O Estigma da Cruz de Rubis

Waldemar Costa

 

Capítulo 1

O tropel dos cavalos levanta a poeira na estreita Estrada dos Macacos, no bairro rural de Jacarepaguá. É o último dia do ano de 1925. Um velho caboclo desvia e quase cai na vala com seu carro de boi. Com gestos obscenos e gago pela raiva, amaldiçoa os jovens que passam montados nos dorsos dos eqüinos. Os moços sorridentes ganham distância e deixam o carroceiro para atrás. Bem adiante, Héspero levanta o braço e pede para os amigos diminuírem a velocidade. Todos os cavaleiros o rodeiam. O rapaz grita com todos os pulmões.

- Vamos dividir. A minha turma segue pelo caminho da Fazenda do Valqueire. O mano Hermes e seus companheiros seguem pelo caminho da chacrinha. Vamos nos encontrar junto da cachoeira.

- Um momento - berra Hermes, aproximando de Héspero.

- Você não quer ir se deliciar das águas da cachoeira - brinca Héspero.

- Não é nada disso. Quero apenas trocar os caminhos. Você sempre escolhe o caminho da fazenda, pois sabe que vai chegar primeiro. Você é muito esperto. O caminho da chacrinha é mais longo. Você sabe disso. O terreno é pedregoso. É muito mais difícil ir por lá. Desafio a ir pela chacrinha.

- Não entendo você, Hermes... Hoje ao acordar, você disse que queria ir pelo caminho da chacrinha... Mas não faz mal. Pode ir pela fazenda... Não me incomodo... De qualquer jeito, ganharei a corrida. Você vai ver.

Os cavaleiros, formando dois grupos, se separam. Sete seguem Hermes pelo caminho da Fazenda do Valqueire. O cavalo de Héspero empina e relincha como se fosse um grito de guerra.

- Vamos, Faísca - sussurra o jovem na orelha do animal, enquanto a mão afaga carinhosamente a cabeça do cavalo que já dispara em direção ao caminho da chacrinha.

A vereda é perigosa para correrias com animais. Porém, Faísca imprime velocidade e arrasta os outros cavalos atrás de si. Héspero, com a boca colada na orelha do eqüino, fala palavras conhecidas pelo bicho, obrigando-o a manter o ritmo veloz. Os cavaleiros vencem o atalho tortuoso da floresta e chegam à clareira junto da cachoeira. Não há ninguém. Héspero e seus amigos gritam com alegria celebrando a vitória. Héspero é o primeiro a desmontar.

- Muito bem! Tragam os cavalos para os córregos. Eles merecem beber água... Afrouxem as selas e os bridões

Neste instante, os outros oito cavaleiros entram a galope na clareira. Hermes puxa as rédeas com violência. Seu cavalo chega a deslizar antes de parar. Ele demonstra em seu rosto a ira por ter perdido a corrida. Com os olhos vidrados, encara demoradamente para o irmão. Eduardo, João e Hércules aproximam-se de Héspero, com a intenção de defendê-lo. Hermes cospe no chão e resolve ir para o outro lado da clareira.

- Seu irmão não gostou da derrota - fala Eduardo

Héspero coça a cabeça e sacode a poeira da roupa.

- É... Parece que o mano tinha certeza que hoje chegaria primeiro.

- Não consigo justificação para as nossas vitórias. É mesmo muito difícil de compreender. Se escolhemos o melhor caminho, chegamos primeiro. Se seguimos pelo pior, também vencemos. Não é possível entender.

Héspero segura Eduardo pelo braço e puxa-o para o lado. Em seguida, aponta para Hermes.

- Está vendo o que meu irmão tem nas botas.

Eduardo vira o rosto em direção a Hermes.

- Esporas - responde.

- Aquele pequeno artefato de metal esclarece sua pergunta.

Héspero afaga lentamente a crina de Faísca. A mão do rapaz passa por todo o pescoço do animal até a cernelha. Eduardo, João e Hércules estão atentos, a fim de saber o que ele quer dizer.

- Na realidade, a ação da espora condiciona o cavalo a correr cada vez mais quando é aplicada em seu corpo. Mas tem outra força que o faz render ainda mais. É a energia do amor. Com a espora, o cavalo obedece mais por medo do que amor. Qualquer animal que tem apego ao dono e que recebe dele todo o afeto está sempre disposto a dar tudo. Por isso, é que a atuação do Faísca é excelente em todos os caminhos. Para o cavalo, correr faz parte da sua vida. Com carinho e amor, e não ferido pela espora, ele produz muito mais. É esta a explicação que tenho.

- Tudo bem. Você deve estar certo - diz João. Mas por que outros cavalos não tão velozes chegam logo atrás do Faísca?

- Além de veloz , Faísca é o líder de toda a manada. Esta liderança faz com que os outros cavalos se esforcem para segui-lo. Sem a presença de Faísca , o rendimento cai muito. Vocês já devem ter notado isso... Os cavalos que vieram pelo caminho da fazenda, inclusive o do meu irmão, estavam afastados do seu líder. Por isso, correram com menos velocidade.

Os quatro rapazes vão de encontro aos outros que já se banham na pequena cachoeira do Morro do Valqueire. A água cristalina é refrescante. Todos se divertem por mais de uma hora até chegada a hora de preparar para o retorno. Alguns ainda teimam em aproveitar as águas que vem de muito longe, atravessando a serra do Engenho Novo. Héspero calça as botas e pede para os amigos se apressarem. Perto dele, estão Eduardo e João. Héspero olha para os amigos e os convida para a festa do réveillon.

- Não deixem de ir hoje à noite à minha casa. Levem a família.

Hermes também estava perto e aproxima-se mais com seu ar zombeteiro. Grita para todos na clareira o ouvirem.

- É mesmo, Eduardo... Não falte... Mas não deixe de levar a Abigail. A festa sem ela será muito chata.

- Hermes!... Você está passando do limites - fala Héspero, também em voz bem alta. Exijo que respeite o Eduardo. A Abigail é namorada dele.

Hermes fica rubro de raiva e aproxima-se de Héspero com o chicote enrolado preso no punho. Hércules se coloca entre os dois irmãos.

- O que está acontecendo - brada Hércules, com autoridade. Hoje é dia de confraternização. É o último dia do ano. É dia de festa. Vamos acabar com isso. Não quero ninguém aqui enfurecido. Vamos voltar para casa todos alegres. Hoje é dia de alegria.

Hermes sorri.

- Que isso, Hércules!... Ninguém vai brigar. Não precisa preocupar-se com nosso irmãozinho... O bebezinho... Afinal, ele é o caçula e tem direito de ser malcriado.

Às gargalhadas, Hermes monta no cavalo e afasta-se a galope. Todos os outros, inclusive os amigos de Hermes, ficam parados observando o cavaleiro solitário sumir lá longe na colina. Hércules dá uns tapinhas nas costas de Héspero.

- Vamos todos montar e seguir no trote. Não estamos com pressa.

A turma desce a serra em direção à Praça Seca, que eles alcançam em pouco tempo. Atravessam a praça e chegam à Rua Baronesa diante da propriedade do seu Leopoldo, pai de Héspero, Hércules e Hermes. A casa é grande é cercada por enorme terreno. Ao lado, a residência do seu Floriano, pai do Rafael. Em frente, a centralizada e bonita casa do Lourenço. Vizinha do prédio do Lourenço, uma grande área também herdade do seu Leopoldo, onde estão as cavalariças e a pocilga. Os rapazes esperam Justino abrir a porteira. Depois, entram e deixam os cavalos na estrebaria. Justino grita para os outros empregados retirarem as selas dos animais. Todos retornam à rua . Héspero demora um pouco no portão da sua casa, conversando com Eduardo e João, enquanto os demais se afastam e voltam para suas casas. Do outro lado da rua, o Lourenço acena para Héspero e pede para ele dar um recado para seu Leopoldo. Héspero faz sinal de sim com a cabeça. Despede-se dos amigos e atravessa o portão da sua residência. Os cachorros Síber e Sibéria o esperam com os rabos abanando. Héspero afaga os dois. Segue em direção à varanda, conversa com a irmã Hermíone e acaricia a sobrinha Genoveva de apenas alguns meses de idade. Vai à cozinha, beija a mãe Honorina e pergunta pelo almoço.

A grande mesa da sala já está preparada. É bastante farta. Aos poucos, a família ocupa seus lugares. A cadeira da cabeceira do seu Leopoldo está vazia. À direita, os filhos Hermes, Hércules e Héspero. À esquerda, Hermíone e o marido Manoel com a outra filha Madalena de dois anos de idade. Em pé na outra extremidade, D. Honorina serve os pratos ao mesmo tempo que recebe a comida da cozinheira. O silêncio dos filhos chama-lhe a atenção. Ela resolve iniciar uma conversa.

- Parece que estão em um velório. Esquecem que é dia de festa. Amanhã, será outro ano. Começará 1926, que rezo todos os dias para vocês serem felizes.

- Enquanto tratarem o Héspero como um rei, só por ser o caçula, não acredito em felicidade nesta casa - replica Hermes.

- O que é isso! - interrompe D. Honorina. O que houve com vocês no passeio desta manhã?

- Ele me ofendeu na frente dos meus amigos. Acho que o irmão mais moço tem que respeitar o mais velho... Aqui é tudo errado. O Héspero é o único que prosseguiu nos estudos e o único que vai se formar. Enquanto, eu e o Hércules sempre ajudamos nosso pai na produção do sítio.

- Não estou aqui para defender o Héspero - pondera Hércules. Nem preciso, pois ele é que vai se diplomar em direito. Mas já que mencionou o meu nome, lembro-lhe que fomos nós que escolhemos trabalhar no campo ao invés dos estudos... Você já esqueceu que sempre estimulou o Héspero a estudar, dizendo que era para não ser burro iguais a nós... Era tudo brincadeira, mas você quer que o Héspero se forme... Eu sei qual é a causa da sua irritação... Não é pelos estudos do Héspero... Você está com raiva, porque perdeu mais uma corrida de cavalo.

Hermes faz menção de replicar, mas pára ao notar que o pai entra na sala. Seu Leopoldo tem cabelos bastante grisalhos, mas não aparenta os seus 75 anos de idade. Apesar do domínio sobre os filhos, não é pai autoritário. Muitas vezes faz vista grossa para as desavenças na família.

- Ouvi vozes altas - fala ao mesmo tempo que senta-se à mesa. Houve alguma briguinha?

- Não, papai - reponde Héspero, procurando antecipar aos irmãos. Estávamos apenas comentando o passeio de hoje na cachoeira.

 

Capítulo 2

A noite de 31 de dezembro de 1925 está bela. As luzes cintilantes unem o firmamento e trazem para as pessoas que o contemplam a paz celestial. Sentados na varanda, Héspero e Edith têm visão completa das estrelas náuticas. Calados, eles olham para o céu em direções às Constelações de Órion , Cão Maior, Cão Menor e Touros.

- A mais bonita é a que tem as Três Marias no centro - diz Edith.

- É a Constelação de Órion. As principais estrelas são as que formam o quadrilátero. As do meio, as populares Três Marias, os antigos imaginavam que eram o cinto do caçador da mitologia grega.

Edith encosta a cabeça no ombro do namorado e contempla as três estrelas.

- São bonitas.

- De fato, Edith. Mas existem outras coisas belas no céu deste ângulo que estamos observando... Olhe um pouco abaixo das Três Marias... É fácil de ver por causa do brilho.

- Estou vendo sim.

- É a estrela Sírius da Constelação do Cão Maior... A mais brilhante de todo o céu... No lado de cima do quadrilátero da Órion, você está vendo uma estrela de cor vermelha.

Edith desencosta do ombro de Héspero e faz menção com a cabeça que sim.

- Esta estrela vermelhinha muitos confundem com o planeta Marte, justamente por causa da cor. Ela se chama Aldebaran e é da Constelação de Touros.

Edith aconchega-se ao rapaz , e os dois voltam a ficar em silêncio. Héspero desvia o olhar para a sala, onde jovens dançam maxixes, valsas, polcas e charleston. Num canto do cômodo, vê João bastante preocupado em girar a manivela do gramofone, a fim de obter som bastante forte pela corneta do aparelho. Eduardo dança com Abigail. Os dois extravasam suas alegrias, quando João coloca no fonógrafo o disco Café com Leite, maxixe para o carnaval de 1926. Uma coisa chama atenção de Héspero. Em outro canto da sala, seu irmão Hermes faz sinais para Abigail pelas costas de Eduardo. Héspero irrita-se. Levanta-se bruscamente e puxa Edith pelo braço.

- O que foi? Você me assustou.

- Não é nada, Edith. Vamos sair um pouco. Quero lhe mostrar o resto da propriedade do meu pai.

Os dois descem o degrau da varanda e rapidamente chegam ao pequeno portão de madeira que dá para a rua. Já do lado de fora da propriedade, eles observam a casa em frente do Lourenço, onde há outra reunião familiar. Atravessam a rua e passam rente ao muro. Lá dentro, o Lourenço grita efusivamente, desejando aos dois um feliz ano novo. Héspero e Edith respondem da mesma maneira, mas sem parar. Continuam em direção ao estábulo do seu Leopoldo.

- Quem é ele? - pergunta Edith

- É o Lourenço... Ele trabalha em exportação na Praça Mauá. Gosta muito de conversar com meu pai.

- É casado?

- Sim... Você viu aquela loura do grupo?

- Vi sim... Ela chama muito atenção pela roupa que usa.

- O Lourenço é casado com ela... Por que você quer saber?

- Ele corteja uma amiga minha. Ele disse para ela que é solteiro.

- O Lourenço é muito mulherengo. Passa horas com um copo na mão na porta dos botequins da Praça Seca olhando as moças que passam e dirigindo galanteios a elas.

Eles passam entre a cerca e a vala. Entram na cavalariça. Héspero grita o nome de Justino. O empregado aparece e os dois andam em sua direção.

- O Justino é um preto-velho muito dedicado. Foi escravo aqui mesmo, quando toda esta região era um engenho.

Os três aproximam-se das baias. Faísca relincha ao sentir a presença do dono. Edith fica encantada com o porte do cavalo.

- Que bonito! - diz ela. O corpo é quase todo branco. Só a cabeça e um pedaço do peito é de cor preta.

- É que é noite, Edith. Você não reparou que as partes superiores das duas patas dianteiras também são pretas

- Ah!... Sim.

- Durante o dia o Faísca ainda é mais belo. Com a luz do sol, este preto retinto fica bastante brilhoso.

A moça revira os olhos paras as muitas baias, todas ocupadas por animais.

- O que vocês fazem com todos este cavalos? Vendem?

- Os de estimação são para o serviço da nossa propriedade. Ficarão conosco até morrer. É o caso do Faísca. Mas a maioria dos cavalos o meu pai negocia com o exército. Nos fundos, temos muitos porcos. No terreno da nossa casa, há grande galinheiro e um pomar. Meu pai vende quase tudo o que produz. Muita coisa, porém, é para o consumo da nossa família.

- Se você gosta tanto da vida do campo, por que estuda Direito?

- É, Edith... Reconheço que são atividades um pouco diferente: a vida no campo e os estudos. Eu sempre adorei a roça... Mas também tenho uma paixão em aprender tudo sobre o mundo... Quero ser advogado. É uma profissão muito boa, Edith... Uma profissão que procura ajudar aos que precisam de proteção.

Héspero faz sinal para Justino e caminha de volta para a casa com Edith. Continua ao andar relembrando a sua vida no campo.

- Nasci nesta casa... Meu pai era de família tradicional... Mas largou tudo e veio para cá em 1870 trabalhar na colocação dos trilhos dos bondes da Rua Cândido Benício... Naquela época a rua tinha outro nome: Estrada de Jacarepaguá... Em 1870, meu pai era bastante jovem, mas já possuía grande experiência em construção de ferrovia... Depois que a linha do bonde ficou pronta, resolveu continuar por aqui. Foi trabalhar no Engenho de Fora.

- Engenho de Fora! - exclama Edith.

- Sim... Engenho de Fora... Eram todas as terras próximas da Praça Seca. O engenho pertencia ao Barão da Taquara... Quando por volta do ano de 1880 foi feito o primeiro loteamento da região, papai recebeu enormes terrenos pelos serviços prestados ao barão... Foi assim que ele iniciou a criação de animais e constituiu família.

- Você é o mais moço dos irmãos?

- Sim... Sou o caçula... Não chega a ser tão ruim, apesar do Hermes sempre se queixar que sou privilegiado por ser o mais jovem... Mas pensando bem foi bom ter nascido por último, pois cresci cercado de carinhos, inclusive do exaltado Hermes... Nasci em 1902... Portanto, tenho 23 anos... O Hermes é o mais velho. Ele tem 34 anos... O Hércules tem 30 anos... A Hermíone tem 25 anos. Ela está casada com o Antônio Manoel, um dos filhos do seu Manoel, dono de pequeno armazém em Cascadura.

Héspero e Edith continuam andando. Já estão dentro do enorme terreno da casa, embaixo da mangueira.

- Lá nos fundos, têm mais árvores frutíferas... laranjeiras, bananeiras e outras... Este terreno ali do lado é do seu Floriano, que também cria animais. O seu Floriano é o pai do Rafael.

Edith olha tudo com atenção. Héspero puxa a moça pelo braço.

- Vamos até o pomar, lá nos fundos... Os cachorros ficam presos no pomar, quando há festa aqui em casa.

Eles caminham sem dificuldades pelo terreno, pois a lua cheia ilumina toda a propriedade. Chegam bem perto da portinhola do pomar. Os cachorros ladram com alguma ferocidade ao notar que Héspero está acompanhado por uma pessoa estranha a eles. Edith fica bastante assustada.

- Não demonstre medo, Edith. Aquele ali é o macho. Seu nome é Síber. Procure falar algumas vezes o nome dele. Na certa, ele vai ficar mais calmo. Ele está um pouco feroz, mas só é para se defender. Se sentir confiança em você, o Síber não tentará atacá-la... Mas de qualquer jeito, ele não vai de maneira nenhuma pular esta cerca. É muito alta. Procure ficar tranqüila.

- Síber... Síber.... Síber.

- Isso mesmo, Edith... Veja como ele parou de latir.

- E a cachorra... Preciso também chamá-la pelo nome.

- Não... O nome dela é Sibéria... A fêmea por natureza é mais dócil que o macho. Só ataca, se o macho também atacar. Procure não levantar os braços, pois podem interpretar como uma ameaça a eles.

Edith, com temperamento afoito e corajoso, não encontra dificuldades em ganhar afeição dos animais. Chega bem perto da portinhola. Síber e Sibéria estão com os rabos abanando, enfiam os narizes pelos intervalos das madeiras e cheiram as pernas da moça.

- Por que os cachorros cheiram tanto as pessoas?

- Boa pergunta, Edith... Os seres humanos pensam através dos olhos. O que vemos no mundo são conjuntos de cores, volumes e perspectivas. As pessoas pensam com a imagem... O cachorro não... A visão é secundária para ele... O cão pensa com o nariz... Ao cheirar, reconhece os lugares onde o dono passou... No cheiro, é que estabelece relações de acontecimentos anteriores... Em suma, é pelo olfato que toda a memória do cão vem a ele. E pode captar o cheiro a grande distância, principalmente o odor de uma cadela no cio.

O rapaz vira-se bruscamente em direção à casa. Uma algazarra infernal chama sua atenção e, também, de sua companheira.

- Meia-noite, Edith... Feliz 1926!

Os dois se abraçam e se beijam. Os cachorros latem e parecem que estão festejando a entrada do novo ano.

- Vamos nos reunir com os outros, Edith.

O casal corre alegremente e chega na casa. Juntam-se a confusão de abraços e taças de champanhe. João, sorridente e desequilibrado por estar um pouco ébrio, coloca o som do gramofone no máximo. Num dos quartos, Genoveva acorda e chora no colo da mãe. Perto, a avó Honorina beija a face da outra neta Madalena. Seu Leopoldo avança em direção a Héspero e Edith e os abraça em um só tempo. Aos poucos, os convidados vão se retirando. Héspero e Eduardo levam Edith e Abigail para a casa das moças, que moram na mesma rua do outro lado da Praça Seca. Os casais vão na frente, bem distanciados das respectivas famílias das namoradas. No meio da praça, bem no campo de futebol, Héspero brinca com Edith e fica pendurado no travessão da baliza do gol. A moça bate palmas, enquanto Eduardo e Abigail só olham. Héspero volta a caminhar com Edith, que está muito sorridente.

- Você fala bem do bairro de Botafogo, mas acho que está gostando da roça.

- Que nada, Héspero... Jacarepaguá tem um lado bom, principalmente quando estou com você... Mas não se compara com Botafogo. Nasci lá... Agora, sou obrigada a morar neste mato, porque meus pais decidiram mudar para cá... Botafogo é outra coisa. Tem praia... ruas e praças bem tratadas.

Edith aponta ao seu redor.

- Aqui só há mato... Esta praça... Chamam de praça, mas é um campo de futebol esburacado.

Héspero coça o nariz. Faz cara de quem não gostou.

- É, Edith... Mas aqui vai ficar bom... Há um projeto para ajardinar a Praça Seca... Está demorando, pois os políticos só pensam embelezar os bairros próximos do Centro... De qualquer jeito, acho que a beleza de Botafogo é artificial... Aqui o belo é bucólico... Eu estudo na cidade e já passei muitos dias nas casa de um tio também na cidade... Conheço os dois lugares... Sabe de uma coisa... Não troco Jacarepaguá por lugar nenhum.

Os dois seguem em silêncio pela Rua Baronesa, já do outro lado da praça . Um pouco atrás, vêm Eduardo e Abigail. Bem mais atrás, os parentes das moças. Héspero e Edith caminham bom pedaço calados. De repente, ela olha para o rapaz.

- Todo mundo está falando menos a gente.

Héspero apenas balança a cabeça que sim.

- Sabe, Héspero. Lembrei-me de uma coisa que há muito queria perguntar a você.

- O que é, Edith?

- É sobre seu nome. Acho-o muito bonito. Mas você parece ser a única pessoa com este nome... Não conheço mais ninguém.

Héspero volta a sorrir.

- Acha meu nome bonito!

- Sim... Mas é diferente dos outros nomes.

- Héspero vem da mitologia grega. Diz a lenda que estava concentrado na contemplação das estrelas, quando veio uma tempestade e ele desapareceu sem deixar nenhum vestígio. Os homens julgaram que Héspero se transformou numa estrela e passaram a chamá-lo de astro da tarde.

- Seu nome então é em homenagem a esse personagem mitológico.

- Sim... Meu pai é do campo, mas sempre gostou de ler. Adora a mitologia greco-romana. Ele escolheu nomes da mitologia para seus filhos. Todos iniciados com a letra agá em homenagem a minha mãe, que se chama Honorina.

Edith abraça o namorado e mostra interesse pela história. Héspero continua sua narrativa, andando também com o braço envolto no corpo dela.

- O meu irmão Hermes é homenagem a um semideus grego com este nome, que corresponde a Mercúrio na mitologia romana. Hermes era filho de Zeus, o Júpiter romano. Hermes é considerado o patrono dos atletas... O outro meu irmão Hércules é em homenagem a outro filho do deus Júpiter. Hércules é mais célebre herói da mitologia, com uma força espantosa... O nome da minha irmã foi tirado da Guerra de Tróia. Hermíone era filha de Menelau e Helena... Você deve saber que a lendária Guerra de Tróia teve seu início, porque o troiano Páris raptou Helena.

- Sim. Já ouvi falar alguma coisa... Helena de Tróia... cavalo de Tróia.

- Menelau era rei de Esparta. Certa vez, Páris aproveitou a ausência de Menelau e raptou a sua bela esposa Helena, levando-a para Tróia. Assim, começou a famosa guerra.

Edith sorri. Héspero também ri e prossegue.

- É, Edith... Lá em casa até animais têm nomes mitológicos... O primitivo Síber era um cão de antiga lenda da Rússia... De acordo com o folclore, esse cão emergia das águas profundas do lago Baikal... Segundo a tradição, a grande região ao redor do lago Baikal chama-se Sibéria em homenagem ao lendário cachorro.

Após deixar as moças e familiares em casa, Héspero e Eduardo regressam. As ruas estão desertas. As poucas casas, grandes áreas de capinzais e muitas árvores fazem que o clima esteja bem ameno, apesar do verão. As poucas residências da Rua Baronesa estão escuras e fechadas. Todos dormem. Eduardo se despede de Héspero, que caminha alguns metros até abrir o portão da sua residência. Síber e Sibéria o esperam. Com muito sono, o rapaz entra em casa e vai direto para o quarto. Nota que seu irmão mais velho ainda está acordado. Hermes acena para Héspero e aponta para a cama de Hércules.

- Nosso irmão ronca demais... Toda vez que bebe é esta ressonância a noite inteira.

Héspero apenas balança a cabeça num gesto de aprovação. Continua a tirar os sapatos.

- Não é por causa dos roncos dele que eu não dormi. Estava esperando você chegar.

- Você que falar comigo?

- Exato... Estou arrependido do que fiz hoje... Você é um bom irmão... Eu gosto de você... Lembra-se quando você era menino?... Sempre dei mais atenção a você do que ao Hércules e a Hermíone.

- Poxa, Hermes... Não precisa falar... Claro que me lembro da minha infância... Você sempre inventava brincadeiras para me divertir

Héspero abre o armário e apanha o pijama.

- Quero pedir desculpas.

- Não precisa se desculpar... Acho que eu é que tenho que pedir desculpas a você, Hermes... Não devia ter falado tão alto com você perto de seus amigos... Você é meu irmão mais velho.

- Eu que estava com raiva de você. Não gostei de você defender o Eduardo.

- Hermes!... Por favor... Defendo o Eduardo de um grave erro seu. Você teima em desrespeitá-lo... A Abigail é a namorada dele, e todo mundo sabe disso.

- Mas ela é tão bonita.

- Eu sei disso.

- Ela não merece o Eduardo.

- Como não merece, Hermes?

- Você não acha, Héspero... Você não acha que a Abigail formaria um lindo par comigo?

Héspero não responde. Apenas abana a cabeça, mas não consegue prender o riso. Deita-se na cama e dá boa-noite ao irmão.

 

Capítulo 3

 

Héspero espreguiça-se na cama ao receber a luz do sol no rosto. Levanta-se sonolento, vê as camas vazias e percebe que é tarde. Abre a janela, demora-se o necessário para se arrumar e vai direto à cozinha. Vozes na sala desperta-lhe a curiosidade. Hermíone prepara o café para as visitas. Héspero aproxima-se da irmã.

- Tem alguém aqui em casa?

- Tem sim. O tio Belmiro acaba de chegar com nossas primas.

- Ah!... Que bom. Vou tomar café e logo irei para a sala.

- Tem biscoitos nesta tigela.

- Obrigado, Hermíone.

Hermíone segue com a bandeja com as xícaras e o bule com café. Da cozinha, Héspero reconhece a forte voz do seu Belmiro. O rapaz se apressa. Logo que termina a pequena refeição, caminha para a sala. Seu Belmiro levanta-se e abraça Héspero.

- Como está forte este nosso intelectual!

Héspero sorri e senta-se entre o irmão Hércules e o cunhado Antônio Manoel. Os três estão bem defronte do seu Leopoldo e do seu Belmiro, que acaba de voltar a ocupar a grande cadeira de braços. Hermíone e Dona Honorina estão na varanda com a esposa e as filhas do seu Belmiro.

- Mas o que eu estava falando?

- Era sobre o clima de Jacarepaguá, Belmiro.

- Ah!... Sim, Leopoldo... Estava falando que você tem a natureza à sua volta... Um clima de montanha... Esta brisa que corre em pleno verão é maravilhosa.

- Concordo, Belmiro... Mas há também o lado mau... As valas correm em todas as nossas ruas, fazendo perigar a saúde da população. O número de construções novas vem crescendo, aumentando o volume de esgoto que correm em céu aberto... A região está ficando insalubre.

- Mas você gosta de morar aqui?

- Gosto, Belmiro... A vida do campo me atrai... Lembra-se da ira do nosso pai, quando resolvi ficar de vez na Praça Seca.

- Recordo-me muito bem. O velho não queria nem que você trabalhasse na construção da linha de bondes. Ele pensava que você voltaria tão logo a obra encerrasse. Quando terminou e você não voltou, ele ficou mais desapontado. Papai achava que o Brasil se resumia ao Rio de Janeiro... E não todo o Rio, mas sim o centro da cidade, que naquela época era chamada a Corte do Império... Recorda-se quando o nosso irmão mais velho resolveu ir morar em São Paulo.

- Lembro-me muito bem, Belmiro... Como o papai ficou furioso.

Héspero, Hércules e Antônio Manoel prestam a máxima atenção, mas com o cuidado de não interromper os mais velhos. Seu Belmiro aponta para eles.

- É meninos... O meu pai não era ricaço, porém também não era pobre. Possuía algumas posses na cidade... O Leopoldo não ligava para isso, pois sempre gostou de se arriscar em aventuras... No final, acabou morando na roça... Eu fiquei na cidade... Vocês sabem que tenho aquela livraria na Rua da Quitanda e moro em cima da loja... Também gosto do campo, mas só para passar poucos dias... Adoro aqueles políticos e escritores que procuram o meu estabelecimento, para ver ou comprar livros novos acabados de chegar da Europa... Este ano a cidade vai ficar muito agitada, pois haverá eleições para presidente... Aqui tudo continuará calmo... Algumas horas, quando o tumulto lá é maior, fico com inveja de vocês... Mas logo volta à realidade, já que me sinto bem com o burburinho eleitoral.

Seu Leopoldo deixa o copo de vinho na mesa e vira-se para o irmão.

- As eleições não mexem com o povo daqui. Até pela razão dos políticos pouco aparecerem pelo reduzido número de habitantes de Jacarepaguá... Eles preferem procurar as freguesias mais populosas. - Também acho, Leopoldo... Os políticos é que sempre agitam... Sem essa agitação, o povo não dá importância às eleições.

- Só me vem na memória apenas uma eleição concorrida aqui em Jacarepaguá... Foi em 1892, quando Cândido Benício da Silva Moreira venceu com grande diferença de Paulo Aguiar, que foi o segundo colocado.

- Ah!... Sim, Leopoldo... Também me lembro dessas eleições... Foi para eleger intendentes para o Conselho do Distrito Federal... A primeira para a intendência, após o evento da República... Cada freguesia da cidade elegeu um representante para esse conselho... O Cândido Benício foi eleito por Jacarepaguá.

Seu Leopoldo abre os braços e sorri.

- Vejo que meu irmão também acompanhou essas eleições municipais.

- Na cidade, houve muitos comentários sobre a boa pessoa do Cândido Benício.

- Era médico muito respeitado em Jacarepaguá. Muito querido pelos seus pacientes... Nos dias que precederam as eleições de outubro de 1892, o assunto era que ele tinha que ser o nosso representante no Conselho... Não se falava outra coisa na Praça Seca e no resto de Jacarepaguá.

- A nossa rua principal recebeu seu nome após sua morte? - pergunta Héspero.

Antônio Manoel e Hércules ficam assustando por Héspero ter interrompido a conversa dos mais velhos. Viram-se rapidamente em direção a seu Leopoldo, como a esperar um sermão do pai. Porém, seu Leopoldo não reprova o filho. O semblante do velho e normal e calmo.

- Não, meu filho... O Dr. Cândido Benício morreu em 1897, muito depois que a rua recebeu seu nome. Foi o Barão da Taquara que trocou o nome de Estrada de Jacarepaguá para Rua Cândido Benício. O barão era grande amigo do intendente municipal.

Antônio e Hércules ainda transmitem a fisionomia espantada. Héspero olha para o dois e sorri, tapando levemente com a mão a própria boca. Seu Belmiro alisa seu grosso bigode e aproveita o rápido silêncio da sala para continuar a falar.

- Desde de novembro passado, a cidade está alvoroçada por causa das próximas eleições presidenciais. O Washington Luís deve ser candidato único... Ainda não surgiu outro nome... Nem vai aparecer... A política brasileira está longe da democracia, pois a população não participa da sucessão... São feitos conchavos nos bastidores... Há longo tempo que já está decidido que os presidentes serão uma alternância entre os estados de Minas Gerais e São Paulo. E assim tem sido de quatro em quatro anos. Agora, chegou a vez de São Paulo... O candidato do atual presidente, o mineiro Artur Bernardes, é o paulista Washington Luís.

Seu Belmiro arregala os olhos em direção aos jovens e dá sonora gargalhada.

- O paulista Washington Luís na verdade nasceu no Estado do Rio... Em Macaé...Foi para a Paulicéia muito jovem... Sua carreira política foi toda em São Paulo. Sente orgulho em ser chamado de paulista, mas fica irado com as caricaturas que o identificam de "paulista de Macaé".

Ao notar que os copos estão vazios, Héspero enche-os de vinho. Seu Belmiro estica a mão, pega seu copo na mesa e toma dois goles. Aponta para os mais jovens.

- Todos vocês nasceram após a Proclamação da República. Não sentiram a monarquia como eu. Aquilo é que foi uma boa época. O imperador transmitia muita confiança ao povo. Era um regime parlamentar, com as crises sempre contornadas por um primeiro ministro... Mas a cobiça fez o Brasil mudar a forma de governo... O velho e bondoso imperador foi deposto por uma minoria, ajudada por facção de fazendeiros revoltada por ter a monarquia abolido a escravatura... O povo... O povo amava o imperador... Eles disseram que fariam consulta popular para o povo aprovar a república... Mas isso era conversa fiada, pois na verdade sabiam que a maioria da população daquela época não admitiu a república. Esses republicanos até hoje, passados 36 anos do regime por eles fundado, não conseguiram arrumar o País... O que se vê é uma luta de grupos minoritários em busca do poder.

- Os republicanos pretendiam fazer no Brasil uma democracia igual a dos Estados Unidos - pondera seu Leopoldo.

- Democracia não é bagunça e nem sinônimo de liberdade. Para se chegar a uma igual a dos Estados Unidos é necessário em primeiro lugar respeito às leis... Liberdade deve haver, mas não a ponto de desrespeitar os outros... Democracia não é governo de todo o povo, mas sim da maioria desse povo... A minoria perdedora deve lutar para modificar as leis que achar ruim, porém, respeitá-las enquanto estiverem vigentes.

- Você está certo, Belmiro - interrompe seu Leopoldo. Aqui no Brasil os políticos só falam em democracia... Mas é uma democracia diferente da real... É a democracia para benefício próprio.

- De qualquer forma - diz seu Belmiro. Democracia tal como conhecemos é melhor que um estado autoritário... Democracia autêntica para o ser humano chega a ser utopia. Nem nos Estados Unidos existe... Tomara que nos próximos séculos a minoria que tem o poder nas mãos seja mais humilde e não tão cobiçosa. Pensar mesmo no povo. Aí há possibilidade da verdadeira democracia.

- Na Grécia antiga, ela foi perfeita - afirma seu Leopoldo.

- Exato, Leopoldo. As metrópoles gregas eram independentes. Isso ajudava muito. Toda a população de cada cidade resolvia em pequena praça todos os problemas da sua sociedade... Hoje é diferente... Existem países com muitas cidades e população tão enorme que assusta... Não é possível uma democracia idêntica a dos gregos antigos... Por isso, ao contrário dos gregos, os cidadãos atuais são obrigados a escolher seus representantes. Esse é o grande defeito da democracia moderna, pois esses eleitos na realidade não representam ninguém. Têm idéias próprias, distanciadas das dos seus representados... Assim, uma minoria passou a decidir tudo... Essa é a explicação mais simples por que o sistema democrático não funciona em toda sua plenitude.

Uma algazarra na rua interrompe a conversa. Muito nervosa, Hermíone entra na sala e diz que o vizinho Rafael quer matar o Hermes. Todos se levantam sobressaltados e correm em direção ao portão. Vêem o Hermes, junto ao muro, seguro pela mãe e rodeado pelas primas, que fazem um escudo humano. A pouca distância, Rafael empunha uma foice, agitando-a acima da cabeça. Lourenço segura Rafael pela cintura e não o deixa avançar.

- Vejam o que ele me fez - grita Rafael, mostrando com a mão o ferimento na cabeça.

- Foi sem querer - replica Hermes.

- Que nada... Eu o mato, seu canalha.

Rafael volta a ficar nervoso e tenta se desvencilhar de Lourenço. Seu Belmiro faz sinal para seu Leopoldo levar o Hermes para dentro do quintal. Pai e filho entram abraçados no terreno. Seu Belmiro tenta acalmar Rafael. Com ajuda de Héspero e Lourenço, seu Belmiro consegue tirar a foice da mão do enfurecido rapaz. Dona Honorina, que havia entrando junto com o marido e o filho Hermes, retorna com uma tigela de água e sal e cuida do ferimento na cabeça do vizinho. Rafael deixa a bondosa senhora fazer o curativo.

