O Ferrador

Waldemar Costa

Romance ambientado no Rio de Janeiro de 1822


APRESENTAÇÃO

Os debates entre dois jornais de idéias opostas (de um lado, o Correio do Rio de Janeiro, do português João Soares Lisboa; e, do outro, o Tamoio, dos irmãos Andradas) são fontes preciosas para o estudo da formação política e administrativa do país que surgia após o dia sete de setembro de 1822. Havia, porém, um jornal que nos dá uma visão sobre a população da cidade da época: Diário do Rio de Janeiro, fundado por Zeferino Vito Meireles. O Diário só publicava anúncios! Nas suas páginas, com reclames de compra e venda, podemos acompanhar o comércio da cidade e o modo de viver dos seus 160 mil habitantes.O povo rejubilava-se com a Independência e venerava o Imperador. Mas, cada habitante, possuía sua própria vida, com seus problemas, dramas, felicidades e amores. Em homenagem a essa população anônima da época da Independência do Brasil, apresento-lhes este romance, cujos personagens fictícios vivem, amam e andam pelas pacatas ruas da mesma forma que viveram, amaram e andaram os habitantes reais.Além dos jornais citados, dois livros deram-me apoio para me situar no Rio de Janeiro da época imperial: "História das Ruas do Rio de Janeiro", de Brasil Gérson; e "As Freguesias do Rio Antigo", de Paulo Berger.

Rio de Janeiro, 8 de junho de 1998

Waldemar Costa

 



PROÊMIO EXPLICATIVO SOBRE OS LOGRADOUROS

E PRÉDIOS ANTIGOS USADOS NESTA OBRA

  • Ajuda, Rua da - A maior parte desse logradouro desapareceu quando da abertura da Avenida Central (atual Rio Branco). O pequeno trecho remanescente fica entre as avenidas Nilo Peçanha e Rio Branco. Este trecho, antes de voltar a ser Rua da Ajuda, chamou-se Rua Chile e Rua Melvin Jones.
  • Alfândega, Rua da - Conserva o nome até os dias de hoje.
  • Arcos, Rua dos - Conserva o nome até os dias de hoje.
  • Asseca, Largo do - Atual Praça Seca.
  • Barbonos, Rua dos - Atual Rua Evaristo da Veiga.
  • Biblioteca Pública - Atual Biblioteca Nacional. De 1810 a 1858, ocupou algumas salas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, na Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março). De 1858 a 1910, sua sede foi na Rua do Passeio. Em 1910, transferiu-se para o atual prédio na Avenida Rio Branco.
  • Cadeia, Rua da - Atual Rua da Assembléia.
  • Cadeia Velha - Localizava-se onde hoje está o Palácio Tiradentes.
  • Caminho do Brocó - Atual Rua General Polidoro.
  • Caminho do Engenho Velho - Atual Rua Haddock Lobo.
  • Caminho de Jacarepaguá - Atual Rua Cândido Benício.
  • Caminho Novo, Rua do - Atual Rua Frei Caneca.
  • Caminho Novo de Botafogo - Atual Rua Marques de Abrantes.
  • Caminho de São Cristóvão - Começava no Largo de Mataporcos (hoje Largo Estácio de Sá). O trecho do Caminho de São Cristóvão compreendia os atuais logradouros: Rua Joaquim Palhares, Praça da Bandeira, Rua Ceará e Rua São Cristóvão.
  • Caminho Velho de Botafogo - Atual Rua Senador Vergueiro.
  • Cano, Rua do - Atual Rua Sete de Setembro.
  • Capela Imperial - Atual Catedral Metropolitana, na Rua Primeiro de Março esquina com Rua Sete de Setembro.
  • Capim, Largo do - Desaparecido com a abertura da Avenida Presidente Vargas, quando era chamado Praça Lopes Trovão. Localizava-se entre as ruas São Pedro e General Câmara (antiga Rua do Sabão) e fronteiriço com Rua dos Andradas.
  • Catete, Rua do - Conserva o nome até os dias de hoje.
  • Ciganos, Rua dos - Atual Rua da Constituição.
  • Conde, Rua do - Atual Rua Visconde do Rio Branco.
  • Corte - Cidade onde reside o soberano. O Rio de Janeiro, a partir da chegada de Dom João VI e durante todo o Império, era chamado por este nome.
  • Detrás do Carmo, Rua - Atual Rua do Carmo.
  • Direita, Rua - Atual Rua Primeiro de Março.
  • Escola Militar - Funcionou no prédio do Largo de São Francisco de Paula, onde, depois, foi Escola Politécnica, Escola de Engenharia e hoje é o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.
  • Estalagem do Campinho - Localizava-se onde hoje existe um posto revendedor da Shell, na esquina da Avenida Ernâni Cardoso com Rua Domingos Lopes, no Largo do Campinho.
  • Fogo, Rua do - Atual Rua dos Andradas.
  • Hospício, Rua do - Atual Rua Buenos Aires.
  • Lampadosa, Rua da - Atual Rua Luís de Camões.
  • Lavradio, Rua do - Conserva o nome até os dias de hoje.
  • Mãe do Bispo, Largo da - Localizava-se no trecho da atual Praça Floriano em frente ao Palácio Pedro Ernesto (Câmara dos Vereadores), Teatro Municipal e Biblioteca Nacional.
  • Matacavalos, Rua - Atual Rua Riachuelo.
  • Mataporcos, Largo - Atual Largo Estácio de Sá.
  • Maxambomba - Atual cidade de Nova Iguaçu.
  • Misericórdia, Rua da - Ainda existe um pequeno trecho que conserva o nome. O trecho final desapareceu com a urbanização da Esplanada do Castelo.
  • Morro do Castelo - Colina histórica. Nos séculos XVI e XVII, o perímetro urbano da cidade do Rio de Janeiro concentrava-se somente nos seus contornos. Atualmente, chama-se Esplanada do Castelo a área onde ele existiu. Suas abas terminavam nas ruas Santa Luzia, Misericórdia, São José e Ajuda. O desmonte aconteceu em duas épocas: em 1905, demoliu-se a aba do morro em frente à antiga Rua da Ajuda para a construção da Avenida Central (hoje Avenida Rio Branco). Naquela ocasião, desapareceu a Ladeira do Seminário e surgiram os belos prédios do Museu Nacional de Belas Artes e da Biblioteca Nacional. Em 1922, o morro foi totalmente arrasado. Atualmente, há vestígios da antiga colina atrás da Santa Casa da Misericórdia, inclusive um pequeno trecho da Ladeira da Misericórdia, tombado pelo Patrimônio Histórico.
  • Morro de Santo Antônio - Demolido na década de 1950. Situava-se entre o Largo da Carioca e a Rua do Lavradio, onde hoje existe a Avenida República do Chile, edifícios modernos e o antigo Convento de Santo Antônio no alto da parte que restou do morro.
  • Museu Real - Instalado no prédio que atualmente serve de guarda de processos do Poder Judiciário, na Praça da República número 26. Após a transferência do museu para a Quinta da Boa Vista, o antigo prédio do Museu Real (hoje Museu Nacional) abrigou os acervos do Arquivo Nacional.
  • Ourives, Rua dos - Com a abertura da Avenida Central (hoje Avenida Rio Branco), desapareceu o trecho da Rua dos Ourives entre as ruas do Ouvidor e Sete de Setembro. A Rua dos Ourives, assim, ficou desmembrada em duas partes: uma é a atual Rua Miguel Couto e a outra a atual Rodrigo Silva.
  • Ouvidor, Rua do - Conserva o nome. Em 1897, passou a ser chamada Rua Coronel Moreira César (comandante de uma das expedições para combater Antônio Conselheiro). Em 1917, voltou a ser chamada de Rua do Ouvidor.
  • Paço, Largo do - Atual Praça Quinze de Novembro.
  • Piolho, Rua do - Atual Rua da Carioca.
  • Pitangueiras, Campo das - Localizava-se na área hoje compreendida pelo Largo do Machado e Praça José de Alencar.
  • Praia Areia de Espanha - Atual Avenida Augusto Severo. Outrora, as águas da Baia da Guanabara chegavam junto a esse logradouro. Mas, dois grandes aterros afastaram o mar para muito além. O primeiro foi no início do século XX, com as construções da Avenida Beira-Mar e da Praça Paris. O segundo, nos anos 50, quando surgiu o Parque do Flamengo.
  • Prainha - Localizava-se onde hoje é a Praça Mauá.
  • Real de Santa Cruz, Estrada - A Estrada Real de Santa Cruz começava no Caminho de São Cristóvão, no Barro Vermelho ao lado da Quinta da Boa Vista e terminava na Fazenda de Santa Cruz. O seu grande trecho compreendia os seguintes atuais logradouros: Rua São Luís Gonzaga, Avenida Suburbana, Avenida Ernâni Cardoso, Estrada Intendente Magalhães, Avenida Marechal Fontenele, Avenida Santa Cruz e Avenida Cesário de Melo.
  • Rócio, Largo do - Atual Praça Tiradentes.
  • Rosário, Largo do - Atual Praça Monte Castelo.
  • Rosário, Rua do - Conserva o nome até os dias de hoje.
  • Sabão, Rua do - Uma das ruas desaparecidas com a construção da Avenida Presidente Vargas. Após a Guerra do Paraguai, passou a homenagear um dos seus heróis: Rua General Câmara.
  • Sacopenapan - Atuais bairros de Copacabana, Ipanema e Leblon.
  • Sacramento, Rua do - Atual Avenida Passos.
  • Sant’Anna, Campo de - Primitivamente, chamou-se Campo de São Domingos. A partir de 1735, passou a ser chamado de Campo de Sant’Anna por causa da igrejinha de Sant’Anna erguida no local. Denominações posteriores do Campo de Sant'Anna: 22/10/1822 - Campo da Aclamação. Em 1831, com a abdicação de D. Pedro I, foi denominado Campo de Honra; mas voltou a ser Campo da Aclamação logo depois. 1889 - Praça da República. 1934 - O parque no meio do logradouro foi desmembrado da Praça da República com o nome de Parque Júlio Furtado. 1964 - Retornou a denominação antiga de Campo de Sant’Anna, com as ruas laterais continuando com o nome de Praça da República. Área original do Campo de Sant'Anna: O Campo de Sant’Anna original compreendia uma grande área, atualmente repartida por cinco logradouros contíguos: Praça da República, Campo de Sant’Anna, trecho da Avenida Presidente Vargas, Praça Duque de Caxias e Praça Cristiano Otoni.
  • Sant’Anna, Igreja de - Localizava-se onde hoje é a estação D. Pedro II da Central do Brasil.
  • Santa Rita, Largo de - Atualmente existe uma pequena área remanescente do velho Largo de Santa Rita.
  • São Domingos, Largo de - Desaparecido com a construção da Avenida Presidente Vargas. Ficava na esquina da Avenida Passos com a rua General Câmara (antiga Rua do Sabão).
  • São Francisco, Largo de - Conserva o nome até os dias de hoje.
  • São João Batista de Trairaponga - Atual município de São João de Meriti.
  • São José, Rua - Conserva o nome até os dias de hoje.
  • São Pedro, Igreja de - Demolida com a construção da Avenida Presidente Vargas. Ficava na esquina das ruas São Pedro e dos Ourives.
  • São Pedro, Rua - Desaparecida com a abertura da Avenida Presidente Vargas. Era paralela com a também demolida Rua General Câmara (antiga Rua do Sabão).
  • Seminário, Ladeira do - Um dos acessos ao Morro do Castelo, localizada na aba da Rua da Ajuda e do Largo da Mãe do Bispo. A Ladeira do Seminário ficava onde hoje é o prédio da Biblioteca Nacional.
  • Sentinela, Lagoa da - Situava-se perto das atuais ruas Moncorvo Filho e Frei Caneca
  • Teatro São João - Atual Teatro João Caetano.Também foi chamado de Teatro São Pedro, na época do Imperador Dom Pedro II.
  • Valongo, Rua do - Atual Rua Camerino.
  • Vila Rica - Antiga capital da província de Minas Gerais. Em 1823, passou a ser chamada de Ouro Preto, nome que conserva até hoje.
  • Vila Real de Praia Grande - Atual cidade de Niterói.
  • Vila de São João - Atual município de Casemiro de Abreu.
  • Violas, Rua das - Atual Rua Teófilo Otoni.

Capítulo 1

O jovem mascate surge do interior da pequena estalagem. A tranqüilidade do lugar anima-lhe o espírito. Observa e admira a beleza dos morros e da vereda sinuosa que inclina-se para a baixada. Olha à esquerda. O ruído das águas chega-lhe ao ouvido. Na margem, seu cavalo relincha ao notar sua presença. Adriano desperta do êxtase momentâneo e desce em direção ao animal. Na metade do caminho, pára e vira-se ao escutar o estrepitar de patas e o tilintar de metais das armas dos cavalarianos. Com uniformes de cores vivas e os bicórneos nas cabeças, é fácil saber que a comitiva do Príncipe Dom Pedro acaba de chegar à estância.

Após o impacto pelo súbito aparecimento do regente e sua guarda de honra, Adriano retoma ao rumo do riacho. Aproxima-se do animal, afaga-o e amarra a sela em seu dorso. Apanha o fardo atrás de um arbusto e coloca-o na anca do eqüino. Ao se preparar para reiniciar a viagem à vila de São Paulo, sua atenção é desviada por novo tropel de cavalos. Um pouco adiante, dois cavaleiros, com fisionomias preocupadas, atravessam o Riacho Ipiranga. O fato deixa Adriano curioso. Monta a cavalo, dirige-se para o soldado desgarrado e pergunta quem são aqueles apressados.

- Um deles é o correio-real Paulo Bregaro - diz o soldado. - Eles vêm do Rio de Janeiro com mensagens para o príncipe... Devem ser notícias ruins sobre as cortes portuguesas.

Adriano cala-se. Apenas gira a cabeça para ver a colina onde está edificada a estância. O soldado retorna ao assunto.

- Desta vez o príncipe rompe com Portugal... Está chegando a hora da nossa independência.

Adriano sorri contagiado pela alegria do militar. Despede-se e segue em direção à capital da província. Também está convicto que chegou o momento do Brasil tornar-se independente. Uma grande nação livre. Pensa na sua ambição de se estabelecer na cidade do Rio de Janeiro. Abandonar a vida nômade e deixar de ser um simples mercador ambulante e ferrador de cavalgaduras. Quase na entrada da vila de São Paulo, seus pensamentos são interrompidos ao avistar dois cavaleiros fardados. Pela posição deles, nota que estão em apuros.

- Posso ajudar em alguma coisa? - grita Adriano.

- O cavalo do major está com problema na ferradura - fala o jovem militar com uniforme e emblema de alferes. - Precisamos de alguém para ir à vila trazer uma carroça... Temos que rebocar o animal... Ele não consegue andar.

Adriano apeia-se e examina a pata dianteira do animal. Observa a ferradura solta, machucando-o e impedindo sua normal andadura. O major e o alferes estão bastante apreensivos.

- Não é necessário ir à vila buscar socorro. Sou ferrador de cavalos. Eu resolvo o problema... Tenho ferraduras na minha carga... A do animal foi mal colocada e está ferindo-o.

Adriano retira o fardo do lombo do seu cavalo. Apanha algumas ferraduras e apetrechos para o trabalho. Suas mãos são hábeis e rapidamente livra o animal da ferradura velha. Sua agilidade e domínio do serviço causam espanto aos militares.

- Que sorte!... Tenho uma ferradura do tamanho exato do casco do seu cavalo.

- Você é muito bom ferrador - afirma o major, enquanto o alferes balança a cabeça confirmando a observação do seu superior.

- Desde criança ferro cavalos e muares - explica Adriano, retirando os cravos presos no casco.

- Você é de São Paulo? - pergunta o alferes.

- Não... Sou mascate... Vendo mercadorias que não se encontram nas vilas. Também trago ferraduras para socorrer viajantes... Moro na Vila Rica, mas passo o meu tempo nas estradas de Minas Gerais e de São Paulo.

- Deve ser uma vida agitada e atraente - interrompe o major.

- Sim... Uma vida de aventuras e emoções... Mas resolvi me estabelecer no Rio de Janeiro.

- Nós somos do Rio de Janeiro - informa o alferes.

Adriano pára de passar a grosa no casco do cavalo e olha para os dois.

- Vocês são da comitiva do Príncipe Dom Pedro? - inquire ele.

- Não - responde o major. - Nós estamos em missão especial na província de São Paulo. Fazemos levantamento do material necessário aos quartéis da região... O Príncipe Dom Pedro, neste momento, está na vila de Santos.

- Já está de volta! - exclama Adriano. - Acabei de vê-lo na estância junto ao Riacho Ipiranga... Também vi chegar um correio especial do Ministro José Bonifácio... O ambiente entre os soldados da guarda de honra é de expectativa, pois acham que o príncipe romperá com Portugal.

- Um correio vindo da corte! - brada o major.

- Sim... o seu nome é Paulo Bregaro.

- Bregaro! - replica o alferes. - Ele é o melhor correio do Paço de São Cristóvão. Se o mandaram, é que as notícias são graves... Será que as cortes portuguesas vão obrigar o príncipe a viajar para Lisboa?

- O Príncipe não irá... Tenho certeza... Acho que chegou a hora do nosso povo conseguir sua emancipação - observa o major.

Adriano sorri, enquanto martela os cravos e fixa a nova ferradura no eqüino.

- Desde que saí do Riacho Ipiranga, passei a pensar na nossa independência - comenta ele. - Acho que Dom Pedro tomará decisão enérgica logo que chegar ao Rio de Janeiro e se tornará imperador do Brasil.

- Acho que antes!... Talvez hoje à noite na vila de São Paulo.

Adriano levanta-se e faz o cavalo andar em círculo.

- Não está mais com dificuldade. O problema era mesmo com a ferradura.

O major examina o animal.

- Você trabalha muito bem... Quanto é o serviço?

- Não é nada... Nenhum vintém... Só quero a amizade de vocês. Quero encontrar vocês no Rio de Janeiro.

Eles montam e seguem para a vila, conversando alegremente como se fossem amigos a longo tempo. Ao entrar em São Paulo, o major convida Adriano para beber na venda próxima. Os três sentam na grande mesa perto da entrada do estabelecimento. O vendeiro logo traz canecas de vinho.

- Oh! Viajante!... Estamos bastante íntimos, mas desconhecemos o seu nome - declara o alferes.

- Meu nome é Adriano... E vocês... Como se chamam?

- Sou Aleixo... Ele é o Major Varela - aponta o alferes para o seu superior.

- Você então mora na Vila Rica - intervém o Major Varela.

- Ao menos minha família está lá... Eu sou das estradas.

- Agora, você quer deixar de ser errante... Por que você não se planta definitivamente na Vila Rica ao lado dos seus ao invés de tentar a cidade grande? - indaga Aleixo.

- Eu não tenho pai... Ele morreu assassinado... Quem mora na Vila Rica são minha mãe e minhas irmãs... Quero ir para o Rio de Janeiro. É sonho de criança.

- Você conhece o Rio?... Você já esteve lá? - interroga o Major Varela.

- Nasci no Rio de Janeiro... Minha família foi obrigada a sair de lá, quando eu tinha oito anos... Já se faz 16 anos que isso aconteceu.

- Obrigado a sair!... Mas por quê? - interfere Aleixo.

- Meu pai foi morto lá... Não foi bem no Rio de Janeiro... Foi na Vila Real de Praia Grande.

- Fica perto do Rio... Do outro lado da Baía de Guanabara - esclarece o major. - Como ele foi assassinado?

- Foi um caso estranho. Meu pai e meu avô foram mortos pelas milícias... acusados de terem matado numa emboscada um cidadão muito popular na Praia Grande. A polícia afirmou que foi obrigada a matá-los, alegando que reagiram à bala quando receberam ordem de prisão... Por outro lado, os amigos do cidadão supostamente morto pelo meu pai passaram a ameaçar minha mãe e minhas irmãs... Assim, tivemos que deixar o Rio de Janeiro.

- Como era o nome do seu pai? - pergunta o alferes.

- Chamava-se Honório... Meu avô chamava-se Tibúrcio.

- Nunca ouvi essa história - intervém o Major Varela. - Se foi há 16 anos, eu tinha apenas 14 anos de idade.

- Há 16 anos é que fomos obrigados a sair do Rio de Janeiro. Meu pai e meu avô foram assassinados há 18 anos.

- Então, sua mãe ainda ficou dois anos no Rio de Janeiro após a morte do marido - diz Aleixo.

- Sim... Ela me contou que foram anos terríveis... Agora, pretendo voltar. Quero provar que meu pai e meu avô não mataram ninguém e foram assassinados covardemente... Minha mãe tem certeza disso e eu também... Só que não quer a minha volta. Ela tem medo que eu tenha o mesmo fim do papai e do vovô.

O Alferes Aleixo e o Major Varela olham calados para Adriano, enquanto ele bebe um pouco de vinho.

- Mas irei morar na corte de qualquer maneira.

Gritos eufóricos vindos da rua chamam atenção de todos. Eles chegam até a porta e vêem um homem a cavalo berrando com todas suas cordas vocais. O cavaleiro pára diante da venda e dá urros e vivas à liberdade.

- O que houve, homem? - clama o major.

- O príncipe-regente acaba de proclamar a nossa independência... Somos um país livre... Livre de Portugal.

- Mas como!... Aonde foi? - inquire Adriano.

- Foi no Riacho Ipiranga. Depois de receber correspondência de Portugal, Dom Pedro reuniu sua guarda, arrancou o laço português do chapéu e lançou o grito desafio: Independência ou Morte!... O brado do príncipe foi acompanhado pelos soldados, que também retiraram as insígnias portuguesas.

O cavaleiro dispara a galope pela rua, bradando o grito de "independência ou morte". As pessoas na venda se abraçam e comemoram. Adriano vira-se para Aleixo e para o Major Varela.

- Se eu me demorasse no riacho, teria assistido a este momento sublime.

Ele continuam abraçando uns aos outros, enquanto o vendeiro e sua mulher enchem todas as canecas com vinho.

- Esta é por minha conta - fala o dono da venda alegremente.

A notícia espalha-se rapidamente pela vila de São Paulo. A comitiva de Dom Pedro chega ruidosamente, e as portas e janelas se abrem. A pacata população saúda o príncipe. Adriano, Aleixo e o major acenam para os soldados que passam com penachos coloridos nos bicórneos e nas barretinas. Após momentos de intensa alegria, Adriano despede-se dos amigos. Aleixo acompanha-o até à sua montaria.

- Quando você irá para o Rio? - indaga Aleixo.

- Daqui um mês, talvez... Primeiro, irei a Minas Gerais... Ficarei alguns dias com a família... Em outubro, deverei estar no Rio de Janeiro.

- Eu tenho um amigo que é proprietário de uma ferradoria. Posso pedir a ele para empregar você... Afinal, você é excelente ferrador.

- Seria ótimo, Aleixo.

- Procure-me no Paço da Cidade... Faço parte da guarda do prédio. Eu o levarei à ferradoria.

- Você também estará na corte em outubro?

- Sim... Eu e o major faremos rápida inspeção em Itu... Depois, regressaremos para o Rio de Janeiro.

Os dois dão um forte aperto de mão e separam-se. Adriano cavalga pelas ruas. A população comemora entusiasticamente a independência. À noite, Dom Pedro comparece ao teatro e é ovacionado pela platéia. Do camarote, fardado de marechal de exército, bordado no peitilho, nas mangas e nas pernas, responde cordialmente aos acenos. Lá fora, Adriano junta-se à multidão que espera a saída do príncipe. Quando ele surge, com sua fisionomia radiante, seu nome é gritado pelo povo. A noite é de festa. O povo rejubila-se pela fundação do Império do Brasil.

No dia seguinte, com o coração exultante, Adriano segue para Minas Gerias. No longo caminho, atende a clientela. Em todos os lugares, sente a satisfação das pessoas ao saberem da notícia da independência do Brasil. Em Vila Rica, junto com a mãe e as irmãs, fala do pai e do avô e suas mortes misteriosas. Entretanto, não diz que o principal motivo da sua transferência para o Rio de Janeiro é a intenção de reabilitar a memória do pai. Sua mãe fica preocupada. Adriano, para acalmá-la, pondera que ninguém no Rio de Janeiro saberá que ele é filho do Honório. Mas, no íntimo, sabe que isso não acontecerá.

A viagem para a corte demora muitos dias. Adriano aproveita a luz do sol para cavalgar e ultrapassar as montanhas que separam a província de Minas Gerais do Rio de Janeiro. À noite, o descanso nas pousadas da estrada. Finalmente, chega à capital. No Campo de Sant’Anna apeia-se do cavalo junto ao chafariz. Admira o magnífico prédio do Museu Real, na esquina da Rua dos Ciganos. Seus olhos reviram-se em todo o contorno do vasto campo e descobrem a igrejinha de Sant’Anna na outra extremidade. Vira o rosto e se refresca no bebedouro. Retorna a contemplar o majestoso logradouro, onde vários cavalos pastam o capim rasteiro, enquanto esperam seus donos. Alguns deles presos às seges, aos coches e às carruagens. "Em todos os lugares que passei, - pensa ele - nunca vi um lugar público de igual dimensão e com tão belas edificações." Sua cabeça continua a girar. Vê alguns operários aprontando um palanque de madeira. Fica curioso e achega-se ao escravo que abastece suas latas tirando água do chafariz.

- Para que o palanque? Vai haver alguma comemoração?

- O sinhô não sabe!... O sinhô deve ser forasteiro.

- Sim... Estou chegando de Minas Gerais.

- O sinhô veio para a festa do nosso imperador?

- Não... Nem sei que festa é essa... Quando será?

- Amanhã.

Adriano não pergunta mais nada. Dá de beber ao cavalo e continua a bispar o panorama ao longe. Fica fascinado com o desenho formado pela montanha. Mas regressa para perto do escravo e pergunta como ir ao Largo do Paço.

- O sinhô segue por ali... pela Rua do Sabão... Vai toda vida até o sinhô encontrar a Rua da Direita... É só caminhar pela Rua da Direita que o sinhô vai dar no Paço.

Adriano sorri, agradece e afasta-se, tomando o rumo indicado. Com o cavalo em marcha lenta, admira o casario da Rua do Sabão. Passa pelo Largo de São Domingos e pelo Largo do Capim. Uma rapariga, muito bonita e parada junto à loja de fazendas, chama-lhe sua atenção. Gesticula um galanteio e a cumprimenta, levantando o chapéu. A moça fala com alguém dentro da loja. Adriano afasta-se na sua montaria. Adiante, vira-se e vê aparecer outra moça na porta. As duas rindo e olhando em sua direção. Ele faz menção de regressar, mas desiste ao vê-las entrarem. Continua a avançar pela Rua do Sabão. Avista a Igreja da Candelária e pergunta a um velho onde fica a Rua Direita. Minutos depois, encontra o Largo do Paço. Antes de dirigir-se ao prédio do Paço Real, vai à beira do cais. Fica deslumbrado com a quantidade de embarcações ao largo: bergantins, brigues, galeotas, naus e fragatas. Mais perto da escadaria do atracadouro, um número enorme de batéis e escaleres. O rapaz demora-se admirando aquele movimento que nunca viu. Depois, resolve ir ao edifício do Paço. Avizinha-se do guarda e pergunta pelo Alferes Aleixo.

- Ele não está de serviço hoje - comunica o soldado.

- Sou amigo dele. Acabo de chegar de Minas Gerais. Onde poderei encontrá-lo?

- Ele mora perto... na Rua Detrás do Carmo... Você está vendo aquela igreja?

Adriano olha para a direção apontada.

- Sim.

- É a Igreja do Carmo. A rua fica atrás e, por isso, tem este nome... Você deve procurar a loja de sapatos do seu Ubaldo... O seu Ubaldo é o pai do Aleixo. Eles moram no sobrado da loja.

Adriano agradece e segue para a Rua Detrás do Carmo. Não tem muita dificuldade em descobrir a loja do seu Ubaldo. Aproxima-se da porta e vê um senhor bastante gordo com um martelo na mão. Ao seu redor, escravos trabalham em serviços manuais. Adriano pergunta pelo seu Ubaldo. O velho o olha da cabeça aos pés.

- Sou eu mesmo, jovem... Podes deixar as botas naquele canto, mas só posso entregar na semana que vem.

- Não... Não é isso, seu Ubaldo... Sou amigo do Aleixo... Acabo de chegar de Vila Rica.

- Oh!... Oh!... Maria, vem cá - grita seu Ubaldo.

Uma senhora também bastante pançuda aparece nos fundos da loja.

- Vais chamar teu filho, Maria. Digas que um amigo o espera.

Adriano faz um gesto com a mão para a senhora.

- Diz que é o Adriano de Vila Rica.

Dona Maria retira-se e o pai de Aleixo mando-o sentar. O rapaz observa o trabalho da loja. Seu Ubaldo, sentado numa banqueta atrás do balcão, berra e gesticula com os escravos agrupados no chão. Em dado momento, um deles erra ao tentar furar um sapato. Com muita fúria, seu Ubaldo aplica a palmatória no crioulinho. Adriano sente-se mal, mas não pode reagir. O velho continua a bater até ferir a mão do menino.

- Se não tratar esses negros com energia, eles me levam à falência - diz ele.

Adriano não responde. Fica pensativo e perplexo com o acontecido. Um barulho na porta dos fundos faz com que veja Aleixo entrando sorridente.

- Adriano! Que boa surpresa!... Quando você chegou?

- Agora... Meu cavalo ainda está na porta da loja.

Aleixo sai, acompanhado por Adriano.

- Puxa!... É o cavalo que você montava em São Paulo!

- É o Branquinho... Gosto muito dele.

- Já conversei com o dono da ferradoria sobre você.

- E então?

- Veio a calhar, Adriano. Ele está precisando de um ferrador. Uma pessoa competente no ofício... Falei muito bem de você.

- É uma boa notícia. Não posso ficar parado... Preciso ganhar dinheiro para sobreviver.

- Só o levarei à ferradoria depois de amanhã... Hoje já está quase escuro e amanhã não abrirá nada nesta cidade.

- Amanhã... dia útil... quinta-feira... Por que razão não funcionará nada?

- É o dia da grande festa, Adriano... A aclamação do nosso imperador.

Adriano lembra-se das palavras do escravo e do palanque armado no Campo de Sant’Anna. Agora, entende sobre o quê o preto do chafariz falava.

- Já faz mais de um mês que Dom Pedro proclamou a independência em São Paulo... Só amanhã acontecerá sua aclamação.

- O dia de amanhã, 12 de outubro, foi escolhido por ser a data de aniversário do imperador. Ele completará 24 anos.

- A mesma idade que eu tenho.

- Eu também, Adriano... Eu também tenho 24 anos.

- A festa da aclamação do imperador demorou também por outro motivo - continua Aleixo. - Cheguei ao Rio de Janeiro no final de setembro. Meu pai contou-me que a população daqui só soube do Grito do Ipiranga no dia 15 de setembro, pois a comitiva de Dom Pedro chegou de São Paulo na véspera à noite. Do dia 7 ao dia 15 de setembro, todos os habitantes da corte ainda pensavam que estavam sob o jugo português.

- Em Minas Gerais, a notícia também custou a chegar. Eu próprio fui um dos primeiros a espalhar a boa nova pelas vilas.

- Na sexta-feira, iremos na casa do Venâncio - fala Aleixo, mudando de assunto.

- Venâncio?

- É o dono da ferradoria... Agora, precisamos arranjar uma baia para seu cavalo. Aqui perto da loja não há um bom lugar. Vamos deixá-lo numa cocheira no Largo do Rosário... Você dormirá na minha casa.

- Pensava em ficar numa estalagem.

- De jeito nenhum, Adriano. Eu considero você um grande amigo, embora nos conhecemos tão pouco tempo.

Aleixo segura Adriano pelo braço.

- Vamos levar o Branquinho até a cocheira... Ela é em frente à Igreja do Rosário.

Eles seguem a pé pela Rua do Rosário. Adriano, puxando o cavalo pelas rédeas, narra alegremente as peripécias da viagem da Vila Rica para o Rio de Janeiro. Após deixarem Branquinho, regressam pela Rua do Ouvidor e dirigem-se até o embarcadouro. Os dois vêem nas águas escuras as silhuetas das embarcações. Ao longe, um homem acende os lampiões de azeite de peixe no Largo do Paço e em volta do prédio do Paço Real.

- Onde fica a Vila Real da Praia Grande? - murmura Adriano.

- Hum!... É o caso do seu pai... Você pretende mesmo investigar?

- Sim, Aleixo... O motivo da minha vinda ao Rio de Janeiro é provar que meu pai e meu avô não são assassinos.

Aleixo encara Adriano por alguns segundos e vira o corpo bruscamente para o lado do mar.

- A Praia Grande fica do outro lado da baía.

- Como se faz para ir lá? Existe algum serviço de barcos diários para a Praia Grande?

- É preciso alugar um barco. Temos que combinar antecipadamente com o barqueiro. Quando você pretende ir?

- Na sexta-feira.

- Se você quiser ir no domingo, eu irei também.

- Seria ótimo, Aleixo... Então, iremos no domingo.

- O que você tem na idéia? O que você pretende fazer na Praia Grande em relação à morte do seu pai?

- A polícia o acusou de assassinato... Quero conversar com algum miliciano daquela época.

- Está chegando um barqueiro... Vamos descer.

Eles descem as escadas do cais e falam com o dono do batel. Acertam para viajar na manhã de domingo. Depois, circundam o prédio do Paço Real. Aleixo acena para um soldado no interior do casario. Ao chegarem no meio do largo, decidem ir embora.

- Vamos para casa, Adriano... Amanhã, estarei de serviço na festa da aclamação. Terei que acordar muito cedo.

- Haverá parada militar?

- Sim.

- Você desfilará?

- Não... Comandarei a guarda das autoridades.

Os dois se recolhem e logo adormecem. No dia seguinte, Aleixo se levanta antes do sol nascer. Veste a farda de gala. Adriano acorda com o barulho da espada e admira-se com a pompa da roupagem do amigo.

- Nunca vi uniforme tão bonito! - comenta.

- É para ocasiões festivas.

- Vou me levantar também.

- Não... durma mais um pouco. Vá mais tarde ao Campo assistir a festa... Tenho que ir agora... Você pode ficar à vontade. Aqui é como se você estivesse na sua própria casa.

Aleixo sai. Adriano torna a dormir. Acorda uma hora depois. Veste-se, mas não consegue sair do quarto. Sente-se constrangido e sem coragem para aparecer perante a família do Aleixo. Seu Ubaldo surge inesperadamente no aposento e nota a timidez do rapaz. Então, o carrega para a cozinha, onde fazem a primeira refeição. Dona Maria, muito prestativa, também faz com que Adriano se sinta à vontade. O jovem ferrador pensa na palmatória que seu Ubaldo aplicou no escravo. Naquele momento, via outro seu Ubaldo na sua frente, um homem sereno e com aparência de ser muito bom. Sua conversa também transmite bondade. Adriano não consegue comparar o homem que está ali, à mesa, com o carrasco do dia anterior. Sente vontade de perguntar se ele conheceu seu pai ou seu avô, mas desiste. Acha que não chegou o momento. Termina o café e, meio sem jeito, diz que vai ao Campo de Sant’Anna assistir a festa.

- A festa da aclamação será muito bonita! Podes ir agora, meu jovem... Eu e Maria iremos nos aprontar e daqui a pouco estaremos lá também.

No Campo de Sant’Anna, a multidão aglomera-se em frente ao Museu Real. O lado entre as ruas do Conde e dos Ciganos está completamente tomada pelo povo. No outro, mais próximo da Igreja de Sant’Anna, chegam carruagens, seges e carroças, conduzindo pessoas das chácaras de Botafogo, Andaraí e São Cristóvão. Todos querem ver o Imperador Dom Pedro, o jovem rei da grande nação livre. Uma chuva miúda começa a cair. Adriano acompanha tudo com interesse. Movimenta-se entre homens, mulheres, moças e crianças. No meio do Campo, a tropa, com uniformes vistosos, bordados e coloridos, espera o momento para desfilar. Alguém bate em seu ombro. Adriano vira-se.

- Ah!... É você, Aleixo.

- Está se divertindo?

- Sim... Nunca vi festa igual! Como tem gente!

Aleixo faz menção de responder, mas um casal adiante desperta sua atenção.

- É o Venâncio com a esposa... Vamos lá.

Os dois aproximam-se do dono da ferradoria. Aleixo apresenta Adriano a Seu Venâncio.

- Este é o ferrador de cavalos de quem falei.

- Prazer... Esta é minha esposa.

Adriano faz reverência e beija a mão da elegante senhora.

- Amanhã cedo, tu podes levar o rapaz à ferradoria? - indaga seu Venâncio.

- Sim.

- Estarei esperando.

- Combinado. Amanhã, nós iremos à Rua da Misericórdia.

Aleixo e seu Venâncio trocam de assunto, conversam sobre a beleza da festa da aclamação. Adriano fica mudo, bastante inibido pela presença da esposa do seu futuro patrão. Minutos depois, os dois amigos afastam-se do casal.

- O que você achou do Venâncio? - pergunta Aleixo.

- Parece boa pessoa... É muito calmo para falar.

- Exato... Você também tem temperamento sereno. Acho que vocês se darão muito bem.

- A esposa dele é linda... Que rosto!

- É uma das senhoras mais bonitas da corte. É a madame Rebeca... Agora vou deixá-lo... O serviço me espera. Logo mais o encontrarei.

Adriano se infiltra no meio da multidão, bastante molhado pelo borriço. De repente, um uníssono toma conta do Campo de Sant’Anna. Ele olha para o palanque e vê chegar o Imperador Dom Pedro e a Imperatriz Dona Leopoldina. Os canhões iniciam os tiros de festim, saudando a proclamação do Império do Brasil. Gente por todos os lados, com fitinhas verde e amarela no peito. A bandeira desenhada por Debret (um retângulo verde e o amarelo em forma de losango, com as armas do Império no centro, sobressaindo a coroa imperial e os ramos de café) é içada pelos soldados.

O jovem ferrador acompanha a multidão e também ergue os braços, enquanto continuam a ecoar as salvas de tiros. Um pouco adiante, ele descobre seu Venâncio e Rebeca. Examina com os olhos a mulher que o encantou. As formas do seu rosto são perfeitas e transmitem uma mistura jovial e madura. A vestimenta realça a beleza de todo o seu corpo. Adriano aprecia seu modo requintado de gesticular, que lhe imprime um dom de elegância e nobreza. Tudo isso mexe com ele a poucos metros e à disposição dos seus olhos. Durante os discursos e o desfile da tropa, não quer perdê-la de vista. De repente, os olhos da bela senhora encontram os dele. Adriano, encabulado, abaixa a cabeça. Mas volta a encará-la, confirmando que realmente ela o observa. Desta vez, Rebeca é que desvia o olhar.

