| Apresentação
A memória oral exerce profundo domínio nos lugares com densidade
demográfica que não se altera ao passar dos anos. Nessas localidades,
mesmo não tendo nada escrito, a história permanece intacta, já
que vai passando de boca em boca pelas gerações. Nos lugares com
acentuado índice de crescimento, onde a população se renova
constantemente, acontece exatamente o contrário, pois seus habitantes não
são uma grande família como nos lugarejos, mas sim um ser urbano,
completamente descompatibilizado do conjunto. Aí a memória oral
é fraca, e, com o tempo, tende a desaparecer. Há muito tempo
este tipo de problema vem acontecendo na Praça Seca, onde grande parte
da população desconhece seu passado. Atualmente, é difícil
encontrar os descendentes dos pioneiros da região, pois a maioria já
não mora mais no bairro. Era mister, então, conversar e captar tudo
de cada uma dessas pessoas, e, depois, unir os múltiplos dados, para formar
uma só história. Tudo isso seria feito na base de entrevistas, pois
a bibliografia sobre a Praça Seca é nula. Existem alguns livros
que dedicam algumas páginas sobre o bairro de Jacarepaguá, mas,
particularmente, sobre a Praça Seca, somente consultando mapas ou poucos
documentos. Dentro deste esquema, resolvi levantar a memória da região.
A tarefa não me foi fácil, apesar de conhecer, a priori, muita coisa
sobre o passado da praça e ter presenciado muitos acontecimentos, a partir
da minha infância. No início da pesquisa, dei uma de detetive particular,
a fim de localizar os principais descendentes das famílias pioneiras. Com
obstinação, consegui encontrá-los. Todos me receberam bem
e prestaram valiosa cooperação. Alguns, como foi o caso do Albano
Raimundo (neto do Albano) e Machadinho (filho do Capitão Machado), além
das entrevistas, forneceram muitas pistas, pelas quais, após investigá-las
com sucesso, consegui ampliar bastante a pesquisa. A comunicação
com essas pessoas foi o grande apoio para a elaboração do livreto,
pois só consultei livros para as primeiras páginas desta obra. Alguns
órgãos públicos (Diretoria de Parques e Jardins, Serviço
de Nomenclatura do Departamento de Edificações e o Museu da Imagem
e do Som) também colaboraram. Se antes de começar soubesse que
daria tanto trabalho, talvez não tivesse começado. Mas foi bom eu
não saber, pois estou orgulhoso em apresentar tão importante pesquisa.
Praça
Seca, 1º de março de 1986 Índice Parte
1 - Origens, desenvolvimento
e histórico de Jacarepaguá e da região da Praça Seca. A família Teles Barreto
de Menezes. O Barão da Taquara e sua família. Dom Pedro II na Taquara. O transporte
na região da Praça Seca no século XIX. O surgimento do trem e do bonde. Os primeiros
loteamento da Praça Seca. Parte
2 - Os
pioneiros da região da Praça Seca: Cândido Benício, Emília Joana e Albano, Maria
Luiza e Capitão Menezes, Jerônimo Pinto, Geremário Dantas, Lauro Müller, Capitão
Machado, Gastão Taveira, Victor Parames, José Luciano Carneiro, Garcez e Lauro.
O pavilhão da esquina da Dr. Bernardino com Pedro Teles. Parte
3 - As grandes reformas
da Praça Seca. Estação meteorológica. A FEB recebe a Bandeira Nacional na Praça
Seca, antes de embarcar para a Itália. As primeiras edificações e os habitantes
pioneiros da praça. As ruas da região e quem foi homenageado nessas ruas. As adutoras
do Guandu, nas ruas Baronesa e Albano. Parte
4 - Os primeiros
estabelecimentos de ensino da Praça Seca: as escolas Marquês do Paraná, Bahia
e Haiti. A inauguração da Escola Honduras. As primeiras escolas particulares:
Instituto Tamandaré, Instituto São Luís, Educandário N. S. da Vitória e Externato
Geremário Dantas. Década de 1960: o surgimento de diversas escolas públicas e
particulares. A Biblioteca Regional. A Igreja N. S. do Sagrado Coração, na Rua
Barão. A Igreja Batista da Praça Seca. Parte
5 - O futebol. O
campo da Associação em plena praça. O Albano. O Parames. O Marangá. Clubes da
região da Rua Pinto Teles. O Aceal, Pracinha e o Papai FC. Os jogadores do futebol
profissional que moraram na região da Praça Seca, em diversas épocas. Parte
6 - Os clubes sociais:
Rex, Jacarepaguá TC, Country Clube de Jacarepaguá, o ciclismo e o Velo Clube.
Outros clubes: 28 de Agosto, Planalto e Associação do Touring. As escolas de samba:
Corações Unidos, Vai se Quiser, União de Jacarepaguá e Império do Marangá. Parte
7 - Os cinemas da
Praça Seca. Os filmes rodados na região. "Matar ou Correr", o filme que marcou
época, com Oscarito, Grande Otelo e outros artistas da Atlântida, filmado na Rua
Barão. Histórico da grande área urbano no início da Rua Barão. Parte
8 - O 26º Distrito
Policial e seu delegados. Os famosos moradores da região: Godofredo de Matos,
Braguinha, Dalva de Oliveira, Rosana Ghesa, Guerra Peixe, Pixinguinha, Gurgel
do Amaral, Mário Martins Ribeiro, Raul Caneco, Argemiro Bulcão, Armindo da Fonseca
e Joaquim de Oliveira Júnior. Os grandes nomes da política na Praça Seca, a partir
do século XIX. Parte
9 - O comércio da
Praça Seca na década de 1940. As sinucas: Bernardino, Mau Cheiro e Tenente Nélson.
O Sapo, falso candidato a vereador. A rapaziada da praça nos anos 50 e 60. A brincadeira
do lago e o Champanhota. O grande torneio de futebol das turmas da praça em 1955.
O Bar Maracangalha. A transformação atual da Praça Seca.
| Parte
1
A
região cortada pela Rua Cândido Benício chamava-se nos séculos passados e até
início do século XX de Vale do Marangá. Essa várzea é formada a leste pelos morros
da Bica, Inácio Dias e da Reunião. A oeste pelo Morro do Valqueire, pertencente
à Serra do Engenho Velho: e, ainda, com isoladas elevações conhecidas como Morro
da Chacrinha (na Estrada Comandante Luís Souto), Morro Santa Rosa (situado entre
as ruas Cândido Benício e Francisco) e Morro do Silveira (na Rua Quiririm). No
século XIX, o Morro da Bica (hoje, Fubá) tinha o nome de Marangá. A
palavra marangá vem do tupi-guarani e significa campo de batalha ou lugar de combate.
A origem desse topônimo remonta os tempos do Brasil colonial. É possível que alguma
das batalhas entre portugueses e índios, estes fugindo do litoral para o sertão,
ocorreu na região da Praça Seca. Outra hipótese é sobre a expedição de 1710 do
francês Jean François Duclerc, que desembarcou em Guaratiba e fez penosa marcha
pelo caminho de Jacarepaguá, onde teve muitas perdas em combates, antes da derrota
final na entrada da cidade do Rio de Janeiro. Historiadores afirmam que ele passou
pelo local da atual Estrada Grajaú-Jacarepaguá, pois lá foram encontrados, durante
sua construção, canhões franceses daquele período. Porém, o francês tinha cerca
de mil homens e um guia preto conhecedor profundo de Jacarepaguá. Assim, é viável
que Duclerc enviasse outra frente pela atual Rua Cândido Benício, e ali acontecesse
lutas de resistência. Talvez, uma das duas hipóteses seja a causa da origem do
topônimo Vale do Marangá (1).
A
colonização das terras de Jacarepaguá começou no final do século do descobrimento
do Brasil. Após a fundação da cidade do Rio de Janeiro em 1565 por Estácio de
Sá, sobrinho do Governador Mem de Sá, e a expulsão definitiva do Francês Villegagnon,
outro sobrinho de Mem de Sá governou o Rio de Janeiro: Salvador Correia de Sá.
Filho de Felipa de Sá, irmã de Mem de Sá, e de Gonçalo Correia de Sá, ele exerceu
o cargo de governador em dois períodos: de 1567 a 1572 e de 1578 a 1598. Quase
no final do seu último governo, em setembro de 1594, concedeu aos filhos Martim
e Gonçalo duas sesmarias em Jacarepaguá. A sesmaria do Gonçalo Correia de Sá compreendia
as terras desde a Barra da Tijuca, passando pela Freguesia e Taquara, até o Campinho.
A sesmaria do Martim Correia de Sá era do Camorim até o Recreio dos Bandeirantes,
incluindo a grande faixa litorânea. O Gonçalo ocupou sua sesmaria no ano da concessão,
fundando engenhos de açúcar. O Martim, ao contrário, dedicou-se a política, inclusive,
foi governador do Rio de Janeiro nos períodos de 1602 a 1608 e 1629 a 1632. Por
isso, deixou praticamente abandonada a sesmaria de Jacarepaguá. Esses fatos são
os responsáveis pela transformação rápida das terras do Gonçalo em complexo urbano,
enquanto as do irmão Martim até os dias de hoje ainda têm grandes vestígios rurais.
O
topônimo Jacarepaguá deriva-se de três palavras do tupi-guarani: yakare (jacaré),
upa (lagoa) e guá (baixa) - "a baixa lagoa dos jacarés". Na época do descobrimento
e da colonização, as lagoas da Baixada de Jacarepaguá eram repletas de jacarés,
daí o nome. Quando Gonçalo Correia de Sá fundou os primeiros engenhos na atual
Freguesia, começou a surgir habitações nas imediações, principalmente onde hoje
é a Porta D'Água (Largo da Freguesia). Esse povoado recebeu o nome de Jacarepaguá,
em virtude da proximidade das lagoas. Ao passar dos anos, as terras vizinhas também
foram chamadas pelo mesmo nome. Nas primeiras décadas do século XVII, a Porta
D'Água possuía razoável densidade populacional. Na época, Gonçalo Correia de Sá
desmembrou parte da sua sesmaria em foros, surgindo, assim, grandes propriedades.
Numa delas, na fazenda do Padre Manuel de Araújo, ergueu-se, também no século
XVII, no alto de um penhasco, a Igreja Nossa Senhora da Pena. Com o desenvolvimento
do lugar, foi criada, em 6 de março de 1661, a freguesia de Nossa Senhora do Loreto
de Jacarepaguá. Essa freguesia foi a quarta do Rio de Janeiro. A primeira foi
a freguesia de São Sebastião, instituída no dia 20 de janeiro de 1569, quatro
anos após a fundação da cidade. A segunda, em 1634, foi a da Candelária. E a terceira
foi a freguesia de Irajá em 1644. A matriz da freguesia de Nossa Senhora do Loreto
foi construída em 1664 pelo Padre Manuel de Araújo. As
terras de Jacarepaguá eram ligadas com a freguesia de São Sebastião (atual Centro
da Cidade) pelo caminho da Fazenda de Santa Cruz (propriedade dos jesuítas). No
século XVIII, a fazenda passou a pertencer à Coroa Portuguesa, quando era governador
do Rio de Janeiro Gomes Freire de Andrada, o Conde de Bobadela. Então, o caminho
recebeu o nome de Estrada Real de Santa Cruz, cuja denominação durou até 1917,
no governo do Prefeito Amaro Cavalcânti, quando seu longo trecho mudou para outras
designações, muitas existentes nos dias de hoje: Rua São Luís Gonzaga, Avenida
Suburbana (2)
, Rua Coronel Rangel (em 1950, mudou para Avenida Ernâni Cardoso), Estrada Intendente
Magalhães (em 1962, cedeu parte para a atual Avenida Marechal Fontenele), Avenida
Santa Cruz e Avenida Cesário de Melo (nome dado em 1930 a antigo trecho da Avenida
Santa Cruz). A Estrada Intendente Magalhães, inclusive, foi trecho inicial da
antiga Estrada Rio São Paulo de 1928 a 1950. Na
altura da antiga Fazenda do Campinho, de propriedade de Dona Rosa Maria dos Santos
no século XIX, existia um entrocamento, que deu origem ao Largo do Campinho nos
tempos coloniais. Esse cruzamento ligava a Estrada Real de Santa Cruz a duas regiões
distintas: com a freguesia de Irajá ao norte e com a freguesia de Nossa Senhora
do Loreto ao sul, pela antiga Estrada de Jacarepaguá (atual Rua Cândido Benício).
Após o Tanque, o viajante seguia pela Estrada da Freguesia (hoje Avenida Geremário
Dantas). A Estrada de Jacarepaguá atravessava todo o Vale do Marangá, que por
isso também acabou fazendo parte de Jacarepaguá. O vale era passagem obrigatória
dos tropeiros e carruagens, que se dirigiam da freguesia do Loreto para Irajá
ou para a cidade. O Largo do Campinho estava na rota dos que vinha de São Paulo
e Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro. Lá existia famosa estalagem, onde
hoje é a garagem e posto de gasolina Rio- São Paulo. Joaquim José da Silva Xavier,
o Tiradentes, pernoitou diversas vezes nessa hospedaria. Inclusive, no dia 9 de
maio de 1789, dormiu lá pela última vez, quando se dirigia da Vila Rica (hoje,
Rio Preto) para o Rio de Janeiro. No dia seguinte foi preso na Rua dos Latoeiros
(atual Rua Gonçalves Dias) e nunca mais retornou pela sua tão conhecida Estrada
Real de Santa Cruz. Só saiu da prisão para o enforcamento no dia 21 de abril de
1792. As
duas sesmarias de Jacarepaguá passaram a ter um único proprietário ainda no século
XVII. Após a morte de Gonçalo Correia de Sá, a sua mulher e filha, respectivamente,
Dona Esperança e Dona Vitória, venderam as terras do esposo e pai, em 1634, para
o General Salvador Correia de Sá e Benevides, filho de Martim Correia de Sá e
sobrinho de Gonçalo. O general também herdou a outra sesmaria, com o falecimento
do pai em 1636. Assim, ele ficou dono absoluto de toda a região, inclusive o Vale
do Marangá. O General
Salvador Correia de Sá e Benevides, depois da compra da parte do seu tio Gonçalo,
passou a morar na casa-grande do Engenho D'Água, que ficou sendo a sede de todas
as propriedades. Naquele tempo, Jacarepaguá já estava bastante dividido em foros.
Na segunda metade do século XVII, ele fundou, no Vale do Marangá, a Fazenda do
Engenho de Fora, situada na antiga Estrada de Jacarepaguá. O engenho de Fora estendia-se
pelo lado esquerdo da estrada, do Campinho ao Tanque, incluindo as áreas dos atuais
morros da Bica (Fubá), Inácio Dias e Reunião. A sede ficava numa colina atrás
do atual IPASE, no Mato Alto. Junto dela, edificada no século XVII, também existia
a capela de Nossa Senhora da Conceição. No século XIX, essas construções desapareceram.
No mesmo lugar, em 1894, foi construída a Vila Albano por Albano Raimundo da Fonseca
Marques, que ainda exista e pode ser vista da Rua Cândido Benício. O
General Salvador Correia de Sá e Benevides faleceu em Lisboa aos 94 anos de idade,
em janeiro de 1688, trinta anos depois de ter sido governador geral do sul do
Brasil. Deixou as terras de Jacarepaguá para o filho Martim Correia de Sá e Benevides,
que foi o primeiro Visconde de Asseca e alcaide-mor do Rio de Janeiro. Mais tarde,
no século XVIII, o quarto Visconde de Asseca, também com nome de Martim Correia
de Sá e Benevides e neto do General Sá e Benevides, herdou as propriedades. O
quarto Visconde de Asseca, nascido em Jacarepaguá em 1698 e falecido em 1777,
foi o responsável pelos primeiros vestígios de povoamento da região da atual Praça
Seca. Nos meados do século XVIII, foi aberto um caminho secundário para ligar
a Estrada Real de Santa Cruz com a Estrada de Jacarepaguá, a fim de diminuir o
percurso entre o Engenho de Fora e as terras dos Magalhães, que margeavam as Estrada
de Santa Cruz, do Campinho até Realengo. O último dono dessa fazenda foi o Tenente-Coronel
Carlos José de Azevedo Magalhães. Em sua homenagem o logradouro recebeu em 1917
o nome de Estrada Intendente Magalhães. Ele foi o candidato mais votado para a
Intendência Municipal (atual Câmara dos Vereadores) no ano de 1899. No
ponto da bifurcação do novo caminho com a Estrada de Jacarepaguá surgiu um largo,
que recebeu o nome de Largo do Asseca, em homenagem ao dono das terras da região,
o quarto Visconde de Asseca. Por metaplasmo popular houve a supressão das duas
primeiras letras, e o lugar ficou conhecido como Seca, inclusive também por ter
a primeira camada do solo constituída de areia. Mesmo depois de ampliada, a localidade
sempre foi chamada de Praça Seca. O caminho que deu origem ao local foi designado,
mais tarde, de Estrada do Macaco, em virtude de limitar parte da fazenda do mesmo
nome. A Estrada do Macaco pode ser reconhecida hoje em dia pelo seu antigo trajeto:
Rua Quiririm, desde a esquina da Estrada Intendente Magalhães até a Rua Luís Beltrão.
A partir dessa rua até a Praça Seca. Com a morte do quarto Visconde de Asseca
em 1777, as terras do Vale do Marangá (fazendas do Engenho de Fora e do Macaco)
passaram a pertencer à família Teles Barreto de Menezes, ancestrais do Barão da
Taquara.
Antes de comprar o Engenho de Fora e outras terras em Jacarepaguá, a família Teles
Barreto de Menezes era proprietária da Fazenda da Taquara. No século XVII, o dono
era Francisco Teles Barreto de Menezes, juiz de órfãos e casado com Dona Inez
de Andrade Souto Maior. No
século XVIII, o domínio da fazenda passou pelos descendentes primogênitos até
chegar a outro Francisco Teles Barreto de Menezes, bisavô do Barão da Taquara,
que morreu no dia 13 de dezembro de 1806, alguns dias depois do falecimento da
esposa, Dona Francisca Joaquina de Oliveira Brito, ocorrido em 6 de dezembro de
1806. O casal deixou seis filhos herdeiros: Luiz Teles Barreto de Menezes (avô
do Barão da Taquara), Ana Inocência Teles de Menezes, Maria Rosa Teles de Menezes,
Catarina Josefa de Andrade Teles, Mariana Penha França Teles e Escolástica Maria
de Oliveira Teles. Procedendo-se o inventário, coube como legítima proprietária
das terras da Fazenda da Taquara a inventariante Dona Ana Inocência Teles de Menezes.
Ela casou-se com João Alves Pinto, que morreu em 28 de fevereiro de 1828. Em 16
de novembro de 1836, também faleceu Dona Ana Inocência Teles de Menezes. Como
não teve filho e com os irmãos falecidos, deixou como única herdeira a sua sobrinha
Dona Ana Maria Teles de Menezes, filha de Luiz Teles Barreto de Menezes e Dona
Maria Felicidade de Gama Freitas. A
Dona Ana Maria Teles de Menezes era casada com Francisco Pinto da Fonseca, português
e comendador da Ordem da Rosa. O casal teve dois filhos: Dona Francisca Rosa da
Fonseca Teles de Menezes e Francisco Pinto da Fonseca Teles, que mais tarde recebeu
o título de Barão da Taquara. Dona Ana Maria faleceu em 31 de outubro de 1840,
um ano após o nascimento do Barão da Taquara. Assim, o Comendador Francisco Pinto
da Fonseca tornou-se dono absoluto da Fazenda da Taquara e de vários engenhos
espalhados em Jacarepaguá, que os antepassados da esposa haviam adquirido através
dos anos., inclusive o Engenho de Fora e a Fazenda do Macaco, no Vale do Marangá.
O Comendador Pinto faleceu em 23 de fevereiro de 1865, legando todas as propriedades
agrícolas para o filho Francisco Pinto da Fonseca Teles, o Barão da Taquara.
O Barão da Taquara nasceu em 25 de outubro de 1839. Quando assumiu a direção da
Fazenda da Taquara tinha apenas 23 anos de idade e tornou-se dono da maioria das
terras de Jacarepaguá. Possuía muitos engenhos. Os principais, além do Engenho
da Taquara, eram o Engenho D'Água e o Engenho de Fora. Desde menino, era assíduo
visitante da Quinta da Boa Vista, pois seu pai era guarda-roupa do Imperador Dom
Pedro II. Assim, manteve laços fraternais com a família imperial, inclusive o
Imperador foi seu padrinho de batismo. Mais tarde, Dom Pedro II freqüentou a Fazenda
da Taquara, acompanhado da esposa, Imperatriz Dona Teresa Cristina, onde passaram
muitas férias anuais. A irmã do Imperador, a Princesa Dona Leopoldina, também
se hospedou na fazenda, para se recuperar de doença grave. Em 1864, o Barão da
Taquara foi distinguido com o título de Moço Honorário da Imperial Guarda-Roupa.
Em 1865, foi nomeado Tenente-Coronel e Comandante do 7º Batalhão de Infantaria
da Guarda Nacional, onde atuou durante a Guerra do Paraguai. Pelos relevantes
serviços prestados nessa guerra, recebeu o título de Comendador da Ordem da Rosa.
O Imperador Dom Pedro II outorgou-lhe o título de Barão da Taquara em 21 de outubro
de 1882, por sua dedicação ao povo de Jacarepaguá.
O Barão da Taquara realmente pode ser considerado o Patriarca de Jacarepaguá.
Além das terras que doou aos empregados e amigos, ele manteve muitas escolas e
consertava logradouros públicos, como aconteceu na antiga Estrada de Jacarepaguá,
no Vale do Marangá. Ainda muito jovem, ele casou-se com Joana Maria Penna, com
a qual nasceram os três primeiros filhos: Emília Joana, Maria Luiz e Jerônimo
Pinto. Cerca de vinte anos mais tarde, em 3 de maio de 1881, esposou Dona Leopoldina
Francisca de Andrade, que no ano seguinte passou a ser chamada de Baronesa da
Taquara, em virtude do título recebido pelo marido. A Baronesa nasceu no dia 1º
de agosto de 1862. Seus pais (José Nogueira de Souza e Ana Teresa de Andrade Souza)
possuíam grandes propriedades em Santa Cruz. Foi lá que conheceu o Barão da Taquara,
que, além da terras de Jacarepaguá, tinha campos de criação de gado em Santa Cruz.
Com a Baronesa da Taquara, nasceram mais dois filhos do Barão: em 1882, Francisco
Pinto da Fonseca Teles; e, em1884, Ana Teles. Esta casou-se com Alfredo Rudge
e teve três filhos: Francisco José, Elza e Raul. Francisco Pinto da Fonseca Teles,
que se formou em medicina, casou-se com a sobrinha Maria Emília Marques, filha
de Emília Joana. Desse matrimônio, nasceu um único filho: Francisco Taquara da
Fonseca Teles. O
Barão da Taquara faleceu aos 78 anos de idade, no dia 30 de agosto de 1918, em
sua residência da cidade, no Largo do Paço (atual Praça 15 de Novembro). No dia
seguinte, houve missa de corpo presente na capela da Fazenda da Taquara. À tarde,
foi sepultado no Cemitério do Pechincha no jazigo da família. Ao seu enterro,
além da grande massa popular, compareceram membros do governo republicano, ministros
e representantes da câmaras federal e municipal. As terras da região da Praça
Seca, ele legou para os filhos da primeira mulher: Emília Joana, Maria Luiza e
Jerônimo Pinto. Para a Baronesa e os dois filhos com ela, deixou as terras da
Taquara, Freguesia e do resto da grande planície de Jacarepaguá. A Baronesa da
Taquara continuou, durante décadas, com o trabalho filantrópico do marido.. Era
chamada de "a mãe dos pobres". Ela faleceu aos 97 anos de idade, no dia 23 de
dezembro de 1960. Seu filho, Francisco Pinto da Fonseca Teles, morreu anos antes,
no dia 31 de julho de 1955. Sua filha, Ana Teles Rudge, faleceu aos 85 anos de
idade, no dia 8 de dezembro de 1969. Atualmente, as antigas terras do Barão da
Taquara estão loteadas e densamente povoadas. Mas existem as casas-sedes da Fazenda
da Taquara e do Engenho D'Água, que foram tombadas pelo Patrimônio Histórico e
pertencem aos seus descendentes. A casa da Fazenda da Taquara fica na Estrada
Rodrigues Caldas. A casa-sede do antigo Engenho D'Água situa-se numa colina perto
da Cidade de Deus, fim da Estrada do Gabinal e início da Avenida Alvorada.(3)
As carruagens, diligências, tropas de cargas e solitários ou grupos de cavaleiros
eram os meios de transportes normais para os habitantes da região da Praça Seca
chegar à cidade, através da Estrada Real de Santa Cruz. A partir de 1858, com
a construção da Estrada de Ferro Dom Pedro II (rebatizada em 1889, com a Proclamação
da República, com o nome de Estrada de Ferro Central do Brasil), o trem passou
a ser a melhor opção para essa população. Considerado a grande novidade do mundo
do século XIX, o trem possuía velocidade espantosa para a época. Era de vagões
de madeira e locomotiva impulsionada a vapor, que foi logo apelidada pelo povo
de "maria fumaça". Com a presença do Imperador Dom Pedro II, a estrada de ferro
foi inaugurada no dia 29 de março de 1858, inclusive também a estação de Cascadura,
a mais próxima de Jacarepaguá. Essa estação ficava exatamente no ponto em que
a Estrada Real de Santa Cruz cruzava com a estrada de ferro. Por longos anos,
no local existiu uma cancela. Em 1930, no Governo do Presidente Washington Luís,
foi construída a atual ponte. A inauguração da estação de Madureira foi anos depois,
já na República, no dia 15 de junho de 1890. O
trem de fato revolucionou o modo de vida das populações afastadas do centro da
cidade. Antes, só se locomovia para longe, a fim de tratar assuntos importantes
ou trabalhar. A partir da chegada do trem, esses habitantes passaram a usá-lo
em busca do lazer em lugares distantes. Em 1868, junto à estação de São Francisco
Xavier, o Conde Herzberg fundou o Jockey Club. No início, eram realizadas quatro
corridas de cavalos anuais, com a presença da família imperial. O povo de Jacarepaguá
servia-se do trem, para ir ao hipódromo. O próprio Barão da Taquara, apaixonado
pelas corridas, ia de trem com a família. Ele, inclusive, possuía cavalos no prado.
