e não permite que ela fale, beijando sua boca. Os dois rolam pelo revaldo. Fúbio move a mão e começa a desabotoar as vestes de Fanny. Ela reage com voz enérgica. - Não, Fúbio... Não quero que faça isso... Quero casar com você primeiro. Ele está completamente dominado pelo volúpia e não atende às súplicas da moça. Continua a beijá-la e despi-la. O prazer flui pelos sentidos de Fanny, que não oferece mais resistência. Sente igualmente o desejo de ser possuída e o ajuda a retirar suas peças íntimas. Acaba ficando superexcitada e sente um frenesi, quando ele percorre com a mão o seu corpo nu. Fecha os olhos e permanece imóvel ao perceber que Fúbio vai penetrá-la. Os dois copulam e chegam ao orgasmo. O rapaz sente um êxtase total, sai de cima da moça e deixa-se cair ao lado dela. Eles entreolham-se, e Fanny sorri bastante satisfeita. Fúbio fica alegre por ela ter gostado, ao invés de censurá-lo. Minutos depois, se amam novamente. Fanny continua radiante. Levanta-se, caminha para contemplar de perto as enormes pedras e deixa o mar respingar suas pernas. Retorna para junto do amante com desenvoltura e sem tentar esconder a nudez, consentindo que ele, ainda deitado, admire a intimidade do seu corpo. Ela ajoelha-se e lhe dá outro beijo. - Precisamos regressar para casa, meu amor - sussurra no ouvido dele. - Gostaria de nunca mais sair daqui... Nunca terminar este momento. - Mas temos que ir, Fúbio... Voltaremos a ter outros encontros iguais a este... Muitos, muitos e muitos... Serei sua para sempre... Agora, vamos nos vestir e voar como uns pombinhos. Ela
apanha as roupas espalhadas pelo chão e joga as de Fúbio em cima
dele. O rapaz sorri e coloca os trajes cobrindo o corpo. Arrumados, eles iniciam
o vôo até a linha do TURE. Um passarinho pousa na cabeça de
Fanny, que se assusta. Mas acalma-se ao ver Fúbio rindo. - Acho que é um canário... É todo amarelo. Fanny movimenta o braço. O pássaro foge em direção ao morro. Fúbio está muito alegre. Aproxima-se da moça e a beija em pleno ar. Da estação, eles prosseguem a viagem até a Baixada Fluminense pelo TURE. Da residência de Fanny, ele segue sozinho e feliz. Durante o vôo em direção à casa de Porfírio, não pára de pensar no belo dia, porém, resolve não falar com o amigo sobre o acontecido na ilha. Só quer saber com ele o significado da palavra sideriano. Ao chegar na residência, é informado que Porfírio está em seu quarto. Sobe rapidamente a escada e encontra-o jogando xadrez com o andróide Babe. Porfírio levanta-se ao vê-lo surgir. - Foi bom você aparecer agora, Fúbio... Chegou a tempo de presenciar um fato que nunca aconteceu... Estou prestes a derrotar o Babe no xadrez. Jamais ganhei dele, nem sequer empatei... Só derrotas... uma atrás da outra... Estou com as peças pretas... Acabei de jogar minha dama, ameaçando xeque-mate... A dama dele também é atacada pela minha torre... Ele está numa posição de duplo ataque... Acredito que vai abandonar a partida. Fúbio examina o tabuleiro. - De fato você está melhor, agredindo a dama branca e ameaçando dar xeque-mate... Como você pôde fazer esses dois ataques ao mesmo tempo? - O Babe permitiu... Ele falhou... Quando minha dama estava na casa h3 e o cavalo dele em f3, eu joguei minha torre em a6... O Babe deveria ter defendido a dama, mas preferiu atacar a minha, pulando o cavalo para d4... assim, eu desloquei a dama à casa atual e ameaço xeque-mate... Não tem jeito não, Fúbio... Ele vai abandonar. Fúbio
olha novamente o tabuleiro e balança a cabeça afirmativamente.
- Você tem razão... Meus parabéns pela primeira vitória contra a máquina! - Obrigado, Fúbio... E você?... Como foi o passeio com a Fanny? - Ótimo!... Muito bom mesmo!... Estou perdidamente apaixonado. - Fico contente ao ver o amigo tão feliz... Pelo visto, você já está adaptado ao século XXX. - Ainda tenho dúvidas... Por exemplo, o que significa a palavra sideriano? - Eu ainda não falei sobre isto com você? - Não... E por desconhecer, fiquei muito confuso hoje com a Fanny. - Por quê? - É que ela me acha esquisito... Disse que eu deveria ser um sideriano. Porfírio dá uma gargalhada. Eles se afastam do tabuleiro de xadrez e aproximam-se da janela. - Lembra-se da grande espaçonave ao redor da Lua? - Sim... Conversamos bastante sobre ela na minha primeira noite em sua casa. - Mas não falei tudo... Ela é como se fosse um mundo.. É colossal... Tem gravidade artificial... bosques e lagos. - Bosques e lagos numa astronave! - É como se fosse uma fazenda, Fúbio... Foi construída para o homem viver longos períodos em viagens exploradoras pelo Sistema Solar... Algumas demoram dezenas de anos em suas viagens... Outras com período superior à vida do homem... Nessas últimas, os astronautas morrem de velhice durante a viagem. Fúbio ouve com a máxima atenção. - Para manter a tripulação jovem e para substituir os velhos e os mortos, as espaçonaves levam sempre casais de astronautas, que produzem filhos durante a viagem... Essas crianças crescem e tornam-se adultas no sistema ecológico artificial da nave... Eles são chamados de siderianos. A semântica da palavra vem de sideral... Siderianos, portanto, são os que nascem em viagens pelo espaço sideral. - Como foi bom ficar calado e mudar de assunto com a Fanny... Nunca imaginaria este significado. - Você agiu correto... Se falasse alguma coisa errada, a Fanny acharia estranho, pois todos os habitantes da Terra sabem o significado de sideriano... Eles começaram a chegar no século XXX... No final do século XXVII, foram iniciadas as jornadas tripuladas para os planetas distantes. A população da Terra, no século XXIX, só conhecia os siderianos por imagens de televisão... A partir dos primeiros anos do século XXX, eles principiaram a desembarcar na Terra, muitos com os ataúdes de seus pais. - A Fanny disse que os siderianos são bem mais velhos do que eu... Por quê? - Os astronautas evitam ter filhos quando estão próximos da Terra... O objetivo da procriação é manter sempre tripulantes sem os riscos da nave ficar vazia por mortes dos velhos... Mas, quando a Terra está próxima, não há motivo dessa precaução... Por isso, é difícil um sideriano chegar aqui com menos de quarenta anos. - Fantástico! - exclama Fúbio. Porfírio olha para o robô Babe. - Ele continua a procurar um lance salvador... Que demora para responder... Será que não quer admitir que perdeu? - Será que não foi programado para desistir antes do xeque-mate? - Não, Fúbio... Ele vai abandonar a partida daqui a pouco. Eles viram as costas para o andróide e olham para o jardim. Fúbio volta a falar sobre a namorada. - Tive outros lapsos com a Fanny... Quando faço perguntas, ela sempre diz que eu deveria saber... Me sinto bastante embaraçado. Porfírio sorri. - Já alertei você muitas vezes para não se preocupar... As pessoas podem achá-lo estranho, mas ninguém jamais vai suspeitar que você viajou pelo tempo... Você deve tomar cuidado nas perguntas sobre seus parentes... Como eu disse a nomenclatura familiar do século XXX é muito perfeita... Você só tem dois sobrenomes... Procure não falar com a Fanny sobre seu nome inteiro... Evite perguntar o nome dela todo... Se fizer isso, na certa ela vai perguntar o seu. - Mas um dia ela vai ter que saber... Ela quer casar comigo. -
Vou resolver toda a sua situação... Talvez com o Artur Nizolo...
Não sei... Ainda não sei o que vou fazer, Fúbio... Enquanto
isso, cuidado... Desvie a conversa quando o assunto é a família. Fúbio cutuca Porfírio. - O Babe fez o lance. - Vamos lá, Fúbio. Os dois aproximam-se do andróide. Porfírio olha para o tabuleiro e vira-se para Fúbio. - O Babe não quis abandonar... Quer prolongar a partida, enquanto puder dar xeque... Este de torre é de fácil defesa. É só cobrir de bispo. Porfírio faz o lance de bispo e levanta-se. - Agora, ele deve desistir... Será a minha primeira vitória contra o Babe. Eles
se viram, quando o robô dá novo xeque, tomando com a torre o bispo
de Porfírio. O rapaz imediatamente captura a torre do andróide com
o seu rei. Fúbio analisa a posição.
Porfírio esfrega as mãos, demonstrando imensa alegria. - Ele está apavorado... Sacrificou a torre... Deu a qualidade em troca do meu bispo... E eu continuo com a ameaça de xeque-mate. O robô dá xeque com sacrifício do cavalo. Porfírio
espanta-se com o lance, pois pode tomar o cavalo de graça. Fúbio
também fica perplexo. Porfírio senta-se. Observa atentamente a posição.
Porfírio
coça a cabeça e toma o cavalo.
- Este meu cibernóide é esperto... Sacrificou duas peças, com a finalidade de abrir a defesa do meu monarca... Acho que deseja empatar com xeque-perpétuo. - Sua posição está ficando ruim... É melhor você analisá-la ao invés de conversar. - Tem razão, Fúbio... Não posso deixar fugir esta vitória. O andróide, porém, conduz as peças brancas com precisão. Joga Dc8+, e Porfírio responde com Rg7. Babe dá outro xeque rápido: Tc7+, e Porfírio sai com o rei para a casa h6. Olha desolado para Fúbio. - Acho que ele encontrou uma posição de xeque-perpétuo... Ao menos, não vou perder... O empate já é bom, pois nunca consegui este resultado com o Babe. - Cuidado, Porfírio... O seu rei está à mercê dos xeques dele. O
andróide continua a empurrar o rei negro à casa fatal: Df8+, Rh5;
Dc5+, Rg4; Dg5+, Rf3; Tc3+, Re2.
Enquanto o andróide Babe não responde ao lance, Porfírio levanta-se e resmunga perto do ouvido de Fúbio. - Estou perdido... A minha única salvação é se ele der xeque de dama em e5, porque me dá chance de esconder meu rei na casa um da coluna da torre. Mas ele não fará isso... O Babe nunca erra. O andróide joga o certo: Dg4+. Porfírio, muito contrariado, vira-se para Fúbio, após comunicar ao andróide o abandono da partida. - Bem que eu disse que ele ia jogar o correto... O Babe tem xeque-mate em dois lances... Não restava mais nada a mim do que abandonar. - Que combinação!... Ele fez seu rei vagar no tabuleiro!... Quando cheguei aqui no quarto e vi a posição, jamais imaginei que você estivesse perdido! - Nem eu, Fúbio... Vamos analisar as variantes, a fim de saber se toda a combinação é perfeita. O andróide sai do quarto, para fazer os deveres na casa, enquanto Fúbio e Porfírio examinam as diversas seqüências da partida. Ficam maravilhados coma riqueza da posição. - É... Eu nunca conseguiria ver tudo isso... É uma posição fantástica. - comenta Fúbio. - E o Babe continuou impassível, Fúbio... Como nada de anormal estivesse acontecendo, enquanto eu me transfigurava a cada lance... Esta diferença entre a máquina e o homem persiste tal qual sua época. Após as análises da partida de xadrez, eles descem e se reúnem com os pais de Porfírio. Fúbio passa os dias seguintes muito feliz, principalmente nos encontros com Fanny. Na tarde bonita e ensolarada, aguarda a namorada no jardim da casa dela. Fanny surge diante de seus olhos com a fisionomia de intensa alegria. Aproxima-se correndo e sorridente. - Eu tenho uma boa notícia - diz a moça. Ela abraça-o e beija-o. - Como é bom beijar um papai. - O quê?... O que você disse? - Que você vai ser pai!... Estou grávida de você... Estou esperando um bebê. Fúbio também fica emocionado. - Eu vou ser pai!... Que maravilha! Ele a aperta de encontro ao seu corpo, e ficam horas namorando no banco do jardim. No final da tarde, regressa à casa de Porfírio. Ao chegar na residência, encontra Porfírio e Benito Nizolo em um dos caramanchões ao lado dos cães. Sua emoção é tão grande que não hesita em expor o assunto na frente do neto do presidente da Fundação Nizolo. - Vocês não sabem como estou feliz... A Fanny acaba de me dar uma notícia maravilhosa! - Sobre o quê?... O que foi? - pergunta Porfírio. - Ela está esperando neném... Um filho meu... Vou ser pai! Porfírio levanta-se e abraça o amigo. Benito estica a mão e lhe dá os parabéns. - E a Fanny? - intervém Benito. - Ficou contente? - Demais!... Ela sempre quis ter um filho - responde Fúbio. Pouco depois, Benito Nizolo retira-se, deixando Fúbio e Porfírio mais tranqüilos na conversa. Fúbio contagia o amigo por sua imensa alegria. - Sabe, Porfírio... Esta notícia tirou uma grande carga de cima de mim... Estava me sentindo muito pesado... O complexo de ter nascido um filho meu no século XX, sem jamais tê-lo visto, atormentava a minha existência no século XXX... Mas, ao saber que a Fanny vai me dar um filho, sinto-me leve... Uma sensação de bem-estar. Um mês se passa. Fúbio já está totalmente ambientado no século XXX. Na manhã chuvosa, ele assiste à programação da televisão. Um barulho o faz virar rapidamente em direção à porta do quarto. Vê aparecer Porfírio. Pela primeira vez, observa que o amigo está com a cara bastante preocupada. - O que houve, Porfírio?... Você parece assustado! - O Benito está lá embaixo... Ele fez diversas perguntas. Está muito intricado... Quer saber quem você é realmente. - Como?... Por quê?... Ele sabe que sou do passado? - Não, Fúbio... Mas está bastante desconfiado... Quer saber seu nome completo... Seu registro social ... Nós sabemos que você não tem nada disso...Ele afirmou que você não tem família e nem genealogia. - Isso é muito grave... O que devo dizer a ele? - Não sei, Fúbio... Ele também disse que sempre o achou estranho demais... Chegou a asseverar que você não é do nosso planeta. - Falou isso!... Então, eu estou perdido! - Só há uma saída, Fúbio. - Qual é? - Contar toda a verdade e, depois, pedir sigilo... O Benito é grande amigo meu... Tenho certeza que vai guardar segredo. - Pode ser perigoso revelar minha identidade!... Acho melhor enrolar ele com uma mentira! - Não, Fúbio... É muito fácil no mundo de hoje localizar uma pessoa. Como já disse, todos os habitantes da Terra estão cadastrados há séculos... E só tirar suas impressões digitais para saber que você não existe para o século XXX. É melhor contar a verdade... Ele guardará o segredo, tenho certeza. Fúbio consente com a cabeça. Os dois descem e