O rapaz fica impassível durante a parada, pois ela volta a fitá-lo. Terminada a cerimônia militar, o imperador segue a pé em direção à Rua dos Ciganos, carregando atrás de si aquela imensa multidão. Adriano perde o contato visual com Rebeca, quando a comitiva de Dom Pedro chega ao Largo do Rócio. Procura-a por toda a parte. As pessoas o empurram, e ele não tem outro jeito senão seguir com o povo pelas ruas do Rosário e Direita até a Capela Imperial, onde o imperador entra para assistir o Te-Deum. Do lado de fora da igreja, Adriano perscruta com os olhos o Largo do Paço, à cata de Rebeca. Porém, leva um susto ao ver duas moças. São as mesmas que, na véspera, estavam na porta da loja de fazendas da Rua do Sabão. Ele aproxima-se timidamente.

- Conseguiram encontrar o tecido?

As duas riem e se cutucam. Uma senhora achega-se a elas e olha firme para ele, que percebe seu lapso e tanta afastar-se. Mas, uma das raparigas dirige-se a ele.

- Esta é minha mãe... É a Dona Josefa.

Adriano fica paralisado com aquela reação. A moça sorri e fala com a mãe.

- Este é o rapaz que passou ontem em frente à loja.

- Prazer - diz Dona Josefa, estendendo a mão.

Adriano, muito encabulado com a situação inusitada, beija a mão da senhora.

- Meu nome é Adriano. Como se chamam?

- Ana Bárbara. Esta é minha irmã Carolina... Você deve estar intricado.

Adriano balança a cabeça afirmativamente.

- Ontem, quando você passou pela loja, vi logo que era forasteiro. Eu e a Carolina ficamos brincando na porta. Quando notamos que você fez menção de retornar, corremos as duas para dentro da loja. A mamãe ralhou conosco... Você, ontem, foi muito comentado lá em casa.

- Ah!... A loja é de vocês?

- É da mamãe. Nós a ajudamos.

- Meninas, tomem juízo! O rapaz deve estar pensando que vocês são malucas - retruca Dona Josefa.

- Não se incomode, minha senhora. Estou acostumado... tenho duas irmãs... elas também são muito brincalhonas.

- Você reside no interior? - inquire Carolina.

- Estou vindo da província de Minas Gerais... Mas ficarei aqui na corte... Vou trabalhar numa oficina de ferradoria.

- Pretende trazer suas irmãs? - interroga Ana Bárbara.

- Não. Elas estão bem casadas na Vila Rica. Penso em trazer a minha mãe... Mas sei que será difícil. A mamãe não quer vir para o Rio de Janeiro.

Eles continuam a conversar por longo tempo até serem interrompidos pela vibração da multidão. O Imperador Dom Pedro sai da Capela Imperial e acena do alto do passadiço de ferro que liga a capela à antiga residência real, seguindo até o Paço Imperial para a cerimônia do beija-mão. Adriano aproveita a ocasião para brincar com as moças.

- Vocês não vão beijar a mão do seu príncipe?

Ana Bárbara e Dona Josefa sorriem, mas Carolina redargüi.

- Meu príncipe está na Europa... em viagem de férias. É meu namorado. Você não sabia!... Eu tenho namorado... está para chegar.

O rapaz olha-a em silêncio, enquanto Carolina irradia orgulho pelo que falou. Ana Bárbara sorri sem a irmã perceber, e Dona Josefa faz gesto negativo, talvez em reprovação à ingenuidade da filha. Mas a reunião continua alegremente até a hora em que as moças e a mãe regressam para casa. Adriano permanece um pouco no Largo do Paço e assiste a saída da família imperial para a Quinta da Boa Vista. À noite, ele e Aleixo vão ao Largo do Rócio, onde presenciam a aparição do imperador na sacada do Teatro São João. No dia seguinte, eles acordam bem cedo e partem para o encontro com o seu Venâncio.

A ferradoria situa-se na Rua da Misericórdia, um pouco além da esquina da Rua São José. Bem ao lado dela, o casarão assobradado que serve de moradia para o seu Venâncio. Há duas entradas: a principal com três degraus saindo para a calçada, que dá para o térreo do sobrado; e uma lateral para a ferradoria, por onde passam os empregados, os escravos, os cavalos, as carroças e as carruagens. Nos fundos, existe um grande terreno; bastante plano no início, mas com acentuado aclive nas proximidades da encosta do Morro do Castelo. Enquanto esperam a chegada do seu Venâncio, Adriano observa que a oficina é espaçosa, com partes cobertas para ferrar os cavalos. Há muitas ferramentas, três bigornas e uma forja. No quintal, amplas cocheiras e a senzala. Junto à oficina, o escritório do seu Venâncio. Ao lado do escritório, há uma estreita porta que dá acesso para o casario da família.

Adriano vislumbra na mente a imagem de Rebeca. "Ela deve estar lá dentro, atrás daquela porta - pensa ele." Também está muito apreensivo com a conversa que terá com seu Venâncio, pois arranjar um emprego é muito importante para ele. Lembra-se do senhor idoso que os recebeu, que não foi nada auspicioso e até certo ponto muito arrogante. Suas preocupações aumentam ao descobrir que esse velho é quem comanda os empregados e os escravos da ferradoria. Finalmente, são chamados ao escritório. Aleixo entra na frente e murmura para Adriano que tudo vai dar certo. Seu Venâncio levanta-se e os cumprimenta efusivamente.

- As referências do Aleixo e do Major Varela sobre você são excelentes. Tu podes começar hoje... Farás uma experiência pelo tempo de um mês... Se der certo, ficarás comigo definitivamente.

- Estou certo que o Adriano agradará... Não conheço ninguém com tanta destreza para colocar ferradura - replica Aleixo.

- Já vi que este lugar é bom para o trabalho. Tem muito espaço e boas instalações - declara Adriano.

- Nossa atividade é de ferrar. Não só os cavalos... ferramos jumentos, mulos e até bois... Também trato da saúde dos bichos, pois possuo bons conhecimentos das doenças dos animais - explica seu Venâncio com ar de muita altivez.

- Já que está tudo certo, deixarei o Adriano com você.

- Poder ir, Aleixo. O rapaz está entregue.

Aleixo retira-se apressadamente, enquanto seu Venâncio leva Adriano para mostrar a cocheira.

- Alguns cavalos são meus - gesticula seu Venâncio, indicando as baias. - Outros são de fregueses que os deixaram para ferrar... Aquele ali está se curando de um ferimento na perna.

Adriano vira-se para o seu lado esquerdo.

- Vem cá, Tomás - grita seu Venâncio para o pequeno escravo.

O menino aproxima-se, puxando o cavalo manco pelas rédeas. Olha desconfiado para Adriano e ergue bem a cabeça para seu Venâncio.

- Como está o animal?... Cuidaste da ferida?

- Já sinhô... Ele já anda bem.

- Este é o Adriano... É o novo ferrador. Obedeças a ele. Faças tudo que ele mandar.

Seu Venâncio e Adriano afastam-se para os fundos da propriedade, ao mesmo tempo que o garoto leva o cavalo para a baia.

- Este pequeno escravo é muito bom. Nasceu na fazenda do pai da minha mulher. Sua mãe é a nossa cozinheira.

O rosto de Rebeca surge novamente nos pensamentos de Adriano, que não presta mais atenção no que seu Venâncio fala.

- Tu tens cavalo? - repete seu Venâncio.

- Ah! Sim... desculpa... Eu estava distraído olhando o morro. Eu tenho cavalo... Deixei-o numa cocheira no Largo do Rosário.

- Podes trazer para aqui... Agora, vou-te apresentar ao feitor... Abaixo de mim, ele é o teu chefe... Depois, tu irás buscar teu cavalo. Outra coisa: tu poder morar aqui. Ao lado da oficina tem o cômodo do feitor. É bastante grande e cabem confortavelmente duas pessoas.

Adriano coça a cabeça. "O feitor só pode ser o velho mal encarado que vi na oficina" - pensa ele.

- Não precisa se incomodar, seu Venâncio. Estou dormindo no sobrado do Aleixo, mas devo ficar por pouco tempo... Quero morar sozinho... Pretendo alugar um quarto numa casa de cômodos.

- Tu estás certo, rapaz... Morar só é muito bom para tua idade... Podes receber essas raparigas que andam por aí... Mas vamos até a oficina.

Os dois caminham em silêncio. Adriano levanta a cabeça para o sobrado e avista Rebeca na janela. A bela senhora desaparece rapidamente ao notar que é espiada. Somente Adriano observa a cena. Seu Venâncio acompanha a passagem de alguns escravos carregando umas mulas. Ao entrar na oficina, Adriano confirma sua suspeita. O feitor é mesmo o velho carrancudo. Seu Venâncio apresenta-o.

- Este é o feitor da ferradoria.

- Muito prazer - diz o feitor. - Meu nome é Clemente João.

- O meu é Adriano.

- Ele é o rapaz que te falei... Vai trabalhar conosco... Tem fama de bom ferrador.

- O ofício de ferrador exige anos de experiência - pondera Clemente João. - Você é muito jovem... Quantos anos você tem?

- Vinte e quatro.

- Hum!... Hum!... Hum!... Ainda tem muito o que aprender, moço... Vai precisar de alguns anos ferrando cavalos para tentar ser um bom ferrador.

Seu Venâncio dá uma gargalhada e avisa a Clemente João que o cavalo de Adriano vai ficar abrigado numa das baias da propriedade. O feitor faz cara feia, mas procura tratar o novo ferrador com educação. Após escutar atentamente João Clemente falar sobre o serviço, Adriano segue para o Largo do Rosário. Pelas ruas, faz um retrospecto de tudo o que lhe aconteceu nos poucos dias que está no Rio de Janeiro. "Preciso colocar a cabeça no lugar. Esquecer a mulher do meu patrão, pois já terei muitas preocupações com o feitor - pensa ele". Entra na estrebaria do Largo do Rosário, apanha Branquinho, paga a estadia e retorna montado no seu cavalo. Ao chegar à ferradoria, o escravo Tomás corre em sua direção e segura as rédeas. Adriano apeia-se do cavalo.

- Já escolhi uma boa baia para o sinhozinho - fala o escravo.

- Para mim não... Para o meu cavalo - responde Adriano, com um sorriso no canto da boca.

Tomás fica sem graça, mas continua alisando o pelo de Branquinho.

- Ele é bonito... Todo branco.

- Por isso tem o nome de Branquinho.

Eles carregam o animal para a cavalariça e o colocam numa baia bastante grande. Enquanto Adriano retira a sela do eqüino, o menino o olha com curiosidade.

- Quando o sinhozinho chegou, fiquei com medo - afirma ele.

- Com medo?... Medo de quem?... Medo de mim?

- Sim.

- Mas, por quê?

- Pensei que o sinhozinho ia me comprar... Agora, não estou mais com medo... Se o sinhozinho me comprar, até que é bom.

- Bom!... Por que seria bom?

- Por que sei que o sinhozinho também é bom... Mas a sinhá não deixará eu ir... Também não irei, pois gosto muito dela.

- Sinhá?... Que sinhá?

- A sinhá Rebeca.

- Ah! Sim... A esposa do Seu Venâncio... Eu soube que tu nasceste na fazenda do pai dela.

- Sim... ela que trouxe eu e minha mãe para aqui.

- A sua mãe também nasceu na fazenda?

- Não... Ela é da nação Benguela... Veio do outro lado do mar.

- Sim... Sim... da África... navio negreiro... Mas eu não quero comprar ninguém... Vim trabalhar aqui. Para mim, ninguém seria escravo. Todos deveriam receber o dinheiro pelo seu trabalho.

Enquanto Tomás fica na cavalariça, Adriano vai ao encontro do feitor, para iniciar o trabalho na ferradoria. No final da tarde, Adriano reencontra-se com o Aleixo. Muito alegre, conta as novidades do seu primeiro dia na ferradoria. Seu Ubaldo, num canto da sala, lê o jornal sem dar muita importância à conversa dos dois.

- Depois do jantar, sairemos um pouco. Quero apresentá-lo aos meus amigos na taberna - comenta Aleixo.

- Não tenho como me vestir para tal tertúlia... Não posso ir com estes trajes de mascate... Na semana que vem, comprarei algumas roupas. Com as que possuo, sinto vergonha de aparecer diante dos seus amigos.

- Não há problema... Seu corpo é do tamanho do meu... Vamos até o quarto para provar uma das minhas casacas.

Adriano reluta, mas acaba aceitando ante a perseverança de Aleixo. Os dois entram no aposento, e Adriano troca de roupa.

- Parece que foi feita sob medida para você... Estás com aspecto de um nobre da câmara ou do senado.

- O pessoal vai desconfiar que a roupa é sua.

- Que nada... não a uso há muito tempo... emagreci um pouco, e já não dá mais em mim... Pode ficar com ela.

- Está justinha em mim - declara Adriano, alisando a casaca.

- A taberna é na Rua Direita, num canto aconchegante do prédio da casa de pasto e ao lado de um amplo salão de diversões... Nas redondezas das ruas São José, Ourives e Ajuda existem muitas bodegas. Mas o ambiente é diferente, pois naquela esquina reúnem-se desordeiros e alcoólatras. É muito perigoso passar por lá à noite.

Bem vestidos e alegres, eles saem. Na entrada da casa de vinho, encontram o Major Varela.

- Como vai, Adriano! - exclama o Major.

- Vou bem... Estou muito grato pelas referências feitas a meu respeito ao seu Venâncio.

- Não precisa agradecer. Só disse a verdade. Você é um mestre na arte de ferrar cavalos... Acertou tudo com ele?

- Sim. Já estou trabalhando.

- Vocês vindo e eu saindo.

- O nosso pessoal já chegou? - pergunta Aleixo.

- Sim... Estão na mesa de costume.

Eles despedem-se do Major e entram no prédio. Aleixo cumprimenta seu Abílio.

- O seu Abílio é o proprietário da taberna... Naquela mesa, - aponta ele - sentam-se os mais velhos. O de barba branca é o seu Alexandrino, dono de uma livraria na Rua do Ouvidor. O senhor obeso, que está com ele, é o seu Gaspar... O velho Gaspar é muito divertido e gosta de conversar com meu pessoal... Lá esta a nossa mesa. Vamos nos aproximar.

Os dois acercam-se da mesa dos jovens fidalgos. Adriano, com a cabeça erguida, observa as pinturas nas paredes. Aleixo gesticula muito ao chegar junto dos companheiros.

- Trouxe um grande amigo que acaba de chegar da Vila Rica... É o Adriano, o melhor ferrador de cavalos do Império.

Os jovens levantam-se e olham para Adriano. O rapaz fica constrangido pelo fato de Aleixo mencionar a sua profissão de ferrador diante daqueles moços elegantes. Desconfia que não será bem recebido, pois eles continuam a fitá-lo bastantes sérios. Aleixo, sem perceber o melindre de Adriano, apresenta-o a cada um.

- Este é o Dr. Joaquim Antônio, o mais jovem médico da Santa Casa da Misericórdia... Este é o Hugo César, o nosso engenheiro militar... Este é o Samuel, um grande advogado formado em Coimbra.

Adriano fica feliz, pois eles o recebem alegremente e disputam um lugar ao seu lado.

- Firmino - grita Samuel para o fâmulo da taberna. - Traga mais duas canecas de vinho.

Eles falam e bebem festivamente. Adriano, aos poucos, se entrosa com o grupo e perde a timidez. Torna-se o centro da conversa e narra as suas estórias e viagens pelas aldeias e vilas de Minas Gerais e São Paulo. O estardalhaço do velho Gaspar na outra mesa o interrompe. Adriano olha espantado para lá. Seu Gaspar gesticula e brada para um outro senhor.

- É o seu Cristóvão que está chegando - alerta Aleixo.

Adriano continua a observar com perplexidade.

- O seu Cristóvão é da Intendência Geral de polícia... ele aparece aqui uma vez ou outra - conclui Aleixo.

- Ele surge sempre à noite, após fiscalizar os lampadários da cidade - esclarece Dr. Joaquim Antônio.

- O seu Cristóvão é responsável pela iluminação pública da intendência - intervém Samuel.

Adriano faz uma careta e vira-se para Aleixo.

- Você não disse que ele trabalha na polícia?

- E confirmo... A Intendência de Polícia administra a cidade em nome do imperador. Um dos serviços é controlar e manter o fogo dos nichos e dos lampadários das ruas... O seu Cristóvão é o chefe do setor de iluminação pública. É ele que manda nos empregados e escravos que abastecem os lampiões com azeite de peixe e os acende quando chega a noite.

- Não conhecia esse trabalho - retruca Adriano.

- Um dos meios para combater os assaltos à noite foi iluminar as ruas da cidade - conta Samuel. - Meu pai disse-me que, antes da chegada de Dom João VI, o Rio de Janeiro era completamente escuro. Ninguém se atrevia a sair após o sol se por.

Adriano continua a olhar para a outra mesa, onde seu Alexandrino, seu Gaspar e seu Cristóvão conversam animadamente.

- Vamos até lá! - chama Aleixo. - Vou apresentar você aos velhos.

Eles avizinham-se dos três senhores. Seu Gaspar os cumprimenta com alegria.

- Como vai, meu jovem alferes?

- Vou bem... Este é meu amigo Adriano... É da Vila Rica.

- Você está de passeio? Veio assistir a aclamação do Imperador? - interfere seu Cristóvão.

- Não... Vou morar no Rio de Janeiro... Aliás, estou regressando. Eu nasci aqui.

- Ele está trabalhando na ferradoria do Venâncio - brada Aleixo.

- Tu cuidas dos cavalos? - inquire seu Alexandrino.

- Sim.

- Das doenças dos bichos?

- Não. Sou ferrador.

Adriano fica com raiva do desdém que seu Alexandrino faz com o rosto. O livreiro também transmite um sorriso de desprezo.

- Ah!... Então és um simples ferrador de cavalos.

- Sou e tenho muito orgulho da minha profissão... O Aleixo me disse que o senhor tem cultura... é dono de uma livraria... Pois é bom o senhor saber, seu Alexandrino, que sou ferrador... Mas não sou analfabeto. Gosto de livros... Li muitas obras de grandes autores... Procurei me instruir, apesar de ser órfão de pai.

Seu Alexandrino mostra-se indignado e fica vermelho, mas torna-se a sentar.

- Meu pai morreu e me deixou só com minha mãe e minhas irmãs.

- Você era criança quando isso aconteceu? - indaga seu Cristóvão.

- Eu estava com apenas seis anos... Meu pai e meu avô foram assassinados covardemente.

- Em Vila Rica? - interroga seu Gaspar.

- Não... foi na Vila Real da Praia Grande... Meu pai e meu avô moravam no Rio de Janeiro. Os senhores são antigos e devem ter conhecido eles.

- Como se chamavam? - pergunta seu Gaspar.

- O nome do meu pai era Honório Mercier Lopes. Meu avô chamava-se Tibúrcio.

- Não os conheci - declara seu Gaspar.

- Também não - murmura seu Cristóvão.

- Honório Mercier... Tibúrcio Mercier... Soube desse caso... Mas tu estás enganado, rapaz... Foi realmente teu pai que assassinou o Fulgêncio, uma pessoa muito estimada na Vila da Praia Grande... Seus parentes foram mortos pela polícia, pois reagiram à prisão - contesta seu Alexandrino.

- Não acredito. Tenho certeza que meu pai não matou ninguém. Vou provar que tudo isso foi inventado... É uma mentira... Quero limpar a memória deles.

- Rapaz... rapaz... Tu és muito jovem... Naquela época eu estava com o dobro da tua idade atual. Acompanhei bem os comentários e as notícias vindas do outro lado da baía. O povo da Praia Grande sabia que eram teu pai e teu avô os assassinos... Um filho deve defender o pai, mas não pode fugir da verdade, somente porque ela dói na consciência. Rapaz, tu precisas conviver com a dura realidade: és filho de um assassino... Um homem cruel que matou uma pessoa muito boa.

Seu Alexandrino pára de falar. Aleixo sente a revolta de Adriano. Segura-o pelo braço e obriga-o a retornar à outra mesa.

- Tivemos um grande aborrecimento - informa Aleixo ao sentar-se ao lado do Dr. Joaquim Antônio e de Samuel.

- Nós ouvimos tudo. O seu Alexandrino falava bem alto - diz Hugo César, sentado do outro lado da mesa.

- É um velho muito arrogante - acrescenta Samuel.

- Ele parece conhecer bem o caso do papai... acho muito estranho - observa Adriano.

A chegada de Firmino interrompe a conversa. O criado traz mais vinho e enche as canecas dos cinco jovens. Na outra mesa, seu Cristóvão e seu Alexandrino retiram-se e deixam seu Gaspar sozinho. Então, o velho barrigudo aproxima-se da mesa dos rapazes. Olha para Adriano e toca no seu ombro em gesto fraternal.

- Não ligue para as palavras ásperas do Alexandrino. Ele não devia ter falado daquela maneira.

- O senhor conheceu meu pai e meu avô?

- Não... Mas lembro-me dos comentários da época sobre o assassinato do Fulgêncio.

- O que o senhor ouvia?

- Ouvi muitas pessoas afirmando que a polícia matou os assassinos do Fulgêncio.

- O senhor sabia que a minha mãe foi obrigada a deixar o Rio de Janeiro por causa das ameaças dos amigos desse tal Fulgêncio?

Seu Gaspar não responde, mas procura consolar Adriano com duas leves palmadas no seu ombro.

- Sua mãe ainda vive em Vila Rica? - Fala Hugo César.

- Sim... Tenho também duas irmãs que moram lá.

- Eu estive em Vila Rica... É um lugar bonito, cercado pelas montanhas. Mas isso já foi a mais de vinte anos - diz seu Gaspar.

- Naquela época o senhor já possuía a chácara em Botafogo? - gesticula Aleixo, tentando sair do assunto sobre o crime da Praia Grande.

- Não... Comprei a chácara em 1815.

Aleixo vira-se para Adriano.

- A chácara do seu Gaspar é perto da residência onde morou a Rainha Carlota Joaquina.

- Dona Carlota não residiu na Quinta da Boa Vista com Dom João? - intervém Adriano.

- Não... A Dona Carlota Joaquina não suportava o marido - explica seu Gaspar. - A finalidade da união deles foi simplesmente política, para reunir os tronos de Portugal e Espanha... O pai de Dona Carlota Joaquina era o rei da Espanha, Dom Carlos IV... A princesa era insolente e detestava o Brasil. Dizem que quando regressou a Portugal, tirou os sapatos e os jogou fora. Berrou para todo mundo escutar que jamais voltaria a calçá-los por ter pisado com eles o chão brasileiro.

Seu Gaspar passa a mão na careca e torna a colocar o chapéu na cabeça. Adriano observa que os jovens fidalgos, com roupas importadas de Paris, estão atentos e dominados pelo velho obeso, de timbre de voz sonoro e roupas bem simples. O jovem ferrador olha para seu casaco surrado de enormes bolsos e para a calça puída e suja. Mas acha o velho bastante simpático e fica contente ao ver os moços admirados com uma pessoa com aqueles trajes, bem piores do que o dele antes de vestir as roupas do amigo Aleixo.

- A Dona Carlota Joaquina era de fato desaforada - prossegue seu Gaspar. - Quantas vezes viajando para a minha chácara pelo Caminho Novo de Botafogo, eu tive de adentrar pelo mato, a fim de não ser atropelado pela sua carruagem ou sofrer na carne os chicotes dos seus batedores. Dona Carlota não respeitava ninguém... Nem os embaixadores dos países amigos que residiam em Botafogo ou nas Laranjeiras. Quem avistasse sua comitiva tinha que desviar. Eu passei a evitar o Caminho Novo. Comecei a usar o Caminho Velho de Botafogo.

- Na Vila Rica, circulou o boato que ela não gostava do nosso atual imperador... É verdade? - pergunta Adriano.

- Dona Carlota tinha predileção para Dom Miguel. Com o outro filho, o nosso Dom Pedro, nutria uma espécie de ódio e afastou-se também dele durante toda sua estada no Brasil.

- Agora, em Lisboa, ela luta para destronar o marido e colocar em seu lugar o infante Dom Miguel - comenta Samuel.

- O Samuel esteve em Portugal e sabe da atual situação de lá - esclarece seu Gaspar.

- Ela está conspirando contra o marido - continua Samuel. - Tenta abalar as cortes e fazer os deputados portugueses pensarem que Dom João VI é o causador das desavenças entre a Metrópole e o Brasil... Quando chegar à Lisboa a notícia da nossa independência, acredito que o pobre Dom João perderá o trono.

- Eu me lembro quando Dom João desembarcou no Rio de Janeiro. Não era ainda o rei de Portugal. Era o regente da mãe, a Rainha dona Maria I, que estava completamente maluca.

Seu Gaspar pára de falar. Olha para a caneca vazia. Hugo César estica o braço e a enche de vinho. O velho dá um trago e lambe os lábios, procurando aproveitar o máximo a bebida.

- Eu assisti muitas vezes Dona Maria vagando no Largo do Paço nas suas alucinações... Tinha medo de tudo... Medo de ser morta por conspiradores... Medo que começou com a Revolução Francesa, quando o Rei Luís XVI e a Rainha Maria Antonieta foram guilhotinados... Um rei e uma rainha mortos pelo povo. Dona Maria nuca conseguiu entender um rei guilhotinado. Para ela, o rei era um ser soberbo, absoluto, quase um deus.

- A tragédia sempre a perseguiu - continua seu Gaspar. - Antes, havia casado com o tio Dom Pedro, irmão do Rei Dom José I, que era o pai dela... Sofreu o primeiro desvairamento com a morte de Dom José... Mas, subiu ao trono e tornou-se rainha e seu tio-marido, rei. Dona Maria I e Dom Pedro III reinaram juntos apenas nove anos, pois ele também morreu, deixando-a sozinha no trono... Suas crises agravaram-se durante a Revolução Francesa, quando a execução do rei da França deixou-a louca. Assim, chegaram ao Rio de Janeiro. Dona Maria com a cara de demente e o Príncipe Dom João com aspecto de bonachão que queria gozar a vida, mas nunca ser rei. Ao mesmo tempo, dona Carlota Joaquina apoquentava os vizinhos em Botafogo.

Seu Gaspar conta mais histórias. Hugo César, Dr. Joaquim Antônio, Samuel, Aleixo e Adriano estão todos concentrados no velho, cuja voz sonora chama atenção dos ocupastes das outras mesas. No fim da reunião, Samuel sai junto com Aleixo e Adriano. Os três percorrem a Rua Direita em direção ao Largo do Paço. Entram na Rua do Cano, quando Samuel separa-se. Aleixo e Adriano andam vagarosamente, pois a iluminação da Rua Detrás do Carmo é fraca e inexistente na maioria dos trechos.

- Vou pedir ao seu Cristóvão a colocação de um nicho para clarear esta parte da rua. Nas noites sem luar, como hoje, mal podemos caminhar - reclama Aleixo.

- Aqui tem muitas ruas com iluminação. Na Vila Rica a escuridão é total. Não se pode sair de casa à noite - comenta Adriano.

Os dois entram na loja do seu Ubaldo.

- Meus pais estão gostando de você estar morando conosco. Dizem que é uma companhia para mim.

- Mas tenho que procurar um espaço para viver... alugar um cômodo. Pensão eu não quero. Desejo um lugar que sinta certa independência. Nunca gostei de depender dos outros. Sinto-me mal e acanhado.

- Você é quem sabe, Adriano... Por mim, pode ficar na minha casa o tempo que quiser. Nem eu nem meus pais se incomodarão.

- Já deu para perceber que sua família é bastante acolhedora. Mas meu gênio é assim... Gosto de viver no que é meu. Você não sabe de uma casa de cômodos com quartos para alugar?

- Não. Mas no Diário do Rio de Janeiro deve ter algum anúncio. Meu pai é assinante... Pode subir que levarei o jornal para você.

Adriano acende o candeeiro e o carrega à meia altura para clarear os degraus. Entra no aposento e troca rapidamente de roupa. Pensa na agitada conversa na taberna e as palavras rudes do seu Alexandrino: "Aquele velho deve saber muita coisa sobre o assassinato do meu pai." Aleixo surge e fala efusivamente.

- Trouxe o Diário do Rio de Janeiro. É um jornal só de anúncios.

- Só de anúncios?... Não sabia da existência de um jornal só de anúncios.

- E sai diariamente!

- Diariamente?... Aqui no Rio de fato têm muitas novidades para um provinciano como eu.

Adriano passa a vista pelas páginas do jornal junto ao candeeiro, enquanto Aleixo muda de roupa.

- Aleixo!

- Achou algum cômodo para alugar?

- Ainda não... Estou é pasmado com a grande quantidade de reclames de venda e aluguel de escravos.

- Os pretos são as mercadorias mais procuradas da cidade.

- Você acha que eles são mercadorias?

Aleixo abaixa a cabeça.

- Não! Mas a população pensa assim... O próprio crioulo acha.

Adriano lembra-se do dia da sua chegada, quando seu Ubaldo bateu num pequeno escravo.

- O seu pai costuma espancar os escravos?

- Por que você pergunta isso?

- No dia que cheguei, enquanto esperava você, eu o vi castigando um deles com a palmatória.

- Bate sim, Adriano. Mas ele não é mau... Pune os escravos porque pensa que é normal. Meu avô era mercador de escravos. A vida de meu pai sempre foi relacionada diretamente com a escravidão. Papai acha que o preto é como os bichos: quando erra, apanha; quando acerta, recebe carinho.

- Você também raciocina assim?

- Não... julgo que devem ser considerados gente.

- Na minha opinião, nem as pessoas e nem os animais poder ser agredidos.

Aleixo não responde. Abastece um candil, coloca junto da sua cama e o acende. Adriano continua a ler. Na última página, um pequeno anúncio chama sua atenção.

- Onde é o Largo do Capim? - pergunta ele.

- É perto do Campo de Sant’Anna, entre as ruas São Pedro e do Sabão.

- Ah! Rua do Sabão... Eu passei por lá quando cheguei à cidade. Traz aqui um anúncio de quarto para alugar no Largo do Capim.

- Amanhã nós iremos lá... O Largo do Capim é um bom lugar... Perto do Rócio, do Largo de São Francisco e do Campo de Sant’Anna.

Os dois apagam o fogo dos candeeiros e deitam-se. A imagem da ferradoria chega à cabeça de Adriano. "O Seu Venâncio é uma boa pessoa. Um patrão difícil de se encontrar. O problema será o feitor" - pensa ele. Sua mente também reproduz o belo rosto de Rebeca, e ele morde os lábios. "Não sei o que está acontecendo. Não posso ficar impressionado pela mulher do meu patrão. Ele não merece, pois trata-me como amigo. Ela também não fez nada para causar esta minha paixão. O que houve comigo? Tenho que esquecê-la. Estou até com vergonha de falar sobre o assunto com o Aleixo. O que ele pensaria de mim?"

Pela manhã, eles chegam ao endereço indicado no jornal. Uma senhora idosa atende e leva-os à parte de cima do sobrado. Adriano gosta do quarto, por ter mobílias e por ser de frente para o largo. Abre a Janela, olha para o Largo do Capim e retorna ao meio do aposento. Examina a cômoda ao lado da cama de, abre o pequeno armário perto da janela e senta-se na cadeira atrás da porta.

- O banho é na parte de baixo... Nos fundos do quintal - comunica a proprietária.

- Concordo com tudo. O preço do aluguel é bom. Mas não posso pagar um ano antecipado... Não pode ser mensal?

- Não, meu filho... Estou sozinha no mundo e vivo do dinheiro destes cômodos... Tenho que cobrar um ano de aluguel, pois não me fio em mais ninguém... Já fui enganada muitas vezes.

- O Adriano é excelente pessoa. Pode confiar... Olha suas feições. É um rapaz honesto! - exclama Aleixo.

- Estou vendo que é rapaz de família... Mas não posso recuar... O aluguel é anual... E adiantado.

- A madame não se arrependerá. O Adriano está começando vida nova. Veio de Minas Gerais... No momento, não tem dinheiro para pagar por um ano, mas é trabalhador e cumpridor de seus deveres... A madame não terá problemas com ele... Já está empregado na ferradoria do Venâncio... Se a madame precisar, falaremos com o Venâncio e arranjaremos uma carta de fiança.

A velha pára de espiar Aleixo e examina atentamente Adriano. Ele, bastante encabulado, procura abrir o armário, para disfarçar o nervosismo. Ela vai até a janela e volve-se outra vez.

- Eu conheço o seu Venâncio... Não precisa da carta de fiança... O cômodo fica alugado por um mês adiantado.

Adriano dá um pulo de alegria.

- A senhora pode confiar em mim...Nunca atrasarei o pagamento.

O rapaz dá o dinheiro à anciã e recebe a chave. A senhora sai, e Aleixo encosta a porta. Adriano ri muito e, mais uma vez, verifica o armário.

- Trarei minhas coisas logo mais... Em alguns meses, terei muitas roupas dentro deste móvel... Agora, preciso apenas comprar peças para guarnecer o colchão e para me cobrir... Aqui perto, na Rua do Sabão, há uma loja de fazendas.

- Onde trabalham duas raparigas bonitas? - arrisca Aleixo.

- Sim... Você as conhece?

- Sim.

- A Ana Bárbara?

Aleixo leva um susto.

- Como?... Você sabe o nome dela?!

- Sim... a irmã chama-se Carolina... A mãe é Dona Josefa.

Aleixo fica perplexo.

- Cáspite!... com tão pouco tempo na corte, você já conhece a família da senhorinha Ana Bárbara.

Adriano conta como aconteceu o relacionamento com as jovens e a mãe. Aleixo presta atenção à narrativa sem interrompê-lo.

- A Ana Bárbara é mais faladeira do que a Carolina - completa Adriano.

- A senhorinha Ana Bárbara é expansiva, mas, no fundo, é muito tímida... Tem medo de namorar.

- Como você sabe que ela é acanhada? Já lhe fez a corte?

- Não, Adriano. Me falta coragem... e ela nunca fica só ao meu lado.

- Você gosta da moça?

Aleixo vai até a janela. Adriano o acompanha e repete a pergunta. Aleixo balança a cabeça afirmativamente.

- Que coisa, Aleixo! Não me atreverei a tentar conquistar a moça que meu amigo gosta.

- Não tem importância, Adriano. Não vou ficar zangado com você.

- Não, não e não. A Ana Bárbara não é a única rapariga bonita do Rio de Janeiro. Já observei que há muitas moças lindas para eu escolher.

- Não só moças... Existem também muitas senhoras elegantes.

- Ah! Já notei! - Adriano pensa em Rebeca.

- Mas cuidado com os maridos - aconselha Aleixo.

Adriano assusta-se. "Será que Aleixo leu meus pensamentos. Seria desmoralizante ele saber que cobiço a mulher do seu Venâncio. Até eu estou furioso comigo mesmo. Tenho que esquecê-la de qualquer jeito." Ele sacode a cabeça, pára de pensar e olha para o amigo alferes.

- Você já falou com Ana Bárbara sobre seu sentimento?

- Não... ela deve saber que gosto dela, mas não se desgarra das amigas quando estou perto... Acho que tem medo de mim.

- E a Dona Josefa? Parece ser ótima pessoa.

- Sim. A madame Josefa é viúva... Vive com as duas filhas no sobrado da loja de fazendas.

Adriano tranca a janela.

- Vou chegar atrasado na ferradoria... O feitor de lá, o Clemente João, é muito exigente.

- Mas você deve explicar ao Venâncio que veio alugar o cômodo. O Venâncio é quem manda na ferradoria... O Clemente João é empregado dele.

- Mas é o chefe da oficina... Também tenho que lhe dar uma justificação.

Eles fecham a porta e descem a escada. Embaixo, no Largo do Capim, Aleixo despede-se.

- Preciso ir ao Campo de Sant’Anna... Logo mais o verei.

- No final da tarde, apanharei minhas coisas na sua casa.

- Não esqueça que amanhã cedo teremos que ir à Vila Real da Praia Grande... O barqueiro estará nos esperando.

- Eu passarei em tempo na sua casa, pois logo mais já dormirei aqui no sobrado.

Os dois separam-se e Adriano anda ligeiro pelas ruas. Logo chega à ferradoria. Entra ofegante e vê o pequeno escravo Tomás.

- O sinhô feitor está na estrebaria. Ele perguntou pelo sinhozinho.

Adriano coça a cabeça.

- E o seu Venâncio? Está no escritório?

- Não... O sinhô Venâncio está no sobrado com a sinhá.

Adriano olha firme para o crioulinho, enquanto apanha e separa as ferramentas.

- Mas o patrão já esteve aqui?

- Não - responde apressadamente Tomás, afastando-se ao notar a aproximação de Clemente João.

O feitor apanha o martelo no chão e bate com violência na bigorna. O rapaz continua manejando as ferramentas. Pressente a proximidade do chefe, mas finge não notá-lo. Clemente João pigarreia perto da nuca de Adriano e joga o martelo na bancada.

- Já disse para este escravo não deixar ferramentas espalhadas pela oficina... Acho que terei de surrá-lo para ele aprender.

Adriano não fala e somente encara Clemente João. O feitor caminha ao outro lado da cobertura e volta com muitas ferraduras na mão.

- Há muito serviço para hoje... Vieram bastantes cavalos das chácaras... Teremos que ferrá-los antes do anoitecer... Você chegou tarde... Isso não é bom... Você não vai durar por aqui... A ferradoria possui grande número de fregueses, e você não vai dar conta do trabalho.

Adriano sorri sem o feitor perceber. Não diz nada. Começa a trabalhar. Durante todo o dia, esforça-se ao máximo, pois quer demonstrar o seu valor. Ao anoitecer, está completamente exausto. Passa na loja de sapatos e apanha suas roupas com Aleixo. No quarto do sobrado do Largo do Capim, deixa o corpo exaurido cair sobre o colchão. Em poucos minutos, dorme profundamente. No dia seguinte, após pegar Aleixo na Rua Detrás do Carmo, ruma para a Vila Real da Praia Grande, a bordo de uma pequena embarcação.

- As montanhas vistas do mar são mais belas. Parece que alguém as pintou no céu - fala Adriano.

- Quem gosta de caminhar por esses morros é o nosso imperador - intervém Aleixo.

Adriano continua a contemplar a paisagem. Aleixo muda de assunto.

- Como foi na ferradoria? Ontem, você nem quis sair para passear.

- Ontem, trabalhei muito... Mais do que o necessário... Foi um desafio que venci... O feitor deu-me muitos cavalos para ferrar. Na frente do seu Venâncio, disse que, no final da tarde, deslocaria outros ferradores mais experientes para acabar o serviço, pois tinha certeza que eu não agüentaria o rojão. O próprio seu Venâncio se prontificou também a me auxiliar, já que os donos dos cavalos viriam buscá-los à noite. Pediu para eu fazer o que pudesse até às quatro horas.

Adriano faz uma pausa. Olha para o amigo e para o mar.

- E eles... Vieram mesmo ajudá-lo? - indaga Aleixo.

- Sim... Mas encontraram todos os cavalos ferrados.

Aleixo ri.

- Você precisava ver as feições espantada do Clemente João. O seu Venâncio examinou os animais, também muito admirado. Depois, elogiou bastante o meu trabalho, enquanto o feitor demonstrava no semblante muita contrariedade. Mas tarde, ao me preparar para sair, fiquei surpreso, pois o Clemente João veio me cumprimentar pelo serviço e apertou fortemente a minha mão.