Um com o nome de Macaco venceu inúmeros páreos. Em 1884, o Barão participou da
fundação do Derby Club, outra entidade do hipismo, juntamente com o Dr. André
Gustavo Paulo de Frontin. O Derby Club ficava situado onde hoje é o Estádio do
Maracanã. Com a fusão do Jockey Club e Derby Club surgiu o atual Jockey Clube
Brasileiro, na Gávea.
O primeiro trecho da estrada de ferro iniciava no Campo de Sant'Anna e terminava
no Pouso de Queimados. Alguns trens, porém, só iam até Cascadura e voltavam para
a estação do Campo, numa operação giratória vagão por vagão. Mais tarde, no final
do século XIX, foi inaugurada a estação de Dona Clara, que acabou com o sistema
giratório, pois a linha férrea saia da sua rota normal, para fazer uma grande
curva em torno dessa estação, que ficava onde hoje é a Praça Patriarca, em Madureira.
Essa estação foi construída na antiga chácara de Dona Clara Simões. Todas as terras
de Madureira, do Campinho até a Estrada da Portela, pertenciam a Dona Rosa Maria
dos Santos, era a Fazenda do Campinho. Dona Rosa faleceu em 1846. Ainda em vida,
dividiu parte da sua propriedade a parentes e pessoas amigas. Uns que receberam
lotes foram o inventariante Domingos Lopes Cunha e o amigo de Dona Rosa, Vitorino
Simões. Mais tarde, Domingos Lopes casou-se com a filha do Vitorino, a Dona Clara
Simões. Em 1937, com a eletrificação da Estrada de Ferro Central do Brasil, a
estação de Dona Clara foi desativada, já que os trens elétricos não precisavam
dar a volta.
Em março de 1875, o acesso de Jacarepaguá para a estação do trem melhorou bastante,
com a implantação dos bondes de tração animal, que partiam de Cascadura e atravessavam
o Vale do Marangá, pela antiga Estrada de Jacarepaguá (hoje Rua Cândido Benício).
A Companhia Ferro-Carril de Jacarepaguá (como era chamada) foi construída e explorada
por Etiene Campos. Primeiramente, os bondes ligavam Cascadura ao Tanque. Depois,
houve prolongamentos para a Freguesia e Taquara. Na época dos bondes puxados a
burro, a vegetação do Vale do Marangá era muito espessa, e o clima bastante frio.
O lugar hoje conhecido como Mato Alto era chamado de Sibéria, no século passado.
Inclusive, no inverno, em todo o trecho da Estrada de Jacarepaguá, o nevoeiro
era tão denso que nas manhãs, mesmo com sol, era difícil ver do bonde as pessoas
na calçada. Na época, quem dirigia o bonde era chamado de cocheiro. Ele conhecia
os horários dos habitantes da região, parava nas portas das casas, tocava a sineta
e esperava o passageiro chegar.
Em abril de 1911, a Light comprou a companhia de bondes do Etiene Campos. Nesse
mesmo ano, eletrificou alguns trechos. Nos bondes elétricos, a pessoa que dirigia
é claro que não podia ser denominado cocheiro. Passou a ser conhecido como motorneiro.
Quem cobrava as passagens era o condutor. Em
1912, um ano após a eletrificação, o bonde de Jacarepaguá serviu de cortejo fúnebre
do líder republicano, Senador Quintino Bocaiúva. Ele possuía uma chácara no subúrbio,
na estação de Cupertino, que atualmente tem o seu nome. A casa ainda existe, numa
colina da Rua Goiás, quase em frente à estação. Antes de morrer, Quintino pediu
para ser enterrado no Cemitério de Jacarepaguá. O féretro vaio da cidade. Primeiro,
no trem da Central. Depois, no bonde de Cascadura até o Pechincha, acompanhado
pelo então Presidente da República, Marechal Hermes da Fonseca. Os bondes marcaram
época na região. Antes, só existiam eles. Depois, surgiram os lotações e, a seguir,
os ônibus. O bonde 90 era o Taquara. O Freguesia era o 91. Em condições extraordinárias,
colocava-se na linha o bonde 89, Largo do Tanque. O Praça Barão da Taquara era
o 88 e ia até o Méier, após subir a ponte de Cascadura. Os outros retornavam de
Cascadura e faziam o ,contorno num terreno da Rua Nerval de Gouveia. Os bondes
de Jacarepaguá foram desativados no Governo de Carlos Lacerda em 1964.
O Engenho de Fora começou a perder sua unidade no princípio da segunda metade
do século XIX com a abertura da Estrada do Marangá (hoje Rua Pedro Teles), que
cortava grande parte do engenho. Não chegava a ser perfeita paralela à Estrada
de Jacarepaguá, pois se aproximava mais de semicírculo em relação a outra. Iniciava
na própria Estrada de Jacarepaguá na altura onde hoje é a Rua Capitão Menezes
e terminava na mesma estrada onde atualmente se localiza o IPASE. A Estrada de
Jacarepaguá, que nos primeiros tempo tinha seu lado esquerdo de ponta a ponta
as terras do Engenho de Fora, nos meados do século XIX já possuía grandes áreas
desmembradas, que davam fundos para a Estrada do Marangá. No lado direito, se
localizava a Fazenda do Macaco, que formava quase um triângulo com as estradas
de Jacarepaguá, Macaco (hoje Rua Quiririm) e Real Santa Cruz (hoje Intendente
Magalhães). O
primeiro loteamento no antigo Vale do Marangá, em lotes bem menores, foi realizado
no início da década de 1890 pelo Barão da Taquara. Foram abertas sete ruas e a
Estrada de Jacarepaguá passou a ser chamada de Cândido Benício, homenagem do Barão
da Taquara ao amigo e político mais votado nas eleições de 1892 para a intendência
municipal, que residia naquele logradouro. Três das novas ruas ficavam perto do
Largo do Campinho do lado direito da Rua Cândido Benício, atravessando parte das
terras da Fazenda do Macaco: Comendador Pinto, Ana Teles e Pinto Teles. Em 1900,
estas ruas foram prolongadas até o Morro da Bica (Fubá). As outras quatro ruas
construídas pelo Barão foram: Baronesa, Barão, Emília (hoje Florianópolis) e Albano.
Todas terminavam na antiga Estrada do Marangá. As ruas Albano e Emília começavam
no lado esquerdo da Cândido Benício, pois os prolongamentos para o lado direito
só foram realizados em 1906. As ruas Barão e Baronesa eram as únicas que na década
de 1890 atravessavam a Cândido Benício. No meio das duas, também no início da
década de 1890, o Barão da Taquara construiu grande praça no lugar do pequeno
Largo do Asseca (ou Seca). Naquela época, passou a ser chamada de Praça 25 de
Outubro, data do aniversário do Barão. Entre
1906 e 1909, o Barão realizou outro loteamento no Vale do Marangá, bem mais amplo
do que o primeiro, surgindo dezenas de ruas nas fazendas do Macaco e Engenho de
Fora. O autor do traçado foi o engenheiro Bernardino Marques da Cunha Bastos,
que era sogro do Gastão Taveira e do Januário Acácio (Rei da Banha). O Dr. Bernardino
foi negociante de café e delegado de polícia de Jacarepaguá. Em homenagem ao plano
de arruamento do Vale do Marangá, o Dr. Bernardino hoje é nome de rua no local.
Um ano após terminar o seu trabalho, no dia 9 de outubro de 1910, Bernardino Marques
da Cunha Bastos faleceu. Dos novos logradouros, a Rua Capitão Menezes era a maior
e se estendia por grande parte da Fazenda do Macaco e Engenho de Fora. Uma parte
desse loteamento, o Barão deixou para a sua filha Emília Joana, do Mato Alto até
a Rua Capitão Menezes. A outra parte, da Rua Capitão Menezes até o Campinho, para
a filha Maria Luiza. O filho Jerônimo Pinto ficou com as terras do Morro da Reunião,
no Tanque. Na época do loteamento, todas as ruas eram de barro, inclusive a Rua
Cândido Benício, apesar da linha do bonde, que foi pavimentada no final da década
de 1920. A maioria, porém, só foi calçada nos anos 50. Na década de 1910, somente
três moradores da região da Praça Seca possuíam automóveis: Gastão Taveira, Francisco
Albano da Fonseca Marques e Lauro Müller. Num dia de muita chuva e também muita
lama, o carro do Senador Lauro Müller ficou atolado na Rua Cândido Benício em
frente à fazenda do Capitão Machado. Foi preciso uma parelha de burros para tirar
o veículo da lama. (1)-Nota
para a edição da Internet - O quartel do exército do Campinho surgiu justamente
de um forte construído no século XVIII, a fim de repelir futuras invasões de estrangeiros
vindos de Guaratiba ou Barra da Tijuca e atravessando a atual Rua Cândido Benício.
O quartel foi demolido em 2007. Atualmente , ocupa o local o Wal Mart Supercenter. (2)
- Nota para a edição da Internet - A Avenida Suburbana passou a ser chamada de
Avenida Dom Hélder Câmara em 1999. (3)
- Nota para a edição da Internet - Avenida Alvorada atualmente tem o nome de Avenida
Ayrton Senna.
| Obras
consultados para a Parte 1
Mapas do município neutro - século XIX (Biblioteca Nacional Mapas
do Distrito Federal - século XIX (Biblioteca Nacional) Histórias
das Ruas do Rio de Janeiro - Brasil Gérson Crônicas da Cidade do Rio de Janeiro
- Noronha Santos Conquistadores e Povoadores do Rio de Janeiro - Elysio Belchior
A Família Fonseca Teles (o Barão da Taquara) - Amadeu Rohan Jornal do
Comércio (27 de novembro de 1900) | |
| Parte
2 No
início do século XX, O Morro Inácio Dias tinha bonito visual, com densa floresta
e muitas nascentes. Lá embaixo, no Vale do Marangá, os pioneiros da região possuíam
vida bem diferente dos dias de hoje. O cavalo era o auxiliar mais importante do
homem. Tudo era feito com ele, inclusive passeios. As mercadorias eram entregues
a cavalo: correios, leiteiros, quitandeiros, tripeiros e vassoureiros. Muitas
pessoas que hoje são nomes de ruas viveram e confraternizaram-se entre si na região
da Praça Seca nessa época. Eles viram surgir o loteamento do vale e, ainda vivos,
a homenagem de Ter os nomes vinculados às ruas, devido ao pioneirismo. A
casa onde morou Cândido Benício da Silva Moreira ainda existe. Atualmente, funciona
o Educandário Nossa Senhora da Vitória (4),
na Rua Cândido Benício número 2.610, em frente ao IPASE. Quando o Cândido Benício
construiu aquela casa, em 1885, o logradouro ainda se chamava Estrada de Jacarepaguá.
Na década seguinte, por iniciativa do Barão da Taquara, a rua recebeu o nome atual,
em virtude dos serviços prestados ao povo de Jacarepaguá pelo jovem médico e político
Cândido Benício da Silva Moreira. Ele nasceu em Niterói. No dia 9 de novembro
de 1864. Concluiu, com brilhantismo, o curso de humanidades do Colégio Dom Pedro
II e se formou pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1885. A tese de
doutorado foi apresentada no dia 5 de setembro de 1885: "Estudo Crítico das Operações
Reclamadas pelas Coartações Uretrais". Essa tese foi publicada pela Tipografia
Carioca e existe um exemplar na Biblioteca Nacional. Foi interno no Hospital da
Misericórdia da Corte, e, depois de passar em diversos hospitais, exerceu os cargos
de delegado da Inspetoria Geral de Higiene e delegado de higiene de Jacarepaguá.
No dia 30 de outubro de 1892, Cândido Benício recebeu nas urnas verdadeira consagração
popular, sendo eleito para o primeiro Conselho Municipal do Distrito Federal.
Tomou posse no dia 2 de dezembro de 1892, em sessão de gala do conselho, presidido
por Cândido Barata Ribeiro. Depois disso, ainda vivo, sentiu a gratidão popular
ao ser dado seu nome à rua onde morava. Cândido Benício faleceu bem jovem aos
33 anos de idade, no dia 19 de dezembro de 1897. O féretro saiu da sua residência
na Rua Cândido Benício para o Cemitério do Pechincha, com a presença, entre outras
personalidades, do Barão e Baronesa da Taquara. Cândido Benício era casado com
Dona Ana (Nicota), descendente da família Rangel de Vasconcelos, de muita tradição
em Irajá. O pai de Dona Ana foi D'Antas Rangel de Vasconcelos, antigo intendente
(vereador) do Distrito Federal. O seu avô foi o Coronel Rangel de Vasconcelos.
A Avenida Ernâni de Cardoso antes se chamava Coronel Rangel em sua homenagem.
O irmão de Dona Ana, Carlos D'Antas de Vasconcelos, inclusive, batizou o seu filho
com o nome do cunhado: Cândido Benício Rangel de Vasconcelos, que foi promotor
da justiça militar. Carlos tinha mais duas filhas: Clarinda e Carlinda.
Emília Joana, nascida na Fazenda da Taquara, no dia 6 de outubro de 1861, foi
a primeira filha de Francisco Pinto da Fonseca Teles, que, mais tarde receberia
o título de Barão da Taquara. Sua mãe, Joana Maria da Penna, faleceu muito jovem.
Quando Emília Joana se casou com o português Albano Raimundo da Fonseca Marques,
foi morar no antigo Engenho de Fora, propriedade do pai, o Barão da Taquara. O
Albano, no mesmo lugar da antiga sede do engenho, edificou a Vila Albano em 1894,
bem mais moderna do que a construção anterior. O Albano nasceu em Portugal no
dia 29 de agosto de 1852, veio para o Brasil com apenas 13 anos de idade e faleceu,
na Vila Albano, em 18 de agosto de 1903. O casal teve seis filhos, todos nascidos
na região da Praça Seca: Francisco (o Chiquinho), Maria Emília (a Mocinha), Albano
(o Juca), José (o Zezé), Leocádia (a Cidinha) e Antônio (o Toninho). Como os filhos,
Emília Joana também tinha apelido: Miloca.
O primogênito Francisco Pinto da Fonseca Marques nasceu quando Emília Joana tinha
19 anos de idade, em 1880. O Chiquinho casou-se com Joana França. Dessa união
nasceram três filhos: Albano Raimundo, Maria Cristina e Marina (esposa do Ministro
Álvaro Dias), todo foram morar na Zona Sul do Rio de Janeiro. Francisco Pinto
faleceu aos 42 anos de idade em 17 de novembro de 1922. A Maria Emília (a Mocinha)
casou-se com o tio, Francisco Pinto da Fonseca Teles, filho do Barão e a Baronesa.
O casal teve apenas um filho: Francisco da Taquara da Fonseca Teles. O Zezé, outro
filho de Dona Emília, casou-se com a irmã do Washington Bueno, Dona Consuelo Bueno
da Fonseca Marques, que tiveram um filho: Paulo Bueno. O Antônio (o Toninho) também
deixou uma neta para a Dona Emília: Marília Geanini da Fonseca. Juca e Candinha
permaneceram solteiros. A Candinha, inclusive, morou com a mãe até ela falecer.
Em 1918, com a morte do Barão da Taquara, Emília (já viúva) herdou parte da antiga
Fazenda do Engenho de Fora. As terras foram vendidas aos poucos. Quando Dona Emília
Joana morreu no bairro do Flamengo no dia 18 de março de 1949, aos 87 anos de
idade, não possuía mais nada na Praça Seca. As
propriedade do Mato Alto, incluindo a Vila Albano, foram vendidas no final da
década de 1930, por intermédio do seu filho Zezé, ao jornalista da extinta A Noite,
Geraldo Rocha. Este, em dezembro de 1943, revendeu a grande área para o IPASE.
Somente a partir de 1956, no Governo de Juscelino Kubitschek, começou a construção
do atual conjunto habitacional. Em 1958, chegaram os primeiros moradores. Em 1962,
houve grande invasão, quando muitas famílias ocuparam os apartamentos vazios.
Em 1978, o IPASE passou a pertencer ao INPS (atual INSS). Assim, todas as terras
do Mato Alto fazem parte do patrimônio do IAPAS, mas o conjunto não deixou de
ser conhecido como IPASE do Mato Alto. Em abril de 1944, meses após o IPASE comprar
a área, o Instituto convidou José Floriano de Souza Portas para morar na Vila
Albano, a fim de tomar conta das terras. Atualmente, sua viúva, a octagenária
Dulce de Abreu Porta, ainda mora lá com os filhos e mais cinco família de funcionários
do IAPAS (5). Dona Dulce
é filha de Celestino Fortunato de Abreu, antigo comerciante da região da Praça
Seca, no início do século XX. O Celestino possuía um armazém na esquina das ruas
Dr. Bernardino e Japurá. Em 1924, ele vendeu o prédio, quando passou a ser a carvoaria,
que existe até os dias de hoje (6).
Dona
Maria Luiza da Fonseca Menezes, irmã de Dona Emília, portanto, filha do Barão
da Taquara com Joana Maria da Penna, era casada com Jerônimo Alpoim da Silva Menezes,
o Capitão Menezes. O Barão da Taquara deixou para o casal a outra parte do Engenho
de Fora, da atual Rua Capitão Menezes até a Rua Comendador Pinto, e a antiga Fazenda
do Macaco, inclusive, o Morro Santa Rosa (localizado no final do Beco Mário Pereira).
O Capitão Menezes nasceu em Portugal e faleceu aos 72 anos de idade em 1923. A
Dona Maria Luiza nasceu na Fazenda da Taquara em 1865 e faleceu no dia 22 de fevereiro
de 1935. Ambos, morreram numa casa que ainda existe na Rua Cândido Benício número
650, que eles construíram na década de 1910, após o grande loteamento das terras.
Até a morte de Dona Maria Luiza, ao redor desse prédio, havia grande área arborizada,
que ia até a esquina da Rua Pinto Teles. O imóvel era conhecido como sítio do
Capitão Menezes.
O Capitão Menezes e Dona Maria Luiza tiveram três filhos: Jerônimo, Bernardino
e Joana. Jerônimo era pianista e compositor. Ele faleceu muito jovem, na gripe
espanhola em 1918. Bernardino vendeu muitas das terras, após a morte do pai em
1923. Ele casou-se com Arinda Sarres e teve um único filho: Sérgio da Fonseca
Menezes. Bernardino faleceu em 26 de março de 1952. Sua esposa e filho morreram
recentemente. A filha do Capitão Menezes chamava-se Joana, mas era conhecida pelo
nome de Jane. Foi uma das moças mais bonita de Jacarepaguá nas primeiras décadas
do século XX. A Jane casou-se com o delegado de polícia Washington Bueno. O casal
teve três filhos: Luciano, Osmani e Maurício. O Washington Bueno faleceu em 17
de maio de 1939. Anos depois, a Joana (ou Jane, como gostava de ser chamada),
voltou a se casar com Carlos Afonso Botelho Filho, com o qual não teve filhos.
A Jane faleceu em 3 de junho de 1949. Os seus três filhos morreram recentemente.
Dois deles têm descendentes na região da Praça Seca. A esposa do Osmani, Dona
Mercedes Surrage Bueno, reside na Rua Japurá, com as filhas Jane e Ângela Maria.
Essas filhas do Osmani vem a ser trinetas do Barão da Taquara e bisnetas do Capitão
Menezes e Dona Maria Luiza. No IPASE do Mato Alto, moram Dona Geralda, esposa
do Luciano; e os filho Roberto, Sérgio e Sônia Regina, que também são trinetos
do Barão da Taquara e bisnetos do Capitão Menezes e Dona Maria Luiza. O Maurício,
quando solteiro, morou com a avó na Rua Cândido Benício, mas, depois de casado,
residiu sempre na Baixada Fluminense. Com a esposa Carmem, que é irmã de Dona
Geralda, teve cinco filhos.
O terceiro filho do Barão da Taquara com Joana Maria da Penna foi Jerônimo Pinto
da Fonseca, que nasceu em 1873 e faleceu em 14 de abril de 1930. O Barão deixou
para ele a parte das terras do Engenho de Fora situada no Tanque, inclusive o
Morro da Reunião. O Jerônimo Pinto foi um dos primeiros administradores do Cemitério
do Pechincha. Casou-se com Elvira Barbosa da Fonseca, com a qual teve oito filhos:
Francisco, Fausto, Nélson, Lauro, Maria José, Olímpio, Dulce e Sílvia.
Um dos primeiros desmembramentos do Engenho de Fora se deu na Estrada de Jacarepaguá,
perto do Largo do Campinho. Nos dias de hoje, pode-se identificar essas terras
pelas seguintes dimensões: ao fundo, o morro; na frente, a Rua Cândido Benício:
e nas laterais, as ruas Francisco Gifoni e Comendador Pinto. O foreiro dessa propriedade
foi mo agricultor Lodovico Teles Barbosa, plantador de café daquela área. O Ludovico
foi bisavô do Geremário Dantas, famoso morador daquelas paragens, desde a infância
no final do século XIX até as primeiras décadas do século XX, quando se tornou
político bastante conhecido. O terreno do atual Externato Geremário Dantas, inclusive,
foi doado, após sua morte, para as irmãs da Sociedade das Filhas de Nossa Senhora
do Sagrado construir esse estabelecimento de ensino. Antônio Geremário Teles Dantas
nasceu no dia 24 de setembro de 1889, na Fazenda do Valqueire, que era cultivada
pelo seu avô materno, Francisco Teles (o Chico Teles). A Fazenda do Valqueire
ficava na Estrada Real de Santa Cruz (hoje Intendente Magalhães). Em
1927, os proprietários da fazenda (a propriedade era alugada ao Chico Teles) realizaram
o loteamento da área, com ruas largas e nomes de flores, que continuou com a designação
de Valqueire. Na
época do nascimento do Geremário Dantas, seus pais já residiam na Rua Cândido
Benício, mas a mãe (Dona Francina Teles de Morais Barbosa) foi para a fazenda
ao aproximara a hora do parto. O pai do Geremário, Francisco Dantas de Morais
Barbosa, foi professor em Jacarepaguá. O casal teve outro filho: Francisco Prisco
Dantas, que faleceu em 1955. O Francisco Prisco morou numa casa, por ele construída
em 1919, ao lado do atual Externato Geremário Dantas, mas que na época era uma
casa vizinha da residência dos pais. Esse imóvel, que até a década de 1980 ,tinha
uma oficina de automóveis nos fundos do terreno, foi vendido pelos descendente
de Francisco Prisco em 1985, e derrubado no mesmo ano. No segundo casamento do
seu pai, com Anália Paranhos, o Geremário teve mais quatro irmãos: Anália, Moacir,
Zenaide e Francisco. Todos habitaram, com Geremário e o pai, a casa da Rua Cândido
Benício. O Geremário foi advogado, jornalista e escritor. Escreveu muito livros
sobre café e política. Foi intendente (vereador) municipal e secretário de fazenda
do antigo Distrito Federal (Rio), nos governos dos prefeitos Alaor Prata e Antônio
Prado Júnior. Em 9 de julho de 1925, casou-se com Maria da Glória de Sá Freire
Dantas, filha do político Milcíades Mário de Sá Freire (prefeito no Governo de
Epitácio Pessoa de 1919 a 1920).Depois de casado, Geremário Dantas foi morar na
Rua José Higino, na Tijuca, bairro em que residiam os pais da esposa. O casal
só teve um filho: Francisco Geremário de Sá Freire Dantas. O Geremário morreu
em Petrópolis em 20 de fevereiro de 1935, vítima de leucemia. No dia seguinte,
foi sepultado no Cemitério do Pechincha. Um ano depois, em 1936, a antiga Estrada
da Freguesia passou a ser chamada de Avenida Geremário Dantas. Sua esposa, Maria
da Glória, faleceu em 1975 aos 82 anos de idade, e ocupa o mausoléu ao lado do
marido, no Pechincha.