encontram com Benito Nizolo no grande salão. Fúbio fica embaraçado. Aos poucos, Porfírio lhe dá tranqüilidade. Então, narra toda a sua epopéia astronáutica: o século XX, a viagem à Marte, o acidente com a nave espacial, o encontro com Porfírio e a possibilidade de ter entrado em uma anomalia cósmica para viajar pelo tempo. Benito fica perplexo com a narrativa. Por diversas vezes interrompe, a fim de saber com exatidão a história fantástica. Porfírio também fala e confirma que a cápsula em que encontrou Fúbio era do tipo das fabricadas no século XX. - É inacreditável!... Não tem explicação científica! - exclama Benito. - Mas é a pura verdade, embora seja difícil de acreditar - conclui Fúbio. Porfírio segura Benito pelo braço. - Você sabe a realidade sobre Fúbio. Quero que mantenha tudo que conversamos em absoluto sigilo... A vida do Fúbio seria um inferno, caso outras pessoas descobrissem seu segredo... Seria cobaia para governos e cientistas... Eu não quero isso... E conto com você, Benito... Penso até ir falar com o seu avô, para encontrar a solução para o caso do Fúbio... Por enquanto, peço para você guardar segredo. Benito Nizolo sorri para Fúbio. Vira-se para Porfírio. - Pode confiar em mim... Não contarei a ninguém. Eles selam o acordo com um aperto de mão. Fúbio continua a falar sobre o século XX e sua viagem à Marte. Menciona emocionado o nome da esposa Pamela e o filho Aquiles, que nasceu enquanto ele se encontrava no espaço sideral. - Você não sente vontade de voltar? - indaga Benito. - Às vezes, Benito... Meus primeiros dias no século XXX foram de uma aflição sem limite... Agora, estou mais conformado... Sinto-me feliz com a Fanny... Muito ansioso pela chegada do meu filho, que ela carrega na barriga. - Como está ela? - Também bastante contente, Benito... O sonho dela é ser mãe. Os três ainda conversam por mais meia hora, antes de Benito deixá-los. Fúbio fica muito impressionado com o acontecido, durante o restante do dia. Porém, novas semanas se passam, e ele esquece o amargo momento de ter revelado a Benito a sua verdadeira identidade. Sua vida torna-se praticamente voltada para Fanny. Todos os dias encontra-se com ela, quando faz transbordar a sua imensa felicidade. A moça também está sempre radiante. Por isso, naquele final de semana, estranha as caras amarradas dos pais da namorada ao recebê-lo. Sente que algo de ruim aconteceu. - A Fanny está? - pergunta ele. - Ela não está. É melhor você ir embora e não aparecer nunca mais - grita o pai de Fanny. Fúbio gagueja e não consegue completar uma palavra. - Não ouviu o meu marido... Suma para sempre desta casa - acrescenta a mãe da moça. O rapaz está perplexo, pois é a primeira vez que pessoas do século XXX agem assim. Por isso, resolve ir embora para discutir o problema com o amigo Porfírio. Mas a voz de Fanny, vinda da parte de cima da residência, o faz retroceder. - Papai... Mamãe... Deixem o Fúbio subir. Eu quero falar com ele. - Minha filha... Você não deve falar com ele depois do houve. - Por favor, mamãe. Deixem o Fúbio subir. - O que eu fiz?... O que aconteceu com a Fanny? Os pais da moça não respondem. Ficam mudos, porém, o deixam entrar. No interior, Fúbio vê a escada e sobe rapidamente. No quarto, Fanny está de costas. - O que ocorreu, Fanny?... Você está doente? - Aconteceu uma coisa horrível. - A moça chora. Fúbio avança em sua direção e envolve a cabeça da namorada em seus braços. - Você está triste... O que houve com você? - Foi terrível, meu amor... Três homens me seqüestraram... Levaram-me não sei para aonde e me obrigaram a fazer um aborto... Perdemos nosso filho... Perdemos nosso filho. - Não é possível!... Não é possível!... Por quê?... Por que fizeram esta maldade? - Não sei, Fúbio... Não sei... Depois, eles me largaram perto da minha casa. Tive que caminhar até aqui. - No século XXX!... Estamos no ano 3000!... Como é possível acontecer isso... Vamos caçar os criminosos... Entrar em contato com a Fundação Nizolo. - O papai já comunicou à fundação. - O que eles disseram? - Para aguardar... A Fundação Nizolo vai investigar. Fúbio beija a moça. Depois, nervosamente, dá largas passadas pelo quarto. Fanny segura sua mão. - Você está muito abatida pelo que aconteceu... Que coisa horrível. - Não quero que você fique nervoso... Tudo vai passar... Deixe passar um tempo... Brevemente, quero tentar gerar outro filho seu. - Não posso compreender esta perversidade neste nosso mundo tão bom. - Foi uma coisa muito estranha... Difícil de ocorrer... Temos que esquecer, Fúbio... O importante é o nosso amor. - Mas eles têm que pagar o crime que cometeram. - Vamos deixar esta tarefa para a Fundação Nizolo. Fúbio passa a tarde com a moça. Na saída, os pais de Fanny se justificam por terem o tratado mal. - Não precisam se desculpar... Eu entendo o drama que estão vivendo, pois também estou sofrendo. - Foi terrível, mas a fundação vai descobrir os criminosos - murmura o pai da moça. - A fundação já descobriu alguma pista? - inquire Fúbio. - Ainda não... Ela está demorando... Não costuma levar tanto tempo para solucionar um crime - responde Fanny. Fúbio retira-se. Pouco depois, encontra-se com Porfírio e conta tudo para o amigo. Porfírio fica estarrecido e não consegue uma explicação. - É um caso anormal, Fúbio... Seqüestros não acontecem na Terra há séculos... Não consigo entender a razão de uma moça ser raptada para lhe ser feito um aborto. - Ela sofreu muito... Ela poderia ter morrido com esse aborto. - A Fanny está sofrendo, por ter perdido o filho... Mas não correu risco de vida ao fazer o aborto... Neste ano de 3000 qualquer cirurgia é coisa bastante simples... Você está pensando que está no século XX? Eles sobem. No quarto, Fúbio tem uma crise de choro. Porfírio tenta acalmá-lo. - Tudo será resolvido, Fúbio. - Mais outro filho se foi... Que crueldade, Porfírio... Roubaram outro filho meu... Sou um desgraçado... Nunca cheguei a ver o que veio ao mundo no século XX... O Aquiles nasceu mil anos atrás... Já morreu de velhice há muitos séculos; e eu estou aqui jovem, sofrendo pela perda de mais um filho... Este com Fanny seria tudo para mim... Seria como se fosse o Aquiles que jamais vi. Porfírio não fala nada. Somente observa o sofrimento do amigo. No dia seguinte, Fúbio se comunica com a Fanny. Depois, vai ao encontro de Porfírio. - A Fanny me disse que a Fundação Nizolo não aclarou nada sobre o crime... Mandaram novamente o pai dela aguardar. - Muito estranho, Fúbio!... A fundação esclarece os crimes com rapidez... Vou acionar o Benito... Espere aqui... Vou me comunicar com ele. Fúbio senta-se na poltrona e fica um bom tempo pensativo. Pouco depois, Porfírio retorna. - Falou com o Benito? - Não... Ele não está no Brasil. Viajou para Paris... Mas eu conversei com um funcionário graduado da fundação. Ele vai averiguar o caso da Fanny. Dois dias passam, e não há resposta da Fundação Nizolo. Fúbio resolve investigar por conta própria. Conversa com Fanny e apanha dados e pistas sobre o seqüestro e o aborto. Durante a semana, quase não pára em casa. Passa os dias esquadrinhando todos os fatos que o levem aos autores do crime. No sábado, ao pôr-do-sol, entra muito agitado no quarto de Porfírio. - Descobri uma coisa inacreditável! - O quê? - Foi a Fundação Nizolo quem mandou seqüestrar e abortar a Fanny. - Não pode ser verdade, Fúbio!... A Fundação Nizolo só quer o bem da Humanidade... Há muitos séculos que ela ajuda a nossa Civilização... Essa informação que você obteve não é verdadeira. - Seja o que for, Porfírio. Eu quero ir à sede da fundação... Ela costuma resolver os crimes rapidamente... Já se passou muito tempo que a Fanny sofreu a terrível agressão... E a fundação continua em silêncio. - Você tem razão... Também acho esquisito a mudez da fundação. - Preciso falar com o maioral da fundação. - O Presidente Artur Nizolo? - Sim... Com o Sr. Artur Nizolo... Amanhã... Tem que ser amanhã. - É difícil marcar audiência com o presidente de um dia para o outro, mas vou tentar... Eu irei ao encontro com você. - Não, Porfírio... Quero ir sozinho. Eles descem, e Porfírio liga para a Fundação Nizolo. A conversa é demorada. Por diversas vezes, Porfírio tem que esperar no videofone que seu interlocutor faça consultas internas para lhe dar respostas. No final, o funcionário marca um encontro de Fúbio com Artur Nizolo para o dia seguinte. Quando Porfírio desliga o aparelho, Fúbio respira profundamente. - Vou contar nos dedos as horas até amanhã - diz ele. Capítulo 5 Fúbio acorda bastante cedo. Bem antes de Porfírio levantar-se, já está pronto para ir ao encontro de Artur Nizolo. Viaja sozinho no TURE. No Centro do Rio, caminha resoluto e pensativo em direção à entrada do edifício da sede da Fundação Nizolo. Ao anunciar seu nome, é conduzido por dois cibernóides a um estranho saguão. Os robôs o deixam solitário. Na sua frente, um compartimento movimenta-se, e um letreiro luminoso o convida a entrar. O interior é apertado. Fúbio sente que está subindo. O objeto pára e se abre, e uma voz computadorizada ordena que ele saia. O rapaz vê-se em um corredor estreito, com indicações simultâneas para onde seguir. As paredes movem-se automaticamente à sua frente até chegar a um enorme salão. No meio, sentado entre aparelhos sofisticados, está um velho de rosto gordo e fisionomia marmórea. Fúbio o encara com medo e curiosidade. - Eu sou Artur Nizolo... Sei que você é Fúbio Rolando Rangel... Só tem dois sobrenomes... Coisa estranha para o ano de 3000. O rapaz se arrepia ao ouvir a voz sonora e penetrante. Artur Nizolo levanta-se e examina-o da cabeça aos pés. Dá uns passos em sua direção e oferece a mão para um cumprimento. Fúbio hesita, mas estica a sua. O presidente da fundação aperta-a com vigor. Fúbio sente os dedos do velho pressionarem seus ossos e fica aliviado quando ele o larga. Nizolo afasta-se. Antes de chegar à mesa, vira-se rapidamente. - É bastante histórico... É um fato assombroso ter um homem do século XX diante de mim. Fúbio espanta-se ao tomar conhecimento que o velho sabe da verdade. Não há dúvida que foi o neto que contou. "O Benito traiu a confiança do Porfírio. Por isso, fugiu para Paris - pensa ele". - Como o senhor sabe que eu sou do século XX?... Foi por intermédio do seu neto? - Eu o mandei se informar sobre você, pois já tinha certeza que você não era um ser normal. Fúbio assusta-se. - Certeza!... Como? - Um segredo, rapaz. O velho senta-se e ri para Fúbio. - Não sei se posso chamar de rapaz uma pessoa de mais de mil anos... Sei que você nasceu no dia 19 de novembro de 1973. Fúbio continua perplexo. - O senhor sabe muita coisa a meu respeito... Não me lembro de ter mencionado a data do meu nascimento ao seu neto. - Quando o Benito me falou sobre você, eu pesquisei jornais do século XX e enciclopédias... Sei também que você faleceu no dia 10 de maio de 2020. O corpo de Fúbio estremece. Não perde, porém, a oportunidade de tentar saber algo mais sobre sua morte. - O senhor descobriu a causa da minha morte?... Como eu morri?... De doença?... Ou de desastre? - Não... Os livros que consultei só se referem à data do falecimento. O velho procura saber detalhes da passagem temporal de Fúbio para o século XXX. O rapaz narra a sua aventura espacial. Artur Nizolo fita-o com êxtase. - É uma coisa inacreditável... O que aconteceu com você está fora do alcance da ciência... É difícil crer... Mas também concordo que deve ter sido por motivo de uma anomalia cósmica, após a nave ter atingido a velocidade da luz. Fúbio recorda-se da finalidade da sua vinda à fundação. Todavia, não se acha calmo o suficiente para tocar no assunto do aborto da Fanny. O velho parece sentir sua aflição. - Pode ficar tranqüilo, rapaz... Ninguém vai lhe fazer mal aqui na Fundação Nizolo. Fúbio toma coragem. - Eu tenho uma namorada no século XXX... Ela chama-se Fanny... Houve um crime horrível contra ela, e a Fundação Nizolo se omitiu... Ontem, eu soube que foi a própria fundação que mandou fazer o aborto em Fanny. Vim aqui para saber a verdade... Certificar-me sobre a razão da fundação não investigar o caso. Artur Nizolo passa a mão na longa barba, sem tirar os olhos da direção de Fúbio. O rapaz também o encara. - Foi a fundação que mandou seqüestrar e abortar a minha namorada? - Foi - informa Nizolo, com voz enérgica. O sangue sobe à cabeça do jovem, que dá um murro na palma da outra mão. - Foi o senhor que autorizou? - Fui. - O senhor não tinha o direito de fazer isso... O senhor desrespeitou meus direitos... os direitos de Fanny... Os direitos humanos. Artur Nizolo levanta-se furioso. Fúbio está fora de si, mas sente-se dominado pelo olhar do velho. O presidente aproxima-se. Sua voz é bastante agressiva. - Você está procedendo como autêntico habitante do século XX... Naquela época era comum o hábito de defender direitos humanos incoerentemente... Muitas pessoas, ao proteger seus direitos, não respeitavam os dos outros... Só pensavam em invocá-los para seus interesses ou dos seus grupos... Nunca queriam abdicar, se algum de seus direitos prejudicasse a maioria ou a Humanidade... Para conseguir seus direitos, essas pessoas não titubeavam em subjugar outras pessoas. Fúbio fica atônito. Observa o velho caminhar de um lado para o outro na sua frente. - Agora, você quer defender direitos humanos, sem procurar informar-se se eles causarão danos à Civilização... Não buscou saber se levarão a Terra a uma hecatombe. Fúbio presta a maior atenção, enquanto Artur Nizolo avizinha-se outra vez, mas com o tom de voz mais baixo. - Peço desculpas pela minha exaltação... Fiquei nervoso... confesso que nunca procedi assim... Mas é que estudei muito a história dos séculos XX e XXI. Se dependesse dos habitantes dessas épocas, o homem já não estaria na face da Terra bem antes do século XXX... Não poderíamos estar aqui conversando, pois não existiríamos... Até você, um viajante temporal. Os orgulhosos homens do seu tempo só pensavam em proveito próprio e por coisas irrelevantes, ao invés de se preocuparem com o ser humano como um todo. Os direitos humanos são demasiadamente importantes. Mas têm alguns deveres democráticos acima deles, principalmente o dever de respeitar as pessoas. Direito humano desrespeitando outros humanos é um absurdo. É a legislação do seu século permitia esse desrespeito, meu rapaz. O velho torna-se a sentar. - O seu caso é terrível, rapaz... Você gerou um filho naquela moça... Se a criança nascesse, traria um desequilíbrio para a Humanidade... O nascimento do seu filho proporcionaria um abalo psicobiofísico no nosso Planeta... Você pode parecer real... é uma pessoa de carne e osso... Faz todas as atividades de um homem... Mas não é um ser normal... Você já morreu, meu rapaz... Então, veja só: um morto gerando um filho numa pessoa viva. A progenitura dessa criança desencadearia processo destruidor na Humanidade... A Fundação Nizolo preza pelo valor humano do indivíduo; mas, em primeiro lugar, está a continuidade da Civilização... Por isso, fomos obrigados a fazer o aborto... Mas a moça teve toda a assistência necessária... Não foi uma carnificina... Foi uma cirurgia com todo o cuidado. Artur Nizolo faz sinal para a cadeira em frente. Fúbio senta-se e deixa as mãos caírem sobre as pernas. Está arrasado por tudo que acaba de ouvir. O velho transmite uma fisionomia mais serena. - A Fundação Nizolo quer o bem da Humanidade... Não foi nada contra você, meu rapaz. - Então, não posso ter outro filho com a Fanny? - Não... A sua própria permanência no século XXX já é problemática para o nosso mundo. - O senhor vai me entregar às autoridades? - Não, meu rapaz... Vou tentar solucionar o problema... Enquanto isso, você pode viver livremente no ano 3000... Só quero que você prometa não engravidar outra moça. Fúbio abana a cabeça num sinal que vai acatar o que o presidente pediu. O velho levanta-se, mas torna a sentar-se. -