- O Clemente João é exigente, mas não é má pessoa... ele deve estar enciumado por causa dos encômios que você vem recebendo do Venâncio.

- Talvez...

O barco atraca no cais da Vila Real da Praia Grande. Após o desembarque, eles dirigem-se para o posto policial da localidade. Lá, Aleixo identifica-se como militar e diz que deseja saber sobre um crime ocorrido anos atrás.

- Há quantos anos? - inquire o policial que os atende.

Aleixo olha para Adriano.

- O crime foi em 1804 - replica Adriano.

O policial agita-se na cadeira.

- Há 18 anos?... Vocês não conseguirão nenhuma informação aqui na vila... O processo deve estar arquivado na corte.

Adriano narra toda a história do seu pai e avô. O policial escuta com atenção.

- Nunca soube disso tudo. Em 1804, ainda era criança. Quem talvez possa auxiliar vocês é um velho miliciano reformado que mora nesta rua... Ele deve se lembrar da história do seu pai.

O policial sai do prédio e aponta da calçada.

- É aquela casinha no final do beco... Procurem pelo sargento-mor. Não sei o nome dele.

Adriano e Aleixo seguem para o local indicado. Em poucos minutos estão diante de um homem alto, bastante idoso e com longa barba branca. Adriano conta mais uma vez a história. O velho o olha desconfiado.

- Recordo-me de um caso parecido, que aconteceu aqui na vila... Mas para que vocês querem conversar com o miliciano que apurou e preparou os autos do crime?

Adriano abaixa a cabeça, mas volta a encarar o ancião.

- Porque sou filho do Honório... Desejo provar que ele é inocente... que não matou ninguém.

- Vai ser difícil, pois todos os policiais daquela época já morreram. Talvez nos arquivos na corte, você encontre alguma coisa.

- Os arquivos não me interessam. Não há verdade neles. O processo foi uma farsa para culpar meu pai e meu avô... Quero falar com o policial que participou da investigação do assassinato do Fulgêncio.

- Por que você tem tanta certeza que os seus não são os criminosos?

- Pelas histórias que minha mãe conta... Há muito mistério nisso tudo... Mamãe foi perseguida e obrigada a deixar o Rio de Janeiro... quando procurava saber sobre a morte do marido.

O velho sargento-mor apoia a mão no muro.

- Naquela época ainda não era da polícia, mas já morava na Vila da Praia Grande... De fato, houve muita falação pelas ruas. Uma revolta contra os seus parentes pela morte do Fulgêncio. Mas eu respeito sua condição de filho... Acho que você deve lutar, se julga mesmo que a memória dos seus foi maculada.

- Eu tenho certeza.

- Mas é quase impossível você provar isso.

Adriano retira algumas moedas do bolso e as deixa bem visíveis na palma da mão. Com os dedos da outra mão, faz chocarem os vinténs e os tostões. O velho observa tudo curiosamente. O rapaz apanha um tostão e lança-o em direção ao sargento-mor, que recolhe em pleno ar a moeda de níquel.

- Deixe eu pensar... Deve haver alguma pessoa que o possa ajudar - fala o policial reformado, sorrindo e manuseando a moeda.

- O intendente de polícia já faleceu - prossegue ele. - Deve haver alguém vivo... O Macário!... O Macário ainda vive... ele deve saber alguma coisa.

- Quem é o Macário? - interroga Aleixo.

- É um policial reformado como eu... Ele trabalhava na polícia daqui na época do assassinato.

- Onde poderemos encontrá-lo? - pergunta Adriano.

- Ele agora vive na corte, mas não sei em que parte da cidade... Outro dia, encontrei-o no Largo do Paço, mas ele não me falou em que rua está morando.

- Como poderemos procurá-lo? Só pelo nome de Macário será bastante difícil.

- É conhecido pela alcunha de Coxo... Macário Coxo, pois tem um defeito na perna direita.

- Assim é mais fácil - murmura Adriano.

Os rapazes despedem-se do velho. Quase perto do embarcadouro, Aleixo recorda o momento que Adriano lançou a moeda.

- Ele só lembrou do Macário, quando viu luzir na mão o níquel de um tostão... Mas você deu muito dinheiro a ele... Um tostão vale cem réis... Bastava dar um vintém.

- O importante é que ele forneceu uma pista... Estou ansioso para conversar com o Macário.

Na travessia da Baía da Guanabara, os dois pouco falam sobre o assunto. Adriano viaja na proa, absorto com a movimentação do mar, enquanto Aleixo fica mais perto do barqueiro. Ao desembarcarem no Largo do Paço, Adriano vai ao encontro de alguns mercadores sentados no chão e pergunta por Macário, o Coxo. Ninguém o conhece. Aleixo também se aproxima.

- Amanhã chegará uma nau da Europa. O cais fica repleto de gente nesses dias. As pessoas vêm para saber das notícias do além mar... É uma boa oportunidade para você procurar o homem.

- Eu também gosto de notícias... Saber o que está acontecendo na Europa.

- Irei apanhá-lo na ferradoria. Mas as notícias que chegarão amanhã sucederam há dois meses na Europa. É o tempo que a nau demora para viajar de lá para cá.

Eles mudam de rumo em frente à loja de sapatos. Adriano segue pela Rua Detrás do Carmo até a Igreja da Candelária, onde dobra para a Rua São Pedro até o Largo do Capim. As ruas estão festivas e a população aproveita o domingo de sol. O movimento de carruagens e seges também é grande. Adriano fica tonto com o burburinho, pois ainda não está completamente ambientado com a vida da capital do Império. Na tarde do dia seguinte, Aleixo apanha-o na ferradoria. O Largo do Paço está muito agitado. Mercadores, comissários, oficiais, milicianos, comerciantes, soldados, velhos, crianças, mulheres aglomeram-se na pequena faixa do cais. Adriano procura, no meio da multidão, por Macário, mas sem êxito. O brigue vindo da Inglaterra está ancorado ao largo, enquanto vários batéis transportam tripulantes e passageiros para a terra. Os marinheiros são cercados pelo povo, e alguns vendem jornais da Europa. Adriano e Aleixo observam tudo de longe.

- É uma loucura! - exclama Adriano.

- As notícias dos jornais que eles trazem são velhas. Foram imprimidas há bastante tempo. A população quer as novidades da boca dos próprios marinheiros... Vamos chegar mais perto daquele grupo.

Eles vêem um parlamentar brasileiro gesticulando e contando as reações em Lisboa sobre os acontecimentos no Brasil. Aleixo bate no ombro de um senhor, que vira-se rapidamente.

- Oh! Aleixo... Como tem passado?

- Muito bem... E o senhor?

- Estou ouvindo as falações dos deputados que acabam de chegar. Só agora é que eles souberam que o Brasil separou-se de Portugal. Aquele ali disse que abandonou as cortes portuguesas por causa da intransigência dos parlamentares de Lisboa. Retornou para lutar pela nossa independência, mas ficou bastante surpreso ao encontrar o Brasil já independente há mais de um mês.

O senhor pára de falar e olha curioso para Adriano. Aleixo pede desculpa e o apresenta.

- Este é meu amigo Adriano.

Adriano estende a mão para o senhor, e Aleixo completa.

- É o seu Zacarias, Adriano... Ele é pai do Samuel.

- Ele conhece meu filho?

- Foi apresentado na sexta-feira na taberna do seu Abílio.

- Ah!... Já sei. Este rapaz é filho do Honório.

- Como o senhor sabe? - grita espantado Adriano.

- O Alexandrino me contou.

- O senhor conheceu meu pai?

Seu Zacarias demora a responder. Seus olhos retém-se um pouco na direção do amontoado de pessoas na beira do cais.

- Só de nome... Acompanhei ao longe os comentários sobre o crime de Vila Real da Praia Grande.

- Meu pai não matou ninguém... O senhor duvida?

- Calma, rapaz. Já falei que só ouvi comentários sobre o crime. O Alexandrino é quem pode dar os detalhes... Pergunte a ele.

Adriano Cala-se. Pensa na arrogância do seu Alexandrino na taberna. Procura não falar mais nada, enquanto o pai do Samuel conversa com Aleixo sobre o movimento da chegada do navio. Um marinheiro passa, e seu Zacarias compra um jornal francês. Lê rápido a primeira página e vira-se para Aleixo.

- Aqui tem uma notícia que o Papa Pio VII acolheu a mãe de Napoleão, que está enferma.

- Mas eles não eram inimigos?... O Papa não esteve encarcerado por ordem de Napoleão, em Fontainebleau?

- Sim... Napoleão Bonaparte também o prendeu em Savona... O Papa Pio VII, porém, mais uma vez, comprova sua bondade... Napoleão devia estar vivo para tomar conhecimento deste nobre ato do Santo Padre.

- Mas morreu no ano passado, na Ilha de Santa Helena - lembra Aleixo.

Adriano continua calado, mas presta bastante atenção na conversa de seu Zacarias com Aleixo. Minutos depois, o velho, com suas roupas finas e elegantes, deixa os jovens. Adriano observa-o afastar-se até ele sumir.

- O seu Alexandrino está espalhando a nossa discussão na taberna por toda a cidade.

- O seu Zacarias freqüenta muito a livraria do seu Alexandrino. Deve ter sido lá que soube do acontecimento da sexta-feira na taberna do seu Abílio.

- Eu estou muito nervoso... Só depois é que senti que fui um pouco áspero com o pai do Samuel.

- Talvez seja melhor você não falar com mais ninguém sobre o crime... é melhor procurar o Macário Coxo sem mencionar que há relação com seu pai.

- O seu Zacarias é muito rico?

- É sim... Ele mandou o Samuel estudar em Coimbra... Só os senhores bem abastados podem fazer isso.

- Já observei que o Samuel é o seu melhor amigo.

- É um grande amigo... Mas meu melhor amigo está viajando pela Europa... O Gustavo... Eu e o Gustavo andamos juntos desde criança.

- Viajando pela Europa!... A Carolina, irmã da Ana Bárbara, me disse que seu namorado está na Europa... Será que é seu amigo?

- Pode ser que a senhorinha Carolina vive sonhando... Espera encontrar um príncipe igual ao dos contos dos irmãos Grimm.

- Exatamente o que ela falou: "O meu príncipe está na Europa."

- É o Gustavo... Ela é igual a irmã... tem medo de namorar... gosta muito de inventar romances platônicos.

Adriano ri.

- Ela me pareceu mesmo muito ingênua. Agora, preciso ir embora. Foi bastante interessante ver a chegada dessas pessoas da Europa, apesar de não ter conseguido encontrar hoje o Macário Coxo.

 

Capítulo 2

 

O modo de vida da cidade do Rio de Janeiro passa a ser rotina para Adriano. Chega a estação chuvosa. Ele quase não se encontra com Aleixo, pois vai do trabalho direto para o quarto no Largo do Capim, onde fica absorvido na leitura de um livro emprestado pelo Samuel. Passa-se um mês sem acontecer nada além da normalidade. Sua eficiência na profissão de ferrador é reconhecida por todos. O feitor já não é mais uma ameaça para sua permanência na ferradoria, apesar de continuar rude e exigente. Adriano somente se lembra das andanças pelas estradas mineiras e paulista, quando conta suas peripécias como mascate, para divertir os amigos e os empregados da ferradoria. Está sentindo-se muito feliz no local de trabalho, principalmente quando Rebeca aparece na porta que une o casarão à oficina para ir ao escritório do seu Venâncio. A manhã de segunda-feira está bonita e ensolarada. Adriano chega cedo à ferradoria. João Clemente aproxima-se dele.

- Bom dia, Adriano.

- Bom dia, João Clemente.

- Eu soube que você é filho do falecido Honório.

- Sim... você conheceu meu pai?... Quem lhe disse que sou filho dele?

- Calma, rapaz... Uma pergunta de cada vez... Foi um amigo que me falou que você é filho do Honório... Este meu amigo tomou conhecimento do fato por um senhor que no momento não recordo o nome... é um velho de barba grande e branca, dono de uma livraria.

- Seu Alexandrino.

- Isso mesmo... Seu Alexandrino.

- Desgraçado... Ele está apregoando isso pela cidade inteira!

- O caso do seu pai foi muito comentado na época.

- Você o conheceu? - repete Adriano.

- Sim... de vista... nunca tive contato com ele... Lembro-me que ferrava cavalos para o pai dele.

- Meu avô, Tibúrcio?

- Sim... Seu Tibúrcio... era um homem muito bom.

- Você acredita que eles mataram o Fulgêncio?

- Não creio... Porém, muita gente no Rio de Janeiro e na Vila Real da Praia Grande afirmaram que foram eles.

- Você sabe de um homem chamado Macário? Manca da perna direita e possui a alcunha de Coxo.

- Não... ele tem alguma coisa a ver com o assassinato?

- Não sei... Pode ser que possa falar sobre a verdadeira versão. Ele trabalhava na polícia da Vila Real da Praia Grande na época do crime.

A chegada do seu Venâncio interrompe a conversa. O dono da ferradoria cumprimenta Adriano e dirige-se para Clemente João.

- Preciso urgente de um carpinteiro... Quero para hoje... Minha mulher todo dia reclama dos degraus da escada do salão, cujas tábuas estão soltas.

Adriano achega-se ao seu Venâncio e Clemente João.

- Eu sei fazer o serviço... Na Vila Rica, fui auxiliar numa oficina de carpintaria.

Seu Venâncio olha espantado para Clemente João.

- Este moço é bom mesmo, Clemente... Sabe fazer de tudo... Vamos lá, Adriano... Mostrarei o que tem que ser feito.

Seu Venâncio coloca a mão no ombro do rapaz. Os dois caminham em direção à porta do casarão. As pernas do jovem tremem por causa da expectativa de chegar junto de Rebeca, pois , a partir do dia da festa da aclamação, no Campo de Sant’Anna, só a viu de longe. Passam pela cozinha e chegam ao grande salão. Adriano observa Tomás colocar azeite de peixe no bonito candelabro. No fundo, a escada que dá acesso ao sobrado. Seu Venâncio aponta para os degraus arrebentados.

Adriano examina a escada cuidadosamente.

- Há três degraus soltos - diz ele. - Está muito perigoso. Quem não subir com cautela se arrisca a levar um tombo.

- Já falei isso muitas vezes com o Venâncio!

A voz da mulher, meiga e enérgica, faz Adriano erguer a cabeça em direção ao alto da escada. O rapaz leva um susto ao deparar com a bela senhora. Com muita elegância, Rebeca começa a descer. Parece saber que está sendo admirada e cobiçada pelo jovem e evita fitá-lo. O vestido longo, cobrindo os pés, mas deixando de fora os ombros, realça sua beleza. Rebeca chega bem perto. Adriano procura mexer na tábua da escada para disfarçar seu estado emocional. Seu Venâncio pergunta ao Tomás se terminou de colocar azeite nos lampadários da casa. O escravo responde que sim, e seu Venâncio manda-o preparar a sege.

- Irei à Rua do Valongo resolver alguns negócios. Voltarei antes da hora do almoço - diz ele para a esposa.

Volta-se para Adriano e nota algo estranho no rapaz. Pensa, então, que ele está sem coragem de dizer que não sabe fazer o trabalho.

- Queres que eu mande chamar um carpinteiro?

- Hã?... Não, senhor... Dá para mim consertar.

- É que ficastes aí parado... Pensei que estavas achando o serviço difícil.

- Não. Estava só examinando... Dá para fazer... Vou buscar as ferramentas.

- Quando aprontares os degraus, tu chamas a Rebeca para ver se está bom.

Adriano consente com a cabeça e olha para Rebeca.

- Avise-me quando acabar... Eu estarei na sala de leitura - retruca ela.

Seu Venâncio e Adriano saem apressadamente do solar. Seu Venâncio sobe na sege, enquanto Adriano pega as ferramentas na oficina. O rapaz retorna ao interior da casa e passa na cozinha pela escrava Bastiana, mãe do Tomás. Ao chegar ao salão, não vê Rebeca. Coloca as ferramentas no primeiro degrau e observa a entrada que dá acesso à Rua da Misericórdia. Uma apertada porta no vestíbulo chama-lhe a atenção. "Deve ser a entrada para a sala de leitura - pensa ele. - Ela está lá dentro." Caminha até o local sem fazer barulho com os pés. Examina o interior da saleta e descobre Rebeca sentada em uma cadeira de balanço. A jovem senhora está bastante concentrada no livro e não percebe que está sendo observada. O rapaz retorna ao trabalho.

Enquanto conserta os degraus, seus pensamentos estão em Rebeca. "Estou ficando doido. Não posso deixar-me dominar por essa afeição anormal: apaixonado por uma mulher casada e mais velha do que eu. Preciso me controlar, senão o seu Venâncio e a própria Rebeca irão descobrir este meu sentimento insensato." Ele sacode a cabeça e procura concentrar-se mais no serviço. "Uma das tábuas está podre. No terreno, tem algumas madeiras novas. Vou escolher uma."

Em uma hora, ele conclui o conserto. Volta a pensar em Rebeca. "Vou avisá-la que terminei." Arruma as ferramentas e as sobras de madeiras. Coloca tudo dentro de um saco. Caminha devagar até o vestíbulo. Sua mente continua muito confusa: "A porta da saleta é muito estreita. Não dá para passar duas pessoas ao mesmo tempo. Vou chamá-la e aguardar aqui. Quando pressentir que ela está perto da porta, avançarei e tentarei entrar no mesmo instante que ela estiver saindo." Adriano respira profundo e toma coragem.

- Dona Rebeca! - grita ele.

- Pode falar - responde ela, também em voz alta.

- Já acabei... Gostaria que a senhora examinasse o serviço.

- Está bem... Já estou indo.

Ele sente o coração disparar. Procura ouvir e localizar a distância dos passos no outro compartimento, mas com o cuidado de ficar afastado para ela não vê-lo. O som do pisar da senhora está bem próximo. Ele avança rápido e alcança a entrada no exato momento em que Rebeca também o faz. Os dois ficam frente a frente, com os corpos grudados e premidos na estreita passagem. Rebeca está atônita e paralisada, com os seios colados ao corpo do rapaz. A ação desenrola-se em fração de segundos, mas o bastante para os lábios dele unirem-se aos dela. Ele fecha os olhos e pensa que é um sonho. Ela sente que vai desfalecer, mas recupera-se e esforça-se para se desvencilhar. Mas não tem força para reagir. Sente-se presa entre o corpo do rapaz e o portal. Procura repuxar a cabeça para se livrar do beijo, mas também não consegue, pois o braço de Adriano, em volta do seu pescoço, a domina completamente. Então, experimenta deslizar com as costas pelo portal. Finalmente fica livre e cai no chão. Adriano tenta erguê-la, mas pára ao vê-la chorar.

- Perdão - balbucia ele.

- Seu atrevido!... ordinário... vagabundo - clama ela, soluçando e levantando-se.

Ele recupera a consciência e fica pálido. Somente agora medita sobre o erro que cometeu. Rebeca vira-se e não tem coragem de encará-lo.

- Você está despedido... Vou falar com o Venâncio... Não quero vê-lo mais na ferradoria... Você está despedido.

Adriano sai da saleta. Vaga como se fosse um sonâmbulo. Apanha o saco com o material e segue para a oficina. Não consegue trabalhar direito e demora o mais que o normal para preparar uma ferradura. Desculpa-se com o feitor, mentindo que está lento porque torceu o braço. Na hora do almoço, pergunta ao Tomás se o seu Venâncio chegou. A resposta é afirmativa. Ele abana a cabeça. "O que o Aleixo irá dizer. O que ele irá pensar de mim. Não acredito que possa ter feito uma coisa dessa, mas realmente fiz. Acho que estou ficando maluco. O seu Venâncio, um patrão tão bom! Devia ter controlado meus impulsos." Seus pensamentos são interrompidos por Clemente João.

- Como vai o braço?

- Melhorou... Já não sinto dores.

- Estava preocupado... Chegaram muitos animais das chácaras do Catumbi... Teremos que ferrar todos amanhã.

Adriano passa a mão na cabeça. "Amanhã, não estarei mais aqui" - pensa ele. Tomás invade a oficina.

- Sinhozinho... sinhozinho... O sinhô Venâncio está chamando!

Clemente João examina a face de Adriano. Parece notar sua fisionomia preocupada. O jovem ferrador levanta-se e segue para o escritório. Hesita um pouco, mas acaba batendo na porta. Seu Venâncio manda-o entrar. Com cabeça baixa, pois não tem coragem de encarar o patrão, aproxima-se da escrivaninha.

- Muito bem... Tu fizestes um excelente serviço. A escada ficou como nova.

Adriano fica todo arrepiado. Não esperava o louvor.

- A Rebeca gostou do trabalho... Ainda bem, pois ela é bastante irreverente com os assuntos da casa... Tu fostes formidável... Não escutarei mais minha esposa reclamar daqueles malditos degraus.

O rapaz continua atônito. Não contava com aquela recepção, pois já se preparava para ir embora da ferradoria. Mas Rebeca não o delatou. "Por que ela não falou?" - pensa ele. À sua frente, seu Venâncio está muito contente e dá gargalhadas expansivas. Adriano recupera-se do temor inicial e também começa a rir. Sente um alívio. O corpo mais leve. Está imensamente satisfeito pela razão de Rebeca ter guardado o segredo. Os dois continuam as risadas. Muito assustado com a cena inusitada, Tomás aparece na porta.

- O que tu queres? - brada seu Venâncio.

- O sinhô Aleixo chegou e quer falar com o sinhozinho Adriano.

- Mande ele entrar - replica seu Venâncio.

Tomás retira-se. Em poucos segundos, Aleixo adentra pelo escritório. Seu Venâncio conta a ele o bom trabalho de Adriano no conserto da escada e o elogio da exigente esposa. Adriano escuta calado e continua feliz por tudo ter acabado bem.

- Que bons ventos te trazem aqui? - gesticula seu Venâncio.

- O Gustavo chegará da Europa depois de amanhã... Venho convidar o Adriano para ir ao desembarque... E pedir a você que o deixe sair mais cedo, pois a nau lançará ferro ao largo do cais na parte da tarde.

- O serviço aqui está bastante adiantado por causa do próprio Adriano. É claro que o deixarei livre para ir ao cais... Mas como tu conseguiste descobrir que o Gustavo chegará depois de amanhã?

- Um marinheiro, amigo do Major Varela, acaba de regressar da Bahia. Ele encontrou o Gustavo em Salvador de volta da Europa... As duas naus partiram juntas de Salvador, mas a tripulada por esse marinheiro chegou dois dias antes por ser mais rápida. O comandante da embarcação que viaja o Gustavo informou que atingirá o cais do Rio de Janeiro na tarde de depois de amanhã... Eu estou avisando a todos os conhecidos do Gustavo... O Adriano não o conhece, mas gostará de ver o desembarque.

- É claro - concorda Adriano.

Aleixo despede-se do Seu Venâncio. Adriano leva o amigo até as baias e mostra a cocheira do Branquinho. O cavalo relincha ao ver o dono. Dos fundos do terreno, Adriano procura olhar para as janelas do solar, mas não vê Rebeca. Tenciona falar com o amigo sobre o beijo na mulher do seu Venâncio, mas desiste. "O Aleixo vai me censurar pelo que eu fiz." Eles retornam para a oficina. Na porta da ferradoria, Aleixo monta o cavalo e afasta-se. Dois dias depois, reencontram-se no Largo do Paço. O movimento é grande. O povo aglomerado para saber as novidades da Europa. O alferes aponta para a nau bem afastada do cais, da qual os viajantes desembarcam em escaleres e rumam para a terra firme. Ele sorri e indica um dos pequenos barcos.

- Lá vem o Gustavo com a família... Devem estar com muitas saudades do Rio de Janeiro... Passaram muitos meses na Europa.

- A família dele é rica? - indaga Adriano.

- Bastante... Mas o Gustavo é diferente de muitos ricaços... Faz amizade com qualquer um, seja pobre ou rico.

Adriano observa o escaler do amigo de Aleixo aproximar-se da escada do cais. Uma jovem de beleza impressionante sobressai entre as outras pessoas no barco.

- Quem é a loura? - inquire ele.

- É a senhorinha Lavínia Cristina... É irmã do Gustavo.

- Como é linda!... Nunca vi rosto tão belo!

Aleixo acha graça do semblante do amigo.

- Que cara, Adriano!... Nunca o vi tão pasmado... Parece até que nunca viu uma mulher!

- Igual a esta, não.

Adriano acompanha com os olhos todos os movimentos de Lavínia, enquanto Aleixo aponta para os pais da moça.

- Aquele senhor alto, com grandes costeletas, é o seu Ricardo... Ao seu lado, a esposa Dona Veridiana... Eles são os pais do Gustavo.

- O seu Ricardo tem pose de autoridade... parece um general.

- Ele é um grande fazendeiro e ativo importador de mercadorias da Europa.

Adriano não desvia a visão de Lavínia. Está fascinado. Observa-a atentamente subir os degraus e fica surpresa ao vê-la abraçar efusivamente Ana Bárbara.

- É a Ana Bárbara! - exclama ele.

- A senhorinha Ana Bárbara é a melhor amiga da senhorinha Lavínia Cristina... A irmã do Gustavo quase sempre está acompanhada pela senhorinha Ana Bárbara.

- O Rio de Janeiro é a cidade das surpresas!

Adriano prossegue admirando Lavínia Cristina. Aleixo chama sua atenção para outra cena.

- Veja a senhorinha Carolina. Não tira os olhos do Gustavo... A conversa que tivemos no mês passado é verdadeira.

- O Gustavo nem notou a presença dela.

- É mesmo , Adriano! O Gustavo está mais entretido com o Samuel.

- Samuel?... O Samuel também está aqui?... Não o vejo.

- Está de costas para nós... Conversando com o Gustavo e seu Ricardo.

- Hã! Já o vi... Ele é parente do Gustavo?

Aleixo balança a cabeça em sinal negativo.

- O que ele faz aqui?... Parece íntimo da família.

- No futuro, será... O Samuel é o prometido da senhorita Lavínia Cristina.

- Prometido?!

- Os dois vão se casar... É um acerto entre famílias... Entre seu Ricardo e seu Zacarias.

- Então, Samuel é o namorado da Lavínia?

- Ainda não... Só quando for anunciado o noivado oficial... Isso é coisa de ricos, Adriano.

Gustavo corre em direção a Aleixo. Eles se abraçam demoradamente ante o olhar admirado de Adriano, que estende a mão ao ser apresentado ao amigo do alferes. O recém-chegado continua a falar. Adriano observa curioso o seu modo rápido de proferir as frases e o excesso de gesticulações, bem diferente da maneira calma de Aleixo. Por cima do ombro de Gustavo, vê Lavínia chegar perto da carruagem. Tem uma visão mais nítida da moça. Os cabelos enrodilhados formam um coque e deixam a nuca nua. Os olhos expressivos realçam o rosto oval e proporcional à boca e ao nariz. Adriano está deslumbrado. Samuel não está mais presente. Perto da moça, somente os pais e as amigas Ana Bárbara e Carolina. O grupo sobe na carruagem. O cocheiro, no alto da boléia, faz sinal para Gustavo, que se apressa para subir também no veículo.

- Aleixo! Reuna o pessoal hoje à noite na taberna do seu Abílio. Trago muitas novidades da Europa. Também quero saber detalhes sobre a nossa independência. Leve o seu amigo - Gustavo aponta para Adriano.

Aleixo balança a cabeça afirmativamente, e Gustavo entra na carruagem. Adriano acompanha com os olhos o veículo percorrer o largo.

- Você ficou bastante impressionado com a senhorinha Lavínia Cristina - diz Aleixo.

- Deu para perceber?

- Sim. Eu observei seus olhos fixos na senhorinha todo o tempo.

- Será que o Gustavo também notou?

- Não! Ele estava empolgado com o retorno da viagem... Nem percebeu.

- Ainda bem...

- Agora tenho que ir, Adriano... Encontro você à noite na taberna.

Adriano passa a vista pelas pessoas ainda em grande número na beira do cais.

- Aproveitarei minha folga. Ficarei aqui até o por-do-sol. Vou procurar o Macário Coxo. Talvez tenha sorte hoje.

Aleixo deixa Adriano no Largo do Paço. O ferrador senta junto ao chafariz. Acompanha o movimento e observa se os velhos que transitam por ali mancam da perna direita. Novamente, não descobre nenhuma pista. Antes de escurecer, parte para o Largo do Capim. À noite, com seu melhor traje, chega à taberna. Vai direto à mesa dos rapazes. Cumprimenta-os e senta-se ao lado do Major Varela. A afluência na casa está grande e todos os lugares estão ocupados. Um pouco além, Adriano avista seu Alexandrino, que divide a mesa com seu Gaspar, seu Cristóvão e seu Zacarias. Hugo César chega logo após Adriano e acomoda-se entre o Dr. Joaquim Antônio e Samuel.

- Só faltam o Aleixo e o Gustavo - comenta Adriano.

- Eu encontrei o Aleixo defronte a loja do pai. Ele me disse que ia buscar o Gustavo - esclarece Hugo César.

Com as canecas cheias de vinho nas mãos, o jovens discutem alegremente sobre os últimos acontecimentos políticos da nova nação que está surgindo. Pouco depois, levantam-se ao verem a chegada de Aleixo e Gustavo. Os dois demoram bastante na mesa dos velhos, onde seu Alexandrino não parece querer parar de fazer perguntas ao Gustavo. Porém, Gustavo e Aleixo deixam o canto dos velhos e aproximam-se da mesa dos amigos. Todos abraçam Gustavo. O colóquio inicial é comandado pelo Major Varela e gira sobre os fatos do Riacho Ipiranga e os dias que se seguiram à independência. Gustavo está maravilhado com tudo que acaba de ouvir.

- Sempre achei que o príncipe seria o principal articulador da nossa separação de Portugal. Ele nasceu lá, mas tem coração de brasileiro.

- Ele foi criado aqui... Chegou ao Brasil ainda menino, com apenas nove anos - explica o Dr. Joaquim Antônio.

- Agora, é o nosso grande imperador... Será coroado no próximo dia 1º de dezembro - lembra o Major Varela.

- Como está Paris - pergunta Samuel para Gustavo.

- Quase me esqueci que você já esteve lá! - exclama Afonso.

Samuel fica orgulhoso e olha para Adriano, a fim de verificar se ele escutou a observação de Gustavo de que ele já esteve em Paris. Adriano sorri.

- Sim... Sim... Já estive em Paris - vira-se Samuel para Gustavo. Foi na época em que eu estudava em Coimbra.

Gustavo esfrega as mãos.

- Paris é extraordinária. A terra do pecado. Das mulheres. Dos cafés. Em algumas tabernas, as moças achegam-se a nós, servem vinho e sentam-se ao nosso lado.

- Aqui no Rio de Janeiro, temos que nos contentar com a cara feia do Firmino - brinca Aleixo, provocando risada geral.

- Há nos cafés de Paris também cultura - prossegue Afonso. Freqüentei o Café de la Regence. Ele é famoso por reunir adeptos do jogo de xadrez. Tive oportunidade de ver jogar xadrez nesse café o grande Deschapelles, que é considerado o maior jogador do mundo. Eu vi Deschapelles dar vantagem de um peão e ganhar o jogador inglês John Cochrane.

- Cochrane! - grita Aleixo. É parente do Almirante Cochrane.

- Não sei. Pode ser que seja. Os dois são ingleses, não é? - diz Gustavo.

- A Almirante Cochrane nasceu na Escócia... Não é inglês - interrompe Hugo César. Ele está no Chile ajudando Bernardo O’Higgins na revolução de lá... Mas nosso imperador o convidou para comandar a esquadra brasileira na luta final pela nossa independência na Bahia.

Gustavo toma mais um gole de vinho.

- La em Paris também assisti palestras de homens ilustres da ciência, inclusive o famoso Jean François Champollion, que explanou sobre os hieróglifos, a escrita egípcia decifrada por ele... Na Sorbonne, vi outras pessoas famosas: Gay-Lussac, Laplace e André Marie Ampère... Paris é outro mundo... Também tive a sorte de estar em Paris, quando o inglês Thomas Robert Malthus pronunciou palestra também na Sorbonne.

- Malthus? .... Quem é esse? - pergunta Hugo César.

- É um cientista que escreveu um trabalho sobre o crescimento desordenado da população... Senti muita saudade de Paris, pois tive que retornar para a Alemanha, onde o resto da minha família estava... Ninguém sabia na Europa da nossa independência.

- Agora é criar uma verdadeira nação - interrompe Aleixo.

- Há boatos que o imperador vai abrir os portos do Brasil para grandes imigrações da Europa - diz o Major Varela.

- Seria muito bom - replica Samuel.

- Sou contra a imigração européia... Também acho que os governos coloniais erraram em permitir a vinda dos africanos... Retirá-los à força da África para toná-los escravos no Brasil - declara Adriano em voz bem alta.

- Mas precisávamos de homens para a lavoura - opina Hugo César.

- Para isso existiam os próprios nativos... Milhares de índios por todo o País - lembra Adriano.

- Mas os índios eram rebeldes. Não aceitavam a escravidão. Por isso o governo colonial optou por trazer os negros africanos - esclarece Samuel.

- Vocês não estão me entendendo! - interrompe Adriano... Eu sou contra a escravidão!

A frase dita em voz bastante alta por Adriano provoca silêncio total na taberna. Todos os ocupantes das outras mesas viram-se e olham com caras fechadas em direção ao jovem ferrador. Com seu Alexandrino à frente, alguns velhos aproximam-se da mesa dos rapazes. Adriano sente o impacto das suas palavras, mas, já meio tonto pelas canecas de vinho que tomou, não se amedronta e continua a falar.

- Os índios deveriam ser aproveitados na colonização. Porém, nunca como escravos... Acho que se poderia entrar em contato com os índios e dividir as terras com eles e não tomá-las como foi feito... Ensinar aos índios a técnica da agricultura da Europa e não tentar escravizá-los como foi feito... Na minha opinião, o governo da nossa nova nação deveria acabar com a escravidão e dividir as terras com os escravos e os índios... Não é preciso imigração da Europa... Tem muita gente aqui no Brasil para trabalhar e ganhar dinheiro com a sua produção... Na minha opinião, não há lugar para a escravidão.

- Como você pode falar assim? - grita seu Alexandrino, com os olhos brilhando.

- Sou a favor da divisão das terras entre pobres, índios e escravos - repete Adriano.

- Você quer que se pratique crime contra a propriedade... Você quer arrasar com a nação - berra seu Alexandrino, movimentado os braços.

- Não, seu Alexandrino... Minha idéia é preservar e não destruir... Todos ganhando de acordo com a força do seu trabalho.

- Então, na sua doutrina louca, não existiriam escravos... Todos seriam livres.

- Sim, seu Alexandrino.

- Tu estás realmente maluco. Acabar a escravidão e distribuir terras aos escravos, pobres e índios seria a ruína do Império.

- Rapaz, você é novo aqui na corte. O seu Alexandrino é um velho experiente e está com a razão... Você deve tomar muito cuidado com suas palavras sem nexo.. Pode ser perigoso para você - avisa seu Cristóvão.

- Você está errado. Só os ricos sabem dirigir as fazendas e tudo neste país. Tirar essa autoridade deles seria a ruína da nação - afirma seu Zacarias.

Adriano passa a mão no queixo e olha ao seu redor. Seu Alexandrino está de pé ao seu lado, junto com o seu Cristóvão e o seu Zacarias. Seu Gaspar está mais adiante. Aleixo, Samuel, Hugo César, Gustavo, Dr. Joaquim Antônio e Major Varela estão sentados, perplexos com o desenrolar dos acontecimentos. Adriano encara seu Alexandrino.

- Os senhores estão todos errados. Com as minhas idéias, tenho certeza que o povo pode erguer esta nova nação.

- Você não respeita seus amigos que estão com você na mesa. Alguns filhos de grandes proprietários - alerta seu Cristóvão.

Adriano não responde. Apenas olha muito sem jeito para Aleixo, Gustavo e Samuel. Seu Alexandrino bate no ombro do seu Cristóvão.

- Não ligue para esse pirralho, Cristóvão... É um cretino.... Um safado... É apenas um ferrador de cavalos que quer impor idéias malucas e absurdas num lugar freqüentado por fidalgos.

Adriano levanta-se.

- Eu não quero impor...

Gustavo puxa Adriano e o impede de continuar a falar.

- Não seu Alexandrino - diz Gustavo. Pelo que eu já ouvi falar sobre o Adriano, sei que ele é pobre, mas procurou se instruir. Freqüenta a biblioteca. Ele pode ser um ferrador de cavalos, porém, deve ter mais cultura que o senhor que vive ao redor dos livros da sua loja.

Seu Alexandrino fica com o rosto vermelho de raiva.

- Como se atreve a falar comigo dessa maneira, seu fedelho... Que petulância... Queres defender um cretino que quer a ruína do seu pai... Esqueceste que és filho de um grande fazendeiro, com centenas de escravos.

Gustavo vira o rosto e puxa Adriano e se afasta um pouco. Seu Alexandrino, acompanhado do seu Zacarias e seu Cristóvão, dirige-se para a saída da taberna, esbravejando e gesticulando muito. Antes de atravessar a porta de entrada, grita bastante irado em direção ao grupo.

- Ainda por cima este ferrador de cavalos é filho de um assassino.

Adriano tenta se desvencilhar de Gustavo para ir ao encontro do seu Alexandrino. Aleixo ajuda a segurá-lo. Seu Gaspar passa a mão na cabeça do jovem.

- Calma, moço - pede seu Gaspar. São ofensas insensatas. O Alexandrino não sabe o que diz. Eu sou pequeno proprietário, mas concordo com muitas das suas idéias... Mas você não pode mudar sozinho o mundo... Ninguém vai mudar, meu jovem, pois sempre existirá a ganância... Por isso, peço para você viver como as coisas são... O que nós podemos fazer, meu jovem.

Adriano abaixa a cabeça. Pensa alguns segundos. Vira-se para o grupo.

- Quero pedir desculpas a todos. Acho que abusei da bebida e me expandi mais do que devia... Estou arrependido do que falei... Sou culpado do seu Alexandrino ter chamado o Gustavo de fedelho... Peço desculpas a você, Gustavo.

- Você não tem culpa nenhuma - diz Gustavo. Você tem o direito de ter suas opiniões... Eu não concordo com elas, mas defendi você, porque acho que o seu Alexandrino não respeitou o seu direito de explanar suas idéias.