- Fiquei igual a um louco - diz ele, olhando em direção de Héspero. Agora, sinto-me constrangido com sua mãe cuidando de mim. Mesmo depois da ameaça que fiz ao seu filho.

- Mas o que houve? - pergunta Héspero.

- Vocês todos são bons, mas o Hermes é a personificação do diabo... Eu estava no meu quintal colhendo mangas. O Hermes, com uma atiradeira, tentava acertar os passarinhos que posavam nas minhas árvores. Ele me viu trepado na mangueira. Até falou comigo. Pedi para ele atirar as pedras para o outro lado e não em minha direção... Foi só eu virar as costas para receber uma pedrada na cabeça... Ele fez de propósito, tenho certeza.

Seu Belmiro tenta pacificar o rapaz. Depois de muita conversa, faz com que Rafael desista de ir à forra com o Hermes.

- Está bem... Vou ficar com este galo na cabeça em respeito ao senhor...Mas para tudo ficar bem mesmo quero que o Hermes me peça desculpas.

Seu Belmiro não perde tempo. Vai rápido ao quintal da casa do irmão e traz o sobrinho Hermes para junto de Rafael.

- Vamos selar a paz - diz seu Belmiro. Faz de conta que não houve nada. Vamos apertar as mãos.

Hermes é o primeiro a oferecer sua mão. Rafael hesita um pouco. Mas acaba estendendo a sua para Hermes. Os dois apertam as mãos demoradamente.

- Pronto. Está selada a paz entre dois amigos - declara seu Belmiro.

 

Capítulo 4

 

A noite de domingo, 7 de março de 1926, após dias de muita chuva, está convidativa para um lazer fora de casa. Héspero prepara-se para sair. Os latidos dos cachorros chamam sua atenção para a possibilidade da chegada de alguém. Coloca o chapéu de palha na cabeça. Com passadas largas, chega rápido na sala. Dona Honorina avisa-lhe que Eduardo está no portão. O rapaz não perde tempo e logo se encontra com o amigo. Ajeita o chapéu de marca Bruneto de jeito que deixe quase toda sua testa aparecendo. Olha para Eduardo e nota sua fisionomia preocupada.

- Por que não entrou, Eduardo?

- Por que sua mãe disse que você estava de saída. Resolvi esperá-lo aqui.

- Você está abatido e com a cara fechada. O que há?

- Briguei com a Abigail. Não vou continuar o namoro.

- Mas... Mas... Vocês gostam tanto um do outro. Procure conversar outra vez com ela.

- Não, Héspero. O caso não é tão fácil como pensa. Vamos caminhar até a praça. Eu conto tudo a você.

Os dois descem a Rua Baronesa em direção à Praça Seca. Héspero examina bem o ar preocupado do amigo e retorna ao assunto, com a mente confusa, procurando adivinhar o que aconteceu.

- Não vai me dizer que suas desavenças com Abigail são por causa do meu irmão Hermes?

- Acertou... Há muito tempo ele vem cortejando minha namorada... Eu não gosto de briga e venho suportando tudo isso. Sei que a situação é muito vexatória para mim.

- Isso não pode continuar. Vou resolver tudo hoje.. Vou ter uma conversa muito franca com meu irmão.

- Não adianta, Héspero... Se só fosse o Hermes, eu mesmo iria tomar umas explicações com ele.

- Como assim, Eduardo?

- A Abigail é a maior culpada... Eu sei que ela conversa com o Hermes, quando eu não estou presente... Já me falaram isso... Hoje cedo, eu comprovei que quem dizia isso não estava mentindo... Ao me aproximar da casa dela, vi os dois no portão. Ele tagarelava, e a Abigail ria e esbanjava felicidade. Ela ficou toda sem jeito ao me pressentir. O Hermes não... Não se perturbou nem um pouco com a minha presença. Antes de ir embora, sabe o que ele falou?... Sabe a petulância dele?

- Nem imagino, Eduardo.

- Deu-me um tapinha nas costas, olhou para a Abigail e disse: "Oh! Julieta! Vou-lhe deixar com seu Romeu".

Héspero balança a cabeça.

- Fiquei indignado - continua Eduardo. Muito exaltado, quase bati nela; mas resolvi xingá-la. Ela disse que não tinha culpa. Alegou que o Hermes a procurava e tratava-o bem por educação. Lembrei-me que ela estava muito feliz com seu irmão, antes de notar a minha presença. Então, não me curvei diante das suas justificativas. Continuei a tratá-la em tom rude, e terminamos trocando desaforos... Acabei tudo... Estou arrasado... Gosto muito dela e não sei como viver... Só há uma solução: beber para esquecer.

- A bebida nunca resolve nossos problemas, Eduardo... Deixa que falarei com o Hermes.

- Não, Héspero. Não quero criar ódio no Hermes contra você.

- Você não tem idéia real sobre meu irmão. Ele age assim, mas não é mau. De jeito nenhum vai me odiar.

- Estou vendo que não conhece o Hermes como ele é. É muito diferente de você. Ele tem rancor no coração.

Héspero morde os lábios e fica pensativo. Os dois chegam à praça em silêncio e entram no botequim da esquina. A cada trago, Eduardo desenha em palavras as imagens de seu passado com a Abigail. Héspero, sem falar muito, escuta as recordações do amigo. Com voz amargurada e os olhos vidrados no copo de cerveja, Eduardo não pára de falar. Héspero, atento ao movimento do bar, mostra alguém ao companheiro, procurando desviá-lo do assunto que o atormenta.

- Olha quem está ali.

Eduardo vira-se e vê Lourenço em outra mesa com uma charmosa mulher.

- É seu vizinho... Ele está certo... O homem sabe viver, enquanto eu só sei sofrer.

Héspero segura a mão de Eduardo para evitar que ele leve o copo novamente à boca.

- Ele pode estar certo, mas a esposa dele não merece. Ela está trancada em casa, enquanto o marido diverte-se com outra... O Lourenço devia fazer suas aventuras bem longe do lugar onde mora.

Eduardo levanta-se e olha para a calçada em frente ao botequim, onde Hermes conversa com um estranho. Sai bruscamente em sua direção. Héspero o segue. No momento em que Eduardo e Hermes ficam frente a frente, o rapaz estranho nota algo ruim entre os dois e termina a conversa, entrando apressadamente no botequim. Hermes ainda o chama, mas o desconhecido grita lá de dentro.

- Depois, nós voltaremos a conversar.

Eduardo continua fixando bem dentro dos olhos do Hermes. O irmão do Héspero fica por pouco tempo extasiado com a atitude de Eduardo. Mas logo aparece em seu lábios um sorriso maroto. Procura transparecer que está calmo, mas torna-se irascível quando Eduardo segura seu braço com violência.

- Tira essa mão suja de mim, seu romeu barato - grita Hermes, empurrando e jogando Eduardo no chão.

O ato faz acabar a algazarra dentro do botequim. Todos olham para fora. Mas ninguém se atreve a sair dos seus lugares, pois Hermes puxa um revólver e aponta para a cabeça de Eduardo. Héspero grita desesperadamente com o irmão. Hermes volta a dar o sorriso malicioso.

- Calma, mano... É só para assustá-lo... Não vou matar ninguém.

Ao guardar a arma, Hermes deixa cair do bolso um anel. Eduardo se levanta, e os três olham para o chão, onde a jóia brilha, apesar da pouca luminosidade. Hermes abaixa-se, apanha o anel e coloca-o novamente no bolso. Muito sem jeito, procura desviar os pensamentos de Eduardo e Héspero para os acontecimentos.

- Vamos nós três tomar uma cerveja... Não estou com raiva do Eduardo... Bebendo, faremos um tratado de paz.

- Não mude de assunto, Hermes... Vai ter como me explicar o que faz com o anel do nosso pai.

- Não sei como veio parar no meu bolso... Talvez o próprio papai tenha escondido na minha roupa, pois sabe que pouco uso essa jaqueta.

- Não é hora para brincadeira, Hermes. Você sabe que esta jóia significa muito para o nosso pai... Não é o valor econômico. É muito mais... Fale logo a verdade.

Hermes passa a mão de leve na nuca de Héspero, empurrando o chapéu para frente e encobrindo toda a testa do irmão. Héspero irritado ajeita a peça de palha na cabeça.

- Fale logo, Hermes... Fale logo sobre o anel.

- Calmo, mano... Apanhei-o como se fosse um empréstimo. Preciso de dinheiro e amanhã vou consegui-lo numa casa de penhores. Não se preocupe... Em pouco tempo, terei condições de resgatá-lo... O papai nem vai dar pela falta. Você sabe que atualmente ele leva muitos meses para mexer naquela gaveta onde guarda o anel.

- Se só amanhã vai levá-lo ao penhorista, não devia ter trazido para a rua. Você pode ser assaltado.

- Amanhã, será difícil apanhá-lo na gaveta. Ninguém vai me assaltar. Estou armado.

Dentro do botequim, todos continuam a olhar para os três. Héspero nota o desconhecido que há pouco conversava com o irmão. Observa também que Hermes faz sinal para esse rapaz.

- Quem é ele? - pergunta Héspero.

- Um amigo sem muita importância. Preciso terminar minha conversa com ele... Fique calmo, Héspero... Depois, explico tudinho a você... Tudinho sobre o Eduardo... anel... Está bem?

Héspero fica calado. O irmão vira as costa e segue apressado para o bar. Ao notar a intenção de Eduardo de ir atrás de Hermes. Héspero o segura pelo braço.

- Não, Eduardo. Não piore as coisas. É melhor a gente voltar para casa... Dormir um pouco... Amanhã, com a cabeça mais fresca, voltaremos a conversar. Tenho certeza que vamos achar uma saída.

- Não vou conseguir dormir, Héspero. Quero ficar na praça... Quero beber. Você pode ir embora... Não tem problema não.

Héspero aperta os lábios contra os dentes. Sua cabeça também está atormentada, principalmente por causa do caso do anel do pai. Decide não deixar o amigo perto do irmão.

- Se você quer beber mais um pouco, foi ficar com você. Mas vamos para o botequim do outro lado da praça.

- Está bem, Héspero.

Héspero acena para o empregado do botequim. O rapaz vem e recebe o dinheiro da despesa que os dois fizeram no bar. Eduardo faz menção de enfiar a mão no bolso.

- Essa despesa deixa que eu pago. Lá no outro, então, quem paga é você. Concorda.

- Concordo.

Héspero e Eduardo caminham pela praça. Héspero sente-se aliviado por afastar o amigo do irmão. Mas está muito confuso. Ao mesmo tempo que tenta pensar numa solução para o caso da Abigail, não consegue tirar da mente a imagem do anel. De todas as coisas, o mais terrível é a idéia que o irmão roubou o próprio pai. Os dois chegam ao destino e escolhem uma mesa bem no canto. Os pensamentos continuam ferver na cabeça de Héspero.

- Poxa, Héspero. Que jóia bonita. Como brilham aquelas pedras vermelhas e verdes.

Héspero vira-se para o amigo, um pouco surpreso por Eduardo falar de outro assunto que não seja o caso da Abigail.

- Hã!... Sim... Sim... É um lindo anel. Você gostou?

- Nunca vi coisa igual. O vermelho forma um cruz.

- Sim, Eduardo. Mas não são duas pedras vermelhas e verdes como parecem de longe. A cruz é formada por pedrinhas vermelhas bem juntinhas. São rubis verdadeiros. O círculo verde, cuja cruz está no meio, são pequeninas esmeraldas. O aro é de ouro maciço.

- Deve valer uma fortuna.

- Se vale!... Mas meu pai considera maior o valor estimativo. Não vende por dinheiro nenhum.

Héspero apoia o cotovelo na mesa. Está satisfeito pelo amigo se interessar pelo anel. "Assim ele esquece um pouco a Abigail" - pensa ele. Resolve continuar a falar sobre o anel.

- Antes de trabalhar na construção da linha de bondes de Jacarepaguá, meu pai foi várias vezes a Minas Gerais. Muito jovem e afoito, enfrentava sozinho os perigosos caminhos das montanhas. Certa feita, uma cena o deixou petrificado. Viu uma carruagem despencar da ribanceira e cair com um senhor bem vestido dentro do rio, enquanto duas mulheres gritavam desesperadamente. Recuperado do impacto inicial, aproximou-se das damas. Uma dizia sem parar que era o seu pai. A outra repetia diversas vezes que o marido era aleijado das duas pernas. O meu pai tirou rapidamente as botas e se atirou com toda a vestimenta dentro do rio. Com braçadas fortes, alcançou a carruagem e trouxe o homem para junto da família. Depois, nadou novamente para salvar o cavalo atrelado ao veículo. O animal debatia, enquanto a pesada viatura afundava. Mas meu pai conseguiu a tempo arrebentar as correias, e o bicho completamente livre conseguiu chegar a outra margem.

Eduardo escuta com atenção. Héspero bebe um pouco de cerveja, mas logo volta a falar.

- O paralítico era um homem muito rico. Não sabia como agradecer ao seu salvador. Tirou aquele anel do dedo e ofereceu ao papai. Meu pai não quis aceitar. Mas o homem o convenceu, dizendo que o anel seria uma espécie de condecoração por ato de bravura. Até hoje, meu pai considera a jóia importante insígnia honorífica.

Héspero ajeita-se na cadeira.

- Nem sei o que vai acontecer, quando descobrir o sumiço do anel.

Eduardo concorda com simples gesto. Entorna a cerveja pela goela e enche novamente o copo. Por alguns minutos, seu rosto fica imóvel e olhar distante. Héspero percebe seu desânimo.

- Este caso do anel me perturbou... Eu devia estar aqui amenizando seu sofrimento... Esforçando-me para encontrar uma solução para sua discórdia com a Abigail.

- Não precisa se preocupar... Vou esquecê-la... Não quero saber mais dela.

Héspero consulta o relógio.

- Já é bem tarde. Vamos dormir. Amanhã, será outro dia. Vão surgir outros fatos, que talvez possam resolver o problema. Agora, está na hora de deixar de beber.

- Não, Héspero... Pode ir. Eu vou ficar. Não estou com sono.

- Está bem. Eu vou... Mas prometa-me que não vai demorar muito aqui e nem ir para o botequim que meu irmão está.

- Pode ficar tranqüilo, Héspero... Só vou tomar mais uma cerveja... Depois, irei direto para casa.

Héspero despede-se do amigo. Anda apressado, pois acha que o Hermes já está em casa. Quer falar com ele sobre o anel. Chegando na sua residência, vai direito para o quarto. Fica surpreso ao ver a cama do irmão vazia. O outro irmão dorme pesadamente e não nota sua presença. Então, Héspero coloca a roupa de dormir e apanha um livro para ler. Quer ficar acordado até o Hermes chegar. Deita-se e abre o livro, mas não consegue concentrar-se na leitura. Pouco depois, Hércules acorda e levanta a cabeça.

- Que isso, Héspero! Está com livro na mão. Não vai dormir?

- Estou com insônia. Vou ler um pouco. Isso vai fazer eu sentir sono.


Hércules volta a enfiar a cabeça sob o travesseiro. Héspero está com o livro adiante de seus olhos, mas não consegue ler. Está com o pensamento cheio de perguntas. "Por que o Hermes precisa urgente de dinheiro?". "Será que é muito dinheiro?". "Há necessidade de envolver um jóia tão estimada por nosso pai?". "Por que carregou o anel para a praça?". Héspero olha para a cama de Hércules ao ouvir um ronco do irmão. "Quando a pessoa está tranqüila o sono chega logo - pensa ele. O Hércules voltou a dormir rápido". Os pensamentos continuam a evoluir na cabeça do rapaz. "O Hermes me disse que encontraria dificuldades em apanhar o anel na segunda-feira, mas podia tê-lo escondido em algum lugar da casa. Não tem sentido levá-lo para rua, se só no dia seguinte iria à cidade penhorá-lo. Logo que o Hermes chegue, vou conversar com ele no quintal, pois não quero que o barulho acorde o Hércules ou o resto da família". O tempo passa. De repente, um tiro no silêncio da madrugada interrompe os pensamentos de Héspero. Ele dá um salto da cama. Hércules também acorda assustado.

- Que barulho foi esse?

- Parece um tiro. Foi na rua.

Os dois de pijamas correm e chegam rápido do lado de fora do portão.

- Tem vultos lá na esquina... Em frente à casa do Henrique da polícia.

- Vamos correr até lá - grita Héspero.

A medida que avançam, os vultos ganham formas nítidas. Antes de alcançar o local, Héspero reconhece o policial Henrique e o amigo Eduardo. A cena é macabra para os irmãos. Eduardo está com um revolver na mão. Há um corpo junto aos seus pés, de bruços e pernas abertas. Henrique estica o braço para Eduardo e lhe pede arma. O rapaz parece um autômato e deixa o policial tirar a arma da sua mão. Henrique aproxima-se de Héspero e Hércules e fala muito baixinho.

- É o Hermes... Ele está morto.

Os irmãos ajoelham-se no chão e choram junto do corpo do outro irmão. Héspero está desesperado. Ele sacode a cabeça do cadáver na ânsia inconsciente de tentar fazê-lo voltar a vida. Hércules levanta-se e tira Héspero de perto do corpo de Hermes. Um pouco adiante, junto do policial, Eduardo consegue dizer algumas palavras em direção a Héspero.

- Não fui eu... Não fui eu... Vi o corpo dele estendido aqui... Apanhei a arma no chão... Ele se suicidou.

Héspero não fala nada. Apenas lança um olhar penetrante para Eduardo. A chegada dos demais parentes torna o lugar chocante. Henrique resolve levar Eduardo para o interior da sua casa, a fim de evitar possível revolta da família de Hermes contra ele. O corpo de Hermes já está rodeado por parentes, amigos e curiosos. Uma pessoa que acaba de chegar procura saber o motivo da morte.

- Não sei bem o que houve - diz um dos presentes. Parece que foi o Eduardo que matou o Hermes por causa da namorada Abigail.

 

Capítulo 5

 

O trem corre velozmente sobre os trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Héspero está bastante absorto sentado num canto do último vagão, com a mente bem longe e quase não nota a presença de outros passageiros, mesmo um grupo de rapazes que conversam sorridentes em voz alta. Seus pensamentos estão inteiramente voltados para a morte do irmão. Não consegue esquecer os momentos de profunda tristeza da sua família. Relembra, repetidamente, os fatos após o assassinato do Hermes: o enterro e as palavras do padre na missa de sétimo dia. A sua dor é maior, em virtude de o seu melhor amigo ser o assassino. Já não havia mais dúvida de que foi o Eduardo que disparou a arma. "Por que ele fez isso? - pergunta a si próprio". Recorda então que Eduardo dissera que foi suicídio. Mas Héspero sabe que é difícil acreditar nas suas palavras, pois o Hermes não tinha motivos para se matar. "E mesmo que tivesse - continua pensando. Não... não. Não foi suicídio. Os fatos comprovam. O Henrique chegou logo após o disparo, pois mora em frente ao local do crime. Ele não viu mais ninguém perto do corpo, além do Eduardo com a arma na mão".

Seus pensamentos fazem retornar para o dia do depoimento de Eduardo no Distrito Policial. Ele estava presente, mas não falou com o amigo. Vem à sua mente as palavras pronunciadas por Eduardo para o delegado: "Eu estava na outra rua, bem próximo da esquina da Rua Baronesa, onde Hermes morreu. Ouvi o tiro. Corri, dobrei a esquina e deparei com o corpo no chão. Não sei explicar a razão, mas meu primeiro movimento foi apanhar o revólver que estava perto da mão direita do Hermes. Nesse exato momento, apareceu o Henrique no portão e ficou olhando para mim". De repente, surge na cabeça de Héspero uma coisa que não havia pensado, desde o assassinato: o anel do pai. Héspero fica aturdido, pois sabia que a jóia estava com o irmão na noite do crime. O fato intrigante é que o anel não foi encontrado com o Hermes. Desapareceu sem que a polícia ou outra pessoa falasse sobre o assunto. Agora, surge problema de contar ou não ao pai sobre o caso do anel. O resto da viagem só pensa no anel e a dúvida de falar com o pai. Ao saltar em Cascadura, decide poupar o pai de mais uma tristeza. "Meu pai não suportaria outro choque: saber que o filho roubou a preciosa jóia que estava na sua gaveta. Não vai adiantar nada. Não vai fazer o Hermes retornar a vida. Só vai sujar a memória dele perante a minha família. Não... Não vou contar nada ao papai". Andando devagar, ele chega à estação dos bondes. Sobe no veículo e senta-se. Alguém toca no seu ombro. Héspero vira-se e vê o policial Henrique ao seu lado.

- Você veio no trem? - pergunta Henrique.

- Sim... Viajei no último vagão.

- Hã... Foi por isso que não o vi. Eu estava no primeiro vagão. Viajo sempre no primeiro, pois a fumaça da máquina não entra pela janela. No último, principalmente nas curvas, há esse incômodo.

- Também gosto. Mas atualmente nem sei o que estou fazendo direito. Continuo com a cabeça nublada de pensamentos sobre a morte do Hermes.

- É, Héspero ... Nem imagino o que você e sua família estão passando. O Hermes morreu de maneira tão trágica e inesperada... Fui à cidade exatamente para apanhar o resultado da perícia médica. O Hermes teve muito azar. O tiro pegou em cheio no coração, não lhe dando nenhuma chance de vida. O laudo prova também que não foi suicídio. A bala penetrou nas costas e partiu de uma distância de três metros.

Héspero acompanha atento a narrativa e vê Henrique retirar um papel de dentro da sua pasta.

- Está aqui o laudo pericial. Vou ler para você: "O disparo foi feito de uma distância de três metros. O orifício de entrada localiza-se ao nível da quarta vértebra torácica, e o de saída ao nível do segundo espaço intercostal esquerdo. O trajeto do projetil demonstrou lesão do hilo pulmonar esquerdo e ruptura do ventrículo esquerdo. A causa mortis foi choque cardiogênico, o qual ocasionou morte instantânea".

Henrique guarda o documento e volta a olhar para Héspero.

- Não há mais dúvidas, não foi suicídio. O fato já estava fora das nossas deduções. Onde já se viu alguém suicidar-se com um tiro nas costas? O próprio Eduardo, em seu depoimento, explicou que achava que o Hermes se matou, pois não havia ninguém por perto; e ele chegou segundos após o tiro. Quando falamos que o local onde o tiro entrou no corpo do Hermes não admitia ser suicídio, o Eduardo ficou calado, baixou a cabeça e colocou as mãos na face.

- Ele continua a dizer que é inocente? - pergunta Héspero.

- Sim. Mas ele é o assassino. Eles matam e sempre negam, principalmente quando não há testemunha ocular da hora do disparo. Eu sou uma testemunha importante, além de policial, porque ouvi o tiro, corri imediatamente para a rua e vi o Eduardo empunhando o revólver do crime. Na delegacia, temos certeza que foi o Eduardo. Há muitas testemunhas que viram os dois discutirem na praça. O Hermes estava armado e chegou a puxar o revólver. Você pediu para não ser testemunha, e o delegado aceitou. Mas você estava junto dos dois quando da discussão, e muitas pessoas dentro do botequim também viram. Não há nenhuma dúvida que foi o Eduardo que matou.

O relato de Henrique faz Héspero lembrar-se novamente do anel do pai. Sabe que, pela distância do local do acontecido ao bar, só ele, o Hermes e o Eduardo notaram que foi um anel que caiu no chão. Mais ninguém. O Hermes morreu. Então, só restam ele e o Eduardo a saber que foi uma jóia que o Hermes se agachou para apanhar. A idéia que o Eduardo tivesse contado sobre o anel no depoimento lhe vem à mente. Henrique, após acender um cigarro, tenta seguir adiante a sua explanação, mas Héspero o interrompe com uma pergunta.

- O Eduardo negou que houve a discussão na praça?

- Não... Mas só falou sobre esse fato, quando o interrogamos. A pergunta partiu do delegado, que já sabia da briga pelas testemunhas. Ele também afirmou que o Hermes empunhava na ocasião a mesma arma do crime.

- Ele disse que meu irmão trazia outro objeto, além do revólver?

- Não.

Héspero fica abstraído. O Eduardo não se pronunciou sobre o anel. "Por que razão - pensa ele". A voz sonora de Henrique desliga-o das suas meditações.

- A polícia já tem a versão correta para o caso. Não há nenhuma dúvida que os dois voltaram a discutir. O Hermes puxou a arma, como o fez em frente ao botequim. O Eduardo atracou-se com ele, tomou-lhe o revólver e disparou, no momento que o Hermes fugia. Tentaremos obter a confissão, mas mesmo que o Eduardo não confesse já temos provas suficientes que ele é o criminoso.

Héspero abaixa a cabeça e, com as duas mãos, cobre as orelhas. Henrique observa o desespero do rapaz e prefere ficar calado. Para Héspero tudo parece um pesadelo. Pensa na crueldade do destino: o irmão ser morto pelo seu melhor amigo. As lágrimas chegam aos seus olhos. Henrique procura consolá-lo.

- Sei que é muito duro para você. Mas você tem uma excelente família e deve vencer este obstáculo da vida, para continuar a ser o rapaz alegre que todos nós conhecemos.

Héspero abana somente com a cabeça. O bonde chega à Praça Seca. Os dois saltam , se despedem e caminham em direção oposta. Henrique segue em passos largos para o Distrito Policial. Héspero anda vagarosamente até a praça. No campo da associação de futebol, muitos rapazes jogam alegremente. João está por perto e corre em direção a Héspero. Os dois se abraçam.

- Héspero!... Você sumiu! Sei que está sofrendo, mas tem que levantar a cabeça, pois o mundo não acabou... Você precisa se divertir.

- É, João... Você tem razão... Aos poucos, já estou retornando às minhas atividades. Hoje, pela primeira vez após a morte do Hermes, fui à faculdade.

João desvia o olhar para os rapazes que jogam bola. Ao mesmo tempo, faz uma pergunta a Héspero.

- Será que foi mesmo o Eduardo?

- Foi uma infelicidade para nós, mas só pode ter sido ele... Naquela noite, o Eduardo estava fora de si... É, João... Eu não devia deixá-lo sozinho no botequim. Ele devia estar com muita raiva do Hermes. Se eu ficasse nada teria acontecido. O Eduardo é boa pessoa. Passado aquele momento, tenho certeza que não mataria o Hermes... Eu de certa forma, fui o culpado.

- Não... Não, Héspero... Você não tem culpa nenhuma. Seu irmão sabia fazer inimigos. Muita gente tinha ódio dele e poderia até matá-lo... Veja só: não pense que quero incriminar o seu vizinho Rafael, para inocentar o Eduardo. Mas o Rafael brigava muito com o Hermes. Há pouco tempo, até o ameaçou com uma foice... Por que a polícia também não desconfia do Rafael?

- Eu sei... Já pensei no Rafael como um suspeito. Mas sejamos realistas, João: só o Eduardo estava no local do crime, mais ninguém... O Eduardo é nosso amigo, mas não podemos fugir da dura realidade.

- É... tudo leva a crer que foi o Eduardo. Eu é que procuro imaginar outras alternativas. Nunca me passou pela cabeça que ele poderia matar alguém.

- Estou também confuso. Não paro de refletir um minuto sobre o caso.

- Você deve se divertir, para manter-se ocupado... Por que não vai à casa da Edith... Ela perguntou por você ontem.

- Boa idéia! Vou lá hoje à noite.

Héspero deixa o amigo na praça. Com passos lentos, segue pela Rua Baronesa e, logo, passa em frente à Rua Pedro Teles. A imagem de Edith surge na sua cabeça. Acha que realmente precisa se distrair e se libertar dos fantasmas que o atormentam. "Preciso deixar minha mente vazia ao invés de ficar armazenando nela perguntas irrespondíveis - pensa". Ao avizinhar-se da sua residência, ouve os latidos de Síber e Sibéria. "Ainda bem que tenho estes cachorros que gostam muito de mim. Senão meu sofrimento seria maior". Ao abrir o portão, os cães pulam de alegria em cima do dono. Héspero se agacha para acariciá-los. Hermíone se aproxima muito nervosa.

-Você não sabe o que aconteceu!

- O que aconteceu? - pergunta Héspero.

- O anel do papai desapareceu. Ele não o encontrou na gaveta. Já procurou em todos os cantos e outros lugares possíveis na casa.

Héspero sente um tremor em todo o corpo. Chega a hora de contar o lamentável fato que foi o Hermes que o roubou. Não sabe como vai contar. Levanta-se de junto dos cachorros e dirige-se à irmã.

- Como está ele?... Muito abatido?

- Ficou muito nervoso. Agora, está mais calmo. Foi repousar. Ele acha que o anel sumiu na época que trabalhadores estiveram pintando a nossa casa. O papai está desconfiado de um deles. Mas prefere ficar sem sua jóia de estimação, pois não quer dar parte à polícia. Ele disse que já basta o assassinato do Hermes.

- Talvez, seja melhor assim - diz Héspero.

- A mamãe também acha. Ela falou que, se não fosse a dor pela morte do Hermes, o papai ficaria muito mais deprimido com o roubo.

Héspero caminha ao lado de Hermíone em direção à varanda. Seus pensamentos voltam a ficar longe. Sua irmã continua falando, mas ele não está mais prestando atenção as suas palavras. "O que adianta agora contar toda a verdade. Falar que o Hermes estava com o anel na noite que morreu - pensa ele. Meu pai já se conformou com o roubo. Para que aumentar seu sofrimento e da família. Não... Não vou falar nada do que sei. Tentarei esquecer o anel de ouro e esmeraldas com uma cruz de rubis".

 

Capítulo 6

 

O movimento na residência do seu Leopoldo na tarde de quinta-feira, dia 3 de novembro de 1926, é grande. Nasceu na madrugada mais um filho de Hermíone e Antônio Manoel. Seu Leopoldo está muito feliz e anda pela casa de um lado para o outro sem parar. Fala em voz alta que, depois de duas netas, finalmente chegou um neto varão. Deitada na cama com o bebê, Hermíone sorri ao ver o pai tão agitado. O marido senta-se ao seu lado. Em frente, Dona Honorina segura Genoveva no colo. Madalena brinca no chão perto da cama da mãe. Héspero e Hércules, em pé e encostados na porta do quarto, observam a cena.

- Qual será o nome do menino? - pergunta Dona Honorina à filha.
- Vai se chamar Manoel. O avô é Manoel. O pai é Manoel... Meu filho também será Manoel. É uma homenagem ao meu sogro. Héspero vai até a janela. Observa os cachorros no terreno. Retorna rápido e se dirige ao cunhado.
- Eu não tenho nada contra este nome... Acho até bonito... É nome de santo... Mas Você não acha que já tem muitos manuéis na família?

Antes de falar, Antônio Manoel olha para a esposa.

- Não faço questão de ele se chamar Manoel. O importante para mim é ter nascido um homem.

Héspero vira bruscamente seus olhos em direção às meninas. Manoel percebe que cometeu um lapso e tenta se remediar.

- Nascer mulher também é louvável. Mas sempre desejei filho homem.
- Sou eu quem quer batizá-lo com este nome. O Manoel não faz nenhuma objeção - retruca Hermíone.

Héspero escuta um barulho do lado de fora. Vai novamente à janela. Alguém está chamando lá da rua. Antes de tomar alguma decisão, ouve o pai gritar da sala que vai ver quem está no portão. Héspero, então, vira-se para a irmã.

- Só dei minha opinião. Vocês são os pais e têm o direito de escolher o nome do meu sobrinho. Só sou de opinião que um nome deve identificar a pessoa sem deixar qualquer dúvida. Mas é apenas meu modo de pensar. Gosto muito do meu nome por causa disso. Ninguém precisa me chamar por apelido, somente com a finalidade de não se confundir com outros hésperos. Na minha faculdade, só na minha sala, há vários alunos chamados José. Para diferenciá-los são conhecidos por Zé do Andaraí, Zé da Tijuca, Zé Grande, Zé Louro, Zé Preguiça e assim por diante... Se alguém gritar para uma multidão: "quem se chama Manoel levante o braço". Na certa, muitos braços serão levantados... Se este mesmo alguém pedir para erguer quem tem nome de Héspero, só o meu será visto no ar... E isso se eu estiver presente. Caso contrário, nenhum braço será erguido. No meu modo de ver o nome de pessoa deve ser inconfundível.
- E qual nome você daria ao seu sobrinho? - pergunta Hermíone.
- Astreu.
- Astreu! É nome bastante esquisito.
- Alguns vocábulos desconhecidos quando se ouve pela primeira vez soa de modo estranho e feio. Depois, acostumados pelo uso, mudamos o nosso conceito inicial. Astreu é nome bonito. Vem da mitologia grega. O papai vai gostar, tenho certeza.

O colóquio cessa com a chegada de João. Seu Leopoldo, muito orgulhoso, segura o visitante pelo braço e o leva para ver o neto. Após breve conversa com Hermíone e Antônio Manoel, João e Héspero saem do quarto em direção ao quintal. Lá fora, João vira-se para o amigo.

- Venho me despedir de você... Viajarei sábado para Portugal.
- Vamos sentar à sombra da mangueira - diz Héspero.
Héspero acomoda-se em cima da grossa raiz da árvore e examina o amigo sentado sobre enorme pedra.
- Vai conhecer a Europa? Quanto tempo ficará por lá?
- Vou morar lá... Meu avô faleceu. Então, papai resolveu retornar a Portugal. Vai chefiar os negócios da família.
Héspero fica pensativo, enquanto João narra detalhadamente sobre as propriedades comerciais deixadas pelo avô.
- Este ano realmente foi péssimo para mim! Morreu meu irmão, e meus dois melhores amigos se afastam. Primeiro, o Eduardo...
Héspero, ao mencionar Eduardo, muda de assunto.

- Você sabe que o Eduardo foi condenado a 25 anos de prisão?
- Sim, Héspero. A irmã dele me falou sobre isso.
- Pois é, João. Agora, você se vai. Mais um amigo que perco.
- Não morri ainda... Vou continuar aparecendo.
- Você conhece Portugal?
- Não. Nunca fui a Portugal. Nasci em São Cristóvão, um pouco depois que meus pais imigraram.
- Em que cidade vão residir?
- Lisboa.
- Não se esqueça de dizer ao Marechal Carmona que lhe mando um abraço - brinca Héspero.
Eles se levantam e caminham em direção ao portão da rua. No meio do caminho, João puxa Héspero pelo braço.
- Parece que estou maluco. Ia me esquecendo de me despedir da sua família.
- Volta lá. Eu ficarei esperando por você no portão.
João caminha apressadamente para a casa. Héspero, já no portão, mira todo o céu até descansar a vista no Morro Inácio Dias. As formações de nuvens nimbosas chamam sua atenção.
- Estas nuvens estão carregadas. Vem muita chuva. O bastante para inundar todo o vale do Marangá. Héspero vira-se em movimentos brusco em direção a voz.
- Ah! É você Rafael. De fato, há prenúncio de forte temporal.
Rafael chega mais perto de Héspero.
- Poxa vida... O Eduardo pegou 25 anos. Você não acha muito?
Héspero não quer falar sobre o assunto com Rafael e prefere ficar calado. O próprio Rafael é que responde a sua pergunta.

- É... O Eduardo recebeu o castigo que mereceu.

Héspero fica mal-humorado com as palavras do vizinho. Sente-se melhor quando João regressa, fazendo Rafael retirar-se.

- Não gosto dele. Ele sabe disso, pois sempre sai quando nota minha presença - diz João.

- Foi bom ele ir embora, pois eu estava prestes a ter um atrito com ele.

Não me agradou o modo como ele falou do Eduardo. Ele é muito fingido.

Eles mudam de assunto e conversam por bom espaço de tempo. João vê que as nuvens estão cada vez mais ameaçadoras e resolve ir embora. Despede-se do amigo. Héspero fica no portão vendo João ir em direção à Praça Seca. João já está distante quando vira-se e grita para Héspero.

- E a Edith?

- Vai bem!... Vejo-a quase todos os dias - responde Héspero.