Você pode ficar tranqüilo comigo... Sou descendente de gerações
de homens bons... A Fundação Nizolo vem cumprindo uma missão
de paz para a Humanidade... Há homens maus também no século
XXX... Porém, não se nota a presença deles, por causa da
pequena densidade demográfica atual, que facilita a identificação
deles se praticarem delitos. Artur Nizolo olha demoradamente para Fúbio e prossegue a narrativa. - A pessoalidade no mundo é complexa. Cada ser humano tem sua personalidade própria... Quando o caráter tende para a cobiça, ódio, falsidade, intriga, hipocrisia e outros sentimentos maus, colocam em risco os que praticam o bem... O mal cresce juntamente com o aumento demográfico, fazendo as pessoas do bem serem dominadas pelo medo... O século XX foi marcado pela violência... Na sua época, meu rapaz, os problemas sociais eram terríveis e insolúveis, apesar do fantástico avanço da ciência e da tecnologia... É um paradoxo, mas havia uma explicação simples: os benefícios adquiridos nas áreas tecnológicas e científicas eram eclipsados pela desenfreada ascensão populacional... Mas o homem do século XX não via ou não queria ver esse fato. Fúbio revira-se na cadeira. Vem à sua mente as palavras do amigo Porfírio sobre a Fundação Nizolo. Quer perguntar como ela descobre os criminosos, mas não tem coragem. Fica mudo e de olhar fixo em Artur Nizolo. O velho continua a explanação. - Cem anos antes da sua época, no século XIX, os habitantes da Terra tinham esperança que o padrão de vida do século XX seria excelente para todo o Planeta. Os oitocentistas se baseavam na evolução da Humanidade conseguida com a Revolução Industrial. Era um raciocínio lógico, pois o avanço da tecnologia já era fabuloso no século XIX. As conquistas no século XX foram ainda maiores e suplantaram tudo o que o homem criou, inventou ou descobriu em toda a história da Civilização até àquele momento. Mas, no final do século XX, a tão esperada vitória social não foi alcançada, apesar do conforto proporcionado a muitos pela ciência e tecnologia. A superpopulação mundial ofuscou as descobertas maravilhosas, e o homem passou todo o século XX com problemas sociais que excederam os das centúrias anteriores. Artur Nizolo aponta para Fúbio. - É, meu rapaz... Você pertence a um período fatídico... Na época medieval, a população era bem pequena, mas os habitantes da Terra não conseguiram a felicidade plena por falta de tecnologia... Agora, veja só: quando a fase áurea do saber humano chegou, a partir do início do século XX, a superpopulação evitou o bem-estar social total... Nós do século XXX somos felizes, porque temos uma população diminuta e uma tecnologia mil vezes superior a do século XX. Fúbio coça a cabeça. Lembra-se das palavras trágicas do Professor Serapião, na noite da passagem dos séculos XX para o XXI. O presidente da fundação continua sua descrição. - Você viajou mil anos e chegou ao mundo da alegria... Bem diferente da sua época, onde o ódio brigava com o amor, que não possuía as mesmas armas para se defender... Por isso, a democracia do seu tempo não conseguiu ser justa... Agora, é diferente... Nós temos a verdadeira democracia. Fúbio aproveita para fazer a pergunta ansiosamente desejada. - Como a Fundação Nizolo descobre os crimes? Artur Nizolo levanta-se rapidamente e caminha silenciosamente pelo enorme salão. Fúbio continua sentado. O velho retorna vagarosamente em direção ao rapaz. - Parece que já conhece bem o mundo atual... O papel importante da Fundação Nizolo. - Sim... Eu sei tudo... O Porfírio me contou o que aconteceu no mundo nos últimos mil anos. - Você não conhece tudo!... Quer se informar muito mais?... Quer tomar conhecimento de coisas que nem os cidadãos do século XXX sabem? Fúbio assusta-se com as perguntas do velho. Tenta redimir-se. - Estou curioso por saber quais são os métodos que a fundação usa para descobrir criminosos... Mas, se é segredo, o senhor me desculpa pela indagação. Artur Nizolo aproxima-se ainda mais. O rapaz fica temeroso. Mas acalma-se ao ver o velho sorrir. - Sabe que estou gostando de você... Você me impressiona satisfatoriamente, apesar de ser do século XX. Fúbio ganha mais tranqüilidade. - O século XX foi tão ruim assim? - interroga ele. O velho afasta-se e torna a sentar-se. - Se dependesse dos governos da sua época, o nosso Planeta não teria vida nos dias de hoje... Por isso, os habitantes do ano 3000 criticam os dirigentes do seu tempo... Eles nada fizeram para a vitória do bem sobre o mal... Alguns governantes mantinham até convivência normal com o mal...Aliás, a recuperação mundial no século XXII não foi iniciativa de governos e nem órgãos internacionais. - Eu sei... O Porfírio me contou... Houve uma anormalidade qualquer no aparelho reprodutor feminino... O milagre da esterilização temporária... O Porfírio me disse que a ciência ainda não encontrou uma explicação para o fenômeno que aconteceu com as mulheres nos séculos XXII e XXIII. - As pessoas, desde que nascem até a morte, são amparadas pela Fundação Nizolo e pelas autoridades da Terra... Porém, meu rapaz, o mundo esteve a um passo da destruição total no século XXII. - O Porfírio também me falou sobre essa época: a densidade demográfica chegando a limites de saturação, a violência, a fome e os seres humanos parecendo animais famintos. - Exato... Era o começo do apocalipse, meu rapaz. - Aí aconteceu o milagre da esterilização... O Porfírio me contou tudo. - Não, meu rapaz... Você está enganado... O Porfírio não lhe contou tudo... Nem podia, pois ele não sabe o que realmente ocorreu no século XXII. Fúbio fica atônito com o assunto e com a fisionomia muito séria de Artur Nizolo. O velho prossegue. - Durante séculos, desde o seu tempo, a única voz que alertava para o perigo da superpopulação vinha dos homens das ciências... Os cientistas, porém, não eram levados a sério, principalmente pelos manipuladores da sociedade de consumo, que criavam barreiras para a conscientização da população para o controle mais enérgico da natalidade... Diziam até que a população era normal e que crescia pouco... Tudo mentira... Mas dava para enganar a um povo, cujas dificuldades de vida não permitiam que parasse para meditar. - O Porfírio me explicou essa situação... Jamais passou pela minha cabeça, quando estava no século XX, que a sociedade de consumo era o principal empecilho para a realização do controle da natalidade. - O grande consumo requer população imensa. O pequeno consumo é necessário na sociedade e não exige uma superpopulação. As grandes indústrias e o comércio de massa prosperaram intensamente com o consumismo exagerado... Quanto maior a população mundial, mais riquezas para os donos da sociedade de consumo de massa... Muita gente se beneficiava com tal situação... Os políticos queriam a superpopulação na Terra, pois muitos estavam ligados ou pertenciam ao poder da sociedade de consumo. Além disso, os milhares de nascimentos eram realmente futuros eleitores. Outro benefício que os políticos adquiriam com o crescimento populacional era o número de vagas nas eleições proporcionais... Existiam também governantes adeptos do fanatismo que incentivavam a natalidade, a fim de conseguirem milhões de jovens nas fileiras de seus exércitos para as guerras da cobiça... Os cientistas, como eu dizia, eram a exceção desse estado caótico... E foi um cientista bem moço que resolveu sozinho o destino do mundo. O corpo de Fúbio treme. O rapaz está bastante emocionado pelo rumo da conversa. Procura ouvir com atenção as palavras do velho. - Esse jovem cientista foi meu antepassado... Ele viveu há sete séculos e meio... Precisamente na segunda metade do século XXII... Seu nome era Rufino Nizolo... O seu pai foi homem muito rico e financiou as pesquisas do filho. Artur Nizolo levanta-se e faz sinal para o rapaz acompanhá-lo. Os dois entram em outro grande salão. Fúbio examina os enormes quadros na parede, retratando mais de uma dezena de homens e mulheres. O presidente da fundação pára diante de um deles e aponta orgulhoso. - Este é meu ancestral Rufino, criador da Fundação Nizolo... Ele foi uma grande capacidade científica... Conhecia profundamente a eletrônica e a informática... Mas sua maior paixão era no campo da telepatia. - Como ele resolveu sozinho o destino do mundo? - É um grande segredo que alguns membros da família Nizolo guardaram durante os últimos oito séculos... Atualmente, eu e mais dois filhos e o meu neto Benito compartilham deste segredo... O povo só sabe que a fundação é a responsável pelo bem-estar da Humanidade. - O senhor deve estar falando sobre a fórmula da fundação descobrir os crimes, não é? - Muito mais do que isso, meu rapaz... Muito mais do que isso. Fúbio fica ansioso, esperando que o velho responda com mais clareza a sua pergunta. Artur Nizolo, porém, cala-se. Eles percorrem a galeria de quadros. O presidente caminha cabisbaixo. O coração de Fúbio começa a bater forte, pois pressente que o velho tem alguma coisa surpreendente para revelar. Retornam ao salão anterior e sentam-se. Nizolo fixa com os olhos o rapaz. - Você me inspira confiança... Apesar de ser de uma época nefasta, noto que você é bom. - Acho que não era tanto assim, senhor Nizolo... No século XX, existiam pessoas de bom coração, de boa índole. - Eu sei, meu rapaz... Mas eram ofuscadas pelas más. Fúbio vira-se para Artur Nizolo com o semblante inquisidor. O velho dá um leve sorriso. - Vamos ao assunto... O meu antepassado Rufino Nizolo, como eu disse, foi grande cientista e apaixonado pela telepatia... Chegou a escrever livros sobre experiências de pessoas que conseguiram transmissão e comunicação extra-sensorial de pensamentos... Paralelamente à sua dedicação com sistemas telepáticos, Rufino analisou o cérebro humano com muita profundidade. Fúbio, calado e sério, escuta o velho com atenção. - O homem não conhece tudo o que tem dentro da cabeça. Por mais que se aprofunda nos estudos, o cérebro continua sendo um mistério. O córtex cerebral contém bilhões de células nervosas... É uma energia fabulosa... Mas o ser humano só usa um décimo dessa força... Os outros nove décimos do córtex cerebral humano estão parados... Não trabalham... Se aproveitasse toda a energia do córtex, o homem teria uma mente superpoderosa, capaz de transmitir comunicações telepáticas, entre outras coisas maravilhosas e fantásticas. Fúbio move-se na cadeira. O velho nota seu nervosismo e sorri. - É, meu rapaz... Você vai saber agora a descoberta que revolucionou o mundo... Rufino Nizolo conseguiu construir um córtex cerebral artificial. Fúbio estremece. - Um cérebro artificial que pensa igual ao homem! - exclama ele. - Pensar não, meu rapaz... O meu antepassado fabricou um cérebro com intensa energia... Algo parecido se o córtex humano funcionasse com toda sua plenitude e não apenas com um décimo da sua força... O cérebro criado por Rufino Nizolo não raciocina igual ao homem, mas é mais forte, pois transmite sinais e capta energia dos córtex cerebrais de seres humanos... O Rufino, com ajuda da eletrônica e da informática, aperfeiçoou o engenho. - Isso aconteceu no século XXII? - balbucia Fúbio. - Sim... Na metade do século XXII. - Essa máquina maravilhosa ainda existe? - Sim, meu rapaz... Essa máquina maravilhosa é o sustentáculo da Fundação Nizolo. - É por intermédio dessa invenção que a Fundação Nizolo descobre com tanta facilidade os crimes? -
Sim... Após a criação do seu córtex, Rufino construiu
um complexo cibernético e o acoplou ao cérebro artificial... Com
ajuda da noiva, que mais tarde seria sua esposa, iniciou experiências no
Rio de Janeiro. Com a aparelhagem, começou a descobrir todos os crimes