A noite na taberna termina com Adriano muito aborrecido pelo que provocou. Após se despedir dos amigos, caminha com dificuldades pela rua, em virtude da tonteira pelo excesso de vinho que bebeu. Mas consegue chegar ao seu quarto no Largo do Capim. Nos dias seguintes, evita ir a taberna do seu Abílio. Uma vez ou outra, visita Aleixo em sua casa, sendo sempre bem recebido pelo amigo, pelo seu Ubaldo e pela Dona Maria. Num dia bem quente, após trabalho excessivo na ferradoria, resolve não sair durante à noite. Deixa a janela aberta e contempla ao longe a bonita lua cheia. Sua mente não deixa de refletir sobre os acontecimentos há dez dias na taberna. "Não devia ter emitido minha opinião daquele jeito. A maioria dos presentes era filhos de homens ricos. O Gustavo era um deles, mas me defendeu, não obstante ser o segundo dia que me via". Ao lembrar de Gustavo, vem à sua mente o rosto de Lavínia. Sua cabeça parece voar. Uma sucessão de imagens seguidas de Lavínia e Rebeca o deixa atordoado. "Não sei o que está acontecendo. Estou apaixonado por duas mulheres. Não... Não. Ninguém fica apaixonado por duas pessoas. Algo errado está se sucedendo comigo. Deve ser fixação, principalmente com a Lavínia que só vi uma única vez". Adriano balança a cabeça. "Foi uma loucura beijar a Rebeca. Depois, daquele dia nunca mais vi a mulher do meu patrão. O que será que está acontecendo com ela?". Uma forte batida na porta interrompe suas reflexões. Adriano levanta-se rápido e atende o chamado.

- Oh! Aleixo!... Que surpresa... Entra, por favor... Acabei de chegar... Estou tão cansado que nem tirei troquei de roupa.

- A noite está abafada, mas aqui está melhor... Noto que penetra uma brisa refrescante pela janela.

- É o melhor quarto do sobrado... Tive sorte em alugá-lo.

Os dois aproximam-se da janela e vêem o movimento de alguns transeuntes no Largo do Capim.

- Quando vejo passar um estranho, examino se ele é velho e manca da perna direita - comenta Adriano.

- Hã!... O Macário Coxo... Você ainda não descobriu nenhuma pista?

- Não... Às vezes, penso que não existe... Que tudo foi mentira daquele sargento-mor da Praia Grande.

- Nós vamos achá-lo... tenha fé... Contei ao Gustavo sobre o caso do seu pai... sobre , o Macário Coxo... O Afonso também vai procurá-lo.

Adriano espanta-se com a declaração. Aleixo enfia a mão no bolso e retira dois bilhetes.

- Ganhei duas entradas para a estréia de "O Barbeiro de Sevilha". Vim convidá-lo... Você não pode deixar de ir... O imperador e a imperatriz assistirão à ópera.

- Não, Aleixo... Agradeço, mas não quero ir.

- Não é só o imperador que irá ao Teatro São João no próximo sábado. Alguém muito interessante para você também estará lá.

- Quem?

- A senhorinha Lavínia Cristina!

Adriano balança a cabeça e não diz nada.

- Já esqueceu dela?

- Esquecer!... Estou tentando de todas as maneiras tirá-la da minha mente... Não consigo, Aleixo... Ela é prometida do Samuel... Devo evitar outro problema com mulher aqui no Rio de Janeiro.

- Outro problema!... Qual é o outro?

- Eu não disse a você que estou com a cabeça confusa. Não é outro problema com mulher. Falei errado... O outro problema é a discussão que tive com o Alexandrino - despista Adriano, sem coragem de contar o beijo em Rebeca.

- Você não precisa se preocupar com o que houve na taberna. Conversei com o Gustavo, Hugo César e o Dr. Joaquim Pedro sobre o caso... Ninguém está aborrecido com você... Pelo contrário... Acham que você é muito inteligente e com muita cultura... Não será por causa deles que você vai deixar de freqüentar a taberna e o Teatro São João... O Gustavo até mandou eu convidá-lo a ir à fazenda do pai dele... É para a próxima semana, Adriano.

- Ele me convidou!

- Sim, Adriano... O Gustavo já o considera um amigo.

- O Samuel também irá?

- Sim... Você está com ciúme do Samuel... Então, está gostando mesmo da senhorinha Lavínia Cristina.

- Sim, Aleixo... Mas tenho que esquecê-la... Seria muito ruim para mim prosseguir na intenção de conquistá-la... O Samuel... O Gustavo... O seu Ricardo... O seu Alexandrino já deve ter contado ao seu Ricardo sobre o que houve na taberna... Na certa, o seu Ricardo não gostou... Além disso, não vai querer casar a filha com simples ferrador... Já escolheu de comum acordo com o seu Zacarias... O Samuel é o prometido.

Aleixo franze a testa.

- A vida é assim mesmo. É difícil mudá-la... Mas temos sempre que lutar para conseguir o que desejamos... Você deve se aproximar da senhorinha Lavínia Cristina. Não para cortejá-la, mas sim esperar que as coisas aconteçam... É assim que ajo com a senhorinha Ana Bárbara... Para você é fácil, pois sabe controlar suas emoções e impulsos.

- Você acha que domino meu impulsos.

- Sim.

Adriano sente que não é real as palavras do amigo ao lembrar o beijo que deu em Rebeca.

- Estou em dúvida em aceitar seu convite para ir à ópera. O Clemente João sempre diz nas nossas conversas na ferradoria que eu só deveria freqüentar o meu meio... Que deveria evitar a taberna do seu Abílio.

- O Clemente João está com inveja. Aposto como queria estar no seu lugar.

Adriano sorri.

- Você mandou fazer a roupa nova no alfaiate das Ruas das Violas?

- Sim, Aleixo.. Já fui lá fazer a prova final... Ficou muito boa... Amanhã, está marcado para eu ir apanhar.

- Então, você já tem a roupa certa para a estréia da ópera... Você vai gostar do espetáculo... "O Barbeiro de Sevilha" é uma ópera bufa de Rossini. É baseada numa peça teatral, a comédia do francês Beaumarchais, que foi representada pela primeira vez no século passado, precisamente em 1775.

- Você gosta de ópera?

- Adoro!... E você?

- Nunca assisti... Não se esqueça que nas províncias não passam óperas. Só na corte, para os fidalgos.

- Você é um fidalgo. Pelas maneiras finas e cultas.

Aleixo estica a mão com a entrada. Adriano hesita um pouco, porém, acaba apanhando o bilhete da mão do amigo.

- Está bem, Aleixo... Você me convenceu... Vou assistir ao "Barbeiro de Sevilha".

 

Capítulo 3

 

O Largo do Rócio está festivo na noite da estréia de "O Barbeiro de Sevilha". O povo aglomera-se para ver o Imperador Dom Pedro e a Imperatriz Dona Leopoldina. O movimento é intenso em frente ao Teatro São João, com a chegada de famílias nobres e ricas. As mulheres suspendem os longos e rodados vestidos de tecidos vistosos ao saltar das carruagens, e são ajudadas por cavalheiros de casacas e calças bem justas nas pernas. Adriano e Aleixo apreciam de longe a agitação. O ferrador sente-se encabulado e preso ao traje novo. Resmunga que prefere usar as largas roupas dos tempos de mascate. Mas sua bonita vestimenta chama atenção, quando eles atravessam o largo para entrar no teatro. Lá dentro, os olhos de Adriano giram em direção dos balcões e camarotes. Aleixo nota a ansiedade do amigo.

- Já encontrei o que você procura. Lá está a senhorinha Lavínia Cristina - Aleixo aponta discretamente para a esquerda.

- Aonde?

- Naquele camarote.

- Ah! Já vi... Como é linda!... Está com a família e com Ana Bárbara...

- Elas são amigas inseparáveis.

A aparição da família imperial faz com que as pessoas se levantem e aplaudam. De algum lugar da platéia, surge o grito de "viva a independência". É o bastante para partir de todos os cantos do teatro os vivas à independência e ao imperador. A orquestra inicia os primeiros acordes da abertura da ópera, e o público escuta em silêncio. A voz do barítono, que representa o barbeiro Fígaro, entoa alegremente. Aleixo está extasiado pela música, enquanto Adriano divide sua atenção entre o palco e Lavínia. Repara que a moça também está encantada com a encenação e a vê comentar alguma coisa com Ana Bárbara, quando a soprano aparece interpretando a jovem Rosina. No final do primeiro ato, Aleixo sussurra ao ouvido de Adriano.

- Adriano... Você passou quase o tempo todo observando o camarote da senhorinha Lavínia Cristina. Alguém pode notar... Há muitas famílias conhecidas presentes no teatro. O Samuel e o seu Zacarias podem desconfiar do seu sentimento pela senhorinha.

- É verdade. Você tem razão. Devo ser mais discreto, apesar de achar que ninguém vai descobrir que estou admirando a Lavínia, pois quem vai se interessar em olhar para mim?

- Você está enganado. Tem uma pessoa com os olhos bastantes atentos em você, neste instante... É uma mulher.

- A Lavínia?

- Não. É do lado oposto. É um olhar insistente e cheio de avidez. Não vire o rosto agora, pois ela ainda o está bispando... Não entendo mais nada. Estou muito surpreso. Por que ela não falou com o marido sobre a sua presença aqui? Por que ela não pára de fitá-lo?

- O quê?... Quem é?

- É a madame Rebeca.

Adriano estremece. Suas mãos ficam geladas e sente o ouvido zoar. Fica imóvel e não consegue virar-se para o lado onde Aleixo diz estar Rebeca, pois falta-lhe coragem. É a primeira oportunidade, após o beijo forçado, que pode rever seu rosto. Por momentos, esquece Lavínia. Aparece na sua mente a cena da mulher no chão da saleta, chorando e o xingando.

- Pode olhar agora. Ela está conversando... Não está mais virada para cá.

Adriano vira-se à procura de Rebeca. Orientado por Aleixo, finalmente a vê ao lado do marido e de um casal desconhecido. Seu rosto está bastante nítido por causa da proximidade de um grande candelabro. O rapaz fica absorvido a contemplar a beleza da jovem senhora. De repente, ela também o encara, mas fica encabulada ao pressentir que ele igualmente a admira. Vira o rosto, num gesto rápido e nervoso. Aleixo percebe e fica espantado. Adriano, diante da expressão interrogante do amigo, fala muito sem jeito.

- Depois... lá fora... vou lhe contar um segredo.

- Sobre a madame? - indaga Aleixo.

- Sim. Sobre Rebeca.

As cortinas se abrem e o espetáculo recomeça. Adriano decide não olhar mais, nem para Lavínia nem para Rebeca. "É melhor não fitar as duas, senão a Rebeca ou mesmo a Lavínia podem perceber a minha insistência em olhar para uma ou para a outra." Sente atraído pela ópera, pela bela voz do tenor que faz o papel de Conde Almaviva e pelas trapalhadas de Fígaro para conseguir encontros entre Rosina e o conde, e para realizar a fuga da jovem com Almaviva da casa do tutor Dom Bartolo, no última ato. O público ri e aplaude entusiasticamente. Adriano levanta os olhos em direção à Lavínia e vê a moça radiante a gesticular com o irmão e a amiga Ana Bárbara. Ele vira-se para o lado oposto e examina o local onde se encontrava Rebeca. Ela e o seu Venâncio já saíram. Logo após a família imperial deixar o teatro, Adriano e Aleixo também saem. Lá fora, bem junto da entrada, encontram seu Venâncio e Rebeca. O dono da ferradoria olha para o rapaz espantado.

- Que elegância, Adriano! - grita seu Venâncio. - Estás irreconhecível. Pareces até um nobre... Não é, Rebeca?

Rebeca sorri com timidez, mas responde que sim. Adriano fica embevecido, porém, evita fitá-la diretamente. Apenas curva o corpo, beija-lhe a mão e nota que ela está trêmula. Logo depois, o patrão e a esposa partem de carruagem. Aleixo tenta falar com Adriano, mas não consegue por causa da chegada de Gustavo.

- Gostaram da ópera?

Os dois dizem que sim. Gustavo bate no ombro do Aleixo.

- Já falou com Adriano sobre o meu convite para ele ir à fazenda do meu pai?

- Já... ele vai - diz Aleixo.

Adriano fica pasmado, pois ainda não havia decidido ir. Mas não contesta ante a cutucada de Aleixo. Vê a família de Gustavo parada um pouco adiante e acena para Ana Bárbara.

- Você conhece Ana Bárbara? - pergunta Gustavo.

- Sim... Moro perto dela.

- Vamos lá. Vou apresentá-lo à minha família.

Gustavo puxa Adriano pelo braço, e Aleixo acompanha os dois até junto dos familiares do amigo. Ao ser apresentado, Adriano cumprimenta polidamente seu Ricardo e Dona Veridiana. Paralisa diante de Lavínia. A moça o trata com indiferença e somente dobra o joelho e mexe ligeiramente com a cabeça para agradecer a reverência feita por ele. Ela não se mostra cortês e sobe apressada na carruagem, carregando Ana Bárbara. Seu Ricardo examina as roupas de Adriano. O rapaz abaixa a cabeça. Eles se despedem. Gustavo e os pais embarcam na carruagem. O cocheiro agita o pingalim, e o veículo afasta-se do Largo do Rócio. Adriano fica com os olhos tristes.

- Acho que não gostaram de mim. Me incomoda o desinteresse demonstrado por Lavínia.

- A senhorinha Lavínia Cristina é tímida, Adriano. Mas é meiga... Talvez, um dia, você descubra isso.

- Ela reside longe daqui?

- Não. Ela mora num bonito palacete na Rua do Lavradio... É a rua dos nobres, fidalgos e os grandes fazendeiros da corte.

- Essa rua fica para os lados da Saúde?

- Não, Adriano. É bem próxima daqui. Começa na Rua dos Ciganos.

- Mas a carruagem seguiu direto pela Rua do Sacramento.

- É que foram deixar a senhorinha Ana Bárbara na Rua do Sabão.

- Hã!... sim... sim.

Aleixo coloca a mão no ombro de Adriano.

- E sobre a madame Rebeca? Você disse que iria me contar alguma coisa...

- Vamos caminhar... É sobre uma enorme besteira que eu fiz na casa do seu Venâncio. Estou com vergonha de relatar o que aconteceu.

Eles seguem pela Rua da Lampadosa. Adriano narra, com detalhes, sua paixão pela esposa do seu Venâncio e as cenas da sala de leitura. Aleixo escuta em silêncio. Os dois param no Largo de São Francisco em frente à Escola Militar. O alferes abana a cabeça, quando Adriano fala sobre o beijo.

- Adriano!... Você não devia ter feito isso!

- Eu sei. Mas, estava inconsciente... Não raciocinava sobre o que fazia... Só sentia um desejo incontrolável de beijá-la... Não sei porque ela não me acusou para o marido.

- Você deve cuidar para que isso não aconteça outra vez... A madame é muito fiel ao Venâncio. Ela preferiu o silêncio para evitar problema maior... Mas não tenho dúvida, Adriano... Se tornar a agarrá-la, ela vai contar tudo.

- Já refleti sobre isso. Não farei outra loucura. Quando conheci a Lavínia, fiquei encantado por ela. Então, resolvi concentrar todo o meu pensamento na sua imagem para esquecer Rebeca... Mas foi pior.

- O que lhe sucedeu?

- Estou apaixonado pelas duas... É coisa de maluco, eu sei.

- Acho que você deve pensar só na senhorinha Lavínia Cristina. Tentar uma aproximação com ela.

- Ela também é um problema... existe o Samuel.

- Todavia, é melhor do que a madame Rebeca, que tem marido. Não se esqueça, Adriano, que o Venâncio é excelente patrão e amigo. Não merece esse tipo de traição.

- Eu sei disso... Parece um pesadelo. Quanto mais tento afastá-la da memória, mais fico enamorado por ela.

- Você está precisando se divertir... O passeio na semana que vem à fazenda será bom para você.

- É muito longe a fazenda do seu Ricardo?

- Algumas horas de cavalgada... É perto de Maxambomba.

- Maxambomba? Quando vim de Minas Gerais, parei em Maxambomba... É uma pequena povoação.

- A fazenda do seu Ricardo fica após o povoado... Mas você ainda não me deu a resposta... Irá ao passeio?

- Irei.

Os dois se despedem. Aleixo deixa o Largo de São Francisco pela Rua do Ouvidor. Adriano segue pela Rua do Fogo até o Largo do Capim. Está bastante perturbado com os acontecimentos do Teatro São João e demora a pegar no sono. Nos dias que se seguem, procura não pensar nem em Rebeca e nem em Lavínia. Mas, no meio da semana, sai a serviço montado em Branquinho, passa pela Rua do Lavradio e fica deslumbrado com o prédio enorme e belo onde reside Lavínia.



Os dias passam. No sábado, Adriano e Aleixo saem a cavalo para o passeio à Maxambomba. Encontram Gustavo, Samuel e Hugo César na cocheira do Largo do Rosário. Todos partem para a viagem, cavalgando pela Estrada Real de Santa Cruz. O sol e a poeira castigam os cavaleiros, quando atravessam o povoado de Maxambomba. Antes do meio-dia, Gustavo grita ao avistar a porteira da fazenda. Os cinco galopam e alcançam rapidamente a estrebaria junto da casa-grande.

Após deixar os cavalos com os escravos, os rapazes dirigem-se para o largo em frente da propriedade. Adriano observa a perícia de um cavaleiro, subindo e descendo pequena elevação coberta por capins-touceira. A beleza da égua também chama-lhe a atenção. O preto é a cor predominante. A cabeça é marrom; e a crina, branca. O cavaleiro, vestido de preto e com chapéu enfiado na cabeça, controla com bastante eficácia o animal. Adriano desvia o olhar para o lado oposto e descobre Ana Bárbara em pé na larga escada de acesso à casa-grande. Não vê Lavínia e a procura pelas grandes janelas do prédio. Os demais aproximam-se para também admirar as manobras arrojadas do cavaleiro.

- É uma excelente égua - fala Adriano. - Mas acho que o cavaleiro é ainda melhor. Sabe conduzi-la e exigir o que ela pode fazer. Os dois se completam harmoniosamente... Dá gosto ver esta movimentação.

- Quem está montado não é um cavaleiro. É uma amazona. É a minha irmã - comenta Gustavo.

- A Lavínia? - exclama Adriano.

- Sim... ela usa roupa masculina para cavalgar. Com os cabelos presos no chapéu, parece mesmo um homem.

Adriano, bastante espantado, olha para Aleixo. A moça interrompe o exercício e faz a égua empinar na pequena colina.

- Estou maravilhado! - sussurra Adriano quase junto ao ouvido de Aleixo. - Jamais pensei que Lavínia soubesse cavalear tão bem. Suas feições meigas me impediam de imaginar isso. É inacreditável!

- Minha irmã é a única pessoa que a Centelha não derruba - esclarece Gustavo, aproximando-se de Adriano e Aleixo. - Ela criou a égua... Só ela cavalga na potranca. Nunca ninguém conseguiu montá-la. Nem os escravos que a alimentam e tratam dela.

Gustavo pára de falar ao ver a irmã passar. A moça fita ligeiramente o grupo. Num gesto rápido, retira o gorro e deixa os cabelos esvoaçar com a brisa que desce da montanha. Ela, aprumada no dorso da égua, não cumprimenta ninguém, nem o irmão e nem o prometido Samuel. Apeia-se junto de Ana Bárbara. Um escravo segura Centelha pela rédea e a puxa em direção á cocheira. Adriano revira os olhos, alternando a visão para as moças e o animal que se aproxima.

- Vou cavalgá-la - comunica Adriano bem baixinho para Aleixo, o suficiente para os outros não ouvirem.

- Que loucura, Adriano!... Não faça isso, por favor - implora Aleixo.

- Não estou com medo. Já campeei muitos cavalos bravos e nunca caí da sela... Não é uma égua que vai me derrubar.

Adriano faz o escravo parar e alisa a crina do eqüino. Centelha fica imóvel e parece gostar do afago.

- Todo animal gosta de carinho. Não estou achando esta égua indomável... Está muito tranqüila e não noto nenhuma forma de rejeição aos meus afagos.

- Ela não se importa com mãos tocando no seu pelo, sinhô - afirma o escravo, sem afrouxar a rédea de Centelha. Mas ninguém consegue montá-la. Quando ela pressente alguma coisa que não gosta, começa a se mexer de banda e a empinar. É um perigo tentar, sinhô. Só a sinhá-moça cavalga na égua. A gente para trocar a ferradura tem que usar pé-de-amigo e também o cachimbo.

- Pé-de-amigo?... Cachimbo?... - fala Aleixo perplexo.

- Não sabe o que é? - indaga Adriano.

- Não.

- Pé-de-amigo é uma espécie de peia para amarrar cavalos. Uma corda enlaça o pescoço, as patas dianteiras e uma pata traseira, imobilizando totalmente o animal e o impedindo de dar coice. Cachimbo é um pedaço de pau com uma corda em forma de círculo. O cachimbo é amarrado na boca do cavalo.

- O sinhô entende de cavalos! - espanta-se o velho escravo.

- Sou ferrador... para se ferrar cavalos indóceis, usam-se o cachimbo ou o pé-de-amigo... os dois de uma vez, só para os bastante bravos.

- A Centelha é uma égua feroz, sinhô... Para ferrá-la ou cuidar das suas feridas, temos que colocar o pé-de-amigo e o cachimbo juntos.

Adriano mira a entrada da casa-grande. Lavínia e Ana Bárbara ainda estão na escada. "Ela está olhando para cá - pensa ele. - Os carinhos que faço na sua égua deixou-a curiosa. Tenho que fazer algo arrojado." Vira-se para o outro lado e vê Gustavo mostrando alguns potros para Samuel e Hugo César. Então, num golpe rápido, tira o bridão da mão do escravo.

- Afastem-se... Vou montá-la.

- Por favor... Não faça isso, Adriano - alerta Aleixo.

Aleixo ainda tenta segurá-lo, mas Adriano, muito convicto, coloca um pé no estribo e uma das mãos na sela. O escravo puxa Aleixo para longe da égua. Centelha relincha, empina e arrasta Adriano pelo capão. O rapaz esforça-se para impulsionar o corpo com o pé que está no chão. Gustavo corre e grita para ele pular e largar a égua. Mas Adriano não ouve a sua súplica. Com coragem e força, consegue subir na potranca enfurecida. A cada salto, ele pensa que seu coração vai sair pela boca. Com os pés enfiados nos estribos, aperta as pernas e gruda os joelhos na barriga do animal. Mas não consegue se aprumar e sente que a queda e iminente. Parece-lhe que a sela e as correias que amarram o eqüino vão arrebentar e ir com ele pelos os ares. O pé direito solta-se do estribo, e ele perde completamente a estabilidade. O tombo acontece. Adriano sente uma terrível dor, quando atinge o chão, embora amortecido pela moita.

Ele tenta se levantar, enquanto o escravo e os amigos enxotam a égua. Sente uma profunda vergonha pelo que acaba de suceder. Senta no chão, passa a mão nas costas e não tem coragem de ficar de pé. Um pouco além, Centelha ainda está furiosa, mas Gustavo consegue afugentá-la. A égua galopa até a casa-grande e pára diante de Lavínia. A moça acaricia o seu bicho. Adriano observa a cena, levanta-se e sacode a poeira. Gustavo corre em sua direção e procura saber se ele está ferido. O rapaz reclama de pequena dor nas costas. Os demais também o cercam e, depois de muita falação sobre o acontecido, dão gostosas gargalhadas. Adriano também ri, mas muito sem graça. Já não avista mais Lavínia e Ana Bárbara na escada. Só vê, ao longe, o escravo puxar Centelha, rumando para a estrebaria.

Durante o grande almoço oferecido pelo seu Ricardo e Dona Veridiana aos amigos do filho, Adriano permanece de cabeça curvada. Lavínia está na outra extremidade da mesa, junto com o pai, a mãe e Ana Bárbara. Os rapazes, na cabeceira oposta, participam animadamente da conversa sobre política com seu Ricardo. Adriano vira os olhos timidamente e vê Lavínia muito pensativa e quieta na sua cadeira. Na parte da tarde, ele continua mal-humorado. Nem o passeio com Gustavo e os outros rapazes, para conhecer as terras da fazenda, o faz esquecer da gafe da manhã. Quando fica sozinho com Aleixo, expande seu descontentamento.

- Que papel ridículo eu fiz. Queria mostrar valentia para a Lavínia, mas acabei virando pilhéria. Tenho certeza que ela está me achando uma pessoa grotesca.

- Não pense assim, Adriano. A senhorinha Lavínia Cristina sabe muito bem que ninguém consegue montar aquela égua.

No dia seguinte, Adriano retorna ao cotidiano do trabalho. No meio da semana, ainda sente-se amargurado pelo acontecimento na fazenda. Na hora da sesta, prepara Branquinho para passear nas redondezas. Ao abrir a porteira da ferradoria, nota uma liteira com duas mulas amarradas nos varais em frente ao casarão do seu Venâncio. Junto à liteira, Rebeca conversa com outra senhora. Adriano passa próximo delas e vê sua amada baixar a cabeça. Segue sem virar o rosto pela Rua da Misericórdia, enquanto as duas o acompanham com os olhos até ele dobrar a esquina.

- Então este é o rapaz que a beijou à força!

Rebeca confirma com um gesto.

- Ele é muito bonito, Rebeca.

- Eu sei Carlota... Mas não devia ter me agarrado. Não falei com o Venâncio, porque senti pena do Adriano.

- Só pena? Acho que não é só isso... Você ficou completamente transtornada quando ele apareceu na porta da ferradoria.

- Como você queria que eu ficasse ao ver o homem que me beijou à força?

Carlota sorri.

- Mas ele vai aprender e não terá coragem de aventurar-se - prossegue Rebeca. - Não o deixarei chegar perto quando eu estiver sozinha.

- Por que você não o deixa tentar outra vez?... Você vai ver como é bom ter um amante.

- Não, Carlota... Você não sabe que eu amo o meu marido?

- Rebeca! Você não devia ignorar que na corte tem muitas pessoas com amante... Até o nosso imperador tem a sua.

- Eu sei, Carlota... Mas acho que o imperador não está agindo certo.

Enquanto as duas conversam, Adriano trota com Branquinho pela Rua da Ajuda e chega ao Passeio Público. Junto à amurada, admira a beleza do mar e da Igreja da Glória. Um movimento no jardim chama sua atenção. Ele leva um susto ao ver Lavínia vestida de branco e com os cabelos soltos. Ao lado da moça, passeando também alegremente pelo parque, está Ana Bárbara. Adriano desmonta rápido do cavalo e aproxima-se das moças, com muito cuidado para não ser visto. Chega por trás delas e chama as duas pelos nomes. Elas olham atônitas em sua direção. Ana Bárbara faz menção de ir ao seu encontro, mas é puxada por Lavínia. As duas correm e entram na carruagem. Lavínia manda o cocheiro seguir para casa. Adriano, muito sem jeito, observa elas saírem do Passeio Público e sumir através da Rua Matacavalos.

Completamente aturdido, monta Branquinho e volta para a ferradoria. "Devia ter aceito o conselho de Aleixo. A Lavínia não poderia jamais notar que estou apaixonado por ela. A minha pretensão de domar a égua brava estragou tudo." O caso com Rebeca também o preocupa. "Estou apaixonado por duas mulheres. Amores impossíveis. Tenho que esquecê-las." O insucesso na procura de Macário Coxo e a tentativa frustrada de chegar à verdade sobre o pai também o deixa triste. Mas os dias passam, ele consegue se recuperar e volta ao normal. Na manhã de quinta-feira, ajudado por Tomás, prepara algumas ferraduras na bigorna, quando ouve a voz de Gustavo ecoar pela oficina. Vira-se e vê o amigo aproximar-se. Fica muito assustado com a súbita aparição. "Será que a Lavínia queixou-se de mim para o irmão?" - pensa ele.

- Que o traz aqui, Gustavo? - pergunta Adriano, controlando a forte emoção.

- Trouxe meu cavalo pessoalmente para ser ferrado por você. O Aleixo e o Major Varela enalteceram sua arte de ferrar. Então, resolvi testar sua eficiência com meus próprios olhos.

Adriano sorri. Manda Tomás apanhar o cavalo e levá-lo ao local apropriado para o serviço. Enquanto Adriano trabalha a ferradura na bigorna, Gustavo conta suas aventuras em Paris. Seu Venâncio chega na oficina e abraça o visitante.

- Já soube que tu voltaste há tempos da Europa... Como foi a viagem? - indaga seu Venâncio.

- Uma maravilha!... Uma viagem encantadora! Estava contando para o Adriano sobre as mulheres de Paris. A facilidade como tiram a roupa. Perdi a conta das francesas que se despiram sem constrangimento diante de mim.

Os dois acompanham Adriano ao local de ferrar. Gustavo continua a narrar suas aventuras amorosas na França. Seu Venâncio acompanha com muito interesse a fala do jovem, enquanto Adriano desgasta o casco do animal. Em poucos minutos, o cavalo está com ferraduras novas.

- Você é de fato muito hábil. Estava conversando, mas observava o seu trabalho - comenta Gustavo.

- Quem ferrou antes este cavalo? - inquire Adriano.

- Deve ter sido algum escravo da fazenda.

- Ferraram sem passar a grosa... O casco do animal cresce naturalmente. Se não desgastá-lo o suficiente, ele se torna, com o tempo, grosso demais. O cravo acaba caindo e a ferradura não fica bem segura.

Adriano e seu Venâncio levam Gustavo até a porteira. Após a partida do visitante, seu Venâncio fica com ar pensativo. Adriano nota, mas não diz nada. Os dois entram, e seu Venâncio quebra o silêncio.

- Escutaste o que ele falou?... Sobre as mulheres nuas?

- Sim.

- Acreditaste?

- Talvez o Gustavo tenha aumentado um pouco. Em Paris, porém, tudo pode acontecer... Sempre ouvi falar que lá é muito diferente do Rio de Janeiro.

- Eu senti algo dentro de mim... Um rapaz tão jovem como o Gustavo diz que perdeu a conta das mulheres que já viu completamente despidas. Eu tenho 55 anos, o dobro da idade dele, e nunca vi uma mulher nua na minha frente.

Adriano chega a parar de tão perplexo que fica. Pensa em Rebeca e olha instintivamente para a porta de acesso para o casarão do patrão. Seu Venâncio nota a perplexidade do empregado.

- Já sei o que estás pensando! - replica ele sorrindo. Devo ter me expressado mal... Mantenho relações normais com Rebeca, mas nunca a vi nua... Ela é mulher tímida, criada numa fazenda do interior. Tem vergonha de tirar as roupas de baixo na minha presença... Quando nós copulamos, fazemos sob as cobertas. E, mesmo assim, ela não fica inteiramente nua. Para ela sair debaixo do cobertor, eu tenho que me retirar da alcova.

O suor escorre pela testa de Adriano. Continua mudo e espantado. Seu Venâncio não pressente o drama do rapaz e prossegue sua explicação.

- A Rebeca tem 36 anos de idade. Estamos casados há 14 anos. Não temos filhos, mas não é por falta de coito. Temos feito muito. No princípio, pensávamos que não conseguíamos ter filhos por alguma anormalidade dela. Consultamos médicos. Descobrimos que o problema não era dela, e sim meu... Já tomei muitos remédios, que não deram certo... sou potente, mas alguma coisa impede a fecundação... Na semana passada, visitei uma curandeira, que receitou uma ervas indígenas. Acho que agora vai dar resultado.

A chegada de Clemente João faz seu Venâncio mudar de assunto. Enquanto ele conversa com o feitor sobre serviços da ferradoria, Adriano aproveita para colocar a cabeça no lugar. Tudo aquilo que seu Venâncio falou sobre Rebeca o deixa transtornado. O rosto dela não sai da sua mente. E vem a imagem do beijo na sala de leitura. O drama do patrão o comove, mas aumenta a excitação que sente por ela. Sente uma vontade desesperadora de vê-la. Clemente João retira-se. Seu Venâncio e Adriano ficam a sós novamente.

- Peço desculpas. Devo estar te aborrecendo com o meu problema

- Não, seu Venâncio... Todos temos nossos problemas... Eu também tenho os meus - Adriano pensa no próprio caso com Rebeca.

- Mas sou muito feliz com a minha mulher. Ela me é muito fiel.

Adriano abaixa a cabeça.

- Vamos falar sobre uma coisa mais importante - retruca seu Venâncio. - Viajarei amanhã à tarde e só voltarei na segunda-feira. Mas preciso levar comigo umas escrituras que estão no Largo de Santa Rita. Necessito de alguém de confiança para apanhar esses documentos... tu és a pessoa indicada.

- Está bem, seu Venâncio... Quer que eu vá agora?

- Irás amanhã bem cedo. Logo que acordares, podes ir direto do Largo do Capim para o Largo de Santa Rita... Aqui tens o endereço e o nome da pessoa que irás procurar.

Adriano volta ao trabalho e passa o tempo todo a meditar sobre o que seu Venâncio contou de Rebeca. No dia seguinte, acorda radiante, pois a manhã de sexta-feira está linda. O sol ilumina todo o quarto. Abre a janela e vê mercadores passarem defronte. Pouco depois, também junta-se ao burburinho da cidade. Segue apressado para o Largo de Santa Rita. Apanha a encomenda do seu Venâncio e dirige-se para a ferradoria seguindo pela Rua dos Ourives. Atravessa a Rua das Violas e logo chega em frente à Igreja de São Pedro. Demora alguns segundos a contemplar o templo católico e não observa a aproximação de dois senhores. O mais gordo, bate no seu ombro. Adriano vira-se rapidamente.

- Ah! Seu Gaspar... como vai?

- Você está admirando a Igreja de São Pedro. Ela é muito bonita - afirma seu Gaspar, enquanto seu Zacarias estende a mão para cumprimentar Adriano.

- Como está o Samuel? - pergunta Adriano.

- Vai bem... ele está trabalhando muito e não tem ido á taberna - responde seu Zacarias.

Seu Gaspar toca novamente no ombro de Adriano.

- Você precisa tomar cuidado. Depois da sua conversa na taberna... divisões de terras... libertação de escravos, tem um amigo nosso que está falando que você é um conspirador.

- Conspirador? Que absurdo!... Já sei quem falou... foi o seu Alexandrino.

- Não, não foi o Alexandrino. Foi o Cristóvão... Você não deve expor suas idéias em público, principalmente quando estiver presente o Cristóvão, que é da Intendência da Polícia.

- Ele deve estar brincando. Eu conspirador?... Gosto de falar sobre minhas idéias, mas não quero metê-las na cabeça dos outros. As idéias são minhas. Quem quiser aproveitá-las, que aproveite; mas não quero forçar ninguém.

- Você precisa tomar cuidado - repete seu Gaspar. - Existem muitas injustiças no mundo. Há trinta anos, ainda no tempo dos vice-reis, eu assisti ao enforcamento de Tiradentes... Ele chegou aqui de Vila Rica, do mesmo lugar que você veio. Lembro-me como se fosse hoje. A imagem triste dele saindo da Cadeia Velha, seguindo pela Rua do Piolho, parando na Igreja da Lampadosa e terminando seus dias no patíbulo armado no Largo do Rócio.

- Podem dizer ao seu Cristóvão que não sou nenhum conspirador. Estou contente com a nossa independência e o nosso imperador... Aqui no Rio de Janeiro, só pretendo reabilitar a memória do meu pai.

- Você não acha que é melhor deixar a alma do seu pai em paz? O que você está ganhando nessa procura insensata? Poderá até descobrir alguma coisa de ruim do falecido Honório que você desconhece - explica seu Zacarias.

- Não acredito... Tenho certeza que meu pai foi um homem bom.

A conversa acaba aí. Seu Gaspar e seu Zacarias despedem-se e entram na Rua do Sabão em direção à Igreja da Candelária. Adriano, cabisbaixo e pensativo, continua pela Rua dos Ourives. Passa pelas esquinas das ruas da Alfândega. Hospício e Rosário. A cidade está movimentada. Muitos negros, com os varais das cadeirinhas de arruar nos ombros, carregam as senhoras para as compras. Ao cruzar a Rua do Ouvidor, Adriano encontra com Gustavo.

- Foi bom encontrá-lo, Adriano! Tenho uma boa notícia. À tarde, eu pretendia ir à ferradoria para contá-la para você.

Adriano sorri e fica na expectativa.

- Ali adiante há uma padaria nova. É no número 57. Vamos tomar chá, enquanto lhe digo o que é. Lá vende umas bolachinhas e uns biscoitos de água e sal, que são umas delícias.

Os dois caminham alegres e entram na confeitaria. Adriano continua com olhar de curiosidade. Gustavo dá um soco com a mão direita na palma da mão esquerda.

- Encontrei o que você procura.

- Encontrou?

- O Macário!

- O Coxo?

- Sim... O Macário Coxo. Ele mora no Morro do Castelo. Descobri por acaso. Ontem, logo depois de sair da ferradoria, fui à Igreja de São Sebastião, no alto do morro. No caminho, vi um homem idoso capengando da perna direita. Examinei com atenção e confirmei que realmente era aleijado. Ele entrou numa casa da ladeira. Um guri me informou que o velho morava ali e se chamava Macário. Lembrei-me logo do seu caso. Resolvi não bater na porta da casa, pois achei melhor ir lá com você.

- Que coisa boa, Gustavo! Foi a melhor notícia que recebi desde que cheguei ao Rio de Janeiro. Estou muito contente. Algo me diz que esse velho sabe da verdade sobre meu pai e meu avô... Uma versão bem diferente dessas contadas pelos outros velhos e pelos autos arquivados no tribunal.

Adriano mastiga uma bolachinha embebida com chã e vira-se para Gustavo.

- Quando você pode me mostrar onde mora o velho? Quando poderemos ir ao morro?

- Hoje é sexta-feira... domingo pela manhã, você poderá ir à minha casa?

- Sim.

- Então, está marcado. Da minha casa seguiremos para o Morro do Castelo. Você sabe onde eu moro?

- Sim, Gustavo... É na Rua do Lavradio.

- Então, está tudo combinado.

Após terminar de tomar o chá, eles se separam. Gustavo vai em direção oposta e dobra para o Rua do Ouvidor. Adriano continua pela Rua dos Ourives. Seu coração bate mais ligeiro. Afinal, descobriu o paradeiro do Macário. A iminência de ir à casa do Gustavo também mexe com ele, pois há possibilidade de encontrar Lavínia. "Ela não poderá reclamar e nem ficar zangada, pois fui convidado pelo irmão." Adriano pára e espera uma carruagem passar pela esquina da Rua do Cano. Como por um encanto vê a moça que acaba de pensar. Dentro da carruagem, estão Lavínia e Dona Veridiana. A jovem vira o rosto para o lado contrário ao notá-lo na calçada. Ele sofre com o desprezo de Lavínia, mas a felicidade pela descoberta do Macário não é interrompida. Continua a andar pela Rua do Ourives. Passa pela esquina da Rua da Cadeia e olha para o alto do Morro do Castelo. Mais adiante, vira à esquerda para a Rua São José. Um pouco além, alcança a Rua da Misericórdia e chega, finalmente, à ferradoria.

Todos os acontecimentos, a partir da conversa com seu Venâncio sobre a timidez de Rebeca em se despir até a descoberta do homem que pode dar informações sobre o caso do pai, deixam Adriano inquieto durante o dia todo. A expectativa e a possibilidade de domingo ver Lavínia Cristina também agita seus nervos. "Como ela irá me receber? Será que a encontrarei em casa?" No final da tarde, seu Venâncio segue para a viagem de três dias. Por intermédio do escravo Tomás, Adriano toma conhecimento que Rebeca não acompanhou o marido. O fato o deixa excitado. A imagem dela na sua cabeça se mistura com as palavras que seu Venâncio falou na véspera. Chega a noite. Junto a um pequeno candeeiro, ele continua trabalhando. O silêncio é total ao seu redor, pois os outros empregados e os escravos já se foram. Clemente João prepara-se para sair, mas pára na porta espantado ao ver Adriano.