Outro político que habitou o Vale do Marangá nas virada do século XIX para o XX
foi o senador Lauro Severiano Müller. Nascido em Florianópolis e diversas vezes
governador de Santa Catarina, ele possuía duas moradias no Rio de Janeiro (a capital
federal), pois, além de senador, foi Ministro da Viação no Governo do Presidente
Rodrigues Alves de 1902 a 1906. Uma residência era nas Laranjeiras. A outra na
atual Rua Florianópolis, onde hoje é a Beneficência Portuguesa. O logradouro,
que se chamava Emília, passou a ser Florianópolis, após a morte de Lauro Müller
em 1926, numa homenagem à cidade em que nasceu. A Rua Emília só não recebeu seu
nome, pois já existia na região a Rua Lauro Müller (atual Rua Dias Vieira), onde
ele possuía um sítio. A
propriedade do senador Lauro Müller na Rua Emília somava cerca de 150 mil metros
quadrados, na qual o ministro construiu, no final do século XIX, uma casa assobradada
com cinco janelas de frente, onde se avistava todo o Vale do Marangá (hoje em
dia, nesse prédio funciona a secretaria e administração dos sanatórios da Beneficência).
Lá o senador catarinense viveu com a família, nas duas primeiras décadas do século
XX. Ele era casado com Dona Luiza Andrade Müller e tinha três filhos: Lito, Laurita
e Antônio Pedro. Além desses, existia um filho de criação, Galdino José da Silva,
que herdou fração das terras do lado da Rua Albano. A maior parte das terras (127
metros quadrados) Lauro Müller vendeu em 27 de outubro de 1923, para a Beneficência
Portuguesa. A entidade manteve o casarão e edificou, em diversas épocas, os atuais
anexos. Quatro desses pavilhões(um misto, dois femininos e um masculino) formam
o sanatório de gereatria. Os outros dois (um masculino e outro feminino) são do
sanatório de psiquiatria. Ao fazer esses seis blocos, a Beneficência acompanhou
a arquitetura do prédio antigo. O sanatório de gereatria foi inaugurado em 1980,
ocupando o lugar do sanatório de tuberculose, que a Baneficência transferiu para
outro bairro. O
sítio do Lauro Müller na atual Rua Dias Vieira foi comparado em 1903 em área desmembrada
do Engenho de Fora e pode ser reconhecido nos dias de hoje por dois retângulos.
Um formado pelas atuais ruas Dias Vieira, Espírito Santo e Carlos Gros, tendo
ao fundo o morro. O outro, pelas ruas Dias Vieira, Espírito Santo, Capitão Menezes
e Maricá. Lauro Müller vendeu essas terras em 1923 à Companhia Proprietária Brasileira,
que as revendeu em loteamento. Outro
ilustre habitante do Vale, no início do século XX, foi o Capitão Francisco da
Silveira Machado, que possuía um sítio na Rua Cândido Benício, com 58 mil metros
quadrados. O Capitão Machado era sobrinho do General Pinheiro Machado, o maior
político brasileiro dos primordios da República. Pinheiro Machado visitava muito
as terras do sobrinho na Praça Seca, onde passeava quase sempre montando o cavalo
Pachá. O general teve morte trágica em 1915: apunhalado pelas costas por Mauro
Paiva, no saguão do Hotel dos Estrangeiros. O Capitão Machado, gaúcho como o tio,
nasceu em 1864. Estabeleceu-se em Jacarepaguá em 1900, na Estrada do Pau Ferro,
no Pechincha. Depois, em 1902, veio para a Rua Cândido Benício, onde expandiu
o trabalho de criador e negociante de animais (burros e cavalos). Vendia os cavalos
ao exército e os burros, à prefeitura. Dos cavalos fora de venda, para seu uso,
o mais famoso foi mo Pachá, que ganhou o 1º Prêmio da Exposição Internacional
de 1908, realizada na Praia Vermelha. O treinador do Pachá era o João Felizardo
Alves, o João Paradela. O Pachá morreu em 1921 e foi enterrado na própria fazendinha
do capitão. As terras do Capitão Machado ficavam situadas desde o atual Supermercado
Leão (7), na esquina da Rua
Capitão Menezes com Rua Cândido Benício até junto às lojas do Osório, na esquina
da Rua Dr. Bernardino. Os fundos davam para a Rua Pedro Teles. As áreas hoje ocupadas
pelo Jacarepaguá Tênis Clube e diversas casas da Rua Capitão Menezes também faziam
parte da fazendinha.
O Capitão Machado faleceu aos 67 anos de idade no dia 17 de março de 1931. Sua
família continuou com as propriedades até 1938, quando começaram os fracionamentos.
A área da Rua Capitão Menezes e Beco Mário Pereira (inclusive, onde é hoje o Jacarepaguá
Tênis Clube) foi loteada pela Companhia Territorial Riachuelo. Os desmembramentos
que deram origem à Rua Guaporanga foram feitos pelo antigo Banco Oliveira Roxo.
A outra grande área, onde ficava a casa-sede da fazendinha, foi vendida a Marcelino
Martins Filho, exportador de café. Em 1953, o Marcelino loteou essas terras, surgindo
as ruas Dr. Jacundino Barreto e General Vóssio Brígido. A primeira residência
desse loteamento foi a do Comandante Francisco Frota, na Rua Dr. Jacundino Barreto,
que ficou pronta em 1956. Baltazar, um dos filhos do Capitão Machado, até a pouco
tempo morava no que restou das terras do pai, em uma casa antiga no meio de grande
terreno, em frente ao Jacarepaguá Tênis Clube. Na década de 1970, ele vendeu esse
imóvel, onde foi construído enorme edifício na Rua Cândido Benício número 1.201,
inaugurado em 1979. O Baltazar atualmente mora na Zona Sul. O Salvador Machado
(o Machadinho), que foi comissário de polícia muito conhecido no bairro, é o único
filho do Capitão Machado que ainda reside na região, na Rua Capitão Menezes. Outros
filhos: Francisco, que mora no Engenho de dentro; Andreia e Idalea. (8)
O principal responsável
pela descaracterização rural da Praça Seca foi sem dúvida o Gastão Taveira. A
partir dos primeiros anos do século XX, com suas edificações, inaugurou a era
urbana da praça. Dono de grande área, em dois lados da Rua Cândido Benício, do
Morro Santa Rosa até a Rua Pedro Teles, ele mandou construir dezenas de imóveis
para alugar, alguns ainda existentes. Em 1910, construiu série de casas na Rua
Cândido Benício, da esquina da Rua Dr. Bernardino até o atual Edifício Charlie
Chaplin; e na Rua Dr. Bernardino até a esquina da Rua Pedro Teles, inclusive,
as três vilas que batizou com nomes das filhas mais velhas: Astrogilda, Mafalda
e Zuleika. Em frente ao atual Edifício Charlie Chaplin, ergueu famoso sobrado
em 1911. Bem antes, porém, em 1901, o Gastão edificou sua residência ao lado do
futuro sobrado. O terreno onde mais tarde surgiria o Esporte Clube Parames também
fazia parte das suas terras. O
Gastão Taveira nasceu em Portugal em 1877. Aos oito anos de idade, acompanhou
seus pais (Joaquim e Leopoldina Taveira) na imigração para o Rio de Janeiro. Anos
depois, começou a trabalhar num quiosque na Praça Mauá. Alguns fregueses eram
negociantes de café. O contato com eles fez com que aprendesse as artimanhas do
ramo. Tornou-se excelente exportador de café e ficou rico ao comprar todo o estoque
do café brasileiro e revender para os Estados Unidos. Foi nesse período que adquiriu
as terras da Praça Seca e as edificou. O Gastão Taveira casou-se com Dona Julieta
da Cunha Bastos Taveira, filha do Dr. Bernardino Marques da Cunha Bastos, autor
do projeto das ruas da Praça Seca. O Dr. Bernardino também era negociante de café
e proprietário de terras na região da Praça Seca. Morava com o genro na Rua Cândido
Benício. O Gastão, além da filhas Astrogilda, Mafalda e Zuleika, teve mais dois
filhos, que nasceram após a construção das vilas da Rua Dr. Bernardino: Dulce
e Bernardino. Vítima de broncopneumonia, Gastão Taveira faleceu aos 41 anos de
idade em 1918. Mais tarde, por causa da inexperiência da família, seus descendentes
perderam os imóveis para Ernest Simon, que vendeu tudo para o Banco Francês. Em
1924, o Victor Parames Domingues comprou do Banco Francês todas as propriedades
do Gastão Taveira na Praça Seca.
O Victor Parames Domingues nasceu na Espanha em 1872. Com apenas 13 anos de idade,
veio para o Brasil trabalhar num botequim. Mais tarde, um tio lhe deixou como
herança um armazém em São Cristóvão. A partir daí, iniciou fortuna. Em 1924, comprou
os imóveis da Praça Seca e os alugou como fazia o Gastão Taveira. O Parames casou-se
com Dona Emília e teve cinco filhos: Leotilde, Victor, Isaura, Laurinda e Afonso.
A Isaura, que casou com o político e médico Gabriel Capristrano Júnior, foi a
única da família que morou nas terras do pai, no antigo sítio do Gastão Taveira,
na Rua Cândido Benício. Na década de 1960, nesse sítio, foram realizadas inúmeras
festas da Fundação da Beneficência Espanhola. O Victor Parames Domingues faleceu
aos 67 anos de idade em 1939. A partir desse ano, o seu filho Victor Parames Fortes
passou a administrar os imóveis até 23 de maio de 1985, quando também faleceu.
O Victor Parames
Fortes, em 1956, derrubou parte do sobrado e levantou o edifício, onde atualmente,
entre outras lojas, existem a Drogas Mil e os laboratórios de análise. Os apartamentos
foram vendidos, e as lojas alugadas. Depois, no início da década de 1960, demoliu
o que restou do sobrado, a fim de construir o prolongamento do edifício, mas houve
problema com a imobiliária e a obra nem sequer começaria. Somente em 1977 é que
o BANERJ abriu sua agência nesse local e paga aluguel à família do Parames. Também
na década de 1970, o Victor Parames Fortes vendeu algumas terras da Rua Pedro
Teles, inclusive o terreno onde ficava o Esporte Clube Parames; e a grande área
da Cândido Benício, onde morou a irmã Isaura com o Dr. Capistrano Júnior. As casas
da Rua Dr. Bernardino (as que imitam tijolinhos) ele reformou e retornou a alugar.
Além desses imóveis, continuam pertencendo à família: os prédios comerciais da
esquina das ruas Dr. Bernardino e Pedro Teles, inclusive a biblioteca; as casas
velhas da Rua Cândido Benício, a partir do curso de idiomas até quase esquina
da Rua Dr. Bernardino; e as lojas comerciais do prédio em frente ao Edifício Charlie
Chaplin, inclusive o BANERJ.
No lugar do Edifício Charlie Chaplin existiu grande área que ia até a Rua Pedro
Teles, cujo proprietário, no início do século XX, foi José Luciano Carneiro, também
dono do terreno da esquina da praça, onde em 1908 construiu os prédios da padaria
Marangá (hoje restaurante Bola Branca), Café Recreio da Praça e da atual farmácia
Droga Musa. Na área do futuro Edifício Charlie Chaplin, o José Carneiro ergueu
um casarão. Ele locou todos esses imóveis, pois continuou residindo em Cascadura,
na Rua da Pedreira. Falecendo em 1929, deixou as propriedades para os filhos:
Luciano Carneiro (muito conhecido como Carneirinho) e Maria José Carneiro, que
prosseguiram no regime de locação. Entre outros, foram inquilinos no casarão da
Cândido Benício: Dr. Manuel de Morais, o Gerard Rocha Duarte (Azinho) e o Cândido
Camacho (cabo eleitoral de prestígio na região). Em 1936, Dona Maria José Carneiro
casou-se com Frederico Garcez e foi morar no Méier. Em 1945, o casal veio para
o casarão da praça, mas não ocupou o terreno dos fundos, que estava arredado pelo
português João José. Este transformou a área locada em fértil chácara, com frente
para a Rua Pedro Teles (atualmente, no local, existe a vila seiscentos). O
chacareiro João José era casado com Dona Nazareth. Os filhos (Augusto, Toninho,
Davi e Esmeralda) freqüentavam a praça e eram conhecidos na região. O Garcez,
já no final da década de 1950, entrou na justiça com ordem de despejo para o João
José. Porém, este ganhou na primeira instância. Na noite desse dia, o João José
festejou e espocou foguetes em direção ao telhado do Garcez. Depois, entretanto,
a própria justiça deu ganho de causa ao Garcez, e português abandonou as terras.
Em 1960, a antiga chácara foi loteada, e começou a surgir a vila número 600 da
Rua Pedro Teles. Em 1968, o casarão da Rua Cândido Benício foi demolido. No local,
inaugurou-se, em 1973, um posto de gasolina da Petrobrás, que durou até 1979,
quando foram iniciadas as obras do Edifício Charlie Chaplin. Após a demolição
do casarão o Garcez com a esposa Maria José, foi morar na Rua Marangá e, depois,
mudou-se para Copacabana. Os descendentes do casal são donos da maioria das lojas
do Edifício Charlie Chaplin, em virtude da permuta do terreno com a construtora.
Também continuam proprietários das três lojas do outro lado da rua: Bola Branca,
Café Recrei9o da Praça e Droga Musa.
Na Rua Pedro Teles, ao lado oposto das terras do José Luciano Carneiro, havia
outra grande área, que se estendia até à Rua Japurá e pertencia a quatro irmãs
cearenses: Maria Ricardina, Maria Henriqueta, Alzira e Henriqueta. Elas, quando
se transferiram do Catete para a Praça Seca, na década de 1910, trouxeram um sobrinho
ainda pequeno, que, mais tarde, se tornaria o proprietário das terras: Lauro de
Matos Mendes. As tias do Lauro morreram bastante idosas no início da década de
1950. Assim, ele herdou a propriedade. Em 1958, loteou a área, com casas de frente
para a Rua Pedro Teles e as três vilas, atualmente números 497, 529 e 595, todas
também da Rua Pedro Teles. Após o loteamento, foi morar na Rua Marangá, onde faleceu
aos 85 anos de idade no dia 22 de novembro de 1980. Na
mesma Rua Pedro Teles, também na década de 1910, Francisco Moreira Felgueiras
construiu, na esquina com a Rua Dr. Bernardino, uma pitoresca residência, muito
conhecida através dos tempos como pavilhão ou castelinho. Na década de 1930, alugava
o pavilhão. Foi nessa época que morou ali o Francisco Sales, pioneiro na profissão
de repórter-fotográfico e chefe de reportagem do jornal integralista "A Ofensiva",
dirigido por Plínio Salgado. O Francisco Sales era irmão de Liberalina Sales da
Silva, casada com o poeta Aníbal Teófilo. Foi o Francisco que criou a filha do
casal (Elisa), após a morte de Aníbal Teófilo, assassinado pelo escritor Gilberto
Amado, no salão nobre do Jornal do Comércio. A Elisa, mesmo depois de casa, continuou
com o tio no castelinho da Rua Pedro Teles. Seus filhos (Aníbal, Alcindo, Arnaldo,
Armando, Alcélio e Alberto) foram criados no enorme terreno do imóvel, que media
12 mil metros quadrados e possuía até um campos de futebol. Em 1936, caiu um raio
na torre do prédio, destruindo-o parcialmente e provocando revoada de andorinhas,
que faziam ninho no sótão. No início da década de 1940, o Felgueiras vendeu o
imóvel para Adriano Batista de Carvalho. Durante a mesma década morou ali o Amílcar,
irmão de Adriano. Os dois eram da Bahia e hospedaram no pavilhão o ator baiano
Zé Trindade, quando este veio para o Rio de Janeiro. O Adriano loteou o terreno
em 1949, quando o pavilhão foi derrubado e surgiram as duas vilas e diversos prédios.
(4)
- Nota para a edição da Internet - O Educandário N. S. da Vitória deixou de funcionar
em 1999. Dois anos depois, mesmo tombado pelo Patrimônio Histórico,
o prédio foi praticamente demolido pelos responsáveis por um loteamento
irregular no local. (5)
-Nota para a edição da Internet - As terras do IPASE do Mato Alto passaram para
a administração municipal no início da década de 1990. A Dona Dulce Portas .faleceu
em 1998. (6)
- Nota para a edição da Internet - A carvoaria da Rua Japurá deixou de funcionar
ainda na década de 1980, quando o prédio foi ocupado por uma locadora de vídeo,
que também encerrou suas atividades. (7)
- Nota para a edição da Internet - O Supermercado Leão acabou. Atualmente ocupa
o mesmo lugar o Supermercado Mundial. (8)
- Nota para a edição da Internet - Atualmente, todos os filhos do Capitão Machado
já faleceram. |
| Parte
3 A
Praça 25 de Outubro, atual Praça Seca, no começo do século XX, mais parecia terreno
baldio, com altos e baixos e muitos buracos. Quando chovia, tornava-se verdadeiro
pântano por dias seguidos. Em 1901, com carros puxados a burros, o Gastão Taveira
mandou aterrá-la e aplaná-la, criando-se ali, mais tarde, o campo de futebol da
Associação. Em 12 de setembro de 1918, no Governo do Prefeito Amaro Cavalcânti,
o nome passou a ser Praça Barão da Taquara, em homenagem ao barão, que havia falecido
em agosto daquele ano. A Praça Barão da Taquara foi por muitos anos a maior em
área do antigo Distrito Federal, com 27.904 metros quadrados. Atualmente, é a
Segunda do município, pois perde, desde 1957, para a Praça Primeiro de Maio, em
Bangu, que tem 32.742 metros quadrados. A primeira grande reforma aconteceu em
1928 no Governo do Prefeito Antônio Prado Júnior. Somente foi restaurado o lado
direito. O outro apenas capinado e plantada as atuais mangueiras. Com a urbanização,
acabou-se com o campo da Associação, mas a praça ganhou o bonito e atual coreto,
que (com exceção da parte de alvenaria) foi trazido pelo Prefeito Prado Júnior
da antiga Praça Onze de Junho. A praça também foi ornamentada por jardins, cercados
por bancos, colocados no logradouro pela primeira vez.
A Segunda grande reforma foi feita em 1936, iniciadas pelo Prefeito Pedro Ernesto
Batista e terminada, no mesmo ano, pelo Prefeito Cônego Olímpio de Melo. As obras
foram praticamente do lado oposto do coreto, que, em 1928, ficou sem urbanização.
Esse lado da praça estava bastante abandonado na ocasião, com mato bem alto e
as poças d'água formando imenso brejo. Com a nova remodelação, a Praça Barão da
Taquara rejuvenesceu e tornou-se uma das lindas da capital federal, com 5.198
metros quadrados de área gramada. Os arquitetos de 1936 (David Xavier de Azambuja
e José da Silva Azevedo Neto) orientaram seu trabalho em estilo francês, principalmente
os três caramanchões. O lago (menor do que o atual) e a escultura do casal de
meninos com guarda-chuva aberto. Essa estátua, por muito tempo, foi o cartão de
visita da praça. Era muito linda, toda de bronze: o menino segurava o chapéu,
com muito cuidado, para não molhar a menina, enquanto ela com pano (retratado
em bronze) na cabeça repousava o braço no ombro dele (o cabo era realmente um
cano. A água subia e descia pela superfície do chapéu, imitando a chuva). Essa
obra de arte sumiu misteriosamente. No final da década de 1950, uma feia e grande
jarra a substituiu. Atualmente, no mesmo lugar ocupado pelos meninos de bronze,
existe uma escultura de uma moça romana. Outro aspecto interessante da reforma
de 1936 foi a colocação de bancos de ferro com tampo de madeira maciça, que também
desapareceram. No centro da cidade, Praça Tiradentes e Rua São José, tem bancos
iguais, mas não se sabe se foram transferidos daqui para lá. A
terceira grande reforma da praça foi em 1977, quando foi aumentado bastante o
tamanho do lago, construindo chafarizes e uma casa de máquina para seu funcionamento.
Também foram colocados os bancos de madeira, o que tornou a praça funcional, mas
sem o romantismo e beleza da reforma de 1936. Em 1979, o Prefeito Israel Klabin
mudou o nome de Praça Barão da Taquara para Praça Seca. Alegando que o último
topônimo era mais conhecido. Uma atitude lamentável e que desrespeita a memória
do Barão, que vivo fez muito pela população de Jacarepaguá. Tudo podia continuar
com era antes: o nome de Praça Barão da Taquara e o apelido Praça Seca, pois nunca
ninguém se confundiu ou se prejudicou com tal situação. (9)
O
busto do Barão foi inaugurado no dia 29 de outubro de 1939, com a presença do
Prefeito Henrique de Toledo Dodsworth. A solenidade fez parte das comemorações
do centenário de nascimento do Barão da Taquara, que nasceu em 25 de outubro de
1839. A cerimônia foi transferida do dia 25 de outubro, uma Quarta-feira, para
o dia 29 de outubro, que caiu num Domingo. Durante uma semana, houve muitas festas
em Jacarepaguá, para recordar a data. A fim de organizar os festejos, foi criada
grande comissão, presidida pelo Dr. Gurgel do Amaral, sendo os demais membros
os seguintes: Ernâni Cardoso, Pádua Vasconcelos, Onofre Oliveira, Edmundo Bitencourt,
Pedro Leitão de Aquino, Adalberto Gardel, Nélson de Barros Vieira do Couto e Manoel
Ventura da Fonseca e Silva. O busto do Barão foi feito pelo escultor Benevenuto
Berna.
Durante vinte anos, no período de 1946 a 1966, a praça possuiu uma estação meteorológica,
localizada no meio do gramado, quase em frente ao atual Supermercado Leão (10).
Foi uma época em que a Praça Barão da Taquara era constante no noticiário jornalístico,
por apresentar as mais baixas temperaturas da cidade. A mínima registrada foi
de 8.6 graus no dia 20 de junho de 1952, quando chegou a cair granizo. O piso
da praça ficou branco, coberto de pedras de gelo. Recentemente, em janeiro de
1980, também caiu gelo na praça, mas com menos intensidade. Outra temperatura
muito baixa apontada pela estação meteorológica da praça foi em 13 de outubro
de 1947, cujo termômetro acusou 8.8. A região da Praça Seca também teve problemas
com a natureza em janeiro de 1966, quando o Grande Rio sofreu com as chuvas, que
provocaram muitas tragédias. No ano seguinte, em fevereiro de 1967, aconteceram
novas enchentes, provocadas pelas chuvas, que, como no ano anterior, foram verdadeiros
aguaceiros dias seguidos. No
início da década de 1940, foram colocados os trilhos para os bondes dar a volta
pela praça do lado onde hoje é o Country Clube de Jacarepaguá. Algum tempo após
a inauguração desse retorno, um bonde descarrilou, na esquina da Rua Barão com
a praça, e entrou na bilheteria do Cine Ipiranga. Noa anos da década de 1930,
havia um desvio na própria Rua Cândido Benício, nas imediações onde hoje é o Supermercado
Sendas. A operação era demorada, mas sem causar complicações devido ao diminuto
trânsito da época. Na década de 1960, após os bondes saírem do tráfego, um ficou
bastante tempo em exibição pública na praça, em frente ao Country Clube, mas foi
destruído pelo vândalos. No
tempo em que a praça não estava urbanizada e só existia o campo de futebol da
Associação, ficaram famosas as missas campais, que o Francisco José de Souza,
o Chico do botequim, mandava realizar no local. Na década de 1930, o Deputado
Ernâni Cardoso também promoveu grandes festas com holofotes, coisa rara na época.
Durante a II Guerra Mundial, o povo de Jacarepaguá entregou a Bandeira Nacional
para a tropa da Força Expedicionária Brasileira, numa cerimônia na Praça Barão
da Taquara. Essa bandeira percorreu os campos de batalha da Itália, empunhada
pelos soldados da FEB, inclusive na tomada do Monte Castelo. Na volta, no Dia
da Vitória, a bandeira fez parte do desfile na Avenida Rio Branco. Muitos dos
pracinhas moravam na região da Praça Seca. O Hélio, da Rua Florianópolis, atualmente
oficial de justiça (11),
por exemplo, foi um dos sobreviventes do torpedeamento do navio Itagiba em 1942.
Algumas ruas da região são homenagens ao heróis da II Guerra Mundial: Comandante
Luís Souto, Comandante Simião, Sargento Luís Pires e Sargento Sebastião Chaves.
A Rua Tenente Frederico Gustavo, antes chamada Travessa Itapuca, é em memória
do aviador da FAB, Frederico Gustavo dos Santos, que morreu em combate no dia
13 de abril de 1945. Seu avião foi abatido por estilhaços do depósito de munições
que ele mesmo explodira. Quando terminou a guerra, houve carnaval na praça, com
muitos blocos. A antiga Escola de Samba Corações Unidos, por exemplo, desfilou
da Rua Pinto Teles até a Praça Barão da Taquara.