da cidade, principalmente os assassinatos... Depois, expandiu-se pelo mundo. - Incrível!... Como um computador pode descobrir criminosos? - Não é o computador, meu rapaz... O computador é apenas a memória da máquina que você chamou de maravilhosa. - O córtex cerebral artificial! - Sim... Em fração de segundos, após fornecido os dados do crime ao computador, o córtex artificial transmite sinais telepáticos, que consegue penetrar no córtex do assassino, descodificando sua mente sem ele ter consciência do fato... Portanto, meu rapaz, não é transmissão de pensamento... O córtex artificial capta o subconsciente do homicida ou do delinqüente, fazendo surgir na tela do computador tudo sobre o crime, com provas irrefutáveis contra o criminoso... As ondas cerebrais do procurado ficam ligadas permanentemente ao córtex artificial... Assim, ele é localizado, mesmo que esteja se locomovendo... O assassino não tem como se esconder, porque a polícia, em contato direto com a Fundação Nizolo, sabe a cada instante do seu paradeiro. - Fabuloso!... Então, foi assim que acabaram os assassinatos na Terra. - Praticamente não existem mais crimes de morte na Terra... Mas, na época do Rufino, os assassinatos ocorriam a todo momento e em qualquer esquina... No início, ele concentrou suas experiências no Rio de Janeiro. Depois, passou a operar em todo o Brasil... Finalmente, no mundo inteiro. - Os sinais do córtex artificial são enviados por antenas parabólicas? - Não, meu rapaz... O processo de captação das ondas das mentes humanas é telepático... Não precisa de qualquer tipo de ajuda exterior, nem de antenas e nem de satélites... O córtex inventado por Rufino Nizolo possui energia fantástica, que chega ao cérebro da pessoa procurada com rapidez e precisão. - Nunca descobriram esse segredo? - Não... O Rufino tomou precauções... Ele também introduziu no córtex artificial esquema de segurança para todo o complexo da Fundação Nizolo. - Eu entendo... Certamente, ele corria perigo de vida, caso os criminosos soubessem que era o causador de suas prisões. - Não somente os assassinos comuns, mas também os terroristas... Todavia, o Rufino Nizolo morreu de velhice sem chegar a ver um mundo tão bom como o atual... Viveu numa longa época de transição... No caos financeiro, provocado por ele mesmo para salvar o Planeta. Mas auxiliou muitos velhos e crianças que nasciam. Assistiu o crime e a população diminuírem. Faleceu feliz, por ter a certeza que as futuras gerações ganhariam o éden que ele idealizou ao inventar o córtex artificial... Por isso, deixou o segredo da Fundação Nizolo para seus filhos... Estes sim, já no século XXII, viram a Terra bem próxima de ser o Paraíso Azul... A fundação continuou com seus benefícios para a Humanidade, com o córtex artificial passando de pai para filho. - Assombroso! - vibra Fúbio. - No começo da luta contra a criminalidade, o Rufino fornecia informações à polícia do Rio de Janeiro sem cobrar nada. Depois, com o objetivo de criar a Fundação Nizolo, assinou convênio de prestação de serviço. Com muita rapidez, espalhou sua ação para todas as cidades do mundo; acabando com a impunidade no Planeta, e tornando sua empresa a mais rica da Terra... O dinheiro arrecadado tinha objetivo filantrópico...Uma atividade assistencial que Rufino instituiu para a Terra moribunda... Mas havia outro óbice bem maior. - Eu sei... O Porfírio me falou que a fundação foi a principal responsável pelo desaparecimento da miséria no mundo. - O Porfírio não sabe de nada, meu rapaz... O Rufino Nizolo foi quem salvou a Civilização da exterminação... A fundação combatia o crime, mas havia um problema maior para resolver. Acabar com a impunidade não era o bastante para cessar a criminalidade. A causa principal, que era motivo do agravamento de todos os problemas do Planeta, ainda persistia como perigo máximo para a Humanidade: a explosão demográfica. Artur Nizolo olha sério para Fúbio. - Então, o Rufino produziu no córtex artificial, aproveitando sua imensa energia, uma estrutura capaz de transmitir sinais para os cérebros de todas as mulheres do mundo, tornando-as estéreis temporariamente. - Não acredito... Não acredito... Que coisa horrível que a Fundação Nizolo fez... Que desumanidade - grita Fúbio, completamente transtornado. - Eu sabia que sua reação seria esta, meu rapaz... A fundação não fez nada de horrível... Pelo contrário, preservou o mundo da destruição total, que seria ocasionada pelo implosão populacional... O método não tinha nada contra a vida humana... Não se fazia abortos... Apenas foi paralisada a concepção nas mulheres por ondas telepáticas enviadas pelo córtex artificial. - A fundação não tinha a prerrogativa para ter decidido sozinha sobre isso... Desrespeitaram o direito da pessoa ter os filhos que quiserem e na hora que desejarem. - Você está falando novamente como um cidadão do século XX... Repito que somos a favor da vida... Queremos nascimento dignos... Já disse que o aborto na sua namorada foi necessário, porque tratava-se de impedir uma cadeia genealógica, que fatalmente aniquilaria a Civilização... A fundação defende exatamente o ser humano, para que ele viva com dignidade na face do Planeta, e não aprisionado e espremido como naquela fedidão que se tornou a Terra superpovoada... A fundação naquela época tinha que agir como agiu... A Fundação Nizolo salvou o mundo. Artur Nizolo respira fundo. Fúbio abaixa a cabeça . O velho continua sua explanação. - Há coisas que o cidadão não tem direito, meu rapaz... São as que põem em risco a sobrevivência da vida em nosso Planeta... Na sua época, havia opinião taxativa que ninguém tinha o direito de jogar uma bomba atômica de um avião, ou simplesmente matar individualmente uma pessoa, pois a liberdade tem seus limites... A superpopulação é tão perigosa quanto a bomba atômica, mas o povo do século XX não a temia com a mesma relação, já que o efeito da explosão demográfica é lento; e a correspondência destruidora igual ao da bomba atômica só aconteceria num futuro remoto... A sociedade de consumo também não queria o controle populacional, porque vivia igualmente do presente. Sua intenção era ficar cada vez mais rica com o crescimento desordenado, sem se preocupar também com o distante apocalipse populacional. Fúbio está mais calmo. Lembra-se das conversas com o Professor Serapião e com Porfírio sobre o assunto. - Nunca passou por minha cabeça que os donos da sociedade de consumo eram contra o controle da natalidade... Quando o Porfírio me contou, fiquei abismado... Ele também me falou sobre a grande crise do mundo por causa da diminuição da população. - Realmente houve uma recessão econômica monstruosa, com falências de centenas de empresas... Não só as que trabalhavam com produtos infantis, mas todo o complexo da sociedade de consumo... As pequenas indústrias foram as que sobreviveram, quando a população começou a cair, pois não dependiam basicamente de milhões ou até bilhões de consumidores... À medida que a população diminuía, começaram a reaparecer os antigos comerciantes de esquinas. - Eu li junto com o Porfírio os jornais desse época... O povo do século XXII sofreu muito com a crise provocada pelo seu antepassado. - É preciso que você não esqueça que, quando o Rufino Nizolo causou o fenômeno da esterilização temporária, a Terra estava perdendo a vida. A superpopulação arrasava tudo ao seu redor... A devastação da ecologia prejudicava o ar, ocasionava calor desumano e tornava escassa até a água potável... No início da era do decrescimento populacional, a falência da sociedade de consumo gerou desempregos em todo o Planeta. Mas essa crise econômica foi necessária, pois o mundo superpovoado caminhava a passos largos para o extermínio... Quando o córtex artificial proporcionou uma involução demográfica, a população sofreu como você disse... Mas foi uma aflição passageira; com muita gente amparada pela Fundação Nizolo, e os criminosos punidos pelos seus crimes... Era o pé no primeiro degrau da subida para o atual Paraíso Azul... Hoje, respiramos ar puro, fabricado pela natureza, que a superpopulação quase aniquilou... A Fundação Nizolo não controla mais a natalidade há sete séculos, desde o século XXIV... A sociedade é que observou que o mundo melhorou e passou a controlar sua população... Isso é a prova que meu antepassado Rufino estava certo. Artur Nizolo pára e sorri ao ver Fúbio bastante contraído. - É, meu rapaz... No seu século, houve inúmeros congressos mundiais sobre a população... Porém, os demógrafos do século XX não enxergavam a realidade do problema... Perdiam enorme tempo a discutir otimização demográfica e tinham grande medo do envelhecimento populacional, caso acontecesse o controle de massa da natalidade... Alguns afirmavam que era impossível existir progresso econômico sem haver substancial crescimento demográfico... Estes eram na verdade adeptos da sociedade de consumo... Todos eles estavam errados... Muitas das vezes se iludiam ao abusar de números em porcentagem, que nem sempre são tão reais como os absolutos. Fúbio move-se na cadeira. O presidente continua. - Realmente, meu rapaz... No seu tempo, aconteceram muitos congressos mundiais... Mas não foram eficientes, porque uma boa parcela dos demógrafos achava que o problema populacional não era assim tão grave... Enquanto isso, desde o início do século XX, a população humana já não tinha lugar útil disponível na face da Terra. Assim começou a expulsar e tomar os espaços dos outros seres vivos dos reinos animal e vegetal... E, nos congressos mundiais da sua época, nenhum demógrafo falou que a área habitacional do homem na Terra havia terminado, e que ele estava usurpando a dos outros seres vivos. Fúbio recorda-se da conversa com o Professor Serapião na noite do reveillon do ano 2000. Artur Nizolo não pára de falar. - Na época do Rufino, a crise econômica durou toda a segunda metade do século XXII... Porém, o meu antepassado não cessou seu projeto... Ele sabia que o mundo estava passando por fase muito ruim. Mas tinha certeza que, com uma população pequena, seguiria a época feliz... Por isso, persistiu com o plano do córtex artificial... Ao mesmo tempo que a fundação ganhava fortunas com as descobertas dos crimes, amparava os velhos e ajudava na formação das crianças... A pirâmide etária do tempo do meu ancestral era de cabeça para baixo, ou seja, o número de velhos era maior do que o de jovens... Depois, com falecimentos naturais dos idosos, a pirâmide voltou ao seu normal. Artur Nizolo sorri com satisfação. - O projeto deu certo. E fez a Terra se tornar o Paraíso Azul... O Rufino amava as crianças. Não admitia elas infelizes... No seu tempo, as crianças eram em número reduzido, mas todas alegres. Na sua época, havia superpopulação de adolescentes, juniores, seniores, balzaquianos e anciãos. A população infantil era escassa... Mas, à medida que as crianças cresciam e ocupavam progressivamente outras classes de idade, todas as faixas etárias tornaram-se com densidade pequena... Portanto, meu rapaz, a Terra, durante o processo de controle da natalidade, só ficou envelhecida demograficamente por cerca de meio século... Atualmente, o mundo tem um bilhão de habitantes, com homogeneidade em todos os grupos etários. - O senhor tem razão... É raciocínio simples: a própria morte natural acaba com o envelhecimento de uma população controlada. - Foi o que aconteceu, meu rapaz... A população mundial do século XXX é pequena, mas intensamente feliz... Você, que é um cidadão do século XX, o que acha do mundo atual? Fúbio espanta-se com a pergunta inesperada do presidente da fundação. Mas responde sem hesitação. - Estou há algum tempo na sua época... Tudo me impressiona na Terra do ano 3000... A fabulosa tecnologia... O comportamento dos seres humanos. O homem é alegre e se diverte com intensidade, seja jovem ou velho... Não vejo brigas na rua... As moças e rapazes sorriem ao se cruzarem nas vias públicas... Um mundo sem assaltos e crimes... É de fato um paraíso. - É, meu rapaz... Graças ao meu antepassado... Mas ele teve que fazer tudo em segredo; pois o projeto seria um insucesso, se os donos do mundo do século XXII descobrissem a invenção do córtex artificial e sua utilização para despovoar o Planeta e descobrir criminosos... Por isso, o Rufino aperfeiçoou no próprio córtex artificial um poder mental para lhe assegurar segurança pessoal. Fúbio lembra-se da sensação de estar sendo dominado, no começo da conversa com Artur Nizolo. - O senhor também tem este poder? - pergunta ele. - Sim... Todos os presidentes e membros da Fundação Nizolo, que manobram com o córtex artificial, tem poderes mentais de defesa... Você, por exemplo, não pode nunca me atacar. Fúbio limpa o suor da testa. - Fique tranqüilo, meu rapaz... O meu poder só é usado para minha segurança... O Rufino o inventou, porque o mundo do século XXII era cruel. Matava-se por qualquer motivo e as autoridades não faziam nada... A Fundação Nizolo, porém, acabou com a criminalidade... O homem, meu rapaz, quando sabe que vai ser punido, não comete crimes. Artur