 

Capítulo 7

 

A sucessão dos dias, meses e anos tem conotação diferente para cada estágio da vida. Um mês para a infância é longevo; e um ano, quase a eternidade. O menino sempre se assusta ao ouvir que faltam dez anos para acontecer alguma coisa. Atingir um decênio para a criança é algo que se confunde com o infinito. A medida que o homem envelhece, os anos passam a ser os dias das crianças. O tempo já não é um fantasma. Os anos se sucedem uns atrás dos outros sem que se perceba. No envelhecimento, compreende-se que a vida é curta, e não àquela imensidão que ocorreu em sua cabeça infantil.
O cão Ribo pula e late atrás do dono. Héspero chega junto da mangueira e coloca a cuia no chão. Enquanto o cachorro engole avidamente a comida, ele contempla a copa verde da árvore, enegrecida pela noite escura. A mangueira está mais forte. O tronco bastante grosso, tornando impossível abraçá-lo como acontecia no passado. Os galhos superiores espalhados para todos os lados, fazendo-a fascinante e frondosa. "Quantos anos ainda vai vigorar esta mangueira? - interroga Héspero a si próprio nos seus pensamentos. Como a vida humana é pequena em comparação a das árvores. Esta mangueira nasceu antes de mim e está jovem e cheia de vitalidade, enquanto o meu corpo já começa a esmorecer". Héspero coloca a cuia no tanque e segue até a sala da residência. Ao entrar, coloca a mão no ouvido por causa do som alto do rádio. Genoveva vê o tio e sorri. Corre para diminuir o volume do rádio e retorna para junto da mãe. Madalena, com as mãos entrelaçadas sobre a saliente barriga em estado de gestação, também ri para o tio Héspero. Ele sobe a escada e chega rápido à antecâmara do andar superior. Apanha um livro e o manuseia sobre a escrivaninha. Um barulho em frente da casa o faz ir até a janela. Na escuridão da noite, não consegue reconhecer o vulto que transpõe o portão ao lado de Hermíone. Resolve retornar a leitura, mas só por pouco tempo, pois a voz da irmã soa em altos decibéis do pé da escada.

- Héspero... Héspero... É o João... Ele chegou de Portugal.

Surpreso, levanta-se bastante surpreso e grita com alegria.

- Mande ele subir... Mande ele subir.

João aparece diante de Héspero bem diferente do que era quando partiu para Portugal. Está com a barba e costeletas esbranquiçadas. João fica também admirando o amigo e olha demoradamente para sua cabeça.

- Você não envelhece. Não tem um fio de cabelo branco.

- É o clima de Jacarepaguá - brinca Héspero.

- E o bigode? Sumiu?

- Há anos que não uso. Raspei para parecer mais jovem.

Ambos riem demoradamente. Feliz com a visita, Héspero faz gesto para os dois sentarem na poltrona.

- O nosso lugarejo mudou da água para o vinho! - exclama João. Quase todas ruas estão com meio-fio e sem valas. Na Praça Seca, então, a transformação foi total: quantas árvores e o extenso gramado. Achei o coreto que colocaram muito lindo... Mas bonito mesmo é o casal de meninos de bronze.

João continua falando, fazendo comparações da praça da época que foi embora com a atual. De repente, lembra-se do campo onde se jogava bola.

- A reforma acabou com o campo de futebol. A rapaziada deve ter ficado triste.

- Sim, João. Foi poucos anos depois de você ter partido. A construção do coreto acabou com o nosso campo de futebol. Essa foi a primeira reforma da praça... O lado que tem o lago e a estátua dos meninos de bronze só foi reurbanizado muitos anos depois... em novembro de 1936.

- É... Como faz tempo que sai do Brasil!

- Precisamente há 24 anos - diz Héspero.

- O mundo mudou... A Segunda Guerra Mundial abalou toda a Europa. Apesar da neutralidade portuguesa, foram anos difíceis para nós em Lisboa. O Marechal Carmona continua no poder em Portugal, mas quem manda mesmo é o Salazar.

- No Brasil, também tivemos a ditadura de Getúlio Vargas. Foram quinze anos sem eleição para presidente - explica Héspero.

João examina o cômodo e olha para a escada.

- E a sua família... Como está? Já observei que houve uma reforma e ampliação em toda a casa... Este sobrado não existia no meu tempo.

- Exato, João... Meu pai faleceu e logo depois a minha mãe.

- A Hermíone me falou... Meus sentimentos.

- Obrigado, João... Alguns anos após a morte deles, resolvemos acabar com a nossa criação. Negociamos os animais e...

- E o Faísca? - interrompe João.

- O Faísca, não. Foi o único cavalo que não vendemos. Veio para este lado do terreno e morreu de velhice... Está enterrado entre as mangueiras.

- E os nossos passeios a cavalo!... A turma da praça andava a cavalo com você, principalmente eu e o Eduardo.

João faz ligeira pausa.

- E o Eduardo... tem notícias dele?

- Ele ainda está preso, João... Ainda está preso. Não conseguiu liberdade condicional, após algum tempo na cadeia... Todos presos conseguem... O Eduardo já está lá há 24 anos... Falta um ano para cumprir sua pena.

- Você já foi visitá-lo?

- Não, João... Não tenho nenhum rancor do Eduardo... Posso até falar com ele, se for necessário... Mas não tenho condições de procurá-lo... É por causa do Hermes.

- Eu lhe dou razão, Héspero. O Eduardo sempre foi um bom amigo, mas o Hermes era seu irmão.

- A família do Eduardo mudou-se daqui da Rua Baronesa. Talvez constrangida por ter que passar obrigatoriamente em frente à minha residência. Foram morar na Rua Capitão Menezes. A irmã dele ainda reside lá.

- Depois, você me dá o número da casa dela. Quero falar com ela, pois pretendo visitar o Eduardo na penitenciária.

- Eu não sei o número da casa, mas explicarei a você como chegar lá. Você conhece bem a Rua Capitão Menezes e vai encontrar facilmente a casa.

O latido do cachorro no quintal chama atenção de João.

- É o Síber? - pergunta ele.

- Não, João... Os cachorros não duram tanto tempo... Já se passaram muitos anos que Síber e Sibéria morreram.. Bem antes da morte dos meus pais... Este que está latindo lá embaixo é descendente do Síber... Mas se passaram algumas gerações de cachorros para chegar a este que late, cujo nome é Ribo.

Héspero levanta-se vai até a janela, mas volta rápido a sentar junto do amigo.

- Acabamos com toda a cavalariça do outro lado da rua. Em seu lugar, construímos um prédio de dois andares com quatro apartamentos. Aqui deste lado, reformamos a casa velha. Aí surgiu este sobrado que você está vendo. Nesta parte de cima, há dois cômodos e um banheiro. Estamos na antecâmara, que serve de escritório e sala de lazer.

Héspero torna a se levantar e chama o amigo até a porta do lado oposto da escada.

- Este é meu aposento. Aquela entrada no fundo dá para o banheiro privativo.

João observa o grande guarda-roupa no meio da duas pequenas camas de solteiro.

- O Hércules também dorme aqui?

- Não... O Hércules casou-se com a Judite. Lembra-se dela? Morava na Rua Dr. Bernardino.

- Não me recordo.

- Você sabe quem é... Vinte e quatro anos da sua ausência é muito tempo... Você não pode lembrar de todas as pessoas... Mas garanto que vai reconhecê-la logo que ela aparecer... O Hércules vive com a Judith nunca casa construída no terreno lá dos fundos, onde havia o pomar.

- Então, aquela segunda cama é para os visitantes... Vou aproveitar! - brinca João.

- Quem dorme ali é o meu sobrinho. Muitos dos livros que estão na estante são deles.

- É filho do Hércules?

- Não. O Hércules não tem filhos. A Judith teve problemas na gravidez. Perdeu o filho e quase também morreu. Por causa disso, foi obrigada a fazer ligação das trompas... Portanto, o sobrinho que dorme naquela cama não é filho do Hércules... É filho da Hermíone... Seu nome é Astreu.

- Astreu!?

- Sim... Você esteve aqui no dia que ele nasceu.

- Ah! Sim. É o bebê que vi quando viajei para Portugal.

- Exato, João... Só que o bebê agora tem 23 anos.

- Não são 24 anos - retruca João.

- Ele vai fazer 24 ainda este ano, no dia 3 de novembro. Não se esqueça que estamos em junho de 1950... O Astreu cursa a Escola de Engenharia do Largo de São Francisco... Já está na hora de ele chegar das aulas de hoje.

- Ele estuda à noite?

- Não... Estuda na parte da tarde... Mas é que depois das aulas costuma ir ao clube de xadrez... Ele é enxadrista... E joga bem... Tem muitos livros ali na estante sobre estratégia do jogo de xadrez.

- A Hermíone só teve três filhos? Ou mais?

- Só os três... O Antônio Manoel parou por aí.

- Como o Manoel está gordo! Quando cheguei, ele estava lendo jornal na varanda.

- É... Ele engordou bastante.

- Suas sobrinhas estão adultas e bonitonas... E a Madalena? Está esperando bebê?

- Ah! você viu o estado interessante da moça... A Madalena casou-se com um rapaz excelente... É o Edmundo. Eles moram em um dos apartamentos da antiga cavalariça. A Madalena vem todas noites para aqui em casa, a fim de escutar em companhia da mãe e da irmã a novela da Rádio Nacional.

- A Genoveva está solteira?

- Ela tem 24 anos. Diz que ainda é muito jovem para o matrimônio. Candidatos é que não lhe faltam.

- Imagino. Ela é muito atraente... E você?... Arranjou uma esposa?... e a Edith?

- Há cerca de 20 anos que não a vejo... Desde que ela foi morar em Copacabana... Ouvi dizer que ela se casou com um paulista muito rico.

Os dois voltam a sentar na poltrona.

- O meu gênio não combinava com o da Edith. Eram gênios antagônicos. A Edith sonhava com grandes centros urbanos e a alta sociedade... Acho que a nossa união jamais daria certo... Penso até que o amor dela não era sincero... Ela dizia que gostava de mim, mas na verdade não era bem assim. Ela me trouxe muitos problemas... Uma pessoa que ama não pode magoar sucessivamente o seu amor.

Héspero fica pensativo por alguns segundos, mas logo interpela o amigo.

- E você? Casou?

- Sim. Tenho um filho e uma filha, que estão na faculdade. É uma vida muito feliz... Você deve casar, Héspero... O casamento é o objetivo do homem.

- Não sou adverso ao casamento. Só que prefiro ficar sozinho. O solteiro tem liberdade total. É livre de qualquer dependência ou submissão nupcial. Isto é ótimo para mim. Mas acho que tanto o casado como o solteiro têm prós e contras.

- A sociedade - prossegue Héspero - tornou o matrimônio um fato obrigatório, deixando o amor em plano secundário. O principal do ser humano parece que é mostrar que tem um cônjuge, que realizou a tarefa predestinada ao nascer. A maioria casa-se por interesses em materializar o casamento com as leis seculares da sociedade do que por amor. Pensam que amam, mas na realidade estão condicionados às particularidades da nossa dita humanidade; e sem amor nada se constrói. Alguns têm medo da solidão... Outros têm vergonha do que possam dizer as pessoas do seu meio, caso não se casem... Esses se casam com a primeira que aparecer, e o casamento não pode dar certo. Na minha opinião, o matrimônio é importante, mas não o essencial... O indispensável para o homem é ser feliz, casado ou não casado.

- Concordo - interrompe João. Apesar de achar a felicidade muito difícil de ser conseguida.

- É mais simples do que se imagina. É claro que o destino regula a vida. O destino é regulado pelo fator sorte ou azar na nossa luta pela sobrevivência, como já escrevia no século passado o inglês Charles Darwin. Então, se a sorte nos ajudar e não acontecer alguma tragédia, podemos desenhar o nosso próprio destino e tecer um universo de venturas... Muitas vezes, o homem é infeliz por não desistir de alguma coisa que almeja e seja impossível de adquirir ou alcançar... É muito mais fácil viver com que possuímos e com os sonhos fáceis de serem atingidos dentro das nossas reais possibilidades. Não depender sempre dos outros, principalmente das coisas que podemos realizar sozinhos, é a solução exata para se obter aquilo que se deseja... E quem consegue aquilo que almeja é feliz.

Héspero sorri sem abrir a boca ao observar a cara espantado do amigo.

- É, João... Na minha opinião, o homem solteiro é mais feliz do que o casado... Não me refiro ao celibatário que procurou a vida inteira uma esposa e não encontrou... Esse realmente é um infeliz.

- Não concordo de maneira nenhuma. Eu sou casado e vivo muito bem com a minha mulher e meus filhos.

- Eu sei que existem muitos homens contentes com sua situação conjugal, mas a maioria não está. Já entre os solteiros é difícil encontrar um insatisfeito por ser solteiro. A não ser o caso que já falei do pobre homem que se martiriza por não conseguir se casar.

- Você então não acha que os filhos trazem felicidade?

- Lógico que sim... A criança é a coisa mais bela do ser humano... Inundam um lar de alegria e felicidade... O problema que me refiro é outro... É um óbice que afeta o mundo inteiro... São as pessoas malcasadas.

- Como estão seus vizinhos? Continuam morando aqui na rua? - pergunta João, procurando mudar de assunto.

- O Rafael continua morando aí do lado... O Lourenço também não se mudou. Reformou a sua casa e até construiu piscina.

- Ah! O Lourenço. Ele era louco por mulher!... Ainda está com aquela loura?

- Não. Desquitou-se. Vive com outra mulher bem mais jovem do que ele... O Henrique é que se aposentou da polícia e foi morar em Teresópolis.

Um vulto faz os dois olharem para escada, onde Hermíone sobe com cuidado, segurando uma bandeja.

- Trouxe café e biscoitos - diz ela.

- Não precisa se preocupar comigo - fala muito baixinho João.

Héspero puxa a mesinha com tampo de mármore para junto deles. Hermíone coloca os lanches sobre a mesa.

- Como vai sua irmã? - pergunta Hermíone ao João.

- Vai bem. Agora, ela reside na Tijuca.

- Pensei que ela estava com vocês em Portugal!

- Estava... Mas voltou para o Brasil... Ela quase sempre vai nos visitar em Lisboa.

- E seus pais?

- Eles estão bem de saúde. Meu pai tem mais de 80 anos.

- É... Lembro-me que os seus tinham menos idades do que os meus.

Héspero olha para a irmã e acrescenta.

- Se nosso pai fosse vivo, completaria este ano o centenário de nascimento.

- Dirijo a empresa sozinho. E estou indo bem! - fala orgulhosamente João, aproveitando o silêncio dos dois irmãos.

- Pretende retornar ao Brasil ou vai ficar definitivamente em Portugal - interroga Héspero.

- Continuarei em Lisboa... Viajei para resolver negócios na cidade de São Paulo, onde a minha empresa mantém pequena representação. Convoquei uma reunião, pois pretendo ampliar o escritório paulista, que é dirigido por um primo.

- O Brasil jogará contra a Suíça em São Paulo, no Estádio do Pacaembu. Você vai aproveitar sua estada em São Paulo e tirar um tempo para ir ver o jogo?

- Talvez... Gosto de futebol... Na Copa de 1938, vi o Brasil vencer a Tchecoslováquia... Eu participei de uma caravana de portugueses e brasileiros residentes em Portugal... Viajamos de trem de Lisboa a Bordéus, cidade francesa próxima da fronteira com a Espanha. A nossa vitória foi sensacional. Leônidas fez o espetáculo e um bonito gol. Na volta para Portugal, todos nós não tínhamos dúvidas. Para nós o Brasil seria o campeão mundial.

- É, João... O pênalti de Domingos em Piola acabou com as nossas pretensões.

- Foi uma tristeza... Escutei o jogo Brasil e Itália já em Lisboa... Foi muito duro... Imagino vocês aqui no Brasil como ficaram... Mas agora o nosso escrete não perde a Copa.

- Tenho minhas dúvidas - interrompe Hermíone, caminhando em direção à escada.

Enquanto a irmã desce a escada, Héspero apanha o livro deixado sobre a escrivaninha e o coloca no seu lugar na estante. E retorna a sentar na poltrona. João acompanha todos os seus movimentos.

- Como vai você na advocacia? - pergunta João.

- Larguei!... Não exerço mais a profissão. Sou professor de história e leciono em dois colégios particulares... Iludi-me muito com a advocacia... Pensava que iria ajudar as vítimas da sociedade, mas me enganei... Logo que me formei, estava completamente entusiasmado. Queria defender a todo custo que pessoas inofensivas e sem nenhuma culpa fossem condenadas.

- Lembro-me da sua empolgação na época de estudante de Direito.

- Pois é, João... Mas durou pouco... Meus clientes sempre estavam incriminados naquilo que pediam para eu defendê-los. Eu tinha a missão ingrata de provar que esses clientes culpados eram inocentes. Sabe de uma coisa, João... A minha empreitada até que era bem fácil, pois as próprias leis ajudam a absolver as pessoas envolvidas em atos contra a própria lei. É incrível, mas é a pura verdade. Não quis saber mais da profissão de advogado... Tornei-me um professor. Sinto-me bem melhor e mais feliz.

- Mas existem muitas pessoas injustiçadas. Por isso, há necessidade de profissionais para protegê-las - pondera João.

- Concordo... Eu sei muito bem disso... Mas o número é reduzido em relação aos que merecem castigo da Justiça e são absolvidos legalmente... Oh! João... O mundo está perdido... O mal está vencendo... Ele está infiltrado-se em toda a sociedade... Até o bem defende o mal... O bem não conta com a totalidade do próprio bem para socorrê-lo... O mal leva nítida vantagem, pois tem o amparo completo do próprio mal, somados aquela grande parte do bem que ajuda o mal, alegando sentimentos humanos... Com isso, João, o mal alastra-se geometricamente em todo o planeta. E, beneficiado pelas leis, continua cada vez mais forte na sua luta para destruir o bem... É uma luta desigual, João.

Héspero pára de falar ao observar João tentar acender o isqueiro sem conseguir.

- Deve ter acabado o fluído - explica João com o cigarro apagado no canto da boca.

Héspero levanta-se rapidamente e vai até a escrivaninha. Abre uma das gavetas, apanha uma caixa com fósforos e joga-a em direção ao amigo.

- O Astreu sempre deixa fósforos na gaveta.

João acende o cigarro. Héspero respira fundo e continua a explanar suas idéias.

- Os legisladores deveriam ter o máximo cuidado e inteligência para que as leis não protegessem tanto os culpados e os que usurpam os direitos dos outros. De qualquer forma, mesmo que as leis humanas fossem perfeitas, elas sempre teriam falhas. Justamente por serem leis humanas, bem distantes da verdade de Deus.

- Você é favor da pena de morte?

- Acho que aquele que mata, sem estar defendendo sua própria vida, deve ser punido com a morte, desde que uma sociedade democrática assim decida, principalmente quando o crime atinge um grau insuportável.

Em condições normais, só quem pratica o mal deveria ser contra a pena de morte.

- Mas a violência não traz violência.

- Não nesse caso, João... A cassação da liberdade do pensamento, a opressão ao cidadão normal e o fuzilamento de pessoas por idéias políticas podem ser enquadrada nesse antigo ditado... Mas a condenação jurídica do criminoso comum não pode provocar violência, pois não se trata de violência, mas sim de eliminação do mal por leis democráticas... Isto é: leis feitas com o consentimento da maioria da população... Repito: só aceito a pena de morte por meios democráticos.

- Tenho minhas dúvidas, Héspero. A criminalidade nunca diminuiu nos países que mantêm a pena de morte.

- A razão é simples. Ninguém acredita que vai ser condenado à morte, pois a lei não é cumprida à risca nesses países. Alguns recebem essa pena, mas a maioria dos criminosos não. Assim, fica difícil realmente diminuir a criminalidade, pois quem mata pensa que morrer na cadeira elétrica é com os outros e não com ele. É o caso dos Estados Unidos, que tem pena de morte, mas é um país líder no mundo do crime. São poucos condenados à morte. E mesmo quando isso acontece o mundo inteiro clama por indulgência.

- Os vivos fazem as leis sem pensar e respeitar os mortos - continua Héspero. É triste saber que uma pessoa que tirou a vida de alguém, depois de passar alguns anos na cadeia, volta a ser livre, a sorrir pelas ruas, enquanto a outra há muito está debaixo da terra.

- Nesse caso... o Eduardo... merecia pena de morte?

- Eu disse há pouco que as leis devem ser feitas com cuidado e inteligência. A pena de morte, na minha opinião, seria para os crimes com réu confesso ou com depoimentos de pessoas que presenciaram o assassinato, que podem provar que não estão mentindo. Isso evitaria condenar um possível inocente.

- Você acha que o Eduardo é um possível inocente?

- Não sei, João. Tudo leva a crer que foi ele, mas só existem provas circunstanciais. Não há testemunha ocular da exata hora que foi disparado o tiro... Nesse caso, eu sou contra a pena de morte.

Héspero fica alguns segundos em silêncio, mas retorna ao assunto.

- A impunidade é que aumenta a criminalidade. A facilidade de fuga das prisões também coopera para derrubar a máxima popular que "o crime não compensa". Hoje em dia, o crime está compensando. Os homens do nosso planeta estão muito distante de Deus. Estão realmente anos-luz do Universo, onde a sincroniza dos astros não permite a sobrevivência do mal. A própria Terra no espaço é bela e dialoga com o bem celestial. No Universo, o mal é destruído ao aparecer. Só há lugar para o bem... É o amor galaxial.

- Você crê em seres inteligentes de outros mundos?

- Acredito.

- Eu não... Acho todas essas estórias de extraterrestres uma fantasia.

- O mistério, João... somos nós mesmos... Olhe bem para o seu corpo... seu organismo, sua mente, sua alma e seu ser. Tudo isso é que é o mistério... A nossa própria vida é uma coisa incompreensível... Mas nós estamos habituado a vida, porque somos exatamente a vida. Por isso, achamos uma coisa normal... Mas na verdade é um dos maiores mistérios... Existindo aqui, não é nada fantástico e nem dogmático concebê-la em outra parte do cosmo... O Universo é tão imenso que chega as ser impossível pensar na existência da vida só neste nosso minúsculo planeta.

Héspero levanta-se, chama o amigo e dirigem-se para a janela.

- O céu está bem escuro. Será fácil achar a Constelação do Escorpião.

Eles param de observar o céu e viram-se para a direção da escada ao ouvir pisadas fortes nos degraus. Surge um jovem que se debruça no corrimão e enfia um dos joelhos entre os balaústres. João fica observando admirado para o rapaz recém-chegado. Héspero ri e acaba com a curiosidade do amigo.

- É o Astreu... É o filho da Hermíone.

Com movimentos rápidos, Astreu ultrapassa o último degrau e vai ao encontro dos dois na janela. O rapaz aperta demoradamente a mão de João ao ser apresentado pelo tio.

- Meu tio costuma falar do senhor... Os passeios a cavalo por Jacarepaguá.

- Na primeira e última vez que o vi, você tinha algumas horas de nascido - diz João sorrindo.

- Agora, ele está mais alto do que nós! - brada Héspero.

- Estou vendo.

- Como foi sua partida de xadrez no clube? - pergunta Héspero.

- Ganhei... Foi muito complicada e difícil, com quase cinco horas de duração.

- Cinco horas! - exclama João.

- É jogo de competição... Por isso demora tanto... As partidas amistosas de xadrez são bem mais rápidas... Enquanto nas partidas de torneios temos um tempo máximo de quarenta lances para duas horas, nas partidas chamadas "relâmpago" temos que fazer esses mesmos quarenta lances em menos de cinco minutos.

- Eu nunca me interessei em aprender a jogar xadrez... Sempre achei um jogo bem chato - retruca João.

Astreu não fala nada. Apenas contorce a boca e muda de assunto.

- Por que vocês estavam olhando para o céu?... Estavam procurando um disco voador?

Héspero sorri.

- Adivinhou!... Estávamos falando de seres de outros mundos... Quando você chegou, eu tentava localizar a Constelação de Escorpião, para melhor explicar ao João a grandeza do Universo.

Astreu vira-se para João.

- Meu tio gosta de falar de astronomia... Ele entende muito bem do assunto.

- Não é só astronomia que seu tio entende. Ele conhece bem de tudo... Possui uma cultura vasta.

- Eu sei disso.

Héspero parece alheio a conversa dos dois. Perscruta o céu com auxílio do dedo indicador.

- Finalmente achei o Escorpião... Está lá naquela ponta do morro - Héspero com o dedo ajuda eles a observarem a constelação.

- Com o céu assim bastante estrelado, fica difícil saber. Tem muitas estrela naquela direção - reclama Astreu.

- É aquele conjunto de estrelas que se assemelha a um ponto de interrogação de cabeça para baixo.

- Ah! Sim - falam João e Astreu ao mesmo tempo.

- O céu é maravilhoso. As estrelas formam desenhos belos. Os antigos procuravam dar nomes às constelações com os animais e seres mitológicos um pouco parecidos com os desenhos do céu. Reparem que a Constelação do Escorpião tem imagem bem próxima desse artrópode. Eu acho que a semelhança com o ponto de interrogação é mais perfeita do que a de um escorpião. Mas também lembra o bicho... Veja que o gancho da interrogação é o aguilhão ou ferrão do animal... Vamos seguir com os olhos a partir do ferrão seguindo as estrelas da constelação em direção ao norte... A penúltima dessa linha sinuosa é a gigantesca estrela chamada Antares.

- A penúltima antes daquelas três estrelas eqüidistantes e perpendiculares a essa linha? - pergunta Astreu.

- Exato.

- Já vi! É aquela vermelha, muito brilhante - exclama João.

- Ela se parece pequenina diante dos nossos olhos, mas seu tamanho é colossal. Se colocássemos o núcleo de Antares no exato lugar onde se encontra o nosso Sol, essa supergigante estrela englobaria os espaços das órbitas dos planetas Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.

- Nossa! - espanta-se Astreu. Eu sei que as estrelas são gigantescas, mas esse tamanho nunca imaginei.

- Comparando com Antares, o Sol é um grão de areia... E a nossa Terra é um milhão e trezentas vezes menor do que o Sol... Não se assustem, pois há estrelas maiores que Antares, como a Mira, a Beteljauza e a Epsilon do Cocheiro, dentro da qual cabem nove trilhões de sóis.

Héspero desvia os olhos do céu e põe a mão no ombro de João.

- Mostrei-lhe Antares para dar uma idéia de como a Terra é diminuta em relação a outros astros conhecidos. Só na Via Láctea, a nossa galáxia. As grandezas das outras galáxias espalhadas pelo Universo devem ser bem maiores.

Héspero aponta o dedo para João.

- Depois de toda essa lengalenga, volto a responder a sua pergunta com outras perguntas: Será que só a Terra é habitada por seres inteligentes? Será que o orgulho do Homem é tão grande que se julga a sublimação do Universo?

- É realmente espantoso tudo isso que você diz - fala João bastante circunspecto.

- O Cosmo é um enigma - continua Héspero. A sabedoria humana em relação a ele não existe. Perante o Universo, o Homem é um completo ignorante... Mas o ser humano pensa que é o maior. Enche-se de muita presunção para formular as teorias cósmicas... Mas na realidade essas teorias são apenas tentativas de explicar o inexplicável.

- Essa conversa pode levar uma pessoa a loucura - interrompe João.

- Por tudo isso é que temos certeza da existência de Deus... Não o deus que as religiões terrenas tentam explicar com relativa facilidade... Porém, um Deus enigmático... Tão enigmático como é para o Homem o Universo que Ele criou... O Homem ainda está muito distante de Deus... O ser humano cria teorias para um universo geométrico... A verdade é que, para a capacidade de inteligência do Homem, limitar o Universo é impossível...

Universo infinito em tempo e espaço é inacreditável, mas o finito também é... Nesse ponto, há necessidade de se acreditar em Deus.

João olha para o seu relógio de pulso e exclama.

- Não é possível! Já é meia-noite! Como passou o tempo!

Héspero também consulta as horas.

- Também não sabia que já era essa hora. A conversa foi longa e nos distraiu.

- Tenho que ir embora - diz João.

- Não... De jeito nenhum. Não vou deixá-lo sair da minha casa de madrugada... A condução é muito difícil a esta hora... Há lugar para nós três aqui em cima... Vamos, Astreu... Vamos lá embaixo apanhar o sofá-cama.

- Não precisam se incomodar. Pego um bonde, depois o trem... Desço em São Cristóvão e sigo a pé até a Tijuca.

Héspero encara o amigo sorrindo.

- Você esqueceu que pretende passar na casa da irmã do Eduardo... Como vai bater lá a esta hora?... É melhor ir visitar ela amanhã de manhã. Você estará mais tranqüilo do que agora.

- Está bem, Héspero... Aceito a sua hospedagem.

Os três descem alegremente para trazer o sofá-cama Drago.

 

Capítulo 8

 

Héspero está em pé na varanda. Ao seu lado, sentado em uma cadeira, seu cunhado Antônio Manoel lê o caderno esportivo do jornal. O cachorro está deitado no chão bem junto deles.

- Maravilho!... Maravilhoso, esse Zizinho - fala Manoel, apontando para a seqüência fotográfica do segundo gol do Brasil contra a Iugoslávia, estampada no jornal.

- É, Manoel... O Zizinho foi a peça mais importante da vitória do Brasil na tarde de ontem no Estádio Municipal.

Um barulho de vozes altas faz Ribo se levantar e latir em direção à rua. Héspero e Manoel olham para o portão, a fim de identificar quem conversa com o Hércules.

- Parece ser o João - diz Manoel.

- É ele sim... Não esperava que voltasse tão rápido de São Paulo... Só faz uma semana que ele esteve aqui em casa.

Héspero corre até o portão e abraça o amigo. João ainda continua do lado de fora, olhando um pouco assustado para Ribo.

- Pode entrar, João... O cachorro é manso... Não vai fazer nada a você.

João ultrapassa o portão e segue, junto com Hércules e Héspero, para junto de Manoel na varanda. Ribo também acompanha os três, cheirando pelo caminho as pernas de João.

- Que surpresa, João!... Pensei que ficaria mais tempo em São Paulo.

- Não, Héspero... Só fui organizar problemas administrativos da empresa com o meu primo... Só vim fazer uma visita rápida... Não posso demorar... Da outra vez, que conversa... hem?

- Oh!... Sim.. Sobre universo, infinito e outras coisas.

- Senti até dor de cabeça na viagem para São Paulo ao recordar aqueles assuntos das estrelas gigantescas.

Héspero sorri.

- Você assistirá aos jogos restantes da Copa do Mundo? - pergunta Manoel.

- Não... Regressarei amanhã para Portugal.

- Já vai voltar!... Pensei que você ia ficar mais de um mês no Brasil - diz Héspero.

- Não posso deixar por muito tempo os meus negócios por lá... Senão, eu vou à falência.

- Viu o Brasil jogar em São Paulo? - pergunta Héspero.

- Sim... Que joguinho feio... Como o Brasil jogou mal... Que empate horrível com a Suíça.

- Mas ontem contra a Iugoslávia atuou muito bem. Eu fui ao jogo com o Astreu e o Manoel - observa Hércules.

- O Héspero não foi ao jogo? - interroga João.

- Não... E nem vou aos dois que faltam... Tenho medo do Brasil perder... Prefiro escutar pelo rádio.

- O Brasil não vai perder de ninguém... Para mim já é o campeão do mundo - intervém Manoel. Vocês tinham que ver o Zizinho. Que prodígio com a bola nos pés.

- Em São Paulo, ele não entrou. Talvez tenha feito falta - explica João.

- Se jogasse, na certa o Brasil ganharia da Suíça - completa Manoel.

- O Zizinho é jogador sensacional. Não vi o jogo de ontem contra a Iugoslávia, mas conheço demais seu futebol - fala Héspero, sorrindo.

- Você que mora na Europa, o que acha da Suécia e Espanha? - pergunta Hércules ao João.

- Não conheço o time da Suécia. A Espanha é que está praticando excelente futebol.

- A Suécia e a Espanha serão os próximos adversários do Brasil... Domingo, será contra a Suécia... Na quinta-feira da semana que vem, a Espanha - completa Hércules.

João olha para Héspero e muda de assunto.

- Antes de ir para São Paulo, fui visitar o Eduardo na penitenciária da Rua Frei Caneca... Conversei bastante tempo com ele.

- Como ele está? - inquire Héspero em voz baixa.

- Estava contente, pois no dia que o visitei tinha recebido a informação que seria libertado... Nesta ou na outra semana, ele estará livre.

- Mas o término da sua sentença não seria no ano que vem?... Ele pegou 25 anos de cadeia - replica Hércules, com rosto contrariado.

- Sim... Mas ele conseguiu finalmente atenuar a pena - esclarece João.

João nota que Héspero quer falar, mas também observa que Hércules e Antônio Manoel não gostaram da notícia da liberdade de Eduardo. O grupo ficam em silêncio por algum tempo. A chegada de Hermíone interrompe a situação constrangedora. Ela fica conversando demoradamente com João. Héspero afasta um pouco e agacha-se para acariciar Ribo. Manoel volta a ler jornal. Hércules se despede de João e sai apressadamente. João também dá um adeus ao Manoel e caminha acompanhado de Hermíone e Héspero em direção ao portão. Os três ficam algum tempo relembrando o passado na calçada em frente a residência, mas sem em nenhum momento lembrar da morte de Hermes nem de Eduardo. João resolve ir embora. Hércules o acompanha até a Praça Seca. Somente no ponto do bonde é que Héspero volta a mencionar o nome de Eduardo.

- Quer dizer que você visitou o Eduardo. Como está a aparência dele?

- Está muito acabado... Bastante enrugado e com os cabelos totalmente brancos... Quase que não o reconheci... Como deve sofrer um homem na cadeia.

- Eu sei disso... Tenho pena do Eduardo, apesar de ele ter matado meu irmão.

- Notei que o Hércules e o Manoel não gostaram da notícia da liberdade do Eduardo.

- Desde a morte do Hermes, que eles não suportam falar sobre o Eduardo.

- O Eduardo disse que vai morar na casa da irmã até resolver sua situação na sua volta à vida... Depois que arranjar um emprego, vai se afastar de Jacarepaguá.

- Nem imagino como ele está, depois de tantos anos preso.

- Ele está muito indignado com o mundo... Não só por ter ficando 24 anos preso... Mas por que disse para mim que é inocente... Ele jurou no dia da minha visita que não matou o Hermes.

Héspero sente um calafrio na espinha. Fica calado e pensativo.

- Você pretende visitá-lo?

- Não sei, João... Não sei... A situação continua a ser muito difícil para mim.

O bonde aproxima-se do ponto. Os dois mudam de assunto e conversam coisas normais da hora da despedida. O veículo pára no ponto e João embarca. No estribo, volta-se e acena para Héspero. Este grita em sua direção.

- Apareça!... Não vai demorar outra vez 24 anos em Portugal!

- Vou voltar brevemente para uma visita - fala João, com o polegar voltado para cima.

 

Capítulo 9

 

A notícia da liberdade de Eduardo deixa Héspero com o pensamento voltado para seu amigo de juventude durante dias. O juramento que ele fez para João que é inocente, após passar 24 anos na cadeia, o impressionou bastante. Sempre soube que Eduardo negava o crime. Nos primeiros anos depois do assassinato, ficava na dúvida se foi o amigo. Mas, ao passar do tempo, se convenceu que ele era mesmo o criminoso. As vitórias do Brasil no Campeonato Mundial ajudava a contrabalançar seus pensamentos sobre o Eduardo. Em sua casa há alegria pelas goleadas dos craques brasileiros sobre os europeus. No domingo, dia 9 de julho de 1950, escuta pelo rádio, acompanhado pela irmã, as duas sobrinhas e a cunhada Judith, o Brasil vencer a Suécia por 7 a 1. Astreu, Hércules, Antônio Manoel e Edmundo estavam no estádio assistindo ao jogo. Cada gol brasileiro, Héspero festeja com as parentes, fazendo apagar temporariamente as lembranças do caso de Eduardo. Na quinta-feira, dia 13 de julho de 1950, a festa em sua casa é maior com a goleada sobre a temível Espanha por 6 a 1. Na véspera do jogo decisivo contra o Uruguai, não consegue pegar no sono. Na outra cama, observa que Astreu já está dormindo há bastante tempo. Tentando não pensar muito sobre o Eduardo, condiciona sua mente a recordar todo o grande movimento do dia em sua casa. Lembra-se que não queria ir ao jogo final da Copa por estar com pressentimento mau. Porém, Astreu o convenceu, ajudado por Antônio Manoel, Edmundo e Hércules. Vem à sua mente a imagem do sobrinho mostrando que comprou cinco ingressos para o jogo. Um era para ele. Foi assim que decidiu ir ver a Seleção Brasileira jogar.

Cansado, Héspero consegue dormir. No dia seguinte, ao se levantar vê que Astreu já desceu. Arruma-se rápido e vai se juntar com o resto da família. Lembra-se que ficou combinado na véspera que fariam uma refeição reforçada logo pela manhã, a fim de chegar bem cedo no Estádio Municipal. Hermíone já está com a comida toda pronta, e os cinco homens se alimentam, para enfrentar a maratona do dia. A manhã de domingo, dia 16 de julho de 1950, está linda, com o céu completamente azul. Em pouco tempo, Héspero, Manoel, Hércules, Astreu e Edmundo saem de casa. Caminhando bastante alegres, eles chegam na Praça Seca. O bonde vem muito cheio. Só há pouco espaço nos estribos. Eles resolvem ir assim mesmo pendurados entre outros passageiros. Em Cascadura, o movimento de pessoas que procuram o trem também é grande. Ninguém quer perder o grande jogo. A plataforma está toda tomada pela multidão. O grupo resolve ir no trem que está parando na estação, após não conseguir entrar em outros que passaram lotados. Astreu empurra Héspero, enquanto Manoel abre caminho para entrar no vagão. Hércules e Edmundo vêm logo atrás. A chegada do trem na estação do Maracanã é um alívio. Eles andam esticando as pernas. Hércules reclama que seu braço está dormente, pois ficou imobilizado dentro do trem superlotado. Sobem a rampa do estádio. Logo alcançam a arquibancada. Apesar de ser bastante cedo, não conseguem os bons lugares que pretendiam.