Nas primeiras décadas do século XX, toda a área em frente da praça do lado o0nde
hoje está o coreto era grande pasto de criação de carneiros do Major Barreto,
que ocupava um quarteirão inteiro até a Rua Gastão Taveira. Depois, o major desmembrou
e vendeu grandes lotes, quando começaram a surgir as edificações. Antes da inauguração
da Escola Honduras, existia no mesmo local a residência do dentista Dr. Sílvio
Ferreira. Ao lado, na esquina da Rua Baronesa, o Professor Manoel Castilho, fundador
do Instituto Tamandaré, fez sua residência. Depois, alugou para o Gerard Rocha
Duarte (Anzinho) e para o Dr. Fiuza de Cerqueira. Atualmente, reside ali o comerciante
José Gonçalves, que demoliu a casa velha e levantou a atual. O prédio do outro
lado da Escola Honduras, o Edifício Nair, foi construído pelo Dr. Otacílio Dantas
Barbosa dos Santos, que o batizou com o nome da esposa: Nair Pires Ferreira. O
Dr. Otacílio era primo do Geremário Dantas. Sua mãe, Maria Dantas Barbosa dos
Santos, era irmã do pai do Geremário, o Professor Francisco Dantas.
Na praça, onde hoje é a Escola Armando Lombardi, morava o fiel da alfândega Joaquim
Gonçalves Fernandes Pires, no início do século XX. Foi ele que também construiu
a casa ao lado da escola, que foi derrubada para dar lugar a atual agência do
Banco Bamerindus (12).
Nessa casa, na década de 1930 e início da de 1940, residiu a Dona Sofia. Depois,
ela foi ocupada pela família Montenegro Cairrão, cujos irmãos Marialvo, Mauro
e Marlene são descendentes por parte materna do Joaquim Pires. Outros da progênia
do Pires, habitavam o outro lado da praça: Dona Narcisa (mãe do Vavá), onde hoje
é o Edifício Solar da Praça (ao lado do antigo Supermercado Leão); e o Mário Pires,
que ainda mora numa residência da Igreja Batista (13).
Ainda na década de 1930, ao lado da casa da Dona Sofia, existia a chácara do Daniel.
Esse lote, onde hoje tem um edifício, também pertenceu ao Américo Bebiano, proprietário
do Cine Ipiranga. O dono do terreno do atual Country Clube de Jacarepaguá foi
Eduardo Botelho, que o vendeu para o Afonso Nunes (famoso leiloeiro). Nas décadas
de 1940 e 1950, o Botelho alugou a casa principal da sua área para Hermínio Pessoa
da Silva. A outra parte, que ficava numa das laterais, foi locada para o espírita
Machado. O terreno ao lado, hoje pertencente `Prefeitura, foi comprado, no início
do século XX, pelo casal Ezequiel e Inácia Barbosa diretamente ao Barão da Taquara.
A Dona Inácia era muito conhecida na região pelo Dom de rezadeira. Após sua morte,
a propriedade passou para a filha Zilda Barbosa do Nascimento, casada com o português
Antônio Manoel do Nascimento. Os filhos da Dona Zilda (Glória, Celso, Pinião e
Ninico) foram criados na praça. O Antônio Nascimento faleceu em 1944; e a Dona
Zilda, em 1965. Mas antes da morte de Dona Zilda, a família perdeu o terreno para
a Prefeitura do antigo Distrito Federal, em 1957, por não pagar os impostos. O
atual edifício da Rua Barão número 933, em frente à praça, foi erguido na década
de 1920 por Manoel Magalhães Bastos, no local onde existia uma vila de quartos.
O Manoel Bastos também construiu as lojas comerciais da praça, na Rua Barão, com
exceção do botequim na esquina com a Rua Cândido Benício (14),
que foi feito por Souza Almeida, no começo do século XX. O prédio da Rua Cândido
Benício, onde hoje está o Big Bar e a Sapataria Primorosa, bem como a vila São
José, na Rua Cândido Benício número 2001, também foram levantados por Manoel Bastos.
O imóvel da esquina da Rua Barão com a Cândido Benício, onde hoje funcionam as
lojas do açougue, Lanchonete Ramalhense, Bel-Dete e relojoaria (14), edificados
por Souza Mendes, foi o botequim do Francisco José de Souza, estabelecido ali
a partir de 1910. O Chico, como era conhecido, morava nos fundo do atual açougue,
com a esposa Maria Augusta dos Reis de Souza e os oito filhos: José, Elza, Sílvio,
Francisco, Carlos, Mário, Orlando e Paulino, todos criados na praça. O Chico mandou
vir de Portugal, ainda na década de 1910, o irmão da esposa, José dos Reis. Depois,
nos anos da década de 1920, trouxe o outro da esposa, o Bernardino dos Reis. O
José e Bernardino, mais tarde, após a morte do Chico, continuaram com o botequim.
Do outro lado da rua, a série de lojas que tem na esquina o Sorvetão, foi construída
também no início do século XX por Jorge Félix Faure. O seu filho, Dr. José Faure,
muito conhecido na região, possuiu consultório médico ao lado da antiga farmácia,
que já se chamou Farmácia Faure, e Drogaria Abolição. Outros filhos do Jorge Faure:
Dr. Antônio, Glória, Amélia, João e Élida. A Élida ainda mora numa das duas casas
da família na Rua Barão ao lado do Sovertão. A outra foi vendida para o Antônio
Correia, antigo comerciante da Padaria Marangá (15).
O Jorge Faure alugava as lojas, mas ocupou uma delas no ramo de artigos para a
costura. Esse armarinho, depois, passou a ser dirigido pelo marido da sua filha
Glória, o Francisco Chimeli.
A Rua Cândido Benício, que divide a praça ao meio, atravessa todo o Vale do Marangá,
fazendo esquina com outras vinte ruas. Muitos homenageados desses logradouros,
como o próprio médico Cândido Benício, residiram na região. Outros, talvez até
nunca tenham passado por aqui. Vejamos quem foram as pessoas que emprestaram seus
nomes para as ruas que cortam a Cândido Benício, do Campinho até o Tanque:
Rua Francisco Gifoni - farmacêutico famoso, que faleceu em 1934 aos 68
anos de idade. Pioneiro a introduzir no Brasil os extratos fluídos, que só existiam
na Europa. Em 1935, o trecho inicial da Rua Teles recebeu seu nome. Rua
Comendador Pinto - Comendador Francisco Pinto da Fonseca, pai do Barão da
Taquara. Rua
Ana Teles - Ana Teles Rudge, filha do Barão da Taquara. Rua
Pinto Teles - médico Francisco Pinto da Fonseca Teles, filho do Barão da Taquara.
Rua Dias Vieira - João Pedro Dias Vieira, falecido em 1870. Foi Ministro da Marinha
durante a Guerra do Paraguai. A rua recebeu seu nome em 1993. Antes, era Rua Lauro
Müller. Rua
Capitão Menezes - Capitão Jerônimo Alpoim Menezes, casado com Dona Maria Luiza,
filha do Barão da Taquara. Beco
Mário Pereira - Um grande erro. Esse logradouro foi em homenagem à parteira
Maria Pereira, que morou ali no século XIX e primeiras décadas do século XX. Maria
Pereira fez trabalho de parto em quase todas as pessoas nascidas naquele período
na região da Praça Seca. Não se sabe quem trocou o nome de Maria por Mário. Rua
Guaporanga - planta brasileira medicinal da família das mirtáceas. A rua ia
se chamar Aracuã (nome tupi de ave da família dos cracídeos), mas, por sugestão
de um dos seus primeiros moradores, o farmacêutico homeopata Henrique Bandeira,
pai do ex-massagista do Flamengo e Seleção Brasileira João Carlos Bandeira, foi
oficializada como Guaporanga. Rua
Dr. Jacundino Barreto - engenheiro e professor. Foi responsável pelas obras
de saneamento da Baixada Fluminense. Lecionou no Colégio Dom Sebastião Leme e
foi diretor do Ginásio Santa Cruz. Faleceu em 1935. Foi dado seu nome à rua em
1953. Rua
General Vóssio Brígido - General Rodolfo Vóssio Brígido, nascido no Ceará.
Foi professor de Português no Colégio Militar, onde começou a lecionar no início
do século XX, quando era tenente. Faleceu em 1951. O fato interessante é que,
após seu falecimento, alunos do Colégio Militar, num abaixo-assinado, pediram
à Prefeitura Que a antiga Rua Universidade, que ficava perto do colégio, recebesse
o nome do general, que foi seu primeiro habitante. Mas, sem que ninguém soubesse
o motivo, essa rua foi oficializada com o nome de Deputado Soares Filho em 1953.
No mesmo ano, passou a ser chamada de General Vóssio Brígido a rua da Praça Seca.
Rua Dr. Bernardino
- engenheiro Bernardino Marques da Cunha Bastos, autor do projeto que traçou as
ruas da região da Praça Seca. Morou na Rua Cândido Benício. Rua
Baronesa - em homenagem à Baronesa da Taquara. Rua
Barão - em homenagem ao Barão da Taquara. Rua
Florianópolis - lembra a capital de Santa Catarina, por causa do Ministro
Lauro Müller, nascido em Florianópolis e que morou nessa rua. Antes, se chamava
Emília, em homenagem à Dona Emília Joana Fonseca Marques, filha do Barão da Taquara.
Rua Albano
- Albano Raimundo da Fonseca Marques, marido de Dona Emília. Estrada Comandante
Luiz Souto - Luiz Felipe de Figueiras Souto, oficial da Marinha de Guerra, um
dos 337 mortos no acidente com o Cruzador Bahia, no dia 4 de julho de 1945, durante
a II Guerra Mundial. O antigo Caminho da Chácara recebeu seu nome em 1951. Rua
Godofredo Viana - senador pelo Estado do Maranhão, durante a década de 1930.
Freqüentava muito a casa do Galdino José da Silva, na Rua Albano. Foi justamente
por iniciativa do Galdino que o antigo Caminho do Sapê passou a se chamar Godofredo
Viana em 1934. Ladeira
da Reunião - por causa do próprio Morro da Reunião. Rua
Nuporanga - antiga Rua Batista Pereira. Recebeu o nome atual em 1942 em homenagem
à cidade de Nuporanga, em São Paulo. Nuporanga é palavra tupi-guarani que significa
campo belo. Rua
Elvira da Fonseca - esposa do Jerônimo Pinto da Fonseca, filho do Barão
da Taquara. A
Rua Pedro Teles, paralela à Cândido Benício,
antiga Estrado do Marangá de Baixo, é em memória do tio do Barão da Taquara, Pedro
Antônio Teles Barreto de Menezes, que foi irmão de Dona Ana Maria Teles de Menezes,
mãe do Barão. A Rua Japurá tem o significado em tupi-guarani de mentira.
No início do século XX, seu nome era Rua Adelaide (esposa do Dr. Bernardino).
A Rua Içá também vem do tupi-guarani. Içá é um tipo de formigas cheias
de ovos, que surgem em bandos na época do calor. Os indígenas comiam os içás fritos
com um pouco de sal. Japurá e Içá são nomes de rios na Amazônia. A Rua Capitão
Machado é em homenagem ao fazendeiro local, Capitão Francisco da Silveira
Machado. A Rua
Maricá foi aberta em 1925, com apenas 200 metros após a Rua Capitão Menezes.
Não tinha seguimento e terminava na Rua Lauro Müller (atual Dias Vieira). A Lauro
Müller ia da Rua Cândido Benício até a Rua Araruama (hoje Espírito Santo). Essas
três ruas são do loteamento de 1925, nas terras do Capitão Menezes. Em 1933, é
que a Rua Lauro Müller passou a ser chamada de Rua Dias Vieira, estendendo-se
novo trecho até a Rua Japurá, que também em 1933 teve prolongamento a partir da
Rua Capitão Menezes. As aberturas desses logradouros acabaram com o antigo campo
de futebol do Marangá. A Rua Araruama trocou o nome para Rua Espírito Santo
em 1948. As ruas Maricá e Araruama tiveram esse nome numa alusão às duas lagoas
do Estado do Rio de Janeiro. São palavras do tupi-guarani. Maricá significa espinheiro
ou planta espinhosa. Araruama, comedouro ou bebedouro das araras. A Rua Maricá
em 1935 teve grande prolongamento em direção ao Campinho, unido-se com a Rua Teles.
A Rua Teles é bem antiga e vem desde o início do século XX. Ao contrário
do que se pode pensar, ela não é homenagem à família do Barão, mas sim da ascendência
do Antônio Geremário Teles Dantas, donos das terras daquele trecho na época da
criação da rua. A
antiga rua Itapuca, antes conhecida como Rua 21 de Maio, passou a se chamara Gastão
Taveira em 1948, numa justa homenagem, embora tardia, ao personagem de muita
importância no desenvolvimento da região. A Rua Parintins na década de
1920 tinha o nome de Rua Lorina. A Estrada do Macaco dividiu-se em diferentes
épocas, formando dois logradouros. Em 1934, surgia a Rua Luís Beltrão,
originada pelo final dessa estrada (da atual Quiririm até a Parintins) e pelo
Caminho do Valqueire. Em 1941, outro trecho da Estrada do Macaco, o mais longo,
recebeu o nome de Rua Quiririm. A Rua Jerônimo Pinto lembra Jerônimo
Pinto da Fonseca, filho do Barão da Taquara. A Rua Francisco recorda um
dos netos do Barão, o advogado Francisco Taquara da Fonseca Teles, filho de Francisco
Pinto da Fonseca Teles. A Rua Guarapes foi oficializada em 1933. Antes,
chamava-se Elza, outra neta do Barão, Elza Teles Rudge, filha de Ana Teles Rudge.
A Travessa Pinto Teles, no início do século XX, era Rua Maria Luiza, em
homenagem à filha do Barão, Maria Luiza da Fonseca Menezes, esposa do Capitão
Menezes. Em 1954,
nas ruas Luís Beltrão, Baronesa, Marangá e Capitão Menezes, realizaram-se escavações
para colocações de enormes manilhas, com diâmetro de 1 metro e 75 centímetros,
que foi parte da obra da Adutora Henrique Novaes, cujos percurso total é do Rio
Guandu até a represa dos Macacos, onde abastece de água toda a Zona Sul. A adutora,
na sua passagem, também fornece água para outras localidades, inclusive à região
da Praça Seca, através do reservatório do Morro da Reunião, no Tanque. Quando
a escavação da gigantesca vala chegou na esquina da Rua Cândido Benício, o trânsito
foi desviado. Mas os usuários dos bondes tinha que fazer baldeação. Os bondes
vinham de Cascadura até em frente ao atual Chopão (16).
Ali os passageiros saltavam e pegavam outro bonde estacionado no meio da praça,
a fim de continuarem a viagem à Freguesia ou Taquara. Houve muitos acidentes durante
a construção da adutora na Praça Seca. O mais grave foi a morte de um operário,
que trabalhava no fundo do valão na Rua Baronesa, em frente ao terreno do General
Lauro Dias Barreto, quando houve um desmoronamento de terra em cima dele. A propriedade
do General Barreto era onde existe os imóveis da Rua Baronesa números 716, 729,
730 (a vila) e 750 (a Academia Corpus). O terreno era bem grande, com um casarão
no centro. Tinha duas frentes: na Rua Baronesa e na Rua Barão.
Há outra adutora do Guandu na região, que percorre totalmente a Rua Albano. Foi
realizada no Governo de Carlos Lacerda e inaugurada em 1965 pelo então presidente
do Departamento de Águas e Esgotos (atual CEDAE) Veiga Brito. Ao contrário da
que passa pela Rua Baronesa, a adutora da Rua Albano foi escavada em túnel, cujas
dimensões médias são de quatro metros de largura por três de altura. Ela também
abastece a Zona Sul e tem diversas interligações no trajeto. Uma delas é na Rua
Urucuia, com saída para a Henrique Novaes (Rua Baronesa), para o Juramento e para
a Barra da Tijuca. No final da Rua Albano, desvia em direção à Rua Barão, onde
atravessa o Morro Inácio Dias. No local, a partir de 1963, surgiram os primeiros
barracos da atual Favela São José, levantados pelos operários durante a construção
do túnel. (9)
- Nota para a edição da Internet - Atualmente a praça tem dois nomes oficiais:
Praça Barão da Taquara (lado do coreto) e Praça Seca (lado oposto). Este último
lado chegou a ser chamado de Praça do Maçon, mas ficou por pouco tempo e voltou
a ser Praça Seca. (10)
- Nota para a edição da Internet - Não existe mais o Supermercado Leão, na esquina
da praça com a Rua Barão (lado do coreto). (11)
- Nota para a edição da Internet - O Hélio faleceu em 1997. (12)
- Nota para a edição da Internet - O Banco Bamerindus foi comprado pelo HSBC,
que ocupa o mesmo prédio. (13)
- Nota para a edição da Internet - A Igreja Batista comprou a casa do Mário Pires
e construiu um prolongamento da antiga igreja ao lado. (14)
- Nota para a edição da Internet - O prédio do botequim (Lanchonete Ramalhense),
Bel-Dete e relojoaria foi demolido em 1996. (15)
- Nota para a edição da Internet - Onde era a drograria funciona hoje a MS Esporte
e Lazer. Antes, ocupou a loja a casa de confecções Bel-Dete. A Élida
faleceu. A casa que ela morava ainda existe e está alugada pela família. A casa
do Antônio Correia é atualmente a Academia Mergulhe Fundo, dirigida por sua filha.
(16)
- Nota para a edição da Internet - O antigo Chopão virou pizzaria, que também
encerrou as atividades. Depois, foi a Ótica Anny. Atualmente,
é a Ótica Explend. |
| Parte
4 Mesmo
em forma elementar, o ensino não existiu praticamente em Jacarepaguá, na primeira
metade do século XIX. A população escassa, essencialmente agrícola, transmitia
aos filhos conhecimentos sobre os segredos da fertilização da terra ao invés de
instruí-los sobre cultura geral. Somente filhos de alguns fazendeiros é que recebiam
instrução escolar. Mas as aulas eram nas sedes dos próprios engenhos, com professores
particulares. A primeira escola pública de Jacarepaguá foi criada em 4 de janeiro
de 1842. Provavelmente ficava na Porta D'Água, na Freguesia, que era o local mais
povoado do bairro naquela época.
Na região da Praça Seca, as escolas primárias só apareceram no início do século
XX. Um grande incentivador do ensino na região foi o pai do Geremário Dantas,
o Professor Francisco Dantas de Morais Barbosa, conhecido como Chico Dantas. Foi
diretor de várias escolas públicas. Na época, só havia o primário na Praça Seca.
Quem quisesse prosseguir com o curso secundário teria que estudar no Centro da
cidade ou na Tijuca, pois nos subúrbios não existiam tais estabelecimentos. O
próprio Geremário Dantas se formou no Colégio Pedro II. Com a inauguração do Colégio
Arte e Instrução pelo Professor Ernâni Cardoso em 1905, o problema melhorou. Mas
muitos continuaram ainda a estudar na cidade em regime interno, pois o Colégio
Arte e Instrução não absorveu toda a população necessitando do curso ginasial.
O Colégio Souza Marques só foi fundado bem mais tarde, em 15 de janeiro de 1929.
Nas primeiras décadas do século XX, a Praça Seca contava com três estabelecimentos
de ensino primário público: Escola Marquês do Paraná, onde ficou famosa a diretora
Dona Mariquinha (ficava na Rua Baronesa número 308, onde hoje é o Edifício Solar
Baronesa); a Escola Bahia, na Rua Cândido Benício, quase esquina da Rua Pinto
Teles, no terreno do atual Centro Integrado de Educação Pública, mais conhecido
como Brizolão; e a Escola Haiti, localizada onde hoje é a Escola Dom Armando Lombardi.
Uma professora particular (filha do Júlio Bastos) a Dona Ilma Bastos era muito
famosa na época. Ela dava aulas para pequena turma em sua residência na Rua Cândido
Benício, atualmente ocupada pelo edifício número 1.270 em frente à Rua Guaporanga.
O Instituto Pará de propriedade da Dona Idálea, porém, era o maior estabelecimento
de ensino particular da época. Situava-se na Rua Cândido Benício, esquina com
a Rua Ana Teles ao lado do convento das freiras. Hoje existe ali um prédio residencial
com lojas comerciais.
Em 16 de maio de 1933, Manoel Alves Castilho fundou o Instituto Tamandaré e tornou-se
o pioneiro do ensino secundário na região da Praça Seca. O prédio do colégio era
no centro de grande área na Rua Baronesa, atrás da Padaria Marangá (atual Restaurante
Bola Branca) e da casa antiga, onde hoje funciona a Clínica de Ortopedia e Reumatologia
(17).
O instituto ocupava exatamente o local onde hoje existe um pequeno edifício comercial
e uma série de residências, inclusive as da vila. Na década de 1940, quando o
proprietário era José Brandão Pereira de Azevedo, a Dona Darci Vargas (esposa
de Getúlio Vargas) inaugurou uma seção regional da Legião Brasileira de Assistência
no Instituto Tamandaré, que foi presidida por Dona Marina Dias, esposa do Ministro
Álvaro Dias. Na época, o próprio Presidente Getúlio Vargas visitou o Tamandaré
e distribuiu brinquedos para as crianças. A presença do Presidente da República
na Praça Seca foi uma grande festa, principalmente quando desfilou em carro aberto
pela Rua Cândido Benício. Em 1945, José Brandão transferiu os direitos do colégio
para Cândido da Silva. Este, em 1955, o revendeu para atual proprietária, Marina
Martins Ribeiro (18).
No mesmo ano de 1955, a Dona Marina transferiu o colégio para a Rua Florianópolis
número 1.360 (a casa do seu pai, Mário Martins Ribeiro). Anos depois, o Instituto
Tamandaré passou a funcionar no atual local, na mesma Rua Florianópolis número
1.610. Para
substituir as três pequenas escolas municipais do início do século XX, foi construída
a Escola Honduras, inaugurada em 7 de março de 1935 pelo Prefeito Pedro Ernesto
e o Diretor do Departamento de Educação Primária, Dr. Anísio Teixeira. A primeira
diretora foi a Professora Dulce Viana. A Escola Honduras é a mais tradicional
da Praça Seca, com muitas professoras famosas, entre as quais a Dona Dyla, Dona
Maria Paulina e as irmãs Fernandes (Alfredina, Edith, Jacira e Maria da Conceição),
que moraram na esquina das ruas Cândido Benício e Florianópolis, onde hoje é a
Adega Bosque da Praça.
Também na década de 1930, com a cobertura da casa da criança, os irmãos lassalistas
(religiosos seguidores de São João Batista de La Salle) iniciaram em 1937 grande
obra educacional em Jacarepaguá ao fundarem o Instituto São Luiz na Rua Barão,
onde atualmente é o Colégio Sobral Pinto. Os seis pavilhões, incluindo a capela,
salão de festas e oficinas para o ensino profissional, que ainda existem, foram
feitos pelos irmãos na década de 1940. Em 17 de janeiro de 1953, o Instituto São
Luiz da Rua Barão acabou, em virtude da transferência dos lassalistas de Jacarepaguá
para Niterói, onde fundaram o atual Instituto Abel.
Na década de 1940, na esquina das ruas Dr. Bernardino com Marangá, havia a escola
da Dona Arminda. Além das salas de aulas, ela dava aulas também debaixo de uma
mangueira, quando o tempo permitia. Em 8 de março de 1954, o Professor João Fernandes
da Cruz fundou o Educandário Nossa Senhora da Vitória, que ainda funciona no mesmo
imóvel, na Rua Cândido Benício número 2.610, em frente ao IPASE (19).
O prédio foi construído pelo médico Cândido Benício em 1885. Em 24 de agosto de
1955, também na Rua Cândido Benício, próximo ao Largo do Campinho, em terreno
doado em testamento por Antônio Geremário Teles Dantas, foi inaugurado o Externato
Geremário Dantas, que pertence às irmãs da Sociedade das Filhas de Nossa Senhora
do Sagrado Coração.
O Professor Antônio Borges Hermida, famoso em todo o Brasil pelos livros didáticos
de História, antigo morador da Rua Cauibi (hoje Rua Interlagos), na Praça Seca,
fundou em 1969 o Ginásio Borges Hermida na Rua Cândido Benício. Em 1974, esse
estabelecimento de ensino foi comprado pela Professora Maria Aparecida Fonseca
Soares, que mudou o nome para Escola Técnica DET (Deus É Tudo). Em 1984, porém,
passou a se chamar Escola Técnica Fonseca Soares. O motivo da troca de nome foi
por causa do curso rival TED (Tempo É Dinheiro), que tinha patente registrada
e queria acionar na Justiça a Dona Maria Aparecida. A
Escola Santa Edwiges foi criada em 1968 por Mesquita Bráulio. Depois, surgiu a
SUSE, que chegou a atingir todo o complexo de ensino, desde as primeiras letras
até o universitário. Outro estabelecimento de ensino superior da região foi o
Centro Unificado Profissionalizante (CUP), que funcionou na Rua Albano de 1976
a 1982. Atualmente, essa faculdade tem sede na Lagoa, na Avenida Epitácio Pessoa,
com o nome de Sociedade Educacional Cidade. Na Rua Albano, no local da antiga
CUP, há uma firma de telecomunicações, a Cook Eletric. No
ano de 1968, também surgia o Centro Educacional SIMAVI, sob a direção do Professor
Gil Ubiratan Pires Vieira, situado na Rua Cândido Benício e que durou até 1980.