- Você ainda não foi embora, rapaz?

- Não. Estou preparando umas ferraduras.

- Por que você não deixa para fazer isso amanhã?

- É... tem razão... Vou me arrumar e sair para passear.

- Faz como eu... Após o trabalho, vou me divertir com as mulheres.

Adriano não fala nada, somente observa o feitor se retirar da ferradoria. "Ele nem desconfia da minha loucura. Que ainda estou aqui por causa da mulher do patrão. Se soubesse, nem imagino o que aconteceria." Com o banho tomado e a roupa trocada, ele caminha até as baias e afaga a crina e o pescoço de Branquinho. Da cavalariça, tem uma visão completa do casarão. No segundo andar, os lampiões estão apagados. "Ela deve estar no térreo sozinha. Poderia bater na porta e chamá-la. Mas isso seria mais uma maluquice. É melhor ir embora." Mas fica ali por mais uma hora, contemplando o sobrado. De repente, vê uma luz surgir em uma das janelas. "Deve ser o quarto de dormir."

Adriano resolve ir embora. Sai da ferradoria e vagueia pelas ruas escuras. Pensa em ir à taberna; mas desiste, pois não sente tranqüilidade para conversar com os amigos. Sua cabeça parece um remoinho e decide retornar. Abre a porta da ferradoria e se dirige para o quintal. Nota que não há mais claridade no quarto. Examina uma trepadeira bem junto da parede, que termina no andar de cima ao lado da janela. "Ela deve estar dormindo. Vou subir e olhá-la." Com muita agilidade escala a parede, com os pés apoiados na planta. Ao chegar na extremidade, estica a mão para agarrar o bordão da janela e a perna para trepar no parapeito. A noite de luar ilumina a alcova. Adriano sente enorme emoção ao ver Rebeca deitada na cama. Apesar de estar dormindo, seu rosto está sereno e expressivo. O rapaz experimenta forçar a janela, mas descobre que está trancada por dentro. Rebeca acorda com o barulho e levanta a cabeça em direção a ele. A senhora levanta a cabeça bastante amedrontada com o vulto do lado de fora da janela.

- Quem é?... Quem está aí? - pergunta com a voz trêmula.

- Não se assuste Dona Rebeca... Sou eu ... O Adriano.

Rebeca pula da cama.

- O que você quer?

Adriano sente o corpo tremer e procura inventar uma estória.

- É um recado do seu Venâncio. É muito importante. Abra a janela, por favor.

Rebeca coloca uma manta de lã em cima da camisola. Caminha ainda muito assustada até próximo da janela.

- O que houve com o Venâncio? Algum acidente?

- Não é nada grave, Dona Rebeca. Abra a janela que eu lhe conto.

A senhora hesita um pouco.

- Por que você não bateu na porta da frente?

- Chamei sim, mas a senhora não atendeu. Subi aqui, pois é um caso urgente.

- Fale daí mesmo! Diga o que houve com o Venâncio.

- Não posso, dona Rebeca. Estou perdendo o equilíbrio. Vou cair no chão. Abra a janela, por favor.

Ela olha muito desconfiada para o rosto do rapaz através do vidro e retira o ferrolho. Adriano empurra a janela e pula para o interior. Rebeca fica muito nervosa e se coloca no meio da alcova de costas para ele.

- Diga logo o que houve com o meu marido e saia daqui.

Adriano passa a mão na cabeça. Também está intranqüilo pela situação criada por ele mesmo. Aproxima-se sem ela notar e pára atrás dela. Rebeca, sem se virar, repete a pergunta.

- Não houve nada com o seu marido, dona Rebeca. É tudo mentira minha... Eu vim aqui para vê-la.

Ela dá um pulo e fica com o corpo gelado. A proximidade da voz de Adriano a faz tremer. Não sabia que ele estava tão perto dela. Pressente que vai desfalecer, mas procura adquirir energia interna para enfrentá-lo.

- Mais uma vez peço perdão à senhora... Não devia fazer isso, eu sei... Mas estou apaixonado... Acho-a linda e... seu corpo é maravilhoso.

Rebeca afasta-se para bem longe e vira-se de frente para ele.

- Que insolente! Que afronta você invadir meus aposentos! Como ousa falar e olhar dessa maneira para o meu corpo?!

Rebeca não agüenta a emoção e chora convulsivamente. Adriano avança um pouco para tentar acalmá-la.

- Não se atreva a me tocar! Não dê mais um passo em minha direção! Está pensando que sou uma mulher qualquer? Não me toque, seu estúpido!

- Dona Rebeca, me perdoe! Não quero molestá-la. Eu amo muito você... É muito bela... Você tem um corpo perfeito... Não vim aqui para tocar em você... Quero apenas... vê-la nua.

Rebeca se descontrola... o sangue lhe sobe à cabeça. Avança em direção à Adriano e lhe dá violenta bofetada. Adriano não reage. Leva a mão à face dolorida, enquanto ela se afasta bastante irritada.

- Você está despedido. Pode descer pelo mesmo lugar que subiu, apanhar suas coisas e sumir da ferradoria. Não quero vê-lo mais na minha frente. Suma, seu canalha... E não me trata de você. Continue me chamando de senhora ou madame... Eu já devia ter falado com o Venâncio da outra vez, mas fiquei com pena de você... Mas agora, contarei tudo. Você está despedido. Amanhã cedo direi ao feitor para impedi-lo de trabalhar.

Adriano sente profunda angústia com as palavras ríspidas de Rebeca. Ela, por outro lado, tremendo da cabeça aos pés, espera uma reação dele. Mas, procura manter uma boa distância. Adriano pensa alguns segundos e decide sair pela janela. Pula rápido para o lado de fora. Antes de descer, vira-se e fala com Rebeca.

- Não tenho como explicar o porquê faço isso com a senhora... Só sei que estou apaixonado... Não devia nutrir esses sentimentos... Considero muito o seu marido... Não quero trazer mais conflitos para a senhora, mas não consigo tirá-la dos meus pensamentos, nem conter meus impulsos. É melhor eu desaparecer mesmo daqui... Procurar outro emprego. A senhora não tem culpa de nada. Preciso sumir para evitar esses problemas.

Rebeca ouve tudo de costas para ele. As lágrimas rolam pelo seu rosto bonito. Quando sente que o rapaz fecha a janela, senta-se na cama e chora muito. Depois, levanta-se e caminha pelo quarto, desorientada. Tranca a janela e olha a trepadeira por onde Adriano se aventurou. Ele não está mais no quintal. O que aconteceu a deixa intranqüila. Seus pensamentos estão confusos. Bastante excitada, toca os seios com as mãos. Aproxima-se do espelho do toucador e admira o próprio corpo. Num gesto incontido, retira toda a sua roupa. Observa-se nua diante do espelho. Sente uma emoção profunda. Parece que algo sobe do seu peito e produz um nó na garganta. Ela volta a chorar.

Enquanto isso, constrangido e aborrecido consigo mesmo, Adriano desce a Rua da Misericórdia e a Rua Direita. Entra na taberna do seu Abílio. Achega-se timidamente da mesa. Senta-se ao lado de Aleixo. Os outros rapazes não observam sua chegada, pois estão atentos à discussão entre seu Gaspar e seu Alexandrino. Aleixo explica a Adriano que os dois velhos estão discordando sobre a melhor forma de governar um país. Seu Alexandrino é republicano; seu Gaspar, monarquista.

- Tu não entendes nada de república, Gaspar. Ficas defendendo a monarquia e criticando a república... Tu não sabes nem qual é o maior país do continente americano. Um país independente, democrático e republicano - diz seu Alexandrino, gesticulando muito.

- Como não sei? Você se refere aos Estados Unidos da América!

- Quem é o atual presidente dos Estados Unidos, Gaspar? Tenho certeza que tu não sabes.

- Deixe-me lembrar... Eu sei quem é... O nome é que não me vem à cabeça.

- Vou dar uma ajuda. O prenome dele é James.

- Então, não sei... Alexandrino... É o James Madison!

- Tu não entendes nada, Gaspar. O Madison deixou a presidência em 1817. O atual presidente dos Estados Unidos é James Monroe... Tu não entendes nada de república.

Gaspar olha sem jeito para todos, mas logo recupera seu autodomínio.

- É mesmo, Alexandrino. Posso não compreender nada de república, mas a monarquia eu conheço profundamente. O povo gosta de ter um rei. O povo ama seu rei. Lembro-me de um episódio antes da nossa separação de Portugal.

Seu Gaspar pára de falar e bebe um pouco de vinho.

- Dom João VI ainda estava no Brasil, quando estourou um motim nos quartéis no final de uma madrugada. As tropas estavam perfiladas no Largo do Rócio. O Príncipe Dom Pedro soube do acontecido antes do seu pai. Então, saiu da Quinta da Boa Vista sozinho a cavalo e foi conversar com os revoltosos. Chegando ao Rócio, viu que o povo aderiu aos soldados e desejava uma Constituição. Dom Pedro prometeu a Constituição. Mas o povo também exigiu a presença de Dom João. O jovem herdeiro retornou à Quinta e implorou ao pai para ir com ele ao Largo do Rócio.

Seu Gaspar respira fundo e toma mais um gole de vinho.

- Dom Pedro custou a convencer o pai. Dom João VI lembrava-se do Rei Luiz XVI da França, a guilhotina decepando sua cabeça. Mas o povo no Lago do Rócio queria mostrar ao nosso rei muita alegria e muita satisfação. Cheio de medo, Dom João seguiu num coche para o Rócio, escoltado pelo próprio filho a cavalo. O povo cercou o monarca. Aos gritos de "viva o rei" e "viva a Constituição", a massa humana acompanhou o coche real do Largo do Rócio até o Largo de São Francisco. Da Rua do Ouvidor até o Largo do Paço. O povo estava feliz. Tinha um rei para adorar.

Aleixo olha para Adriano e nota sua fisionomia preocupada.

- Algum problema com você?

Adriano apenas balança a cabeça.

- Quer conversar comigo a sós? - pergunta Aleixo.

- Sim.

Os dois despedem-se dos outros e saem da taberna. Seguem em direção ao Largo do Paço. No caminho, Adriano conta com detalhes sua investida contra Rebeca. Aleixo acompanha tudo com interesse e espanto. Em poucos minutos eles chegam ao embarcadouro. Adriano conclui a narração da sua aventura. Ao longe trabalhadores carregam sacas de café para as naus paradas ao largo do cais.

- Você não devia ter feito isso, Adriano! Nem sei o que vai acontecer, quando o Venâncio regressar da viagem.

- Acho que nunca mais verei o seu Venâncio. A Rebeca foi categórica. Ela me despediu do emprego.

- Você não irá trabalhar amanhã?

- Não... Seria humilhante para mim ser expulso pelo Clemente João. Mas tenho que ir lá para apanhar minhas roupas de trabalho que estão guardadas na oficina... O meu cavalo também está lá.

- É um problema muito sério! Você não pode pedir desculpas à madame Rebeca?

- Desta vez não vai adiantar, Aleixo. Fui longe demais... Invadi a alcova dela... A Rebeca está indignada comigo.

- Eu acho que você deverá ir trabalhar normalmente. A madame Rebeca não contará nada ao Clemente João, tenho certeza disso. Ela deverá esperar a volta do Venâncio para falar sobre o caso com ele. Vá amanhã à ferradoria e se comporte como se nada houvesse acontecido.

- É, Aleixo... Vou pensar muito sobre o que está me sugerindo. Talvez eu vá mesmo trabalhar... De qualquer maneira, tenho que buscar o Branquinho e os meus pertences.

 

Capítulo 4

 

O ambiente é calmo na ferradoria na manhã de sábado, quando Adriano chega para trabalhar. Muito desconfiado, ele cumprimenta o feitor. Espera apreensivo o momento de ele o mandar embora por ordem de Rebeca. Mas, Clemente João mostra-se indiferente às preocupações de Adriano. Conversa sobre outros assuntos. Eles estão a sós, pois os demais empregados e os escravos foram levar uma manada de bois ao Andaraí. Ao contrário de Adriano, o feitor parece muito contente e não pára de tagarelar suas aventuras com mulheres. Pouco depois, Clemente João vai à cavalariça e deixa Adriano sozinho. O rapaz continua a trabalhar muito pensativo. O barulho de porta se abrindo faz ele se virar para o lado do escritório. Leva um susto ao deparar com Rebeca entrando no recinto. É a primeira vez que isso acontece desde que ele trabalha da ferradoria. "Ela veio falar com o Clemente João. Vai mandar ele me expulsar." Rebeca aproxima-se e parece perceber o nervosismo do rapaz.

- Não costumo entrar aqui... Mas com a ausência do meu marido, vim saber se há algum problema na oficina - fala ela com o semblante radiante.

Adriano espanta-se com a presença da amada e o modo cativante dela se expressar, bem diferente do que ele esperava.

- Quer que eu chame o Clemente João? - indaga ele.

- Não. Você mesmo pode responder se está tudo bem.

- Sim... O serviço está correndo bem.

- Pode continuar a trabalhar... Não se preocupe com a minha presença... Há muitos anos que não venho aqui... como tudo está diferente!

Adriano recomeça a limpar as ferramentas espalhadas sobre a bancada, enquanto Rebeca percorre a oficina, examinando os apetrechos e as bigornas. Ao senti-la retornar ele gela, e o suor escorre pelo seu corpo. Ela chega bem próximo de suas costas. Ele sente a fragrância do seu perfume.

- Todas estas ferramentas são utilizadas para ferrar cavalo? - pergunta ela bem próxima ao ouvido dele.

- Sim, senhora.

Rebeca estica a mão bem junto ao corpo do rapaz e apanha um instrumento metálico. A cabeça de Adriano parece que vai rodopiar ao sentir que a amada está tão junto dele que por algum instante os seios dela tocam levemente suas costas. Ela levanta objeto sem sair do lugar, continuando com o corpo colado ao do rapaz.

- Que ferramenta é esta?

- É um saca-arrebite. Serve para tirar os cravos da ferradura - explica ele com a voz trêmula.

Ela se afasta ao pressentir a chegada de alguém. Adriano vira-se e vê Clemente João atravessando a porta de entrada. Rebeca vai em sua direção, fala alguns segundos com ele e sai rapidamente. O feitor faz cara de quem não gostou da conversa. Adriano assusta-se. "O que será que ela disse para ele?" Ao chegar perto do rapaz, o velho desabafa.

- Lugar de mulher é na cozinha... Veja só, Adriano... A Dona Rebeca veio me perguntar se tudo estava bem na ferradoria. Disse estar preocupada por causa da ausência do marido... Só faltava esta... Já estou ficando velho e cansado. Qualquer dia largo tudo e vou viver no meu lugarejo no interior.

Adriano não responde. Só pensa na cena da Rebeca colada ao seu corpo. Não acredita que esteja acordado. Tudo parece um sonho, mas aconteceu. Durante todo o dia, passa por um estado de profunda felicidade. Mas precisa falar com alguém. Fica ansioso para chegar o final da tarde. Ao deixar a ferradoria, vai direto à casa do Aleixo. Chega à loja de sapateiro da Rua Detrás do Carmo no instante em que seu Ubaldo está fechando a porta.

- Como tu vais passando? - brada seu Ubaldo.

- Bem... Vim falar com o Aleixo. Ele está?

- Ele acaba de entrar. Está lá em cima. Podes subir.

Adriano vai ao encontro do amigo. Os dois conversam no quarto sobre Rebeca. Aleixo fica admirado com o que ouve. Adriano gesticula muito com o braço, enquanto fala apaixonadamente sobre sua amada.

- A madame Rebeca não é mulher de fazer isso que você acaba de contar... Ela deve estar sentindo o mesmo impulso incontrolável que você sente - comenta Aleixo.

- Você acha que ela também está gostando de mim?

- Sim, Adriano... Mas você não deve se precipitar. Aguardar é o melhor remédio para o seu caso.

- Você não acha que eu deveria ir lá hoje?

- Não, Adriano... Se você está tão ansioso para vê-la, bate amanhã na porta da frente. Tente falar com ela sem atacá-la.

- Amanhã, pela manhã, terei que ir à casa do Gustavo... Nós iremos ver o Macário Coxo no Morro do Castelo.

- Ah! Sim... Então vá conversar com a madame Rebeca na parte da tarde... E por falar em Gustavo... E a senhorinha Lavínia Cristina?... Já esqueceu dela?

- De maneira nenhuma, Aleixo... Estou na expectativa de encontrá-la amanhã, quando eu for à Rua do Lavradio... Os últimos acontecimentos me deixam mais concentrado em Rebeca, mas não consigo esquecer a Lavínia. São dois casos diferentes, mas amo as duas.

- É um fato raro para mim. Você amando duas mulheres. E são as mais difíceis da corte... A madame Rebeca é muito fiel ao marido. A senhorinha Lavínia Cristina é tímida em exagero. Poucas vezes é vista conversando com rapazes. Algo me diz, porém, que você irá conquistá-la. Não sei explicar o que está ocorrendo com a madame Rebeca.

- Nem eu, Aleixo.

Adriano deixa o amigo e diz que não sairá à noite, pois a tensão aos acontecimentos o deixou esgotado. Chega ao sobrado do Largo do Capim. Deita-se na cama, mas não consegue tirar da mente a lembrança de Rebeca. A insônia o incomoda e resolve sair à rua. No Largo do Rócio, observa as pessoas entrarem no Teatro São João. Não consegue ficar parado e começa a vagar pelas ruas escuras da cidade. Sem perceber, depara-se diante do casarão do seu Venâncio. Olha para as janelas que dão para a Rua da Misericórdia e não vê sinal de claridade.

Resolve ir ao quintal dos fundos e descobre que também não há luz no quarto da Rebeca. Olha para a trepadeira e lembra-se da aventura da véspera. Decide escalar novamente, a fim de ver se ela está dormindo. Ao subir no parapeito, vê Rebeca deitada. Nota também que a janela só está encostada, sem o ferrolho na parte de dentro. Sem fazer barulho, empurra a janela e pula para o interior do cômodo. Com muito cuidado, caminha na ponta dos pés em direção à cama. Ajoelha-se junto de Rebeca e fica admirando-a. Depois, debruça-se sobre o colchão e aproxima seu rosto ao dela. Contempla-a demoradamente e procura tocar com os dedos os seus lábios. Rebeca acorda assustada.

- Ah!... Você novamente... Não devia ter vindo - murmura ela, sem mexer a cabeça e o corpo.

Os lábios deles estão muito próximos e Adriano tenta beijá-la. Ela evita, virando o rosto.

- Vá embora, por favor! - suplica Rebeca. Hoje fui à ferradoria somente por uma razão: fiquei com medo de você abandonar o emprego.

- A senhora não quer que eu saia da ferradoria?

- Não. Não quero. Quero que você continue trabalhando aqui. Mas peço para não me procurar mais... Quero que você me deixe em paz.

Rebeca se movimenta na cama, e Adriano observa que ela usa outra roupa em cima da camisola. "Ela está com outra veste sobre as peças íntimas. Também não trancou o ferrolho da janela. Estava me esperando. Agora, tenho certeza que gosta de mim. Deve estar lutando contra ela mesma." Com carinho, ele segura a mão dela e tente fazê-la levantar.

- Por favor, dona Rebeca... Levante-se - implora ele, descobrindo-a e puxando-a pelo braço.

Rebeca fica de pé entre a cama e o toucador. O robe de seda adorna os contornos de seu belo corpo. Adriano a toma nos braços e procura seus lábios. Ela lembra-se do conselho da amiga Carlota e não oferece resistência. Fica à mercê dele. Deixa-o abraçá-la e beijá-la com sofreguidão. Os lábios se separam e eles olham-se mutuamente. Adriano afasta-se um pouco, ofegante, mas continua a contemplá-la. A sua voz deixa-a num estado hipnótico.

- A senhora é muito bela... Me fascina muito... Gostaria de ficar admirando-a o resto da minha vida... O seu corpo também é maravilhoso. É pena que esteja coberto com toda esta rouparia... Se a senhora deixasse ver seu corpo, prometo que a deixaria em paz como a senhora me pediu.

- Você parece um obcecado... Está fixado na minha nudez... Por que razão quer me ver nua?

Adriano pensa na conversa que teve com seu Venâncio. Rebeca sente sua hesitação e repete a pergunta.

- Eu a amo - sussurra ele.

- Não vou mostrar meu corpo para você... mesmo que quisesse, não tenho coragem. Tenho vergonha.

- Mas eu lhe dou coragem... Eu mesmo posso tirar suas roupas.

Rebeca continua dominada pela voz de Adriano.

- Essa conversa é uma loucura... Parece que estamos num hospício.

- Realmente, Dona Rebeca... A paixão é uma obsessão. É uma loucura.

- Não precisa me chamar de Dona Rebeca e nem de senhora... Pode me chamar de você.

Adriano sorri. Afasta-se e vai para o outro lado da alcova. Rebeca continua imóvel. Em pé, junto da cama, com os braços caídos. Ele apanha um candeeiro, acende-o e coloca-o em cima do toucador. Rebeca o observa, sem falar, nem se mexer. Parece hipnotizada. Adriano encontra outro lampião. Balança-o e procura alguma coisa na cômoda.

- O que você está procurando?

- Azeite... Este candeeiro está vazio... Preciso acendê-lo.

- Mas, para quê?... Você já acendeu um!

- Eu quero iluminar bastante o seu corpo.

- Você é louco mesmo. Se está pensando que vai tirar a minha roupa, pode desistir... você nunca me verá nua.

O rapaz pára em frente a ela. Rebeca sente que seus olhos penetram dentro dela. Sente uma sensação indescritível... não tem forças para sair do lugar. Adriano desvia o olhar e continua a procurar o azeite.

- Está no fundo da segunda gaveta - sussurra ela.

Ele abre a gaveta. Apanha o azeite e abastece o outro lampião. Acende-o e coloca-o sobre uma cadeira perto dela. Aproxima-se e a envolve em seus braços beijando-a novamente. Rebeca continua a não oferecer resistência. Com os olhos fixos nos dela, ele vai desabotoando seu robe. Ela acompanha com o olhar as mãos dele.

- Você é teimoso... Estou muito nervosa...

- Senhora... tente se controlar.

- Já disse que não precisa me chamar de senhora.

- Está bem... Mas isso não é importante... O importante é você tentar ficar tranqüila... Não esboce reação, por favor... Você não sabe como isso me faz bem... E a você também... Sentirá um prazer diferente, ao ver uma pessoa de outro sexo admirando sua intimidade. Se lhe falta coragem, experimente fechar seus olhos. Assim...

Adriano vai falando devagarinho, com sua voz melodiosa e seu hálito quente, bem próximo ao rosto de Rebeca. É uma cena extremamente sensual. Finalmente, ele retira o robe de Rebeca. Fixando-a com amor, tira-lhe também a camisola e toda sua roupa íntima. Afasta-se para ver aquela linda mulher, inteiramente nua... somente para ele, ali, diante dos seus olhos. Beijam-se apaixonadamente. Após momentos de amor, ele senta-se na cadeira e retira os sapatos e as polainas. Rebeca deita-se e cobre-se com o cobertor. Ele ri. Somente vestido com as roupas íntimas, Adriano aconchega-se da cama. Ajoelha-se no chão e a beija com carinho.

- Ainda está nervosa?

- Um pouco... Acho que estamos cometendo um grande erro... Isso não devia ter acontecido... é melhor você ir embora.

- Não, Rebeca... Agora, não podemos mais parar.

Ele puxa o cobertor e joga-o no chão, deixando o corpo de Rebeca exposto. Ela tenta reagir, mas o rapaz a domina. Então, ela se entrega totalmente. A luz dos candeeiros ilumina os dois em completo estado de luxúria. Lá fora, o luar clareia o casarão. Alguns bêbados vagam pelas ruas. Na porta da taberna, os últimos fregueses saem alegremente. A madrugada deixa as ruas desertas até quando o sol desponta no horizonte. Um foco de luz bate no rosto de Rebeca. Ela acorda bastante sonolenta. Observa Adriano dormindo profundamente, com as mãos enfiadas entre as pernas dela. Os dois nus e descobertos em cima da cama. Ela sorri e levanta-se. Apanha o cobertor no chão e cobre o rapaz.

Rebeca procura vestir sua melhor roupa e se arruma sentada diante do espelho do toucador. Sai do aposento e desce as escadas. Pensa em levar café para Adriano, mas não sabe como fazer, pois Bastiana já está na cozinha preparando o desjejum. "Ela ficaria desconfiada se eu levasse uma bandeja com alimentos para o sobrado, pois sabe que o Venâncio está viajando." - pensa Rebeca. Ao chegar à cozinha, encontra Tomás ajudando a mãe. Bastiana mexe com uma grande colher a panela com feijão.

- Bastiana!... O Tomás está ajudado você a preparar o almoço! O que houve?

- É que não estou me sentindo bem. Devo estar doente. Por isso pedi ao Tomás para me ajudar.

- Eu também tive insônia esta noite. Só consegui pegar no sono tarde da noite.

- A sinhá parece mesmo que não dormiu bem... Mas os olhos da sinhá estão brilhando!... Cheios de felicidade.

- Tu achas, Bastiana?... Achas que estou transmitindo felicidade?

- Sim, sinhá.

Rebeca fica feliz com a observação da escrava.

- O almoço está quase pronto - informa Bastiana. - Vim cedo para a cozinha e a ajuda do Tomás adiantou muito.

Rebeca sente-se aliviada ao surgir uma oportunidade de ficar a sós com Adriano no casarão.

- Podes deixar, Bastiana... Eu arrumarei a cozinha e prepararei o meu café... Tu podes voltar para a senzala e descansar.

A escrava Bastiana termina rapidamente de fazer o almoço e sai com Tomás. Rebeca fica serena e apronta o café. Ao regressar à sua alcova, vê que Adriano ainda dorme. Coloca a bandeja em cima da cômoda e começa a acordá-lo, acariciando-lhe o rosto. Adriano abre os olhos.

- Estou sonhando ou é mesmo você que está aqui, diante de mim? - interroga ele.

- Não é um sonho... Tudo que aconteceu durante a noite foi realidade - intervém ela.

Adriano tenta beijá-la, mas Rebeca se afasta.

- Você tem poderes paranormais? - inquire ela.

- Por que você pergunta isso?

- É que ontem sua voz e seus olhos emitiram um domínio do qual eu não tive forças para reagir. Foi como se estivesse hipnotizada.

- Um velho da Vila Rica, que foi meu professor, também me falou que tenho poderes paranormais. Ele era espírita e disse que na outra encarnação eu fui um asceta.

- Asceta?... O que é isso, Adriano?

- Os ascetas são pessoas que controlam o corpo, através da meditação religiosa e exercícios espirituais... Mas nunca procurei desenvolver esse poder... Nem tenho certeza se na verdade eu o possuo.

- Eu tenho, Adriano... Não há dúvida de que ontem uma grande força transmitida por você me dominou completamente.

- Então, você está arrependida por ter deixado ser possuída por mim?

Rebeca dá um sorriso acanhado. Fica com vergonha, mas resolve encarar o rapaz.

- Não, meu amor, não estou arrependida. Estou muito feliz pelo que aconteceu.

Adriano segura seu rosto e a beija. Rebeca desvencilha-se rindo muito.

- Agora, não é hora disso... Trouxe o desjejum para você. Está ali na cômoda.

Adriano sai debaixo do cobertor e deixa sua nudez aparecer. Rebeca fala com energia.

- Antes de tomar café, vá se vestir. Onde já se viu um homem comer nu... E não se esqueça, você está diante de uma senhora.

Adriano fica surpreso ao ver Rebeca bastante descontraída e sorridente. Veste-se rápido e toma o café com biscoitos. Por um instante, lembra-se do compromisso com o Gustavo. Inventa uma desculpa para sair apressado. Eles descem a escada e chegam ao vestíbulo. Rebeca estende-lhe a mão para se despedir. Adriano a puxa com violência pela cintura, enlaçando-a em seus braços e a beija longamente.

- Posso logo mais invadir novamente sua alcova? - diz ele ao deixá-la livre.

- Não.

Adriano faz cara feia, mas ela acaricia-lhe o rosto com os dedos.

- Pode vir sim. Mas me chame aqui na porta da frente. Estarei lhe esperando. Só quero que você, antes de bater na porta, veja se não há ninguém o observando.

O rapaz diz que sim e sai. Logo que chega à rua, caminha apressadamente e, em pouco tempo, alcança a Rua do Lavradio. Em frente ao palacete do seu Ricardo, seu coração bate forte ante a possibilidade de ver Lavínia Cristina. Toca a sineta e espera ansiosamente. O mordomo atende. Adriano se apresenta e explica o motivo da visita.

- Ah! Sim, meu jovem... O senhor Gustavo me falou que estava lhe esperando... Por favor, pode entrar. Ele está terminando o seu desjejum. Você pode ficar à vontade.

Adriano agradece com a cabeça. Fica deslumbrado com o grande átrio da residência, ornamentado com esculturas, pinturas no teto e quadros à óleo nas paredes. Examina com atenção as obras de arte. Um bonito relógio, cujo mostrador está incrustado numa rica peça de porcelana francesa, alerta-o que já são mais de oito horas. Caminha até as escadas, no final do enorme vestíbulo, curioso pela quantidade de luz solar. Olha para o alto e vê uma clarabóia de grande dimensão. À sua esquerda, através de uma pequena entrada, nota que um pintor trabalha uma tela sobre um cavalete.

Ele aproxima-se e pára bem perto da porta e cumprimenta o artista. Levanta a cabeça e vê o rosto de Lavínia Cristina pintado no quadro. Ele fica emocionado e entra no recinto. Lavínia está posando sentada num sofá de jacarandá e assusta-se ao ver Adriano aparecer na sala. Seus cabelos louros caídos para a frente, contrasta com os olhos azuis e o vestido da mesma cor. O rapaz se coloca atrás do pintor e se impressiona com a figura da amada na pintura. Lavínia levanta-se mal-humorada e sai da sala sem olhar para Adriano.

- Peço desculpa por interromper seu trabalho - fala Adriano para o pintor.

- Não há problema, rapaz. Já estava por acabar o serviço por hoje. A pintura está quase pronta, só faltam alguns retoques.

Adriano admira a fidelidade da tela.

- O senhor está de parabéns... Soube reproduzir com perfeição a Lavínia.

- Obrigado... Mas a modelo ajuda. A senhorinha é uma das mais belas cortesãs do império.

Adriano retorna ao átrio no exato instante que Gustavo desce a escada sorridente.

- Foi bom você chegar. Estava pensando em você. Vamos ao Morro do Castelo. Estou ansioso por encontrar o Macário Coxo.

Os dois saem e seguem pela Rua do Lavradio em direção à Rua Matacavalos.

- Gostei das obras de arte no átrio da sua casa.

- O meu pai tem mania de nobre. Quando vai à Europa, traz muitos quadros de pintores famosos. O sonho dele é receber algum dia um título de nobreza das mãos do imperador. Ultimamente, vem se reunindo com um grupo que procura descobrir conspiradores. Tudo isso para ganhar prestígio e se tornar um barão.

- O seu Cristóvão também faz parte desse grupo.

- Acho que sim. Ele tem ido muito à minha casa... O papai quer galgar toda a hierarquia nobiliárquica: barão, visconde, conde, marquês, duque e arquiduque.

Gustavo sorri gesticulando com a cabeça. Adriano também acha graça da ambição do seu Ricardo. Mas fica preocupado, pois lembra-se que seu Gaspar o alertou que o seu Cristóvão havia dito que ele era um conspirador. Eles chegam à Rua dos Arcos, passam pelo grande aqueduto e seguem pela Rua dos Barbonos até o Largo da Mãe do Bispo. Param um pouco, antes de iniciar a subida da Ladeira do Seminário rumo ao Morro do Castelo. Ao chegar em frente a casa do Macário, admiram a paisagem.

- Lá está o Morro de Santo Antônio. Minha casa fica atrás dele - brada Gustavo.

- A cidade é muito bela daqui... Mas vamos chamar o Macário.

Adriano bate palmas e logo aparece um velho aleijado. Adriano finge conhecê-lo.

- Seu Macário... Como vai o senhor?

- Que desejam. Não os conheço.

- O senhor não é o seu Macário, que foi da polícia da Vila Real da Praia Grande?

- Isso já foi há muito tempo... O que vocês querem?

- Informações, seu Macário... Informações - continua Adriano.

- Digam logo o que querem!

- O senhor recorda-se de um crime na Praia Grande? Um tal de Fulgêncio foi morto. Depois, a polícia assassinou seus supostos matadores: o seu Honório e o seu Tibúrcio... Lembra-se?

- Sim... Não esqueci esse caso. A polícia foi obrigada a matá-los, pois eles reagiram à prisão... Por que vocês querem saber de um fato tão distante?

- Desejamos a verdade! Sabemos que o seu Honório e o seu Tibúrcio não mataram o Fulgêncio.

- Procurem os autos do processo, que estão arquivados no tribunal.

- Os autos mentem. O nosso intuito é saber com o senhor, seu Macário, quem na verdade matou o Fulgêncio.

- Eu só sei o que está escrito nos autos... Quem é você?

- Sou filho do seu Honório e neto do seu Tibúrcio... Preciso que o senhor me ajude... Meu pai e meu avô não assassinaram ninguém... diga a verdade, por favor.

- Não sei de nada... Não estava na Vila Real da Praia Grande naquele dia... era a minha folga. Estou sendo franco com você... Os seus parentes são os culpados. Não me envolva nisso... Eu não sei de nada.

O velho retira-se nervosamente para o interior da casa, falando coisas sem nexo. Adriano tenta pular o muro, mas é impedido por Gustavo.

- Vamos embora, Adriano. Tem muitos vizinhos olhando pelas janelas.

Enquanto eles descem a ladeira, Adriano mostra-se muito irritado.

- Você notou como o velho ficou nervoso?

- Notei , Adriano. Mas acho que não deve voltar a procurá-lo.

- Por que razão?

- Não vai adiantar. O velho não vai falar nada. Talvez ele não saiba o que você procura. Outra coisa: os vizinhos em posições agressivas. É bom você não retornar aqui por um bom tempo.

- Talvez você tenha razão... Talvez eu deva ir novamente à Vila Real da Praia Grande... Começar tudo de novo.

Eles continuam o caminho de regresso. Adriano separa-se de Gustavo na Rua do Lavradio e segue para seu quarto no Largo do Capim, onde permanece durante toda a tarde. À noite, sai para o encontro com Rebeca. A Rua da Misericórdia está deserta. Ele aproveita para bater na porta do casarão. Rebeca o manda entrar. Adriano fica deslumbrado ao vê-la vestida elegantemente. Faz menção de carregá-la para a escada, mas ela o obriga a entrar na sala de leitura.

- Antes de subirmos, quero conversar com você... Vamos sentar. Conte a sua vida. Quero saber quem você é.

- Para que, Rebeca?

- Você falou que me ama... Não foi?

- Sim.

- Eu tenho o direito de saber tudo sobre a pessoa que me ama!

Adriano sorri. Os dois sentam-se, um defronte do outro. O rapaz narra toda a sua aventura, desde o encontro com Aleixo e o Major Varela em São Paulo, até o episódio do Morro do Castelo. Fala da ânsia incontida de procurar reabilitar a memória do pai. Diz também sentir saudades da mãe e das irmãs, que estão na Vila Rica.

- Como é o nome da sua mãe?

- Angélica.

- E das suas irmãs?

- A mais velha chama-se Henriqueta, e a mais nova, Verônica. Elas são casadas.

- E você?... Não casou?

- Eu não posso casar.

- Não pode?... Por quê?

- Porque a mulher que eu amo já é casada.

Rebeca sorri. Adriano levanta-se e a beija na boca. Abraça-a e faz ela cair da cadeira.

- Você quase me machucou... Vai amarrotar meu vestido.

Adriano não fala nada, mas impede que ela se erga. Os dois ficam sentados no assoalho. Rebeca não ralha e nem reage, quando ele começa a tirar sua roupa. Fica outra vez completamente nua e se entrega no chão da saleta. Fazem amor e acabam dormindo agarrados. Horas depois, ela levanta-se muito agitada.

- Você precisa ir, Adriano. Amanhã o Venâncio chegará de viagem. Vamos nos vestir.

Eles apanham suas roupas espalhadas pelo chão. Em minutos, estão novamente vestidos. Adriano olha sério para Rebeca.

- E o futuro! - exclama ele.

- Que futuro?

- O nosso futuro!

- É melhor acabar tudo esta noite. Sou casada, Adriano. Gosto do meu marido. Não está certo o que estamos fazendo.

- Acabar tudo para mim é sofrer... Eu não quero sofrer... Não podemos nos encontrar outras vezes?

- Não, não podemos.

- Eu sei que você também me ama. Ou será imaginação minha?

Rebeca vira as costas para esconder as lágrimas. Adriano não interfere, permite que ela desabafe e mantém-se distante. Ela enxuga os olhos com o próprio vestido e dirige-se para o vestíbulo.

- Vamos, Adriano. Você precisa ir embora.

Os dois caminham mudos para a porta da frente da casa. Rebeca volta a chorar, e Adriano abraça-a comprimindo seu corpo contra o dela. Os lábios se unem novamente. Ela consegue se livrar e fica de costas num canto do vestíbulo.

- Eu o amo, Adriano... Mas também gosto do meu marido. Você pode não acreditar, mas gosto de vocês dois.

Adriano pensa no seu amor por Lavínia e Rebeca.

- Eu creio sim - diz ele. - Sei que é possível se amar duas pessoas. Só acho que você não deve se afastar de mim... Será muito pior. Você irá sofrer muito.

Rebeca fica de frente e anda de uma lado para outro.

- Tem razão... Não vou fugir de você... O Venâncio freqüenta uma entidade religiosa às terças-feiras. Poderemos nos encontrar nesses dias.

Adriano pula de alegria e abraça Rebeca.

- Aonde seria nosso encontro? - pergunta ele.

- Aqui mesmo - responde ela.

Durante todo o mês, eles se vêem nos dias de reuniões do seu Venâncio. Adriano pensa que, além de Rebeca, só ele e Aleixo sabem desses encontros clandestinos. Rebeca está convencida que, além de Adriano, só ela e Carlota têm conhecimento da existência do seu amante. Na última terça-feira do mês, a tarde está muito calma na ferradoria, sem muito serviço a fazer. Adriano aproveita para exercitar Branquinho no fundo do quintal. De longe, escuta vozes estranhas vindas da oficina. Fica curioso, chama Tomás e pergunta quem chegou.

- É um fazendeiro com a filha que estão conversando com o sinhô Venâncio - esclarece o pequeno escravo.

Adriano desmonta do cavalo, e Tomás continua a falar.

- Eles trouxeram uma égua machucada, sinhozinho. Eu tenho medo daquela égua... ela já esteve aqui. É muito feroz, sinhozinho. Não deixa ninguém montar.