- Poxa vida! - exclama Astreu. Ainda não são onze horas e a parte central da arquibancada já está totalmente tomada.

- Há alguns claros naquele lado - aponta Héspero. Vamos sentar lá.

Acomodados, esperam o tempo passar. Todos sentados lado a lado. Astreu está no meio de Héspero à sua direita e o cunhado Edmundo à sua esquerda. Hércules está junto de Manoel. O jogo começa às 15 horas. Astreu não pára de gritar e está quase afônico ao terminar o primeiro tempo em zero a zero.

- O Brasil pressionou, mas não conseguiu fazer gol - diz Astreu.

- E agora no finalzinho quase gol do Uruguai, que chutou uma bola na trave. O jogo está difícil e perigoso para o Brasil - alerta Héspero.

No limiar do segundo tempo, Ademir lança Friaça, que investe em diagonal para a grande área, passa por Rodrigues Andrade e faz o gol do Brasil aos dois minutos. Enorme exaltação e delírio em todo o estádio apinhado de gente. Os jogadores em campo se abraçam demoradamente. Héspero, Astreu, Manoel, Edmundo e Hércules são a própria alegria de viver. O Brasil finalmente consegue o seu gol.

- Pode o Uruguai fazer o seu gol... De nada vai adiantar para eles... O Brasil é campeão com o empate.

- Eu não quero que eles façam gol... Quero que fique assim até o final.. A vitória do Brasil por 1 a 0 está muito boa - observa Héspero.

- Que nada, tio. Agora é que vem os gols de Ademir. Vai ser nova goleada - diz Astreu sorridente.

O jogo torna-se dramático. Héspero esfrega a mão nervosamente. Quer ver o tempo passar, a partida acabar e não desprega os olhos do relógio. A iminência do segundo gol do Brasil, que fará cessar sua ansiedade e o deixará aliviado, faz ele se levantar a todo ataque do Brasil. De vez em quando, o Uruguai contra-ataca. Consulta novamente o relógio: faltam 25 minutos para terminar o jogo. Sua cabeça gira para observar toda extensão da arquibancada, e nota que não é só ele que está preocupado, mas todo o povo que lota o estádio. Num ataque dos adversários, volta a se fixar para o gramado e vê Schiafino receber a bola e marcar o gol do Uruguai.

- Não é possível - murmura Astreu.

Héspero fica prostrado, apesar do empate ainda servir para o Brasil ser campeão. Aquele gol magoa terrivelmente seu coração. Sente sensação de solidão, embora esteja ali no meio da multidão e dos parentes. O silêncio de toda a torcida o amedronta. Um rapaz de camisa azul, poucos degraus abaixo, levanta-se e põe a mão na cabeça, parecendo querer arrancar os cabelos. Sua angústia e aflição despertam interesse de Héspero, pois ele continua a agarrar os próprios cabelos. Ao olhar para a mão do rapaz, Héspero leva um susto. Não acredita no que está vendo. Torna a examinar o dedo do estranho. "O mesmo anel... O mesmo anel do meu pai, não é possível - pensa ele". Héspero olha para os parentes. Todos estão concentrados no jogo. Ao retornar para o desconhecido, vê que ele já está sentado, sendo impossível verificar novamente o dedo onde está o anel.

- Não está prestando atenção no jogo, tio... Quase que o Friaça faz um gol para o Brasil.

- Estou vendo sim, Astreu.

Na verdade, Héspero não consegue se concentrar mais na partida. Uma agonia maior, com a possibilidade de ter visto o anel do pai, desvia sua atenção do campo. Não tira os olhos do rapaz e fica na expectativa com os seus movimentos. Pensa em descer até o local onde ele está e perguntar sobre a jóia. Mas logo desiste. "Não posso fazer isso. Se ele realmente porta o anel do meu pai, pode estar envolvido em muita coisa. Pode ser perigoso. Mas preciso ver o anel de perto, para ter certeza que é o mesmo. Tenho que arranjar um meio de chegar perto desse estranho".

- Quantos minutos faltam para terminar o jogo?

Ao ver que o tio não escutou. Astreu bate no seu ombro e repete a pergunta.

- Quantos minutos faltam, tio?

- Hã. Sim... Sim, Astreu... Está falando comigo?

- O senhor está muito absorto, tio. Perguntei quantos minutos faltam para terminar o jogo.

Héspero consulta o seu relógio.

- Faltam quinze minutos

- O Brasil vai ser campeão, tio... O empate serve para nós.

Héspero nota que o desconhecido coloca a mão do anel na nuca. Surge uma idéia rápida na sua cabeça. Apanha uma moeda no bolso. Joga para o local onde está o rapaz . A moeda rola e cai no degrau bem atrás do estranho. Héspero desce, pedindo licença aos outros torcedores e explicando que sua moeda rolou os degraus. Assim, chega bem perto do desconhecido e vê que o anel é sem dúvida o mesmo que foi do seu pai. O estranho não nota a presença de Héspero, pois está de costas. Um senhor, no degrau de cima, pega a moeda no chão e entrega a Héspero. Ao retornar, vê todos seus parentes assustados pelo que ele fez. Héspero explica que a moeda escapuliu dos seus dedos e rolou pela arquibancada.

- Lá vai novamente Gighia - fala Manoel, muito nervoso.

- Não.. Não deixe ele passar. Não... Não, tio... Não foi gol. Não acredito... Diz que é mentira, tio.

Héspero consola o sobrinho, passando a mão em sua cabeça. Aquele segundo gol do Uruguai lhe dá um nó na garganta e quase não pode falar. A jóia do pai também o deixa alquebrado. Olha para o estranho e vê que ele igualmente está sofrendo por causa do gol de Gighia. "O que fazer, agora? - pergunta a si próprio nos seus pensamentos. Sempre procurei esconder o roubo do anel, para não magoar meu pai e nem macular a memória do Hermes. Mas o anel está ali embaixo, tão misterioso como sempre o foi. Quem é esse rapaz? Como o anel foi parar na sua mão? Será um bandido? Um ladrão? Como saber? Peço auxílio aos meus parentes". Héspero pára de meditar ao ver o estranho se levantar e seguir para o túnel de saída da arquibancada. Héspero fica de pé e fala com o sobrinho.

- Preciso ir ao banheiro... Volto já.

- Agüenta um pouco, tio... O jogo já está terminando.

Héspero sai igual a um autômato e não ouve o apelo de Astreu. Desce até o grande patamar de acesso à arquibancada. O rapaz já está um pouco longe, mas sua camisa berrante azul facilita observá-lo. Héspero acelera o passo e junta-se às poucas pessoas tristes que deixam o estádio antes do jogo terminar. O desconhecido está mais adiante. Héspero aproxima-se somente o necessário para não perdê-lo de vista. Na Rua São Francisco Xavier, vê que ele entrou num botequim. Héspero também entra e finge que vai ao mictório. Atrás da porta, observa o rapaz tomando café. O estranho sai do bar e a perseguição continua. Atravessam a Rua São Francisco Xavier e entram na Rua Visconde de Itamarati. Héspero pensa em interpelá-lo, mas logo acha que pode ser perigoso. O jogo ainda não acabou e não há quase ninguém nas ruas. Prefere continuar atrás e descobrir onde ele mora. O rapaz vira a esquina e entra na Rua Universidade (nota do autor: A Rua Universidade atualmente chama-se Rua Deputado Soares Filho). Héspero gela ao observar a rua inteiramente deserta. Nenhuma pessoa, só os dois. Com um pouco de medo, mas firme em segui-lo. Ao longe, vê que o estranho dobra para a Rua Barão de Mesquita. Ao chegar, não vê ninguém. Olha para todas as casas por perto e nada. Desanimado, tenta caminhar. Nisso, recebe forte pancada na cabeça. Sente tudo escurecer e o corpo desfalecer sobre as pernas trêmulas. Cai no chão e perde os sentidos. Quando volta a si , está em um pequeno jardim, encostado no muro. Vê que uma senhora passa algodão molhado em sua cabeça. Sente cheiro de éter. Atrás da mulher, outra bem mais jovem segura um pequeno vidro na mão.

- Estou aqui há muito tempo?

- Um pouquinho.

- Onde estou? O que houve comigo?

- Você levou forte pancada na cabeça. Eu e minha filha o carregamos aqui para dentro. Você estava caído na calçada.

- Pancada!... Como?.. Com quê?

- Foi um rapaz empunhando um pedaço de pau. Eu vi da varanda - diz a moça, avançando em sua direção.

- Um rapaz ?!...Qual era a cor da camisa dele?

- Azul.

Héspero tem a confirmação. Foi a pessoa que ele seguia que o agrediu. Foi o estranho do anel.

- Eu o conheço... Já vi muitas vezes na praça.

- Praça... Que praça?

- Saens Peña.

- Mas onde ele mora?

A jovem chega mais perto de Héspero, mas a mãe a empurra.

- Não fale besteira. Você não sabe de nada. Você não viu nada. Vá lá dentro buscar o vidrinho de mercurocromo.

Héspero levanta-se e sacode a roupa, procurando retirar a poeira.

- Já me sinto melhor. Muito obrigado pela ajuda, mas preciso ir.

- Deixe ao menos acabar de medicá-lo.

- Minha cabeça dói. Está muito ferida?

- Um pequeno galo. Vou passar o remédio.

Enquanto a senhora faz o curativo, com trejeitos com o rosto procura se comunicar com a moça. Ela evita fitá-lo e se afasta um pouco timidamente.

- Ainda sente dor? - pergunta a senhora.

- Não... Apenas uma dormência no local.

- Então, não houve corte... Só este calombo.

A moça não se aproxima para se despedir. Apenas faz sinal da varanda. Héspero afasta-se e caminha em direção à Rua São Francisco Xavier. Em poucos minutos, alcança a estação de São Cristóvão e embarca no primeiro trem que chega. O ambiente em sua volta é de pesar, por causa da perda do título mundial. Sente dó em ver a marca da derrota nos rostos das pessoas. Mas seu ego está duplamente atormentado. Não consegue pôr em ordem seus pensamentos. Foi realmente um dia execrável. "Que aconteceu com o meu pessoal, quando eu sumi do estádio - pensa ele. Devem estar pensando que me perdi deles na hora que o jogo acabou. Eles devem ter chegado em casa". O trem chega em Cascadura. Logo depois, Héspero embarca no bonde. Ao saltar na Praça Seca, segue ligeiro pela Rua Baronesa. Ao longe, vê muita gente em frente ao seu portão. A medida que avança, reconhece Manoel, Edmundo, Madalena, Genoveva e Hermíone. A irmã vem ao seu encontro.

- O que houve com você? Estamos todos assustados - diz ela.

Antes de ele responder, Astreu e Hércules correm do quintal para o lado de fora.

- Como o esperamos, tio!... Saímos do estádio muito depois do jogo ter acabado... O que houve?

- Levei uma queda no banheiro e bati com a cabeça no chão - ao mesmo tempo que fala, Héspero aponta para o galo na cabeça, evitando tocar no assunto do anel.

- Mas por que você não voltou para o lugar onde estávamos? - inquire Hércules.

- Eu estava com muita dor e cambaleando. Uma pessoa me levou para a enfermaria do estádio... Demorei muito lá.

- Esperamos bastante. Com a sua demora, concluímos que você resolveu voltar sozinho por não ter conseguido nos localizar no estádio - explica Manoel.

- Levamos um susto quando não o encontramos aqui. Já estávamos se preparando para tomar alguma providência - fala Hércules.

Todos seguem para a casa. Héspero se detém no quintal, a fim de brincar um pouco com Ribo. O cachorro cheira todo o seu corpo. Com as patas no peito do dono tenta alcançar com o nariz a cabeça de Héspero. Este agacha-se, e Ribo cheira o local do calombo, decifrando os odores do curativo. Ao chegar na sala, nota que o assunto é a derrota do Brasil. Héspero também participa um pouco da conversa e sobe para o sobrado, a fim de tomar banho. Depois, desce para jantar. Após fazer a digestão, sobe novamente para o quarto, pois o corpo cansado está pedindo uma cama. Porém, não consegue dormir e as horas passam. Astreu entra no quarto e acende a luz. Vê que o tio está acordado.

- O senhor subiu há bastante tempo para dormir, mas não conseguiu.. Está sem sono por causa da derrota do Brasil ou pelo tombo que levou.

- Astreu.... Quero lhe contar uma coisa... Mas peço segredo... Você não deve contar nada a ninguém... Nem à sua mãe... Nem ao seu pai... A ninguém, Astreu.

- Pode confiar em mim. Vou costurar minha boca.

Héspero ri, mas logo fica sério.

- Eu não levei nenhum tombo... Fui agredido.

- Agredido!... Por quem?

- Por um desconhecido.

- Qual a razão, tio?... Foi por causa do jogo?

- Não... É uma estória muito longa... Você já ouviu falar do anel que pertenceu ao seu avô Leopoldo.

- Um anel!... Hã... Sim... Sim... Mamãe contava isso para mim e minhas irmãs... Deixe me lembrar... Parece que era do século passado e tinha cravado uma pequena cruz de rubis.

- Isso mesmo.

- A mamãe disse que o anel sumiu misteriosamente... Parece que foi um furto... Até hoje ninguém sabe quem roubou.

- Eu sei, Astreu... Eu sei... Eu sempre soube.

- Como!... Como é possível... O senhor nunca falou sobre esse anel... Por que, tio?

- Fui obrigado a manter segredo... Um segredo de 24 anos.

- Quem roubou?... Por que o senhor foi obrigado a guardar segredo?

- Quem roubou foi o seu falecido tio Hermes...Ele estava com o anel na noite que morreu.

- Mas por que o senhor não falou sobre isso na época?... Por que não contou ao vovô Leopoldo?

- Não disse nada para não entristecer ainda mais a família naqueles dias tão adversos... Resolvi nunca mais tocar no assunto, a fim de não macular a memória do Hermes... Na noite do crime, eu e o Eduardo vimos o Hermes com o anel na praça... Ele disse que tirou o anel da gaveta do papai, para empenhá-lo... Eu até discuti com ele por causa disso.

Astreu acende um cigarro e acompanha com atenção a narrativa do tio.

- Guardei segredo sobre isso... Não sei se fiz bem ou se fiz mal.

- Acho que o senhor agiu bem... Respeitou a memória do irmão.

- É, Astreu... Naquela época você nem tinha nascido... A nossa família estava muito aflita com a morte do Hermes... O papai então estava inconsolável.

Astreu olha para o calombo na cabeça de Héspero.

- O anel tem alguma coisa com a agressão?

- Se tem, Astreu... Eu vi um rapaz com o anel do papai durante o jogo.

- O quê!... Por que não falou com a gente?

- Não sei... Talvez a emoção do jogo... Talvez por estar condicionado a guardar o segredo do anel para o resto da vida... Também pensei em resolver o caso sozinho... Não estava com a minha cabeça no lugar, confesso.

- O senhor não devia ter feito isso... Podia até ter acontecido algo pior... Tinha que ter falado com a gente... Esse rapaz estava sozinho?

- Estava... Deve ter sido por isso que tive a coragem de ir atrás dele, quando se levantou.

- Foi naquela hora que o senhor disse que iria ao banheiro?

- Sim... Pensei em interpelá-lo ainda dentro do estádio... Mas ele estava indo embora, e o segui pelas ruas da Tijuca até receber a pancada.

- Só não entendi uma coisa: o anel estava com o tio Hermes no dia do crime... Não encontraram no bolso dele depois de morto?

- Não... Simplesmente sumiu.

- E o Eduardo... Não falou com a polícia sobre o anel?

- Também não... Sempre achei estranho ele ter procedido assim.

- Por que o senhor não vai conversar com o Eduardo. Ele já está em liberdade... Ontem, ele estava parado em frente à Padaria Marangá, quando eu passei com a mamãe... Eu nunca o tinha visto, lógico... Foi a mamãe que me mostrou, dizendo que foi a pessoa que matou o tio Hermes.

- É... Eu já sabia que ele seria solto... Desde a morte do meu irmão, nunca mais falei com o Eduardo... Não sei se agora tenho coragem de conversar com ele.

- Agora, tio... Mudou tudo com o aparecimento do anel... Tudo é mistério... Acho que o senhor e o Eduardo devem trocar idéias... O Eduardo pode saber de alguma coisa sobre o anel... Vai conversar com ele e conta tudinho que aconteceu no estádio... Agora, está tudo confuso... Talvez, falando com o Eduardo surja alguma novidade a mais sobre o anel.

- Nem sei como ele vai me receber.

- Acredito que muito bem. Afinal, o senhor e ele foram grandes amigos.

- Mas agora a situação é outra... A essa trágica barreira que foi o assassinato do Hermes.

- Não custa tentar, tio.

- É... Talvez amanhã... Talvez amanhã irei à casa dele... Agora, tentarei dormir.

- Vou apanhar uns soníferos.

Astreu retorna com o remédio. Toma um comprimido e dá outro para o tio. Apaga a luz e deita-se. Héspero sente sonolência e logo adormece. Tem sono profundo, mas acorda antes de todos. Levanta-se assustado. Arruma-se ligeiro, pois pretende encontrar o Eduardo. Sai de casa e percorre as ruas desertas. O Sol ainda não tinha acabado totalmente de nascer. Chega em frente da casa do antigo amigo e bate palmas diversas vezes, mas ninguém atende. Então, empurra o portão e vê a porta da sala meia aberta. Grita bem alto o nome de Eduardo, mas ninguém responde e nem aparece. Resolve entrar e leva grande susto. Sentado diante da porta está Eduardo com grande corte no rosto e o sangue a escorrer. Penduradas na parede, enxadas e machadinhas de diversos tamanhos. Junto ao Eduardo, sobre a mesa, um grande machado. Eduardo apanha o machadão e avança contra Héspero, que fecha a porta e sai desesperado para a rua. Mas Eduardo continua atrás dele, empunhando o enorme machado. Héspero corre e pede socorro às pessoas nos portões, que fogem para o interior das casas. Héspero sente-se completamente perdido. Não há salvação. Eduardo está prestes a alcançá-lo. Já sente que ele está bem próximo de si.

- Não... Não me mate, Eduardo... Não me mate, por favor.

- Que foi, tio - grita Astreu, pulando da cama.

- Tive um pesadelo horrível. Sonhei que o Eduardo queria me matar com um machado.

- O senhor está muito preocupado. Não sabe se o Eduardo vai recebê-lo bem.

- Já me sinto melhor. O pesadelo foi bom para serenar minha mente. Estou parecendo mais leve.

 

Capítulo 10

 

Na manhã seguinte, Héspero e Astreu acordam quase juntos. Héspero vai ao banheiro, enquanto Astreu abre a janela. O céu está límpido, com um azulado característico do mês de julho. Astreu respira fundo e se espreguiça. Olha para o relógio na parede.

- Já são nove horas, tio.

- Eu sei. Quero me apressar... Eu vou à casa do Eduardo.

- Resolveu ir... Que ótimo... Assim, vai saber novidade sobre o anel.

- É... Eu acho que sim... Vou conversar com ele sobre o assunto.

Héspero desce, toma café e parte sem seguida. Caminha a pé até a Rua Capitão Menezes. Ao chegar à casa do Eduardo, pára e hesita. Lembra-se do pesadelo. Não sente coragem de chamá-lo. Acerca-se do portão, pensa em bater palmas, mas decide regressar para sua residência.

- Olá!... E você, Héspero... Vou chamar o Eduardo - fala alguém do quintal.

Héspero ainda estava indeciso, se volta ou não para sua casa. Mas a voz o paralisa. Gira o corpo e vê a irmã de Eduardo do outro lado do muro. Ela faz sinal com a mão para ele esperar. Héspero fita demoradamente a porta da sala: "como sonhei com um porta tão idêntica, se nunca estive neste local. O Eduardo não residia aqui. Antes de ser preso, morava na Rua Baronesa". Seus pensamentos são interrompidos, com a chegada do próprio Eduardo. O antigo amigo está ali bem adiante e com sorriso acolhedor. Eduardo abre o portão e abraça Héspero.

- Estou muito alegre com a sua visita.

Eduardo aponta para o terreno. Os dois caminham e sentam-se num banco de madeira na sombra de frondosa árvore.

- É uma enorme felicidade revê-lo - diz Eduardo.

- Há quanto tempo! - observa Héspero, um pouco constrangido. Eu errei eu não lhe ter procurado. Abandoná-lo a sua própria sorte.

- De maneira nenhuma!... Como iria me procurar! Se eu matei seu irmão!

Héspero sente o corpo gelar e fica espantado com a afirmação de Eduardo.

- Não fique assim espantado, Héspero... Eu sei que não matei... Mas de que adianta eu falar a verdade, que é apenas um fato perdido entre mil mentiras que provam ser a verdade.

Eduardo sorri. Héspero observa que João tinha razão, pois diante de si está uma pessoa aparentando muito mais a idade que tem. Eduardo continua a falar.

- Na prisão, me tornei filósofo. Pensei, meditei e li muito nesses últimos 24 anos. Descobri que ninguém é dono do fato observado, pois esse fato pertence a uma questão de acordo social e é necessariamente incompleto... Veja só, Héspero... Parece até loucura, mesmo sabendo que era inocente, em alguns momento me julguei o assassino, devido a todo os fatos serem contra mim... Mesmo nas horas lúcidas, não poderia enfrentar a verdade da Justiça, pois ela tinha tudo e eu não tinha nada... Decidi não lutar mais. Resolvi aceitar a pagar pelo crime que os fatos da sociedade me imputavam. Por isso, chegou um momento que dispensei todos os advogados que a própria Justiça me arranjava... A partir de então, resolvi não apelar mais para a redução da pena... Fui solto agora, não por iniciativa minha... Mas sim do diretor da penitenciária.

Héspero balança a cabeça com ar de tristeza. Eduardo prossegue na sua explanação.

- Meu julgamento foi terrível. Nem meus advogados acreditavam na minha inocência. Eles me revoltavam ao dizer para eu esconder o crime da Justiça, mas não deles, a fim de ser conseguida uma pena menor... Um deles me pediu para eu confessar o crime e alegar legítima defesa. Discutia muito com os meus advogados. Eu sabia que era inocente e não admitia aquelas malditas conversas com os meus próprios defensores... Foi terrível, Héspero... Por ser inocente, veja só, não conseguia ter por muito tempo advogados encarregados da minha defesa... O que mais durou foi o amigo de parente meu. A razão foi por ele dizer que acreditava na minha inocência. Assim, nunca houve atrito entre nós. Mas eu não sou bobo. Eu sabia que até esse pensava que eu era o assassino. O bom é que ele nunca falou o que pensava. Ele também não me defendeu bem. Talvez por falta de recursos, pois haviam muitos fatos contra mim.

- Eles queriam que você confessasse o crime, pois como assassino seria muito mais fácil defendê-lo do que um inocente com todos os fatos contra si. Eu era estudante de Direito naquela época. Já com você preso me formei em advogado. Mas abandonei a profissão. Agora sou professor de História. As leis protegem os criminosos. Seus advogados, por isso, queriam que você confessasse. A partir de então, eles encontrariam soluções na própria lei.

- Eu sei disso na prática. Mas como inocente não poderia confessar um crime que não pratiquei.

- Após ouvir o disparo, quanto tempo você demorou até ver o corpo do Hermes?

- No máximo uns dez segundos. Estava quase na esquina. Levei um susto. Corri. Ao dobrar a rua, vi o corpo. Não havia ninguém. O revólver no chão, bem junto da mão do Hermes. Meu pensamento instantâneo foi de suicídio. Por isso, peguei a arma, no exato momento do aparecimento do Henrique.

- Enquanto você corria, não viu algum vulto ou qualquer outro tipo de sombra?

- Não vi... Foi isso que disse no tribunal... Fui a principal testemunha de acusação contra mim mesmo... Poderia ter inventado que vi alguém correndo... Poderia ter mentido que esse alguém cruzou comigo... Mas não houve isso, Héspero... Procurei não mentir... Tinha certeza que não matei... Então, para que iria mentir... Procurei falar a verdade... Não neguei também que tive um atrito com o Hermes horas antes do crime. E que ele puxou uma arma para mim, o mesmo revólver usado no crime.

- Por que você não falou sobre o anel?

- Anel... Que anel?

- O anel que estava com o Hermes e caiu no chão, quando ele guardou o revólver.

- Não sei disso, Héspero.

- Na época, você não falou nada na polícia e nem no tribunal.

- Estou forçando a cabeça... Mas sinceramente, Héspero... Não me recordo de nenhum anel.

- Tinha aro de ouro e incrustação de esmeraldas e rubis... Os rubis formavam uma cruz. Naquela noite, nós conversamos no bar sobre o anel. Eu disse que era do meu pai, que ganhou no século passado em Minas Gerais de um homem muito rico.

- Poxa, Héspero... A minha mente está se abrindo... Estou me lembrando dessa estória... O seu Leopoldo... A sim... Parece que salvou um aleijado que se afogava no rio.

- Exato. Foi isso mesmo. Foi esse homem que lhe deu o anel.

- Como fui esquecer desse anel... Agora, me lembro... Estou até vendo a imagem da jóia caída no chão e o Hermes a apanhando... Como a minha cabeça ficou após a minha tragédia... Minha mente naquela época só tinha lugar para a acusação contra mim. Não pensava mais em nada.

- Nem imagino o que você passou esses anos todos.

- Na polícia... nos interrogatórios... no tribunal... ninguém falou sobre esse anel... Por quê?

- O anel não estava nas roupas do Hermes. O anel sumiu. A polícia não tomou conhecimento da sua existência.

- Se falassem, na certa eu teria lembrado do anel... Você não comentou sobre o anel após o crime?... Não falou com o Henrique?

Héspero sente o corpo gelar, pois vem à sua mente um sentimento de culpa.

- Não... Não falei com a polícia e nem com a minha família sobre o sumiço do anel e nem que estava com o Hermes na noite do crime... Queria poupar meu pai de mais um desgosto: saber que o filho morto lhe roubara o anel... Agora, sinto que errei em não ter contado o fato para a polícia.

Eles ficam em silêncio por alguns segundos, mas Eduardo retorna ao assunto.

- Você agiu bem. Imagino o que seu pai sofreu com a morte do Hermes. Acho que você não poderia dizer que o Hermes roubou o anel... Mas como o anel sumiu!... Que mistério!

- Depois de passados 24 anos, eu voltei a ver o anel.

- O quê!... Viu o anel... Onde?

- No estádio, durante o jogo de ontem.

- Na derrota do Brasil... Como foi?... Estava com quem?

Héspero levanta-se, encosta a mão no tronco da árvore. Eduardo o olha com curiosidade. Héspero conta todos os detalhes da sua aventura da véspera, desde que viu o estranho com o anel no dedo até sofrer a agressão na Rua Barão de Mesquita.

- Foi isso que me aconteceu... Acabei com este galo na cabeça e não descobri a razão daquele estranho estar com o anel do meu pai.

- Essa história tem muito mistério... Quem será esse rapaz?... Será que foi ele quem roubou o Hermes?

- Não, Eduardo... Aquele estranho não deve ter mais de 30 anos. Portanto, na época do assassinato do Hermes, deveria ter uns seis anos... Tenho que descobrir como o anel foi parar nas mãos dele.

- O anel pode ter ficado nas roupas do Hermes e ter sumido no necrotério.

- No dia da morte, com o corpo do Hermes ainda estirado na rua, eu vi de longe o Henrique retirar tudo dos bolsos do meu irmão e entregar ao meu pai. O Henrique não poderia ter feito isso, pois tinha que esperar a perícia. Fez em consideração ao meu pai. Na hora, atormentado pelo acontecido, nem me lembrei do anel... Só dia depois é que o caso do anel veio parar na minha cabeça. Por coincidência, nesse dia encontrei o Henrique. Não falei sobre o anel, mas percebi que ele não sabia nada sobre a jóia.

- Que coisa estranha... O anel some naquele dia e aparece agora.

- Depois do que você passou. Eu não devia estar o atormentando com este assunto.

- Não, Héspero. Você não me atormenta... Estou interessado no assunto... Também quero decifrar o mistério daquele anel... Talvez, quem sabe... Talvez, perseguindo esse anel, poderei provar que sou inocente... Quero ajudá-lo a descobrir quem é o rapaz.

- Será ótimo nós dois investigar o caso...A moça da Rua Barão de Mesquita é a pista... Ela sabe quem é o estranho.

- Você disse que ele era pequeno no dia do crime. Deveria ter uns seis anos de idade.

- Sim.

- Se o Hermes foi roubado foi por outra pessoa. Depois é que o anel foi parar na mão desse rapaz de ontem... Essa outra pessoa não poderia ter roubado o Hermes na praça... Talvez o seu irmão quando ia para casa já estava sem o anel.

- Talvez.

- Lembra-se de uma pessoa que acompanhava o Hermes, e que se afastou pouco antes do seu irmão ter puxado a arma para mim.

- Sim. Depois, o Hermes foi ao seu encontro dentro do botequim.

- Isso mesmo. Quem sabe se foi ele quem roubou o anel.

- Nunca pensei nisso. Mas acho possível ser ele o ladrão.

Eduardo abaixa a cabeça, denotando tristeza.

- Eu já disse que este assunto o deixa atormentado.

- Um pouco, Héspero... Mas vamos ter que falar sobre isso daqui por diante... Eu também quero encontrar esse rapaz que você viu com o anel... Eu abaixei a cabeça, pois estou realmente perturbado. Nós estávamos especulando que o Hermes tenha sido roubado na praça... Então, estava sem o anel na hora do crime... Poderíamos solucionar o roubo do anel... Mas o assassinato continuaria um mistério... Tenho certeza que não havia ninguém no momento do crime.

- Mas você estava na outra rua. Não tinha visão do local onde o Hermes foi morto.

- De fato não tinha... Mas só demorei dez segundos para chegar lá... Se tivesse alguém, eu o veria pelo menos correndo... E não vi ninguém.

- É melhor esquecer o assassinato. Vamos nos embrenhar em achar o anel. Não é difícil, Eduardo. A filha da senhora que me socorreu sabe com certeza quem é o desconhecido... Esta semana pretendo ir àquela casa da Tijuca... Falar com a moça sem a presença da mãe.

- Quero ir com você... Posso ir?

- Lógico, Eduardo. Será bom procurarmos esse rapaz junto... Não pretendo levar outra pancada na cabeça.

Eles combinam o dia para ir à Tijuca. Depois, passam a conversar sobre o passado. Héspero narra todas as novidades da Praça Seca, amigos, família e reforma da casa. Héspero também comenta que a Abigail, considerada por muitos como pivô do crime, casou-se e mudou-se de Jacarepaguá. A conversa dura mais uma hora. Logo após, se despendem e ficam dois dias sem se ver. Na quinta-feira, dia marcado para procurar a moça, Héspero vai à casa de Eduardo. Seguem para a Tijuca. Na Rua Barão de Mesquita, param em frente a uma casa com varanda e pequeno terreno de frente ajardinado.

- É aí que a moça reside - aponta Héspero.

Eduardo faz menção de bater palmas, mas Héspero o impede.

- Espera, Eduardo... Temos que falar com a moça, mas sem a mãe presente. Se não estraga tudo. Vamos fazer o seguinte: eu me escondo, enquanto você chama. Se a moça vier acompanhada com a mãe ou simplesmente a senhora aparecer sozinha, não poderemos falar sobre o assunto... Então, você diz alguma coisa para ela pensar que foi engano. Se acontecer isso, eu acho que nós teremos que ficar escondidos até que a moça sai para fazer compras ou passear.

- E se a moça aparecer sozinha?

- Aí você faz com que ela venha até o portão. Então, eu apareço.

Héspero prepara-se para esconder. Eduardo vai para o portão da casa, a fim de bater palmas.

- Não bata palmas, Eduardo - grita Héspero.

- Que foi desta vez?

- É a moça... É a moça... Ela não está em casa. Vem ali adiante.

Ele vão em direção a moça, que caminha na calçada em direção à sua residência. Ela vem de cabeça baixa e nem sente a presença dos dois vindo em seu encontro. Héspero chega bem junto dela e toca de leve no seu braço. A moça leva um susto. Héspero fala em voz baixa, a fim de não apavorá-la.

- Não está me reconhecendo?

- Não - diz ela com voz tremida.

- Sou a pessoa que foi agredida no último domingo. Você e sua mãe cuidaram de mim. Lembra-se?

- Oh! sim... Recordo-me, sim... Como está o machucado na cabeça?

- Melhorou bastante... Obrigado pelo que fizeram por mim.

- Estou vendo que não está tão inchado.

- Eu vim aqui para pedir um favor... Para lhe fazer uma pergunta.

- Se é sobre o rapaz que lhe agrediu, eu não sei de nada.

- Mas você comentou no domingo que o conhecia.

- Eu fiz confusão com outra pessoa.

A moça tenta andar, para chegar mais perto da sua casa. Héspero fica na sua frente e suplica-lhe ao ouvido.

- Tenho certeza que você sabe. Você estava para me dizer algo, mas ficou muda quando sua mãe ralhou. Eu preciso achá-lo. Não é nada que você pensa. Não quero brigar com ele. Não é para ir à forra da agressão sofrida. Um encontro com ele é muito importante para mim e meu amigo - Héspero aponta para Eduardo.

- Eu já disse que me confundi... Deixe eu ir embora, por favor.

- Você só precisa dizer onde ele mora. Ninguém vai envolver você. Pode confiar na gente.

- Eu não sei onde ele mora... Só o conheço de vista... Da Praça Saens Peña.

- Fale mais. Por favor, nos ajuda. Não fique com medo.

- Estou falando a verdade... Não sei onde ele mora... Não o conheço... Só o vejo muitas vezes na praça.

- Na praça, aonde?

- Posso dar uma pista... Ele está quase sempre em frente ao Cine Olinda ou no botequim da esquina com a Rua Carlos de Vasconcelos.

- Ele pára ali sozinho? - pergunta Eduardo

A moça vira-se para Eduardo, um pouco espantada por que ele falou pela primeira vez.

- Nunca o vi sozinho. Está sempre conversando com outros rapazes.

- O dia inteiro? - interroga Héspero.

- No finalzinho da tarde. Depois das 16 horas.

Héspero consulta o relógio e vira-se para Eduardo.

- Vamos à praça agora. Talvez esteja por lá.

- Vamos.

Eles despedem-se da moça e seguem para a Praça Saens Peña. Passam mais de duas horas parados na calçada em frente ao Cine Olinda, alternando com idas até a esquina da Rua Carlos de Vasconcelos.

- Não chegou também no botequim - diz Héspero desanimado.

- Já escureceu e nada do homem - fala Eduardo, olhando para dentro do bar.

- Vamos embora, Eduardo. Estou de férias e posso vir todos os dias tirar plantão até encontrá-lo. Amanhã, estarei aqui.

- Também virei.

Capítulo 11

 

A figura de Júlio César se destaca na folha aberta em cima da escrivaninha do volumoso livro de História. Na outra página, em cores vivas, o mapa das conquistas na Gália, que perpetuou o nome de César como o maior general do Império Romano. Héspero faz anotações. Está tão concentrado que nem sente a chegada de Astreu.

- Como é, tio. Já começou a trabalhar?

- Estou apenas preparando o plano de aulas do segundo semestre para meus alunos do primeiro ano.

- O senhor foi hoje à Praça Saens Peña?

- Fui.

- Encontrou o rapaz do anel?

- Nada do rapaz... Sumiu igual a um fantasma. Há duas semanas que eu e o Eduardo vamos lá quase todos dias.

- Será que a moça mentiu?

- Não encontramos ele... Mas ontem vimos a moça na praça... Fomos ao seu encontro... Ela disse que também não tem visto aquele estranho, mas garantiu que falou a verdade... Que sempre o viu naquele local.

- Será que ela falou a verdade, mesmo?

- Não sei, Astreu... Mas é a nossa única pista... Amanhã, eu e o Eduardo iremos outra vez na Praça Saens Peña.

- Eu irei também. Talvez eu dê sorte.

- Está bem, Astreu... Será ótimo... É mais um para conversar, enquanto durar a nossa vigia... Temos que encontrar ele, pois não terei mais tempo com o reinício das aulas.