Nesse ano, no dia 17 de novembro, o Professor José de Freitas inaugurou o Colégio
Atlas (de ensino técnico), que ocupa o mesmo prédio do antigo SIMAVI. (20)
Na
década de 1960, no Governo Carlos Lacerda, foram reformados e inauguradas diversas
escolas públicas da região da Praça Seca. Em 27 de agosto de 1962, foi inaugurada
as reformas da Escola Evaristo da Veiga, na Rua Capitão Menezes, que foi fundada
em 17 de maio de 1937 em homenagem ao grande jornalista brasileiro do século XIX
Evaristo da Veiga. Outro prédio reformado foi do antigo Instituto São Luiz da
Rua Barão que se transformou no Ginásio Sobral Pinto (criado por decreto em 5
de novembro de 1963, no mês em que o jurista Heráclito da Fontoura Sobral Pinto
completava 70 anos de idade). O Ginásio Sobral Pinto começou a funcionar em 1964.
Em 9 de setembro de 1964, foi inaugurada a Escola Municipal Dom Armando Lombardi,
cuja primeira diretora foi a Professora Nely Cunha Marcelo. O prédio foi bastante
ampliado e reformado e já abrigou em tempos passados a Escola Haiti e um posto
de saúde escolar. Em homenagem ao político (Ministro do Trabalho no Governo do
Presidente Dutra) e empresário da indústria de vidro Morvan Dias de Figueiredo
foi fundada em 30 de março de 1965 a Escola Municipal Morvan de Figueiredo. Localizada
na Rua Barão, junto ao INSS. No Governo Negrão de Lima, no dia 15 de dezembro
de 1970, foi inaugurada a Escola Municipal José Joaquim de Queiroz Júnior, na
Rua Guarapes, perto do local onde, nas décadas de 1940 e 1950, as irmãs francesas
do Colégio Notre Dame possuíam sítio e davam aulas para as crianças da redondeza.
Em 1985, o Governo Leonel Brizola construiu o Centro Integrado de Educação Pública
em grande área na Rua Cândido Benício. A
Biblioteca Regional de Jacarepaguá, situada na Rua Dr. Bernardino, se originou
por iniciativa da Professora Dyla Sílvia de Sá, que criou em 8 de maio de 1964
a Biblioteca Infantil Dyla de Sá. Até dezembro de 1965, funcionou na XVI Região
Administrativa, na Avenida Geremário Dantas, no Tanque. A partir de 9 de setembro
de 1966 foi para o IPASE, na Rua Cândido Benício. Em 1970, passou a ser chamada
pelo nome atual e subordinada diretamente à Secretaria de Educação e Cultura.
Em janeiro de 1978, a Biblioteca Regional mudou-se para a Rua Dr. Bernardino.
A religião sempre teve papel preponderante na educação da região, como vimos nos
casos do Instituto São Luiz e o Externato Geremário Dantas. O convento da Rua
Cândido Benício, quase esquina da Rua Ana Teles, foi erguido pelas irmãs franciscanas
em 1929. Depois, em1941, os padres barnabitas da Igreja do Loreto compraram a
instituição. Na gestão do Irmão João Batista Bísio foi criado um seminário que
durou até 1945, anos em que os barnabitas venderam o convento para as irmãs carmelitas,
atuais proprietárias.
A Igreja Nossa Senhora do Sagrado Coração da Rua Barão foi fundada em 22 de outubro
de 1946, a pedido de religiosos da região, entre os quais as famílias Caseira,
Bezerra e Chimeli. A princípio, a liturgia era celebrada na capela do Instituto
São Luiz, sob a direção do padre barnabita João Cordeiro.O Padre Jerônimo Vernin,
porém, no período de 1946 a 1952, tornou-se o verdadeiro pioneiro da obra católica
da região da Praça Seca. Em 1947, adquiriu o terreno do atual local da paróquia,
o que dá frente para a Rua Barão. Na época, havia uma pequena casa, em que antes
havia sido um cassino. Os primeiros padres ocupara essa casa e, inclusive, chegaram
até a atender rapazes, que desconheciam a mudança da finalidade do imóvel e procuravam
pelas "menininhas". Esse
imóvel foi adaptado para ser a matriz provisória. Em 1952, os padres compraram
o terreno da Rua Interlagos, onde edificaram a casa paroquial. Toda aquela área
da Rua Barão, na década de 1930, era grande chácara. Ao ser loteada, abriu-se
a atual Rua Interlagos, que, inicialmente, se chamava Rua Major Checheu e, depois,
Rua Caiubi. Em 1956, com o Padre Alexandre Verlaar, iniciou-se a obra da atual
igreja, que terminou praticamente na década de 1970, com o Padre Gilberto De-Roy.
A paróquia da Praça Seca é responsável pelas capelas do Repouso Santa Maria (Rua
Japurá número 555), Beneficência Portuguesa (Rua Florianópolis) e das escolas
Padre Butinhá e Jardim São José, ambas na Rua Barão. Também mantém as Comunidades
Eclesiais de Base, nos morros que circundam a região, onde existem capelas, com
as de São José (no morro do mesmo nome), do Divino Espírito Santo (morro no final
da Rua Espírito Santo) e de Santa Rosa (no morro do mesmo nome). Em
21 de abril de 1939, membros da primeira Igreja Batista de Jacarepaguá, cuja sede
era na Estrada do Pau Ferro, fundaram a Igreja Batista da Taquara, na Praça Seca.
Os fundadores foram: Nestor Campos Matoso, Araci Matoso, Jacinto Siqueira, Francisco
Siqueira, Américo da Silva Santos, Manuel Moura, Cecília Moura, Ana Macedo, Osvaldo
Silva, Araci Silva, Sebastião de Souza, Joaquina Siqueira, Eusébio de Oliveira,
Maria de Souza, Eurídice Paiva, Reinaldo da Silva, Emelina Rosa da Silva, Elan
Jacinto, Petrina Jacinto e Eliude Jacinto. O primeiro pastor foi Álvaro de Castilho
Barbosa. A sede inicial foi numa loja do antigo prédio assobradado do Victor Parames,
ao lado do Distrito Policial (perto da entrada da Vila Garcia, que ainda existe).
Em 30 de setembro de 1952, na gestão do Pastor Rafael Zambroitti, foi comprado
do Coronel Brazini Fabrini o imóvel da Praça Seca. No mesmo local, a Igreja funcionou,
provisoriamente, na casa antiga. Naquele ano de 1952, começaram as obras para
a nova sede, que terminaram totalmente em 1979. A Igreja Batista da Praça Seca
é confortável e possui dois enormes prédios, cada qual com dois andares. Um nos
fundos, destinado à educação religiosa. No outro, na parte da frente, destaca-se
o santuário, com capacidade para 800 pessoas sentadas. O pastor mais famoso é
Davi Malta Nascimento, que assumiu a direção da Igreja em 21 de abril de 1955.
(17)
- Nota para a edição da Internet - Esse prédio foi demolido e construído outro
recuado. A clínica de Ortopedia e Reumatologia foi transferida para a Rua Baronesa
número 774. (18)
- Nota para a edição da Internet - Em 1995, a Dona Marina vendeu o Instituto Tamandaré
para Antônio Pinto de Souza, dono do curso Tamandaré. O estabelecimento passou
a ser chamado de Colégio Tamandaré. (19)
- Nota para a edição da Internet - O Educandário N. S. da Vitória deixou de funcionar
em 1999. (20)
- Nota para a edição da Internet - O Colégio Atlas mudou o nome para Colégio CEJOF,
que já encerrou suas atividades. O prédio ainda existe na Rua Cândido
Benício, numero 1.354. |
| Parte
5 O
futebol começou na região da Praça Seca quase ao mesmo tempo em que Oscar Cox
o introduziu no Rio de Janeiro. Quando Gastão Taveira aterrou o lado, onde atualmente
existe o coreto, deixando a praça bem plana, os habitantes aproveitaram e fizeram
um campo de futebol . Naquele local, então, grupos de rapazes, liderados por Nélson
da Cunha Bastos (neto do Dr. Bernardino e sobrinho do Gastão Taveira), fundaram
a Associação Atlética de Jacarepaguá. Assim, durante as três primeiras décadas
do século XX, uma multidão reunia-se, aos domingos, no campo da Associação, em
plena a Praça Seca, para assistir ao novo esporte. No Governo do Prefeito Prado
Júnior, em 1928, inclusive, com a construção do coreto, acabou-se com o futebol
e com a Associação.
Apesar da existência do Parames, que foi fundado em 1925, parte da rapaziada sentiu
um vazio com o fim do campo, pois já era hábito ir à praça jogar futebol. Esse
foi um dos motivos que levou Galdino José da Silva a fundar Albano Futebol Clube,
em 15 de Setembro de 1929. O primeiro campo foi na esquina da Rua Albano com Cândido
Benício, onde hoje tem a loja de tintas. Depois, o campo foi para a Rua Barão,
um pouco acima do atual Colégio Sobral Pinto, a partir do número 268. O presidente
era o próprio Galdino. A secretária era sua filha, Maria Mália. E o tesoureiro,
Waldemar Amazonas, irmão do conhecido detetive Waldir Amazonas. A primeira sede
social do Albano foi na residência do Galdino, na Rua Albano número 2. Dali foi
para o sobrado do Victor Parames, na Rua Cândido Benício ( no mesmo local que
depois passou a ser cabeleireiro do Ruas ), onde acontecia intensa atividade social,
com bailes nos finais de semana. O
Albano pode ser considera um dos maiores clubes de futebol de Jacarepaguá. Os
times grandes do Rio, naquela época amadores, visitavam o campo da Rua Barão e
tinha que lutar muito para não sair com derrota. Certa vez, no início da década
de 1930, com Domingos da Guia, Nandinho e outros cobras, o Bangu jogou na Rua
Barão. A partida estava muito equilibrada e deveria terminar em zero a zero. Mas,
quase no final, surgiu falta na intermediária a favor do Albano. Talvez desconhecendo
a potência do chute do Tesoura, Onça, o goleiro do Bangu, não quis barreira, mandou
abrir. A violência do tiro livre, porém, o deixou imóvel, e a bola entrou no canto.
Muito assustado, o Onça passou o resto do tempo a gritar para seus companheiros
não deixar o Tesoura chutar, e o jogo terminou com a vitória do Albano por 1 a
0. O Albano possuía realmente um timaço. Com o evento do profissionalismo, muitos
de seus jogadores foram para os clubes grandes, como foi a caso de Picolé, que
jogou no São Paulo; Niversínio, que atuou no América. A formação base do Albano,
nos primeiros anos da década de 1930, foi a seguinte : Jagunço; Dolego e Caneta;
Agostinho, Gunça e Tesoura; Picolé, Antenor, Catraia, Niversínio e Vino.
Além do Parames, grande rival do Albano foi o Bandeirantes, cujo campo ficava
onde hoje é a Escola Barão da Taquara, na Avenida Nélson Cardoso número 1.221.
Outros tradicionais adversários eram o Rio de Janeiro e o Volante, ambos da Freguesia.
O Albano encerrou sua atividades antes da II Guerra Mundial. A área do campo de
futebol, que pertencia ao IPASE, foi comprada por Júlio Santiago, que foi oficial
de gabinete do Presidente Getúlio Vargas, durante o Estado Novo. O Santiago, em
1945, revendeu parte do terreno para Josino Moreira Lima, antigo funcionário da
Colônia Juliano Moreira. Na década de 1940, na Praça Seca, surgiu outro Albano,
numa tentativa de reviver o homônimo famoso. Este Albano, apesar de vida efêmera,
teve a glória de ser campeão de Jacarepaguá, num torneio promovido pelo jornal
do Dourado Lopes, o Diário Trabalhista. Na década de 1950, antes da construção
do conjunto do IPASE no Mato Alto, existiu o Vila Albano. Seu campo, atualmente,
é utilizado pelo condomínio do conjunto habitacional.
O clube de futebol mais tradicional da região da Praça Seca, porém, foi o Esporte
Clube Parames. Durante os 49 anos de existência, glorificou o nome emprestado
pelo seu patrono, o Victor Parames Domingues. Nos anos da década de 1920, um grupo
de jovens , com a idéia de criar um clube de futebol, procurou a família Parames,
que cedeu o terreno da Rua Pedro Teles para ser o campo da nova agremiação, enquanto
existisse diretoria constituída. Depois disso, no dia 3 de junho de 1925, na casa
da Dona Clara Taranto ( onde hoje é a Biblioteca Regional ), na Rua Dr. Bernardino,
foi fundado o Esporte Clube Parames, sendo escolhido para o cargo de primeiro
presidente, Theobaldo Ferreira. Dona Clara Maria Taranto, falecida em 1936, foi
a grande propulsora dos 10 anos iniciais do clube, inclusive, sua residência serviu
como primeira sede. Ela veio morar na Rua Bernardino em 1917, depois de abandonar
a cidade de São Paulo, com os filhos Orlando, Maruca e Aurora, após a morte do
marido, Braz Maria Taranto. A partir de 1942, surgiu outro ponto tradicional de
reunião do pessoal do Parames, no armazém do Alexandre, na esquina da Pedro Teles
com Dr. Bernardino, quase ao lado da casa da Dona Clara.
Na década de 1940, paralelamente ao Esporte Clube Parames, existiu o Teatro Amador
Zuleika, cujo o patrono era o filho do velho Parames, também chamado Victor Parames.
A primeira sede foi na vila Zuleika, mas logo se transferiu para um barraco, num
terreno baldio a lado do campo do Parames. O teatrinho editava até uma revista,
com o nome de "O Farol". Os atores e Atrizes eram os seguintes: Alcebíades Nóbrega,
José Ezequiel Alvin, Osvaldo Barreto, Sebastião Mota, Sebastião Miranda, Antero
Silva, Isa Rodrigues, Edir Santos, Odete Nóbrega, Enir Mota, Arlete Dias, que
fizeram muitas apresentações no instituto São Luiz, na Rua Barão. O Teatro Amador
Zuleika foi fundado em 4 de agosto de 1946 e encerrou suas atividades na primeira
metade da década de 1950. Uma
Pessoa notável na história do Parames foi Rizeiro Michel, que o acompanhou desde
a fundação e ocupou diversos cargos na diretoria, inclusive, presidente e técnico
do time principal. O Michel fez parte da diretoria do Francisco Lamboglia, que,
na década de 1950, iluminou o campo de futebol, sendo que, na inauguração dos
refletores, o Parames recebeu a visita do América. O Presidente Francisco Lamboglia
foi quem construiu e inaugurou a sede do clube ( o prédio ainda existe na Rua
Pedro Teles número 490 ), com os seguintes diretores: José Vieira, Júlio Barbosa,
Darci Vieira e Paulo Monteiro. Outro grande nome foi Sebastião Mota, antigo jogador
da década de 1930, e pai do Fernando Consul. Um personagem folclórico foi Chico
Charuto. Houve época em que ele fazia tudo no clube: distribuía camisas, entregava
bolas, alugava o campo e substituía diretores. Um fato triste foi a morte prematura
do beque Adyr de Castro Sperlei, conhecido como Didico, que foi assassinado, na
Rua Cândido Benício, num conflito entre turma rivais, na saída de uma batalha
de confete do Jacarepaguá Tênis Clube, na semana em que antecedeu o carnaval de
1956. Didico levou uma facada do Amaral de Cascadura, que também feriu João Bagulho
.
Como acontecia com o Albano, o Parames também recebia em seu campo os grandes
times do Rio. Era a época do amadorismo, não havia profissionalismo. Em 29 de
março de 1931, por exemplo, o Parames venceu o Flamengo por 2 a 1, na Rua Pedro
Teles, com o seguinte time: Durval, Melo e Rufo; Souza, Cândido e Osvaldo; Jerônimo,
Gloriano, Guerreiro, Egídio e Arapoty. A melhor equipe do Parames na década de
1940, porém, tinha está escalação: Miqueira; Casemiro e Casquinha; Sofia, Tesoura
e Guerreiro; Motinha, Durval, Oton, Didico e Canelinha. Nos anos 40, o famosos
Isaías, antes de jogar no Madureira e no Vasco, atuou no Parames, cuja a equipe
era a seguinte: Cleso; João Tanque e Pimenta; Sofia, Ceci Caneta e Waldir Goiano;
Carlinhos, Gabriel, Isaías, Durval e Ninho ( Cácio ). Durval também foi do Vasco
e Boca Juniors de Buenos Aires. Em 1944, o Parames foi vice-campeão da terceira
divisão da antiga Federação Metropolitana de futebol. Em 1945, conquistou o título
de campeão da mesma divisão com Cleso; Niginho e João Tanque; Sofia, Mário Cabeleira
e Waldir Goiano; Oliveira, Gabriel, Mineiro, Didico e Carlinhos. O técnico foi
Rizeiro Michel. Em
1952, o Parames venceu a Copa da Cidade do Rio de Janeiro, evento promovido pelo
Diário da Noite e organizado pelo falecido cronista esportivo Arlindo Monteiro,
com a seguinte formação: Morroagudo; Pimenta e Manuel; Tutuca, Arlindo e Vadinho;
Carlos, Toninho, Sérgio Escola (artilheiro da competição ), Guilherminho e Grilo.
O técnico foi Paulo Monteiro. Na década de 1950, formou-se outros excelentes times
no clube, inclusive, é a da época a notável linha média: Waltenir, Zequinha e
Celinho. Ainda nos anos de 1950, existiu, dentro do próprio Parames, a equipe
Independiente, que ficou invicta durante seis anos e contava com Nair e Fernando
Consul, que, depois tornaram-se profissionais. A escalação do Independiente era
a seguinte: Zezinho; Dezinho e Pulu; Jairo, Mauro, Edvaldo; Ratinho, Nair, Fernando,
Heraldo e Elói. Em
1961, com equipe mesclada por quatro veteranos (Sérgio, Tutuca, Ha-mintas e Paulinho
do Marangá),o Parames venceu o torneio da Fábrica Nacional de Motores, no campo
do Piauí, na Raiz da Serra. Ou-tro titulo importante foi no Governo Carlos Lacerda,
que organizou campeonatos de futebol nas regiões administrativas. 0 Parames foi
tricampeão da Re-gião Administrativa de Jacarepaguá nos anos de 1961, 1962 e 1963.
0 time que disputou a competição em 1963 formou com Serginho; Nei, Amilcar, China
e Pascoal; Leno e Bétis; Paulo, Maurício, Valdir e Elói. No
final da década de 1960 e começo da de 1970, o futebol do Parames quase não existiu,
em virtude da crise surgida desde a saída dos principais desportistas para fundarem
o Country Club de Jacarepaguá e não superada pelas últimas administrações. 0 clube
praticamente só possuía atividade social, que na realidade era uma iniciativa
de fora: os ensaios da Escola de Samba União de Jacarepaguá. Certo dia de 1974,
desconhecidos disputavam animada pelada no campo de futebol. No final, as crianças
dos arredores estupefatas presenciaram cena comovente: os próprios homens, que
antes jogavam, armados de serrote, cortaram as balizas. Terminava assim, de maneira
insólita, o Esporte Clube Parames. A última diretoria devolveu o terreno, após
o clube tê-lo usado por 49 anos, ao Victor Parames Fortes. Este o vendeu aos donos
do Parque de Diversões IV Centenário (nota para edição
da Internet: atualmente ocupa o local (Rua Pedro Teles) o Residencial Porto Bello
e Residencial Porto Fino). 0
Esporte Clube Marangá foi outro clube de tradição no futebol da Praça Seca, fundado
no inicio da década de 1930 por Everardo Eleutério da Silveira. A sede do Marangá
era na Rua Japurá, na casa da D. Luiza Bebiana Guedes, que era avô do João Teles,
Sebastião Teles (Didico), Genésio Teles (pai do Zoca) e Nélson Teles. 0 futebol
do Marangá, como aconteceu com a escola de samba do mesmo nome, que surgiu mais
tarde, era formado basicamente por descendentes da Dona Luiza, que faleceu aos
106 anos de idade em 1945. 0 primeiro campo de futebol foi perto da casa da D.
Luiza, num terreno baldio onde hoje é o final da Rua Dias Vieira, esquina de Japurá.
Depois, o Marangá foi transferido para a esquina das ruas Dr. Bernardino com Pedro
Teles e lá ficou até começarem as obras do atual conjunto do IPASE, que foi inaugurado
em junho de 1949.
Na época, naquele local, além do campo do Marangá, existia o casarão do Alberto
Freitas, que ficava bem próximo da entrada da atual vila do conjunto residencial.
Na Rua Dr. Bernardino, o Esporte Clube Marangá viveu seus melhores dias. Na década
de 1940, o clube teve como presidente o maestro Joaquim Naege, que, aos domingos,
trazia uma banda para motivar os jogadores, durante a partida. 0 craque do time
era o garoto Décio, bisneto da Dona Luiza, que, mais tarde, jogou pelo São Cristóvão
(de 1950 a 1962). Aliás, o Décio teve seu momento de glória, quando num jogo contra
o Botafogo conseguiu marcar o insuperável Garrincha. Na
década de 1930, o torcedor da região da Praça Seca podia ir a pé assistir aos
jogos oficiais da divisão principal da federação, pois o estádio do Madureira,
antes de se transferir para a Rua Conselheiro Galvão, ficava na Rua Domingos Lopes,
entre a Praça Patriarca e a Rua Dona Clara. Na época, havia muitos campos e clubes
de futebol na região. 0 Ateniense foi um dos primeiros da planície da Rua Pinto
Teles, fundado no inicio da década de 1930. 0 seu campo era na Rua Jerônimo Pinto
em frente à Rua Mário, onde hoje existem as antigas casas da Light. 0 Ateniense
acabou justamente quando começaram as obras dessas residências. Esse conjunto
da Light ocupa o quarteirão formado pelas ruas Jerônimo Pinto, Major Ribeiro Pinheiro,
Pereira Frazão e Trairi.
0 Sete de Setembro foi fundado em 1939 por José Ribeiro, o Zeca. 0 primeiro campo
foi na esquina da Capitão Menezes com Jerônimo Pinto, onde atualmente há uma série
de lojas comerciais. Depois, o Sete se transferiu para a Rua Pinto Teles. Após
a morte do Zeca, o clube entrou em decadência até sua completa extinção em 1975,
surgindo no local da sede da Rua Pinto Teles um centro espirita. Em 1942, Antônio
Pereira Leite fundou o Continental Futebol Clube, que durou até 1955. 0 campo
do Continental era o mesmo do Sete de Setembro, na Rua Capitão Menezes. 0 Nova
América, cujo campo é no final da Rua Pinto Teles, surgiu em 1945. Ali perto,
o ex-jogador Flávio Teixeira dos Santos criou, em 8 de outubro de 1952, o Esporte
Clube Rio - São Paulo, juntamente com seus filhos Mauro, Jorge, Flávio e Jerônimo.
Em maio de 1945, na Rua Comendador Pinto, inaugurou-se o Brahma Esporte Clube,
que, durante muito tempo, só possuía o campo de futebol e um barracão. Hoje, existe
na frente um prédio social bastante movimentado. No
início dos anos de 1930, bem próximo da Praça Seca, na esquina das ruas Baronesa
com Parintins, o armazém do Couto foi sede de um time de futebol: o Esporte Clube
Parintins. Trinta anos depois, em 1960, na mesma Rua Baronesa, porém, na esquina
com Gastão Taveira, no bar do Américo nasceu o Papai Esporte Clube. 0 nome foi
em homenagem ao Papai, apelido do Américo. A sede era na residência do Henrique
Mota Lima, na Rua Tenente Frederico Gustavo. 0 maior rival do Papai foi o Esporte
Clube Luís Beltrão, cujo campo, na Rua Urucuia, tinha o nome de Lagarto. No período
de 1945 a 1950, a rapaziada da Praça Seca criou o Pracinha, um time bastante forte.
Sua escalação era: Aluísio Maríns; Manelão e Lauro Migon; Moacir, Walter e Emídio
Rebolo, Químico, Espírito, Celinho e Waldir (ou Nílton Faya). Na década
de 1950, existiu outro Pracinha, com Antônio Faya e Léo Migon. Em maio de 1951,
José Carlos Moreira da Rosa fundou o ACEAL - Associação Carioca de Ex-Alunos Lassalistas,
juntamente com um grupo de antigos estudantes do educandário dos padres lassalistas
da Rua Barão, o Instituto São Luiz. A sede do ACEAL era na Rua Cândido Benício
número 901, onde residiu o vereador Rivadávia Maia (o prédio foi demolido). Além
de animado setor social, o ACEAL possuía excelente time de futebol, que, no inicio
dos anos de 1950, realizou vitoriosas excursões pelo interior de Minas Gerais.
A novidade atual em relação ao futebol da Praça Seca é a concentração dos juniores
do Flamengo, na Rua Barão número 1.374 (21).
Os clubes da região sempre foram celeiros para o futebol profissional. Muitos
desses jogadores nasceram e cresceram no bairro. Outros vieram morar aqui, após
deixarem o futebol, como é o caso do Flávio, pai do Jerônimo e fundador do Rio
- São Paulo, que jogou no Bonsucesso, na década de 1920, no mesmo time de Gradin.