Nizolo respira fundo. - O Rufino sabia que a maior arma era o segredo... A existência do córtex artificial tinha que ser mantida em sigilo... Deixar o ser humano pensar que a esterilização das mulheres era um fenômeno biológico misterioso... O plano do Rufino teria fracassado se fosse divulgado. - Nem aos principais governos da Terra, o Rufino comunicou a verdade? - Não... De jeito nenhum... Os governos são formados por políticos... E os políticos da sua época não queriam uma população menor... A maioria alcançava o poder justamente por causa da superpopulação... Por outro lado, seria desastroso revelar o segredo, pois o homem é um egoísta, só pensa no presente... Jamais aceitaria viver com sacrifício, a fim de beneficiar gerações que nasceriam cem anos depois... O Rufino agiu certo... A Humanidade é que ganhou. - Então, se o Rufino não tivesse criado o córtex artificial, não haveria por parte da sociedade o controle da natalidade como ocorre agora no ano de 3000? - Não, meu rapaz... Se o meu antepassado não tivesse a máquina salvadora, o mundo já não existiria... O homem, antes de sucumbir, acabaria com tudo no nosso Planeta, até a atmosfera... Só depois que a sociedade viu na prática como era bom viver como uma população pequena é que ela própria se incumbiu de controlar os nascimentos, após o encerramento do chamado fenômeno da esterilização temporária. - Quando o senhor fala, lembro-me de um amigo do meu pai, o Professor Serapião... Ele, em pleno século XX, profetizava que a superpopulação destruiria a vida na Terra bem antes de chegar o século XXX. - Ele tinha razão, pois não poderia ter imaginado a invenção do córtex artificial... Sem esse córtex, nós não estaríamos aqui conversando... Mas hoje, meu rapaz, o pensamento do mundo é outro... A população do ano 3000 está conscientizada que o controle da natalidade traz a felicidade... A Fundação Nizolo poderia até revelar sobre o córtex artificial e o controle forçado dos nascimentos... Ela seria até mais querida do que é... Mas é bom o povo continuar com sua fé... A crença que o nos séculos XXII e XXIII aconteceu o fenômeno da esterilização temporária... Principalmente, em razão da fundação ter outro projeto para a Civilização... Um empreendimento para daqui a milhares de anos. Artur Nizolo aperta um botão. Ao lado de Fúbio, surge instantaneamente uma imagem deslumbrante, com cores e luminosidade impressionantes. O rapaz fica perplexo com a profundidade daquela geométrica fosforescência suspensa no meio da sala, que apareceu ali com uma mágica. O presidente da fundação levanta-se e aponta para a intensa representação gráfica de uma arquitetura resplandecente. - É uma miniatura do Sistema Solar - diz ele. O velho apanha pequena vareta em cima da mesa para identificar os planetas. - A Terra, a Lua, Marte, Júpiter, Vênus e o fulgurante Sol... Tudo isso um dia vai desaparecer... A Fundação Nizolo já pensa nisso, meu rapaz... É um projeto para milhares de anos...Um dia o Sol vai esfriar, e a vida na Terra não será mais possível. Fúbio respira fundo, sem tirar os olhos da extraordinária maqueta luminosa e suspensa do Sistema Solar. Artur Nizolo retorna à mesa e aciona novamente o botão. A imagem desaparece, sem deixar vestígio. O presidente continua a falar. - No próximo ano, inicia o século XXXI... Um novo milênio... O quarto do calendário cristão... A meta da Fundação Nizolo, em conjunto com o Governo central da Terra, é dar início, nos próximos mil anos, a busca de um planeta fora do Sistema Solar com iguais condições climáticas da Terra... É o começo do planejamento para o êxodo da população terrestre, que acontecerá em outros milênios. - Incrível! - exclama Fúbio. - É projeto para um futuro longínquo... A nossa idéia é dar continuidade à civilização terrena, quando o Sistema Solar desaparecer... Durante o próximo milênio, enviaremos milhares de microssondas para percorrerem o Universo à cata de uma estrela jovem, que possua ao menos um planeta condizente à vida humana. - Os planetas Virpa e Furpa, cujas imagens são captadas pela Terra. Serviriam para receber nossa Civilização? - Não, meu rapaz... São astros bastante afastados da Terra... As imagens que estão chegando de lá já percorreram milhões de anos-luz?... Esses planetas não devem existir mais... Suas imagens é que continuam a percorrer o Universo... As imagens que você viu desses mundos são de fatos ocorridos há milhões de anos. - É coisa inimaginável, principalmente para mim do século XX. - Ainda persiste fantástica para o século XXX... As nossas microssondas não são capazes de ir tão longe... Mesmo na velocidade da luz, demorariam milhões de anos para atingir outros possíveis planetas iguais ao nosso... Mesmo que fosse possível, a Terra já não existiria, quando a microssonda transmitisse para aqui a mensagem de chegada... Os sinais de televisão que estamos recebendo dos planetas Virpa e Furpa partiram a milhões de anos... Talvez quando o Sistema Solar ainda estivesse em formação; ou até não existisse. - Incrível!! - Mas é real, meu rapaz... As ondas gravitacionais dessas civilizações vagueiam pelo Universo... Conseguimos com alta tecnologia captá-las a partir do planeta Plutão... Não é possível alcançar Virpa e Furpa, mas mesmo que fosse esses planetas estariam fora do nosso plano... O nosso objetivo é descobrir um astro com características idênticas ao da Terra. Porém, num lugar que possamos ir materialmente e não por intermédio de sinais luminosos... Além do mais, a nossa idéia é levar a civilização telúrica para um mundo desabitado de seres inteligentes, a fim de continuar o plano social da Fundação Nizolo... Pretendemos encontrar outro Paraíso Azul, mesmo que o planeta achado não seja azulado como a Terra vista do espaço. Fúbio franze a testa bastante admirado. O velho prossegue sua explanação. - Quando daqui a muitos e muitos séculos for encontrado tal planeta, começaremos a transportar a população mundial para lá... Primeiro, construiremos grandes estações de clima artificial em Plutão, que servirão de trampolim para essas viagens migratórias, que devem ser milhares através também de milhões de anos... Já temos bases em Plutão. Quando chegar a época, estabeleceremos lá colônias de ligações para a transmigração sideral da espécie humana e dos seres animais e vegetais ao local escolhido no Universo. - Aquela gigantesca espaçonave que está ao redor da Lua veio de Plutão? - Não, meu rapaz... Esta supernave que está em volta da Lua trouxe um carregamento de jupitônio... Não é necessário ir a Plutão apanhar esse mineral, pois nos satélites de Júpiter e Saturno existem quantidades suficientes para abastecer a Terra durante milênios. Fúbio continua imóvel. Mas está tranqüilo por causa da mensagem de paz de Artur Nizolo. Não sente mais pavor com a presença do Presidente da fundação. Lembra-se da pergunta que fez no início da conversa. Resolve interrogá-lo novamente. - Como o senhor descobriu que não sou do seu mundo?... O senhor disse que era segredo... Posso saber agora? - Sim... Você já conhece tudo sobre a Fundação Nizolo... Não preciso esconder mais nada... Quando você começou a andar com meu neto Benito, a fundação descobriu que seu cérebro não sincronizava com o córtex artificial... Ficou fácil descobrir, pois você não consta no cadastro civil da Terra e nem no cadastro genealógico... Não sabíamos como você surgiu no mundo... Então, mandei o Benito procurar o Porfírio, para saber quem era você. - Foi isso!... Ah!... Eu não estou sobre o controle da Fundação Nizolo!... Se fugir e me esconder em algum lugar da Terra, serei difícil de ser encontrado? - Sim. - Mas qual é a razão do córtex artificial não captar minhas ondas cerebrais?... Será que realmente não sou real? - Desconfio que sim, meu rapaz... Você não pode ser real... Pense bem: já morreu há séculos! Fúbio sente um calafrio a percorrer o corpo. Recorda-se da notícia no jornal. Volta a ficar apavorado. - Como deve ter sido a minha morte?... Será que podemos decifrar este enigma?... Uma pesquisa mais detalhada nos arquivos, talvez? - Não, meu rapaz... Não podemos descobrir... Você se esquece que estamos no ano 3000, onde o simples aperto de um botão nos responde tudo que queremos do passado do mundo... Não é possível saber a causa da sua morte, porque ela não foi publicada nos jornais, revistas e livros da época. - O senhor disse que a minha presença pode trazer problemas para o mundo atual? - Se você gerar um filho, temos certeza que haverá desequilíbrio fatal para a Humanidade... Afinal, seria um morto produzindo um filho numa pessoa viva. - Eu não posso estar morto!... É inacreditável que esteja no século XXX!... Porém, sinto-me vivo... Faço tudo o que um ser normal faz: durmo, alimento-me e as necessidades fisiológicas e sexual... Tenho sangue e respiro... Não posso estar morto! - Mas você é irreal... Talvez, a sua simples presença no ano 3000, mesmo sem conceber um filho, pode tornar-se perigosa para a Civilização. - Então, o que devemos fazer?... Não quero prejudicar um mundo tão bom... Será que há solução? - Sim, meu rapaz... Podemos mandar você de volta ao século XXI. Fúbio assusta-se com a afirmação de Artur Nizolo. - Isso é possível?... Como? - Não sei se é... Já tentamos enviar gente ao passado. Porém, sem sucesso. Fúbio olha para o velho com ar curioso. O presidente da fundação passa os dedos pela sua espessa barba. - Há poucas décadas, o Governo central da Terra aperfeiçoou um aparelho voador, que quase conseguiu levar o homem do século XXX ao passado. Esses objetos voadores chegaram a sobrevoar o céu do século XX. Mas, por não acontecer uma materialização completa, eles regressavam instantaneamente ao século XXX. - Eram os OVNIs que, no meu tempo, acreditava-se serem naves extraterrestres? - Sim, meu rapaz... Muitos dos OVNIs visto no século XX eram objetos voadores da própria Terra, deste século que estamos... Objetos vindo do futuro... Outros, talvez, podem ter vindo mesmo de outros mundos ou da imaginação dos observadores. O velho sorri para Fúbio. - Eu também criei uma!... Eu também inventei uma máquina do tempo! - Já fez experiência com ela? - Sim... Mas também não consegui levar ninguém ao passado... Eu mesmo fui cobaia... Experimentei ir ao século XXII para conhecer o pioneiro da fundação, o Rufino Nizolo... Minhas diversas tentativas foram inúteis... Depois, procurei retornar à minha mocidade... Dentro da máquina, senti que estava quase indo, mas não fui... Faltava algo. Fúbio está muito perplexo. O velho levanta-se e pára diante do rapaz. - Depois de meditar muito, concluí que uma pessoa só pode ir ao passado se já fez parte desse passado com a mesma idade que está no futuro. Ninguém pode retornar ao tempo e modificá-lo. Tem que ter existido nesse tempo em que se quer chegar... Veja só, meu rapaz... As rápidas aparições dos objetos voadores vindos do século XXX existiram mesmo no passado e foram presenciadas por muitos habitantes do século XX... Na minha tentativa de chegar à época do Rufino, não senti nada. Quando tentei ir aos tempos da minha mocidade, experimentei uma sensação de estar indo para lá. Mas não aconteceu, pois houve também uma repulsa, porque nunca estive lá com a idade que estou agora. Artur Nizolo está bem próximo de Fúbio. O assunto fora do comum e o olhar penetrante do velho assustam o rapaz. - Olhando para você, já sei qual é a fórmula da máquina do tempo. - Descobriu neste momento? - balbucia Fúbio. - Sim... A máquina do tempo não aprovou comigo, mas tem tudo para surtir efeito com você... Simplesmente por que você existiu no passado. O rapaz levanta-se e procura afastar-se do velho. A presença do presidente da fundação tão próximo o incomoda. Artur Nizolo fica imóvel e apenas sorri. De longe, Fúbio vira-se rapidamente. - O senhor pensa que estou morto!... É por causa disso que o senhor acha que a máquina do tempo terá êxito comigo? - Sim. Fúbio põe a mão na cabeça. - Se der certo... Se eu retornar ao passado... Será que posso regressar novamente para o ano 3000?... O senhor me trará de volta, quando eu quiser? - Isso é uma dúvida... Tudo depende da máquina funcionar... Acredito que poderei fazer viagens com você de cá para lá e de lá para cá... Porém, não tenho certeza... Tenho que tentar... Você quer fazer a experiência? - Sim. - Então, vamos à sala de onde está a máquina do tempo. Fúbio sente uma angústia profunda. Lembra-se de Fanny, do amigo Porfírio e no conforto e paz da Terra do ano 3000. Fica tonto e passa a mão novamente na cabeça. - Vamos lá - repete Artur Nizolo. - O que está havendo com você?... Quer ou não retornar à sua era? O rapaz procura aparentar que está calmo. - Mas precisa ser agora?... Não pode ser outro dia?... Amanhã? - Pode, meu rapaz... Mas qual a razão de você não querer agora? - Quero me despedir da Fanny... Estou apaixonado por ela... Também quero falar com Porfírio... Nunca encontrei um amigo tão fiel como ele... Eu tenho que dar um adeus a eles, pois o senhor não garante se voltarei para este maravilhoso mundo, o Paraíso Azul. - Não, meu rapaz... Não sei se posso trazê-lo de volta... Nem se a experiência vai dar certo... Não sei se a minha máquina do tempo o levará ao passado... ao século XXI... Você quer realmente tentar? - Sim... Amanhã... Hoje, não. - Está bem... Espero você amanhã... Mas quero pedir um favor... Um pedido que significa a segurança da Civilização. - Pode pedir o que o senhor quiser. - É muito importante me prometer que não contará à Fanny e ao Porfírio o segredo da Fundação Nizolo... A Humanidade para continuar em completa felicidade tem que continuar acreditando que o fenômeno da esterilização temporária foi obra da Natureza... Não conte também como a fundação descobre os criminosos. Fúbio sorri e apoia a mão no ombro de Artur Nizolo. - É claro que não contarei o segredo da fundação para ninguém... Não sou egoísta... Mesmo sabendo que vou retornar a um mundo tão ruim como o meu, desejo que vocês continuem com esta imensa felicidade. - Se os habitantes do século XX pensassem e fossem tão bons como você, o Rufino não precisaria ter criado o córtex artificial. - No século XX, existiram muitas pessoas boas. Todavia, viveram num mundo realmente cruel e afastadas do poder de decisão, que era manipulada pela minoria... Mas eu quero ir ao meu passado, por causa da minha esposa, meu filho, meus pais e meu irmão. - Então, está combinado... Espero você amanhã. O presidente estende a mão para Fúbio. O rapaz o cumprimenta. Ao largar a mão do velho, faz a última pergunta. - E sobre a máquina do tempo... Posso tocar no assunto com o Porfírio?... Acho necessário explicar a ele que vou fazer uma viagem temporal ao século XXI. - Não há problema algum, meu rapaz... O Porfírio sabe que você é do passado... Não vejo nenhum inconveniente em falar com ele da sua tentativa de voltar à sua era. Os