No dia seguinte, bem antes das 16 horas, os três chagam à Praça Saens Peña. Sentam-se num banco do jardim, com visibilidade total para a calçada, desde o Cine Olinda até o botequim da esquina da Rua Carlos de Vasconcelos. A passagem do bonde faz Héspero ficar de pé, a fim de não perder a visão do quarteirão. O tempo passa. Aos poucos, eles começam a perder a esperança. Héspero levanta-se, deixa os dois no banco e vai até o bar da esquina. Olha tudo lá dentro e volta para junto de Astreu e Eduardo bastante desanimado.

- Nunca vamos encontrá-lo. Naquele dia, você viu bem, Eduardo. A moça estava muito nervosa e tremendo de medo... Ela mentiu... Agora, tenho certeza que ela mentiu.

- Que horas são? - pergunta Astreu.

- Cinco e meia. Vamos ficar até no máximo sete horas.

Astreu vai até a beira da calçada da praça. Héspero senta-se e segue o sobrinho com os olhos. No mesmo campo visual, um pouco além da linha do bonde, vê o rapaz do anel. Dá um pulo de alegria e grita.

- É ele.... É ele... É o rapaz.

Astreu retorna rápido ao banco. Eduardo levanta-se muito assustado.

- Onde está?

- É aquele de camisa listrada, manga curta e calça branca.

Os dois olham para a direção apontada por Héspero. O estranho está parado do outro lado da rua. Héspero, Eduardo e Astreu avançam um pouco e ficam junto ao meio-fio. O rapaz anda muito devagar, olhando demoradamente as moças que cruzam por ele. Em frente ao Cine Olinda, ele pára. Demora-se diante dos cartazes do cinema. Depois, retorna o caminho em direção à Rua Carlos de Vasconcelos. Na esquina, entra no botequim. Héspero, Eduardo e Astreu atravessam a rua e chegam defronte do bar.

- Ele está no balcão. Vai tomar café - fala Eduardo.

- Vamos permanecer aqui. Esperar ele sair e segui-lo.

- Para que, tio?

- Saber onde ele mora.

- Acho melhor decidir tudo agora. Não devemos deixar para depois. Nem sabemos se ele vai para casa - pondera Astreu.

- Temos que refletir bem o que fazer - gesticula Eduardo.

- Insisto que temos que agir... Vejam bem, ele está sozinho... Imaginem se aparecer algum amigo... As coisas se tornarão mais difíceis... Temos que agir agora.

- O Astreu está certo, Eduardo - observa Héspero.

- Tenho um plano - explica Astreu. É o seguinte: eu chego atrás dele, enfio a mão por dentro da minha camisa e encosto o dedo nas costas do estranho. Então, digo que é uma arma. Vocês sentam numa mesa, que eu carrego ele para lá.

- Será que vai dar certo? - indaga Héspero.

- Lógico que sim. Durante a conversa, poderemos ficar tranqüilos, pois ele vai supor que estou armado.

- Ele já está pagando a conta. Vamos agir - diz Héspero.

Astreu entra rápido no bar, enquanto Héspero e Eduardo procuram uma mesa. Héspero com cuidado de ficar de costas, a fim de não ser reconhecido pelo estranho. Astreu age rápido conforme o plano e consegue trazê-lo para a mesa. O desconhecido caminha com muita cautela, com o rosto apeensivo. Ao chegar perto de Héspero, o olha demoradamente, como se estivesse o reconhecendo. Astreu obriga ele a sentar e fica de pé atrás, de jeito que o estranho não o veja.

- Vejo que você está se lembrando de mim - especula Héspero.

- Não... Nem sei por que este jovem aponta uma arma para mim.

- Não se lembra de mim no jogo final da Copa. Eu o segui, e você me agrediu na Rua Barão de Mesquita. Você vestia camisa azul.

- Não... Não sei nada disso... Você deve estar fazendo confusão com outra pessoa.

O estranho denota estar preocupado com Astreu atrás de si. Héspero pede para Astreu sentar.

- Não, tio... Estou achando esse rapaz perigoso... Vou ficar aqui atrás. Ainda estou com o revólver embaixo da camisa.

- Olha bem... Eu já disse que não sei o que vocês estão falando... Vocês estão me confundindo com outra pessoa... Deixe-me ir embora, antes que esse jovem atrás de mim cometa alguma loucura.

Héspero sente que o rapaz está com medo da suposta arma. Então, procura lhe dar tranqüilidade.

- Não estou aqui para ir à desforra da pancada que você me deu... Sei que foi você... Não tenho dúvida nenhuma... O que quero falar com você é muito mais importante de que ir à desforra... Já queria falar sobre esse assunto, antes de você me agredir... Sabe o que quero saber?... É sobre o anel que você usava no dedo... Esse anel pertenceu ao meu pai. Quero saber onde obteve? Como veio parar na sua mão? Foi para saber disso que o segui no dia do jogo do Brasil.

O desconhecido , sem virar a cabeça, tenta fitar Astreu de rabo-de-olho. Héspero pressente a sua preocupação.

- Ele não está armado. Somente encostou o dedo nas suas costas. Peço, por favor, que você fale sobre o anel. Já disse que pertenceu ao meu pai.

O estranho abana a cabeça.

- Também já disse que estão me confundindo com outra pessoa.

Héspero se dirige a Eduardo e Astreu.

- Vocês fiquem aqui sentados. Quero conversar com ele lá fora.

Mesmo com Astreu tentando evitar, Héspero se levanta e chama o estranho. Os dois seguem para a calçada sob os olhares de Astreu e Eduardo, que obedecem a Héspero e ficam sentados na mesa do bar.

- Agora, estamos aqui só nós dois. Eu já vi que você não é nenhum bandido. Nós também não somos. O que eu falei sobre o anel é verdade. É uma jóia muito bonita, toda de ouro, com esmeraldas e uma cruzeta de rubis. Posso provar que foi da minha família. Não pretendo tomá-lo de você... Quero até que você fique com a jóia. Ela é tua... O que eu quero saber é a procedência do anel... Pela sua fisionomia, estou vendo que você não é má pessoa... O que está acontecendo é que estamos um desconfiado do outro.

O estranho coça o nariz e olha para o bar na direção da mesa de Astreu e Eduardo. Héspero explica a situação.

- Você está vendo aquele mais velho. Ele passou 24 anos na cadeia por um homicídio que sempre negou. O anel sumiu na noite do crime. Estava com o meu irmão, que foi a pessoa assassinada.

- Você diz que aquele velho matou seu irmão. E você anda com ele!

- Ele foi condenado pela morte do meu irmão. Mas não foi ele que matou. Por isso, nós queremos saber a procedência do anel. Como eu disse o anel sumiu na noite do assassinato do meu irmão.

- Como provar que o anel é seu?

- Então, você confirma afinal tudo que falei sobre você?

O estranho olha para Héspero e não responde.

- Você disse ter prova de que o anel foi da sua família... Como provar?

- Sei o número exato de pedrinhas de esmeraldas e de rubis. Quando eu era criança, meu pai me dava o anel para eu brincar. Na época, eu estava iniciado na escola... Estava aprendendo a contar... Quantas vezes, no quarto do meu pai, contei o total de pedrinhas de esmeraldas e de rubis. Esses números, eu jamais esqueci... Dizendo quantas pedrinhas tem o anel, eu provo para você que realmente era do meu pai.

- Quanta pedrinhas?

- O anel está com você.

- Está sim... Não vou mais mentir... Acredito na sua história... O anel está na minha casa... Fui eu sim que o ataquei. Pensei que você era um ladrão. Eu estava com o anel no dedo... Você me seguia, desde da saída do estádio... Eu estava sabendo da perseguição, mas fiz tudo para você não desconfiar que eu sabia.

- Nem desconfiei que você tinha ciência que eu o seguia. Não fui cauteloso ao dobrar a esquina. Por isso, levei a pancada na cabeça.

- Eu sei que o anel é de ouro maciço. E ainda tem aquelas pedras. Vale muito dinheiro. Não costumo sair com ele. Coloquei no dedo, porque pensava que daria sorte ao Brasil na decisão contra o Uruguai. Mas estava errado. O anel parece que deu azar... Eu só o agredi, pois fui forçado. Não sabia quem era você. Se estava armado.

- Repito que a agressão não tem importância para mim... Como conseguiu o anel?

- Você disse que pode provar que o anel era do seu pai me dizendo o total de pedrinhas... Quantas pedras de rubis e esmeraldas o anel tem?

Héspero hesita. "Quero ver o anel na minha mão. Não vou dizer agora quantas pedras tem. Pode ser que este rapaz diga que errei, mesmo acertando". Héspero vira-se para o estranho.

- Quero que você me mostre... Quero vê-lo na minha própria mão. Antes de você me entregá-lo, digo o total de pedrinhas... Como adquiriu o anel?

- Eu ganhei.

- Ganhou de quem?

- Falo depois... O anel está na minha casa. Moro perto daqui. Se quiser ir agora comigo, eu lhe mostrarei. Mas faço uma exigência: só você, aqueles dois não podem ir.

- Não tem nada de mais. Eles nos acompanharão de longe.

- Acredito na sua história... Confio em você... Mas eles têm que ficar aqui... Eu quero de ajudar... Mas não posso ficar tranqüilo com duas pessoas atrás de mim.

- Está bem. Vou explicar a eles.

- Eu vou ao banheiro.

Os dois retornam ao botequim. Héspero chega à mesa.

- Como foi a conversa, tio.

- Ele confessou a agressão. Tenho que ir à casa dele ver o anel. Tenho que provar que a jóia foi do papai... Mas ele exige que eu vá sozinho.

- E o senhor não vai. É lógico, não é?

- Vou sim, Astreu... Vocês vão me aguardar aqui.

- De jeito nenhum, Héspero... De jeito nenhum... É muito perigoso você ir sozinho - diz Eduardo.

- Tenho que arriscar. É o único jeito de decifrar por que o anel está com ele.

- Vamos segui-los sem ele saber - fala Astreu.

- Por favor, não façam isso, pois podem estragar tudo. Ele está muito desconfiado. Tento ganhar seu crédito... Deixem comigo... Tudo vai dar certo... Já vi que ele não é um mau sujeito.

- Poxa, tio. O senhor está errado. Há pouco, disse que eu não estava armado. Não devia ter dito isso. A suposição de eu estar com um revólver era um trunfo para nós.

- Podem ficar tranqüilos. Vai dar tudo certo.

O desconhecido sai do banheiro e se debruça no balcão. Héspero vai em sua direção. Sai com o estranho do bar e caminham pela Rua Conde de Bonfim. Héspero narra mais detalhes da história do crime e do sumiço do anel, enquanto adentram pela Rua Conselheiro Zenha. Por um momento, Héspero sente-se mal. Parece-lhe que seu acompanhante acena disfarçadamente para dois homens que cruzam por eles. Antes de chegar na próxima esquina, o rapaz pára.

- Vou em casa apanhar o anel. Aguarde-me neste local.

Héspero balança a cabeça num gesto de estar de pleno acordo. Com os olhos acompanha o estranho dobrar a outra rua. Ao ouvir passos atrás de si, volta-se ligeiro e vê dois indivíduos vindo em sua direção. São os mesmos que desconfiou ter recebido sinal do rapaz do anel. Héspero prepara-se para enfrentá-los, mas eles seguem sem parar e também viram a mesma esquina. Demoram apenas alguns minutos. Param a poucos metros e ficam olhando para Héspero. "Não devia ter vindo sozinho e nem contado toda a história do assassinato do Hermes. Aquele rapaz deve saber muito mais sobre o desaparecimento do anel do que eu imaginava. É melhor eu dar o fora daqui". Héspero observa que os dois não mais o encaram, mas percebe nitidamente que estão a vigiá-lo. "Não posso dar o fora. Se for embora, perderei esta excelente oportunidade em desvendar este caso intricado do anel. Vou passar para o outro lado da rua. Espero que eles não atravessem também". Héspero cruza a rua e fica na calçada oposta. Os dois vigiadores não se mexem, mas estão com os olhos fitos nele. Finalmente, o rapaz do anel surge na esquina. Vem em direção de Héspero e lhe mostra o anel enfiado no dedo. Héspero o contempla com admiração.

- É o anel do meu pai... Tire do dedo e me dá na minha mão.

- Nada disso... Você disse saber o número exato de pedras de rubis e esmeraldas... E a prova que o anel era mesmo do seu pai ... Diga o total de pedrinhas vermelhas e verdes.

- Onze de rubis e trinta e duas de esmeraldas.

O rapaz fica espantado e põe a mão que está o anel na cabeça.

- Fantástico!... Sua conta está certinha... Eu estou com este anel há bastante tempo e não sabia o número total de pedrinhas... Acabei de contar agora lá em casa, quando o peguei na gaveta... De fato, são onze vermelhas e trinta e duas verdes.

Enquanto o estranho fala, Héspero procura ficar de frente para os dois homens do outro lado da calçada. O rapaz tira o anel do dedo e entrega-o a Héspero. Com muita alegria, ele esfrega a jóia na palma da mão. Examina as pedrinhas e conta-as em voz alto como fazia em criança.

- É o anel do meu pai... É difícil até de acreditar que estou com ele na mão, depois de tanto tempo.

Héspero estica a mão com o anel para o estranho.

- O anel é seu... Não é mais da minha família... Não o quero... O importante para mim é saber como você o conseguiu.

- A história é comprida e bonita... Vou tentar resumi-la... Ganhei este anel de um conde italiano, o Conde Francesco... Estive na guerra... Fui pracinha da FEB... Logo que meu escalão aportou em Nápoles, senti a crueldade da luta armada. Nas ruas da cidade, eram constantes as escaramuças dos terroristas fascistas. Não só contra soldados, mas também contra a população civil.

Héspero acompanha a narrativa com bastante interesse.

- No dia anterior da nossa viagem para o norte da Itália, onde seria o nosso campo de batalha, o nosso pelotão teve uma folga. Aproveitei esse dia e visitei, com outros pracinhas, uma taberna freqüentada por lindas napolitanas. Certa hora da noite, com uma das moças, fui até o lado de fora e presenciei cena horrível: uma mulher gritando junto de um homem caído, enquanto dois indivíduos armados encaminhavam-se para ele com a nítida intenção de matá-lo. Puxei minha pistola e fiz uns disparos, e eles fugiram pela rua escura... O homem que salvei era o Conde Francesco; e a mulher, sua esposa. Soube também que os terroristas queriam eliminá-lo por causa da cooperação do conde com os exércitos aliados. Chegaram a acertar um tiro na sua perna.

- Hã!... Sim... Estou entendendo... O Conde Francesco lhe deu o anel, por você ter salvo a sua vida.

- Exato... O agradecimento dele comigo foi muito grande...Mas naquela noite ele não falou do anel... Fui para o norte da Itália sem saber da existência da jóia. O conde só me pediu meu nome, nome do meu pelotão e meu número. E ele anotou já dentro de casa.

- Hã!... Você o levou em casa.

- Ele morava exatamente em frente onde estava caído. Após o seu disparo, seu irmão abriu a porta apavorado. Eu ajudei o irmão a levá-lo para o vestíbulo da residência... Depois, fui para a planície do Rio Pó enfrentar o frio e os alemães. Quando a guerra acabou, retornei ao porto de Nápoles e pude sentir a gratidão do conde. Ele foi me buscar no navio, falou com o comandante do meu pelotão, que deu autorização para eu ir à sua residência. Ali, numa cerimônia íntima, com a presença de poucos parentes, conde me presenteou com este anel.

- Interessante o estigma deste anel... Meu pai também o ganhou ao salvar uma vida... Este conde já esteve no Brasil?

- Não sei.

- Como ele obteve o anel?

- Também não sei... Regressei com a tropa e nunca mais vi o Conde Francesco.

- E se mandássemos uma carta para o conde.

- Não tenho endereço e nem sei o nome da rua... É uma rua estreita bem próxima do porto de Nápoles... Estou com a imagem dela aqui na minha cabeça.

- Mesmo que tivéssemos o endereço, acho que não adiantaria escrever para ele. Dificilmente, responderia a pergunta aonde conseguiu o anel... Ficaria na certa desconfiado.

- Principalmente, se conseguiu o anel de maneira obscura.

- Tem que ser um contato pessoal. Ir à casa dele em Nápoles. Mas isso é quase impossível.

- Pelo menos, tenho certeza que sei ir lá, embora não saiba o nome da rua.

- Mas como ir!... Não sou rico... Vivo apenas do meu salário de professor... O Eduardo, aquele de cabelos grisalhos, nem se fala... Passou 24 anos na cadeia... Está desempregado, e sua família é pobre.

- Eu também estou na mesma situação. Tenho problemas psicológicos por causa da guerra... Recebo um pequeno soldo do exército.

- Vai ser difícil prosseguir na pista deste anel.

- Você tem telefone em casa?

- Não.

- É que se eu tiver alguma idéia que possa ajudá-lo, telefonaria para você.

- Tenho um telefone que pode ser usado para recado... É do armazém do meu cunhado, o Antônio Manoel... Na verdade, o armazém é do pai, que também se chama Manoel... Você diz que o recado é para o Héspero.

- Héspero! É o seu nome.

- Sim.

- Nunca soube de alguém com este nome.

- Meu nome vem da mitologia grega... E você... Como é seu nome?

- José Pedro... Zé Pedro como todo mundo me chama.

Héspero apanha no bolso um pedaço de papel e escreve o nome e o número do telefone do Antônio Manoel.

- Está aqui o número do telefone do armazém.

- Se souber de alguma novidade, deixarei recado com o Manoel.

Héspero ao se despedir, vê que os dois homens ainda estão na calçada do outro lado da rua.

- Por que os guarda-costas?

- Se você desconfiava de mim, eu muito mais de você. Não iria de jeito nenhum mostrar o anel sozinho.

Os dois riem e separam-se. Héspero caminha a passos largos e alcança rápido a Rua Conde de Bonfim. Chega à Praça Saens Peña. Eduardo e Astreu estão na porta do bar apreensivos. Logo que vêem Héspero, vêm em sua direção.

- Como o senhor demorou, tio.

- Viu o anel?... Descobriu alguma coisa? - pergunta Eduardo.

- Há muitas e muitas novidades... Mas o mistério ainda continua... Aquele rapaz parece ser boa gente... Vamos agora para casa. No caminho, eu conto tudo o que aconteceu para vocês.

 

Capítulo 12

 

Os dias passam rápido no tranqüilo bairro de Jacarepaguá. O trissar de um solitário beija-flor, numa árvore bem próxima da janela do quarto de Héspero, faz julgar que o inverno acabou, apesar de faltar muito para o início da primavera. Héspero se prepara para ir à Tijuca. Na véspera, o Manoel lhe deu o recado do Zé Pedro: um encontro na sinuca em cima do Café Palheta. Ao chegar à Praça Saens Peña, sobe as escadas para o salão de bilhares. O movimento é grande, e não há mesa desocupada. Vê lá no fundo, o Zé Pedro. Aproxima-se com cuidado, a fim de não distraí-lo, pois ele tenta encaçapar a última bola, a de cor preta e número sete. Observa-o matá-la no canto e ganhar a partida.

- Vamos disputar a negra das negras - diz Zé Pedro para o parceiro de jogo, sem ainda ter visto a chegada de Héspero.

Enquanto arruma as bolas policromas nas respectivas marcas na mesa para nova saída, Zé Pedro nota a presença de Héspero e vai ao seu encontro.

- Telefonei para seu cunhado, pois consegui uma solução para o caso do anel. Daqui a pouco, eu conto tudo para você... Tenho que jogar esta última partida, pois quem perder vai pagar toda a despesa.

Zé Pedro dá a saída, mas seu adversário em sensacional tacada coloca 45 pontos na frente. Só restam três bolas na mesa: a cinco azul, a seis cor de rosa e a sete preta. Zé Pedro se prepara para jogar e passa bastante giz no taco ao lado de Héspero.

- Pela sua cara, estou adivinhado que pensa que perdi o jogo, mas as três bolas que estão na mesa valem altos pontos. Vou tentar ganhar a partida.

- Será? Pensei que você não tivesse mais chance.

- Tenho sim, mas não posso errar nenhuma bola.

Zé Pedro curva-se sobre a mesa, para tentar a bola sete. Seu adversário, do outro lado da mesa, ri para outra pessoa, pois, com 45 pontos na frente de Zé Pedro, sua vitória é certa. Se Zé Pedro não matar a bola sete, pode abandonar a partida. Mas ele encaçapa a sete com firmeza e precisão. Depois, a bola cinco e duas vezes mais a bola sete. Seu adversário pára de rir, porque Zé Pedro já está com 26 pontos. A diferença diminui para 19 pontos. Só restam as bolas cor de rosa e a preta na mesa. Zé Pedro mira a seis e consegue encaçapá-la no meio. Muito contente, olha para o adversário.

- Estou conseguindo virar o jogo - diz Zé Pedro.

- Mas ainda não conseguiu... Se errar a bola sete, eu ganho o jogo - fala um pouco nervoso o seu adversário.

Com muita precisão, Zé Pedro enfia a bola sete no canto. Tira novamente a preta da caçapa e a coloca com carinho na marca. É a última jogada da partida. Zé Pedro capricha ao máximo. A bola sete bate no bico, parece que não vai entrar, rodopia na beira da caçapa e finalmente cai na rede, diante de muitos assistentes, que pararam suas partidas para verem a tacada de Zé Pedro. Ele vence o adversário, quando já era certa a sua derrota, por apenas um ponto. Héspero fica impressionado com a destreza de Zé Pedro. Os dois descem para tomar café.

- Você joga muito bem sinuca - observa Héspero.

- Um pouco... Mas tenho novidade sobre o caso do anel.

- O que foi? Achou o endereço do conde?

- Não... Nós temos que procurá-lo lá em Nápoles.

- Como?... Já sabemos que isso é impossível. Ninguém tem dinheiro para ir à Europa.

- Mas se a viagem for de graça. Ou melhor, se ganharmos dinheiro viajando.

- Não estou entendendo nada.

- Vou explicar... Um grande amigo do meu pai, que se chama Germano, o Comendador Germano, é presidente de uma companhia de navegação. Um cargueiro vai zarpar de Santos com mercadorias para Nápoles na semana que vem. Arranjei para a gente trabalhar na cozinha do navio... Eu, você e o Eduardo... Chamei você aqui, para perguntar se aceitam.

- Eu aceito, Zé Pedro. Você foi formidável. Acredito que o Eduardo também concordará.

- Eu então e só preparar os documentos. Aqui nesse papel está a lista da documentação necessária para ser tripulante do cargueiro.

- Hoje mesmo vou tratar de tudo. Estou muito contente.

- Pensei que você não iria assumir um trabalho de taifeiro de navio. Afinal, você é professor de História!

- Sou pau para toda obra... O importante para mim é desvendar o mistério do anel.

- Preciso da resposta do Eduardo.

- Falo no caminho de casa. É só saltar dois pontos do bonde antes do meu e ir à casa dele.

- Se possível, seria bom me entregar amanhã os documentos de você e do Eduardo... O que faltar, o Comendador Germano resolve em caso de poucas horas na capitania dos portos e na Polícia Federal... Ele tem conhecimento nessas áreas.

- Pode deixar comigo. Vou falar ainda hoje com o Eduardo. Mas tenho certeza que ele irá... Você conseguiu algo fantástico.

- O Comendador Germano foi amigo de infância do meu pai. Há muitos anos que não se viam. Ficou contente em atendê-lo.

O encontro com Zé Pedro foi um dos melhores momentos de Héspero dos últimos anos. Regressa para casa feliz da vida. Passa nas escolas onde leciona e consegue tirar um período de licença. Está resolvido ir a Nápoles com o Zé Pedro, mesmo se Eduardo não quiser ir. Mas, ao encontrar Eduardo em sua casa e relatar toda a novidade, fica sabendo que o amigo também pretende ir a Nápoles. Eduardo entrega a Héspero toda a documentação que ele tem. Ainda mais contente, Héspero segue para sua residência. Ao chegar, sobe logo para o sobrado. Separa seus documentos de junta-os dentro de um grande envelope com os do Eduardo. Astreu sobe a escada a tempo de ver o tio guardar toda aquela documentação.

- Quantas carteiras, tio.

Héspero narra com detalhes o seu encontro na sinuca com o Zé Pedro.

- Também quero ir, tio. Não vou perder essa viagem.

- Não pode ser, Astreu. O Zé Pedro só arranjou três vagas de taifeiro.

- Mas eu posso ser muito útil na Europa. Sei conversar em francês e inglês. Vocês ficarão perdidos por lá, só falando português.

- Eu não posso resolver nada. O navio partirá na próxima semana.

- O senhor falou que esse Zé Pedro é uma pessoa legal... Vamos ver se é mesmo... Se arranjou para três, pode conseguir para mais um.

- E os estudos?... Você não está de férias!

- Isso não é problema. Meus professores são acessíveis. Pedirei para eles abonarem minhas faltas. Meus colegas podem copiar as aulas para mim. Não vou ficar prejudicado, pois farei todas as provas finais... O que o senhor acha, tio?

- Suponho que será muito difícil você ir.

- Mas deixa eu falar com esse tal de Zé Pedro. Tenho certeza que ele vai entender que o meu francês e inglês serão úteis.

- Amanhã, levarei meus documentos e os do Eduardo. O Zé Pedro me espera na casa dele.

- Vou com o senhor... Está bem?

- Pode ir... Você fala com ele... Ele é que vai dizer se é possível.

- Vou separar meus documentos... Se o Zé Pedro dizer sim, entrego tudo a ele.

No dia seguinte, pela manhã, tio e sobrinho seguem para a Tijuca. Chegam à casa do Zé Pedro. Astreu conversa sobre a possibilidade da viagem à Nápoles. Explica sua utilidade por falar outra línguas. Zé Pedro acha ótimo. Apanha seus documentos juntos com os de Héspero e Eduardo.

- Eu e meu pai vamos hoje à tarde se encontrar com o Comendador Germano. Ele é que vai decidir, se o Astreu pode ir... Você - Zé Pedro aponta para Héspero - e o Eduardo já têm vagas garantidas no cargueiro... Amanhã, eu telefonarei para o Antônio Manoel deixando o recado se o Astreu pode ir ou não.

- Não, por favor... Não telefona para o meu pai... Ainda tenho que conversar com ele e minha mãe sobre essa viagem... Terei que ter tato, para eles deixarem eu ir... Amanhã, no caminho para a faculdade, eu passo aqui na sua casa, para saber se posso ir.

- Certo - diz Zé Pedro.

- Cuidado, Astreu... Cuidado ao falar com seu pai... Não diga que o Eduardo vai com a gente.

- Pode deixar comigo, tio... Mas sobre o anel, posso falar?

- Nem sobre o anel.

- Eu tenho que apresentar ao meu pai motivo bem forte para poder viajar para tão longe em época de aula. O anel do vovô Leopoldo é muito importante, principalmente para a minha mãe. É um bom argumento para papai deixar eu ir.

- Está bem, Astreu. Pode mencionar o caso do anel com seu pai e sua mãe. Mas pede para eles não falarem sobre isso com mais ninguém. Sobre o Eduardo, de maneira nenhuma diga que ele vai com a gente.

O dia termina com Héspero e Astreu na expectativa. No dia seguinte, Astreu chega em casa com a notícia que o Comendador Germano já aprontou toda a documentação nos órgãos federais, inclusive a sua. Héspero fica feliz por Zé Pedro conseguir também uma vaga de taifeiro para o sobrinho. À noite, Astreu, após longo diálogo com os pais, recebe autorização para viajar. No final de semana, preparam as malas para a longa viagem. No dia marcado, Héspero, Astreu e Eduardo encontram com Zé Pedro na gare da Central do Brasil. A viagem começa de trem até a cidade de São Paulo. Ao desembarcarem na estação ferroviária da capital paulista, seguem para a rodoviária, a fim de pegar o ônibus para Santos. No guichê de compra de passagens, ficam sabendo que só haverá ônibus para a cidade praiana dentro de três horas.

- Vamos esperar aqui sentados por longo tempo - diz Zé Pedro.

- É melhor dar um passeio. Andar pelo Centro de São Paulo - fala Héspero.

- Boa idéia, tio.

- Também acho. É bom, pois não conheço nada desta cidade - explica Eduardo.

Eles deixam as malas guardadas na rodoviária. Pouco depois, caminham alegremente e logo alcançam a Avenida São João. Eduardo reclama do frio, e Héspero anda todo encolhido com as duas mãos nos bolsos. No cruzamento com a Avenida Ipiranga, Eduardo cutuca Héspero.

- Olhe aquela senhora ali adiante. É muito parecida com a Edith. Mas eu sei que não é.

Héspero olha para o local que o amigo aponta. Vê uma senhora muito elegante e bonita, com charmoso casaco de vison, aproximando-se de um automóvel nash airflyte modelo 1950.

- Não é nenhuma sósia, Eduardo. É a Edith mesma que está ali adiante.

Héspero corre em direção à elegante senhora, enquanto seus acompanhantes ficam boquiabertos com a cena. Ela se prepara para entrar no carro. O motorista com um fardão vistoso abre a porta traseira do veículo. Héspero chega bem perto.

- Edith!... Edith!... É você!

O chofer faz menção de afastar o intruso de perto da sua patroa. A senhora não permite. Fica durante alguns segundos a mirar o rosto de Héspero. Depois, sorri de modo encantador.

- Héspero!... Quantos anos!... Você não envelhece!

- E você... Não consegue ficar feia.

Edith faz sinal para seu empregado esperar. Afasta-se do carro e bem longe do meio-fio. Héspero acompanha.

- Será que estou nas nuvens!... É um sonho encontrá-lo... Você casou?

- Não.

- Que bom... Faz muito bem, Héspero... Continua bonitão e com ar romântico... Acho que você não foi feito para casar... Nasceu para ser cobiçado pelas mulheres.

Héspero fica pasmado. Nunca ouviu Edith falar daquele jeito. Mas gosta de escutar aquelas palavras da antiga namorada.

- Não vai me dizer que você saiu do seu querido Jacarepaguá... Você está morando aqui em São Paulo?

- Não... Ainda resido naquela roça. Eu adoro aquilo lá, você sabe.

- Mas o que faz aqui?

- Estou de passagem para Santos, onde embarcarei para a Europa. Agora, estou fazendo um passeio pelo Centro de São Paulo com eles.

Héspero aponta para os três, que estão parados a poucos metros.

- Aquele com a mão na árvore me parece ser o Eduardo.

- É ele, Edith... É o Eduardo mesmo.

Edith acena para Eduardo, que responde com outro sinal.

- Você está andando com ele, Héspero... Ele matou seu irmão.

- Ele nega o crime. E ninguém o viu matar.

- Mas todo mundo sabe que ele matou por ciúme da Abigail. O Eduardo sempre foi ciumento... A Abigail não podia conversar com nenhum rapaz.

- É que ele gostava muito dela... O Eduardo passou 24 anos na cadeia e sempre jurou inocência.

- Eu sempre tive pena dele. Não o censuro por andar com ele. Sei que no fundo é uma pessoa boa. Chega até ser difícil acreditar que ele cometeu um assassinato.

- Aquele outro bem jovem é o filho da Hermíone, o Astreu.

- Hã!... Sim... Quando eu sai de Jacarepaguá o filho da sua irmã ainda era muito pequenino.

- E você, Edith?... Que faz aqui? - pergunta ele, examinando seu casaco de pele.

- Eu!... Eu casei com um industrial paulista... Tem dinheiro que não acaba mais... Eu dei o golpe do baú.

Edith sorri. Olha séria para Héspero e morde sensualmente o lábio inferior. Ele fica absorto, admirando sua beleza.

- Você vai demorar em São Paulo?

Héspero acorda de seus pensamentos.

- Não, Edith... Daqui a pouco, todos nós iremos para Santos... Já estamos com as passagens compradas.

- Que pena, meu amor... Poderíamos nos encontrar logo mais.

Héspero contempla Edith, transmitindo alegria pelo que acaba de ouvir.

- Não fique parado olhando para mim igual um bobo... Você está pensando mal de mim... Eu sou uma senhora casada... Sou uma mulher honesta.

- Não pensei nada, Edith - fala ele com ar desiludido.

Ela abre a bolsa e retira um cartão de visita. Edith coloca o cartão entre a boca. Héspero fica olhando com estranheza.

- Que cara é essa, Héspero. Você é bobinho mesmo. Sou casada e honesta, mas com você é diferente... Toda a vez que passar por São Paulo, me telefona. Será maravilhoso esse dia, querido.

Edith lhe entrega o cartão.

- E se seu marido atender ao telefone?

- Não vai acontecer nunca... Este telefone é do meu escritório na nossa mansão... Ele não entra lá... Só eu e minha secretária... Isso mesmo, eu tenho uma secretária... Gente rica é assim, querido... Uma secretária só para mim... Uma secretária para cuidar da minha atividade social.

Héspero sente vontade de tomá-la nos braços como fazia no passado. Edith nota o êxtase do antigo namorado.

- Fique aí parado, querido. Ainda me lembro o que você pretende, quando faz essa cara... Você não é louco... Não tente me beijar agora... Lembre-se, meu amor: sou casada, estamos no meio da rua e o meu motorista está bem ali... Não vai faltar ocasião... Basta você vir a São Paulo e me ligar... Tenho que ir embora.

Edith afasta-se rumo ao carro. O motorista corre e abre a porta traseira. Héspero não se move e fica observando Edith sentar-se no banco de trás. Já com o automóvel em movimento, ela olha para Héspero através do vidro traseiro. Com um trejeito nos lábios, envia um beijo para Héspero. Ele continua parado até o carro sumir. Depois, retorna encabulado para junto dos companheiros.

- Aí, hem tio... Que mulher bonita, esbelta e elegante.

- Ela morou na Praça Seca... Foi minha namorada... Conheceu você muito criança.

- Eu sei... O Eduardo acabou de comentar.

Eles continuam o passeio. Pouco depois, retornam para a rodoviária. Na viagem para Santos, Héspero pensa em Edith: "na volta da Europa, logo que o navio atracar em Santos, subirei a serra para encontrá-la".

- Em Santos, dormiremos na pensão de um amigo. Ele não vai cobrar nada. A pensão é bem perto do porto - fala Zé Pedro, interrompendo os pensamentos de Héspero, que está sentado no ônibus ao seu lado.

- O navio vai zarpar muito cedo? - vira-se Eduardo, que está sentado no banco da frente com Astreu.

- Sim... Temos que acordar de madrugada. Por isso, é bom dormir logo que chegarmos em Santos.

 

Capítulo 13

 

Antes do Sol nascer, eles acordam e se arrumam. Quando chegam à rua, o Sol começa a aparecer brilhante no horizonte do mar, prenunciado um dia bonito. Carregado de malas, atravessam a zona portuária de Santos. Zé Pedro pede informações sobre o cargueiro do Comandante Germano. Sabe que o nome do navio é Germano III. Astreu é o primeiro a avistar de longe a embarcação.

- Lá está o cargueiro... Veja o nome em letras grandes.

- É sim, Astreu... Vamos para lá.

O grupo segue em direção ao navio. Ao chegar, aproximam-se do marinheiro, que está no primeiro degrau da escada de embarque. Zé Pedro

vai na frente e se dirige ao marujo.

- Quero falar com o oficial Leonardo.

- É o imediato do navio. Ele está no convés da coberta. O que vocês querem com ele?

- Somos os novos tripulantes deste navio.

- O quê?... Vocês estão brincando... Vocês não têm cara de tripulantes de navio nenhum.

- Faço o favor de chamar o imediato - reage Zé Pedro com energia.

- Vou chamá-lo... Mas ele é durão... Vai botar vocês todos para correr.

O marinheiro encara a turma com desdém. Depois, grita para outro marujo encostado lá em cima na amurada.

- Chame o nosso imediato, para ouvir a piada do dia. Esses boêmios dizem que são marinheiros.

O imediato chega lá em cima. O marinheiro da escada grita em sua direção.

- Senhor imediato... Têm quatro gaiatos aqui embaixo... Dizem que são novos tripulantes do navio.

- Podem deixá-los subir.

Zé Pedro, Héspero, Eduardo e Astreu passam pelo marinheiro e sobem a escada. Lá em cima, o jovem oficial faz sinal, e eles se aproximam. O imediato examina os quatro dos pés a cabeça. Seu rosto não esconde o seu descontentamento pela presença deles no convés.

- Só podem ser os protegidos do comendador.

- Somos - diz Zé Pedro.

- Dêem-me os documentos.

Enquanto o imediato chama o contramestre, Zé Pedro retira a documentação dos quatro de uma pequena maleta, que tirou dentro da mala maior. Entrega tudo ao imediato. Este passa os documentos para o suboficial ao seu lado.