0 Agrícola foi outro que residiu na praça, após se aposentar, na Rua Caiubi (hoje
Interlagos). 0 Agrícola atuou no São Cristóvão e na Seleção Brasileira, durante
a década de 1930. Nessa década, Heimar, jogador do Parames e morador da Rua Florianópolis,
formou linha atacante no Fluminense ao lado de Pedro Amorim, Romeu, Tim e Hércules.
Talvez, a maior revelação do futebol do Parames e de Jacarepaguá tenha sido o
Nair, que atuou ao lado de Rivelino. 0 Nair saiu do Parames e foi para o Madureira.
Depois, se transferiu para São Paulo, onde brilhou no Botafogo de Ríbeirão Preto,
Portuguesa de Desportos, Coríntians e Seleção Paulista. Fernando Consul, companheiro
de Nair no Parames e Madureira, também se projetou no futebol, com passagens pelo
América do Rio, França e Ferroviário de Fortaleza. 0 Décio do Marangá, que atuou
no São Cristóvão na década de 1950, foi outro valor surgido no futebol da região
da Praça Seca. 0 Jerônimo do Rio -São Paulo, que iniciou carreira no juvenil do
Fluminense, foi para Porto Alegre, onde defendeu o Internacional, de 1951 a 1960.
0 Jerônimo, inclusive, foi campeão pan-americano no México, em 1956, quando a
Federação Gaúcha representou o Brasil. Outros moradores da Praça Seca foram: o
Darci Faria, que atuou no Madureira e Bangu, na década de 1960; o Alcides, também
do Bangu nos anos de 1960; e o Anderson (Zuruca) do Parames, que jogou pelo São
Cristóvão de 1961 a 1964. O
goleiro Jonas Lopes, nascido e criado na Rua Baronesa, está enraizado no folclore
do Vale do Marangá. Jonas atuou no Madureira, Vasco, Campo Grande e também fora
do Pais, na Venezuela e El Salvador. Em todos esses clubes deixou marcada sua
figura inesquecível, extrovertida e imprevisível. Na década de 1960, foi goleiro
do Defensores de Aguila, da cidade de San Miguel, em El Salvador. Num jogo contra
o Alianza, de San Salvador, o time mais forte daquele pais, o Jonas defendeu um
chute de cabeça e saiu driblando os adversários até o meio campo, quando perdeu
o controle da bola e o Alianza fez o gol. 0 time do Jonas perdeu por 1 a 0, e
ele foi obrigado a deixar El Salvador. (21)
- Nota para a edição da Internet - A concentração do Flamengo na Rua Barão foi
desativada no final da década de 1980. |
| Parte
6 Antes
dos anos 30 a região da Praça Seca não possuía clubes de atividade social. Os
bailes eram nas casas de família. Nas primeiras décadas do século, ficaram famosas
as festas juninas realizadas pelo Gastão Taveira, na sua residência na Cândido
Benício. Os portões eram abertos e o povo podia participar, comer de graça, receber
fogos de artifícios e se divertir no enorme terreno todo ornamentado de bandeirinhas
e com muitas fogueiras. Na década de 1930, na sede do Albano, havia bailes aos
sábados, mas o Albano era mais de futebol do que social. 0 primeiro clube tipicamente
social a surgir na região foi o Rex Basquete Clube. Antes
do Rex ser fundado, porém, houve verdadeira aventura de uma turma de rapazes amantes
do basquetebol a procura de um lugar, para praticar esse esporte. Na Rua Pinto
Teles, existiu o clube Ateniense, que nada tem a ver com o homônimo do futebol.
0 basquete do Ateniense era dirigido pelos irmãos Américo e Adelino Gomes. Depois,
o pessoal do basquete fundou o Grupo Carioca, cuja quadra ficava nos fundos da
residência dos irmãos Castro (José, Celso e Marco Aurélio), na Rua Cândido Benício,
onde hoje ë a SUSE. Outros componentes do Grupo Carioca: Walter Viana, José Mendonça,
Paulo Mendonça, Manoel de Morais, Alcebíades dos Anjos, Waldir Lira, Tancredo
de Morais, Acrísio Amorim, Manuel Alves, Waldyr Miragaia, Darcy Diógenes, Mário
Ascarruz, Paulo Costa e Sebastião de Oliveira. Esses pioneiros jamais poderiam
pensar que um dos maiores jogadores de basquete do Brasil viria nascer na região
da Praça Seca. Trata-se de Marcos Antônio Abdala Leite, conhecido no mundo inteiro
como Marquinhos. Ele nasceu em 1951 na Rua Capitão Menezes número 414, nos fundos
da casa dos irmãos Dagô e Pingo. 0 irmão de Marquinhos, o Paulão, outro cobra
do basquetebol, também nasceu nessa rua, onde os dois viveram a infância e adolescência.
Quando
o Tenente Nélson Fiuza Pessoa criou o Rex Basquete Clube convidou o pessoal do
Grupo Carioca, para se integrarem à nova agremiação. 0 Rex ficava na esquina de
Cândido Benício com Florianópolis, onde hoje é o Ponto Zero e o conjunto de lojas,
residências e vilas. 0 Tenente Nélson era o dono do clube e morava nos fundos
do terreno. As reuniões dançantes semanais eram o ponto alto da vida social, mas
o basquete, com o pessoal do Grupo Carioca, também se destacava. 0 Rex durou do
inicio de década de 1930 até o final da de 1940. Nesse período, no final dos anos
de 1930, houve uma grande crise interna. A
persistência do Tenente Nélson em manter o Rex como estava, criou desavença com
um grupo de associados, que, entre outras coisas, queria a ampliação da sede.
0 pessoal do basquete, inclusive, já tentara outros lugares, como o Clube Progressista,
na antiga Estrada Rio - São Paulo (atual Estrada Intendente Ma-galhães). A experiência,
porém, não deu certo, pois o Progressista, igual ao Rex, também tinha um dono:
o Presidente Egídio. Depois, a turma do basquete ainda fundou o Futurista, que
teve efêmera duração. 0 ambiente no Rex estava bastante agitado. Na assembléia-geral
de março de 1939, após debates acirrados, ocorreram as divergências, que ocasionariam
o surgimento do Jacarepaguá Tênis Clube. Os dissidentes foram: Waldemar Fernandes
Cunha, Darcy Diógenes de Souza, Walter Viana, Jorge Viana, Péricles Muniz, José
Neto, José Mendonça, Mário Ascarruz, Álvaro Porto Guimarães, Paulo Costa e Inácio
Guerra. 0
Jacarepaguá Tênis Clube foi fundado em 14 de julho de 1939 na residência do José
Muniz (pai do Péricles Muniz), na Praça Barão da Taquara, onde hoje é a Igreja
Batista. Nessa reunião, o José Muniz foi eleito, por unanimidade, o primeiro presidente.
Os dissidentes, por serem estudantes, procuraram pessoas de recursos e receberam
apoio do Dr. Armando Mesquita e dos comerciantes Arthur Gouveia, João Pena Bastos
e Otávio Lodi Knack. Depois, a primeira providência foi comprar dois terrenos
do loteamento da Companhia Territorial Riachuelo, no Beco Mário Pereira. As administrações
seguintes aumentaram bastante a área do clube. Os lotes que dão frente para a
Rua Cândido Benício foram adquiridos pelos presidentes Agostinho Alves da Costa
(a esquina com o Beco Mário Pereira) e Nélson Antunes (a Vila Marden). 0
clube começou a crescer na época do Presidente Armando Mesquita, que aumentou
bastante o número de associados e inaugurou , em 1941, com a presença da Baronesa
da Taquara, a primeira sede própria. Em 1952, o Presidente Rubens Yung construiu
um grande galpão junto a essa sede. Mas o melhor período foi na administração
do Presidente Victor Dias Ribeiro e do Diretor de Patrimônio Sebastião de Oliveira,
de 1959 a 1963, quando o clube ganhou quase a feição atual, com a edificação da
sede nova, piscina e o prédio anexo, onde fica a sauna. As obras do ginásio foram
iniciadas em 1966, com o Presidente Joaquim de Oliveira Júnior. 0
Jacarepaguá Tênis Clube foi um dos fundadores da Federação de Fute-bol de Salão.
Logo após esse esporte ter sido inventado (início da década de 1950) já era praticado
na quadra de basquete do clube entre muitos associados, como o Zandelmo, Zanézio,
Sérgio Escola, Arnaldo, Miltinho, Fred, Heraldo e Mano. Inclusive, o Jacarepaguá
venceu o primeiro torneio de futebol de salão, cujo time, sob e comando do Júlio
Newton de Carvalho, formou com Zandelmo; Sérgio e Zeca; Heraldo, Miltinho e Fernando
Consul. Em 1968, na gestão do Presidente Renato Léo Ferreira Braga, o clube foi
campeão carioca de futebol de salão infanto-juvenil. 0 diretor de esportes era
Paulo Pinto Go-mes e o sub-diretor, Ywalmar Cerqueira Correia. Os garotos campeões
foram os seguintes: Alberto Farias, Alexandre, Carlos Alberto, Cláudio, Jorge
Luiz Fernandes, Jorge Luiz Severino, Léo da Silva, Reinaldo, Sérgio Luiz, Sérgio
Tobias e Marquinho, o artilheiro de campeonato. 0 técnico foi Mário Moura. A
maior proeza do futebol de salão do JTC, porém, aconteceu em 1970, quando conquistou
invicto o campeonato carioca principal, na presidência de Sebastião de Oliveira.
Os jogadores campeões foram: Nílton, Nonato, Francisco, Lúcio, Rubinho, Zé Carlos,
Ademar, Calunga, Peixoto, Nilo, Fernando e Marquinho. 0 tênis de mesa também deu
titulo carioca ao Jacarepaguá Tênis Clube, em 1962, no biênio do Presidente Victor
Dias Ribeiro, quando, sob o comando de Nerval Gomes de Matos, conquistaram o Campeonato
Carioca de Estreantes por Equipe os seguintes atletas: Jurandir, Ézio Torres,
Luís Carlos de Carva-lho Nora e Armando Manteiga. (22)
A
região da Praça Seca também foi importante centro do ciclismo do Rio de Janeiro.
Desde a década de 1930, já existiam excelentes ciclistas, com destaque para José
Nascimento, que venceu diversas corridas na Rua Pinto Teles, promovidas pelo Sete
de Setembro. Em 1937, o Nascimento também ganhou a prova organizada pelo Parames
Esporte Clube e supervisionada pelo Sebastião Mota. A primeira agremiação especializada
nesse esporte, na região, foi o Clube de Ciclismo de Jacarepaguá, com sede na
Rua Anália Franco, cujo presidente foi Ricardo Pinto Moreira. Mais tarde, o Ricardo
fundou o Velo Clube de Jacarepaguá, que durou de 1951 a 1954 e ficava na Rua Dr.
Bernardino número 559, onde hoje é uma academia de ginástica. 0 Velo Clube tinha
projeção no Rio é era filiado à federação de ciclismo. Seus melhores velocistas
foram o Nélson Carvalho (Nelsinho) e Nico. 0 Nelsinho, inclusive, venceu o Circuito
da Gávea de 1952. 0 Esporte Clube Luís Beltrão também tinha setor de ciclismo,
cujo Presidente Freitas, dono de loja de bicicletas em Marechal Hermes, era um
grande incentivador. 0 Nelsinho e o Hener Simões foram os cobras do Luís Beltrão.
0 Hener chegou a correr de igual para igual com o campeão brasileiro da época,
o Massari.
No inicio da década de 1960, a situação do Esporte Clube Parames não se definia,
pois ninguém sabia ao certo se o terreno pertencia ao clube ou a família Parames.
Surgiu, então, séria cisão interna, quando alguns associados iniciaram diretrizes
para fundar um clube social, independente e estabelecido em imóvel próprio. 0
grupo procurou o leiloeiro Afonso Nunes em sua mansão na Rua Florianópolis e falou
sobre a idéia. Combinou-se, então, que Afonso Nunes venderia o terreno da praça
Seca por 13 milhões de cruzeiros. Esse dinheiro seria arrecadado em 300 títulos
de sócios proprietários, e o próprio Afonso Nunes comprou o titulo número l. Assim,
em 28 de março de 1963, era fundando o Country Clube de Jacarepaguá. Os dissidentes
do Parames e fundadores do novo clube foram: Afonso Nunes Velasquez, Rizeiro Michel,
José Gonçalves Portugal, Joaquim Cunha Júnior, Acácio Teixeira Costa, Éden Mantel,
Júlio Barbosa da Silva, Leônidas Pereira Gomes, José Monteiro (o Zeca da Padaria
Olga), Rubem Alvim, Alfredo Marques Leão, Francisco Lamboglia, Dílson de Morais
Gonçalves, Hercílio Valente do Couto Santos, Valentim Barros, José Abrantes e
Antônio da Silva.
O primeiro presidente do Country Clube de Jacarepaguá foi Rizeiro Michel, com
Júlio Barbosa da Silva na vice-presidência. Na sua administração, vendeu rapidamente
os 300 títulos iniciais e, assim, pagou a divida com o Afonso Nunes. No terreno,
havia duas casas: uma nos fundos, que foi sede de certa corporação de guardas-noturnos;
e a outra, numa das laterais, em que re-sidia o empregado do Afonso Nunes, o Ramalho,
que continuou morando e trabalhando no clube. A casa dos fundos foi demolida,
logo no inicio do clube. Na frente, construiu-se enorme barracão de madeira, que
passou a ser a primeira sede do Country. Em 1968, na administração do Presidente
Orlando Zózimo, o clube comprou parte do terreno do polonês (que muitas pessoas
sempre pensaram que fosse alemão) Anatoly Polidsky, inclusive, a servidão ao lado
da residência do Polidsky, na Rua Baronesa, que atualmente é a agência de automóveis
Barauto (23).
As obras do ginásio prolongaram-se por vários anos. A principio, para o carnaval
de 1967, somente ficaram prontas a cobertura e o piso. Na presidência do Major
Antônio Augusto Reis de Medeiros, de 1974 a 1982, edificou-se praticamente o atual
ginásio. 0 Country Clube de Jacarepaguá já possuiu uma das melhores quadrilhas
da roça do Estado, dirigida por Amauri Val da Silva Ribeiro, Maurith José de Morais
e Henrique Mota Lima. Em 1967, o clube foi campeão absoluto do Torneio de Quadrilha
da roça do Estado da Guanabara. Em 1968, vice-campeão. Também
nos anos de 1960, no dia 28 de agosto de 1964, foi criado o Clube 28 de Agosto,
na Rua Barão, pertencente ao condomínio do conjunto dos Bancários. Atualmente,
a antiga sede do clube está ocupada pela Legião Brasileira de Assistência, mas
os moradores lutam, na justiça, para recuperá-la. 0 Planalto foi outra agremiação
surgida na década de 1960. Era localizado no topo do Morro da Chacrinha, que é
circundado pela Rua Cândido Benício e Estrada Comandante Luís Souto. 0 Planalto
chegou a abrir pequena entrada até o pico do morro, onde foi levantado um barracão,
com uma churrascaria. 0 clube, porém, morreu no nascedouro. Em 1974, a Associação
dos Funcionários do Touring construiu, na Rua Guarapes número 97, quase esquina
da Rua Quiririm, a sua sede campestre, no antigo sítio da Dona Nadir Figueiredo,
que foi comprado pelo então presidente da Associação do Touring, Joel José Dir.
Na
década de 1930, o carnaval da região da Praça Seca era praticamente nas ruas.
Mesmo quando surgiram os clubes sociais, a folia de rua continuou sendo o ponto
alto, como, por exemplo, as batalhas de confetes da Rua Albano dos anos 1940,
organizadas pelo Galdino José da Silva, com o apoio do comér-cio e moradores.
A primeira escola de samba do bairro foi Corações Unidos, fundada em 1932 por
Wenceslau, Catuca e Agenor, que simbolizavam os três corações unidos. 0 Agenor
era esposo da Dona Dica (Domentila Calixto da Silva), irmã da Dona Tita, e foi
em sua casa, perto da Estrada do Macaco (hoje Rua Quiririm), que aconteceu a fundação.
Quando Agenor adoeceu, João Nepomuceno, o João Polícia, assumiu a direção da escola
e transferiu a sede para a esquina da Rua Bruges, iniciando o tempo de Dodô, João
Pingola, Augusto Metralha e João Português. Em 1955, os Corações Unidos e Paz
e Amor de Bento Ribeiro venceram empatados o desfile do Grupo II, na Praça Onze.
Naquele ano, o Império Serrano ganhou o Grupo I. Outra
escola de samba do carnaval antigo de Jacarepaguá foi o Vai Se Quiser, que surgiu
de uma dissidência da Caravana Unida, um grande bloco da Rua Albano, na década
de 1930, que era organizado pelo Sargento Carlinhos, a esposa Mariquinhas e o
sambista Ari. 0 nome da nova escola de samba foi pelo fato dos líderes da cisão
ao chamarem os outros componentes da Caravana Unida não os obrigavam a vir, o
carnavalesco viria se quisesse. 0 Vai Se Quiser foi fundado em 1937 na casa do
Deusdete José Santos, o Linda, na Rua Itapuca (atual Gastão Taveira). Outros fundadores
foram: Isaú Russo, Mário Santos e Araripe Ferreira. A Dona Iaia (Aurora Jesuína
da Conceição Santos), que faleceu em 10 de junho de 1984 aos 113 anos de idade,
teve uma família completamente dedicada ao Vai Se Quiser. Ela foi mãe do Linda,
dos dois Catraias, do Mário e da Clotilde (Induca). Esta era mãe de nove filhos,
inclusive, do famoso compositor Catoni, que começou, ainda menino, no Vai Se Quiser.
Em
15 de novembro de 1956, surgiu o Grêmio Recreativo Esporte e Samba União de Jacarepaguá,
resultado da fusão dos Corações Unidos e Vai Se Quiser. Aloísio Domingos da Cruz
era o presidente dos Corações Unidos, e Júlio Pinto (o Pimenta), do Vai Se Quiser.
Aloísio, que era casado com Dona Tita, foi aclamado presidente da nova escola
de samba, e a primeira sede ficou sendo na residência do casal, na Rua Bruges
número 62. Além da Rua Bruges, a União de Jacarepaguá ensaiou num terreno na Rua
Cândido Benício quase esquina da Rua Capitão Menezes, onde hoje é o Supermercado
Leão (24); no Esporte Clube
Parames; no Clube 28 de Agosto; nos campos do Nova América e Rio - São Paulo;
e, atualmente, na Estrada Intendente Magalhães número 445. 0 pessoal da União
também se reúne, aos domingos, pela manhã, no Bar da Bebel, na Praça Seca (25).
Nos primeiros anos, a União de Jacarepaguá participou do carnaval do grupo I,
com as grandes escolas de samba. Em 1963, com o enredo "Mestre Valentin", samba
de Catoni, chegou empatada com a Portela no quarto lugar, quando o mestre-sala
Elias Turcão e a porta-bandeira Ilma receberam nota 10. Muitos nomes famosos começaram
no samba na União, por exemplo, Paulinho da Viola, Joaquim Casemiro da Silva (o
famoso Calça Larga do Salgueiro), o mestre-sala Ari da Portela, o mestre André
da Mocidade Independente (na época bateria da União era a melhor da cidade), o
passista Jerônimo da Portela e Davi do pandeiro do Império Serrano. Em
20 de janeiro de 1957, houve outra fusão no samba de Jacarepaguá: Império de Jacarepaguá,
cujo presidente era Moacir Cláudio da Silva; e o Unidos do Marangá, dirigido por
Sebastião Teles, o Didico, campeão de futebol em 1945 pelo Parames. 0 Império
de Jacarepaguá foi fundado por Moacir Cláudio da Silva em 1953, e a sede era na
Estrada Pau Ferro, no Pechincha. 0
Marangá, como seu homônimo do futebol, nasceu na casa da família da Dona Luiza
Bebiana Guedes, na Rua Japurá, quando, em 1944, os seus filhos (Sebastião, João,
Genésio e Nélson Teles) fundaram o bloco, que, em 1950, passou a ser escola de
samba. Um grande expoente dos Unidos do Marangá foi Jair Fiuza, o Bilico. Na fusão
de 1957, surgiu o atual Império do Marangá, cujo presidente foi Moacir Cláudio
da Silva. A sede continuou sendo a mesma dos Unidos, na Rua Carlos Gross, quase
esquina da Rua Dias Vieira. Em 1966, foi para a Cândido Benício com Capitão Menezes,
no terreno do Quincas do Super-mercado Leão. A sede atual é na Rua Maricá (26).
0 Império do Marangá teve na sambista Tia Ilda e no dirigente Jacy Gonçalves das
Neves os mais importantes personagens dos primeiros anos. Em 1986, Décio Marculino
Teles (ex-jogador profissional do São Cristóvão) assumiu a presidência e melhorou
o nível da escola. Seu excelente trabalho deu frutos, pois o Império do Marangá
foi campeão do Grupo 4 no carnaval de 1986. (22)
- Nota para a edição da Internet - O Jacarepaguá Tênis Clube foi bicampeão estadual
do Rio de Janeiro na modalidade de xadrez em 1995 e 1996. (23)
- Nota para a edição da Internet - O prédio foi ocupado depois pela oficina mecânica
do Vicente. Atualmente é a academia de ginástica ATON.
(24)
- Nota para a edição da Internet - O Supermercado Leão acabou. Atualmente ocupa
o mesmo lugar o Supermercado Mundial. (25)
- Nota para a edição da Internet - O Bar da Bebel foi demolido em junho de 1997.
O pessoal da escola de samba se reúne aos domingos no Bar Recreio da Praça, na
Rua Cândido Benício, no lado oposto do antigo Bar da Bebel. (26)
- Nota para a edição da Internet - O Império do Marangá encerrou suas atividades
em 1999. |
| Parte
7 O
primeiro cinema de Jacarepaguá foi inaugurado em 1911, no recém construído prédio
assobradado do Gastão Taveira, na Rua Cândido Benício. 0 "cínematographo", como
era chamado na época, ocupou a loja que mais tarde seria a Padaria Olga (não confundir
com o novo local da padaria onde hoje é a Drogasmil. 0 cinema era onde hoje é
o BANERJ, mas sem o recuo). Essa ação pioneira na Praça Seca acompanhou o grande
ritmo de instalações de salas de espetáculos na cidade do Rio de Janeiro, no início
do século, quando outra novidade fabulosa, a energia elétrica, dava realidade
ao cinema. Apesar de antes de 1911 o Rio já possuir bom número de cinematógrafos,
nas adjacências da região da Praça Seca só havia um, em Cascadura, na Rua Nerval
de Gouveia. Mais tarde, apareceu outro (o Cine Rex), onde é atualmente o Cine
Baronesa (27). Esse cinematógrafo
pegou fogo, e, no local, surgiu um armazém. Era época do filme mudo. 0 único som
era do pianista colocado bem junto da tela. Os habitantes da década de 1910, entre
outras fitas, assistiam as comédias do francês Max Linder, precursor do Carlitos.
Em
1929, ainda no tempo do cinema mudo, inaugurou-se, na Praça Seca, o Cine Ipiranga,
onde hoje é o Supermercado Três Poderes. No local, na década de 1910, existia
o estábulo do Francisco José de Souza, que era dono do botequim na esquina de
Cândido Benício com Barão. 0 Chico criava ali cabras e vacas leiteiras. Depois,
armou-se no mesmo lugar o Circo Ipiranga, que emprestou o nome ao cinema. 0 terreno
pertencia ao Coronel Virgílio Viana, antigo morador da Rua Barão. Gerôncio Sá,
um dos primeiros moradores da Rua Albano, foi quem comprou o terreno do Coronel
Virgílio e, com o primo Heitor Silva, edificou o Cine Ipiranga, que, na época
da inauguração, em 1929, era o mais confortável do subúrbio e bastante útil à
população de Jacarepaguá. Num bairro essencialmente rural, na época, seus habitantes
vinham de lugares distantes montados a cavalos, que ficavam amarrados em espaços
especiais, enquanto os donos assistiam o filme. 0
Gerôncio, que faleceu na própria Rua Albano em 1981, vendeu o cinema, em 1935,
para o Américo Bebiano. Este convidou para gerente o Efraim Lifehitz, que, com
muita experiência no setor bancário, dinamizou a tal ponto a firma que o Américo
lhe deu sociedade na década de 1950. 0 Américo também possuía um terreno na Praça
Seca, onde hoje tem o edifício com seu nome, ao lado do Country Clube, que ele
pretendia construir o Cíne-Teatro de Jacarepaguá, mas, com o advento da televisão,
desistiu da idéia. No meio desse terreno, havia um barraco, onde morava o velho
José, porteiro do cinema. Na década de 1940, o Efraim foi obrigado a passar o
José para a parte da tarde. Por causa do seguinte fato: o Efraim notou que na
última sessão sempre saia mais gente do que entrara. Então, resolveu observar
e, assim, descobriu tudo. A rapaziada da praça ficava na espreita em frente ao
Bar do Bernardino e, todos os dias, quando o "seu" José começava a cochilar, penetravam
um a um nas pontas dos pés. 0
Efraim vendeu o cinema em 1969, alguns anos depois da morte do Américo Bebiano.