Adriano pensa na Centelha. "Será que é seu Ricardo e Lavínia que chegaram?" Coloca Branquinho na cavalariça e anda ligeiro em direção à oficina. Com o corpo escondido, encosta o olho no buraco da madeira e vê tudo o que se passa no interior. Seu Venâncio examina a pata dianteira da Centelha, enquanto seu Ricardo e Lavínia seguram a égua. Ele fica espreitando a moça. Não tem coragem de aparecer com os trajes de trabalho.

- Não é grave - afirma seu Venâncio. - A égua está com uma pequena torção na pata. Podes deixá-la aqui. Com bom tratamento, ficará recuperada.

- Ela veio junto com a manada desde Maxambomba. Deve ter se ferido no caminho. A Centelha irá disputar o prêmio de beleza do rodeio que haverá nas Laranjeiras no final do próximo mês... Se ficar boa a tempo, tenho certeza que ganhará - explica seu Ricardo.

- Ela vai se recuperar antes do dia do rodeio - comunica seu Venâncio.

- Para mim, o importante é a Centelha melhorar!... Gosto muito desta égua! - explica Lavínia.

Adriano respira fundo. É a primeira vez que ouve a voz de Lavínia. Fica impressionado pelo tom meigo de falar. Tomás passa, e Adriano faz sinal para ele ficar quieto sobre sua presença ali escondido. Pouco depois, seu Ricardo e Lavínia se retiram. Seu Venâncio acautela-se com o animal.

- Esta égua engana muito - pondera ele, chamando alguns empregados. - Vamos amarrá-la para eu fazer os curativos.

Centelha é levada para um cercado de areia macia. Quatro homens a seguram para Clemente João e Tomás colocarem o pé-de-amigo e o cachimbo. Mesmo presa na peia, a potranca se agita, mas o pé-de-amigo a faz cair. Fica imóvel e estirada na areia. Seu Venâncio e Adriano acompanham a cena debruçados na cerca.

- Agora, podemos tratar da sua pata - declara seu Venâncio.

O dono da ferradoria faz o curativo e amarra panos na perna da égua. Após medicada, enquanto os empregados a livram das cordas, seu Venâncio respira aliviado.

- Por hoje é só... Mas teremos que repetir isso diariamente até a égua ficar boa.

Adriano permanece calado e não diz que ela o derrubou na fazenda do seu Ricardo. Seu Venâncio faz uma recomendação a Tomás.

- Tu deves dar bastante comida ao animal e não a deixes perto dos outros cavalos.

Tomás puxa Centelha pela rédea em direção à cocheira. Adriano o acompanha e acaricia a égua.

Eu tomarei conta dela. Eu mesmo lhe darei comida e tratarei da sua limpeza - anuncia Adriano para Tomás.

O escravo fica contente, pois não esconde o medo que tem da égua. À noite, Adriano vai à casa do Aleixo e conta a novidade. Diz que quer ganhar a estima da égua, para que ela o deixe montá-la.

- Você é teimoso mesmo... nunca vai conseguir. A Centelha é muito brava.

- Se a Lavínia monta, por que eu não?

- A senhorinha Lavínia Cristina criou a égua... É melhor você desistir dessa sua fixação... Vai acabar se machucando.

- Eu acho que vou conseguir.

Aleixo procura mudar de assunto.

- Você vai à taberna? Estou de saída para lá.

- Não, Aleixo... Hoje é dia do meu encontro com Rebeca. O Seu Venâncio já foi para a sua reunião. Ela está me esperando.

Eles se despedem. Adriano segue para a Rua da Misericórdia; Aleixo para a Rua da Direita. Ao entrar na taberna, Aleixo fica espantado ao ver seu Venâncio junto ao balcão conversando com seu Abílio. Sua surpresa é grande, pois poucas vezes o viu no estabelecimento. Muito curioso, aproxima-se do dono da ferradoria.

- Você por aqui?!... O que aconteceu?

- Resolvi passar na taberna, antes de voltar para casa. Há muito tempo que não converso com o Abílio.

Aleixo fica assustado, porque Adriano já deve estar com Rebeca e não sabe que o marido está prestes a chegar em casa. Procura distrair seu Venâncio e prendê-lo na taberna. Chama Firmino e pede duas canecas de vinho.

- Eu não vou beber. Estou de saída - retruca seu Venâncio.

- Só uma caneca... Para comemorar sua presença aqui - intervém Aleixo.

Seu Venâncio aceita o convite do alferes.

- Mas só uma caneca!... Hoje não houve uma reunião da seita que pertenço. Um parente do presidente faleceu, e a reunião foi cancelada.

Aleixo compreende agora o porquê da presença do seu Venâncio na taberna. Puxa assunto com ele, evitando que saia do recinto. Após a primeira caneca de vinho, seu Venâncio aceita mais uma. Aleixo consegue segurá-lo por mais de meia hora.

- Agora tenho que ir... A Rebeca ficará surpresa e gostará muito de me ver chegar tão cedo.

Seu Venâncio sai apressadamente. No sobrado, Adriano e Rebeca conversam nus em cima da cama.

- Adriano! Estou com um pressentimento. É melhor você se vestir e ir embora.

- Deixa eu ficar mais um pouco... Chega mais perto de mim.

Adriano a beija, faz carinhos no seu corpo e ela esquece sua preocupação. Minutos depois, Rebeca pula da cama ao escutar um barulho no andar de baixo. Caminha completamente nua até a porta do quarto e regressa apavorada.

- Meu Deus do céu!... O Venâncio está subindo a escada.

Adriano dá um salto e olha para a janela. Rebeca sussurra.

- Não há tempo para pular a janela. Vai para debaixo da cama.

O rapaz joga-se no chão, enquanto a Rebeca esconde as roupas deles. Pega um cobertor e se cobre no exato momento que o marido abre a porta da alcova. Ele estranha a claridade do quarto. Ela finge sentir dor.

- Acendi os candeeiros, porque não estou me sentindo bem ... Uma dor de cabeça horrível! Sinto muito frio. Por isso estou coberta.

- Mas tu estavas tão bem quando eu saí!

- Não sei o que é... Minha cabeça está dolorida. Por favor, Venâncio... Vá à cozinha e faça um chá com umas ervas que estão no armário.

Debaixo da cama, Adriano vê as pernas do seu Venâncio se moverem até a porta. Depois, ouve o barulho dos seus pés na escada. Rebeca sai da cama muito agitada.

- Depressa, Adriano... Pule a janela.

- Vou me vestir primeiro.

- Não dá tempo... O Venâncio pode voltar rápido. É melhor você se vestir no quintal.

Rebeca apanha as roupas e os sapatos do rapaz e o empurra em direção à janela. Adriano fica constrangido, mas resolve acatar sua amada e desce completamente nu pela trepadeira. Muito nervosa, Rebeca atira todas as vestes dele pela janela. Assustado e olhando para os lados, ele se veste escondido atrás de uma árvore. Fica na espreita perto da janela da cozinha. Só sai do lugar quando tem certeza que seu Venâncio subiu. Com o máximo cuidado para não acordar o feitor e os escravos, avança pela ferradoria. Abre a porteira e sai tranqüilo pela Rua da Misericórdia. De repente, escuta alguém pronunciar seu nome. Vira-se e descobre Aleixo na penumbra.

- Estava muito preocupado. Tentei segurar o Venâncio na taberna, mas ele acabou saindo. Vim até aqui... Não sabia como agir. O silêncio no casarão me assustou.

Adriano conta todo o drama que passou no quarto com Rebeca. Aleixo fala sobre o encontro com seu Venâncio na taberna. Aos poucos, eles se descontraem e acabam rindo da aventura. No dia seguinte, na ferradoria, Adriano cuida da Centelha. Tomás assiste muito espantado.

- Que cara é essa, Tomás... Tu nunca viste alguém alimentar uma égua?

- Deste modo, não... Nunca vi ninguém dando comida na boca de um cavalo. Por isso, ela relincha quando vê o sinhozinho. Esta égua está gostando do sinhozinho.

- E vai gostar muito mais, Tomás... Muito mais.

- Ah! Quase ia me esquecendo. Vim aqui avisar que o sinhô Venâncio quer falar com o sinhozinho.

- Irei já... Assim que acabar de alimentar a Centelha.

"O que será que ele quer comigo?" - pensa ainda muito assustado pelo acontecido na véspera. Ao terminar de dar comida à égua, Adriano enrola seu braço em torno do pescoço do animal e beija sua cabeça. Depois, pede ao escravo para levá-la à cocheira. Segue pensativo para o escritório. Seu Venâncio o recebe festivamente.

- Oh! meu ilustre rapaz... Sentas aqui perto. Quero conversar seriamente... É sobre Rebeca.

Adriano olha bastante apreensivo para o patrão.

- Durante o café da manhã, eu e minha esposa conversamos sobre sua pessoa.

Adriano sente-se mal. Mas fica calado, evitando demonstrar insegurança. Seu Venâncio continua a falar.

- A Rebeca reclamou dos cocheiros. Ela disse que, quando vai à casa da amiga Carlota, eles não evitam os buracos do Caminho de São Cristóvão e a carruagem sacoleja muito. Ontem, à noite, ela passou mal, sentindo fortes dores. Disse que foi por causa de uma batida com a cabeça dentro da sege. Hoje, nós chegamos à conclusão que tu deves ser um excelente cocheiro... Afinal, tu sabes fazer de tudo.

Adriano fica perplexo. Seu Venâncio nota seu espanto e pensa que ele não gostou da idéia de ser cocheiro.

- Eu sei que é exigir muito. Tu trabalhas aqui como ferrador... Aliás, um ótimo ferrador... o melhor da corte. Mas peço que me faças o favor de levar a Rebeca à casa da Carlota. O seu sacrifício só será uma vez por semana... Quando ela sair para perto, irá com o cocheiro... Mas para visitar a Carlota, peço para tu conduzires a carruagem.

Adriano é invadido por uma imensa felicidade. Porém, procura manter o equilíbrio diante do seu Venâncio.

- Pode ficar descansado. Vou dirigir a carruagem de tal modo que a Dona Rebeca se sentirá nas nuvens.

- Obrigado, Adriano! Eu sabia que tu aceitarias. Tu és um rapaz muito prestativo.

Adriano retira-se muito contente. Começa a viver a expectativa de levar Rebeca à casa da amiga. Passam-se três dias e chega o momento tão esperado. Tomás avisa que a sege está pronta em frente ao casarão. Adriano sobe no veículo e espera Rebeca. Ela entra na sege e fecha a cortina, isolando a parte de trás da boléia do cocheiro. O rapaz amarra a cara por causa do gesto da amante. Quando a pequena carruagem passa dos limites da cidade, um pouco além do Campo de Sant’Anna, ele descerra a cortina. O rosto da Rebeca surge diante dele.

- Por que a fechou? - pergunta ele.

- Porque sempre faço isso... Você acha que pelas ruas da cidade deixaria a cortina aberta?

- Quero saber quando vamos nos encontrar? Se poderei ir na próxima terça-feira à sua casa.

- Não... Lá em casa não. Nunca mais.

- Então, aonde?

- Em lugar nenhum. Uma vez por semana você me levará à casa da Carlota. Nós poderemos conversar no caminho. Só isso.

- Só isso?

- Sim.

Adriano faz cara feia. Agita o pingalim no animal, e a sege ganha velocidade na vereda. Eles atravessam os sobrados do Caminho de São Cristóvão, e chegam ao destino. Rebeca apresenta o amante à amiga. Pouco depois, Adriano descobre o plano armado por ela. O solar da Carlota é na parte da frente de um grande terreno. Nos fundos, há uma pequena construção, que serve de casa de hóspedes. Rebeca o leva para lá, e os dois se amam. O lugar passa a ser o local de encontro deles. A vida, porém, continua na ferradoria. Quase no final de mais um mês, ao chegar para trabalhar, Adriano ouve o pequeno Tomás. O escravo diz que seu Venâncio o mandou levar a égua Centelha para a residência do seu Ricardo.

- O sinhô Venâncio disse que ela já está boa. Vou ter que jogar o laço no pescoço para colocá-la na carroça.

- Não precisa da carroça, Tomás... Eu vou levá-la para a casa do seu Ricardo.

- Mas tenho que amarrar o pescoço da égua, para o sinhozinho puxá-la pelas ruas.

- Não vou puxá-la... vou montá-la. E não precisa da corda... eu me seguro na crina. Não precisa amarrá-la, nem pôr a sela.

- Mas ela vai derrubar o sinhozinho!

- Já me atirou no chão uma vez. Agora, está mais amiga. Tenho que tentar... é muito importante para mim.

Adriano vai à baia com a mão cheia de comida. Faz carinho em Centelha e a leva ao terreno. Clemente João e os empregados, ao saberem que ele pretende montar a égua brava, chegam à porta do oficina. Ficam observando o rapaz junto ao animal. Tomás afasta-se assustado. Adriano dá um salto e monta Centelha. A égua leva um susto, começa a empinar e relinchar, tentando derrubá-lo. O jovem agarra-se à crina e aperta as pernas na barriga do animal. Leva a mão com a comida até as narinas da Centelha. Ela pára de empinar e fica imóvel. Sem sair do seu dorso, ele estende a mão para que ela possa comer, acariciando com a outra mão a sua cabeça. Depois, com as duas mãos livres, envolve o pescoço do eqüino e dá triunfante diversas voltas no terreno.

Diante do assombro de todos, Adriano pára perto da porta da oficina e pula no chão. Fala com o feitor que ele próprio levará Centelha à casa do seu Ricardo. Clemente João dá seu consentimento com a cabeça. O rapaz monta novamente a potranca, que fica impassível, parecendo uma égua bem mansa. Adriano sai trotando da ferradoria e segue para a Rua do Lavradio. Ao chegar em frente à residência da Lavínia Cristina, grita do meio da rua que veio trazer Centelha. Lavínia aparece na janela do segundo andar e fica espantada ao vê-lo montado a sua égua.

- O seu Venâncio mandou trazê-la. A Centelha está completamente curada, pronta para participar do rodeiro... Não tem mais nada na perna - brada ele, bastante contente por ela presenciar ele montado na égua.

Lavínia, bastante atônita, faz sinal para ele esperar. Minutos depois, um velho escravo aparece no portão lateral do palacete com uma corda na mão. Aproxima-se também muito assustado por ver um estranho montado na égua brava. Um barulho na entrada principal da casa, faz Adriano voltar-se. Ele fica paralisado ao ver surgir Lavínia. A jovem manda o escravo levar Centelha para a cocheira. Com um olhar meigo, ela sorri para Adriano e agradece por ele ter trazido a sua égua. Ele fica feliz pela atenção da moça. Após Centelha ser laçada pelo escravo, Lavínia dá outro sorriso e retira-se. Adriano, radiante, retorna a pé para a ferradoria. Ao longe, ainda na Rua do Lavradio, olha para trás e nota que ela o observa da janela. O rapaz tenta acenar-lhe, mas a moça afasta-se para o interior da casa. À noite, Adriano encontra-se com Aleixo e conta tudo ao amigo.

- Estou muito contente, Aleixo... Você nem imagina como aquele sorriso da Lavínia mexeu comigo.

- Você obtém as coisas por causa da sua irresistível perseverança. Agora, não tenho mais dúvidas que você conseguirá reabilitar a memória do seu pai e de seu avô.

 

Capítulo 5

 

O tempo passa na capital do Império. Após o dia inteiro de chuva, ha uma melhora no início da noite. Da janela do seu quarto, Adriano perscruta o céu. A visão de muitas estrelas cintilando entre as nuvens o anima a sair. Por precaução, veste o balandrau em cima da roupa. Logo depois, encontra-se com Aleixo, Samuel e Dr. Joaquim Antônio na taberna do seu Abílio. Depois de uma reunião com os amigos por mais de duas horas, Adriano e Aleixo resolvem ir embora. Caminhando pela Rua Detrás do Carmo, eles falam sobre Lavínia.

- Hoje, antes da chuva, estive na casa do Gustavo e encontrei a senhoria Lavínia Cristina. Ela me tratou de um modo muito especial e procurou me agradar. Tenho certeza que ela está se aproximando de mim por causa de você.

Adriano olha sério para o amigo.

- Por que você diz isso? - indaga ele.

- Ela sabe que sou seu amigo mais achegado. Notei que a senhorinha mudou muito... é por causa de você.

Adriano sorri e lembra-se do irmão da moça.

- O Gustavo não apareceu hoje na taberna... O que houve com ele?

- Saiu com o Hugo César. Eles foram ver uma rapariga no Andaraí.

Os dois separam-se. Adriano dobra a Rua do Ouvidor. O céu nublado faz a cidade ficar mais escura. Ele tem um pressentimento de que está sendo seguido. Pára e olha para trás. Não vê ninguém. Continua a andar. No Largo de São Francisco, prepara-se para entrar na Rua do Fogo, quando ouve uma voz pronunciar seu nome. Vira-se em direção à igreja. Vê um homem alto, com chapéu de grandes abas caindo na testa. Adriano fita os olhos para reconhecer o estranho, mas não consegue por causa da escuridão.

- Quem está aí? - pergunta ele muito nervoso.

- Você não me conhece, mas pode me considerar um amigo. Quero ajudá-lo. Sei que você procura saber sobre a morte do seu pai e do seu avô.

- Sim!... você sabe alguma coisa?

- Eu não... Mas conheço uma pessoa que sabe.

- Quem é?... Por favor, diga-me onde poderei encontrá-la.

- Posso levar você agora na presença dela... é uma mulher. Ela mora perto do Campo de Sant’Anna... Eu levarei você até lá.

Adriano sente medo. Já é muito tarde, e as ruas estão escuras e desertas. "É muito perigoso seguir este desconhecido. Ele não parece confiável, pois está escondendo seu rosto. Mas não posso perder esta oportunidade. Pode ser que esteja falando verdade." Adriano aproxima-se do homem. O estranho abaixa a aba do chapéu.

- Qual é o endereço da mulher? Amanhã cedo irei à casa dela.

- Tem que ser hoje. Amanhã ela partirá para longe daqui. Por isso está com coragem de contar a verdade para você... Não tenha medo. Venha comigo.

- Mas, quem é você?

- Eu sou o filho dessa mulher... Minha mãe acha que você está certo em querer reabilitar a memória do seu pai. Ela quer ajudá-lo.

Adriano olha para o prédio da Escola Militar. Pensa em chamar um soldado, a fim de se livrar daquele homem. Mas prefere correr o risco. Os dois caminham rumo ao Largo do Rócio. À medida que se afastam da Escola Militar, Adriano sente-se inseguro e pensa em desistir de acompanhar o estranho. Mas continua a segui-lo. Atravessam o Largo do Rócio, a Rua dos Ciganos e o Campo de Sant’Anna. No Caminho Novo, Adriano pára. Mantém-se um pouco distante do desconhecido.

- Você disse que sua mãe mora no Campo de Sant’Anna... Já passamos por lá... Não vou acompanhá-lo mais. Regressarei daqui.

- Você nunca mais voltará. Você caiu numa armadilha.

Adriano, sem virar-lhe as costas, procura distanciar-se dele. Pensa em correr até o Campo de Sant’Anna ou gritar por socorro. Mas a rua está deserta.

- Não se aproxime de mim - alerta Adriano, ao mesmo tempo em que enfia a mão no bolso do balandrau, para iludi-lo de que está armado. O ferrador continua a recuar, enquanto o desconhecido pára e dá uma gargalhada. De repente, Adriano recebe uma forte pancada no pescoço. Cai no chão e vê-se cercado por mais três homens. Tenta se levantar, mas leva um chute e rodopia no ar. Olha atemorizado para seus agressores, todos com os rostos tapados com pedaços de panos.

- Você tem que aprender a esquecer o passado - berra um deles, chutando-lhe a barriga.

- Some daqui, seu demônio! Volte para Vila Rica - diz outro, socando seu ouvido.

- Vamos espancá-lo e jogá-lo na Lagoa da Sentinela - brada o homem alto que o trouxe para a armadilha.

Adriano tenta levantar os braços para se defender, mas os quatro o agridem com os pés e as mãos. Sente o sangue escorrer pela rosto e a visão desaparecer. Nisso, uma carruagem surge ao longe. Os agressores param de massacrar o pobre do Adriano. Ao ver alguém caído no chão, Hugo César chicoteia os cavalos para a carruagem chegar ao local mais depressa, enquanto Gustavo saca sua arma e dispara para o alto. Os malfeitores correm em direção ao Campo de Sant’Anna. O veículo pára junto ao corpo inerte na calçada. Gustavo desce e leva tremendo susto. Grita completamente alucinado para Hugo César.

- Não é possível, Hugo César! Não é possível! É o Adriano... ele está muito ferido.

Hugo César também desce da carruagem.

- Que maldade... Que crueldade aqueles bandidos fizeram com o nosso amigo - fala Hugo César.

Eles colocam Adriano na carruagem.

- Vamos para a minha casa - ordena Gustavo. - De lá, você segue para apanhar o Dr. Joaquim Antônio.

Adriano é transportado para a casa do Gustavo. Seu Ricardo, Dona Veridiana e Lavínia acordam e ajudam Gustavo nos primeiros socorros. Logo depois, Hugo César chega com o Dr. Joaquim Antônio. O médico fica alarmado com o estado de Adriano. Com ajuda do Hugo César, Gustavo e seu Ricardo carregam o paciente para um dos quartos do palacete. Enquanto Dona Veridiana, Lavínia e a escrava Joaquina esquentam água e preparam as compressas que o doutor pediu. Gustavo e Hugo César deixam Adriano aos cuidados do médico e descem para apanhar a água fervida. Hugo César, muito comovido, fala com as mulheres sobre o acontecido.

- Eram quatro homens mascarados... Eu e o Gustavo ainda os vimos fugindo... Foi uma sorte a nossa passagem por ali, senão a esta hora o Adriano estaria morto.

Lavínia procura ficar atrás da velha escrava Joaquina, a fim de extravasar o choro. Gustavo e Hugo César se retiram com as compressas e a água fervida. Dona Veridiana, Lavínia e seu Ricardo vão para o salão e aguardam a volta do médico. Pouco depois, Dr. Joaquim Antônio aparece, acompanhado por Hugo César. Gustavo fica no quarto, próximo ao leito do Adriano.

- Ele está fora de perigo - explica o médico. - Mas seu estado requer cuidado especial. Seria recomendável ser transferido amanhã para a Santa Casa da Misericórdia.

- Mas ele não pode ficar aqui? - inquire Lavínia.

- No hospital é melhor, porque há enfermeiras para atendê-lo - retruca o Dr. Joaquim Antônio.

- Mas se meu pai contratar uma enfermeira? - indaga a moça.

- Assim, poderia ficar... Eu viria todos os dias para orientar a enfermeira sobre a medicação.

Lavínia olha para o pai. Seu Ricardo coloca a mão no ombro do Dr. Joaquim Antônio.

- Pode deixá-lo na minha casa... Nós trataremos dele melhor do que no hospital.

A moça fica contente com a decisão do pai. O Dr. Joaquim Antônio também mostra-se satisfeito.

- Eu virei vê-lo pelo menos duas vezes ao dia. Além de meu paciente, o Adriano é meu amigo... Um grande amigo.

No dia seguinte, Rebeca e seu Venâncio visitam Adriano. O rapaz continua em estado de sonolência e não toma conhecimento da visita. Rebeca sente-se mal ao ver os ferimentos no rosto dele e sai do quarto, acompanhada por dona Veridiana. Seu Venâncio tenta falar com ele, mas o rapaz não responde. Somente a partir do terceiro dia de tratamento, ele começa a ter noção do mundo exterior. Quer saber o que lhe aconteceu e pede detalhes à enfermeira que o assiste. Na parte da tarde, acorda por causa de um barulho e vê Lavínia Cristina entrar no aposento. Resolve fingir que está dormindo.

A moça passa tranqüilamente pelo rapaz. Vai até a janela e a abre para arejar o quarto. Ele continua com os olhos fechado, mas com os ouvidos atentos. Pressente quando ela se aproxima e senta bem junto dele. Lavínia examina as marcas no rosto de Adriano. Encurva um pouco o corpo para melhor ver o ferimento perto da orelha. Ele entreabre os olhos e nota que ela está bem próxima. Num grande esforço, levanta a cabeça e a beija na boca. A moça leva um susto e ergue-se rapidamente, derrubando a cadeira. Muito sem jeito e zonza, ela sai apressada do quarto e o deixa sozinho. Um pouco depois, Aleixo chega para visitá-lo.

- Vejo outra pessoa na minha frente. Bem diferente daquele moribundo. Sua recuperação tem sido fantástica.

- É o amor, Aleixo... O amor constrói.

- Ah! Entendo... Quando cheguei a madame Veridiana estava conversando com a senhorinha Lavínia Cristina... A senhorinha estava de saída para a casa da Ana Bárbara.

- Ela estava feliz? - interroga Adriano, pensando no beijo que deu na moça.

- Nunca vi a senhorinha tão radiante como estava hoje!

- Então, ela gostou.

- Gostou?

- Sim... Um pouco antes de você chegar, eu deu um beijo na Lavínia.

- O quê? Como foi?

Adriano conta tudo ao amigo.

- Ela saiu muito alegre. Na certa, vai falar para a senhorinha Ana Bárbara sobre o beijo... Mas eu tenho outra novidade da senhorinha Lavínia Cristina. Você vai gostar.

Adriano fica atento e pede para Aleixo falar mais perto do seu ouvido, pois está escutando com dificuldade.

- No dia seguinte à agressão, a madame Rebeca e o Venâncio estiveram aqui. Você estava dormindo.

- Eu soube... A Dona Veridiana me disse.

- A madame não deve ter contado toda a história. A madame Rebeca queria levar você para a casa dela. Pediu consentimento à Dona Veridiana e explicou que você é empregado da ferradoria. Por isso, ela e o Venâncio têm a obrigação de cuidar de você.

- A Rebeca disse isso na frente do seu Venâncio?

- Sim... Ela está muito preocupada com sua recuperação... Mas deixa eu terminar de falar... Sabe por que você não foi para a casa da madame Rebeca?

- Não.

- Foi por causa da senhorinha Lavínia Cristina.

- O quê?!

- A senhorinha quando soube do pedido da madame Rebeca discutiu muito com a mãe. Disse que não ficaria bem você sair daqui sem estar totalmente recuperado. Falou até na reputação da família. Afinal, ela convenceu a Dona Veridiana para você continuar aqui.

Adriano sorri.

- As duas queriam tratar de você, mas quem saiu vitoriosa foi a senhorinha Lavínia Cristina.

- A Rebeca desconfia sobre a intenção da Lavínia?

- Não, Adriano... Fui eu o incumbido de levar a decisão da família do seu Ricardo. Falei com o Venâncio perto da Rebeca. Eles pensam que foram o seu Ricardo e a Dona Veridiana que não queriam que você saísse daqui... A madame Rebeca não supõe que foi a senhorinha Lavínia Cristina que forçou a mãe a tomar tal resolução.

- Obrigado por tudo, Aleixo... Eu amo a Rebeca e não quero que ela saiba da minha pretensão de conquistar a Lavínia... Eu não posso viver sem as duas... é uma coisa de louco, mas é verdade.

- Mas um dia, Adriano... Um dia você terá que escolher uma das duas.

Adriano fica pensativo e muda de assunto. Narra ao amigo os detalhes da noite da agressão.

- Agora, tenho a certeza de que há algo errado por trás da morte do meu pai e do meu avô. Existe alguém muito poderoso querendo interromper as minhas investigações... Se o Gustavo e o Hugo César não chegassem naquele instante, eu estaria morto. Ouvi um deles falar que iriam atirar o meu corpo na Lagoa da Sentinela.

- Você tem razão, Adriano. Eles queriam silenciá-lo... Talvez, você, sem saber, esteja bem próximo de alguma pista que o levará à verdade.

- Será?

- Não tenho dúvida... Quando você ficar bom, não poderá andar na rua sozinho, principalmente tarde da noite.

- Eu vou comprar uma pistola... Não posso mais andar desarmado.

- Eu conheço um bom armeiro na Rua dos Ourives... O homem tem ótimas armas importadas, e vende barato.

O Dr. Joaquim Antônio surge na porta, e Aleixo levanta-se para cumprimentá-lo. O médico aproxima-se da cama.

- Como é, Adriano... Acabaram-se as dores? - pergunta ele.

- Sim... sumiram... Só estou ainda com uma pressão no ouvido direito... Uma zoeira... Não estou escutando bem.

O doutor examina o ouvido de Adriano.

- Você vai melhorar... Vou-lhe ensinar um exercício para você fazer diversas vezes por dia. É uma manobra de respiração. Preste atenção: feche bem a boca e puxe bastante o ar pelo nariz. A seguir, prenda as narinas com os dedos e, continuando com a boca fechada, faça um movimento como se fosse assoar o nariz. Feito isso, solte o ar pela boca.

Adriano faz o que o Dr. Joaquim Antônio mandou.

- Sentiu alguma coisa?

- Sim... Um estalo em cada ouvido.

- O estalo que você sentiu é o ar pressionando e descolando paredes do seu tímpano... Com o exercício o seu ouvido vai abrir e permitir uma melhor audição.

Enquanto o Dr. Joaquim Antônio sai do quarto para chamar a enfermeira, Adriano faz diversas vezes a manobra de respiração. O médico retorna e ajuda a enfermeira a preparar os medicamentos numa pequena mesa no canto do aposento. Depois, ele aproxima-se de Adriano.

- Como está se sentindo? Melhorou?

- Estou escutando bem melhor.

- Continua a fazer a manobra durante o dia. Quantas vezes você quiser.

- Estava preocupado... Pensei que iria ficar surdo. Já pensou que tristeza! As pessoas terem que escrever para eu entendê-las.

- É uma coisa horrível não ouvir - intervém Aleixo. - Mas pior é não ouvir e nem falar... Ser surdo e mudo.

- O surdo-mudo ainda pode se comunicar - replica Adriano, enquanto a enfermeira passa remédio em seus rosto. - A falta de visão é mais lúgubre. O cego fica distante de tudo em sua volta.

O Dr. Joaquim Antônio olha sério para os dois amigos.

- Mesmo com a perda da fala, da audição e da visão, o homem não se desliga. Ele continua a sentir o mundo exterior pelo olfato e pelo paladar. Se perder também esses dois sentidos, não ficará isolado, pois ainda existe o sentido do tato... O ser humano poderá não ouvir, nem falar, nem enxergar, nem cheirar e nem sentir gosto... mas, mesmo assim, saberá da presença e a forma das coisas por intermédio do tato... Apalpando e movimentando qualquer parte do corpo, tomará consciência do mundo que o rodeia.

Adriano e Aleixo ouvem com atenção as palavras do médico.

- Eu costumo chamar o tato de supersentido, por causa do conjunto de informações que ele fornece ao cérebro. A superfície do nosso corpo, ao manter contato com um objeto, coleta dados sobre a profundidade, força, pressão e temperatura desse objeto. A sensibilidade do tato é bem mais ampla do que visão, audição, olfato e paladar... E também do que a fala... A fala não é um sentido, mas sim uma faculdade do homem... com a voz, nós conseguimos transmitir nosso interior para o exterior. A fala, porém, não capta nada do exterior, pois a voz de outra pessoa entra no nosso corpo por intermédio de um órgão de sentido, que é a audição.

- Continuo achando a visão o sentido mais importante do homem - afirma Adriano. - Com os olhos nós podemos obter com extraordinária realidade as formas e dimensões externas.

- Concordo com você, Adriano. Mas o que pretendo dizer é que o sentido do tato é o único que o homem não perde totalmente. Um ser pode ficar cego, mudo, surdo e perder completamente o cheiro e o sabor das coisas, mas continuará a ter contato com o exterior por meio do poder do tato.

- Há possibilidade do homem perder por completo o sentido do tato e continuar vivo? - indaga Aleixo.

- Já disse que não... O ser humano pode perdê-lo parcialmente... Um braço, uma perna ou até a metade do corpo podem ficar insensíveis. A lepra, por exemplo, faz com que a parte atacada não tenha sensibilidade, embora continue com os movimentos... O movimento do corpo e o sentido do tato recebem comandos distintos do cérebro. Por isso, o homem não perde necessariamente os dois ao mesmo tempo... A perda total do tato e dos movimentos é em conseqüência da degeneração do cérebro... Aí o homem perde todos os sentidos e fica em estado de coma irreversível.

- Então, o homem pára de pensar com a perda total do tato e dos movimentos? - inquire Aleixo.

- A Ciência presume que sim - prossegue Dr. Joaquim Antônio. Mas não se pode afirmar que deixou de pensar. A Medicina só tem certeza que o doente em estado de coma conserva a respiração e a circulação. O fato de não sentir qualquer impulso ao ser espetado por uma agulha, é uma prova que perdeu o sentido do tato.

- Pode ser que sinta dor, mas não exprime essa sensibilidade pela perda total da movimentação do corpo - interrompe Aleixo.

- Talvez... Mas não há como provar, porque cessou o elo de contato com o interior do paciente - esclarece o Dr. Joaquim Antônio.

- Deve ser uma coisa horrível... Uma pessoa pensar sem ter qualquer contato com o exterior! - exclama Aleixo.

- Nem consigo imaginar um homem pensante e sem nenhum meio de comunicação com o exterior... Seria a prisão do pensamento... Uma solidão inimaginável... Esse homem acabaria louco - declara Adriano.

- Um ser pensar em estado de coma irreversível é improvável para a Medicina... Mas, se existir, eu acho que o cérebro, sem captar o mundo exterior, tende a se atrofiar e perder totalmente o poder de pensar.

- Mas se isso não acontecer, o pensamento desse homem tentará de todas as maneiras se libertar para sair do seu próprio corpo - pondera Adriano.

- Ninguém pode saber disso - repete o médico. - Aí o fato sai do campo da Medicina e entra na Teologia... Talvez essa liberdade que você se refere seja a morte.

O doutor pára de falar. Apanha um remédio na mesinha e conversa com a enfermeira. Aleixo vai até a janela e observa a chuva cair. Pouco depois, os três se retiram. Adriano fica sozinho e pensativo, mas logo adormece. No dia seguinte, pela manhã, ouve um ruído na porta. Revira os olhos sem mexer a cabeça e vê Lavínia Cristina. Fecha rapidamente as pálpebras e finge estar dormindo. A moça o contempla. Puxa a cadeira e senta-se bem distante da cama. Adriano fica imóvel à espera dela se aproximar. Como isso não acontece, ele resolve abrir os olhos. Por alguns segundos, eles ficam mudos, fitando um ao outro. Lavínia, porém, resolve quebrar o silêncio.

- Como está?... Passou bem a noite?

- Sim... Hoje cedo cheguei a me levantar para tomar café... Amanhã, já poderei andar... Não sinto mais dores nas costas e nem no rosto. Mas você está sentada tão longe!

- É que você, apesar de estar doente, é muito perigoso.

Adriano lembra-se do beijo da véspera.

- Você está zangada comigo?

- Não... Mas não quero que você faça aquilo novamente.

Lavínia levanta-se, mas torna a sentar-se.

- Estou feliz em vê-lo quase bom. Sofri muito quando você chegou naquele estado deprimente... Rezei bastante para a sua recuperação.

Uma lágrima escorre pelo rosto do rapaz.

- Você nem sabe como suas palavras me emocionam. Estou muito alegre por você se preocupar com a minha saúde.

- Antes, eu tinha raiva de você. Seu olhar me assustava. Eu tinha medo... Mas, quando você chegou montado na Centelha, eu descobri que é um bom homem... Sabe por quê?

- Não.

- Uma pessoa pode achar que a outra seja boa e enganar-se, mas os bichos nunca... O animal sente realmente quando uma pessoa é boa... Você conseguiu montar a minha égua, porque ela sentiu bondade dentro de você.

- Acho que também foi interesse pela comida... Eu passei dias seguidos alimentando-a na boca.

Lavínia sorri.

- Se você fosse mal, ficaria a vida inteira dando comida na boca da Centelha... mas nunca conseguiria montá-la... Tenho certeza.

Lavínia olha o livro sobre a mesa-de-cabeceira. Levanta-se, e o folheia.

- Você está lendo este livro? - pergunta ela.

- Sim... Comecei ontem à noite... É o romance Ivanhoé de Sir Walter Scott... Foi seu irmão que me emprestou.

- Não sabia que você gosta de literatura!

- Adoro ler... Leio um livro atrás do outro.

- O Gustavo falou que você é muito inteligente... Aprende tudo com facilidade.

- Ele disse qual é a minha profissão?

- Sim... ferrador. Acho um trabalho muito interessante... Lidar com os animais me fascina.

A moça vai até a janela. Comenta que a chuva parou e o céu ficou azul. O rapaz admira o brilho dos seus cabelos ao receber os raios solares. Lavínia volta para perto dele e senta-se.

- Você tem livros em casa? - inquire ela.

- Não... Eu leio na Biblioteca Pública... Às sextas-feiras, o dono da ferradoria me deixa sair mais cedo, e eu vou para a biblioteca. Aos sábados, em compensação, trabalho até mais tarde.

- O seu Venâncio é um bom patrão?

- É excelente!... É difícil encontrar igual, principalmente nesta época em que os ricos exploram demais os pobres.

Adriano arrepende-se por ter proferido a frase, pois a moça pertence a uma família bastante rica. Além do mais, ele está sendo cuidado por eles. Lavínia, porém, não demonstra contrariedade pelo que ele disse. Parece estar preocupada com outra coisa.

- A esposa dele é linda! - exclama ela.

- Esposa de quem?

- Do seu Venâncio... ela tem contato com vocês na ferradoria?

Ele fica assustado com a pergunta. Porém, procura falar com firmeza e manter-se calmo.

- Não... Ela nunca vai à oficina. As poucas vezes que a vi foi fora da ferradoria, acompanhada pelo marido.

- Eles vieram visitá-lo.

- Eu soube... Estava dormindo.

Lavínia fica calada. Não menciona o pedido de Rebeca para transferi-lo dali e nem sua interferência junto com a mãe, a fim de não deixá-lo sair. Ele também não procura interrogá-la. Os dois passam a conversar diariamente até o dia que Adriano recebe alta do Dr. Joaquim Antônio. Ele fica triste ao deixar o palacete do seu Ricardo, pois tinha se habituado com o contato diário com a moça amada. Porém, a sua angústia é passageira. Termina no primeiro encontra que tem com Rebeca na casa da Carlota. No final da semana, ele vai à Biblioteca Pública, na Rua Direita. Apanha um livro e dirige-se para a mesa costumeira. Leva um susto ao ver Lavínia Cristina compenetrada na leitura.

- Lavínia!

- Oh! Adriano!... Você aqui... Que surpresa!

Adriano sorri e senta-se ao lado da moça. Lembra-se que havia dito para ela sobre sua vinda à biblioteca nas sextas-feiras. "Por isso, ela está aqui - pensa muito feliz."

- Você está com a aparência bem melhor, Adriano.

- Minha recuperação foi rápida... Mas o que você está lendo?

- Um escritor germânico... Johann Wolfgang von Goethe... Eu sou descendente de alemães... Meu nome completo é Lavínia Cristina Glockner Schiller.

Adriano observa a pele bastante clara da moça, os olhos azuis e os cabelos louros. Ela continua a falar.