- Verifique se está tudo em ordem com as papeletas que recebemos do Rio de Janeiro.

O contramestre sai em direção a cabine de administração do navio. O imediato Leonardo continua a olhar com deboche para eles.

- Vocês pensam que são marinheiros?

- Estamos aqui para aprender - observa Zé Pedro.

- Aprender?!... Vocês estão aqui para trabalhar. Não recebi ordens para dar boa vida a ninguém. Assim, peço que tomem muito cuidado e cumpram seus deveres. A atividade no alto mar não é o que vocês pensam.

O contramestre retorna e diz que a documentação confere com as do cargueiro.

- Muito bem.. Leve estes zebróides. Apresente-os ao cozinheiro-chefe.

Os quatro descem em direção à cozinha do navio. Suas cabeças estão pesadas, em virtudes da mente estar preocupada. Mas, aos poucos, com a boa comunicabilidade e o caráter bom do cozinheiro-chefe, perdem um pouco do temor e não têm dificuldades em se adaptar ao serviço da cozinha. Afinal, sabem que aquele cozinheiro é o único amigo no meio da hostilidade total do resto da tripulação. Os primeiros dias são terríveis. Héspero entra no alojamento. Não há ninguém. Tira as botas e deita-se. Seus pensamentos recomeçam a ser tenebrosos. Depois do ambiente hostil no navio, voltou a perder a confiança em Zé Pedro. "Será que ele armou toda esta viagem para se livrar de nós - pensa Héspero. Ele deve saber muito mais sobre o anel. Inventou a história do conde italiano para nos tirar do Brasil. É bastante fácil um marujo, durante a noite, nos atirar no oceano. Bem que o imediato disse que a vida no alto mar é perigosa". Um barulho faz ele levantar a cabeça. É Zé Pedro que entra.

- Está pensando naquela mulher de São Paulo?

- Não, Zé Pedro... Onde estão o Astreu e o Eduardo.

- Estão ainda conversando na cozinha.

- Vou avisá-los para não ficarem à noite andando pelo convés. É muito arriscado. Pode um desses marinheiros, que nos olham mal-encarados, pegá-los e jogá-los no mar. Ninguém nunca saberá o que aconteceu... Você não acha?

Héspero procura examinar e interpretar a fisionomia de Zé Pedro.

- Eu estou chateado com toda esta situação... É por causa de mim que vocês estão aqui... Nunca imaginei que essa tripulação iria tratar tão mal pessoas que estão aqui por ordem do dono da empresa do navio... Mas agora estou sabendo de uma coisa que sempre ouvi: a lei do mar é outra, não é a mesma de terra firme.

- Não é só dos marinheiros que tenho medo... O imediato me causa pavor.

- O pior é que não posso me comunicar com o Comendador Germano... Acho que devemos agir como os políticos. Procurar brincar e mostrar a nossa alegria. Cativá-los... Eles nos consideram uns intrusos. Para eles, estamos usurpando o seu espaço, que é o navio.

Héspero observa o rosto de Zé Pedro ao falar, a fim de descobrir se há falsidade nas suas palavras. Mesmo desconfiado, Héspero acha Zé Pedro sincero.

- Às vezes, penso na razão de você estar conosco, Zé Pedro. O porquê dessa sua ajuda. Perder tempo com uma pessoa que conheceu outro dia.

- Estou interessado no caso pelo que você me contou do Eduardo. Fiquei amargurado por ele ter passado 24 anos na cadeia e dizer que não é culpado. Acho que ele é mesmo inocente, senão você, que é irmão do morto, não estaria aqui ao lado dele... Também sinto que o sumiço do anel tem alguma coisa a ver com o assassinato... Somando tudo isso, também sou uma pessoa que gosta de aventura.

Héspero sente lisura nas palavras de Zé Pedro.

- Estou ansioso para chegar em Nápoles, Zé Pedro... Quero descobrir tudo... Desvendar esse mistério.

- Quando chegarmos lá, saberemos de muita coisa com o Conde Francesco.

- Mas considero perigoso você ficar andando com o anel no bolso.

- Eu sei, Héspero. Mas não posso deixá-lo guardado aqui no alojamento.

- Temos que ocultá-lo.

- Mas onde? Na cozinha?

- Lá também não. Tem que ser um local livre de qualquer risco. Que você possa vigiá-lo a todo instante.

- Sinceramente, Héspero. Não sei onde você quer escondê-lo.

- Atrás dos seus testículos.

- Nos meus testículos!?

- Sim... no teu saco... amarrar o anel atrás do seu saco.

- Não posso fazer isso... Como vou fazer uma coisa dessa.

Héspero corta um pedaço de barbante e entrega a Zé Pedro.

- Sei que é uma situação constrangedora. Mas não há lugar mais seguro.

- Não, Héspero... Deve existir um local melhor para guardar o anel.

- Estamos embarcados num navio cheio de marinheiros mal-encarados. Se souberem da existência do anel, todos nós corremos perigo... Por isso, não podemos correr risco... O anel tem que ser amarrado nos seus testículos... Se alguém quiser procurar alguma coisa de valor com você e revistá-lo, jamais vão imaginar que ele está no teu saco.

- Está bem... Está bem... Você me convenceu.

Zé Pedro arreia as calças e prende o anel nos testículos. Coloca um calção e senta-se na cama. Eduardo e Astreu entram no alojamento e vêem Héspero trocando de roupa para deitar-se.

- Pensei que vocês estavam dormindo, mas os encontro ainda acordados - fala Eduardo.

- Eu e o Zé Pedro estivemos conversando sobre o perigo de vagar no convés à noite. Esses marinheiros são capazes de tudo. É melhor todos nós ficarmos jogando cartas aqui no alojamento.

- É sim, tio... O Eduardo também me falou sobre isso.

- Daqui por diante, além do cuidado, tentaremos conseguir ser amigos do resto da tripulação. Somos mais cultos do que eles. Portanto, não será difícil travar amizade com os marujos.

Todos concordam com Héspero. Com muito sono, resolvem dormir. Nos dias seguintes, eles colocam em ação o plano de conseguir a amizade da marinhagem. Héspero é o primeiro a tornar-se simpático aos tripulantes, em virtude do seu cabedal de conhecimentos, inclusive de navegação marítima. Por outro lado, Astreu começa a trabalhar no refeitório dos oficiais. A rotina noturna de todos os dias é o jogo de carteado entre eles com o cozinheiro-chefe e outros marinheiros que também trabalham na cozinha. Passa-se uma semana. Héspero, Eduardo, Zé Pedro e o cozinheiro-chefe jantam em uma grande mesa. Héspero mostra-se um pouco preocupado.

- O Astreu hoje está demorando muito - diz ele.

- Também pensei nisso. Ele todos os dias chega antes do jantar.

Mal Eduardo acaba de falar, Astreu entra na cozinha muito alegre.

- Sabem quem se tornou meu amigo?

- Já sei, Astreu... O comandante do navio - arrisca Zé Pedro.

- Não, Zé Pedro... O comandante é muito sisudo, apesar de me tratar com respeito.

- Não vai me dizer que seu novo amigo é o imediato! - brada Eduardo.

- Acertou... É ele mesmo... Descobri que é enxadrista. Acabamos de jogar algumas partidas rápidas em seu camarote... Pensando que ele era jogador fraco, perdi a primeira partida de propósito, com intuito de fazer ele ficar contente e, assim, melhorar sua postura com a gente... Mas logo percebi que ele é jogador muito forte. Disputamos mais quatro partidas, nas quais dei tudo para ganhar... Mas de nada adiantou meu esforço, pois só consegui vencer apenas uma.

- Quando você o venceu, ele não o chamou de zebróide - brinca Héspero.

Astreu sorri.

- Não, tio... Não é nada do que pensávamos... O imediato tem muita cultura... Ele é enérgico, mas no fundo é uma pessoa boa.

- Fico muito alegre por esse oficial não ser aquilo que imaginávamos... O ambiente no navio melhorou muito para o nosso lado...Não há mais a hostilidade dos marinheiros, como houve nas primeiras semanas após o Germano III ter partido do porto de Santos - fala Héspero, sem se importar com a presença do cozinheiro-chefe.

Astreu afasta-se para preparar sua bandeja de comida. Junta-se aos outros na mesa. A conversa gira em torno do futebol e na decepção da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Após o jantar, todos se recolhem para o alojamento. Mais um dia se passa. A seqüência dos dias se seguem, e o navio alcança o meio do Oceano Atlântico. Semanas depois, há a festa entre os tripulantes pela travessia da linha do Equador. Os dias continuam.

A embarcação finalmente alcança o Estreito de Gibraltar e entra no Mar Mediterrâneo. A manhã está linda. Héspero, Eduardo e Zé Pedro passeiam junto à amurada do convés. A calmaria do mar impressiona, pois eles se lembram das tormentas do meio do oceano que assustaram a todos. Eduardo chama a atenção de Héspero e Zé Pedro.

- Vejam lá no castelo da proa. O Astreu acompanhado pelo imediato.

- Vamos até lá - exclama Héspero.

Eles alcançam o local e cumprimentam o oficial Leonardo.

- O imediato nos dará dez dias de folga, logo que desembarcarmos em Nápoles - explica Astreu.

- Enquanto o navio estiver no porto, nem todos vão tirar plantão... Resolvi premiar os amigos desse jovem, que joga muito bem xadrez - fala Leonardo, apontando para Astreu.

Héspero mostra na sua fisionomia a alegria que ficou pela notícia. "Essa folga de dez dias será muito boa, para a gente se dedicar a procura do conde - pensa ele".

- Vocês podem se divertirem à vontade... Eu não estarei em Nápoles... Vou à cidade de Bari, terra dos meus avós - diz o imediato.

- Eu irei à Iugoslávia com o imediato - anuncia Astreu. Assistiremos às olimpíadas de xadrez em Dubrovnik.

Héspero, Eduardo e Astreu ficam espantados com a declaração de Astreu. O jovem nota o assombro deles.

- Não fiquem assustados... Primeiro, vou com vocês na casa do Conde Francesco... O imediato só vai viajar no dia seguinte da nossa chegada em Nápoles... Dá tempo de procurar o conde... Só depois, seguirei para a cidade de Dubrovnik... Não quero deixar de ver os grandes mestres de xadrez de todo o mundo.

- Dubrovnik! Não é para Bari que o senhor imediato disse que vai? - pergunta Héspero.

- Vamos para os dois lugares: Bari e Dubrovnik - esclarece o imediato. Nasci em São Paulo, mas sou de origem italiana. Meus pais moram em São Paulo. Meus avós, porém, estão em Bari. Vou lá com o Astreu visitá-los... Depois, iremos ver as olimpíadas em Dubrovnik... O Mar Adriático separa a Itália da Iugoslávia... As duas cidades ficam em cada costa... Bari e Dubrovnik estão uma frente da outra separadas por cerca de 200 quilômetros de água.

- Bari fica perto de Nápoles? - interroga Zé Pedro.

- Mais ou menos.... Umas sete horas de carro, passando por Foggia... De Bari, vamos atravessar o Mar Adriático em barca de carreira até Dubrovnik... É uma viagem de porto a porto... Lá só poderemos assistir as últimas rodadas, já que as olimpíadas já começaram no dia 20 de agosto. Teremos que regressar o mais rápido possível, antes do nosso navio zarpar de volta ao Brasil.

- Ouvi dizer que os russos são os maiorais no xadrez - diz Zé Pedro.

- Sim. O atual campeão do mundo é o soviético Botvinnik... Os melhores jogadores de xadrez são da União Soviética... Além de Botvinnik, há outros de qualidade: Bronstein, Boleslawsky, Smyslov e Keres - explica Leonardo.

Eles se despedem do imediato. Acompanhados por Astreu continuam a andar pelo convés, apreciando as coisas belas do Mar Mediterrâneo. Depois, seguem para a cozinha para o trabalho diário. Todos estão ansiosos para a chegada ao porto de Nápoles.

Capítulo 14

Sábado, dia 2 de setembro de 1950, o Germano III aproxima-se lentamente do Golfo de Nápoles, rasgando as águas entre as ilhas Ischia e Capri. Ao longe, a magnífica visão do Vesúvio. A tripulação está toda no convés. Zé Pedro, lembrando dos tempos da guerra, gesticula , fala e aponta tudo o que vê. Héspero, Astreu e Eduardo estão fascinados com a beleza do litoral rochoso. A embarcação vai chegando no porto em direção ao lugar destinado a atracação. Em menos de duas horas, o grupo já está nas ruas de Nápoles. Zé Pedro examina tudo.

- Minha memória é muito boa. Estou reconhecendo tudo aqui, apesar de já ter passado mais de cinco anos. A casa do Conde Francesco fica perto.

- Qual o caminho que vamos seguir? - pergunta Héspero a Zé Pedro.

- Aquele ali... Tenho certeza que vai dar na rua do conde.

Os quatro seguem por uma via estreita e pavimentada por pedras retangulares. Há bastante movimento de pessoas, que falam e gesticulam expansivamente. Param numa esquina. Zé Pedro examina bem o local a seguir. Héspero chama atenção do grupo para a passagem de uma jovem italiana muito bonita. Astreu aproveita para fazer gracinha para o grupo, aproveitando em estar num país de língua diferente.

- Que bela bunda - grita em bom português em direção à moça que passa.

- Atrevido... Não tem educação, seu fedelho - responde a jovem também em português.

- Poxa! Que azar! Ela entende a nossa língua. Ela fala português.

Héspero, Eduardo e Zé Pedro fingem não conhecer Astreu. A moça aumenta as passadas e afasta-se resmungando.

- Tenho que pedir desculpas a ela - balbucia Astreu.

Ele anda rápido, quase correndo, para alcançar a jovem italiana. Ela nota a perseguição e começa a andar ainda mais depressa. Os outros ficam na esquina de braços cruzados olhando de longe a cena.

- O Astreu vai acabar levando uma bofetada dessa italiana - observa Zé Pedro.

- Que nada. O meu sobrinho tem muita lábia. Vai contornar tudo.

- Olha lá - aponta Eduardo. Já conseguiu emparelhar com ela.

- Ela tenta desviar, mas o Astreu não desiste.

- Nem vai desistir, Zé Pedro. Eu conheço o meu sobrinho.

- Agora, ela parou - diz Eduardo rindo.

- É parou mesmo... Veja como ela gesticula com o dedo... O Astreu deve estar levando a maior bronca... Ele quase não fala. Só escuta a moça.

- Vamos ver o que vai dar, Zé Pedro - fala Héspero.

- Agora parece que ela está aceitando a explicação de Astreu, pois só ele é que está falando - explica Eduardo.

- É terminou a discussão. Estão conversando calmamente. O seu sobrinho conseguiu dobrar a italiana.

- Eu não disse, Zé Pedro.

- Está até acariciando os cabelos da moça - alerta Eduardo.

- O espetáculo acabou, pois eles viraram para a outra rua - comenta Zé Pedro.

- Só nos resta esperar o Astreu aqui... Você já se definiu pelo caminho certo para a casa do conde? - indaga Héspero.

- Sim... É aquela rua adiante... É ali que o conde mora.

Eles sentam nos degraus da calçada e entabulam uma conversa fiada, enquanto esperam o retorno de Astreu. O tempo passa. Héspero consulta o relógio.

- Já estou começando a ficar preocupado. Já faz quase uma hora que o Astreu sumiu com a moça naquela esquina.

- O que será que houve! - exclama Zé Pedro.

- Calma, pessoal. Lá vem ele - anuncia Eduardo.

Héspero e Zé Pedro viram a cabeça e vêem Astreu se aproximando sorridente.

- O que aconteceu? - grita Héspero, ainda com Astreu um pouco distante.

- Vou contar tudo - responde o rapaz, chegando bem perto do grupo.

- Você demorou muito... O que aconteceu?

- Tudo bem, tio... Tudo maravilhoso. Fiz amizade com a moça... Ela é brasileira... Nasceu no Rio e tem parentes na Tijuca. Penei muito para convencer que não quis ofendê-la.

- Sabemos que você realmente penou... Vimos tudo daqui - comenta Zé Pedro.

- Expliquei a ela que não passou pela minha cabeça que ela falasse português... Que pronunciei aquela palavra apenas para brincar com meus amigos... Jamais para ofender tão linda jovem... Ela custou, mas acabou compreendendo tudo... É uma moça sensacional... Demorei, porque fui até o portão da sua casa... Marquei até um encontro para hoje à tarde... Vamos dar um passeio... Seu nome é Sofia.

Todos riem da estória de Astreu. Retornam a andar em direção à casa do conde, orientado por Zé Pedro. Logo chegam na residência procurada. Zé Pedro toca a campainha. Uma mulher, com aparência de criada, atende a chamada. Zé Pedro pergunta pelo Conde Francesco. Ela ao ouvir o nome fica bastante nervosa. Gesticula muito e fala muito rápido um linguajar italiano, que Zé Pedro não consegue entender. Astreu tenta o seu francês e inglês, mas perturba ainda mais a cabeça da confusa senhora. Ela então chama aos gritos alguém do interior da casa. Surge um menino de uns quinze anos. Zé Pedro consegue conversar com o garoto em italiano. Trocam apenas algumas palavras. O rosto de Zé Pedro empalidece. Ele vira-se para os amigos.

- O conde morreu.

- O que! - exclama Eduardo.

- Sim... O garoto disse que ele faleceu... Por isso, esta mulher estava tão nervosa... É muito triste... Um dia eu salvei a vida do Conde Francesco... Agora, descubro que morreu... A vida é uma coisa que a gente não consegue explicar.

Zé Pedro retorna ao assunto com o garoto no seu italiano arranhado. Quer saber do paradeiro da esposa e do irmão do conde. O menino gesticula muito, a fim de ser entendido melhor. Vai para o meio da rua e aponta para o Vesúvio, gritando diversas vezes as palavras Castella Mare. Zé Pedro sorri e vira-se para Héspero.

- Ele está apontando para uma localidade que fica perto do Vesúvio e se chama Castella Mare.

O menino faz sinal para esperar e sai correndo para dentro de casa. A senhora continua na porta com fisionomia desconfiada.

- Que confusão. Não estou entendendo nada - reclama Héspero.

- Com um pouco que sei de italiano, já entendi que a mulher e o irmão do conde estão vivos, mas não estão morando nesta casa. Devem estar em Castella Mare.

O guri retorna e entrega um pequeno pedaço de papel a Zé Pedro.

- Ele escreveu um endereço aqui... É o solar do Conde Francesco em Castella Mare.

Eles se despedem e agradecem ao menino e à senhora. Rumam em direção ao porto. Héspero cutuca Zé Pedro.

- Como acharemos Castella Mare?

- Não sei... Para eu sair perguntando a esses transeuntes com meu italiano enrolado será difícil... Talvez o imediato Leonardo saiba onde fica esse lugar.

- Com o imediato não... A solução me parece estar aqui bem do meu lado - Héspero olha para Astreu.

- Eu não sei nada de italiano, tio.

- A solução está com você, mas não é bem com você... A sua nova amiga, a Sofia... Bem que poderia nos guiar até Castella Mare.

- Poxa, tio. Isso pode estragar meus planos com ela.

- Então vou perguntar mesmo ao imediato.

- Estava só brincando... O caso do anel é mais importante... O namoro, eu deixo para depois... Poderemos ir à casa dela até mais cedo, bem antes da hora que marquei.

- Exato, Astreu... Vamos almoçar... Depois iremos à casa dessa tal de Sofia.

Durante o almoço, Astreu não pára de falar em Sofia. Héspero pensa em Edith. Fica um pouco absorto, imaginando o regresso do navio ao porto de Santos, quando terá oportunidade de encontrar Edith. Após comerem pizzas e frutos do mar, todos seguem para a residência de Sofia. A rua da moça é sinuosa e ligeiramente íngreme. Eles sobem a ladeira devagar. Eduardo reclama.

- Já não tenho disposição para uma subida assim.

- Mais um pouco de força... Já estamos chegando... A casa da Sofia é ali adiante.

O grupo chega finalmente ao destino. É uma casa bem antiga, com porta e janelas na beira da calçada. Astreu bate palmas. Héspero, Eduardo e Zé Pedro ficam afastados. A moça abre a porta e o ouve atentamente. Astreu aponta para os companheiros e continua a falar. Sofia põe a mão na cabeça, gesticula e troca frases com Astreu. Após mais diálogos, a moça entra e fecha a porta. Astreu junta-se ao grupo do outro lado da rua.

- A Sofia disse para a gente esperar aqui. Vai nos guiar até Castella Mare... Ela informou que é um pouco longe de Nápoles... Dista uns vinte quilômetros daqui. É um balneário na estrada que vai para Sorrento. Fica atrás do Vesúvio.

- Foi por isso que o garoto apontava o dedo para o Vesúvio - observa Héspero.

Pouco depois, Sofia aparece arrumadinha na porta da sua residência. Astreu vai rápido em sua direção e traz a moça para junto do grupo. Há um momento de hesitação de todos, por causa do acontecido na parte da manhã. Ela é que quebra o silêncio.

- Já soube que vocês são todos do Rio de Janeiro.

- Sim. Moramos em Jacarepaguá, menos o Zé Pedro, que reside na Tijuca - responde Héspero, apontando para Zé Pedro.

- Eu também sou da Tijuca... da Muda da Tijuca... Minha tia, irmã da minha mãe, mora lá na nossa casa da Rua Garibaldi... Meu pai é italiano, mas mamãe é brasileira... Estamos aqui em Nápoles há quatro anos, mas regressaremos para o Brasil daqui a alguns meses. Minha mãe adora o Rio, pois lá estão todos seus parentes. Aqui na Itália, só tem a família por parte do meu pai.

- O Astreu já deve ter dito que estamos querendo ir à Castella Mare. Mas não sabemos onde é o caminho - diz Héspero.

- Não tem problema. Eu levo vocês até lá... Mas é um pouquinho longe.

- Dá para retornar ainda hoje? - interroga Héspero.

- Lógico que dá... Disse que é longe, mas não é tanto assim. Antes da hora da ceia já estaremos de volta... O Astreu disse que vocês não vão demorar para resolver o caso lá.

- Sim. É uma visita rápida - completa Héspero.

Eles caminham pelas ruas até a rodoviária. Sofia transmitindo muita alegria orienta a todos. Sobem no ônibus, que logo deixa a cidade e ganha a pequena estrada. Astreu e Sofia estão sentados na parte de trás. Héspero, Eduardo e Zé Pedro ocupam a primeira fila dos bancos. A paisagem bonita faz o tempo passar bem rápido. Logo, os cinco saltam do ônibus na parada de Castella Mare. O veículo segue viagem e eles ficam desorientados na beira da estrada. Ao passar um menino, Sofia pede o papel com o endereço a Héspero. Em italiano, se informa com o guri, que aponta para o caminho que leva ao mar. Eles seguem para o local indicado. Logo vêem a placa com a inscrição "Solar do Francesco". É uma mansão típica dos balneários da região de Campânia, cercada por bem tratado gramado e edificada no meio de duas nogueiras. Zé Pedro toca a sineta. Vários cães de raça aparecem e ficam junto do grande portão.

- O dono dessa mansão deve gostar de pratica caça com tiro.

- Por que o senhor diz isso, tio?

- Por causa desses cachorros. São da raça braco-italiano, que são excelentes caçadores.

O irmão do Conde Francesco chega junto com dois empregados. Ele reconhece o Zé Pedro, que lhe mostra o anel. Sofia ajuda a Zé Pedro a explicar a presença deles ali. O homem manda prender os cães e deixa o grupo entrar. Na grande sala da mansão, está a condessa, que também reconhece o Zé Pedro. Sofia fala baixinho para Astreu e Héspero.

- Ela está dizendo que nunca poderia esquecer a fisionomia do homem que salvou seu marido.

Sofia senta-se ao lado da condessa e serve de intérprete. No início, conversam sobre a guerra e do Conde Francesco e sua morte. Ficam sabendo que o nome do irmão do conde é Luigi. Eles prestam atenção na tradução de Sofia, enquanto um empregado serve vinhos a todos. Chega o momento da conversa girar em torno do anel. Zé Pedro conta toda a estória em português, e Sofia vai traduzindo frase por frase para a condessa e Luigi. Eles ouvem com muita atenção ela explicar o porquê de Zé Pedro querer saber onde o conde conseguiu o anel. Héspero e Eduardo se mexem nervosamente no sofá, enquanto o homem responde em italiano a pergunta final de Sofia. Ela olha para eles e traduz.

- Ele diz que o irmão adquiriu o anel em Paris. Comprou de um contrabandista francês chamado Jules Lièvre.

- Procure saber se esse Jules ainda vive... e se tem o endereço dele - replica Héspero.

Sofia volta a dialogar com Luigi. O italiano intercala os comentários com risadas. Sofia traduz.

- Ele não sabe se o francês ainda vive. Acredita que sim. Também não tem seu endereço. Mas acha que é fácil descobrir isso em Paris com os mercadores que ficam no passeio da Catedral de Notre Dame ou no Café Les Deux Magots.

- Onde fica o Café Les Deux Magots? - indaga Héspero.

Luigi dispensa a tradução e responde rápido.

- Boulevard Saint Germain.

Héspero faz sinal para Sofia e Zé Pedro que já está satisfeito. O grupo se despede da condessa e Luigi. Na volta para Nápoles, estão contrariados com a nova situação. Sofia, alheia aos problemas dos seus acompanhantes, ri muito e aponta para todos os pontos pitorescos do lugar a medida que o ônibus avança pela estrada. Héspero e Eduardo são os mais inconformados.

- Viajamos de tão longe para nada - reclama Eduardo.

- Que isso, pessoal. Temos que ir a Paris - pondera Zé Pedro.

- Mas como? - gesticula Héspero.

- Não se esqueçam que temos dez dias de folga - lembra Zé Pedro.

- Um já passou.

- Eu sei, Héspero. Mas nove dias dá para ir e voltar.

- Com que dinheiro, Zé Pedro.

- Deixa que no porto darei um jeito.

- Eu também irei com vocês - retruca Astreu. Em Paris, meu francês vai funcionar. Vou explicar ao imediato que não posso mais ir a Dubrovnik.

A viagem continua. Chegam em Nápoles antes do anoitecer. Astreu separa-se do grupo, a fim de levar Sofia em casa. Os demais retornam ao navio. No alojamento, fazem cálculo do dinheiro que possuem.

- É pena que recebemos apenas pequena parte do nosso trabalho no Germano III - diz Héspero.

- Com que temos não dá para ir e voltar a Paris, pois a despesa com alimentação, passagens e hospedagem é muito grande - explica Zé Pedro.

- E se juntássemos todo o nosso dinheiro, para somente dois de nós ir

a Paris? - indaga Eduardo.

- De maneira nenhuma, Eduardo. Têm que ir todos - reponde Héspero.

- Também acho. Nós quatro viemos até a Europa e temos que ir até o fim na busca para saber a estória do anel - acrescenta Zé Pedro.

- Nós estamos cansados. Vamos dormir. Amanhã, com a cabeça mais fria, pensaremos melhor, para encontrar uma solução - fala Héspero.

Eles aceitam a opinião de Héspero. Em pouco tempo, estão todos dormindo. As horas passam. No dia seguinte, Héspero desperta com a claridade do sol entrando pela escotilha. Levanta-se ligeiro preocupado com o sobrinho, que não tinha chegado até a hora que pegou no sono. Fica aliviado ao vê-lo deitado na parte de cima do beliche. Eduardo também está ferrado no sono. Mas Zé Pedro não está no alojamento. Sua cama está vazia. Pela escotilha, Héspero examina o cais. O dia está bonito, com o céu completamente azul. Já começa no porto o burburinho diário, apesar de ser domingo. Héspero começa a trocar de roupa. Astreu acorda.

- Já é tarde, tio. Vou também me arrumar para dizer ao imediato que não irei a Dubrovnik.

- Ainda não está nada resolvido sobre a nossa ida a Paris.

- Mas nós temos que ir, tio... Temos que saber sobre o anel... Vou agora cancelar a minha ida as olimpíadas de xadrez... Vou dar uma explicação qualquer ao imediato.

- Não fale nada sobre o anel.

- De jeito nenhum, tio. Não vou falar sobre isso.

Astreu sai apressadamente. Eduardo acorda e se arruma ao mesmo tempo em que conversa com Héspero. Ao regressar, Astreu encontra os dois prontos para sair.

- Conversei com o imediato. Disse a ele que arranjei uma namorada e, por isso, não irei mais para Iugoslávia. Ele entendeu a minha explicação.

- Vamos ao bar da rua do porto, para fazer nossa primeira refeição, pois a cozinha do navio está em recesso - fala Héspero.

- Vamos sim, tio... Mas aonde está o Zé Pedro?

- Não sei onde ele está - informa Héspero.

- Também não o vi no convés - alerta Astreu.

- Eu estou aqui pessoal.

Todos se viram e vêem Zé Pedro entrar muito alegre no alojamento.

- Acordei bem cedo e fui agir... Consegui arranjar... Todos nós podemos viajar para Paris.

- Como?! - exclama Héspero.

- Um trem de carga partirá daqui a pouco para Roma... Falei com o manobreiro que somos do navio... Ele vai deixar a gente viajar num vagão que está ocupado pela metade... Mas temos que ficar escondidos lá dentro... Só poderemos sair do trem, quando ele chegar em Roma.

- A viagem terminará em Roma? - pergunta preocupado Héspero.

- Sim... Depois, teremos que procurar outro meio para atingir Paris.

- Ficaremos na mesma situação de agora.

- Mas bem mais perto de Paris, Héspero - explica Zé Pedro.

- Acho que vai dar certo, tio. Não custa nada tentar.

- Que você acha, Eduardo?

- Eu também concordo, Héspero.

Héspero vira-se para Zé Pedro.

- Então vamos.

Eles apanham no navio somente as coisas necessárias e saem apressados. No porto, Héspero avista Sofia ao longe com um pano vermelho na cabeça, escondendo totalmente os cabelos.

- Veio se despedir de você - diz Héspero para Astreu.

Sofia aproxima-se. Astreu também vai em sua direção. Os dois jovens conversam. Depois, vêm em direção ao grupo. Astreu olha firme para Héspero.

- Ela não está aqui para se despedir de mim... Veio para ir conosco a Paris.

- Não é possível - agita-se Héspero. Esta senhorita é maluca. Como ela soube do trem cargueiro?

- Ela não sabia nada de trem de carga. Sabia somente que hoje de manhã a gente iria de qualquer jeito para Paris... Eu disse isso a ela ontem à noite.

- Foi por causa disso que você chegou ontem no navio bem tarde... Nós todos já estávamos dormindo.

Astreu abana a cabeça que sim, enquanto Sofia não tira os olhos de Héspero.

- Não pode... Não pode... Uma moça não pode viajar com quatro homens num trem cargueiro... E o pai dela?... Sabe dessa maluquice?

- Não - responde Astreu. O pai e a mãe de Sofia pensam que ela vai passar uns dias com uma amiga em Salerno... Essa própria amiga ontem mesmo foi falar com os pais de Sofia... Tudo falso... O que a Sofia quer mesmo e ir a Paris com a gente.

Sofia continua a olhar para Héspero com uma carinha de anjo.

- Não... de maneira nenhuma você vai... Você não vai menina... Não adianta ficar me encarando... Não adianta este olhar meigo... Não adianta... Você não vai, menina.

Sofia não diz nenhuma palavra. Continua imóvel a olhar para Héspero. Ele vira as costas e faz menção de se afastar. Mas volta a ficar de frente para a moça. Ela continua impassível a fitá-lo. Héspero abana a cabeça e deixa escapulir um sorriso.

- Está bem... está bem... você pode ir... Vamos logo... Ainda temos que comprar algumas coisas para comer na viagem.

Sofia levanta bastante alto a sacola que traz consigo.

- Não é preciso - diz ela. Trouxe lanches para todo mundo.

Héspero volta a sorrir.

- O trem está para partir. Vamos andar depressa - grita Zé Pedro.

O grupo caminha alegremente. Na linha férrea, o manobreiro leva todos para o vagão em que eles vão viajar. Eles se acomodam. O comboio avança rumo ao norte para Roma. Héspero, Eduardo e Zé Pedro estão perto da porta, que mantêm aberta, a fim de receber claridade e o ar puro que desce dos Apeninos. Astreu e Sofia conversam um pouco afastados deles. Ela estica a mão e apanha algo junto dos grandes sacos que ocupam metade do vagão.

- Veja o que achei.

- É uma rolha de cortiça.

- Esta rolha me deu uma idéia... a brincadeira do vira-vira... Você conhece?

- Não.

- É um jogo divertido. As pessoas formam uma roda. Cada uma vai passando o dedo na cara da pessoa ao seu lado sucessivamente e contando em voz alta até um número pré-estabelecido. Quem cair nesse número é o vencedor e ganha um prêmio.

- Tudo bem, Sofia... Mas o que a rolha tem a ver com o jogo?

- A brincadeira é realmente por causa da rolha. Entretanto, só uma pessoa na roda não saberá disso.

- Ainda não estou entendendo.

- Vou explicar.

Sofia faz uma pausa. Astreu fica muito curioso. A moça volta a falar.

- A cortiça é queimada na ponta. Uma das pessoas segura-a nas costas. Com a outra mão, passa o dedo nela e, após isso, na cara do companheiro ao lado.

Astreu dá uma gargalhada, que chama atenção dos outros.

- Que coisa mais divertida - diz ele. Entendi tudo. Um da roda vai ficar sem saber que está com o rosto todo sujo.

- É isso mesmo... Quem iremos escolher para ser o pato?

- O quê!... Você não está pensando em fazer a brincadeira aqui no trem.

- Estou sim... Vamos queimar a rolha... Me dá o seu isqueiro.

Astreu entrega o isqueiro à moça, que queima uma das extremidades do tafulho. O rapaz passa a mão nervosamente na cabeça.

- Quem a gente vai escolher? - inquire ele.

- Você é quem sabe.

- Com Eduardo não é bom a gente brincar. Passou muito anos na cadeia. Não sei qual será a sua reação à brincadeira. O Zé Pedro tem o espírito alegre e não deve ficar alterado... Mas eu prefiro que o pato da brincadeira seja o meu tio Héspero.

- Também acho que deve ser o seu tio... Ele se zangou hoje comigo, mas é uma pessoa ótima.

- Você disse que deve haver um prêmio para o vencedor, a fim do escolhido não desconfiar da sujeira na cara.

- Hã!... Sim!... Tem que haver um prêmio... Olha aqui.

Astreu observa duas laranjas na mão de Sofia.

- Estas duas laranjas sobraram da hora do lanche - diz ela. Serão o galardão. Quem cair no número selecionado para a primeira rodada do vira-vira ganhará uma... A outra ficará para a segunda rodada.

Os dois aproximam-se do restante do grupo. Sofia dá as duas laranjas para Astreu. O rapaz mostra as frutas maduras para Héspero, Eduardo e Zé Pedro. Eles param de conversar e olham para Astreu.

- Sobraram essas duas laranjas da hora do lanche... Como somos cinco, a Sofia teve uma idéia brilhante de ser disputadas em um jogo - explica Astreu.

- Jogo! - exclama Zé Pedro. Não vai me dizer que ela conhece o jogo da porrinha.

Sofia olha admirada para Zé Pedro.

- Não, Zé Pedro. A Sofia nem imagina o que é o jogo da porrinha... Ela quer disputar as laranjas no jogo do vira-vira - acrescenta Astreu.

- Vira-vira!? Esse eu nunca ouvi falar.

Astreu dá detalhes sobre as regras do vira-vira, mas omite o fato de existir uma rolha de cortiça queimada.

- Não entendi a necessidade de passar o dedo na cara do outro - replica Héspero. Não é melhor contar em voz alta, apontando para a pessoa.

Astreu fica indeciso, pois o tio quer tirar exatamente o detalhe principal. Não sabe como convencê-lo. Sofia então toma a iniciativa.

- Passar o dedo no rosto das pessoas é muito importante, a fim de tornar o jogo mais emotivo e mais aconchegante - diz ela.

- Ainda prefiro o jogo da porrinha - reclama Zé Pedro.

- Como é esse jogo? - vira-se Sofia para Astreu.

- No jogo da porrinha , forma-se igualmente uma roda de amigos. Cada um coloca de uma a três moedas na mão fechada, podendo também ficar com ela vazia. Ganha quem adivinhar o total de moedas nas mãos.

- O vira-vira é muito mais divertido - observa ela.

- Vamos jogar pessoal. Vamos ver como é esse jogo da moça - fala Eduardo.