dois se despedem. Em poucos minutos, Fúbio deixa o prédio da sede
da Fundação Nizolo. Capítulo 6 Os transeuntes cruzam com Fúbio no Centro da Cidade. O rapaz admira ao longe o belo edifício da fundação, onde há pouco deixou o Presidente Artur Nizolo. Quanta coisa descobriu na movimentada reunião. As fantásticas revelações do velho não saem da sua cabeça. As moças, os moços, e os velhos sorridentes na mesma calçada. Encara todos os que passam. Torna a olhar para o prédio e medita com satisfação. "Lá em cima, está a resposta para esta felicidade transbordante das pessoas do século XXX". Embarca no TURE, em direção à casa da Fanny. A caminho da Baixada Fluminense, ele analisa a situação. "Não desejo me separar da Fanny. Amo-a demais. Mas também quero regressar ao meu tempo. Rever minha esposa. Saber como é meu filho que nasceu. Porém, é muito triste ter que deixar Fanny". As lágrimas rolam do seu rosto. Ao chegar à residência da moça, nota que ela está bastante alegre. - Foi bom você ter aparecido, Fúbio... Estive meditando... Já esqueci o trauma que passei por causa do aborto forçado... Quero tentar outro filho com você, querido... Quero ficar grávida outra vez de você. Fúbio sente forte amargura. Lembra-se das palavras do presidente da fundação. Sabe que não pode ter um filho, porque traria um desequilíbrio fatal para a Humanidade. Além disso, amanhã estará no passado. Sente um nó na garganta, pois veio ali para se despedir da mulher amada. Fanny percebe alguma coisa errada com o namorado. - Você está tão diferente... Parece que não se sensibilizou com o que falei... Pensei que iria ficar exultante em me encontrar novamente feliz, totalmente recuperada da dor. - Eu estou alegre, Fanny... Muito contente. Fúbio abraça-a e beija-a, procurando disfarçar sua angústia. Fanny empurra-o com as duas mãos. - Você me esconde algum problema, Fúbio... Está muito esquisito.. O que aconteceu?... O que você quer me dizer? O rapaz balança a cabeça e sente que vai chorar. Vira as costas para a moça e caminha para um canto do jardim. Fanny acompanha-o e fita seu rosto. - Você está chorando, Fúbio... O que ocorreu... Por favor, conte-me tudo... Preciso saber a verdade. Fúbio senta-se no banco do caramanchão. Fanny achega-se ao seu lado. - Eu terei que fazer uma viagem para longe... Muito longe mesmo, Fanny. - Não diga que não vamos nos ver mais. - Não sei, Fanny... Não sei... Pretendo revê-la, mas não tenho certeza se isso vai acontecer. - Você vai para aonde? - Não sei, Fanny... Só sei que ficarei muito distante de você. As lágrimas rolam do rosto da moça. Fúbio tenta abraçá-la, mas ela levanta-se e afasta-se dele. - Eu sabia... Você é um sideriano... Você não nasceu na Terra... Sempre o achei diferente, apesar de ser bom e meigo... Agora, sei que é um mentiroso... Mentiu para mim... Me enganou... Você não gosta de mim. - Não é verdade, Fanny... Eu adoro você... Por isso, estou muito triste.. Por isso, chorei... Eu não quero perdê-la, meu amor. - Então, por que vai partir?... Você é obrigado a ir? - É difícil explicar... Você tem que arranjar outro rapaz... Eu quero que você seja feliz... Eu a amo, Fanny. - Se é verdade que me ama, qual é a razão da fuga?... Seja sincero comigo. - Não posso, Fanny... Se conseguir regressar, direi para você toda a verdade... Eu prometo, Fanny. - Não pode ser agora?... Por que me manda arranjar outro rapaz?... Já sei de tudo, Fúbio... Você não merece meu amor... Você é um farsante...Você não deve ser deste mundo... Você não é igual aos demais habitantes da Terra. Fanny corre até a varanda da casa. Fúbio vai atrás. A moça pára e vira-se para ele. - Vai embora... Vai embora... Não quero vê-lo mais. Você me iludiu. Fúbio fica paralisado, enquanto ela entra na residência. Faz menção de chamá-la, mas desiste da idéia. Resolve ir ao encontro de Porfírio. Seus pensamentos ficam complicados. Pensa em desistir da viagem temporal por causa da Fanny. Mas sua mente desenha a imagem de Pamela segurando um bebê. "Não posso deixar de ir. Tenho que ir ao encontro de Pamela. Ver minha esposa e meu filho Aquiles. Depois, tentarei retornar ao século XXX, para explicar tudo à Fanny". Ao chegar em casa, encontra Porfírio entretido com as fantásticas máquinas do século XXX no quarto. Cumprimenta-o e dirigi-se para a janela. O amigo nota que algo errado aconteceu com ele. - O que houve na fundação?... Você chegou e não disse nada... Está há um bom tempo parado junto à janela. Descobriu sobre o aborto que fizeram na Fanny?... Foi mesmo a fundação que mandou? - Não, Porfírio... A fundação não tem nenhuma culpa... Nem sabe quem praticou o crime. - Como é possível!... A Fundação Nizolo soluciona todos os crimes da face da Terra... Não vejo como ela não encontrou os seqüestradores da Fanny... Você encontrou-se com o próprio Artur Nizolo? - Sim, Porfírio... Estive quase todo o dia com ele. - Então, fale-me sobre a conversa... Estou muito curioso. Fúbio só se refere à máquina do tempo. Não diz nenhuma palavra sobre o córtex cerebral artificial e suas utilidades ao combate do crime e do controle da natalidade nos séculos XXII e XXIII. - Que coisa incrível!... Nunca soube que o Artur Nizolo tinha inventado uma máquina do tempo... Fantástico!! - Ele não tem certeza se ela vai funcionar... Eu serei cobaia... O Artur Nizolo acha que a experiência vai dar certo comigo, porque eu existi no passado que ele vai me mandar... Ele disse que só assim é possível uma pessoa retroceder ao tempo... Ele acrescentou que as chances da máquina me levar ao século XXI são excelentes, pois eu já morri. - Eu não posso acreditar que você morreu... Você está vivo.. Você é um viajante temporal, mas não está morto. - Eu concordo com você, Porfírio... Mas as conclusões do velho Artur Nizolo têm consistência... Vejamos, Porfírio: estamos no ano de 3000 e eu morri no ano 2020. - Não temos certeza da sua morte, Fúbio... Apenas lemos em alguns livros que você morreu no dia 10 de maio de 2020... Nada mais... Não acredito que isso seja verdade. - Eu já decidi o que vou fazer... Tentarei amanhã viajar pela máquina do tempo do Nizolo. - Não entendo sua decisão... Você ultimamente vem dizendo que está feliz no século XXX. Que ama a Fanny. - É verdade. Ainda há pouco eu estive na casa dela. Fúbio caminha no interior do quarto e senta-se na cadeira. Narra tudo ao amigo sobre o encontro com a Fanny. - Por que você não contou a verdade a ela?... Por que você não falou que é do século XX? - Com medo, Porfírio... Com medo de ela ter medo de mim... Pensar que eu sou um fantasma... De qualquer jeito, se contasse a verdade, ela na certa diria que eu estava mentindo... Que eu era um sideriano... Que eu nasci numa daquelas gigantescas naves espaciais. - Você quer ir mesmo?... Você acha que o seu mundo é melhor para se viver do que o meu? - Nem tem comparação, Porfírio... O século XXX, com a alta tecnologia e pequena população, é um milhão de vezes melhor do que a minha era... Porém, quero voltar... Rever minha família... todos meus parentes... meus amigos... Eu sei que lá a vida é penosa, mas necessito da presença deles. Fúbio fixa com os olhos o rosto do amigo. - Se não retornar mais para aqui, lembrarei deste mundo com carinho. Lutarei para os governantes do meu mundo controlar a natalidade, para os que nascerem viverem tão felizes como vocês do ano 3000. Porfírio senta-se ao lado do amigo. Fúbio respira profundamente e continua a falar. - É, Porfírio... É triste deixar você, a Fanny e este mundo maravilhoso... Vou torcer para ser possível revê-los... O presidente Artur Nizolo não tem certeza se minhas viagens serão constantes: de cá para lá e de lá para cá... Nem sabe se amanhã me transportará para o século XXI. - Por que o século XXI?... Por que você não vai para o século XX?... Não foi no século XX que você viveu? - Deixei a Terra rumo a Marte após poucos meses ter começado o século XXI... Mas eu tenho que ir ao século XXI, a fim de encontrar o meu filho Aquiles já nascido. - Você sente falta dele? - Sim, Porfírio... Eu nunca o vi... Ele nasceu quando eu estava próximo à Marte... Desde que o Comandante David Fine me deu a notícia do seu nascimento, passei a sonhar com ele... Estou ansioso por vê-lo, Porfírio. Mas sei também que sentirei muito a falta da Fanny. - Ela gosta muito de você. - Eu sei, Porfírio... Também adoro ela... Foi por isso que marquei a viagem pelo tempo para amanhã... Se demorar alguns dias, será mais difícil para mim... Se nunca regressar, peço para você me fazer um grande favor. - Sim, Fúbio. - Se eu não voltar dentro de um mês, quero que você explique a Fanny quem eu sou na verdade... Ela vai acreditar em você... Também peço que você e Aline encontrem um bom rapaz para ela... Desejo muito que a Fanny seja feliz. Porfírio balança a cabeça afirmativamente. Fúbio levanta-se e vai outra vez para a janela. - Estou sem sono - fala Fúbio, caminhando até a porta. - Vou passear lá foram. Não se preocupe comigo. Fúbio desce e fica horas pensativo no banco do jardim, acompanhado pelos cães da casa. Alisa a cabeça de um deles. "Sentirei também a falta de vocês". Mais tarde, quando sobe ao quarto, encontra Porfírio dormindo. Deita-se também e logo adormece. Na manhã seguinte, ao acordar, percebe que Porfírio já está de pé. - Estou vendo que você dormiu bem. - Sim, Porfírio... Tive até um sonho muito estranho... Um sonho efêmero... Sonhei que estava dormindo e que meus companheiros astronautas, o norte-americano David Fine e o russo Bóris Katov, contemplavam atônitos o meu rosto imóvel... Foi um sonho muito rápido e fora do comum. - Em que local se passou o sonho? - Não sei, Porfírio... só vi a minha imagem dormindo, e eles me olhando. Pouco depois, Fúbio viaja para o Centro da Cidade. Na sede da fundação, encontra Artur Nizolo no mesmo salão do dia anterior. Mas o velho está muito agitado, acompanhando diversos monitores de vídeo. O rapaz lembra-se que todo o edifício da fundação apresentava movimentação bem diferente da véspera. Nos lugares que passou até chegar ao andar do presidente, observou grande alvoroço. "O que está acontecendo? - pensa". Fica imóvel bem longe da entrada do salão. O velho levanta-se e vem ao seu encontro, demonstrando estar feliz pela sua presença. - Então, meu rapaz. Está pronto para a viagem pelo tempo? - Sim. Artur
Nizolo coloca a mão no ombro de Fúbio. Os dois caminham até
as telinhas de vídeo. Através delas, o rapaz vê muita gente
trabalhando em diversas salas. Vira-se para o velho com ar inquisidor. O presidente
torna-se sério e aponta para um dos vídeos. - Houve algum problema? - Sim... Um assassinato na África... Um homem matou uma mulher esta manhã... Uma paulada na cabeça...Um homicídio passional... Nós todos estamos tristes, pois há trinta anos não ocorria um crime de morte em toda a face da Terra. - Trinta anos!!! - Você tem razão para ficar surpreso... Para os parâmetros da sua época, isso é incrível... Inacreditável... Mas, para nós, quando acontece um crime de morte é uma catástrofe... Muitas pessoas que vivem hoje no meu mundo nem tinham nascido, quando ocorreu o último assassinato no Planeta... Sentimos algo parecido como vocês sentiam com os terremotos do século XX, quando faleciam centenas e até milhares de pessoas. - No ano 3000 não morrem gente por causa dos terremotos? - pergunta Fúbio perplexo. - Não. - Por quê?... Não existem mais terremotos? - Continuam ocorrendo, meu rapaz... Mas, com a população mundial muito pequena, não há, no ano 3000, habitantes em locais propensos a abalos sísmicos. Os terremotos, no mundo atual, são somente notícias geológicas e não tragédias da vida humana. O velho chama a atenção de Fúbio para a imagem em um dos vídeos. - Aquele em pé em frente à mesa perto daquelas duas moças é o meu filho... É o pai do Benito... Ele está chefiando o contato com a polícia da cidade africana onde ocorreu o crime... Nós já localizamos o assassino... Sua prisão será dentro de alguns minutos... Aquele grande computador recebe os sinais do córtex artificial. As moças, que estão operando-o, transmitem o paradeiro do criminoso para a África... Todos os detalhes são fornecidos aos policiais africanos... É o processo que expliquei ontem para você. Fúbio não tira os olhos dos monitores. - Quem é aquele? - aponta Fúbio para o vídeo. - É o assassino. Ele está tentando fugir, mas não sabe que está sendo observado. Fúbio nota que o homem está sozinho e olhando para todos os lados. - Parece que ele está sozinho... Parece que não há ninguém captando a sua imagem. - Realmente não há ninguém - responde Artur Nizolo. - Mas como?... Como a sua imagem chega a este monitor? - É uma câmera receptora de imagem de televisão que ele não vê. - Mas ele também não vê a pessoa que está manipulando essa câmara? - Não, meu rapaz... A câmera voa sozinha e está programada para seguir o assassino... Seu tamanho é microscópico... O homicida não pode vê-la a olho nu... E como se fosse um mosquito seguindo o assassino por toda a parte... Mas um mosquito muitas vezes menor do que o mosquito real... É uma câmera de televisão invisível por causa do tamanho e com meios programáveis para se locomover. - Fantástico! - exclama Fúbio sem tirar os olhos do monitor. O velho caminha a outra tela grande, a fim de atender a um chamado. O rapaz acompanha tudo com atenção. Quando o presidente aproxima-se novamente, Fúbio vira-se para o velho. - Então, é melhor eu voltar outro dia... A minha viagem para o século XXI parece que foi adiada. - De jeito nenhum, meu rapaz... Já preparei a máquina do tempo... Estava esperando-o... Vamos começar logo a operação... É coisa rápida, meu rapaz... Vamos até lá. - O senhor não tem que ficar aqui neste salão por causa do crime na África? - Não, meu rapaz... Já está tudo solucionado... O criminoso já está localizado e sendo acompanhado pelo