O estabelecimento foi comprado pelos antigos sócios do cinema Haddock Lobo: José
Francisco Cupello, José Simão e Francisco José Meimberg. Em 1976, o ci-nema foi
novamente negociado e demolido para dar lugar ao Supermercado Três Poderes (28).
0 Cine Ipiranga foi responsável indireto pela transferência da minha família para
a Praça Seca. É que minha mãe, a Dona Lina, trabalhou lá de 1944 até 1976. Em
1949, viemos morar na nua Rua Baronesa, que ficava mais perto do Ipiranga do que
nossa antiga residência em Marechal Hermes. 0
Cine Baronesa foi inaugurado em 23 de outubro de 1950, com a presença da Baronesa
da Taquara. 0 construtor e dono de todo o prédio foi o engenheiro Handelino Almeda
Bonfim, que poucos conheciam como Almeda. A população o chamava de Almeida, apesar
dele não gostar muito. Com base no seu idealismo, criou um cinema de dependências
avançadas para a época, inclusive, com palco para exibições teatrais, que, infelizmente,
nunca chegou a ser usado para tal finalidade. 0 Almeida foi mais longe ainda no
seu ideal: na loja onde hoje é o Chopão (29),
ele instalou, também em 1950, moderna lanchonete americana, com mesas e cadeiras
de vime na calçada e cafezinho em pé no balcão (isso atualmente pode ser normal,
mas., durante os anos de 1950, o café tradicionalmente era servido nas mesas).
A iniciativa revolucionou o bairro, já que em toda a Zona Norte não existia estabelecimento
daquele tipo, que poderia ser visto em filmes americanos ou em poucos pontos da
Zona Sul. Para uma noção do vulto do empreendimento, lembramos que a primeira
loja do Bob's foi aberta pelo americano Robert Ealkenburg, na Rua Domingos Ferreira,
em Copacabana, em abril de 1951, meses depois da lanchonete do Almeida. Talvez,
por causa de ser muito avançada no tempo, a lanchonete da praça teve vida transitória
e foi desativada. A loja ficou fechada até 1954, quando o Almeida a vendeu para
o Banco de Crédito Territorial, que, durante muitos anos, manteve uma agência
no local. Mais tarde, o banco transferiu-se para o prédio que construiu, onde
é o Bob's. Depois de alterar o nome para Bamerindus, tornou-se a mudar para a
atual agência na Praça Seca (30).
Em 1958, o banco vendeu sua antiga loja do prédio do Cine Baronesa para os primeiros
comerciantes do Chopão, os irmãos José e Jerônimo Fernandes, que continuam donos
do imóvel. Após
a inauguração do Baronesa, o Ipiranga passou a ser chamado carinhosamente de "poeirinha".
0 Cine Baronesa era elegante, com funcionários implacáveis de uniformes vistosos
cheio de botões metálicos enormes. Em 1951, um acontecimento chegou a sair nos
jornais: o vereador Acióli Lins, dentro da sala de projeção, não quis apagar o
cigarro ao ser interpelado pelo "lanterninha", alegando que um parlamentar não
poderia ser chamado atenção. No tumulto que se seguiu, o vereador tentou agredir
um guarda. No Cine Ipiranga, era difícil ocorrer esses casos. Além dos seus porteiros
(Neco, Mackione e Rubens) não se vestirem com toda aquela pompa, tinham mais.
experiência no contato com o público. 0 Ipiranga, aliás, possuía um varandão lateral,
onde as espectadores, mesmo fumando, assistiam o filme, pois as portas de acesso
ao salão de projeção ficavam sempre abertas. 0 primeiro gerente do Baronesa foi
o Darci, mas logo veio o Zé Paulista, que ficou na gerência por longo período
. Em
1965, com muitos problemas, o Almeida fechou o cinema, que não funcionou durante
um ano. Em 1966, Waldir Montenegro, Carlos Barbosa e José Conçalves compraram
o prédio, com exceção da loja do Chopão, que, na época, pertencia ao Banco Bamerindus.
Os três eram sócios da Casa do Construtor, na Rua Cândido Benício; e do Cine Taquara.
0 Ronald Montenegro, irmão do Waldir, ficou sendo o gerente. Amantes da cinematografia,
promoveram excelentes sessões de filmes artísticos, nas décadas de 1960 e 1970.
Logo que adquiriram o imóvel, eles abriram a Sorveteria Baronesa, atual Baronesa
Lanches na mesma loja onde funcionou, a partir de 1950, a Sapataria da Praça,
fundada por Expedito Silva Perez. Em abril de 1958, após a construção do Edifício
Baronesa, a Sapataria da Praça mudou-se para lá, onde se encontra até hoje. Em
1972, Carlos Barbosa e José Gonçalves desfizeram a sociedade, e o Waldir ficou
sozinho com a firma. 0 Carlos Barbosa, atualmente, é dono do Cine Cisne (31),
na Freguesia. 0 Waldir, logo depois, vendeu a sorveteria. Mais tarde, em 1979,
também negociou o Cine Baronesa para a CIC - Companhia Internacional Cinematográfica,
subsidiária da Metro Goldwin Mayer, atual proprietária (27). Na
década de 1950, existia um cinema ao ar livre na Rua Cândido Benício entre as
ruas Ana Teles e Pinto Teles, que passava bons filmes. 0 dono do cineminha era
o Sebastião de Oliveira, que sempre estava de olho no tempo, pois se chovesse
não havia sessão. Recentemente, em 29 de agosto de 1979,Arnélío Tinoco inaugurou
o atual Jacarepaguá Auto Cine (mais conhecido como drive-in), no Mato Alto, ao
lado do conjunto do IPASE. 0 Tinoco também é dono do Ilha Auto Cine, na Praia
de São Bento, na Ilha do Governador. A
região da Praça Seca também serviu de cenário para filmagens. A mais importante
foi em 1954 com o filme "Matar ou Correr", na Rua Barão. Na mansão do Armindo
da Fonseca, na mesma Rua Barão, realizaram-se tomadas para duas fitas: "Paraíba,
Vida e Morte de um Bandido", com Jece Valadão, Darlene Glória e Rosana Ghesa;
e "Os Campeões", filme sobre corridas de automóveis, com Jardel Filho e Sadi Cabral.
Na mansão do Afonso Nunes, na Rua Florianópolis, nos anos de 1960, a TV Globo
gravou diversos seriados. A própria TV Globo, recentemente, filmou duas novelas
na Praça Seca. Uma foi "Feijão Maravilha", em 1979, na vila número 595 da Rua
Pedro Teles. A outra, "Guerra dos Sexos", em 1984, na Vila Astrogilda, na Rua
Dr. Bernardino número 56. De
todas as produções cinematográficas a que mais sensibilizou o povo da Praça Seca
foi a comédia a Atlântida dirigida por Carlos Manga: "Matar ou Correr". As filmagens
foram na Rua Barão, onde hoje é o conjunto dos bancários. Numa elevação plana,
atualmente com diversos blocos, Carlos Manga montou a sua City Down, cidade imitando
as dos filmes de far-west norte-americano, somente com os cenários da frente para
as tomadas externas, pois as interiores foram no estúdio da Atlântida. Era a época
das chanchadas no cinema nacional, com a Atlântida sempre ironizando as fitas
americanas. "Matar ou Correr" satirizava o western "Matar ou Morrer" de Fred Zinnemann,
com Gary Cooper no papel principal. A
região da Praça Seca em 1954 ainda guardava vestígios do passado rural. Embora
sua população já fosse bem acentuada, estava longe de ser igual as dos dias atuais.
Os habitantes aglomeravam-se em volta dos cenários e viam de perto os artistas
da produção: Oscarito, Grande Otelo, John Herbert, José Lewgoy, Renato Restier,
Inalda de Carvalho, Wilson Grey e Wilson Viana. Este, que mais tarde interpretou
o Capitão Asa na TV, freqüentou a Praça Seca. Ele e o irmão Édson Viana fizeram
parte da rapaziada da praça nos anos de 1940 e começo dos anos de 1950. Trabalhar
em cinema naquela época era verdadeira aventura, e os artistas não dispunham sequer
de instalações para uso pessoal. A atriz principal, Inalda de Carvalho, por exemplo,
utilizava a residência da Lazir, na Rua Marangá (casas da Light), para trocar
de roupa. As filmagens eram realizadas com a luz do Sol, mas muitas vezes foram
noturnas. Na manhã do dia 24 de agosto de 1954, interrompeu-se o trabalho, quando
soube-se da morte do Presidente Getúlio Vargas. Grande Otelo, que fazia cena bem
cômica naquele momento, não agüentou a emoção e chorou copiosamente. Se
algum artista do "Matar ou Correr" retornasse ao lugar da City Down ficaria estupefato
com a nova paisagem. Em 30 anos, aquele trecho (uma garganta nas vertentes dos
morros da Reunião e Inácio Dias, no final das ruas Florianópolis, Barão e Baronesa,
atualmente conhecido como Santa Casa), se transformou dos campos verdes de outrora
em aglomerado urbano com cerca de 12 mil habitantes, além das pessoas atendidas
diariamente pelo INAMPS e INPS. 0 movimento cresceu tanto que o terminal de duas
linhas de ônibus passou para lá: 0 284, Praça Seca-Tiradentes, cujo ponto antigo
era em frente à bilheteria do Cine Baronesa; e o 952, Penha-Praça Seca, que era
em frente ao Country Clube.
0 único conjunto que já existia na época do filme era o da Light, com casas de
frente para as ruas Barão, Marangá, Florianópolis e as vilas, que ficaram prontas
em 1950. Na vila da Light, nasceu o compositor Paulo Sérgio Pinheiro, que foi
marido da cantora Clara Nunes. Muito antes, em 1928, houve um prolongamento da
Rua Barão em direção ao morro, a partir da Rua Marangá, a fim de permitir o loteamento
de grandes áreas, que se transformaram em sítios e chácaras. Os bancários, construídos
pela firma Carvalho Hosken Engenharia para o antigo IAPB - Instituto de Aposentadoria
e Pensões dos Bancários, foi inaugurado no dia 28 de agosto de 1964, com a presença
da Secretária do Governo Carlos .Lacerda, Dona Sandra Cavalcânti. 0 nome do clube,
que por muito tempo esteve vinculado ao condomínio, se chamou 28 de Agosto, em
homenagem à data dessa inauguração. 0 conjunto tem 13 blocos, num total de 384
apartamentos. Depois do filme "Matar ou Correr" e antes da edificação dos Bancários,
havia naquela área dois campos de futebol, ambos com balizas. A
Comunidade Residencial Aeronáutica, popularmente conhecida por Aerobitas, começou
a ser habitada em julho de 1971, sendo que as obras dos 41 blocos tiveram início
em 1967 e foram financiadas pelo Banco Nacional de Habitação. Em frente ao Aerobitas,
dezessete blocos formam o Conjunto Monteiro Lobato, construído no antigo sítio
da família Horácio da Matta e inaugurado no dia 3 de julho de 1971, pelo então
Ministro do Interior José Costa Cavalcânti. 0 Conjunto Monteiro Lobato é uma realização
da Cooperativa Habitacional Operária do BNH. 0
INPS (32) foi criado em 1964,
absorvendo os antigos IAPs, com exceção do IPASE, que só entrou para o INPS em
1978. Por causa disso, o IAPB passou a englobar o INPS. Assim, em 1965, o posto
médico (antigo SANDU), no IPASE do Mato Alto, foi transferido para o imóvel do
IAPB, na entrada do conjunto dos Bancários. Em maio de 1983, o INPS ampliou essas
instalações da Rua Barão, quando surgiu o posto de benefícios, inclusive com perícia
médica, habilitação e concessão de auxílio doença. Ao lado do INPS, está situada
a Escola Municipal Morvan de Figueiredo. Em
1972, Domingos José Pereira Braga Júnior iniciou a venda do loteamento da Lagoa
da Prata, que fica numa colina na vertente do Morro da Reunião, com a entrada
pela Rua Marangá, esquina da Rua Florianópolis. Antes do Braga, as terras pertenciam
a Matias José Ervens, que as adquiriu de Dona Emília Joana Fonseca Marques, filha
do Barão da Taquara. A grande área ao lado, também na Rua Florianópolis, em frente
aos Bancários e Aerobitas, é propriedade do Samuel Chadrik, que recebeu de herança
do pai. A área do Chadrik vai até o outro lado do Morro da Reunião, na Estrada
da Covanca. Ele possuí um caseiro, para impedir as invasões e manter aquela parte
do morro ainda bastante verdejante. Em
1930, realizou-se, em plena Praça Seca, grande quermesse, com a finalidade de
angariar fundos para a construção do Hospital de Clínicas de Jacarepaguá. 0 líder
do movimento foi o médico Manoel de Morais. 0 terreno seria doado por Dona Emília,
mas, com a morte do Dr. Morais, o projeto não foi para frente. Anos depois, no
mesmo local escolhido para ser o hospital, que ficava ao lado das terras do futuro
Aerobitas, foi construído o Sítio Tupã, contemporâneo do filme "Matar ou Correr".
Mais tarde, o sítio passou a ser um orfanato. Em 1956, foi instalada ali a Clínica
Psiquiátrica Araújo Lima. A partir de 1965, começou a funcionar a atual Sociedade
Hospitalar Clínica Monte Alegre. A
partir da década de 1920, tornaram-se posseiros de grande parte do Morro Inácio
Dias os lavradores Manuel Pinto e João Pinto, que arrendavam as terras diretamente
com a proprietária, a Dona Emília Joana. A lavoura do Manuel Pinto começava na
vertente junto à Rua Capitão Menezes e terminava no marco de pedra, onde hoje
está erigida a capela São José. As terras do Manuel, inclusive, desdobravam morro
acima até o outro lado, onde atualmente existe a Escola XV de Novembro, da FUNABEM
(33). A posse do João Pinto,
que era primo do Manuel, estendia-se daquele marco de pedra até a Rua Florianópolis,
e, a partir daí, atravessava o morro até a Estrada da Covanca, onde se localizava
a sua casa. Em
1925, aos 14 anos de idade, chegou ao Brasil o português Francisco de Abreu Ferro,
que veio trabalhar na lavoura do Manuel Pinto. Aos 21 anos de idade, em 1932,
o Chico Ferro comprou a posse do Manuel e se tornou o único arrendatário das terras.
Pagava foro à Dona Emília e, depois, ao novo dono, a Companhia Territorial de
Jacarepaguá. 0 Chico Ferro morreu nas fortes chuvas do dia 19 de fevereiro de
1967, carregado por uma avalanche, quando tentava abrir o chiqueiro, para salvar
os porcos. Atualmente, suas terras vão da Rua Dr. Bernardino até a Rua Capitão
Menezes. Dos seus seis filhos, o único que continua nelas é o Paulo Ferro. No
final da Rua Baronesa, existe uma tendinha de propriedade de João Costa, conhecido
como João Ferro, filho adotivo do Chico. Grande
parte da antiga lavoura do Chico Ferro, hoje em dia, é enorme favela, situada
numa encosta do Morro Inácio Dias, que é chamado pelos moradores de Morro São
José Operário, em virtude da existência no local da igrejinha do mesmo
nome. Foi exatamente ao redor dessa capela de São José que começaram a surgir
os barracos no morro, a partir de 1963, construídos pelos operários que trabalharam
no túnel da adutora do Guandu naquele trecho. Anos antes, em 1958, a Companhia
Territorial de Jacarepaguá vendeu toda a área para a Somotra Tratores, que, inicialmente,
loteou a parte plana, com frente para a Rua Baronesa e Travessa Barão (hoje Rua
Brício de Abreu). 0 loteamento da parte mais alta não foi aprovado pela Prefeitura.
Então, na década de 1960, a Somotra não se interessou mais pelo projeto. Assim,
proporcionou que toda aquela encosta fosse definitivamente ocupada de maneira
desordenada. Todo esse complexo humano (conjuntos habitacionais, loteamentos,
favelas e órgãos públicos) mudaram completamente o lugar bem bucólico da época
do filme "Matar ou Correr", transformando a Rua Barão, com seu vai e vem de pessoas,
numa das ruas mais movimentadas de Jacarepaguá. (27)
- Nota para a edição da Internet - O antigo Cine Baronesa é atualmente a Igreja
Universal do Reino de Deus.
(28) - Nota para a edição da Internet - O Supermercado
Três Poderes foi vendido em 1999 para o Supermercado Sendas.
(29) - Nota para a edição da Internet - O antigo
Chopão virou pizzaria, que também encerrou as atividades.Depois, ocupou o local
a Ótica Anny. Atualmente, é a Ótica Explend.
(30) - Nota para a edição da Internet - O Banco Bamerindus
foi comprado pelo HSBC, que ocupa o mesmo prédio.
(31) - Nota para a edição da Internet - O Cine Cisne
foi demolido no final de 1996 para a construção do acesso para o viaduto da Linha
Amarela. (32)
- Nota para a edição da Internet - INPS é o atual INSS. (33)
- Nota para a edição da Internet - A antiga FUNABEM é atualmente o Centro de Educação
Tecnológica e Profissionalizante - CETEP/Quintino. |
| Parte
8 Bem
junto da praça na Rua Cândido Benício o ficava o 26º
Distrito Policial, num prédio assobradado e ao lado da entrada da Vila
Garcia, que ainda existe no número 1.668. 0 distrito veio do Tanque e instalou-se
na praça em 1916, cinco anos após o Gastão Taveira ter construído
o sobrado. Em 1955, retornou ao Tanque, pois o então proprietário
do imóvel, Victor Parames Fortes, o pediu para obras, quando surgiu o atual
edifício. No local onde era o Distrito Policial, passou a funcionar, no
prédio novo, uma agência do Banco do Brasil, que, depois, também
foi para o Tanque. Atualmente, ocupa aquele lugar o Laboratório Médico
Dr. Eliel e Elielson Figueiredo (34).
Com a saída do distrito do sobrado, a região da Praça Seca
ficou dividida sob a jurisdição dos DPs: Tanque e Madureira. Em
21 de junho de 1979, foi inaugurada a 28a. Delegacia Policial, na Rua Cândido
Benício esquina da Rua Pinto Teles, que passou a ser responsável
por toda a região do Vale do Marangá. Na
época do 26º Distrito Policial, a praça mantinha o aspecto peculiar das cidades
do interior, onde o delegado de policia é a pessoa mais conhecida da população.
0 vinte e seis teve grandes delegados, como, por exemplo, Edgar Martins, Paulo
Lemos, Pedro de Freitas Regado, Pointer, Álvaro Nogueira, Sales Margiori, Nilo
Raposo, Mozart de Almeida e Godofredo de Matos, além do comissário Geraldo Padilha,
célebre pelas suas façanhas. 0 delegado Godofredo morou na Rua Dr. Bernardino
e foi goleiro do Esporte Clube Parames. Na década de 1930, com seu violão, ele
estava sempre presente nas serestas improvisadas nos bancos da praça. Além de
policial notável, o Godofredo também foi importante na música popular, com o nome
adotivo de César Moreno, marcando época no apogeu dos programas de auditório do
rádio brasileiro, quando acompanhou cantores famosos. Outro
expoente da música que residiu na região foi o compositor Carlos Alberto Ferreira
Braga, o Braguinha, que, nas décadas de 1930, 1940 e 1950, era conhecido pelo
pseudônimo de João de Barro. Ele veio para a Praça Seca
em 1929, quando o pai, Jerônimo José Ferreira Braga Neto, mudou-se para a Rua
Cândido Benício esquina da Rua Pinto Teles, numa casa antiga que foi demolida,
para dar lugar à 28a. Delegacia Policial. Outros filhos do velho Jerônimo foram:
Renato Léo Braga, que foi presidente do Jacarepaguá Tênis Clube em três períodos;
Abelardo Braga, antigo e forte enxadrista do mesmo clube; Aristides Braga, já
falecido; e Ilka Braga, casada com um dos monstros sagrados da radiofonia: Henrique
Foréis Domingues, o Almirante, intitulado como a maior patente do rádio. 0 Almirante,
inclusive, morou com a família Braga, na década de 1940, quando esta se transferiu
da Rua Cândido Benício para um casarão na Praça Seca, esquina da Rua Barão, onde
hoje se localiza o Supermercado Leão (35). Dalva
de Oliveira, cantora de grande sucesso nas décadas de 1940, 1950 e 1960, foi outra
habitante da localidade. Após a separação com o compositor Herivelto Martins e
já vivendo com o empresário e compositor argentino Tito Clement, ela veio morar
na Rua Albano, onde criou os seus fílhos com o Herivelto: Peri Ribeiro e Ubirajara.
Dalva de Oliveira gostava muito do bairro e freqüentava seus locais de lazer.
Ela viveu na Rua Albano até o dia da sua morte em 1972. Na
Rua Barão, ao lado da Indústria Swing, residiu a estrela do cinema nacional, Rosana
Ghesa, que era assídua participante das atividades sociais
dos clubes da região. Foi no Clube dos Amigos de Armindo da Fonseca, onde dançou
quadrilha da roça, que ela despontou para o estrelato, após vencer o concurso
Miss Objetiva, representando o clube. Na região da Praça Seca, também morou o
maestro César Guerra Peixe, na Travessa Pinto Teles, que teve grande projeção
na época áurea do rádio. 0 Guerra Peixe é parente da família Faya. 0 seu sobrinho,
o Antônio Faya, criado na Rua Barão, tornou-se técnico em sonoplastia e foi, por
muitos anos, o principal responsável pelo som da TV Globo. Um morador ilustre
da Rua Pedro Teles foi o compositor e saxofonista Pixinguinha, cujo nome era Alfredo
da Rocha Viana Filho. Pixinguinha era assíduo freqüentador do Bar Chopão, na Praça
Seca.
Na Rua Cândido Benício, atualmente ocupado pelo Supermercado Sendas, existiu um
casarão chamado de Vivenda Gurgel do Amaral. Lã morou o médico José Matias Gurgel
do Amaral, desde o início do século até sua morte em 1944. A filha do Dr. Gurgel
do Amaral, Dona Maria da Conceição, foi casada com o arquiteto Moacir Paranhos
Barbosa, irmão por parte de pai do Geremário Dantas. Na década de 1960, a mansão
do Dr. Gurgel foi derrubada, para a construção do Supermercado Mar e Terra, que
se transformou no atual Sendas. Outro médico célebre da região foi o Dr. Manuel
de Morais, que era inquilino da família Carneiro, durante os anos de 1920 e 1930,
na casa da Rua Cândido Benício, onde hoje ê o Edifício Charlie Chaplin. Outro
nome tradicional da localidade foi o Dr. Mário Martins Ribeiro, cuja residência
era na Rua Florianópolis número 1.360, ao lado do terreno onde atualmente há uma
carpintaria. A família do Dr. Mário era numerosa, com sete filhos, todos conhecidos
no bairro: Jhan, Ubirajara, Paraguaçu, Caramuru, Jurupará, Marina e Nílton. A
Paraguaçu casou-se com o político Nélson Antunes. Após o casamento, eles moraram
num apartamento do prédio da Rua Barão número 933, em frente à praça. Depois,
foram para um palacete, na mesma rua, esquina de Caiubi, atual Rua Interlagos,
hoje ocupado pela Igreja Missionária Evangélica Maranata. Na
década de 1930, veio para a região da Praça Seca o então proprietário do Estaleiro
Caneco, Raul Caneco. A casa, com enorme terreno, habitada por ele e família, ainda
existe, na Cândido Benício número 597, quase esquina de Pinto Teles. 0 Raul e
seus irmãos Álvaro e Horácio herdaram o estaleiro do pai, Vicente Santos Caneco,
que o fundou em 1886. Em 1946, o Raul cedeu os direitos do estaleiro para o atual
proprietário, o empresário Artur João Donato, que conservou a empresa com o nome
primitivo. No ano seguinte, também vendeu a mansão da Rua Cândido Benício e foi
morar em Cascadura. Seu descendente direto, o Raul Caneco Filho, nas décadas de
1930 e 1940, foi um dos poucos moradores da região que possuíam motocicleta. Por
isso, era muito conhecido. Depois de se transferir com o pai para Cascadura, o
Raul Filho retornou, em 1955, para a Rua Cândido Benício número 76, uma vila perto
do Largo do Campinho, onde faleceu em 1978. 0
fundador do Jornal dos Sports, Argemiro Bulcão, também residiu na região na década
de 1930, na Rua Baronesa quase esquina da Rua Itapuca (atual Gastão Taveira).
Essa casa, depois, habitada pelo Afonso Nunes, era situada exatamente onde hoje
existe um esqueleto de concreto, vestígio de obra que nunca chegou a ser concluída.