Todos concordam em participar da brincadeira. Sentam-se no chão do vagão, formando uma roda. Sofia fica ao lado de Héspero. Astreu escolhe um número de propósito para cair no seu tio. O jogo é iniciado; e a cara de Héspero começa a ser marcada toda a vez que Sofia passa o dedo sujo de carvão. Eduardo e Zé Pedro notam o rosto do amigo e passam a mão em suas próprias faces, a fim de saberem se também estão sujas. Astreu, perto deles fala baixinho e pede segredo. Os dois passam a gostar da brincadeira ao descobrir que só a cara de Héspero está sendo marcada. A contagem vai chegando ao fim. Héspero fica alegre, pois pressente que vai ganhar a primeira laranja.

- Ganhei! - grita ele na hora que Sofia alisa o dedo na sua testa.

- A laranja é sua, tio... O senhor ganhou.

Héspero recebe a laranja de Astreu rindo com bastante sonoridade. Todos aproveitam para extravasar em gargalhadas, em virtude da cara de Héspero estar toda manchada.

- Que jogo maravilhoso! Vamos para a segunda rodada! - exclama Héspero muito satisfeito.

O jogo recomeça. Sofia toca a ponta do dedo no nariz de Héspero. Depois, nas pontas das orelhas. A medida que a contagem avança, Héspero sorri a notar que o número escolhido vai cair nele novamente.

- Ganhou outra vez - anuncia Sofia ao tocar o queixo de Héspero.

- Se tivesse outra, também ganharia de vocês - brada Héspero muito feliz.

Astreu entrega a segunda laranja ao tio. Héspero apanha-a e olha para Sofia.

- Já tenho uma laranja. Esta eu dou de presente para a moça encantadora que nos ensinou um jogo extraordinário.

Eduardo tapa a boca para não rir ao fitar o amigo com o rosto todo marcado. Zé Pedro achega-se bem perto da porta do vagão, aponta para as montanhas adiante e conta piadas do tempo da guerra, a fim de todos rirem da cara de Héspero sem ele notar. O trem avança e em pouco tempo chega a Roma. Eles saltam rápido do vagão e procuram sair rápido da ferrovia. Conseguem chegar na rua sem serem vistos pelos funcionários da estrada de ferro. Todos prendem o riso, quando notam os olhares dos transeuntes para Héspero. Alcançam as ruas do centro de Roma e procuram uma lanchonete, pois estão com fome. Héspero está irritado e abana a cabeça.

- Estes romanos são muito bobos. Todos passam por mim e ficam rindo... Lá no Brasil nunca aconteceu isso... Vou começar a fazer careta para todo mundo que ficar olhando para mim.

Encontram um bar e entram. Sofia fala italiano com o garçom e pede refeição para os cinco. O garçom se retira, a fim de fazer o pedido na cozinha.

- Vocês viram como o garçom olhou para mim e riu.

- Que nada, tio. O senhor está impressionado. Ninguém está rindo para o senhor.

- É que o povo italiano é muito alegre. Ri à toa - explica Sofia.

Sofia conta estórias hilariantes sobre os costumes italianos, a fim de que todos possam continuar a rir sem que Héspero pense que é para ele. Ao acabar de comer, Héspero vai ao banheiro masculino. Em frente ao espelho, o sangue sobe à cabeça. Ele bate violentamente com a mão fechada na bancada. Lava o rosto bem ligeiro e retorna bastante irado contra Astreu e Sofia. Os dois jovens saem em disparada pela rua movimentada. Héspero grita palavrões em direção a eles. Os italianos que passam param para ver a cena insólita. Sofia também pára e junta as mãos como se fosse rezar.

- Perdão... O Astreu não tem culpa nenhuma... A culpa foi toda minha.

Héspero aproxima-se e ri.

- Você merecia umas palmadas... Mas está desculpada... Não precisa me pedir perdão.

Serenados os ânimos, eles procuram um lugar para pernoitar. Encontram uma pensão familiar no centro da cidade. No dia seguinte, Astreu e Sofia visitam a Basílica de São Pedro e vêem o Papa Pio XII dar a benção aos fiéis reunidos na grande praça em frente à igreja. Héspero, Eduardo e Zé Pedro passeiam pelas ruínas da Roma antiga. Todos se encontram no lugar marcado: esquinas das vias Veneto e Ludovisi. Sofia conta as novidades.

- Eu e o Astreu fizemos amizade na Piazza San Pedro com um bigliettinaio do trem expresso para Paris.

- Bigliettinaio? O que é isso? - pergunta Héspero.

- É o bilheteiro... É o homem que picota as passagens... Conversamos com ele... Explicamos que temos que ir a Paris, mas não temos dinheiro... Ele disse que tem condições de arranjar um lugar para nós no trem que parte hoje à tarde para Paris... Mas temos que dar uma gorjeta para o homem... O equivalente a uma passagem.

- Vale a pena, tio. Viajaremos os cinco pelo preço de um.

- Não há perigo de sermos descoberto? - indaga Eduardo.

- Não, Eduardo... Iremos escondidos num compartimento fora da circulação dos passageiros e empregados da ferrovia - fala convicto Astreu.

- Então, vamos apanhar nossas maletas na pensão - intervém Zé Pedro.

O grupo sai rápido e decidido para a pensão. Apanham suas coisas e rumam a pé para a Estação Termini. Ao chegar ao terminal ferroviário, Sofia procura o bilheteiro italiano no local combinado. O homem recebe a sua gorjeta e fica muito alegre. Ele leva os cinco para dentro do trem. O local onde ficam é muito estreito, mal dá para acomodar todos. Há somente uma pequena janela no compartimento. O bilheteiro fala em italiano. Sofia traduz para os companheiros.

- Ele diz que, com o trem em movimento, esta janelinha pode ficar aberta. Mas nós temos que fechá-la, quando da aproximação de qualquer parada.

- Nós não podemos nem ir ao restaurante? - pergunta Eduardo.

- De maneira nenhuma - responde Sofia. Mas o bilheteiro já prometeu trazer sanduíches para a gente.

O trem ganha velocidade e deixa cidades para trás: La Spezia, Gênova, Turim e Lyon, em mais de mil quilômetros percorridos. Zé Pedro dorme, apertado num canto. Junto à janela, Astreu e Sofia admiram a paisagem das terras francesas. Héspero e Eduardo conversam.

- Até agora só estamos preocupados em chegar a Paris. Não estamos comentando o fato de Jules Lièvre ser contrabandista. Ele deve ser muito perigoso.

- Você tem razão, Héspero. Quando o encontrarmos, não poderemos dizer a verdade.

- É mesmo, Eduardo. O homem deve saber muita coisa sobre o anel.

- Temos que inventar uma estória.

- Também acho.

- Você tem alguma idéia, Héspero?

- Deixa eu ver... Podemos dizer que somos funcionários de um museu brasileiro para a qual o anel foi doado. Acrescentaremos que estamos fazendo uma pesquisa sobre a origem do anel.

- Boa trama... Mas você já cogitou na possibilidade de nós não encontrar esse Lièvre?... Ou ele indicar outra pessoa?... Ou outro lugar bem aqui na Europa?

- Se isso acontecer, não teremos condições de fazer mais nada. Já imaginou a nossa situação, se o navio zarpar antes da nossa volta?

- Nem pense, Héspero.

- Se ele designar outra pessoa aqui na Europa, poderíamos escrever para o João.

- É mesmo... O João é nosso amigo e poderá nos ajudar.... Ele mora em Lisboa.

Enquanto Eduardo fala, um devaneio terrível invade a mente de Héspero. "O João! Será que foi ele que trouxe o anel para a Europa. Não.. não... não pode ser ".

- Que cara é esta, Héspero? O que você está pensando?

- Hã... não.. não é nada... É que ando bastante perturbado com toda essa nossa situação.

Capítulo 15

O trem chega a Paris quase ao anoitecer. Ao mesmo tempo que procuram um lugar para se hospedar, visitam os pontos turísticos ao ar livre da cidade. Astreu passa a ser o mais importante do grupo por falar francês. Pede informações a quase todas as pessoas na rua. Atingem o grande círculo da Étoile, com o magnífico Arco do Triunfo. Ficam espantados com a confusão enorme do trânsito. Das doze grandes avenidas que convergem para a Étoile, eles vêem chegar citroens e renaults, que ultrapassam as pistas entrecruzadas a toda velocidade.

- Que loucura - diz Héspero. Não sei como estes carros não batem.

Astreu aponta.

- Vejam que vista bonita daquele lado...a torre Eiffel.

- É realmente um espetáculo. A cidade é muito linda - concorda Zé Pedro.

Eles continuam a caminhar e a se informar com os transeuntes por uma pensão tipo familiar. Encontram um lugar para pernoitar. Eles resolvem descansar. No dia seguinte, acordam bem cedo e saem à rua à procura de Jules Lièvre. Caminham a pé até a Rua Royale e seguem pela margem direita do Rio Sena até a Ponte do Charge, onde atravessam para a Ilha da Cité. Alcançam a Catedral de Notre Dame e contemplam a beleza da arte gótica.

- Aqui nasceu Paris há dois mil anos - explica Héspero. Esta ilha era habitada por uma tribo gaulesa de pescadores chamada parisii, nome que deu origem a Paris. Neste mesmo lugar desta catedral, àquele povo ergueu

um templo pagão, na época das conquistas de Júlio César.

- Falou o professor de História - brinca Astreu.

Héspero avista alguns ambulantes nas laterais da igreja.

- Vamos perguntar a eles pelo Jules Lièvre - informa Héspero a Astreu.

O grupo contorna totalmente a catedral, com Astreu pedindo informações. Todos mercadores respondem nervosamente balançando a cabeça que não ao ouvir a pergunta se conhecem Jules Lièvre.

- Vai se muito difícil, tio. Eles estão desconfiados com a gente... Eu acho que alguns sabem quem é o Lièvre, mas não querem dizer.

- Então, vamos passar para a segunda opção... Vamos ao Café Les Deux Margots... Procure saber onde é o Boulevard Saint Germain.

Astreu vai em direção a um rapaz que cruza a praça. Retorna com a informação.

- O boulevard fica bem próximo... É no Quartier Latin, na margem esquerda do Sena... E só ultrapassar aquela ponte e seguir em linha reta até o Boulevard Saint Germain.

Eles seguem pelo caminho indicado e logo encontram o logradouro. Também não têm dificuldades em localizar o Café Les Deux Margots. Todos entram no estabelecimento comercial. Enquanto Héspero, Eduardo e Zé Pedro tomam refrigerantes junto do balcão; Astreu, sempre acompanhado por Sofia, pergunta ao gerente, garçons e alguns fregueses sobre o Jules Lièvre. Astreu e Sofia voltam desanimados.

- Ninguém... Ninguém sabe o paradeiro do contrabandista - informa Astreu.

- É... Está difícil. Voltaremos à noite... Talvez tenhamos mais sorte - desabafa Héspero.

- Também podemos ir falar com os mercadores da Notre Dame... Forçar mais um pouco, a fim de obter a informação - fala Zé Pedro.

- Eu sabia que seria difícil - diz Eduardo.

Os cinco resolvem ir novamente à catedral. Caminham novamente pelo Boulevard Saint Germain. Param diante da igreja de Saint-Germain-des-Prés, construída na Idade Média.

- É muito linda! - exclama Sofia.

Apesar do entusiasmo de Sofia pelas coisas de Paris, eles continuam a caminhar cabisbaixos e tristes pelo fracasso da ida ao café. Em dado momento, Zé Pedro cutuca Héspero.

- Estamos sendo seguidos... Não olhe para trás.

- Tem certeza.

- Absoluta... Tenho dom em pressentir isso... Lembra-se quando você me seguiu no dia da final da Copa?

Héspero sorri. Procura ficar calmo e faz uma pergunta a Zé Pedro.

- Quantos são? Quantas pessoas nos seguem?

- É um homem só... Um homem muito baixo.

- O que vamos fazer?

- Vamos fazer sinal para que o Eduardo, Astreu e Sofia fiquem juntos de nós, a fim de eu poder falar para todos.

Eles conseguem que os outros caminhem bem perto. Zé Pedro narra a situação sem fazer gestos com as mãos.

- Estamos sendo seguidos por um homem... Prestem atenção: dobraremos aquela esquina... Vou me esconder... Vocês vão continuar andando bem juntos, para ele não notar a minha ausência... O Héspero será o único a olhar disfarçadamente para trás, para ver o exato instante em que eu agarrar o estranho... Quando isso acontecer, o Héspero dará o alerta; e vocês todos correrão em minha direção para me dar apoio.

- Estou com muito medo - reclama Sofia. Ele pode estar armado.

- Mas o plano do Zé Pedro é o único modo de pegar esse homem - explica Héspero.

- E é importante pegá-lo, pois na certa está nos seguindo por causa das nossas perguntas sobre o Jules Lièvre - completa Zé Pedro.

Sofia abana com a cabeça que aceita o plano. Eles dobram a esquina. Zé Pedro separa-se rapidamente dos amigos. Decorrem alguns segundos. Héspero faz movimento brusco e olha para trás. Nota que estão realmente sendo seguido por uma homem de pequena estatura. Transcorrem mais alguns segundos. Volta a olhar para o estranho. Vê Zé Pedro, com os braços erguidos bem atrás do desconhecido, prestes a agarrá-lo. Então, Héspero grita para os companheiros que está na hora da ação. A cena é rápida: Zé Pedro imobiliza o estranho, enquanto Astreu e Eduardo o cercam. Héspero faz a revista, para saber se está armado.

- Ele não está armado... Pode soltá-lo, Zé Pedro... Já estamos chamando atenção desses estudantes franceses que passam.

Zé Pedro o larga, mas o encosta na parede. Todos o cercam, inclusive a assustada Sofia. Héspero aponta para o sobrinho.

- Agora é com você, Astreu... Pergunta sobre o Lièvre... Não fale nada sobre o anel... Diz que somos brasileiros e amigos do Jules Lièvre... Que estamos visitando Paris e precisamos conversar com ele.

Astreu fala demoradamente em francês com o estranho, mas só consegue que ele responda monossilábicos. Os outros, mesmo não entendendo a língua, percebem que o homem nega que conhece Lièvre. Héspero puxa Astreu pelo braço.

- Diz a ele que eu sou amigo do Lièvre há mais de vinte anos. Diz também que o Lièvre vai ficar muito zangado quando souber que ele se negou a nos levar à sua presença.

- Mentir pode ficar ainda mais perigoso para nós, tio.

- Mas temos que encontrar o Lièvre.

Astreu volta a falar com o estranho. Sua fala é demorada e aponta diversas vezes para o tio. Todos só entendem quando soa o nome do contrabandista. Astreu vira-se para os companheiros.

- Consegui convencê-lo... Ele nos levará ao encontro do Jules Lièvre.

Todos ficam bastante contentes, mas também apreensivos pelo que pode acontecer no encontro com o contrabandista. Sofia continua muito assustada.

- Vamos chamar a polícia - diz ela.

- Não podemos, Sofia... Temos que agir sozinhos - observa Héspero. A polícia francesa não entenderia o nosso caso complicado... Além disso, como explicaremos a nossa entrada na França... Iríamos acabar sendo presos... Desde o início não pedimos auxílio aos órgãos institucionais... A polícia tem suas fronteiras legais... Há normas que a deixam demasiadamente lenta... Não... Não, Sofia... Temos que agir só nós... Não podemos chamar a polícia... Você pode ir para a pensão... Pode ficar esperando a nossa volta.

- De jeito nenhum... Não nego que estou muito assustada... Mas vim com vocês... Vou ficar com vocês até o fim.

Héspero sorri para Sofia.

- Você é uma moça muito corajosa.

Orientados pelo estranho, eles caminham pelas ruas do Quartier Latin. Chegam defronte a um prédio de quatro andares, onde o homem pára e aponta para uma das portas. O desconhecido fala com Astreu e se aproxima da porta indicada. Ele toca a sineta, e aparece a cara de outro homem na pequena abertura do postigo. Os dois conversam rapidamente. O de dentro fecha o postigo e desaparece.

- Você entendeu o que eles falaram? - interroga Héspero.

- Sim, tio... Este homem aqui disse que estamos procurando o Lièvre. Que somos amigos dele... O outro mandou aguardar.

A longa espera faz com que eles fiquem mais nervosos. Quando a porta finalmente se abre, aparece um homem bastante alto e forte. Conversa com o estranho que os trouxe ali. Depois, chama Astreu. Os três entram. Do lado de fora, Héspero percebe que eles falam em francês. A seguir, o homem alto introduz Sofia, Eduardo e Zé Pedro para dentro do prédio. Héspero é o último a entrar. O recinto é um estreito vestíbulo, serventia para uma pequena escada de madeira. Héspero olha para cima e nota que seus companheiros já sumiram da porta do segundo andar. O bandido alto manda Héspero subir. Sem olhar para baixo, ele ouve o desconhecido bater a porta da rua com violência. Ao ultrapassar a entrada para o sobrado, leva terrível susto. A sua frente, um homem com o cano do revólver encostado na cabeça da Sofia. Mais adiante, outro aponta a arma para Astreu, Eduardo e Zé Pedro. Há ainda mais dois homens armados sentados sobre o tampo de uma escrivaninha. Héspero não consegue se mexer de tão assustado que está. O homem alto chega também no sobrado e empurra Héspero para o meio da sala. Os dois que estão sentados sobre a escrivaninha conversam com o estranho que os trouxe. A conversa é em tom muito baixo. Astreu não consegue ouvi-los. Héspero nota que o homem alto está às suas costas também armado.

- A coisa está ruim. Diga que somos amigos - fala Héspero, aproximando-se de Astreu.

- Já falei, tio... Eles apenas riram.

Pelas aparências dos bandidos, Héspero tem certeza que nenhum é o Jules Lièvre. "Todos são jovens - pensa ele. O Jules Lièvre deve ser bastante velho, caso tenha conseguido o anel há 24 anos". Héspero vira-se novamente para o sobrinho.

- Um daqueles dois sentados na escrivaninha deve ser o chefe. Informe a eles que eu quero falar... E que você vai traduzir.

Astreu fala alto em francês na direção dos dois bandidos. Um dos franceses diz algo a Astreu, ao mesmo tempo que abana a cabeça em sinal de consentimento.

- Ele disse para o senhor se explicar.

- Bem, Astreu... Preste atenção... Diga a eles que não conheço o Jules Lièvre... Diga que eu menti ao falar isso... Menti por que preciso falar urgente com o Lièvre... Fale com eles que estamos aqui a mando do Luigi

de Nápoles, irmão do falecido Conde Francesco.

Astreu vira-se para traduzir tudo que o tio falou, mas uma voz forte e sonora vinda de outra sala o interrompe.

- Laissez entrer ce lui parle.

Todos na sala olham ao mesmo tempo para a porta de onde partiu a voz. O bandido levanta-se de cima da escrivaninha e dirige-se rapidamente para a outra sala. Héspero olha interrogativamente para o sobrinho.

- Só pode ser com o senhor... Um homem gritou lá de dentro para deixar entrar quem está falando... E era o senhor que estava falando.

O homem retorna rápido. Fica parado na porta e aponta para Héspero, fazendo sinal para ele vir. Héspero obedece e entra na sala, onde depara com um velho muito gordo, com enorme barba branca quase a roçar em seu peito. Não tem dúvida que está diante de Jules Lièvre. Héspero percorre os olhos pela mesa em que o velho está sentado. Há alguns livros, cadernos, lentes, lupas e jóias. Bem perto da sua mão direita, também está pousada uma pistola automática. O barbudo grita novamente para a outra sala pronunciando um nome próprio em francês. Héspero vê em seguida entrar o homem que os guiou até ao prédio. Os dois dialogam em francês. Algumas palavras não escapam de Héspero, como Café Les Deux Margots e Boulevard Saint Germain. "Ele está falando sobre o episódio lá do Quartier Latin" - pensa Héspero. Após o relato, o sujeito de baixa estatura sai do recinto. O outro, com uma arma em punho, permanece no local. O velho examina Héspero com os olhos. Finalmente, fala em bom português. Sua voz é bastante forte para a sua idade.

- Sou Jules Lièvre... Vamos conversar em português... Sei falar seu idioma, pois estive várias vezes na década de 1920 no Rio de Janeiro. Morei até lá nessa época.

Héspero estremece. Foi no dia 7 de março de 1926 que o Hermes foi assassinado e o anel sumiu misteriosamente.

- Ouvi você falar em falecido Conde Francesco... Ele morreu?

- Sim... Eu soube pelo irmão dele... O Luigi.

- O Luigi, também me lembro dele... Mas o Conde Francesco era muito meu amigo. Comprou muitas jóias comigo... Sua morte foi uma grande perda para Nápoles.

Lièvre coça a longa barba e volta a examinar Héspero com os olhos.

- Mas nosso assunto é outro... Um assunto muito estranho... Está acompanhado por um grupo de pessoas... Mentiu que me conhecia... Você tem que dar uma boa explicação, para se livrar dessa enrascada em que se meteu.

Héspero sente um frio na espinha. Fica calado. O francês volta a falar.

- Se você teve a coragem de vir até aqui é que o assunto deve ser muito importante... Diga logo em que posso ser útil.

Héspero decide contar a estória que combinou com Eduardo no trem.

- Sou professor de História. Um museu brasileiro me incumbiu de fazer pesquisa sobre um anel da sua coleção. Esse anel foi doado por um brasileiro que ganhou do Conde Francesco por ter salvo sua vida durante a Segunda Guerra Mundial. A direção do museu quer saber a origem do anel e seu trajeto até chegar ao Brasil. É apenas um dado histórico, para figurar quando o anel for exposto ao público.

- Que estória esquisita... Mas o que eu tenho a ver com isso?

Héspero perde a coragem de responder. Fica gelado diante do contrabandista. Lièvre é quem interrompe o silêncio.

- Será que fui eu quem vendeu esse anel para o Francesco?

- Foi.

- Quem disse isso? Foi o Francesco?

- Não... Foi o irmão dele... O Luigi.

- Como é esse anel? Vendi muitas jóias para o Conde Francesco... Não me lembro como eram todas... Tenho que ver esse anel... Você trouxe a jóia para me mostrar?

Héspero pensa em dizer que o anel está no hotel. Mas desiste da idéia.

- É um anel de ouro, com uma cruz de rubis e...

- Pare de falar - grita Lièvre... Não quero que você descreva a jóia... Quero que você responda a minha pergunta... Você trouxe o anel?

Héspero fica calado.

- Quero examinar esse anel... com as lentes... para saber se na verdade foi comprado na minha mão... Sei que você está aí com muito medo... Mas sua situação vai piorar, se não me responder... Você trouxe o anel?

- Sim.

- Então, deixe-me vê-lo.

- Não está aqui comigo... Está na outra sala... Com outra pessoa.

- Lá estão a moça e mais três... Com quem está o anel?

- Com o que se chama Zé Pedro.

Jules Lièvre manda o capanga ir buscar Zé Pedro. O ex-pracinha da FEB entra na sala muito assustado.

- Quero ver o anel - fala Lièvre.

- Há necessidade da presença de um homem com a arma apontada para gente - diz Héspero em súbita coragem.

Lièvre manda seu capanga se retirar.

- Sou muito macho... Não tenho medo de ficar com vocês sozinho... Como o anel está com ele, se meus homens revistaram todos vocês e não encontraram nada... Se você mentiu outra vez, está perdido.

- O anel está com ele sim... O senhor vai ver.

Héspero vira-se para Zé Pedro.

- Tira a calça.

Zé Pedro não se mexe. Fica olhando estupefato para Héspero. O velho mostra no rosto que não está entendendo nada.

- Tira a calça - repete Héspero. Temos que mostrar o anel a ele.

Zé Pedro resolve se despir. Desabotoa a braguilha e retira a calça. Abaixa um pouco a cueca, a fim de desamarrar o barbante que prende o anel aos seus testículos. Com a mão, levanta o anel até a altura do peito. Jules Lièvre dá estrondosa gargalhada ao presenciar a inusitada cena.

- Foi por isso que meus homens não descobriram o anel com ele.

Héspero apanha a jóia da mão de Zé Pedro e entrega ao contrabandista. Lièvre segura o anel com um pedaço de flanela.

- Hã... sim... sim... o anel da cruz de rubis... Lembro-me dele... Nunca poderia esquecer esta jóia tão bela.

O velho francês observa o anel com auxílio de uma lente. Sua face torna-se rosada. Ele transmite muita alegria ao contemplar a jóia. Héspero e Zé Pedro entreolham-se bastante aflitos e com ansiedade.

- Sou o maior contrabandista de jóia do mundo! Ninguém neste planeta as conhece e as adora como eu... Sou o maior entendedor de jóias do mundo... Fico fascinado ao vê-las... Este anel realmente vendi ao Francesco... É fácil saber que é do século passado, pela maneira de lapidação e incrustação... Vou ver mais dados sobre ele... No meu caderno de apontamentos tem tudo sobre as jóias mais importantes que passaram na minha mão.

Lièvre consulta um dos grossos cadernos em cima da sua mesa.

- Hã... está aqui tudo anotado sobre ele. É muito valioso. O rubi é verdadeiro. É o conhecido rubi oriental, por ser extraído na Ásia... A transparência e a ausência de defeito dão grande valor a estas pedrinhas de esmeraldas. Acredito que vêm da jazidas do próprio Brasil... Tanto as pedrinhas de rubis e esmeraldas são redondas. Era a forma que os joalheiros do século XIX as lapidavam... O aro tem 35 gramas de ouro de 22 quilates... Deve valer em torno de quatro mil dólares... Mas como é uma peça de antigüidade pode-se obter ainda mais... Se pertenceu a uma personalidade histórica, o valor sobe em relação a importância desse personagem para a História.

Héspero fica assustado com o que ouve. "Sempre soube que o anel do papai tinha um valor muito grande, mas nunca passou na minha cabeça esta fabulosa quantia que o francês diz" - pensa ele. O contrabandista encara Héspero.

- Você é um mentiroso nato. Primeiro disse que me conhecia e que era meu amigo. Depois, contou a história que o anel pertence a um museu brasileiro... Tudo mentira.

Héspero sente um calafrio no corpo. Vê que Zé Pedro também está bastante assustado. O velho prossegue.

- Sei que museu nenhum do Brasil tem condições de mandar alguém à Europa pesquisar origem de uma jóia... Vocês são cinco... Tem até uma moça no grupo... Foi uma estorinha muito absurda que você me contou.

- O senhor quer saber a verdade?

- Não... Não precisa contar outra estória... Pode ser até que seja verdade... Mas pode ser que seja outra mentira... O importante é que gostei de você... Da sua coragem em vir aqui me procurar... Das suas artimanhas para conseguir chegar perto de mim... Tudo isso para saber onde consegui este anel... Não é mesmo?

- Sim - reponde Héspero. Viemos aqui para saber de quem conseguiu o anel.

Jules Lièvre balança a cabeça e estende o anel na direção de Héspero, que fica surpreso ao ver o velho devolvendo a jóia. Héspero estica a mão trêmula e apanha o anel. Entrega-o a Zé Pedro, que o torna a esconder nos testículos.

- Gostei também dessa originalidade do seu amigo em esconder o anel... Não me interessa mais estórias... Vou dizer para vocês de quem eu comprei o anel.

Héspero e Zé Pedro estão atentos.

- Comprei este anel no porto do Rio de Janeiro. Não me lembro o ano. Mas tenho certeza que foi na década de 1920. Quem me vendeu foi um pequeno contrabandista... um contrabandista de beira de cais... nem sei o seu nome... mas o apelido é Biza... Ele é muito conhecido na Praça Mauá... Qualquer comerciante da praça o conhece... Não será difícil para vocês encontrá-lo.

Héspero e Zé Pedro sorriem. Ainda estão um pouco apreensivos, mas não atemorizados como estavam ao entrar no prédio.

- Vocês todos estão liberados... Desejo sorte e que encontre a resposta do que estão procurando com o Biza no Brasil... Aqui dentro ninguém vai fazer nada com vocês... Mas é preciso cuidado na rua... Lá fora, não me responsabilizo nem pelo meu pessoal... Gostei de você... Por isso, quero que volte para o Brasil são e salvo.

Jules Lièvre levanta-se e leva os dois até a porta da sala. Avisa aos seus homens que eles podem ir embora. Héspero aperta fortemente a mão do velho francês. Todos descem a escada e ganham a rua.

- Vamos sair o mais rápido deste local. Na pensão, eu conto tudo para vocês. Agora, é muito perigoso ficar nesta rua - brada Héspero.

Eles saem apressados quase correndo pelas ruas da cidade. Atravessam a ponte do Rio Sena e chegam à pensão. Héspero relata toda a conversa que teve com Jules Lièvre.

- Agora, o que devemos fazer é sair o mais rápido possível de Paris - comenta Héspero.

Todos arrumam seus pertences. Pagam a diária ao proprietário da pensão e voltam a percorrer o centro de Paris. Perto do Rio Sena, avistam uma descida para uma estação do Metrô.

- Vamos usar o Metrô para sair do centro da cidade - avisa Héspero.

- É bom a gente ir em direção do sul - alerta Zé Pedro.

- Sim - concorda Héspero. A nossa meta é ir para o sul, a fim de alcançar a fronteira com a Itália. Vamos pegar o metrô em direção sul e saltar na última estação.

Eles descem as escadas para o subway francês. O trem chega logo. As estações se sucedem e todos saltam na última parada. Astreu compra o jornal do dia. Andam apressados pelas ruas do subúrbio de Paris. Ao longe, avistam uma rodovia bem movimentada.

- Vamos até lá - grita Héspero.

Chegam na beira da estrada e lêem a placa que indica a direção das localidades de Fontainebleau, Djon e Lyon.

- Estes lugares servem para diminuir a distância da fronteira com a Itália. Vamos pedir carona. Talvez, a gente dê sorte - observa Héspero.

Ficam parados na beira da estrada, fazendo sinais para todos os caminhões que passam. Durante duas horas não conseguem fazer ninguém parar. Héspero, Eduardo e Zé Pedro se afastam e deixam somente Astreu e Sofia encarregados de pedir carona.

- Talvez alguns motorista pare ao ver somente um casal - explica Héspero.

- Deu certo, Héspero. Veja um caminhão parou - aponta Eduardo.

Héspero e Zé Pedro viram-se rapidamente em direção à estrada. Vêem Astreu conversar com os três caminhoneiros que estão na boléia do veículo. Um deles põe a cabeça do lado de fora para ver as pessoas que Astreu fala. Finalmente, Astreu grita.

- Consegui... Eles vão nos dar carona.

Héspero, Eduardo e Zé Pedro correm em direção ao casal.

- A carroceria está vazia. O motorista me disse que poderemos ir nela... Eles vão para Nice... Vão apanhar mercadorias.

- Em Nice! - exclama Héspero... Que ótimo, Astreu... De lá é mais fácil de ir para a Itália.

Héspero e Astreu ajudam Sofia a subir na carroceria do caminhão. Eduardo e Zé Pedro, já em cima, ajudam a suspendê-la. Com todos a bordo, o motorista dá a partida em direção à Riviera Francesa. Héspero contempla a paisagem.

- Até Nice enfrentaremos muito chão - diz ele.

- Enfrentaremos também os Alpes Marítimos - conclui Zé Pedro.

- A distância de Paris a Nice é maior do que a do Rio a São Paulo? - inquire Sofia.

- Sim... É quase o dobro - responde Héspero.

- Então, tio... Esta carona veio a calhar.

- Sim, Astreu... A partir de Nice poderemos viajar com nossos próprios recursos.

- Corremos o mundo, e o homem que procuramos está na nossa terra... na Praça Mauá... Veja só como é o destino - interrompe Zé Pedro.

- O tal do Biza pode ser o rapaz desconhecido que estava com o Hermes na noite que o anel sumiu... Lembra-se dele, Eduardo?

- Sim, Héspero... Também acho que possa ser ele o ladrão do anel... Ele deve ser o Biza... Ele pode ter roubado o anel, mas não estava na hora que o Hermes foi morto... Isso tenho certeza... Não havia ninguém ali... Só o corpo do seu irmão estirado no chão... Por isso, meu pesadelo continua... Não posso provar minha inocência... Agora, tenho certeza que o sumiço do anel nada tem a ver com o crime.

O sofrimento de Eduardo faz com que todos se calem. Ficam bastante tempo só ouvindo o barulho do motor do caminhão e admirando a paisagem. Na região dos Alpes, a noite chega. O motorista informa que vai pernoitar num albergue para caminhoneiros nas montanhas. Eles dormem no próprio tablado da carroceria, enrolados nas lonas do caminhão. No dia seguinte, a viagem prossegue. Logo, avistam o fantástico panorama da cidade de Nice, encravada entre o mar e o relevo montanhoso. O motorista deixa-os na grande praça em frente ao mar. Despedem-se dos caminhoneiros franceses e passeiam pela avenida litorânea até o porto. Héspero, Eduardo e Zé Pedro sentam-se à beira do cais. Ficam observando o movimento dos turistas. Astreu e Sofia estão mais afastados. Depois, voltam com novidades.

- Vai sair um barco para a Ilha de Córsega. Aquela fila é para comprar passagens - relata Astreu.

- Córsega é perto do litoral italiano - interfere Héspero. Veja quanto é o preço de cada passagem.

A passagem não é cara. Eles compram os ingressos e embarcam. Enquanto o barco se afasta do porto de Nice, ficam admirados com tanta beleza.

- A cidade de Nice parece ser um anfiteatro natural em razão da forma circundante do relevo dos Alpes Marítimos.

- É mesmo. O senhor tem razão - diz Sofia.

O barco afasta-se ainda mais de Nice em direção à Ilha de Córsega. Astreu apanha o jornal que comprou na estação do Metrô no subúrbio de Paris. Sofia aponta para uma foto da primeira página.

- Quem é este, Astreu.

Astreu procura ler a legenda da foto do jornal francês. Mas não tem tempo de responder, pois o tio se adianta.

- É o escritor Bernard Shaw. O que diz dele aí.

- Deixe-me traduzir, tio... É o seguinte: "Bernard Shaw sofreu uma queda, fraturou o fêmur e vai ser operado no Hospital Luton, em Londres. O célebre dramaturgo irlandês, que tem 94 anos de idade, caiu quando passeava no jardim da sua residência". É isso que diz a legenda da foto... A manchete da primeira página é uma notícia sobre a guerra da Coréia.

Astreu vira as páginas internas.

- Veja só... tem uma notinha aqui sobre o Brasil.

- Leia alto para a gente ouvir - pede Sofia.

- Escutem: "O Brasil se prepara para escolher seu novo presidente. O ex-ditador Getúlio Vargas é forte candidato e conta com o apoio dos trabalhadores. Na semana passada, fez violento discurso contra o atual presidente Eurico Gaspar Dutra, na cidade de Uberaba, em Minas Gerais. Dutra foi ministro de Vargas, mas depois de eleito em 1945, se aliou aos adversários de Getúlio, o que desagradou ao ex-ditador. No Rio de Janeiro, o candidato Cristiano Machado desmentiu que o comunista Luís Carlos Prestes vai apoiá-lo. O outro candidato a presidente do Brasil é o Brigadeiro Eduardo Gomes, que perdeu as eleições de 1945 para Dutra"...

É isso tudo que diz aqui do Brasil.

Astreu fecha o jornal.

- Vou levá-lo para o Brasil e guardá-lo como uma recordação desta viagem.

O barco navega nas águas mansas do Mediterrâneo. Contorna o litoral norte da Córsega e aporta na cidade de Bastia. De lá, eles conseguem ir numa pequena embarcação de pescador até a ilha de Elba. De Elba partem em outro barco até o litoral italiano na localidade de Piombino. A viagem continua de trem: de Piombino até Roma e de Roma até Nápoles.

- Conseguimos vencer todas as dificuldades e chegamos em Nápoles na véspera do nosso navio partir para o Brasil - comenta Héspero com muita alegria.

- Agora é em nossa terra. Ir à Praça Mauá e procurar o contrabandista Biza - conclui Zé Pedro.

Eles vão direto para o porto e encontram o imediato Leonardo.

- Vocês estão todos com maletas e sacolas... Viajaram? - inquire o imediato.

- Sim - responde Astreu. Estamos regressando agora de Roma.

- O navio não partirá amanhã como estava previsto... Houve mudanças... Estamos carregando mercadorias para o Rio de Janeiro... Só depois de amanhã é que levantamos a âncora para voltar para o Brasil... Vocês tem o dia de hoje de folga.

- Que bom! - murmura Sofia para Astreu.

- Tem outra novidade... O navio vai direto para o Rio de Janeiro... Não iremos mais para Santos como também estava previsto.

- Não desembarcaremos em Santos!? - pergunta Héspero.

- Não... Mudou tudo... Do Rio de Janeiro transportaremos outra grande carga para Buenos Aires.

A notícia não agrada a Héspero, pois pretendia se encontrar com Edith na volta da Europa. Zé Pedro ao seu lado está muito contente.

- Não vamos precisar de viajar de São Paulo para o Rio. O navio vai nos deixar em casa - diz ele.