córtex artificial e pela câmera microscópica... Só falta a polícia pegá-lo... Vamos à sala onde se encontra a máquina do tempo. - É... vamos tentar... Estou triste em deixar um mundo, que consegue o fato incrível de passar trinta anos sem nenhum assassinato... Mas tenho que ir encontrar minha família. Artur Nizolo e Fúbio caminham até o outro lado do salão. Entram numa estreita passagem e percorrem o longo corredor. Chegam à saleta, onde Fúbio vê uma cabina. "É a máquina do tempo - pensa ele". Olha demoradamente para o assento do pequeno compartimento, que tem uma portinhola de vidro. - É a máquina do tempo? - indaga ele. - Sim. Fúbio sente um calafrio. - Se não funcionar?... O que me acontecerá? - A máquina vai funcionar, meu rapaz... Não se preocupe. - Será que posso fazer essas viagens diversas vezes? - Ontem, já disse que não tenho certeza... Talvez, sim... Talvez, não... Você está com medo?... Quer mesmo tentar? Fúbio pensa em recuar. Olha para o velho e para a máquina do tempo. Respira fundo e solta um grito. - Ao século XXI... Vamos lá! O velho sorri e manda-o entrar na cabine. Apanha uma drágea dentro da caixinha, que tirou do bolso, e entrega-a ao Fúbio. - Tome este comprimido antes de viajar para o passado... É uma vacina contra microorganismos que os astronautas do século XXX usam, quando vão a outros planetas... É necessário para você, pois a Terra do século XXI está totalmente infestada por vírus nocivos ao ser humano... Você seria facilmente contaminado, porque seu organismo já está adaptado à pureza do meio ambiente do mundo do século XXX. O presidente acende duas luzes verdes na parte de cima, bem defronte a Fúbio. - Quando eu fechar a porta, olhe fixamente para as luzes verdes... E até a próxima... Você é um excelente rapaz... Boa viagem! - Obrigado e até a volta. O velho fecha o pequeno compartimento. Fúbio, através da vidraça da portinhola, vê o presidente da fundação operar estranho instrumento. Sua voz surge dentro da cabine. Fúbio gira o corpo e vê o alto-falante bem acima da sua cabeça. - As cortinas vão tapar os vidros... Você não me verá mais... Procure ficar calmo. A ação anunciada é imediata. Em poucos segundos, Fúbio sente-se isolado. Movimenta-se nervosamente no assento. - Qual é o local do Rio de Janeiro que você quer chegar no século XXI? Fúbio demora a meditar. Lembra-se da residência do pai na Avenida Atlântica e responde com a voz embargada. - Copacabana. - Muito bem, meu rapaz... Vou ligar a máquina do tempo... Novamente, boa viagem... E não tire os olhos das luzes verdes. Fúbio obedece. De repente, a cabine fica completamente escura. Só os minúsculos pontos verdes estão acesos. Pouco a pouco, o foco de luz cresce e dá impressão de querer sugá-lo. A luminosidade desaparece. Tem a sensação de estar cego. Quer gritar, mas algo o sufoca. Parece que seu corpo se locomove a uma velocidade fantástica. As trevas e a solidão atormentam sua mente. Um som quase inaudível chega aos ouvidos. Ele procura a concentração, e o ruído vai aumentando gradativamente. A escuridão continua. O sonido fica bem mais audível e dá impressão de ser barulho de ondas do mar. O breu vai transparecendo até tornar-se acinzentado. Fúbio sente a sensação de ver algo. Parece água. O cheiro marítimo lhe chega às narinas. Finalmente, tudo fica claro. Esfrega os olhos e abre-os o máximo que pode. Na sua frente está o oceano. Vira-se espantado e vê do outro lado a seqüência curvilínea dos altos prédios de apartamentos. No canto da praia, reconhece o Pão de Açúcar. "Não é possível - pensa comovido. - Realmente, estou em Copacabana". O dia está frio, com a praia quase vazia. Mas, no calçadão, há enorme número de pessoas se deslocando em ambas as direções, apesar da chuva miúda. Compreende logo que não está mais no século XXX, principalmente por causa do movimento das ruas e do ar pesado que respira. Tem a impressão que a população é bem maior do que a do final do século XX. Olha novamente para o calçadão da Avenida Atlântica e descobre que está em frente ao edifício onde mora o pai. Resolve ir até lá. Ao deixar a beira da praia, junta-se ao povaréu. Percebe que todos estão apressados e desconfiados uns com os outros. Afinal, chega ao prédio do pai e bate na porta de ferro. Nota muita coisa diferente. Tudo fechado. A parede de cimento armado ao invés da elegante vidraça de fumê, que existia quando partiu para Marte. Após demora enervante, o pequeno postigo se abre diante dele. Mal dá para ver a cara da pessoa que o atende. Fúbio procura acercar-se da porta. Mas logo afasta-se ao ouvir a voz autoritária do porteiro. - Não se aproxime... Fique longe da porta, senão lhe dou um tiro... Diga logo o que quer. O rapaz fica perplexo com o fato inusitado. - Meu pai reside aqui... Preciso falar com ele. - Não conheço você... Está querendo me enganar. - É verdade... É no décimo andar... No apartamento de frente... Seu nome é Fabrício. - Não tem ninguém com esse nome... Caia fora daqui... Do contrário, serei obrigado a lhe dar um tiro. - Não pode ser... Tenho certeza que ele mora aqui... O imóvel é próprio... É dele... O nome da minha mãe é Delfina... Você deve conhecê-los. Você trabalha aqui há muito tempo? - Não há ninguém com esses nomes... Vai dando o fora... Esta conversa é muito velha... Você não me engana... é um assaltante... Quer que eu abra a porta, para a sua turma invadir o edifício... Você merece um tiro. Já o avisei muitas vezes... Estou vendo lá adiante os seus capangas. Vocês querem assaltar o prédio. Fúbio olha para o lado. Realmente, quatro homens mal-encarados, um portando uma pequena metralhadora, o observam acintosamente. Ele sente medo, mas não desiste de convencer o porteiro. - Eu não estou com eles... Cheguei de viagem agora... Estive fora do país. Não estou mentindo. Meu pai mora realmente no apartamento de frente no décimo andar. Seu nome completo é Fabrício Rolando Rangel. - O antigo dono do apartamento tem esse sobrenome... Mas não se chama Fabrício... É o senhor Florêncio Rolando Rangel. - É meu irmão... Você disse antigo dono... Por quê? - O senhor Florêncio vendeu o apartamento... ele agora reside na Rua Barata Ribeiro. - Mas o meu pai?... O Fabrício? - Não conheço... Desde que trabalho aqui, nunca soube de ninguém com este nome no edifício. Fúbio
vira-se para a direção dos quatro estranhos. Eles ainda estão
no mesmo local. Resolve fazer a última pergunta, a fim de sair dali o mais
rápido possível. - O Florêncio mora na Rua Barata Ribeiro. Qual o número, por favor? - Ele deixou o novo endereço comigo... Está na gaveta... Espere um pouco... Vou apanhar. O homem fecha o postigo. Fúbio vê os desconhecidos caminharem em sua direção. Seu corpo estremece e fica apavorado. Não sabe o que fazer. De repente, ouve-se o barulho da tranca do postigo. O porteiro dá um grito, e os vagabundos encostam na parede outra vez. - Escrevi para você o endereço do senhor Florêncio. Fúbio ameaça aproximar-se da porta do edifício, mas recua ao ver o porteiro apontar-lhe a arma. - Fique parado... Não se mexa... Vou jogar o papel. O porteiro faz uma bolinha com o pedaço de papel e lança para Fúbio. O rapaz tenta apanhá-la no ar, mas não consegue. Agacha-se rapidamente. Recolhe o papel do chão, desamarrota-o e lê o endereço do irmão. Levanta-se para agradecer ao porteiro, mas o postigo já está fechado. Ao ver os quatro estranhos aproximarem-se, começa a andar bem rápido pela Avenida Atlântica. O movimento de transeuntes é grande, mas não se sente seguro, porque observa que todas as pessoas que passam estão tão amedrontadas como ele. Os malfeitores continuam a segui-lo no meio da multidão e com a metralhadora na mão. Adiante, vê um casal de velhos sendo assaltado por dois meninos de no máximo onze anos de idade. Fica perplexo ao perceber as pessoas passarem rápidas sem ao menos olhar ou fazer alguma coisa. Os meninos gesticulam e ostentam seus revólveres bem visíveis dos passantes como se fosse uma coisa normal. Fúbio pára, a fim de espiar a cena chocante. Uma das crianças vira a arma em sua direção. - O que você está olhando? Nunca viu um assalto? Vai dando o fora... Sou capaz de dar um tiro bem dentro do seu olho. O rapaz fica apavorado e aumenta as passadas. Seus quatro perseguidores também cruzam pelos meninos e dão gargalhadas. Fúbio dobra a primeira esquina e começa a correr com toda a sua força. Entra em outro logradouro, sempre em direção à Rua Barata Ribeiro. Muito cansado, olha para trás e não vê mais os quatro homens. Mantém-se apressado até o endereço do irmão. O porteiro do novo prédio também o recebe da mesma maneira incomum do anterior, apontando-lhe um rifle. Fúbio anuncia que é irmão de Florêncio. - Ele não tem irmão... É melhor você ir embora... Estou armado... Cuidado comigo... Se você tentar alguma coisa, recebe um tiro na boca. - Por favor... Estou vindo de longe... Preciso falar com o meu irmão. Chama o Florêncio, por favor... Diz a ele que é o Fúbio que está aqui... Ele vai confirmar que eu sou realmente o irmão dele. - Como é mesmo seu nome? - Fúbio. - Vou ligar para ele e perguntar se tem um irmão chamado Fúbio... Se estiver me enganando, você vai pagar muito caro por isso. Fúbio fica esperando com medo, pois as ruas do século XXI lhe causam pavor. A cada pessoa que passa seu corpo estremece. Finalmente, vê aparecer a cabeça do irmão no pequeno postigo. Fúbio sente forte emoção ao ouvir o brado de Florêncio. - Fúbio... Fúbio... que coisa fantástica... Sua nave desapareceu... Todos nós pensávamos que você estivesse morto. Fúbio tenta falar, mas pára ao ver a porta se abrir. O irmão está muito feliz. - Entra logo, Fúbio. A porta do edifício não pode ficar muito tempo aberta... É perigoso demais. Os dois irmãos sobem para o apartamento. Fúbio percebe a fisionomia de Florêncio bastante acabada, mas não diz nada sobre isso. Procura somente ouvi-lo. - É muito arriscado perambular pelas ruas desarmado. - Eu observei o grande número de assaltantes... Mas isso não é importante agora... Quero saber como vai a Pamela... O Aquiles... Os nossos pais... Como vão todos?... Conte-me as novidades. Florêncio abaixa a cabeça. - Houve alguma coisa, Florêncio?... Você está com o ar preocupado... Onde está meu pai?... Onde está minha mãe?... Por que eles não moram mais na Avenida Atlântica?... Por que você vendeu o apartamento deles? Florêncio levanta a cabeça. Fúbio nota profunda tristeza em seu rosto. - Vamos entrar... Lá dentro, direi tudo o que aconteceu. Florêncio abre a porta. Os dois penetram na sala. Do outro cômodo, surge uma mulher. Florêncio segura a mão dela. - Esta é minha esposa, Fúbio... Eu casei... Ela se chama Olga. Fúbio cumprimenta a senhora. Acha que ela é bem mais velha que o irmão. Sua mente, porém, está confusa, pois vê que o irmão também está bastante velho. Os três sentam nas poltronas. Florêncio acende um cigarro e oferece um a Fúbio. - Obrigado... Antigamente, eu fumava de vez em quando... Há algum tempo, parei por completo com o fumo... Mas o que você queria me contar sobre nossos pais? - Uma notícia muito triste, Fúbio. - Fale logo, Florêncio... Não me torture. - Nossos pais morreram. Fúbio tem a impressão que a sala rodopia em volta de si. Fica desesperado e chora convulsivamente. Florêncio e Olga tentam consolá-lo com palavras, mas o rapaz não pára de chorar. De repente, olha para o irmão. - E a Pamela?... E o Aquiles?... Eles estão na minha casa no Grajaú? - Não, Fúbio... Eles moram em São Paulo... A Pamela o esperou muito. Quando a Nasa deu sua nave como perdida, ela foi com o filho para a casa dos pais... Telefone para São Paulo, Olga... A Pamela vai ficar muito contente com a volta do Fúbio. Fúbio faz um gesto que sim. Enquanto Olga sai para a outra sala, ele examina o irmão. "É por isso que está tão acabado, parecendo um velho. O Florêncio deve ter sofrido muito com as mortes do papai e da mamãe". Seus pensamentos são interrompidos com o retorno de Olga, que estica o fio do telefone até junto dele. - A Pamela está no aparelho. Ela não quer acreditar que você está de volta. Quer ouvir a sua voz... Eu disse que você está chocado com a notícia dos falecimentos do seu Fabrício e da Dona Delfina... A Pamela quer ouvi-lo... Atenda o telefone, Fúbio. O rapaz levanta-se atônito. Apanha, com as mãos trêmulas, o fone. - Alô, Pamela... Sou eu... O Fúbio... Como está você? Ele ouve a voz chorosa da esposa. - Você voltou, Fúbio... Que alegria... Você voltou! - E o Aquiles?... Como está o nosso filho? - Bastante crescido... ele ainda não sabe de nada, mais vai ficar muito alegre com seu retorno... Estou com tantas saudades suas... Não agüento esperar mais... Preciso vê-lo já... Vou embarcar agora mesmo para o Rio de Janeiro. - Não, Pamela... Eu estou muito abalado com a morte dos meus pais... Espera mais um pouco... Amanhã, irei à São Paulo para encontrá-la... Temos muito o que conversar. Os dois se despedem. Fúbio vira-se para Florêncio. - Amanhã cedo, viajarei de avião para São Paulo... Preciso de dinheiro emprestado para a passagem.. Onde posso comprá-la? - Eu também irei com você, Fúbio... Eu comprarei as passagens... Será um presente meu pelo seu retorno. Florêncio aponta para a esposa. - Telefone para o aeroporto, Olga... Reserve duas passagens para São Paulo. Olga sai novamente da sala. Fúbio continua com os olhos cheios de lágrimas. Florêncio procura acalmá-lo. - Vou mandar Olga preparar o quarto de hóspede. Você precisa descansar. A notícia sobre os nossos pais o deixou traumatizado, mas tenho certeza que vai se recuperar quando ver a Pamela e o Aquiles. Amanhã, contarei as demais novidade... Você também deve ter muita coisa para contar. Olga
retorna e diz que as passagens já estão reservadas. Pouco depois,
Fúbio recolhe-se aos aposentos. Sua cabeça está completamente
tonta com os novos acontecimentos. "O Artur Nizolo conseguiu - pensa ele.