- Meu avô por parte de pai, Johann Glockner Schiller, era natural de Weissenfels, uma pequena povoação da Saxônia-Anhalt, próxima à Leipzig. Embora meu bisavô fosse comerciante abastado daquele cidade alemã, o meu avô preferiu tentar a vida no Brasil, pois gostava de aventuras. Veio muito jovem para o Rio de Janeiro e ficou rico. Casou-se com uma brasileira, e da união nasceu o meu pai.

- O seu pai é brasileiro?

- Sim... Nasceu no Rio de Janeiro... Mas já esteve três vezes na Alemanha... Duas quando meu avô era vivo... A terceira foi este ano. Ele levou toda a nossa família. Gostei da viagem... de Paris, de Viena e da terra natal do meu avô. A arquitetura de Weissenfels é linda e muito antiga. A população dedica-se ao comércio. A origem da cidade remonta à Idade Média, quando ali foi construído um castelo. Após a derrota de Napoleão, Weissenfels foi ocupada por tropas prussianas.

- Você tem parentes em Weissenfels?

- Sim... Muito mais do que no Brasil. Acompanhada por minhas primas, conheci lugares bonitos na região, inclusive o Rio Saale, que banha Weissenfels e é muito importante para o comércio da cidade... O rio é um dos afluentes do Elba e serviu de passagem das caravanas na Idade Média.

- E Paris?... O que você achou?

- Gostei mais de Viena... Meu irmão é que adorou Paris. Ele nem quis ir à Viena... Preferiu ficar em Paris.

Adriano lembra das estórias das mulheres que Gustavo contou. Sem saber do pensamento do rapaz, Lavínia prossegue na sua narrativa.

- Viena é uma cidade romântica... é a cidade da música. Lá eu tive a felicidade de ver os dois maiores compositores da atualidade: Franz Schubert e Beethoven.

- Você os viu tocar?

- Sim... Eu tive acesso aos salões, porque uma tia é casada com um nobre da casa de Habsburgo... Assim, surgiu a oportunidade de vê-los ao piano... Schubert por diversas vezes... Beethoven, apenas uma vez... Minha tia disse que é difícil ver Beethoven tocar, pois ele não gosta de se exibir em público, mesmo nos salões da aristocracia... Ele está com 52 anos de idade, mas aparenta mais, por causa da inconformidade da sua surdez... Mas sua música, principalmente tocada por ele, é fascinante e nos envolve completamente.

Lavínia pára de falar e folheia o livro de Goethe, muito sem jeito em virtude do olhar insistente do Adriano. O rapaz nota sua timidez e abaixa a cabeça. Ela coloca o livro sobre a mesa.

- E você! Onde nasceu? Qual é o seu nome completo?

- Eu nasci no Rio de Janeiro... Meu nome é Adriano Mercier Lopes.

- Mercier!... Você é descendente de francês?

- Meu bisavô era francês... Mas meu nome teve origem na antiga Ádria, cidade histórica perto de Veneza. Os habitantes de Ádria eram chamados de adrianos. O Mar Adriático também recebeu esse nome por causa de Ádria.

- E a sua família?

Adriano fala sobre seus familiares e narra o caso do seu pai. A moça ouve com muita atenção.

- Então, você corre perigo no Rio de Janeiro... Eu não sabia que você foi agredido por causa disso que acaba de me contar.

- Não se preocupe. Estou andando na rua com muita cautela. Comprei uma pequena pistola. Pode ficar tranqüila, pois sei me defender. Se ficar com medo, fujo com você para a Europa.

Lavínia ri da brincadeira do Adriano.

- Gostei muito da Europa. Mas acho o Rio de Janeiro bem melhor. Tem muito espaço ainda selvagem para se andar a cavalo e subir morros.

- Dom Pedro costuma caminhar pelas montanhas do Rio de Janeiro, acompanhado pela Imperatriz.

- A Dona Leopoldina é muito dedicada ao marido. Ela faz tudo para ter o imperador ao seu lado. Por isso, participa com ele das caminhadas e cavalgadas pelos morros. A nossa imperatriz é simpática, mas não é bonita... Dizem que Dom Pedro não é fiel a ela... Isso me deixa triste, pois ela tem bastante cultura e inteligência e não chega a ser tão feia.

- Então, eu sou mais feliz que o imperador.

- Por quê?

- Tenho diante de mim uma moça muita culta e inteligente. E muito linda... A jovem mais bela da corte.

Lavínia tenta se levantar, mas não consegue. Adriano fita-a com intenso amor. Ela sente-se hipnotizada e fica paralisada. Os lábios dele aproximam-se, e ela não oferece resistência. Fecha os olhos e deixa-se beijar.

- Eu a amo - balbucia ele sem afastar completamente sua boca dos lábios da moça.

Lavínia se levanta. Sorri para ele e diz baixinho que precisa ir embora. O rapaz lembra-se do Samuel e resolve interpretá-la.

- Eu soube que você vai casar com o Samuel.

A moça faz cara de quem não gostou, mas fala sobre o assunto.

- Esse casamento está combinado há muitos anos entre meu pai e o seu Zacarias. Nunca fui consultada se aceitava. Só fui informada que ano que vem, quando eu completar 18 anos, ficarei noiva do Samuel.

Adriano morde o lábio em sinal de contrariedade. A moça nota sua tristeza e segura sua mão.

- Eu gosto mesmo é de você, Adriano... Mas a minha família não vai aceitá-lo, pois você é um ferrador... Porém, continuarei a me encontrar com você... Virei todas as sextas-feiras na biblioteca.

O rapaz torna a beijá-la. Eles passam a se ver nas semanas seguintes. Ele, além dos encontros com Lavínia, continua o romance com Rebeca na casa da Carlota. Os dois amores o mantém ocupado. Mas, mesmo assim, sempre vai ao Largo do Paço no final da tarde. Muito pensativo, senta-se junto ao chafariz e acompanha o movimento dos passantes. Um homem pára na sua frente. Adriano examina a perna defeituosa do estranho. Levanta-se e olha para o recém-chegado.

- Seu Macário! - exclama ele.

O rapaz arregala os olhos. Realmente está diante do Macário Coxo, o velho do Morro do Castelo.

- Preciso falar com você - diz seu Macário, procurando esconder o rosto com a mão.

- É sobre o meu pai?

- É... Eu vou lhe dar uma informação... Soube que você sofreu uma agressão covarde... Fiquei com pena de você... Por isso, quero auxiliá-lo.

Seu Macário tira um pedaço de papel do bolso e entrega a Adriano.

- Você vai procurar uma pessoa na freguesia de Nossa Senhora do Loreto... Chama-se Chico Fumaça... Ele mora perto da igreja. Entregue a ele este bilhete que escrevi... ele vai ajudá-lo.

O velho procura sair. Adriano tenta impedir que ele se vá.

- Espere, seu Macário. Preciso de mais esclarecimentos... O que o senhor sabe sobre a morte do meu pai e do meu avô?

- Procure o Chico Fumaça... ele lhe dirá tudo... ele sabe de tudo. Não posso continuar aqui... É perigoso para mim... É perigoso para você. Por favor, deixe-me ir e não me siga... você já tem tudo o que precisa para descobrir a verdade sobre seu pai.

Seu Macário afasta-se rapidamente e não ouve Adriano lhe perguntar onde fica a freguesia de Nossa Senhora do Loreto. O velho some ao dobrar a Rua Direita. "Tenho que procurar esse tal de Chico Fumaça de qualquer jeito - pensa Adriano. - Vou agora conversar com o Aleixo, para ele me ajudar." Desdobra o papel e lê o recado do seu Macário. "Chico Fumaça: Este é o moço que lhe falei. É o filho do Honório. Conte a verdade para ele." Adriano guarda o papel e segue para a casa do Aleixo. Na loja de sapateiro, encontra o seu Ubaldo conversando com seu Zacarias.

- O Aleixo está? - indaga Adriano.

- Não... ele está viajando a serviço com o Major Varela. Eles foram para a Vila de São João - informa seu Ubaldo.

Adriano coloca a mão na cabeça.

- Algum problema? - indaga seu Ubaldo.

- Não... eu desejava saber onde fica a freguesia de Nossa Senhora do Loreto... É perto daqui?

- É bastante longe. Além das montanhas... É nas terras dos engenhos de Jacarepaguá - explica seu Ubaldo.

- Como se faz para ir lá?

- Pela Estrada Real de Santa Cruz... até a encruzilhada chamada de Campinho. Ali tu tens que pegar o caminho da esquerda - esclarece seu Ubaldo.

- Você pretende ir lá? - interroga seu Zacarias.

- Quero sim.

- Alguma coisa muito importante?

- Não... Não, seu Zacarias. Não é nada importante.

- Para ir até lá, você pode viajar na diligência que parte diariamente para a Fazenda de Santa Cruz. Ela sai da corte às quatro horas da madrugada e chega à fazenda por volta das dez horas da manhã, após quatro mudas das duas parelhas de cavalos.

Seu Zacarias pára de falar e estala o dedo em direção a Adriano.

- Mas para ir à Jacarepaguá, você terá que saltar no meio do caminho... Na estalagem do Campinho - alerta ele.

- Da estalagem à freguesia de Nossa Senhora do Loreto, não há serviço de diligências?

- Não... você terá que ir a pé ou alugar um jumento, caso o estalajadeiro confie em você... Senão, ele não aluga - responde seu Zacarias.

- É longe a distância da estalagem à freguesia de Nossa Senhora do Loreto?

- Um pouco... Mas, se for cavalgando, não - acrescenta seu Zacarias.

- Então, é melhor eu ir no meu cavalo.

- Tu terás que parar algumas vezes para o bicho descansar - comunica seu Ubaldo.

- Você terá que ir amanhã bem cedo - interfere seu Zacarias.

- Pretendo ir hoje!... Viajarei daqui a pouco.

- Então, é um caso muito urgente! - procura saber seu Zacarias.

- Não... É por causa do meu trabalho na ferradoria... Tenho que estar de volta para trabalhar amanhã à tarde.

- Se tu queres mesmo viajar hoje, aconselho a dormires na estalagem do Campinho. É muito boa... Ela foi bastante usada por Tiradentes nas suas vindas ao Rio de Janeiro. Foi lá que ele pernoitou antes da sua prisão - comenta seu Ubaldo.

- O senhor tem razão... Viajarei à noite pela Estrada Real de Santa Cruz que já conheço... Amanhã bem cedo, com o dia claro, prosseguirei pelo caminho que desconheço.

Adriano despede-se e segue para a ferradoria para apanhar o seu cavalo. Seu Venâncio ainda está no escritório. O rapaz não esconde o patrão que o motivo da viagem é por causa do seu pai. O dono da ferradoria não cria problema e lhe dá folga para o dia seguinte. Muito feliz, o jovem coloca a sela no Branquinho e parte para a empreitada. Já é noite, mas o céu estrelado e a lua cheia o ajudam a cavalgar. Com muita facilidade, ele transpõe as distâncias. Antes das dez horas da noite, chega à pousada do Campinho. Após tomar banho e se alimentar, aproxima-se do velho estalajadeiro.

- Como se vai à freguesia de Nossa Senhora do Loreto?

- O moço terá que cavalgar ainda um bom pedaço... Seguindo o Caminho de Jacarepaguá, que é este à nossa frente, o senhor vai chegar ao Largo do Asseca. Continue a circundar o morro até uma bifurcação, quando terá que dobrar à esquerda. Segue em frente toda a vida até avistar uma igrejinha no alto do penhasco... Em volta do morro fica a freguesia de Nossa Senhora do Loreto.

- O senhor conhece o Chico Fumaça?

- Sim... Fala-se muito dele por estas paragens.

- Aonde posso encontrá-lo?

- Na freguesia, todos o conhecem... É só senhor perguntar.

- É verdade que o Tiradentes dormiu aqui antes de ser preso? - pergunta Adriano, lembrando-se do que lhe falara o seu Ubaldo.

- Sim... Eu ainda era criança, mas me lembro dele.

Adriano resolve ir dormir. Recolhe-se ao aposento indicado pelo albergueiro. O quarto é pequeno, com uma cama e uma cadeira, onde ele coloca as roupas e a pistola. Deita-se e, em poucos minutos, adormece. Ao amanhecer, pensa que está tendo um pesadelo ao ver dois homens mascarados invadirem o quarto. Mas tudo é realidade. Um deles aponta uma pistola de cano comprido, enquanto o outro revira as suas roupas à procura de alguma coisa. Adriano fica imóvel na cama. Um dos mascarados encontra o que busca: o bilhete que o seu Macário escreveu para o Chico Fumaça. Os dois lêem e murmuram algo que Adriano não dá para escutar.

Eles o mandam levantar, jogam suas vestes no chão e o amarram na cadeira. Adriano fica gelado, quando o que está armado apanha a sua pistola entre as roupas. O desconhecido aponta as duas armas para a sua cabeça. Depois, ri ao verificar que ele está apavorado. Rasga um pedaço do lenço e o amordaça. Adriano sente-se aliviado, quando eles se retiram. Minutos depois, ouve o tropel de cavalos de afastando. Com os braços e as pernas amarrados e a boca amordaçada, ele não pode se mover e nem gritar. Treme de medo ao pensar que os malfeitores podem voltar. Procura movimentar-se mesmo amarrado à cadeira, mas cai no chão e fica numa posição mais difícil. Com enorme esforço, consegue se arrastar até à porta. Ergue o pé e chuta violentamente a madeira da porta, com o intuito de chamar atenção do dono da estalagem. O tempo passa e ninguém aparece. "Será que a pousada está vazia?" - pensa ele. Um barulho do lado de fora o anima e, ao mesmo tempo, o atemoriza. "Será que são os bandidos que estão de volta?" Ouve alguém bater na porta. A mordaça o impede de falar.

- O que houve? Abre a porta... O que houve com o senhor?

Adriano reconhece a voz do estalajadeiro. Não podendo gritar, dá várias pancadas com o pé na porta. Segue-se um silêncio assustador. Passa-se alguns minutos, e ouve um barulho de chave na fechadura.

- Tenho outra chave de reserva. Vou abrir a porta.

O rapaz afasta os pés, para permitir o velho abrir a porta. Ao surgir no pequeno quarto, o dono da estalagem fica atônito ao ver o jovem amarrado.

- Quem fez isso com o senhor?

Logo que fica livre da mordaça, Adriano respira fundo.

- Dois homens invadiram o quarto no final da madrugada... O senhor não ouviu nenhum barulho?

- Escutei o tropel de cavalos. Mas pensei que fossem viajantes passando pela estrada.

- Mas por que fizeram isso com o senhor? Como entraram?- fala o estalajadeiro, terminando de desamarrar o rapaz.

- Eu não tranquei a porta... Deixei a chave por dentro... Senti segurança nesta estalagem... Eles me fecharam aqui e devem ter levado a chave.

Adriano prefere não falar mais sobre o assunto, pois sabe que o fato é relacionado com seu pai e sua ida à procura do Chico Fumaça, já que os mascarados não levaram seu dinheiro. Somente carregaram a pistola e o bilhete. Ele decide prosseguir em direção à freguesia de Nossa Senhora do Loreto, apesar de estar consciente do perigo que poderá encontrar, principalmente desarmado. Cavalga com toda a atenção pelo Caminho de Jacarepaguá, através do Engenho de Fora. Contorna os morros que vão surgindo. Após atravessar toda a região, avista a Igreja da Pena. Na pequena povoação ao redor do penhasco, é informado por um lavrador onde encontrar o Chico Fumaça.

Ao atingir a trilha da colina indicada, ouve um tiro. Então, embrenha-se com o cavalo pelo mato alto, procurando se esconder. Continua a subir por entre o capinzal. No alto da colina, avista um casebre com a porta aberta. Aproxima-se e desmonta do Branquinho junto do barraco. Chega na entrada e depara-se com um homem caído no chão. Um ruído do lado de fora faz ele volver-se e chegar até a porta. Vê uma mulher correr e sumir dentro do mato. Mesmo muito assustado, Adriano retorna ao interior do casebre. Ao lado do corpo, há muito sangue. Agacha-se junto ao homem e descobre que está vivo. O moribundo abre os olhos, enquanto Adriano levanta sua cabeça.

- Eu sou filho do Honório. Você deve ser o Chico Fumaça.

- Eu o esperava, mas eles chegaram primeiro... eles pensam que me mataram... agora... sinto... sinto que vou morrer.

- Eles quem? - implora Adriano.

- Seu pai... está vivo... está preso num porão... está...

Adriano fica estarrecido com o que acaba de ouvir. Grita para Chico Fumaça falar mais. Quer ter a certeza se o pai está realmente vivo e onde é o porão que ele está aprisionado. Mas o homem não está mais o escutando e morre em seus braços. Adriano ouve vozes do lado de fora e resolve sair. Levanta-se e olha para sua roupa suja de sangue. Ao deixar o casebre, avista a mulher voltando, acompanhada por dois homens com olhares ameaçadores. Ele monta rápido no Branquinho e desce a colina, enquanto a desconhecida grita, apontando o dedo em sua direção.

- Foi ele... foi ele... Ele é o assassino.

Adriano não pára de galopar. Ganha rapidamente a vereda, e a freguesia de Nossa Senhora do Loreto vai ficando para trás. Antes de chegar ao Largo do Asseca, nota que Branquinho está molhado de suor. Então, entra pelo matagal em direção ao morro, afastando-se do Caminho de Jacarepaguá, para dar descanso ao animal. Escondido no capim-colonião, tira os apetrechos do cavalo. Ouve o ruído de um córrego e leva Branquinho para beber água. O tropel de cavalos o faz se virar para a vereda. Avista quatro cavaleiros passarem a galope. Dois deles são os homens que viu perto do casebre acompanhados pela mulher. Não tem dúvida que eles estão à sua procura. Muito intranqüilo, retorna ao córrego e bebe água também. Deita-se na relva e passa a hora pensando no que aconteceu. "Será que o Chico Fumaça falou a verdade. Meu pai está vivo e preso num porão. Mas por que está aprisionado?" O sol está a pino e já passa do meio-dia, quando resolve prosseguir. Os cavaleiros não voltaram, e Adriano teme encontrá-los pelo caminho.

"Não posso continuar escondido aqui. Tenho que me aventurar e cavalgar até a corte." Monta no Branquinho e reinicia a viagem pelo Caminho de Jacarepaguá. Em pouco tempo, passa pela estalagem do Campinho e começa a cavalgar pela Estrada Real de Santa Cruz rumo a São Cristóvão. Ao chegar ao Largo do Capim, deixa Branquinho amarrado e sobe ligeiro ao seu quarto, a fim de trocar de roupa. Examina a mancha de sangue na manga da camisa e balança a cabeça muito contrariado. Coloca a camisa suja na cadeira e apanha outra limpa no armário. Depois, desce e leva o cavalo para a ferradoria. Não encontra seu Venâncio e nem o Clemente João. Procura não falar com os empregados. Somente brinca com o escravo Tomás. Regressa ao quarto no Largo do Capim e não sai à noite. Deseja esperar a chegada do Aleixo e do Major Varela da Vila de São João, para decidir o que fazer.

No dia seguinte, ele acorda fora da hora habitual e apressa-se para sair. Uma batida violenta na porta o faz tremer. Antes de ver quem é, vai até à janela e nota tudo calmo no Largo do Capim. As pancadas estão cada vez mais fortes, e ele resolve abrir a porta. Surge à sua frente um senhor bastante grande com dois guardas armados. Adriano fica paralisado e cheio de medo.

- Sou o Dr. Cândido Augusto da Intendência Geral de Polícia. Tenho uma ordem de prisão contra você.

- Contra mim?... Por que razão?

- Pelo assassinato de um homem em Jacarepaguá.

Adriano fica atônito. Não consegue gesticular nem pronunciar ao menos uma palavra. O Dr. Cândido Augusto o empurra, e os guardas entram para revistar o quarto. O policial encontra a camisa ensangüentada e olha para Adriano.

- Mais uma prova contra você. Vamos andando - brada ele, apontando para os guardas carregarem o rapaz.

Adriano tenta argumentar que é inocente, mas o policial não quer ouvi-lo. Faz ele descer aos empurrões pelas escadas. Eles caminham pela cidade. Adriano, muito envergonhado, procura esconder o rosto; enquanto as pessoas passam e olham curiosas. Chegam à cadeia velha, e ele é jogado e encarcerado num cubículo.

Capítulo 6

Adriano acorda com fortes dores nas costas por ter passado a noite deitado nas rígidas madeiras que servem de cama do imundo cubículo. Abre os olhos e examina as paredes escuras. A luz que entra pelo minúsculo buraco no alto da cela é o único indício para ele saber que é dia claro. Vê muitas baratas subirem e descerem e sente repugnância e prostração. O ranger de ferros faz ele virar a cabeça em direção à porta. O carcereiro aparece e diz que vai levá-lo à presença do juiz. Dois guardas armados o seguram pelo braço e o conduzem a um enorme compartimento. Sentado ao lado do juiz, Adriano reconhece o Dr. Cândido Augusto. O policial se levanta e o acusa por crime de duplo assassinato. O juiz se dirige a Adriano.

- O que o réu tem a dizer?

Adriano jura que é inocente e narra os fatos verdadeiros. Quando ele acaba de falar, o Dr. Cândido Augusto dá estrondosa gargalhada. Os guardas e o carcereiro também dão risadas. Adriano olha para o juiz e nota que ele esconde o riso levando a mão à boca.

- É uma estória hilariante - diz o Dr. Cândido Augusto. - Você é muito cínico, além de assassino frio.

O policial apanha uma pequena pistola em cima da mesa e aproxima-se do rapaz.

- Conhece esta arma?

- Sim.

- É claro que sim. Foi comprada por você numa loja na Rua dos Ourives. Ela lhe pertence... Foi com esta pistola que você matou o Chico Fumaça. Ela estava junto ao cadáver.

Adriano sente um calafrio. Compreende a razão dos mascarados terem levado a sua arma na estalagem do Campinho. "Mas tenho certeza que a pistola não estava ao lado do corpo do Chico Fumaça. Foi colocada depois que saí do casebre." O policial continua a acusá-lo e mostra a camisa suja de sangue ao juiz.

- Agora, vou mandar entrar uma pessoa que viu você matar o Chico Fumaça.

O Dr. Cândido Augusto chama na outra sala a testemunha. Adriano sente vontade de chorar ao deparar com a trama armada para incriminá-lo. O homem que surge no recinto é um dos que viu com a mulher fora do casebre. O mesmo que também o perseguiu pelo Caminho de Jacarepaguá. O juiz interpela o estranho. Ele aponta para Adriano.

- Foi ele quem matou. Eu vi quando ele deu um tiro no Chico Fumaça.

O ferrador sente o corpo desfalecer, e os guardas são obrigados a segurá-lo para ele não cair. O Dr. Cândido Augusto ironiza a situação.

- Não fantasie um desmaio para sensibilizar o meritíssimo juiz... Você matou o Chico Fumaça e o Macário do Morro do Castelo.

- Mataram o seu Macário?

- Não finja inocência... Você assassinou pela manhã o Chico Fumaça e, à noite, o Macário... Temos provas que você também matou o Macário. Vizinhos assistiram há algum tempo você brigar com o Macário. Você é um frio matador de velhos.

O policial fala em voz baixa com o juiz. Adriano leva a mão ao rosto e chora. O juiz bate com força na mesa e pede ao guarda para levantar a cabeça do rapaz.

- As provas contra você são irrefutáveis. Ficará preso aguardando o julgamento definitivo.

Os guardas o carregam de retorno ao cárcere. A noite chega, e ele não consegue coordenar os pensamentos. A sucessão de acontecimentos deixa sua mente perturbada. Os dias passam. O buraco acima da sua cabeça o orienta quando é dia ou noite. Mas ele não tem noção do tempo. Procura exercitar o corpo, a fim de vencer a solidão. Um barulho na porta o faz pensar que o carcereiro lhe traz a comida nojenta. Mas é o guarda que anuncia uma visita. Adriano dá um pulo de alegria ao ver Aleixo entrar na cela, fardado de alferes.

- Aleixo!... Não acreditava mais que iria vê-lo... Como estou sofrendo... Sou acusado por uma coisa que não fiz.

- Eu já soube de tudo. Cheguei ontem da Vila São João. Você está proibido de receber visitas. Consegui entrar porque sou militar.

- E os nossos conhecidos? Eles sabem o que me aconteceu? A Rebeca? A Lavínia?

- Não estive com elas, mas sei que tomaram conhecimento que você está preso. O Venâncio veio à cadeia, mas foi impedido de entrar. O Gustavo também. Todos querem ajudá-lo, porque têm certeza que você é inocente.

Adriano conta ao amigo todo o seu drama, desde o encontro com o Macário no Largo do Paço até a prisão, no sobrado do Largo do Capim.

- O meu pai está vivo, Aleixo!

- E seu avô? Será que está também?

- Não sei... O Chico Fumaça só falou no meu pai... só sei que ele está preso em algum porão.

Aleixo gira os olhos pelo cubículo e balança a cabeça.

- Precisamos tirar você deste lugar imundo. O Samuel é advogado e vai defendê-lo... Mas ele também não conseguiu chegar até aqui. Acho que há alguém muito poderoso por trás de tudo.

- Também acho.

- O Major Varela não sabe de nada, pois ficou na Vila São João. Ele é muito influente no Paço Imperial de São Cristóvão... Quando regressar, tenho certeza que vai tirar você daqui. Enquanto isso, você precisa criar forças para agüentar viver dentro deste cubículo.

- Tenho feito exercícios físicos... Mas o que mantém minha mente sã é a minha dedicação à ascese. Com a concentração espiritual, ganho uma força extraordinária... Agora, estou convicto sobre as palavras do meu professor, que sempre dizia que possuo poder por ter sido um asceta em outra encarnação.

- Eu e o Samuel vamos procurar localizar com o Dr. Cândido Augusto o homem que testemunhou contra você.

- Você precisa tomar cuidado com aquele homem, Aleixo... foi ele quem me perseguiu... ele sabe de tudo... Pode ser até que seja a pessoa que matou o Chico Fumaça e o Macário Coxo.

- Pode deixar... Eu e o Samuel tomaremos cuidado e investigaremos o caso.

- Se você puder evitar a ajuda do Samuel, seria muito bom.

- Por quê?

- Eu me sinto mal com a ajuda dele... É por causa do meu namoro com a Lavínia.

- Isso não tem importância. Acredito que o Samuel não liga para a senhorinha Lavínia Cristina... O casamento é uma imposição das famílias.

O guarda faz sinal para Aleixo.

- Tenho que ir, Adriano. Procura ficar tranqüilo e aguardar a chegada do Major Varela... Enquanto isso, continuarei lutando para conseguir sua liberdade.

A visita do amigo traz novo alento a Adriano, que melhora do estado deprimente. Mas, com o passar dos dias sem notícias, volta a ficar inquieto. Procura fazer exercícios para manter a calma. No final da semana, Aleixo volta a visitá-lo.

- Quais as novidades? - pergunta Adriano ansioso.

- Há alguém muito poderoso manobrando o seu caso na Intendência Geral.

- O seu Cristóvão?

- Não deve ser... é uma pessoa mais importante do que ele. O homem que o acusou desapareceu. O Samuel falou com o Dr. Cândido Augusto que, se a testemunha sumiu, você tem que ser libertado. Ele disse que tem ordens superiores para que você continue preso e incomunicável. Nós fomos a Jacarepaguá e ninguém conhece o homem que testemunhou contra você.

- Vocês procuraram saber quem é a mulher que eu vi fora do casebre?

- Era a esposa do Chico Fumaça! Ela também desapareceu!

- E a polícia?... Está tentando achá-la?

- Não, Adriano... A polícia não está interessada em achar nem a mulher do Chico Fumaça, nem o homem que disse que viu você atirar... A preocupação da polícia é outra.

- Eles querem a minha cabeça. Não é, Aleixo?

- Exato, Adriano. Querem tirá-lo daqui. Acho que vão levá-lo para uma fortaleza... O Major Varela está para chegar. A polícia descobriu que nós vamos usar o prestígio do Major, para conseguir sua liberdade. Se você sair da cadeia velha, pode até ser morto... Por isso, eu e o Gustavo planejamos uma fuga para esta noite.

- Uma fuga? Mas isso é impossível!

-É difícil, mas é possível... O nosso plano conta com a cooperação de alguns guardas da cadeia... Estarão prontos dois cavalos, um para mim e outro para você... Só eu sei o lugar que você ficará oculto. Ninguém mais saberá, nem o Gustavo... Você se esconderá nos morros que cercam Sacopenapan.

- Sacopenapan!

- É uma bonita região de praias desertas perto da cidade, mas de difícil acesso por causa das montanhas... Quero que você fique preparado... Vai ser esta noite... A fuga tem que ser bem sucedida, pois amanhã eles irão transferi-lo.

Aleixo retira-se. Adriano fica muito contente, mas também bastante apreensivo. A noite chega e o tempo nublado ajuda os amigos de Adriano, auxiliado por dois guardas, a trazê-lo para os fundos da cadeia. A fuga é perfeita. Em poucos minutos, eles estão do lado de fora. Montados em cavalos velozes, Adriano e Aleixo galopam pelas ruas escuras e desertas. Passam pelo Campo das Pitangueiras e pela Praia de Botafogo. No Caminho do Brocó, Aleixo faz sinal para Adriano parar.

- Vamos nos embrenhar pelo matagal... Ficaremos escondidos no sopé do morro, a fim de esperar o sol nascer... é impossível transpor a montanha com esta escuridão.

- O que existe do outro lado? - indaga Adriano.

- Uma praia deserta... Você ficará lá até o Major Varela chegar. Não há perigo. Ninguém irá encontrá-lo.

Os dois esperam o dia clarear. Com achegada da aurora, não têm dificuldades em atravessar o morro. No lado oposto, mas ainda no alto da montanha, apeiam-se dos cavalos na entrada de uma pequena caverna. Aleixo retira a carga do dorso do eqüino.

- Trouxe alimentos duráveis para você. Água, você não sentirá falta, pois há muitas fontes nas encostas do morro.

- Como você descobriu esta caverna?

- Por acaso, em época de criança... Quando eu tinha 15 anos cavalguei muito pelos morros do Rio de Janeiro. Você ficará admirado com a beleza do lugar... Deixa o dia clarear por completo... Se as nuvens ajudarem, você verá lá embaixo uma praia maravilhosa... Quase ninguém a conhece... Só os pescadores, que a chamam de Copacabana.

Aleixo retorna à cidade. Por intermédio de Gustavo, toma conhecimento do alvoroço em frente à cadeia velha. Os dois vêem de longe o Dr. Cândido Augusto andar nervosamente de um lado para outro. Quatro dias após a fuga, Lavínia descobre que Aleixo sabe aonde está escondido Adriano. Vai à sua procura e o convence a levá-la ao esconderijo. Os dois seguem para a loja de fazendas da Dona Josefa. Carolina os atende e chama a irmã. Logo que Ana Bárbara chega, Lavínia cochicha algo ao seu ouvido. Lavínia manda Aleixo esperar, e as duas sobem para o segundo andar. Elas entram no quarto da Ana Bárbara.

- Preciso da sua ajuda - fala Lavínia, desamarrando o embrulho que trouxe.

- Que é isso? - inquire Ana Bárbara.

- Roupas de homem... O Aleixo me emprestou... Vou vesti-la para me disfarçar.

- Não estou entendendo.

- Vou me vestir de homem para me encontrar com o Adriano. O Aleixo está também com roupa de mascate para não chamar atenção.

- Eu achei estranho o Aleixo com aquelas roupas... custei a reconhecê-lo.

- É necessário o disfarce, pois cavalgaremos para fora dos limites da cidade. A polícia poderia desconfiar e nos seguir... Nós iremos ao encontro do Adriano. Por isso, eu vim aqui trocar de roupa... Não poderia sair da minha casa com estes trajes.

- Você está maluca... É muito arriscado fazer isso.

- Eu sei, Ana Bárbara... Mas eu amo o Adriano... Preciso vê-lo... Estou com saudades.

Ana Bárbara apenas abana a cabeça. Observa com curiosidade a amiga trocar de roupa diante do espelho. Lavínia enrola os cabelos e enfia uma carapuça vermelha na cabeça. Depois, a retira e olha Ana Bárbara.

- Por favor, Ana.... Amarre meus cabelos. Não quero que se soltem na viagem e apareçam fora da carapuça.

Ana Bárbara prende os cabelos da amiga com alguns grampos. Lavínia recoloca a carapuça e torna a se mirar no espelho.

- Dá para notar o formato dos meus seios. Se alguém chegar perto de mim, descobrirá que sou mulher.

- Vou colocar enchimento abaixo do seu peito. Você ficará parecida com um homem gordo.

Ana Bárbara consegue o seu objetivo, e Lavínia ri ao mirar-se ao espelho. Elas descem ante os olhares espantados da dona Josefa, da Carolina e do próprio Aleixo. Lavínia aproxima-se sem jeito da dona Josefa e murmura.

- Depois, eu explico para a senhora porque estou assim disfarçada.

Aleixo e Lavínia saem da loja e montam nos cavalos. Seguem calmamente pelas ruas da cidade.

- Não podemos nos arriscar. Algum policial pode nos mandar parar e descobrir quem somos... Só após o passeio público, poderemos andar a galope - comenta Aleixo.

Eles atravessam a Rua dos Ourives, Rua da Ajuda, Largo da Mãe do Bispo e chegam ao Passeio Público. Começam a galopar. Passam pela praia Areia da Espanha e Rua do Catete. Descansam no campo das Pitangueiras. Depois recomeçam a viagem pelo Caminho Novo de Botafogo, Praia de Botafogo e Caminho do Brocó.

- O Adriano está do outro lado do morro - anuncia Aleixo.

- Como iremos atravessar estas rochas?

- Adiante, há um pequeno trecho mais baixo e com acesso mais fácil... Poderemos subir a cavalo.

Os dois vencem a subida íngreme e chegam ao topo do morro. Lavínia fica encantada com a paisagem. Aleixo aponta o rumo a seguir. O barulho dos cavalos faz Adriano surgir na entrada da caverna, e os três se encontram. Adriano ri muito ao saber que o homem gordo diante de si é Lavínia Cristina. Os namorados se beijam, enquanto Aleixo apanha os alimentos e os leva para o interior da caverna. Volta e vira-se para Adriano.

- Você terá que aguardar mais uns dias, pois o Major Varela ainda não regressou da Vila São João. Mas pode ficar tranqüilo, pois o Dr. Cândido Augusto nunca vai encontrá-lo. Parece que a desistiu de procurá-lo.

- E o meu quarto... Será que a dona do sobrado já alugou para outro?

- De jeito nenhum, Adriano. Fui ontem ao Largo do Capim e conversei com a velha. Ela disse que o quarto continua alugado para você.

Adriano abraça Lavínia.

- Passo a maior parte do dia olhando o mar daqui de cima. Às vezes, passeio pela areia da praia... Já estava me preparando para ir, quando vocês chegaram... Vamos lá, Lavínia... Vamos à praia.

Lavínia hesita e olha para Aleixo. Adriano puxa-a pelo braço.

- Vamos lá, Lavínia - repete ele.

- Podem ir, mas não demorem - intervém Aleixo. - Temos que regressar daqui a pouco... Podem ir, que eu ficarei aqui colhendo e comendo pintangas silvestres.

Adriano e Lavínia descem pela garganta formada pela montanha. Após passarem pelas Pitangueiras, espinheiros e pés de abacaxi, chegam à beira da praia.

- Como é belo este lugar... Nunca imaginei que perto da cidade existisse uma praia tão linda.

- Está vendo aquele morro no final da praia? - Aponta Adriano.

- Sim.

- É o Pão de Açúcar.

- É mesmo!... Está tão diferente!

- É que nós estamos vendo pelo lado de trás. E somente a metade superior por causa do outro morro.

- Então, a cidade fica naquela direção... Tão perto! - retruca Lavínia, olhando espantada para Adriano. - Será que a polícia pode descobrir que você está aqui?

- Não, Lavínia... Soube por intermédio do Aleixo que somente pescadores vêm a esta praia deserta... Eu ainda não os vi... Devem apenas aparecer quando avistam cardumes à beira-mar... Está vendo lá longe a igrejinha erguida nas pedras?

- Sim.

- Os pescadores a construíram no final do século passado. No altar há uma pequena imagem de Nossa Senhora de Copacabana, que foi trazida da Bolívia... Um pouco além da igrejinha há outra praia deserta e uma bonita lagoa. Toda a região é chamada de Sacopenapan, mas esta praia é conhecida pelo nome de Copacabana, por causa daquela igreja nas pedras.

Lavínia Cristina tira os sapatos, molha os pés na água do mar e foge das ondas.

- A água está quente. Nunca vi uma praia igual! - exclama ela.

- Vamos tomar um banho? - pergunta ele.

- Não... Não vou molhar minhas roupas... Não se esqueça que tenho que regressar... Não dará tempo para secarem.

- Eu tomo banho todos os dias completamente nu.

Lavínia ruboriza-se. Adriano lhe dá um beijo carinhoso.

- Não precisa ficar nua. Pode tomar banho com as roupas de baixo. Você não deve sentir vergonha de mim. Afinal, nós dois somos homens - brinca ele, apontando para as vestes masculinas dela.

A moça sorri timidamente e procura afastar-se.

- Vamos... Tome coragem... Tire a roupa... Eu não vou atacá-la.

Ela olha ao redor e para as montanhas.

- E o Aleixo... ele pode aparecer.

- Ele gosta da mata e vai ficar se divertindo, comendo pitangas até a nossa volta.

- Eu estou com medo... Vamos retornar ao morro.

Ele distancia-se bastante da moça. Ela espanta-se ao vê-lo correr. Adriano pára bem longe.

- Faremos o seguinte, Lavínia. Eu tomarei banho aqui e você, aí... Está certo?

- Você ficará nu?

- Sim.

- Não faça isso, Adriano... Estou com muita vergonha!

- Não olhe para mim. Feche os olhos... Pense que não estou aqui... Você não precisa ficar nua... Tome banho com as roupas de baixo.

Lavínia bispa novamente o morro e retira a carapuça. Deixando os cabelos livres. Adriano a observa de longe.

- Está bem, Adriano... Vou tirar as roupas de homem. Ficarei somente com as de baixo e o espartilho. Mas peço para você não se aproximar... Você promete?

- Não tenha medo de mim, Lavínia. Faz de conta que já estamos casados... Vamos fechar os olhos e tirar as roupas.

Ele fica completamente nu. Ao longe, vê a moça também se despir. Lavínia retira os trajes masculinos. Somente o espartilho e a enorme calça íntima, que chega um pouco abaixo do joelho, cobrem seu corpo.

- Estou envergonhada, Adriano. Não tenho coragem de abrir os olhos. Você ainda está na areia ou entrou na água?

- Não abra os olhos. Vou entrar daqui a pouco na água... Só mova os olhos quando eu avisá-la.

Adriano corre em direção à moça e se coloca atrás dela. Lavínia permanece de olhos fechados, mas a demora em ouvir a voz do namorado a deixa preocupada. Grita pelo seu nome e não obtém resposta. Ele está mudo e bem pertinho dela, contemplando seu belo corpo, somente protegido pelas peças íntimas. Lavínia resolve abrir os olhos. Leva um susto, porque não o vê diante de si. Apenas avista suas roupas jogadas na areia. Olha para o mar, também não o vê e fica apavorada.