- Podemos até logo que o navio atracar perguntar aos comerciantes da Praça Mauá sobre o Biza - completa Eduardo.

Héspero muito pensativo só balança a cabeça que sim. Astreu vira-se para o imediato.

- Como foram as olimpíadas de xadrez? Quem ganhou em Dubrovnik?

- Foi a Iugoslávia.

- Mas como, senhor imediato?... O senhor tinha dito que a União Soviética é o país mais forte no xadrez... Como não ganhou? - interroga Héspero.

- Por que não participou.

- E o Brasil? - inquire Zé Pedro.

- O Brasil também não participou... A nossa vizinha Argentina é que foi a vice-campeã da competição... Agora tenho que ir, pois tenho muita coisa a resolver no navio.

Logo que o oficial se afasta, Sofia convida a todos para conhecerem Nápoles no dia seguinte. Com passeios, os dois últimos dias em Nápoles passam rápido. Ao anoitecer do dia da véspera do navio zarpar, Héspero, Eduardo e Zé Pedro jogam carteado no alojamento com o cozinheiro-chefe. Em dado momento, Astreu chega do passeio que fez com Sofia na Ilha de Capri.

- Demorou a chegar - observa Héspero.

- Sim, tio... Foi um passeio demorado... Mas vi tudo na bela Ilha de Capri... Lá a natureza dá um espetáculo: as rochas erguem-se dentro do mar e formam desenhos fantásticos... Em toda a Capri se sente o cheiro de jasmim, madressilva, gardênia, cravo e urze... Com estes aromas naturais das flores, eu e Sofia passamos uma tarde muito feliz.

- Foi uma grande despedia. Você ficará com saudades dessa moça - alerta Héspero.

- Eu sei disso, tio... Mas até o final deste ano, a família dela voltará definitivamente para o Brasil... Falta muito pouco... Eu dei para ela o meu endereço.

 

Capítulo 16

 

O navio levanta âncoras e deixa o porto de Nápoles. Debruçado na amurada do convés, Astreu vê Sofia no cais. A medida que a embarcação se afasta, o tamanho da moça vai diminuindo até ficar um minúsculo ponto para a visão do rapaz. A viagem de volta é mais alegre, em virtude da experiência em marinhagem adquirida pela turma e por todos os marujos terem trocado a hostilidade da época da saída de Santos por uma agradável cordialidade. À noite, após o serviço na cozinha os habituais jogos de cartas. Nem sempre Astreu participa, pois algumas noites joga xadrez com o imediato. Durante os dias, nas horas de folgas, os banhos de sol no convés. Com muita atividade dos tripulantes, o navio atravessa o Oceano Atlântico. A aproximação do Rio de Janeiro faz crescer uma grande expectativa no grupo, após a fantástica viagem ao Velho Mundo. Antes da embarcação transpor a barra da Baía da Guanabara, eles já estão nas amurada do convés. Vêem Copacabana e o Pão de Açúcar. Já nas águas da baía avistam Icaraí, enseada de Botafogo e o Cristo Redentor.

- Visitamos lugares encantadores... lindos, belos e fascinantes... Porém, não existem adjetivos para traduzir a beleza do Rio de Janeiro - diz Héspero com a voz emocionada.

Logo que o navio atraca, eles seguem direto para a Praça Mauá. Querem logo obter informações sobre o Biza. Mas não conseguem êxito com os comerciantes. Os mais jovens nunca ouviram falar em Biza. Alguns dos mais velhos dizem que o conheceram, mas não sabem onde anda, pois há muitos anos deixou de aparecer na praça.

- Continua difícil desvendar a estória do anel - observa Héspero.

- Tem um velho sentado naquele banco - aponta Astreu. Vou atravessar e perguntar a ele.

Os três ficam parados vendo ao longe Astreu conversar com o velho. O rapaz volta muito alegre.

- Aquele senhor me indicou outro velho que foi muito amigo do Biza. Disse que muitos anos atrás o Biza e o Ezequiel andavam juntos aqui na praça... Eram amigos inseparáveis... O velho lá do banco disse que na certa o Ezequiel sabe onde o Biza mora.

- Onde podemos encontrar o Ezequiel? - pergunta Zé Pedro.

- No Morro da Conceição, atrás do Edifício A Noite... O Ezequiel mora na Rua do Jogo da Bola.

- Vamos até lá - fala Héspero, puxando Eduardo pelo braço.

Os quatro sobem a ladeira e logo alcançam a Rua do Jogo da Bola. Antes de bater na casa do Ezequiel, Héspero reúne os amigos.

- Não podemos chegar todos juntos... Ele pode se assustar... É melhor eu ir com o Astreu... Vocês devem ficar de longe... Não posso falar sobre o anel... Direi que o Astreu é sobrinho do Biza e veio ao Rio de Janeiro procurá-lo.

- Para que inventar? - indaga Eduardo. Lembra-se o que aconteceu em Paris com o Jules Lièvre? Acho que basta apenas perguntar pelo Biza.

- Eu sei que não é bom mentir... Mas temos que fazer isso... Esse tal de Ezequiel na certa vai querer saber a razão da procura pelo Biza... Não posso contar a verdade.

- O Héspero está agindo certo, Eduardo. Se contar sobre o anel, pode estragar tudo - pondera Zé Pedro.

- Sim. Eu me precipitei. O Ezequiel pode ser até comparsa do Biza no caso do anel - fala Eduardo.

- Talvez, Eduardo... Vamos lá Astreu... Só quero que você fique calado na presença desse tal de Ezequiel.

Héspero e Astreu seguem até o número indicado pelo velho do banco da praça. Héspero bate palmas. Aparece um velho na porta.

- Boa tarde. Estou procurando o senhor Ezequiel.

- Quem são vocês?... O Ezequiel não está... O que vocês querem com ele?

- Estamos chegando do Espírito Santo. Vimos de longe para tentar encontrar o Biza.

- O Biza!...Há muitos anos que não vejo o Biza... Por que vocês o procuram?

- O senhor conhece o Biza?

- Conheci muito bem... Eu sou o Ezequiel.

- Nós queremos localizar o Biza... É o seguinte, senhor Ezequiel: este rapaz é sobrinho do Biza. É filho da irmã dele.

- Não sabia que o Biza tinha irmã.

- Era irmã adotiva - retruca Héspero, procurando sanar alguma grande diferença de raça entre Astreu e o Biza.

O velho olha para Astreu.

- A mãe deste moço saiu do Rio de Janeiro ainda solteira e nunca mais viu o Biza. Mas sempre comentou que o tio trabalhava na Praça Mauá. A mãe morreu. Agora, ele veio ao Rio em busca do tio - Héspero aponta para Astreu.

- Ele sabe qual era a ocupação do tio na Praça Mauá? - interroga o velho.

- Sim... A mãe contou para ele que o tio era contrabandista.

- Como souberam que moro aqui? Como souberam que conheço o Biza?

- Indagamos no comércio da praça.

- Sim. Eu sou muito conhecido na Praça Mauá. Fui muito amigo do Biza. Mas eu não era contrabandista. Meu negócio na praça era outro. Era com mulheres. Sempre tinha uma para o gringos que chegavam do estrangeiro em navios.

- Onde o Biza mora atualmente?

- Não sei. Lamento não poder ajudá-los. Fui amigo dele, mas não sei aonde anda e nunca soube onde morava. Sabe que nem sei o nome dele. Naqueles bons tempos de Praça Mauá, todos só o conheciam pelo apelido de Biza.

- Não tem outra pessoa na Praça Mauá que nos possa ajudar?

- Lembrei-me nesse exato momento de outro da velha guarda que pode ter o endereço do Biza.

- Ele mora aqui por perto?

- Não... Mora em Santa Teresa... Chama-se Eusébio... Ele trabalhava no contrabando com o Biza... Ele sabe onde encontrar o Biza... Mas o Eusébio é muito desconfiado... Pode até pensar que vocês são da polícia... Vou escrever um bilhete para vocês entregarem a ele. Esperem um pouco que vou lá dentro e volto já.

Ezequiel entra na velha residência. Astreu não consegue mais prender o riso.

- Poxa, tio... Que estória que o senhor inventou.

- Tinha que fazer isso... Você ouviu: ele vai dar o endereço de alguém que sabe onde o Biza mora.

- Não sei como tudo isso vai terminar... Um passando a informação que queremos para outro.

- É mesmo... Parece uma corrente... Mas vai chegar ao fim... Toda corrente tem um fim.

Ezequiel retorna com um pedaço de papel na mão.

- Aqui está o endereço do Eusébio... Tem também um bilhete de apresentação. Ele mora na Rua Filadélfia. Para chegar lá, vocês devem pegar o bondinho no Largo da Carioca. Lá em cima, quando o bonde entrar na Rua Almirante Alexandrino, prestem atenção para saltarem no Largo do Triunfo.

Contentes, eles se despedem do velho. Descem a Rua do Jogo da Bola. Na esquina, encontram Eduardo e Zé Pedro. Héspero conta tudo que aconteceu para eles.

- Quer dizer que o Astreu arranjou outra mãe - brinca Zé Pedro.

Astreu não fala nada. Somente sorri.

- Vamos caminhar até a Central, para pegar o trem para Cascadura - informa Héspero.

- Eu vou andando com vocês até a Central do Brasil. Lá eu pego um bonde para a Tijuca - diz Zé Pedro.

- É melhor mesmo a gente ir para as nossas casas. Amanhã, eu irei com o Astreu a Santa Teresa.

Eles caminham sorridentes pela Rua Acre. Depois, seguem pela Rua Marechal Floriano. Ao chegar na estação D. Pedro II da Central do Brasil, Zé Pedro se despede dos amigos. Héspero, Astreu e Eduardo viajam no trem. Saltam em Cascadura, onde pegam o bonde. Eduardo desce no ponto da Rua Capitão Meneses. Héspero e Astreu, na Praça Seca. Eles são recebidos em casa em clima festivo. O cão Ribo pulando de um lado para o outro de alegria. Genoveva e Hermíone são as primeiras a aparecer. Depois, vem o Hércules que ouviu a algazarra lá dos fundos. A Judith também se une ao grupo. A Madalena também aparece com um bebê no colo.

- É um menino. Nasceu quando vocês estavam na Europa.

Astreu segura o bebê.

- Então eu sou titio - diz ele.

- O Héspero e o Hércules são tios-avôs - acrescenta Hermíone.

A reunião familiar dura toda a tarde. À noite, chegam do trabalho o Antônio Manoel e o Edmundo. Astreu não pára de falar. Hércules chama Héspero para conversar longe dos familiares no quintal.

- Eu soube que o Eduardo foi com vocês para a Europa.

- Foi sim, Hércules.

- Como, Héspero... Como você pôde viajar com o assassino do nosso irmão.

- Não foi ele quem matou.

- Então, foi quem?

- Não sei, Hércules... Como você soube que ele viajou também?

- Foi a irmã dele... Há algum tempo, eu a encontrei na rua, e ela perguntou se eu sabia notícias de vocês... Aí ela me contou da viagem do Eduardo com vocês... Pensou que eu sabia.

- Mas alguém na Praça Seca sabe disso?

- Acho que não... Eu não contei a ninguém... Nem ao pessoal daqui de casa... Só fiquei muito chocado com você... Você não deveria ter feito isso, Héspero... Não respeitou a memória do Hermes.

- De fato é uma situação muito difícil... Vamos sentar embaixo da mangueira que eu vou lhe contar a história muito longa sobre o anel do nosso pai.

- O anel que foi roubado por trabalhadores que pintaram a nossa casa, quando o papai ainda era vivo?

- Não foi nenhum trabalhador que roubou o anel... Vamos sentar que eu lhe contarei toda a verdade.

Héspero e Hércules sentam-se junto da árvore. Ribo deita-se perto dos dois. Héspero narra a trajetória do anel, desde a noite da morte do Hermes até a volta da Europa no encontro com o Ezequiel.

- Essa é a história que venho escondendo para não magoar a memória do nosso irmão. Mas, depois que vi o anel no Maracanã, resolvi procurar o Eduardo.

- De fato é um caso por demais misterioso... Mas não há dúvida que foi o Eduardo que matou o Hermes.

- Eu tenho dúvidas, Hércules... Por isso, estou empenhado em prosseguir na minha investigação em torno do anel do nosso pai.

Eles interrompem a conversa, quando notam que Astreu e Edmundo vêm com uma garrafa de cerveja e copos.

- Vamos festejar a nossa volta e o nascimento do filho de Edmundo - grita Astreu.

Eles ficam um bom tempo conversando e bebendo. Todos vão dormir tarde. No dia seguinte, Héspero e Astreu apanham Eduardo em sua residência. Os três seguem para Santa Teresa. Pegam o bondinho no Largo da Carioca e saltam no Largo do Triunfo. Eduardo fica esperando na esquina, enquanto Héspero e Astreu seguem para a Rua Filadélfia. Chegam a casa e logo entram em contato com o Eusébio. Héspero entrega o bilhete de Ezequiel. O velho contrabandista atravessa o portão de ferro. Olha para um lado e, depois, para o outro. Não dá para ver Eduardo parado na esquina. "O Ezequiel tinha razão, este velho é realmente muito desconfiado"- pensa Héspero. Eusébio coloca os óculos e lê o bilhete.

- Hã... O meu velho amigo Biza... O Ezequiel diz aqui que vocês são amigos e querem encontrar o Biza... Há uns dez anos que não o vejo... Pelo que sei ainda continua morando em Jacarepaguá... Na Praça Seca... Não sei o nome da rua.

Héspero e Astreu contêm o impacto da revelação.

- Na Praça Seca... Mas aonde? - inquire Héspero.

- Já disse que não sei o nome da rua.

Eusébio rasga o bilhete em pedacinhos.

- Precisamos saber em que local da Praça Seca o Biza mora.

- Já disse que não sei... Nunca fui na casa dele... Vocês me dão licença, pois estou muito ocupado... Só atendi vocês em consideração ao meu amigo Ezequiel.

O velho bate o portão e vira as costas. Héspero agradece pela informação. Eusébio não responde e entra dentro de casa. Eles resolvem ir embora. Encontram Eduardo na esquina e pegam o primeiro bonde que aparece. Na viagem, contam tudo para o Eduardo. No Largo da Carioca, Astreu se separa e segue para a Escola de Engenharia, no Largo de São Francisco. Héspero e Eduardo pegam o bonde em direção à estação da Central. Na viagem de trem, Héspero volta a tocar no assunto com Eduardo.

- Esse Eusébio é mesmo muito desconfiado... Acho que ele sabe o nome da rua onde o Biza mora, mas não quis dizer... Ao menos, sabemos que esse tal de Biza reside na Praça Seca.

- Talvez seja mesmo aquele rapaz que conversava com o Hermes... Hoje em dia ele deve estar bem mais velho... Assim, pode ser o Biza, amigo do Eusébio e Ezequiel.

- Também acho, Eduardo... Mas para ele morar na Praça Seca, desde daquele época, eu teria o visto muitas vezes... E a verdade é que só o vi naquela noite com o Hermes.

- Talvez, ele não more tão perto da praça... Muita gente diz que reside na Praça Seca, mas na realidade a sua casa fica no Valqueire.

- Você pode estar certo, Eduardo... Mas o caso do anel continua complicado... Mas nós vamos encontrar a solução... Apareça domingo lá em casa... Conversando e trocando idéias poderemos encontrar uma pista para seguir.

- Não, Héspero... Não devo ir à sua casa... Sua família me repudia... Eles passam por mim e viram a cara... Dou razão a eles, pois me julgam o assassino.

- Eu sei disso, Eduardo... Ontem, à noite, o Hércules ficou aborrecido comigo, por ter sabido que você foi também à Europa... Tive de contar a ele toda a história do anel.

- Mas não são só seus parentes que têm rancor de mim... O seu vizinho Rafael também... Fica me encarando sem falar nada e transmitindo muito ódio... Aquele outro seu vizinho bem mais velho do que nós... Não me lembro do seu nome... Mora em frente à sua casa.

- O Lourenço.

- Sim... O Lourenço... Ele é diferente do Rafael... Não me trata com hostilidade... Após sair da prisão, antes da gente ir à Europa, o Lourenço por diversas vezes se aproximou de mim... Tentou me dar conforto pelos longos anos que passei na cadeia... Aconselhou até para eu levantar a cabeça e recomeçar a vida de novo... Eu notei que o Lourenço ficava triste ao me confortar... Não era fingimento... Eu senti tristeza nos seus olhos.

- De fato, Eduardo... O Lourenço é boa pessoa... Bem melhor do que o Rafael.

O trem chega a Cascadura. Os dois atravessam a ponte e pegam o bonde para a Praça Seca. Ao se despedir de Eduardo, Héspero transmite um recado.

- Deixa que eu vou na sua casa de vez em quando, a fim da gente trocar idéias.

- Está certo, Héspero.

A vida de Héspero vai se tornando normal com sua volta às escolas que leciona. Os dias passam. No final da manhã do domingo ensolarado, ele está concentrado em um canto da antecâmara do segundo andar, preparando as aulas para o dia seguinte. No quarto ao lado, Astreu estuda deitado em sua cama. A concentração de Héspero é interrompida com o aparecimento de Hércules, que vem subindo a escada.

- Como está o caso do anel do papai? - inquire Hércules.

- Nada... Nada... Ainda não tenho nenhuma pista.

- Nunca conheci um homem com apelido de Biza aqui na praça.

- Já estou começando a desconfiar que o Eusébio de Santa Teresa mentiu... O Biza não mora na Praça Seca e nunca morou.

Astreu ouve a conversa e vem para a antecâmara. Apanha um cigarro no maço que está em cima da escrivaninha e o acende. Caminha até a janela e vê na propriedade em frente o Lourenço na beira da piscina com duas lindas jovens de maiôs.

- O Lourenço é que sabe viver... Enquanto meus tios e eu também estamos preocupados em achar esse tal de Biza, o Lourenço nem quer saber que está velho... Vive sempre cercado por brotos.

- Você ainda não tinha nascido, Astreu... e ele já era assim... Ficou rico no comércio de exportação e importação - explica Hércules.

Héspero se levanta e vai até a janela. Hércules o acompanha. Os três ficam olhando para a residência do Lourenço. De repente, Héspero estala os dedos.

- Tenho uma pista! - exclama ele. Tenho uma pista para o caso do Biza.

- Surgiu agora, tio?

- Sim, Astreu.

- Qual é a pista? - intervém Hércules.

- O Lourenço trabalhou durante anos na Praça Mauá. Ele deve saber quem é o Biza.

- E só descer, atravessar a rua, bater na casa e perguntar a ele.

- De jeito nenhum, Hércules... Não podemos falar nada com o Lourenço... Ele pode ser o Biza.

- Você está louco, Héspero.

- Talvez, Hércules... Mas estou com uma ligeira impressão que o Lourenço é o Biza.

- O Lourenço é pessoa fina. Você já esqueceu que ele foi grande amigo do nosso pai?

- Não esqueci... Isso que estou dizendo é somente uma especulação... O Lourenço sempre foi conhecido na Praça Seca como um próspero comerciante na Praça Mauá... Pela simples razão de ele dizer isso para todos os moradores da nossa região... Pode ser que ele fez fortuna em contrabando... Pode ser que ele foi um contrabandista... Pode ser que ele seja o Biza... Caso positivo, ele nunca iria dizer isso para ninguém

Astreu fica extasiado num canto, em virtude do rumo imprevisível que a conversa tomou. Fica calado e deixa os tios falarem.

- Já sei a razão de você querer incriminar uma pessoa tão boa como o Lourenço... Você quer inocentar o Eduardo.

- Não estou defendendo ninguém, Hércules... Estou tentando localizar o Biza... Acho que investigar o Lourenço é uma boa pista.

- O Lourenço é mulherengo... Não é por isso que vamos dizer que é uma pessoa má.

- Não estou dizendo nada disso, Hércules... Só quero verificar se o Lourenço é o Biza.

- Como você vai descobrir isso, sem falar com o Lourenço?

- No álbum, tenho uma foto antiga da nossa família em que está o Lourenço... Mostrarei essa foto para o Ezequiel ou o Eusébio. Se o Lourenço for o Biza, eles irão identificá-lo.

- Bom plano, tio - fala finalmente Astreu. Só que acho que a fotografia deve ser mostrada ao Ezequiel. Ele é mais acessível do que o Eusébio.

- Também acho.

Héspero abre uma das gavetas da escrivaninha e apanha o velho álbum da família. Folheia diversas páginas até achar a foto procurada.

- Aqui está ela... Foi tirada durante uma festa na antiga casa neste mesmo terreno.

- O Lourenço é este entre o Hermes e o papai - aponta Hércules.

- Eu e o Hércules estamos aqui na outra ponta - diz Héspero.

- Como meus tios estão jovens! - interrompe Astreu.

- O Héspero tinha 20 anos. Eu, 27 anos... Foi um bom tempo, não é Héspero?

- Foi uma época feliz.

- Quem é este na outra ponta ao lado do vovô Leopoldo? - interroga Astreu.

- É o tio Belmiro - responde Hércules.

- Levarei esta foto amanhã para o Ezequiel ver.

- Continuo teimando que o Lourenço não tem nada com isso.

- Você está certo em querer pensar assim, Hércules... Mas eu também tenho o direito de investigar.

- Pode ser que você tenha razão. Mas é difícil pensar no Lourenço como contrabandista... Ele não leva jeito para isso - afirma Hércules.

- Jeito eu sei que ele não leva - esclarece Héspero... Mas continuo a com a impressão de ele ser o Biza.

- Agora, é melhor a gente descer... Subi aqui para avisar que a Hermíone mandou vocês descerem... Ela preparou um grande almoço para hoje... Convidou até eu e a Judith... Acabei demorando aqui... A nossa irmã deve estar furiosa com a gente.

- Não podemos falar com ninguém sobre o que conversamos aqui - pede Héspero.

Eles descem para o almoço com a presença de toda a família. O dia passa sem mais novidades. Ao anoitecer do dia seguinte, após o trabalho no colégio e a ida na Rua do Jogo da Bola para mostrar a fotografia ao Ezequiel, Héspero entra apressado em casa. Hermíone o avisa que o Astreu está no sobrado estudando para a prova final da faculdade. Héspero sobe rápido a escada. Astreu está sentado com o livro pousado na escrivaninha. Levanta-se ao ver o tio chegar.

- Como foi, tio?... Como foi a sua ida à Praça Mauá?

- Descobri tudo, Astreu... O Lourenço é o Biza.

- O velho Ezequiel o reconheceu?

- De imediato... Não falei nada em Biza... Apenas mostrei a foto a ele... O Ezequiel olhou, apontou para imagem do Lourenço e disse: "Veja o Biza quando era jovem"... Foi uma ação bem rápida, para não dar tempo do velho pensar... Depois, ele ficou desconfiado... Fez diversas perguntas... Queria saber o motivo de eu estar também na foto... Falei um montão de coisas sem o convencer... Mas não me interessava mais nada... O principal foi que ele disse logo no início que o Lourenço era o Biza... Fui embora deixando o Ezequiel com a pulga atrás da orelha.

- Mas o Lourenço, tio!... Desde tenra idade que eu o vejo andando por aqui e sempre ouvi que era ótima pessoa... Que só tinha um defeito, que talvez nem seja defeito: ser mulherengo... Agora, a descoberta que ele roubou o anel do vovô que estava com o tio Hermes.

- Não, Astreu... Não podemos afirmar que o Lourenço roubou o anel... O que temos certeza é que o Lourenço é o Biza... Portanto, foi o homem que vendeu o anel ao Jules Lièvre.

- O senhor quer dizer que pode ser outra pessoa que roubou o anel ?

- Sim, Astreu... Pode ter sido o rapaz que estava com o Hermes no botequim... Depois, a jóia foi dar na mão do Lourenço não sei como.

- Que confusão, tio.

- Sim, está muito confuso... Eu não fui sozinho à casa do Ezequiel... O Eduardo foi comigo. Eu tinha marcado encontro com ele na porta da escola, para a gente ir à Praça Mauá... Eu falei com o Ezequiel sozinho, e o Eduardo ficou bem distante vigiando de longe.

- Foi mais sensato, tio. O senhor não poderia ir sozinho.

- O Eduardo também é de opinião que está tudo confuso... Continua triste, pois sabe que nunca vai provar sua inocência. Ele disse que tem certeza que a morte do Hermes não tem nada a ver com o roubo do anel... A sua certeza é baseada naquilo que já sabemos: ninguém correu e não havia viva alma por perto logo após soar o tiro que matou o Hermes.

- Sobre o Lourenço... O que o senhor pretende fazer?

- Já fiz, Astreu... Um amigo da faculdade, o Zé de Copacabana, é o novo delegado do Distrito Policial da Praça Seca. Falei com ele agora.Por isso, cheguei tarde aqui. Contei todo o caso do anel e a morte do Hermes. Ele anotou todos os nomes das pessoas num bloco. Vai chamar o Lourenço para depor. O Zé é muito astucioso. Ele disse que vai usar os nomes envolvidos na história, para obter toda a verdade do Lourenço. Vai fazer um interrogatório com malícia. Falou também que o convite para o Lourenço será uma denúncia falsa de um marido que se queixa de ele estar perseguindo sua esposa... Isso para ele não ficar desconfiado.

- Será que ele vai depor, tio.

- Eu conheço o Lourenço. Sei que ele vai. Ele adora falar em mulher, mesmo que sendo numa delegacia policial... Agora, é só aguardar o dia marcado... O Zé de Copacabana vai me avisar... Eu vou ficar escondido na antecâmara do seu gabinete, durante o depoimento do Lourenço.

 

Capítulo 17

 

No dia marcado para o depoimento, Héspero chega bem cedo ao Distrito Policial, acompanhado por Eduardo e Astreu. Zé de Copacabana dá instruções a eles e os conduz para a saleta ao lado. Dali tem condições de ouvir bem claro tudo o que falam no gabinete do delegado. Meia hora depois, percebem a chegada de Lourenço.

- É o senhor delegado José Bragança.

- Sim... Sou eu... Pode entrar.

- Fui intimado a depor. Sou Lourenço de Oliveira Pereira.

- Pode sentar-se.

Zé de Copacabana apanha a notificação das mãos de Lourenço. Lê rapidamente e entrega ao escrivão, que está sentado ao seu lado defronte à máquina de escrever.

- Não compreendi esta intimação... Uma denúncia de infidelidade conjugal... Não entendi.

- É um marido furioso que acusou o senhor de andar com a mulher dele.

- Onde está ele?... Quem acusa tem que estar presente.

- Já esteve... Agora é a sua vez.

- Qual é o nome dele?

- Daqui a pouco o senhor saberá. A acusação não se limita apenas ao adultério... Esse marido afirmou que o senhor foi contrabandista na Praça Mauá e ganhou muito dinheiro no crime.

Lourenço fica muito pálido. Porém, em segundos, recupera seu autodomínio.

- Esse indivíduo deve ser louco. Ganhei dinheiro em exportação e importação, mas tudo legalizado... Posso provar isso... Tenho documentos.

- Pode provar também que é chamado de Biza.

- Não o entendo, senhor delegado - contesta Lourenço um pouco trêmulo.

- Tenho provas que esse era seu apelido... O Biza foi contrabandista muito famoso no passado da Praça Mauá... Se o senhor trabalhou honestamente lá, deve ter ouvido falar nele.

Lourenço põe a mão na cabeça. O suor escorre pela testa. O delegado repete a pergunta com firmeza.

- Já ouviu falar do Biza?

- Já... mas... mas... nunca o conheci.

- Mas o marido da mulher que o senhor persegue diz que o Biza é o senhor.

- Quem é esse marido?

- É o Jules Lièvre.

- Não pode ser o Jules... Ele não tem esposa... Ele não vive aqui no Brasil.

- Então senhor sabe quem é o Jules Lièvre... Você é o Biza... Eu tenho provas disso... Não adianta negar.

- É mentira do Jules... Ele não tem esposa.

- Eu sei que ele não tem esposa... Ele disse que o senhor persegue é a amante dele... Ele também garantiu que o senhor roubou o anel do seu Leopoldo.

Lourenço retira o lenço do bolso e enxuga o suor. Está completamente transtornado com as palavras do delegado.

- O Jules é um mentiroso. Ele nunca soube da existência do Leopoldo. Ainda mais ele não mora no Brasil... Vive em Paris.

O delegado olha para o pequeno bloco em cima da mesa com os nomes que Héspero lhe deu.

- Mas não foi só o Lièvre que diz que o senhor roubou o anel. O Ezequiel da Praça Mauá e o Eusébio de Santa Teresa também falaram que o senhor roubou o anel.

- Não... Não... Não... Isso tudo é mentira... O Eusébio e o Ezequiel não sabem de nada... Nunca contei para eles que eu roubei o anel do Hermes.

- Então, o senhor confessa.

- Não confessei nada... É que o senhor está me torturando com palavras.

- Não estou torturando nada. O senhor é que se tortura a si mesmo, por causa do remorso.

- Não roubei ninguém.

Zé de Copacabana aproveita que Lourenço está descontrolado, a fim de fazer uma cartada que lhe vem à mente.

- Não minta mais... O senhor roubou o anel do Hermes... O senhor assassinou o Hermes... Sabemos de tudo.

- Não é verdade... Não é verdade... Quem matou o Hermes foi o Eduardo.

- Mas o Jules Lièvre disse que foi o senhor.

- Não... por favor, delegado... pare com essa agonia... O Jules não podia de falando isso... Nunca comentei a morte do Hermes com ele e com ninguém.

- Então... foi o senhor mesmo que matou.

Lourenço chora copiosamente.

- Fui eu sim... É um sofrimento que escondo há anos.

Eduardo levanta-se e tenta invadir a sala do delegado. Héspero e Astreu o seguram.

- Deixe ele terminar, Eduardo. Temos que saber de tudo - murmura Héspero no ouvido de Eduardo.

- O senhor não sabe o que sofri, senhor delegado... Sempre tive pena do Eduardo... Sabia que ele não era o criminoso... Mas nunca tive coragem de confessar o crime... Sempre tive pavor enorme de ir para a cadeia... Mas tinha pena do Eduardo... Todas as provas eram contra ele... Deixei ficar assim... Mas sempre fui perseguido por um imenso remorso de culpa... Eu não queria matar ninguém, senhor delegado... O culpado foi o próprio Hermes.

Até os guardas na porta estão estarrecidos com a confissão. Héspero, Eduardo e Astreu chegam a suar. O escrivão fica de boca aberta, olhando para o Lourenço. O Zé de Copacabana não esperava a confissão. Quando acusou o Lourenço de ter matado o Hermes era apenas um blefe como se faz no jogo de pôquer. Para ele, como era para todos, o Lourenço não tinha nada a ver com o assassinato do Hermes. Recuperado da surpresa, o delegado prossegue no interrogatório.

- Por que o senhor diz que o Hermes foi o culpado?

- Eu não queria matá-lo... Foi ele que me obrigou.

- Por favor, senhor Lourenço... Procure ficar calmo e conte toda a história da noite do assassinato.

- Na noite do crime, eu estava acompanhado por uma mulher no botequim da Praça Seca. O Hermes conversava com um estranho em outro canto. Já havia acontecido o incidente na calçada entre o Hermes e o Eduardo. Eu bebia alegremente, quando o Hermes me chamou. Fomos para outro lugar do bar. Sozinhos, o Hermes pediu para eu o chamá-lo, quando fosse embora. Queria falar comigo, pois devia dinheiro ao rapaz que o acompanhava e tinha que pagar no dia seguinte.

Héspero sussurra para Eduardo e Astreu.

- O rapaz do botequim não era o Biza como estávamos pensando. Era a pessoa que o Hermes disse para mim que tinha que pagar uma dívida.

Lourenço continua no seu depoimento.

- A mulher que me acompanhava foi embora. Depois de tomar mais uma garrafa de cerveja, também resolvi ir para casa. Chamei o Hermes. O desconhecido já não estava mais com ele. As ruas estavam completamente vazias. Era bem tarde da noite. No caminho, o Hermes disse que precisava de dinheiro para saldar a dívida. Pediu dinheiro emprestado. Eu hesitei com medo de ele não me pagar. O Hermes então me mostrou o anel da cruz de rubis. Explicou que eu podia ficar com ele como garantia. Uma espécie de penhora. Disse também que eu deveria devolver a jóia no ato da restituição do dinheiro emprestado. Examinei o anel. Observei que seu valor era astronomicamente maior do que a quantia que ele estava me pedindo.

Lourenço enxuga novamente a testa com o lenço.

- Já estávamos na Rua Baronesa em frente à casa do Henrique. Expliquei ao Hermes que a gente podia ganhar uma fortuna se o vendêssemos. O anel estava na minha mão. O Hermes pediu que eu o devolvesse. Não queria vender, pois o anel era como se fosse um talismã para o seu pai. Fiquei como um louco pelo anel. Tentei convencer o Hermes a vender. Cheguei a dizer a besteira que eu na realidade era contrabandista na Praça Mauá. Disse que um francês, especialista em jóias estava de passagem no Rio. Afirmei para ele que o Jules na certa daria um bom dinheiro pelo anel. O anel continuava na minha mão, e o Hermes pedindo de volta. Disse a ele que o Leopoldo nunca iria desconfiar que foi o filho que roubou o anel. Expliquei que a metade da importância apurada seria para ele.

O delegado continua surpreso, olhando para Lourenço.

- O Hermes não aceitou a minha proposta. Disse que o pai era mais importante para ele do que o dinheiro. Coloquei o anel no meu bolso. Ameacei que iria contar ao Leopoldo que o próprio filho tinha furtado seu anel. Ele disse que queria o anel. Que não se importava se eu iria contar ao pai. Procurei fazê-lo mudar de idéia, mas ele insistia para eu devolver o anel. Foi quando sacou uma arma e apontou para mim, exigindo o anel de volta.

Héspero, Eduardo e Astreu permanecem atônitos na saleta ao lado.

- Procurei distrair o Hermes com uma conversa. Cheguei a tirar o anel do bolso e disse que iria devolver. Aproveitei a hesitação que ele fez ao olhar para o anel. Com um golpe rápido me apoderei do seu revólver. Afastei um pouco, mirando a arma em sua direção. Ele não se intimidou. Falou que iria contar para todo mundo que eu era um contrabandista. Apontou para a casa do Henrique e disse que iria falar naquele momento com o policial. Virou as costa para mim e começou a caminhar. Pedi para ele voltar, se não iria atirar. Ele respondeu que podia atirar. Continuou a andar em direção ao portão... Não sei o que aconteceu comigo... Puxei o gatilho e acertei as costas do Hermes. Joguei a arma no chão e corri para a esquina, quando vi o Eduardo também correndo em minha direção. Dei sorte, pois, naquele exato momento, o Eduardo corria de cabeça baixa. Antes que ele levantasse a cabeça, pulei para dentro do mato na beira da rua. O Eduardo chegou. Ficou de costas para mim, olhou para o corpo do Hermes e pegou o revólver do chão. Vi o Henrique chegar. Depois, o Héspero e o Hércules.

- Não poderia continuar ali - prossegue Lourenço. Seria fatalmente descoberto. Estava com medo também de se mexer e alguém notar. Mas resolvi me embrenhar pelo mato até perto da praça. Era a única solução. Dei muita sorte. Cheguei à praça muito assustado. Limpei toda a minha roupa. Escondi o anel. Vi de longe o Justino com dois guardas indo em direção à Rua Baronesa. Fingi que estava bêbado e também fui até o local em que o Hermes estava morto. Já havia muita gente. No dia seguinte, apanhei o anel no lugar onde escondi. Fui para a Praça Mauá e o vendi para o Jules Lièvre.

Eduardo não contém o acesso de raiva. Invade a sala do delegado pronto a agredir Lourenço. Os policiais, que estão na porta, conseguem detê-lo. Seguro pelos guardas, Eduardo esbraveja em direção a Lourenço.

- Assassino... Covarde.

O delegado manda os outros guardas levarem o Lourenço para a cela. Enquanto o assassino sai da sala, Eduardo se dirige ao delegado.

- Peço desculpas ao senhor pelo que fiz.

- Não precisa pedir desculpas, Eduardo. Se eu estivesse em seu lugar, teria feito coisa muito pior... Eu respeito o seu drama... Vejo que você é homem muito forte de espírito, Eduardo.

- Eu agradeço muito ao senhor. Eu sabia que não tinha matado ninguém... Mas queria que todos soubessem disso... O senhor conseguiu, delegado.

Zé de Copacabana sorri muito feliz. Vira-se para Héspero.

- Não sei o porquê naquele momento o acusei de ter matado o Hermes. Ele estava transtornado e despreparado pelo rumo que tomou o depoimento. As palavras saíram sem eu sentir. A confissão dele me deixou surpreso. Eu procurava um ladrão e encontrei também o assassino de um crime difícil de ser resolvido.

Héspero ao se despedir agr