- Voltei ao passado. Mas que desgraça. Retornei após as mortes dos
meus pais. Não sei em que ano morreram. Bem que poderia ter chegado antes,
para encontrá-los com vida. Será que posso voltar ao futuro? Se
conseguir, pedirei ao Artur Nizolo me trazer para o século XXI, mas em
um ano que meus pais estejam vivos". Fúbio rola na cama. Tenta desviar
seus pensamentos. Porém, não consegue. "O Florêncio não
me fez nenhuma pergunta sobre como regressei à Terra. Talvez, por causa
do meu sofrimento com a notícia triste que me deu. Mas, amanhã,
ele me questionará sobre tudo. Devo mentir ou contar toda a verdade sobre
minha viagem através do tempo?". A mente de Fúbio está
completamente esgotada, e ele acaba dormindo. Capítulo 7 Vozes do lado de fora do quarto fazem Fúbio despertar. Já é dia claro, e ele lembra-se que tem que viajar para São Paulo. Boceja preguiçosamente e levanta-se. Ao se aprontar, percebe que o irmão conversa com a esposa na sala. Após se vestir, abre a porta e ouve nitidamente a voz da cunhada.. - Não é possível... Não é possível, Florêncio... Ele não pode ser pai do Aquiles... É muito jovem para ser pai do Aquiles. Fúbio não entende a razão do comentário de Olga. "O que será que ela quer dizer? Vou ficar quieto atrás da porta para saber". Passa-se alguns segundos num silêncio total. O rapaz resolve espiar e vê o casal olhando em sua direção. "Ela parou de falar, porque notou que abri a porta". - Já íamos acordá-lo, Fúbio - informa Florêncio. - temos que nos preparar para ir ao aeroporto. - Sim, Florêncio... Não quero perder de maneira nenhuma o avião... Onde é o banheiro? Olga aponta para um dos corredores do apartamento. Fúbio caminha ao lugar indicado e tranca a porta. Mira-se demoradamente ao espelho. Sua fisionomia é a mesma de quando saiu da Terra para a missão a Marte. "Viajei inexplicavelmente para o século XXX. Retornei ao século XXI, e meu rosto não mudou. Por que o Florêncio está com a aparência de velho? Por que a Olga disse que eu não posso ser o pai do Aquiles?" As perguntas se sucedem na sua mente, mas ele não encontra resposta. Termina de se arrumar e volta para a sala. O irmão o espera. - Vamos tomar café, Fúbio. Eles vão à copa, onde há pequena mesa repleta de alimentos preparados por Olga. Enquanto faz o desjejum, Fúbio observa as rugas no rosto do irmão. Fica muito pensativo. Florêncio procura falar, para quebrar o silêncio do recinto. - A Pamela vai ficar muito contente, quando a gente chegar a São Paulo... Ela gosta muito de você. - Eu também estou ansioso para vê-la. - Ela telefonou ontem, quando você estava dormindo. Falou com Olga outra vez. Disse que avisou ao Aquiles sobre sua volta... Ele está na escola, mas vai para a casa da mãe hoje, a fim de esperá-lo. - Escola!!... O Aquiles na escola!... O meu filho já está no jardim da infância!! - Não! Fúbio!... Que jardim da infância!... Você está perdido no tempo!... O Aquiles está na faculdade em Campinas... Ele é estudante universitário. Fúbio quase cai da cadeira. Olha espantado para o irmão. - O bebê!... O bebê!... Não é possível, Florêncio!... Quantos anos tem meu filho? -Dezenove... Vai fazer vinte este ano. Fúbio agarra os cabelos com muita tensão. - É, Fúbio... Você demorou muito a regressar... Todos nós estávamos pensando que você estivesse morto. O rapaz lembra-se da sua morte. Olha para o irmão apavorado. - Se o Aquiles vai fazer vinte anos, nós devemos estar no ano 2020... É isso mesmo, Florêncio? - Sim, Fúbio... Nós estamos no ano 2020. - Que dia é hoje?... Que mês? -Dia 10 de maio de 2020. Fúbio sente a cabeça rodopiar e cai da cadeira. Vem à sua mente as imagens dos jornais que viu no século XXX, que anunciavam a data da sua morte: 10 de maio de 2020. Exatamente a que o irmão afirma ser naquele momento. Levanta-se bruscamente e derrama a xícara de café. Florêncio o olha com perplexidade. - Alguma coisa errada?... O que houve com você? - Eu quero ter certeza se hoje é dia 10 de maio de 2020. - Está na folhinha... Você pode conferir. Florêncio aponta para a parede. Fúbio examina o calendário, que marca exatamente a data fatídica. Sente-se sem força até para respirar. Vira-se para o irmão completamente angustiado. - Não posso acreditar... A folhinha não prova nada... Pode ser que não seja maio. - É sim, Fúbio... Você pode verificar a data no jornal de hoje... Vou ver se está na sala... Espere um pouco... O pessoal da portaria já deve ter entregue o jornal. Florêncio sai. Fúbio está bastante aflito. Uma dor de cabeça, por causa de seus terríveis pensamentos, deixa-o atormentado. "O Artur Nizolo me traiu. Ele me enviou para o passado no dia da minha morte. Quis se livrar de mim. Não posso morrer. Tenho que voltar para o ano 3000". A chegada de Florêncio faz ele volver o corpo para a direção da porta da copa. - Aqui está o jornal. Veja a data você mesmo. Fúbio arranca o jornal da mão do irmão. Com os olhos esbugalhados, confirma a data trágica. Florêncio, muito perplexo, não entende nada. Não sabe o que está se passando com o irmão. Fúbio parece um autômato e não tira os olhos do local onde traz a data do jornal. - Vamos, Fúbio... Vamos sair... Não podemos perder o avião para São Paulo. - Ah!... Então é isso!... Agora descobri a causa da minha morte... Eu morri num desastre de avião... Não vou viajar mais... Não quero entrar em nenhum avião... Não quero morrer... Não quero morrer. Florêncio dá a volta pela mesa e tenta acalmar o irmão, que não pára de gritar. Fúbio puxa com violência a toalha e joga tudo no chão. Florêncio segura seu braço, mas é atirado contra a parede e cai no piso da cozinha. Olga, apavorada, surge na porta e vê o marido caído. - Que está havendo? O que está acontecendo? - grita ela. - Saia da minha frente. Eu não quero morrer... Não quero viajar de avião... Eu sei que o avião vai cair... Agora, eu sei de tudo... Eu morri num desastre... O Artur Nizolo me traiu. Olga, bastante aterrorizada, não compreende o que o cunhado diz. Florêncio levanta-se e faz sinal para ela que o irmão está maluco. Fúbio continua gritando. Florêncio cochicha no ouvido da esposa. - Olga... Vai rápido ao andar de cima e chame do Dr. Franz... Diga-lhe que meu irmão está fora de si. Fúbio tenta pegar Olga, mas ela desvencilha-se e sai do apartamento. - Ela não pode ir... Ela quer me colocar a força dentro do avião... Ela quer que eu morra. Florêncio o agarra, mas Fúbio torna a jogá-lo no chão. Florêncio, porém, levanta-se. Com agilidade, envolve o pescoço do irmão com o braço e deixa-o imóvel. Fúbio não pára de gritar e movimentar-se. Florêncio usa toda a sua força, para mantê-lo imobilizado. Os minutos passam. Não adianta os pedidos de Florêncio para Fúbio se acalmar, pois ele continua exaltado. Os dois caem no chão, e Fúbio consegue soltar-se. Logo que fica livre, avança resoluto para a porta de saída do apartamento. - Ninguém vai me obrigar a viajar de avião... Eu não quero morrer... Eu não quero morrer. Fúbio abre a porta no exato instante que Olga chega com um senhor bastante alto e forte. Fúbio empurra o estranho. - Você não vai me levar... Você não vai me obrigar a viajar de avião. O homem, com incrível rapidez, desfere um murro no meio da cara de Fúbio, que cai desfalecido. O médico entra e coloca sua valise sobre a mesa. - Vamos deitá-lo no sofá - diz o Dr. Franz. - Fui obrigado a dar-lhe um soco, pois ele está realmente bastante agitado... O que aconteceu com ele? - Não sei, Dr. Franz... Estávamos conversando... Terminando o desjejum na copa; quando, de repente, ele ficou assim... Nunca vi meu irmão tão enfurecido... Parece que ficou louco... Há vinte anos que ele estava sumido... Ontem, chegou e soube da morte de nossos pais. - É na verdade um problema psiquiátrico. Sua longa ausência e a notícia da morte dos pais são as causas do seu abalo psico... Mas ele vai melhorar... Vou dar-lhe uma injeção para se acalmar. O Dr. Franz prepara a seringa. Fúbio volta a si e olha desconfiado para o doutor. O médico faz sinal para Florêncio e Olga o segurarem. O rapaz, ainda atordoado por causa do soco, não oferece resistência. Ao ver a agulha na não do médico, grita com todos os pulmões. - Não faça isso... Ele quer me envenenar... Não deixem ele fazer isso, Florêncio e Olga... Por favor... Hoje é o dia da minha morte... Eu estava enganado... Não foi desastre de avião... Fui envenenado... Não deixem ele me envenenar... Por favor, Florêncio e Olga. O Dr. Franz aplica a injeção. -
Dentro de dez segundos, vocês podem largá-lo... ele vai dormir...
Quando acordar, o remédio já terá produzido o efeito desejado...
Então..., ele voltará ao normal. Fúbio, muito sonolento, não consegue manter os olhos abertos. Em poucos segundos adormece. O Dr. Franz ajuda Florêncio a levá-lo para a cama, enquanto Olga abre a porta do quarto de hóspede. A calma volta ao apartamento, e o médico se retira. As horas passam. À noite, Fúbio acorda e vê o irmão e a cunhada ao seu lado. Os dois sorriem para ele. - Como é, Fúbio?... Melhorou? - indaga Florêncio. Fúbio sente o corpo mole por causa do efeito do remédio. Oscila diversas vezes e coloca a mão na boca. Aparentemente, está calmo. Seu olhar, porém, está muito fixo. - Que horas são? - pergunta ele. - São dezenove horas em ponto - responde Olga. - Ainda estamos no dia 10 de maio? - Sim, Fúbio... Até a meia-noite - esclarece Florêncio. - Faltam apenas cinco horas para o dia 10 de maio terminar. Eu tenho pouco tempo de vida, Florêncio... Posso morrer a qualquer momento... Não devo ficar mais aqui... Estou me sentindo sufocado... Preciso sair... O Artur Nizolo é um traidor... Ele tem que fazer eu regressar ao futuro antes da meia-noite... Tenho que ir ao lugar onde cheguei do ano 3000... Lá, eu posso me comunicar com o Nizolo... É necessário que faça isso antes da meia-noite... Vou sair... Vou até a beira da praia. Ajude-me a chegar lá o mais rápido possível... Antes que eu morra. - Pense bem, Fúbio... O médico pediu para você repousar. Fúbio levanta-se e caminha para a porta do quarto. Florêncio segura seu braço. - Você não pode sair à noite, Fúbio... As ruas estão cheias de bandidos... Eu garanto que amanhã você estará bom. Fúbio empurra o irmão e tenta alcançar a sala. Florêncio agarra-se a ele e não o deixa seguir, enquanto Olga mantém a porta do cômodo entreaberta. - Venha rápido, Florêncio. Temos que trancar seu irmão no quarto. Não podemos deixá-lo fugir. Fúbio está com os movimentos lentos por causa do remédio. Florêncio aproveita para empurrá-lo e jogá-lo sobre a cama. Com rapidez, corre para fora do quarto. Olga fecha a porta a chave. Os dois ouvem os gritos de Fúbio e o barulho de coisas caindo no chão. - Seu irmão está completamente maluco. Está derrubando tudo lá dentro. Diz coisas sem nexo. O que será que houve com ele nos últimos vinte anos? - Não sei, Olga... Não sei... Tudo isso é muito doloroso para mim. - Que devemos fazer? - Chame novamente o Dr. Franz... Eu fico aqui tomando conta, pois ele pode derrubar a porta. Florêncio deixa o corpo cair sobre a poltrona. Está bastante deprimido. Não consegue controlar sua emoção e chora. No quarto, Fúbio continua gritando e quebrando os móveis. Finalmente, chegam Olga e o médico. Florêncio fica de pé e fala com o Dr. Franz. - O Fúbio acordou e seu problema não abrandou... Está pior do que de manhã... O que faremos, doutor? - Temos que interná-lo, Florêncio... Temos que levar seu irmão para o hospício, antes que ele quebre todo o apartamento. - Hospício, doutor!? - Sim, Florêncio... Ele tem que ir... Precisa urgente de um tratamento muito sério. - Mas o senhor não pode administrar outra injeção? - Não... O caso dele é mais grave do que pensava... Eu posso chamar a ambulância do hospital para levá-lo, mas preciso da sua autorização, Florêncio. Florêncio olha para Olga. Ela balança a cabeça num gesto de estar de pleno acordo com o médico. - Está bem, doutor... Pode chamar a ambulância. O Dr. Franz sai. Florêncio e Olga entreolham-se. Ele aproxima-se da esposa e a abraça. Minutos depois, o médico regressa. Já telefonei para o pronto-socorro psiquiátrico. A ambulância está a caminho. Olga e o Dr. Franz sentam-se, enquanto Florêncio vai avisar ao porteiro sobre a chegada da ambulância. Quando retorna, encosta na parede do quarto e tenta acalmar o irmão. Fúbio continua gritando sem parar. - Calma, Fúbio... Você vai ficar bom... Você precisa ficar bom... Você tem uma esposa para rever... um filho crescido... Não pôde estar com eles hoje, mas outro dias os verá... Reaja, Fúbio... A sua melhora só depende de você... Só de você, Fúbio. - Você não acredita em mim... Hoje é dia da minha morte... Eu tenho pouco tempo de vida... Antes da meia-noite, morrerei... A não ser, Florêncio, que eu chegue ao local que a máquina do tempo me deixou... Lá, posso gritar e pedir auxílio ao Artur Nizolo... É a minha única salvação. - Você vai sair daqui a pouco, Fúbio... O Dr. Franz o levará. - Não quero saber dele, Florêncio... Ele quer me matar... Não deixe-o chegar perto de mim... Abra esta porta, por favor. - Espere mais um pouco... Eu prometo que abrirei. O silêncio dentro do quarto faz Florêncio afastar-se e ir sentar-se ao lado da esposa e do médico. Os três conversam com as vozes baixas, a fim de não ser ouvido por Fúbio. Pouco depois, a ambulância chega ao edifício. Florêncio desce para atender e volta com quatro robustos enfermeiros. Ao ser aberto o quarto, todos vêem as coisas quebradas e jogadas no chão. Fúbio tenta escapulir, mas é agarrado por dois padioleiros. Enquanto eles deixam o rapaz imóvel, os outros o imobilizam com uma camisa-de-força. Fúbio grita desesperadamente na maca e vira-se para o irmão. - Você também me traiu... Você é igual ao Artur Nizolo... Todos querem a minha morte. - Você vai melhorar... Você vai melhorar - murmura Florêncio. Os enfermeiros partem com Fúbio. A ambulância percorre as ruas de Copacabana. Logo, chega ao hospital psiquiátrico; e os padioleiros levam Fúbio a um quarto do segundo andar. O médico de plantão o examina e manda a enfermeira preparar uma injeção. Fúbio, apesar de apavorado com a possibilidade de morrer, conserva um pouco da lucidez. Olha para a janela e finge aparentar calma. "Tenho que enganar o médico e os enfermeiros. É a minha única chance de fugir por esta janela e alcançar a Praia de Copacabana antes da meia-noite. Só assim me salvarei, pois tenho certeza que lá conseguirei me comunicar com o Artur Nizolo. Ele tem que me levar de volta ao ano 3000". Observa a enfermeira, que prepara a seringa; e vira-se para o médico. - Eu já estou bem, doutor. Não precisa aplicar a injeção. A crise já passou. O médico fita-o espantado e examina seus olhos e a pulsação. Depois, fala com a enfermeira. - Não precisa mais da injeção... O paciente voltou ao normal... O que ele precisa agora é repouso. O médico faz sinal para os enfermeiros colocarem Fúbio na cama. O rapaz toca a mão no colete de lona. - A única coisa que me incomoda é isto... Está me apertando muito. O doutor ordena que retirem a camisa-de-força. Fúbio sente-se aliviado e age de modo para o médico não desconfiar do seu plano -Tudo bem, doutor... A crise realmente terminou. O médico manda seus auxiliares saírem do quarto. Ele também retira-se. Mas antes de fechar a porta, dirige-se para Fúbio. - Se precisar de alguma coisa, aperte a campainha ao lado da cama. Ao ficar sozinho, Fúbio corre em direção à janela. Não há ninguém no terreno do hospital. Observa que a árvore próxima pode ajudá-lo a alcançar o chão. Mas tem que pular cerca de um metro, a fim de trepar no galho mais grosso. Apesar de sentir-se fraco, ele sobe no peitoril e se lança com determinação. Agarra-se ao tronco da figueira. Com ajuda dos pés, procura se firmar. Por causa da sua preparação de astronauta, não tem dificuldades para atingir o chão. Olha ao seu redor e nota que não há vigias por perto. Ao longe, vê as luzes da guarita do portão. O alto paredão que cerca o hospital psiquiátrico o assusta. Porém descobre outra árvore salvadora. Com auxílio dela, consegue chegar ao topo do muro. Examina a grande altura que o separa da calçada da rua. Decide saltar. &q | |||||||