- Adriano - grita ela muito nervosa.

O rapaz continua imóvel atrás dela.

- Adriano... Adriano - repete ela.

Ele continua calado. Ela vira-se para todos os lados e depara-se com o namorado inteiramente nu. Seu corpo bamboleia, e sente que vai desmaiar. O rapaz dá um saldo e a segura, evitando que ela vá ao chão. O calor dos corpos fazem eles perderem o sentido das coisas, e Adriano a beija apaixonadamente. Caem na areia e rolam abraçados. Lavínia não oferece resistência e deixa-o retirar o espartilho e as demais roupas íntimas. Ela também fica nua, sem refletir no que está acontecendo. Sente que está sendo penetrada e ajuda o namorado a possui-la, apesar da imensa dor. As ondas fazem barulho e molham os pés dos amantes, que chegam ao orgasmo juntos. Eles demoram a se levantar. Permanecem com os corpos colados e se beijando. Depois, se vestem bastante encabulados. Mas acabam sorrindo e subindo o morro abraçados. Ao chegarem à caverna, encontram Aleixo já com os cavalos preparados para a viagem de volta.

- Estava preocupado com vocês. Já ia descer para chamá-los - explica o alferes.

Lavínia e Adriano sorriem. Aleixo diz ao amigo que o avisará logo que o Major Varela retornar da Vila São João. Lavínia faz todo o percurso de retorno muito calada e absorvida pelos acontecimentos na praia. Aleixo a deixa em frente à loja de fazendas da Rua do Sabão. Ana Bárbara recebe a amiga.

- Você demorou, Lavínia. A carruagem chegou na hora que você marcou. O cocheiro está esperando há bastante tempo.

- Vou trocar de roupa. Diz ao cocheiro que estou de saída.

Lavínia sobe rápido as escadas. Quando Ana Bárbara chega ao quarto, ela já está arrumada.

- Você está pálida, Lavínia... Está doente?

- Sim... Não estou me sentindo bem. Vá hoje à minha casa que tenho algo importante para lhe contar.

Ela entrega a roupa do Aleixo para Ana Bárbara.

- Esconde estas vestes de homem... Eu poderei precisar de novo.

A moça sai apressada, deixando a amiga preocupada. Ao anoitecer, Ana Bárbara vai à residência da Lavínia. Ao entrar no palacete da Rua do Lavradio, encontra o Dr. Joaquim Antônio conversando com Dona Veridiana.

- A Lavínia está doente? - interroga Ana Bárbara.

- Sim - responde o médico. - Mas não é grave... Uma pequena complicação estomacal. Deve ter sido provocada por alguma coisa que comeu.

Ana Bárbara deixa os dois no átrio e sobe ao aposento da Lavínia Cristina. Ela, deitada na cama, recebe Ana Bárbara com um sorriso.

- Encontrei o Dr. Joaquim Antônio. Ele me disse que você está com problema no estômago.

- A mamãe ficou preocupada com a minha palidez e chamou o doutor. Mas não precisava... Necessito apenas de repouso e me alimentar... O Dr. Joaquim Antônio está muito enganado... eu não tenho nenhum problema no estômago... Estou me sentindo fraca pois cavalguei, após perder sangue.

- Sangue!... Você caiu do cavalo?

- Não... Não... Eu fui deflorada numa praia deserta e romântica.

- Pelo Adriano?

- Sim.

- Que canalha!... E o Aleixo?... Não a protegeu?

- Você não está entendendo. Estávamos só nós dois na praia... O Aleixo nem sabe o que aconteceu... Ele não estava presente. O Adriano não é nenhum canalha. Eu o amo e o deixei fazer com o meu corpo o que ele bem quisesse... Foi o melhor momento da minha vida.

- Lavínia!... Não posso acreditar. Conheço-a muito bem. Sei que você não faria isso por sua livre vontade. Ele deve ter ameaçado você... Não se lembra que você sempre falou que a virgindade é sagrada e deve ser guardada para o casamento?

- Eu sei... Você não sabe como eu tremi e senti vergonha... Tive até que fechar os olhos... Mas a voz dele parece que tem grande poder. Algo estranho dentro de mim me impedia de resistir... Porém, se resolvesse ir embora, tenho certeza que nada aconteceria. O Adriano é um rapaz muito bom. Ele não me atacaria... Mas eu quis ficar ali. Quis ser possuída por ele e não me arrependo.

- A expressão do seu olhar é de felicidade, apesar da palidez do rosto.

- Estou muito feliz... sempre temi por este momento. Agora, eu sei como é bom. O prazer foi tão grande que supera a enorme dor que senti.

Ana Bárbara vira a cabeça e fica pensativa. Lavínia brinca com ela.

- Você deveria experimentar, Ana Bárbara. O Aleixo gosta muito de você... Por que não se entrega a ele?

- De jeito nenhum, Lavínia!

- Estou brincando... Nem sei como isso sucedeu comigo... Se adivinhasse que iria ocorrer, não iria encontrar o Adriano. Ficaria logicamente com medo.

Lavínia sorri.

- Ana Bárbara! Você nem calcula como gostei de rolar pela areia, nua e colada ao corpo dele... Estou com vontade de encontrá-lo de novo, mas confesso que tenho certo temor. Acho que doravante terei vergonha de encará-lo... Será difícil ele me possuir novamente. Falta-me coragem... Mas como gostaria que acontecesse outra vez!

As duas mudam de assunto com a chegada da Dona Veridiana. Lavínia finge estar com dor no estômago. Enquanto isso, encolhido dentro da caverna, por causa do frio, Adriano também pensa nos acontecimentos com Lavínia. Os dias passam, e ele começa a ficar intranqüilo, por falta de notícias sobre o retorno do Major Varela. A lembrança da possibilidade do pai estar vivo e preso num porão da corte ou da Vila Real da Praia Grande não sai da sua cabeça. As saudades de Rebeca e da Lavínia também ajudam a aumentar seu estado de depressão. Resolve voltar à cidade. Chega ao anoitecer à casa do Aleixo. O alferes assusta-se e fica zangado com a precipitação dele em abandonar o esconderijo.

- Não podia continuar lá, Aleixo... Tenho que procurar meu pai e provar a minha inocência.

- Você devia ter esperado um pouco mais. O Major Varela chegou hoje à tarde. Já falei com ele sobre seu problema. Amanhã, ele irá ao Paço Imperial... Peço para você regressar agora para Sacopenapan.

- Não agüento ficar lá. O lugar é lindo, mas, com os meus problemas, acabarei ficando louco naquela solidão. Dormirei hoje no meu quarto e não acenderei o lampião. O Dr. Cândido Augusto jamais pensará que estou no Largo do Capim.

- Está bem, Adriano. Porém, você não deve sair antes de eu resolver o caso com o Major Varela... Eu o avisarei sobre tudo.

Adriano entrega o cavalo a Aleixo e segue para o Largo do Capim. No dia seguinte, sua ansiedade aumenta. Resolve ir à Vila Real da Praia Grande à cata de informações, pois acha que o pai está aprisionado em um porão de algum casarão da vila. Sai com um barrete enfiado na cabeça, a fim de não ser identificado, e chega ao atracadouro. Parado à beira do cais, seu Gaspar o reconhece.

- Adriano!... A polícia está à sua procura. Você deve fugir... é perigoso ficar aqui tão perto da cadeia.

- Eu sei... Mas tenho que provar que não matei ninguém. Eles querem me implicar da mesma forma que envolveram o papai e o vovô... Tenho que provar minha inocência e a dos meus parentes... Irei à Vila Real da Praia Grande para investigar.

O engenheiro Hugo César também está no cais e fica assustado ao ver Adriano conversando com seu Gaspar.

- Adriano! Corra daqui, depressa! O Dr. Cândido Augusto está ali adiante, perto do chafariz... Fuja, antes que ele o veja.

A advertência do Hugo César chega tarde. O policial avista Adriano e avança em sua direção com os guardas que o acompanham. Adriano não se mexe e pede ao seu Gaspar e Hugo César para avisarem ao Aleixo. Os guardas o cercam. O Dr. Cândido Augusto aperta o braço e balança o corpo do rapaz. Depois, gesticula e fala com muita raiva.

- Você vai aprender a não ser fujão. Vamos levá-lo agora para a cadeia velha. Hoje mesmo você será transferido para uma fortaleza fora da cidade.

Seu Gaspar e Hugo César ficam perplexos, enquanto Adriano é outra vez preso e empurrado pelas ruas. Ao chegar à cadeia, os guardas o levam para uma cela pouco maior do que a anterior. Logo que entra, nota um homem idoso sentado num canto. O rapaz procura ficar afastado e calado. O velho aproxima-se.

- Você também é ladrão?

Adriano fica confuso com a pergunta. Não responde e, muito desconfiado, procura observar os movimentos do ancião.

- Você é jovem e não tem cara de gatuno... Por que foi preso?

- Por um crime que não cometi - declara Adriano.

O velho senta-se no chão e puxa assunto. Adriano conta toda a história do seu pai e seu avô.

- Eu conheci o Honório e o seu Tibúrcio. Acompanhei também as notícias do assassinato do Fulgêncio.

- Então, o senhor acha que foram os meus parentes que mataram o Fulgêncio?

- Não sei lhe dizer... O seu avô era um homem muito rico. Tinha uma grande fazenda em Maxambomba.

- Uma fazenda?!

- Sim... Mas ele a perdeu... O filho de um alemão tomou a fazenda dele.

Adriano se impressiona com o que acaba de ouvir. Vem à sua mente o nome do seu Ricardo, que é filho de alemão e possui uma fazenda em Maxambomba.

- O senhor sabe o nome do homem que tomou a fazenda do meu avô?

- Não me lembro. Sei que é muito rico e mora na Rua do Lavradio.

- Seu Ricardo!

- É isso mesmo, rapaz... O nome dele é Ricardo.

Adriano estremece e fica gelado. Balança a cabeça e não quer acreditar no velho. É uma grande dor para ele crer que o pai da Lavínia roubou a fazenda do seu avô. Se isso for verdade, o seu Ricardo também está envolvido no caso dos assassinatos. "Será que o papai está preso no porão da fazenda de Maxambomba?" - pensa. Adriano vai para um canto, não quer mais falar com o companheiro de cela. Passa horas sofrendo em silêncio. Um ruído de ferros do lado de fora faz ele parar de pensar em Lavínia e seu Ricardo. Um outro fato atormenta sua mente, pois desconfia que os guardas vão transferi-lo para uma longínqua fortaleza. Vê uma cabeça aparecer no engradado da porta.

- Adriano!... Adriano!... sou eu... o Aleixo.

Uma alegria apodera-se dele, e dá um pulo em direção à porta. Um guarda abre a cela, e ele vê Aleixo e Major Varela diante de si. Adriano olha espantado, enquanto o Major fala.

- Você está livre... Acabei de falar com o juiz. Aqui está o papel assinado com a ordem para sua liberdade. Você não precisa mais fugir.

Adriano abraça o Major e o agradece efusivamente. Eles caminham para fora da cadeia. Na rua, seu Gaspar e Hugo César os recebem com exultação. O Major Varela, muito vaidoso, brada para todos ouvirem.

- Além da decisão do juiz, estou com uma ordem do Paço Imperial para a Intendência Geral de Polícia deixá-lo em paz. Só haverá julgamento, quando a testemunha aparecer.

Aleixo convida todos para festejarem a liberdade do Adriano na taberna do seu Abílio. No dia seguinte, Adriano também é recebido em festa na ferradoria. Seu Venâncio aproveita para comunicar que Clemente João regressou para o povoado onde nasceu. Anuncia em voz alta que o novo feitor é o Adriano. O rapaz fica muito feliz, mas seu coração bate bem forte ao ver Rebeca aparecer na porta de entrada do casarão. Após o trabalho, no Largo do Rócio, Adriano encontra o velho escravo da casa do seu Ricardo. Procura falar com ele sobre a fazenda de Maxambomba, pois a conversa que teve com o ladrão na cadeia velha continua a martelar na sua cabeça.

- Lembra-se de mim? - indaga Adriano ao escravo.

- Nunca mais esquecerei do sinhô!... - Foi o sinhô que chegou montado na Centelha... Eu vi com estes próprios olhos.

Adriano comenta sobre a fazenda do seu Ricardo e pergunta ao escravo se ele a conhece.

- Eu nasci na fazenda - responde o escravo.

- A fazenda sempre pertenceu à família do seu Ricardo?

- Não... Antes teve outro dono... Um homem muito bom... O sinhô Tibúrcio.

A revelação deixa-o muito triste. "Não é possível - pensa bastante contrariado. O seu Ricardo, pai da minha amada Lavínia, tomou a fazenda do vovô. Ele deve ser o culpado de tudo que aconteceu com o meu pai e meu avô." Resolve não procurar mais Lavínia, embora saiba que vai sofrer. A moça também o evita por outra razão: sente-se sem coragem de tomar iniciativa de procurá-lo, por estar envergonhada pelo que aconteceu na praia. Fica na expectativa dele aparecer e encorajá-la. O tempo passa. Ela começa a entender que Adriano mudou em relação ao que era. Muito angustiada, vai ao encontro de Ana Bárbara.

- Agora, enxergo toda a verdade. Você tinha razão, Ana Bárbara. O Adriano é um canalha. Só queria se aproveitar de mim. Conseguiu o que queria e está se afastando... O pior é que estou apaixonada por ele.

- E você perdeu sua virgindade... Pode ser que agora o Samuel não queira casar com você.

- Não quero saber de mais ninguém. Não esperava esse comportamento do Adriano. Ele disse que me amava... Que viveria para sempre comigo. Que já considerava nós dois casados... Tudo mentira.

Lavínia Cristina chora, e Ana Bárbara tenta consolá-la. A moça retorna para casa muito triste, enquanto a amiga fica preocupada com o problema. No dia seguinte, Ana Bárbara acorda cedo e vai ao Largo do Capim. Está disposta a esperar Adriano sair para trabalhar, para xingá-lo. O rapaz desce as escadas e fica surpreso ao vê-la parada junto à porta do sobrado.

- Ana Bárbara!... O que faz aqui?

- Estou furiosa com você. Parecia ser bom rapaz, mas estragou a vida da minha melhor amiga. Você se comportou como um canalha... Por que você prejudicou a Lavínia? Por que a abandonou?

- Eu não abandonei a Lavínia. Eu a amo e quero viver para sempre com ela. Há, porém, um problema comigo no momento que impede uma aproximação nossa... Mas só penso nela e sofro por não poder encontrá-la.

- Ela me disse que você evitou olhá-la, quando ela passou outro dia na carruagem. Ela também sabe que você não tem ido às sextas-feiras à biblioteca.

- Eu sei que estou errado... A Lavínia não tem culpa se o pai dela errou. Mas preciso deixar o tempo passar um pouco... É terrível o que soube sobre seu Ricardo em relação ao meu pai.

- Terrível?!... O que é?

Adriano narra a história contada pelo velho ladrão na cadeia e a confirmação feita pelo escravo. Ana Bárbara escuta em silêncio. Quando o rapaz acaba de falar, ela pede desculpa por tê-lo chamado de canalha. Adriano acompanha-a até a Rua do Sabão. Deixa-a em frente à loja de fazendas e segue para a ferradoria. Ana Bárbara fala rapidamente com Dona Josefa e vai à casa de Lavínia. No palacete da Rua do Lavradio, conta à amiga a conversa que teve com Adriano. Lavínia fica feliz e passa o dia inteiro pensando no Adriano. Logo após o pôr-do-sol, vai à casa da Ana Bárbara. Dona Josefa está fechando a loja e diz que a filha acabou de subir. Lavínia cumprimenta Carolina e vai ao encontro de Ana Bárbara, que fica surpresa com a súbita aparição da amiga.

- Não consigo tirar o Adriano da minha cabeça - afirma Lavínia. Você guardou as vestes masculinas que lhe entreguei?

- Sim... Mas, o que você pretende fazer?

- O Adriano já deve ter chegado da ferradoria... Vou me disfarçar de homem gordo e subir ao quarto dele.

- Lavínia!... Não faça isso!... É uma besteira... Espera mais alguns dias... ele irá procurá-la.

- Veja como estou tremendo. Só em pensar que irei vê-lo... Não agüento mais, Ana Bárbara... Tenho que ir lá.

Lavínia Cristina troca de roupa. Em poucos minutos, está travestida de homem. As duas descem e chegam à porta da loja. Lavínia olha para a carruagem parada na calçada.

- Não fique preocupada, Ana Bárbara. Eu falei com o cocheiro que vou demorar. Ele pensa que estarei na sua casa. Não notará que este rapaz que está saindo sou eu.

Lavínia caminha pela Rua do Sabão, e Ana Bárbara a vê dobrar para o Largo do Capim. A moça sobe as escadas e bate no quarto do Adriano. Ele abre a porta e olha desconfiado. A escuridão no corredor dificulta o reconhecimento, pois o rosto dela está na penumbra.

- Procura alguém? - indaga ele.

Lavínia sorri e retira a carapuça. Seus cabelos surgem diante do rapaz, que a puxa para o interior do quarto e fecha a porta. Os dois se entreolham e acabam se beijando, sem proferir nenhuma palavra. Lavínia solta-se dos braços do namorado e anda até a janela. Adriano a segue e se coloca atrás dela.

- Meu amor. Que saudades de você - murmura ele perto do ouvido da moça.

- Por que você não me procurou, Adriano?

Ele passa a mão na cabeça. Fica em silêncio, procurando a melhor forma de explicar o drama que está vivendo. Lavínia segura suas mãos.

- Já sei de tudo, Adriano. A Ana Bárbara me contou. Por isso, resolvi vir aqui... Não acredito que o meu pai tomou a fazenda do seu avô.

Adriano fica calado. Somente a observa.

- Mesmo que seja verdade, o nosso amor está acima de tudo. Será horrível se houve de fato alguma coisa do meu pai contra o seu, mas devemos enfrentar juntos essa adversidade - conclui Lavínia.

- Você tem razão. Não devia ter fugido de você.

Adriano abraça-a. Eles sentam-se na cama e se beijam. A volúpia toma conta da moça, que o deixa retirar toda a sua vestimenta. Os dois passam a manter encontros amorosos no local. Toda a semana a mesma rotina: Lavínia diz à Dona Veridiana que vai visitar Ana Bárbara; na casa da amiga, troca de roupa e sai vestida de homem para encontrar-se com Adriano, enquanto Dona Josefa abana a cabeça e Carolina sorri para Ana Bárbara. Mas Lavínia não sabe que suas idas ao quarto do rapaz estão sendo espiadas por outra pessoa. No dia marcado com o namorado, ela surge da Rua do Sabão, adentra pelo Largo do Capim, chega à porta do sobrado, abre-a e sobe as escada. Na outra extremidade do largo, um homem a cavalo observa os seus movimentos. Ao vê-la entrar, ele se retira, trotando pela Rua do Fogo. Ao alcançar o Largo do Rócio, galopa em direção à Rua do Conde e dobra a Rua do Lavradio. Pára em frente ao palacete da família Glockner. Sem apear-se do cavalo, diz ao mordomo que quer falar urgente com o dono da casa. Logo depois, vestindo um elegante chambre, surge na porta o seu Ricardo.

- Oh! Cristóvão!... O que se passa? Por que você não entrou?

- Preciso que você me acompanhe... Consegui uma prova que o empregado da ferradoria do Venâncio é um conspirador... Neste momento, ele está reunido no sobrado do Largo do Capim com outro homem perigoso. Estão armando um conluio contra o Império.

- Tem certeza, Cristóvão?

- Sim... Eu já vi aquele gordo estranho entrar outras vezes no sobrado. Os dois aparecem lá em cima e olham para baixo, como se estivessem preocupados. Depois, trancam a janela. O desconhecido demora muito tempo com o Adriano.

- Por que você desconfia deste estranho? Ele pode ser apenas um amigo do Adriano!

- Por causa do modo dele caminhar junto à parede e procurando esconder o rosto quando alguém passa. Suas atitudes são suspeitas.

- E se não for verdade?... Temos que ter certeza, Cristóvão... O Adriano foi acolhido na minha casa, após sofrer uma agressão. A minha família cuidou dele com carinho. Todos aqui em casa gostam do rapaz. Meus filhos e minha mulher vão me censurar, se eu cometer uma injustiça contra o Adriano... Temos que ter certeza, Cristóvão.

- Podemos esperar o homem estranho sair do quarto, e pegá-lo em flagrante na rua. Vamos levá-lo para a polícia. Ele vai confessar tudo. Se, por acaso, eu estiver errado, o Adriano nem saberá que fomos nós que interceptamos o seu amigo.

Seu Ricardo passa a mão no queixo, enquanto seu Cristóvão continua a falar.

- Se descobrirmos a conspiração, o seu tão sonhado título de barão será mais fácil de conseguir.

Seu Ricardo balança afirmativamente a cabeça.

- Vou mandar selar meu cavalo. Volta ao Largo do Capim e fique vigiando. Daqui a pouco estarei lá.

Seu Cristóvão retorna ao Largo do Capim. Nota que o lampião ainda está aceso no quarto de Adriano. Sem desmontar, esconde-se na esquina da Rua São Pedro. Pouco depois, seu Ricardo chega. Eles confabulam e se colocam em lugares estratégicos perto da Rua do Sabão. Do local onde está, seu Cristóvão vê toda a fachada do sobrado. Assim, faz sinal para seu Ricardo logo que Lavínia surge disfarçada de homem e tenta alcançar a Rua do Sabão. Os dois colocam lenços para esconder o rosto e avançam em direção à moça. A jovem assusta-se e encosta-se na parede. Eles desmontam dos cavalos e a cercam. Seu Cristóvão a segura pelo braço e retira a carapuça da sua cabeça. Os cabelos dela aparecem, e seu Ricardo reconhece a filha. Fica exaltado e dá violenta bofetada na moça. Ela cai no chão, sem saber realmente o que está acontecendo. Mas fica estarrecida quando seu Ricardo retira o lenço do rosto. Ela começa a chorar. Seu Cristóvão ajuda-a a erguer-se do chão. Seu Ricardo continua vermelho de raiva.

- Que desonra para a nossa família - diz ele. - Encontrar-se às escondidas com um ferrador de cavalos.

- Eu o amo e tenho orgulho dele ser ferrador - replica ela, com os olhos cheios de lágrimas.

Seu Ricardo manda seu Cristóvão enfiar a carapuça na cabeça da filha, para evitar que alguém a reconheça naqueles trajes.

- Nós iremos para casa. Não podemos ficar discutindo o assunto na rua. Suba na garupa do meu cavalo - ordena seu Ricardo.

A moça reluta e diz que o cocheiro e a carruagem estão em frente à loja de fazendas ali adiante.

- Vou trocar de roupas na casa da Ana Bárbara e retornar de carruagem. Não quero que ninguém desconfie do que aconteceu. O nosso cocheiro está esperando.

Seu Ricardo hesita, mas acaba concordando com a filha. Ao ficar a sós com seu Cristóvão, mostra-se completamente arrasado e abaixa a cabeça.

- Desculpa o que fiz... Nunca poderia imaginar - murmura seu Cristóvão.

Seu Ricardo bate no seu ombro.

- Você não teve culpa. Afinal, sem querer, ajudou-me a descobrir um grave problema dentro da minha família. Só peço para guardar segredo. Que diriam as pessoas?... A filha do Ricardo Glokner Schiller, amante de um ferrador de cavalos.

Eles separam-se, enquanto Lavínia chega à casa da Ana Bárbara. Bastante nervosa, conta tudo o que se passou à amiga.

- Por favor, Ana Bárbara. Amanhã cedo, vá falar com o Adriano sobre o que aconteceu... O meu pai vai me trancar em casa, e não vou mais poder vê-lo.

Ao chegar ao palacete da Rua do Lavradio, Lavínia encontra o pai e a mãe esperando-a no átrio da residência. Os três se fecham numa sala contígua. Após ásperas palavras contra a filha, seu Ricardo resolve afastá-la da cidade. Ela terá que ir para a fazenda da família acompanhada pela sua aia, a velha escrava Joaquina. Seu Ricardo retira-se, e Dona Veridiana abraça a filha.

- Por que você fez isso, Lavínia?

- Não sei... Não sei... Tudo aconteceu de repente. Só sei que amo muito o Adriano... Eu quero me casar com ele.

Dona Veridiana se assusta com a afirmação da filha.

- Tente esquecê-lo, Lavínia. Você está prometida ao Samuel. Veja a diferença entre eles: o Samuel é um rapaz nobre, de boa família e formado em Coimbra.

- Mas eu gosto é do Adriano. Além de tudo, apesar do diploma do Samuel, o Adriano tem mais cultura do que ele. O Adriano vê o mundo bem diferente, pois está avançado no tempo... Eu queria que a senhora conversasse com o papai sobre a possibilidade do nosso casamento.

- Deixa passar uns tempos. O seu pai está enfurecido. Amanhã, você irá para a fazenda. Quando você regressar, se ainda sentir alguma coisa pelo Adriano, eu tocarei no assunto com seu pai.

- Mas é claro que quando eu voltar ainda estarei apaixonada.

Dona Veridiana franze a testa. Lavínia muda de assunto.

- Quem era o dono da fazenda do papai antes dele?

- O seu pai nunca me falou sobre os seus bens. Quando eu me casei, ele já era dono da fazenda. Mas por que você quer saber?

- Não é por nada, mamãe... É por curiosidade.

Dona Veridiana segura a mão da filha.

- Quero que me prometa que não vai ter relações íntimas com o ferrador. Se você cumprir este meu pedido, juro que tudo farei para você se casar com o Adriano.

- Pode ficar tranqüila, mamãe. Não me entregarei mais ao Adriano. Só depois que me casar com ele.

Capítulo 7

Adriano fica triste e aborrecido quando Ana Bárbara relata os acontecimentos da noite anterior e lhe comunica que Lavínia está fora da cidade. A moça acrescenta que Dona Veridiana a recebeu friamente e não falou aonde a filha se encontra. O ferrador, muito contrariado, segue para a casa do Aleixo e desabafa com o amigo.

- Não agüento mais, Aleixo. Parece que o mundo vai desabar. Não bastava a desconfiança que eu tenho do seu Ricardo. Agora, ele me separa da filha. Não sei para onde mandou a Lavínia.

- Desde que chegou ao Rio de Janeiro, sempre consegue contornar os problemas que surgem. Fique calmo... Nem tudo está perdido. Acredito que você resolverá mais este infortúnio.

- É... a vida continua. Amanhã, será o dia do meu encontro com a Rebeca na casa da Carlota. Estou ansioso para amá-la, a fim de suavizar o meu estado de depressão.

No dia seguinte, ele conduz a carruagem pelo Caminho de São Cristóvão. Ao chegar ao solar da Carlota, Rebeca salta, manda-o aguardar e entra para falar com a amiga.

- Estava esperando-a, Rebeca... Soube uma coisa que vai deixá-la muito magoada.

- O que foi, Carlota?... Diga logo!

- É difícil começar. Sei que você vai ficar abatida... O meu marido desconhece o seu caso com o Adriano e nem que você vem aqui com ele... Você sabe que isso é segredo entre nós... Mas ele conhece o Adriano pessoalmente.

- Estou ficando nervosa!... Fala logo!

Carlota gagueja e começa a falar com Rebeca. No lado de fora, Adriano leva os cavalos, já desamarrados, para o bebedouro. A demora da sua amada faz ele olhar diversas vezes para o casarão, onde ela conversa com Carlota. Finalmente, ela aparece. O rapaz estranha a falta do sorriso costumeiro e percebe que ela está com a cara amarrada. Mas corre em sua direção para abraçá-la.

- Tira as mãos sujas de mim. Não me toque... Coloca os cavalos na carruagem. Vamos voltar imediatamente para a ferradoria.

Adriano tenta saber o que houve, mas ela afasta-se e fica parada no varandão do solar. Ele abana a cabeça, sem entender nada. Enquanto Rebeca retorna ao interior da casa, Adriano atrela os animais à carruagem. Quando o veículo fica pronto, ele atiça os cavalos para deixá-los bem juntos da varanda. Chama por Rebeca. Ela aparece com a Carlota. Ele tenta ajudá-la a subir; mas, muito zangada, ela repele o auxílio. Sem saber o que está acontecendo, Adriano conduz a carruagem rumo ao Largo Mataporcos. Em certo momento, sai do caminho e entra pelo capinzal. Rebeca abre a cortina e estica a cabeça para vê-lo na boléia.

- O que você está fazendo? - grita ela.

Adriano pula para dentro da carruagem e a segura pelo braço.

- Vamos ficar aqui até você falar. Tenho o direito de saber o que está acontecendo. Só sairemos depois que você explicar esta sua atitude.

- É sobre a Lavínia Cristina, a filha da Dona Veridiana.

Adriano sente a cabeça rodopiar. Fica estarrecido a fitar Rebeca. Ela começa a chorar. Ele tenta abraçá-la.

- Tire as mãos de mim... Como pude acreditar em você este tempo todo. Você me traiu... Você me traiu... Não quero vê-lo mais... Nunca mais.

Adriano não sabe o que fazer. Pensa em ficar calado. Mas, inconscientemente, sai a pergunta dos seus lábios.

- A Carlota falou alguma coisa sobre a Lavínia?

- Sim... Contou-me tudo... Estou muito chocada... Você mantendo encontros amorosos com ela no sobrado do Largo do Capim... Parece um pesadelo... O marido da Carlota viu a moça sair do seu quarto.

- Quem é o marido da Carlota?

- É o seu Cristóvão.

- Um que é da Intendência da Polícia... Da iluminação pública?

- Sim.

Ele lembra-se das palavras da Ana Bárbara: "O pai da Lavínia estava com o seu Cristóvão, quando a surpreendeu no Largo do Capim." Adriano olha para Rebeca e tenta enxugar as lágrimas que correm do seu rosto. Ela afasta-se e encolhe-se no banco da carruagem.

- Leva-me para minha casa.

- É melhor eu levá-la... Você está deprimida... Não conseguirei explicar nada... Outro dia, conversarei com você sobre o assunto.

- Nunca mais quero vê-lo... Estou arrependida por tudo o que fiz. Não me chama de você... Sou sua patroa, não esqueça.

Adriano desce do interior da carruagem e sobe na boléia. Rebeca levanta a cabeça e o encara.

- Você confirma o que seu Cristóvão disse à Carlota? - inquire ela.

Adriano abaixa a cabeça e responde muito desanimado.

- Sim... Não posso mentir para você.

Ela fecha a cortina. Adriano agita o pingalim para incitar os animais a seguir viagem. O resto do dia na ferradoria é um tormento. Ele sente-se arrasado. À noite, não sai do quarto. Durante o sono, tem diversos pesadelos; ora com Rebeca, ora sonhando com Lavínia. No dia seguinte na ferradoria, procura não transparecer sua agonia diante dos demais empregados. Antes da hora do almoço, Tomás avisa que seu Venâncio o chama. Adriano vai ao encontro do patrão.

- Como está o serviço? - pergunta o dono da ferradoria, logo que Adriano entra no escritório.

- Tudo normal.

- Podes sentar... Não é sobre o serviço da ferradoria que quero falar... A Rebeca me contou tudo.

Adriano quase cai da cadeira.

- Contou?! - exclama ele.

- Sim... Disse que tu estavas sem coragem de transmitir o caso para mim... Mas podias ter me dito. Eu entenderia a situação.

- O senhor compreenderia?

- Sim... Tu poderias ter falado diretamente comigo.

Adriano fica cismado... "A Rebeca não devia ter falado sobre o assunto. Ela deve estar alucinada." - pensa ele.

- De fato é uma situação constrangedora: o feitor da ferradoria ser também cocheiro - retruca seu Venâncio.

- Como assim?

- A Rebeca me falou sobre a conversa que vós tivestes ontem.

- Ela não devia ter falado com o senhor.

- Eu te dou razão em ficares constrangido por conduzires a carruagem, após assumires o cargo de feitor no lugar do Clemente João.

Adriano fica em silêncio, enquanto seu Venâncio gesticula.

- Eu acho justa a sua preocupação. Já decidi o que fazer. O Tomás já está crescido. Daqui por diante, ele será o cocheiro da Rebeca.

- Não é necessário, seu Venâncio. Eu posso continuar levando sua senhora - fala Adriano, tentando fazer o patrão voltar atrás.

- Não precisa temer! Não estou aborrecido por te queixares com a minha esposa.

Adriano descobre a trama armada por Rebeca. Ela realmente não quer mais vê-lo. Decide não falar mais nada diante do seu Venâncio. Ela inventou aquele estória, mas guardou o segredo dos encontros amorosos. No final da tarde, ele se encontra com Aleixo à beira do cais e conta para o amigo o seu novo drama.

- Minha situação cada vez piora. Depois do problema com a família da Lavínia, pensei em extravasar minha angústia nos encontros com a Rebeca... Agora, perdi as duas... Que momento horrível estou vivendo!... Além disso, a possibilidade do meu pai estar vivo continua a me atormentar. Aleixo olha o mar ao ver um bergantim se afastar.

- Adriano!... O pior será se a senhorinha Lavínia Cristina souber que a madame Rebeca é sua amante... Você já imaginou isso?

- Não acredito que isso possa acontecer. A Rebeca não revelará nosso segredo a ninguém... A expressão dela na hora da briga e seu ciúme me dão certeza que ela gosta de mim... Ela também está sofrendo Aleixo.

- Um dia, você terá de escolher entre a senhorinha Lavínia Cristina e a Madame Rebeca.

- Eu sei... eu sei... Mas não quero pensar nisso.

- Você pretende se casar com a senhorinha Lavínia Cristina?

- Sim.

- Como vai ficar a Madame? Ela saberá do casamento?

- Não adianta pensar nisso agora... Perdi as duas... Acho, no momento, o casamento com Lavínia quase impossível de acontecer.

- Você deveria reflexionar sobre o assunto. O caso com a madame Rebeca tornou-se difícil. O romance de vocês acabou, pois ela é mulher de grande personalidade. Não vai acreditar mais em você, sabendo da existência da senhorinha... Acho melhor você lutar somente pela senhorinha Lavínia Cristina... Não tente voltar para as duas, pois corre o risco de ficar sem nenhuma.

- É... Você está certo... Mas veja só: a Lavínia não é casada, porém a família é uma barreira para minhas pretensões... Estou realmente numa situação bastante complicada.

Eles se despedem. Ao chegar ao sobrado do Largo do Capim, Adriano medita sobre a conversa com Aleixo e decide doravante só procurar a Lavínia. "Vai ser duro viver sem Rebeca, mas seria horrível também perder Lavínia." O Aleixo tem razão. É melhor procurar só a Lavínia - pensa ele." O movimento na ferradoria na manhã do dia seguinte é grande, por causa de chegada de muitos cavalos para ferrar. Adriano orienta os escravos e empregados, quando seu Venâncio aparece com um largo sorriso no rosto.

- Hoje é o dia mais feliz da minha vida - afirma seu Venâncio, puxando Adriano para um canto do terreno.

O rapaz fica calado, somente fita o patrão.

- Consegui, Adriano... Consegui fazer um filho... A Rebeca está grávida... Afinal, venci esta minha terrível anomalia... Vou ser pai e estou muito contente.

Adriano empalidece. Fica confuso enquanto seu Venâncio continua a falar.

- Os médicos nunca descobriram o motivo da minha infertilidade. Porém as ervas indígenas, receitadas pela curandeira, deram resultado. Finalmente, após muitos anos de casado, serei pai... Que felicidade!

Adriano fica perplexo. Seus pensamentos estão longe e não ouve o restante da conversa do patrão. "A Rebeca está esperando um filho - pensa ele. - Só pode ser meu. Não acredito em ervas milagrosas. O filho é meu." Após seu Venâncio retirar-se, ele tenta trabalhar. Mas não consegue por a cabeça não lugar. Uma obsessão de encontrar Rebeca e falar sobre a gravidez toma conta do seu ser. Não consegue ficar parado na oficina. Vai até às baias e aproxima-se de Tomás.

- Qual o dia que tu levarás a madame à casa de Dona Carlota?

- Amanhã, sinhozinho.

- Eu preciso de um favor para amanhã... Tu sabes onde fica o palacete do seu Ricardo Glockner, na Rua do Lavradio?

- Sim, sinhozinho. Já fui lá muitas vezes.

- Tu sabes guardar um segredo?... Posso confiar na tua pessoa?

- Sim, sinhozinho.

- A Dona Rebeca e Seu Venâncio não podem tomar conhecimento do que eu vou te falar... Amanhã, no mesmo horário marcado para levares a madame a São Cristóvão, quero que tu vás à Rua do Lavradio se informar com os escravos do seu Ricardo aonde a filha dele está. Mas não esqueças que é segredo... A família do seu Ricardo não pode saber.

- Como irei fazer as duas coisas ao mesmo tempo, sinhozinho?

- É que eu tomarei o seu lugar na boléia, sem a Dona Rebeca saber. Eu a levarei a São Cristóvão.

- Não sinhozinho. É perigoso. A sinhá vai ficar zangada comigo. A sinhá vai descobrir que não sou eu... Vai ficar aborrecida.

- Quando chegar à casa da Dona Carlota, eu explico a ela que tu foste fazer um serviço para mim... Tu és ou não és meu amigo?

- Sou sim, sinhozinho.

- Está tudo combinado. Amanhã, tu deves atrelar o cavalo na sege e não na carruagem grande. Mas não se esqueça que é um segredo entre dois amigos. Ninguém poderá saber, principalmente o seu Venâncio.

- O sinhozinho pode confiar em mim.

- Lembre-se de outra coisa: tu só voltarás à ferradoria no momento de eu retornar com a sege.

No dia seguinte, Tomás prepara a sege, enquanto Adriano explica a ele como agir. O escravo leva o veículo para a frente do casarão e sobe na boléia. Adriano esconde-se perto do portão da ferradoria e vê Rebeca entrar na sege e fechar a cortina. Ele corre e pula na boléia, deixando Tomás mais apavorado. A pequena carruagem segue pelas ruas da Misericórdia e São José. Ao atingir a Rua Matacavalos, o escravo salta com ela em movimento e oculta-se no matagal para Rebeca não vê-lo. Adriano prossegue na guia do cavalo solitário da sege. Em pouco tempo, alcança o Largo Mataporcos. Ao invés de seguir pelo Caminho de São Cristóvão, entra pelo Caminho do Engenho Velho. Rebeca, pela janelinha lateral, nota que o veículo saiu do trajeto para a casa da Carlota. Pensa que Tomás se enganou e grita, sem abrir a cortina que a separa do lugar do boleeiro.

- Tomás... Tomás... Tu erraste o caminho.

Adriano permanece mudo e bate no cavalo para ele correr mais. Rebeca brada novamente pelo nome do escravo. O silêncio e aquela correria faz com que ela abra a cortina. Leva um susto ao deparar com Adriano ao invés do Tomás.

- Ah! Não é possível!... Pare... Pare, por favor!

Adriano continua a chicotear o animal. Rebeca tenta puxá-lo pelo braço. Ele diminui a velocidade e vira-se para ela.

- Procure ficar calma. Eu quero falar com você.