0 Argemiro Bulcão já possuía a mansão na época da fundação do jornal, o qual,
mais tarde, vendeu para o Mário Filho. 0 Argemiro era casado com D. Alzira. O
Waldir Miragaia, irmão do Argemiro Bulcão, foi jornalista do Jornal dos Sports
e muito ligado ao Jacarepaguá Tênis Clube. Os filhos do Bulcão (Acir, Air e Aírton)
e as filhas (Aila e Airta) foram criados na Praça Seca. Na
Rua Barão, nas décadas de 1930 e 1940, o engenheiro da Light Alfredo Maia possuía
um sítio, conhecido pela população como a "Chacrinha do Dr. Alfredo". Depois da
sua morte, os herdeiros venderam a propriedade, em 1955, para o industrial Armindo
da Fonseca. Quando este comprou o imóvel, a Rua Japurá terminava na Rua Baronesa.
Foi o próprio Armindo que prolongou a Japurá até a Barão, na linha divisória da
sua área com os terrenos do Damásio dos Santos (lado da Rua Baronesa) e Antônio
Tennyson Garcez (lado da Rua Barão). Com isso, os moradores podiam atingir mais
rápido a Rua Florianópolis, aproveitando outro trecho novo chamado de Travessa
Adelaide (atualmente Rua Desembargador Gastão Macedo), que une a Barão com Florianópolis.
A mansão do Armindo da Fonseca ocupa um espaço de cerca de 20 mil metros quadrados.
Ele a transformou em casa cinematográfica, inclusive, dois filmes já foram rodados
nos seus limites. A piscina imita um piano de cauda e a sauna é um navio. Todo
esse paraíso é ornamentado com plantas raras. Muitos animais, inclusive, um leão.
0 grande lago da residência recebe água diretamente de nascente do próprio terreno.
Esse lago, além de cisnes e garças, é habitado por cerca de mil irerês (uma espécie
brasileira de marreco d'água) que não dormem na mansão. Todos os fins de tarde,
os irerês imigram para lugar ignorado, e, durante a madrugada, voltam aos bandos.
Filantrópico por natureza, o Armindo e a esposa, D. Dina da Fonseca, receberam,
durante sua vida, diversas homenagem de organizações sociais. Atualmente, há a
Fundação Armindo da Fonseca, para crianças pobres, na Rua Comendador Pinto. Na
década de 1960, o Armindo da Fonseca promoveu, em sua residência, festas juninas
famosas, freqüentadas por gente de todo o Rio, principalmente da Zona Sul. Existia
até um clube interno, com ampla sede nos fundos do terreno: o Clube dos amigos
de Armindo da Fonseca, que possuía excelente quadrilha da roça. A quadrilha era
dirigida por Amauri Val da Silva Ribeiro e Maurith José de Morais, sendo que o
futuro jornalista Carlos Alberto Arruda de Matos era o relações públicas. 0 clube
participou, com mérito, do concurso oficial de quadrilhas da roça do Estado da
Guanabara. Em 1962, foi o quarto colocado; em 1963, campeão; e vice-campeões nos
anos de 1964 e 1965. Em
1936, Joaquim de Oliveira veio de Anchieta para Jacarepaguá e inaugurou, na esquina
das ruas Cândido Benício e Ana Teles, o armazém Portas-de-Aço. Depois, em 1945,
abriu filial na esquina da Rua Capitão Menezes, onde hoje existe a loja de automóveis
Autódromo (36).
Esses dois armazéns Portas-de-Aço deram a partida para se chegar à rede de Supermercado
Leão. Em 1954, seu filho, Joaquim de Oliveira Júnior, o Quincas, assumiu a direção
da empresa, imprimindo velocidade ainda maior no seu crescimento. Após a compra
da Mercearia Phenix, o Quincas transformou a venda pelo sistema tradicional em
de auto-serviço até atingir o Leão, uma das empresas mais bem organizadas do setor
de alimentação. Ele também ocupou a presidência da Associação dos Supermercados
dos Estado do Rio de Janeiro. 0 Quincas foi criado na região da Praça Seca. Morou
na Rua Ana Teles e na Rua Dias Vieira número 279. Quando solteiro, nos anos de
1950, fez parte da rapaziada da praça. Na década de 1960, foi Presidente do Jacarepaguá
Tênis Clube.
0 Gerard Rocha Duarte, o Azinho, foi outro morador da região especialista no comércio
de comestíveis. Ele possuía um frigorífico em Madureira e vendia carne por atacado.
Seus filhos, que foram criados na Praça Seca, tinham ate apelidos peculiares à
profissão do pai: Ulisses "Olho de Boi" e Quinzinho "Alcatra". Na Rua Cândido
Benício número 1.538, onde hoje é a Clínica de Repouso Valência, morou até a década
de 1930 o distribuidor de banha Januário Cunha, casado com uma das filha do Dr.
Bernardino e conhecido como "Rei da Banha", que construiu a casa ainda existente
na clínica em 1919. 0 Nélson Antunes, antes de casar com a Paraguaçu, foi garçom
do Café e Bar Recreio da Praça, que era do seu pai nos anos de 1930. 0 Bar Recreio
da Praça, depois, passou para o Albino, deste para o Artur, que transferiu o negocio
para os irmãos José e Aníbal Louro. A loja antiga da Padaria Olga antes foi cinema.
Quem a transformou em padaria foi o Rivera, na década de 1920, que deu o nome
de Olga em homenagem à filha. Em 1946, Antônio Monteiro tornou-se dono do estabelecimento,
conservando o nome de Padaria Olga. Depois da demolição do prédio que ocupava,
onde hoje é o BANERJ, a padaria foi para outra loja no edifício novo, onde atualmente
está a Drogasmil. A Padaria Olga marcou tradição no bairro, principalmente como
ponto de reunião do pessoal do Esporte Clube Parames. Por esse motivo, o Antônio
Monteiro, a esposa Dona Dolores e os filhos (Rubens, Paulo, Arthur e Zeca) tornaram-se
bastante conhecidos na região. 0
prédio antigo, com uma série de lojas, na Rua Cândido Benício esquina da Rua Dr.
Bernardino, foi construído na década de 1940 por José Maria Carlos Osório, que
se instalou no comércio de ferragens, na esquina, e alugou as demais lojas. 0
Osório veio para a Praça Seca em 1918, quando se estabeleceu no antigo sobrado
do Gastão Taveira com um armazém. Mais tarde, comprou as terras da Rua Dr. Bernardino.
Ele faleceu em 30 de janeiro de 1980, e os imóveis pertencem, atualmente, aos
herdeiros. Na década de 1940, na esquina oposta ao prédio do Osório, onde hoje
existe o Edifício Lunar, havia um botequim e, ao lado, o sapateiro João Lopes,
pai do goleiro Jonas. A
grande pedreira desativada em 1982, na Rua Maricá esquina com a Rua Pinto Teles,
foi explorada na pedra do Ludovico. Essa enorme pedra era muito linda e dava ao
morro visual bem diferente dos dias de hoje, inclusive, também desapareceu a nascente
em sua base. Na época da pedra do Ludovico, o Tenente Nélson realizava ali exercícios
de tiro. Após os treinamentos, os meninos das redondezas guardavam as balas para,
depois, brincar com elas. 0 dono de toda a área da pedreira era Pedro Ferreira
Vieira, que morava num casarão na Rua Maricá e arrendava o serviço de extração
da pedra para terceiros. 0 primeiro locador foi o Evaristo, e, depois, o Cipliano
Pereira. 0
Ministro da Guerra do Governo de Rodrigues Alves, General Francisco Paula Argolo,
na década de 1920, morou na Rua Pinto Teles, num castelinho que ainda existe.
Na época, todas as terras ao redor pertenciam ao general. Mais tarde, em 1939,
foi aberta uma rua na entrada do castelinho, na Rua Pinto Teles, que se chamou
Abadia. Em 1946, essa rua passou a ser denominada Comandante Simião, em homenagem
ao herói da II Guerra Mundial. Um político da República Velha que residiu na região
da Praça Seca foi Mendes Tavares, senador no período do Presidente Artur Bernardes.
A residência do Senador Tavares era na Rua Japurá, onde atualmente funciona um
asilo da Santa Casa da Misericórdia, o Repouso Santa Maria e São Manuel. Essa
casa de assistência social foi inaugurada em 8 de dezembro de 1964 pelo Provedor
Ministro Afrânio Antônio Costa. 0
Barão da Taquara foi praticamente o primeiro político de Jacarepaguá. Ele pertenceu
ao Partido Conservador, pelo qual foi vereador da Imperial Câmara Municipal. Apesar
de monarquista, prestigiou muitos nomes para cargos do poder legislativo, durante
a República. 0 Cândido Benício da Silva Moreira teve o apoio do Barão nas eleições
de 30 de outubro de 1892, quando por grande diferença de votos elegeu-se representante
de Jacarepaguá ao primeiro Conselho Municipal do Distrito Federal. 0 próprio filho
do Barão, Francisco Pinto da Fonseca Teles, no início do século XX, foi eleito
intendente municipal (intendente corresponde hoje ao cargo de vereador). Na mesma
época, Geremário Dantas também cumpriu mandato, outorgado pelo povo do bairro,
na intendência municipal. Na década de 1920, outros dois habitantes da região
da Praça Seca foram intendentes municipais: Nélson de Almeida Cardoso e Carreiro
de Oliveira, que foram cassados na Revolução de 1930. 0 Carreiro de Oliveira morou
na Rua Baronesa número 887. 0 Nélson Cardoso, cuja antiga Estrada da Taquara recebeu
seu nome em 1947, residiu numa casa que existia no Mato Alto, na Rua Cândido Benício.
0 Nélson era irmão do Dr. Orlando Cardoso, e também nos anos de 1920, foi dono
da farmácia Santa Cecília, na Praça Seca, atualmente uma das metades do Supermercado
de Carnes Sol da Nave (37). Na
década de 1930, o grande líder político de Jacarepaguá foi Ernâni Cardoso, intendente
municipal, deputado federal, professor, proprietário e fundador do Colégio Arte
e Instrução. 0 seu assessor eleitoral era o Galdino José da Silva, tradicional
morador da Rua Albano. 0 Galdino nasceu em 22 de abril de 1887 e faleceu em 6
de agosto de 1969. Ele foi funcionário do Senado Federal, aqui no Rio e em Brasília,
quando a capital foi transferida para a nova cidade. Filho de criação do Senador
Lauro Müller, recebeu como herança parte das terras do senador na Rua Albano.
0 Galdino foi cabo eleitoral de outros políticos, inclusive, do Álvaro Dias. 0
Aristides de Paula Ribeiro, antigo morador da Rua Florianópolis, foi um dos muitos
colaboradores do Galdino na política. 0
Breno da Silveira, que tinha um sítio na Rua Albano, despontou na política, após
a ditadura de Getúlio Vargas, quando, em 1947, foi eleito vereador pelo antigo
Distrito Federal. Depois, elegeu-se Deputado Federal em diversos mandatos até
1964. Atualmente, reside no Recife. Na eleição de 1950, foram eleitos vereadores
os políticos Índio do Brasil, que morava na Rua Pinto Teles esquina da Rua Comandante
Simião; e Álvaro Dias, que já era vereador desde 1947. Foram também candidatos
nesse ano: Armando de Mesquita, que foi Presidente do Jacarepaguá Tênis Clube;
e Osmar Correia D'Avíla, pracinha da Força Expedicionária Brasileira. Álvaro Dias
tornou-se famoso na região como médico e político. Na época de solteiro, viveu
na Rua Albano. A partir de 1931, quando se casou com D. Marina, neta de D. Emília
Joana e bisneta do Barão da Taquara, morou na Rua Cândido Benício, no Mato Alto,
numa casa na entrada para a Vila Albano, há muito tempo demolida, que também foi
residência do Nelson Cardoso. Depois, ele foi para a Rua Florianópolis e, a seguir,
para o Tanque, numa casa antiga onde hoje ê a sede da XVI Região Administrativa.
0 Álvaro Dias clinicou em diversos lugares na Praça Seca. Em 1940, ele inaugurou
a Maternidade de Jacarepaguá, na esquina das ruas Cândido Benício com Godofredo
Viana. Em 1956, vendeu essa casa de saúde, porque foi nomeado para Ministro do
Tribunal de Contas da União, do qual se aposentou em 1974. Nas
eleições legislativas de 1954, o escritório eleitoral do candidato a vereador
pelo PTB, Amando da Fonseca, que ficava na Rua Baronesa número 774 em frente à
Rua Pedro Teles, marcou época na região. Era na casa do Camacho, que possuía enorme
terreno, com frondosa mangueira na entrada. Naquela época em que a televisão engatinhava
no Brasil, e que pouquíssimas residências possuíam aparelhos receptores, o Amando
instalou um no terreno do escritório. À noite, uma multidão aglomerava-se para
assistir aos programas da Tupi, que era o único canal do Rio. Muito ligado ao
setor artístico, pois era casado com a atriz Josete Bertal, o Amando promoveu
também shows, com a presença de cantores famosos e do Chocolate, do Circo Olimecha,
que dava ritmo cômico ao espetáculo. 0
principal assessor do Amando da Fonseca foi Cândido Narciso Camacho Gomes, que
havia trabalhado na campanha do Dr. Armando de Mesquita, nas eleições de 1950.
A casa do escritório eleitoral, inclusive, era de propriedade do Camacho, que
morava ao lado no número 782, onde hoje é o Serviço de Raio X do Dr. Ribeiro.
0 Camacho era getulista e, em 24 de agosto de 1954, no dia da morte de Getúlio
Vargas, armou uma bancada em frente ao escritório, fotos e outras lembranças do
estadista, inclusive, a carta-testamento. As
eleições de 1958 foram as que mais apresentaram candidatos a vereadores moradores
da região da Praça Seca: Paulo Durães, Czalberto São Paulo, 0távio Pitanga (Vivinho),
Nélson Antunes, Capitão Sílvio Soares Brasil, Gabriel Capistrano Júnior, Victor
Hugo de Albuquerque, o farmacêutico José Miranda, Alvinho Humberto (Vaca Brava),
além do Waldir Moura, morador da Taquara, mas assíduo freqüentador da Praça Seca.
Anos depois, em 1970, o seu filho Jorge Moura foi eleito Deputado Federal. Um
cabo eleitoral importante na região foi o Sebastião de Oliveira, o Tião, que dirigiu
as campanhas do Carlos Lacerda em Jacarepaguá, tanto nas eleições para Deputado
Federal como nas para governador do novo Estado da Guanabara, em 1960. 0 Tião
morou em vários locais da região da Praça Seca, inclusive, onde também residiu
o Vereador Rivadávia Correia Maia, na Rua Cândido Benício número 901. Na década
de 1950, ele tinha um cineminha ao ar livre, num terreno na Rua Cândido Benício.
No início da década de 1960, no cargo de Diretor de Patrimônio, foi o responsável
pelas grandes obras no Jacarepaguá Tênis Clube, onde depois ocupou a presidência.
Sebastião de Oliveira faleceu aos 57 anos de idade, no dia 19 de dezembro de 1973,
num desastre de automóvel, no qual o seu filho Cláudio sobreviveu. Com
a criação do Estado da Guanabara, foram eleitos para a Assembléia Estadual: José
de Souza Marques, em 1960; Afonso Nunes, em 1964; Léo Simões, em 1964; Heitor
Furtado, em 1966; e Sebastião Meneses, em 1966. 0 Professor Souza Marques foi
diretor e proprietário do colégio que leva seu nome, na Avenida Ernâni Cardoso.
Léo Simões, apesar de nunca ter morado na região, freqüentou o Jacarepaguá Tênis
Clube, no qual foi, durante anos, presidente do Conselho Deliberativo. 0 leiloeiro
Afonso Nunes foi tradicional morador da Praça Seca. Primeiro na Rua Baronesa,
onde realizou famosas festas juninas; e, depois, numa mansão de cerca de seis
mil metros quadrados na Rua Florianópolis número 1.560, que ainda existe. Heitor
Furtado residia no Tanque, mas, na década de 1950, estava sempre na Praça Seca
e fazia parte da sua rapaziada. 0 Léo Simões e Heitor Furtado continuaram com
sucesso na política. Souza Marques e Afonso Nunes já faleceram. 0 Sebastião Meneses
foi Deputado Estadual de 1966 até 1978. Filho de Jonas Nascimento Meneses, conhecido
farmacêutico da região, ele foi criado e estudou na localidade. Morou por muitos
anos na Rua Cândido Benício. Na própria Praça Seca, casou-se com a filha do Álvaro
Dias, a Dona Mirian. Sebastião Meneses também foi médico obstetricista da Maternidade
do Álvaro Dias. Na
década de 1970, o líder político da região da Praça Seca passou a ser Mesquita
Bráulio, dono do educandário SUSE, que foi vereador em 1974 e deputado estadual
em 1976 e 1978. Mas perdeu a liderança nas eleições de 1982 para o Vereador Rivadávia
Correia Maia. Outro eleito para vereador em 1982 foi Gérson Guilherme Ortiz Sampaio,
que jogou futebol no Esporte Clube Parames, na década de 1940. Em 1985, as bases
para a tentativa de fundação do Partido Social Trabalhista foram lançadas na Praça
Seca, cujos líderes Gilberto Campos e Hélio Matos (ambos falecidos) foram antigos
moradores da região. (34)
- Nota para a edição da Internet - O laboratório passou a funcionar do outro lado
da rua no Edifício Charlie Chaplin. (35)
- Nota para a edição da Internet - O Supermercado Leão acabou. Ficava no prédio
da esquina da praça com a Rua Barão (lado do coreto), onde hoje é o Centro
Comercial Paço da Praça.O Braguinha faleceu em 24/12/2006. (36)
- Nota para a edição da Internet - A loja de automóveis virou Restaurante Molho
Pard, que, depois, foi demolido para ser estacionamento do Spurmercado Mundial. (37)
- Nota para a edição da Internet - Com a demolição do Bar Ramalhense, o açougue
passou a ter frente para a Rua Cândido Benício, além de continuar com a antiga
frente para a Rua Barão. |
| Parte
9 A
Praça Barão da Taquara possuía encanto silvestre na década de 1940, com jardins
floridos e extensos gramados. Os caixeiros levavam, na cabeça, as compras do armazém
até às residências. A população e o comércio tinham significativo elo, e todos
conheciam os nomes dos comerciantes da praça nos anos 1940. Do lado par da Rua
Cândido Benício, nas lojas do prédio assobradado do Parames: 26º Distrito Policial,
Igreja Batista, serralharia do Francisco Lamboglia, loja de ferragens do Damião
e Eduardo, armarinho do Manuel Carreiro (em cima, consultório do Dr. Edmundo),
açougue do Eduardo Botelho (tinha uma porta que sublocava para o Jorge Sapateiro),
quitanda do José Vieira (tinha uma porta que sublocava para o Foto Mallet), Padaria
Olga do Antônio Monteiro (em cima, o Salão Cléia do Sr. Ruas), armazém do Pena
Bastos (em cima, a sinuca do Tenente Nélson). Nas lojas do Garcez: armazém do
Barros, Café Recreio da Praça do Albino e Padaria Marangá do Costa, já na esquina
da Rua Baronesa. A
Marangá foi a primeira panificadora da região da Praça Seca, inaugurada em 1908.
Um dos primeiros negociante foi o Morgado. Depois, vieram o Costa, o Alberto e
o Antônio. 0 Roberto foi seu empregado mais tradicional, pois trabalhou desde
1941 até ela ser derrubada, a fim de ser construído o atual restaurante Bola Branca.
Mas continuemos com a descrição da praça nos anos 1940. Do lado ímpar da Rua Cândido
Benício, a partir da esquina da Rua Baronesa: Armazém Jacaré do Arnaldo (onde
hoje é o Cine Baronesa) (38),
Leiteria e Bar dos Sports do Ataliba (atual Bar da Bebel) e açougue também do
Ataliba, que depois foi do Álvaro (39).
Na praça do lado par (o do
coreto), da Rua Baronesa em direção a Rua Barão: residência e consultório do Dr.
Fiuza, Escola Honduras, Edifício Nair, residência do Coronel Brazini Fabriani,
residência do Joaquim Mesquita (pai do atual delegado de polícia Ricardo Mesquita
(40).
Na década de 1950, eles moraram no Edifício Nair), residência da família do compositor
Braguinha, onde hoje é o Supermercado Leão (41).
Do outro lado da praça, o lado ímpar, na mesma direção: terreno baldio, residência
da família da Dona Zilda Barbosa, residência da família de Hermínio Pessoa, terreno
do Américo Bebiano (dono do Cine Ipiranga), residência da família Montenegro Cairrão,
posto de saúde escolar e Cine Ipiranga (hoje o Supermercado Três Poderes) (42). A
partir da esquina da Rua Barão, a continuação do lado par da Rua Cândido Benício:
armazém do Pena Bastos (depois, foi a casa de móveis do Jacó e Henrique. Hoje,
é o Sorvetão), barbearia do Mário, loja do Álvaro (bombeiro hidráulico), sapateiro
Luciano (atualmente (1986), o mais antigo comerciante da praça, estabelecido desde
1936), consultório do Dr. Faure, armarinho do Chimeli, farmácia do Miguel Archanjo
de Oliveira, loja de ferragens do Verdial, residência do Gurgel do Amaral e casa
de móveis do Davi (pai do Israel Gimpel Szmaizer, jornalista esportivo, que ainda
reside naquele local) (43). Lado
ímpar da Rua Cândido Benício até a Rua Barão: alfaiataria do Aniz Abraão (atual
Sapataria Primorosa), Café Brasil (que tinha uma pequena sinuca), botequim e salão
de sinuca dos irmãos Bernardino e José (já na esquina da Rua Barão), açougue do
Salvador Aielo, armazém do Antônio, depósito de pão e sorveteria do Benício Soares,
barbearia do Pepito (que foi juiz de futebol da federação e apitou muitos jogos
no Parames) e quitanda do Nicolau Matera (pai do Moacir, o Caneta, que jogou futebol
na região). Na
primeira metade do Século XX, o jogo de bilhar (mais conhecido como sinuca) foi
o passatempo mais contagiaste da juventude. Eram sinucas geralmente da fábrica
Tujague. Mesa grande com tampo de ardósia, recoberto por pano de cor verde muito
fino e bem esticado, com o rebordo reforçado por tabelas de borracha. As bolas,
coloridas conforme os valores, eram de marfim, ao contrário das sinuquinhas de
hoje, com bolas de matéria plástica especial. A sinuca viveu seu apogeu de 1930
até meados dos anos de 1950, com centenas de bilhares nos botequins da cidade.
Na Praça Seca, existiam três salões. 0
mais antigo foi no bar do Bernardino, na esquina da Rua Barão, onde hoje é a Lanchonete
Ramalhense. 0 Bernardino dos Reis e o irmão José dos Reis ficaram com o botequim,
após a morte do cunhado, Francisco José de Souza. Depois, em 1946, eles compraram
também o imóvel da herdeira e filha do antigo dono, Dona Ester de Souza Almeida.
Mas, na década de 1930, os dois construíram a sinuca ao lado do botequim, onde
existia uma casa do tipo antigo em que as janelas e porta davam direto para a
calçada, na qual o Bernardino morou, quando casou com Dona Carminda. A sinuca
acabou em 1956. Em 1958, foram realizadas obras no local, quando surgiram as atuais
lojas Bel-Dete e relojoaria (44).
Ao lado do Bernardino, também na Rua Cândido Benício, onde hoje é o Big Bar, havia
outro salão, no então Café Brasil, que era conhecido como sinuca do Mau Cheiro.
Após o fim da sinuca, o Big Bar teve vários donos. Um deles, o Manuel Pipoqueiro,
foi quem construiu o prédio novo ao lado, na Rua Cândido Benício número 2.009,
onde localiza-se a Sapataria Zoraide Modas (45).
Naquele local, na década de 1930, existia a carvoaria do João Simões. Os
sinuqueiros que mais se destacavam eram chamados de taquinhos. Os principais da
sinuca do Bernardino e do Mau Cheiro foram: Horácío, Augusto, Ulisses "Olho-de-Boi",
Chiquinho (sobrinho do Bernardino) e Ferrinho. Mais tarde, ainda na década de
1940, surgiram outros cobras do mesmo nível: Edson Escovão, Raimundo, Hélio Matos
e Cléber. Também eram excelentes jogadores o João Coca-Cola, Gilberto Papa-Rola,
Geraldo Louro, Sérgio Escola e o Cleomar. No recinto do botequim, onde ficavam
as mesas, não podiam permanecer menores, pois o jogo só era permitido por lei
para maiores de 18 anos. 0 Ataíde, filho do Coronel Brazini Fabriani, que morava
onde hoje é a Igreja Batista, deu muito trabalho ao Bernardino e ao garçom Nazário,
pois o pai não queria que ele jogasse sinuca. Diversas vezes, o coronel vinha
ao bar de madrugada para levar o Ataíde para casa.
Certa vez, trancou o rapaz dentro do seu quarto. De vez em quando, ia observar
se a porta continuava fechada. Ficou tranqüilo ao ouvir o filho escutando música
e foi dormir descansado. Porém, o Ataíde já há muito tempo estava jogando sinuca.
Antes de pular a janela do quarto, não se esqueceu de ligar o rádio, a fim de
ludibriar o pai. A
terceira sinuca da praça era no sobrado do Victor Parames, em cima do armazém
do Pena Bastos, que ficava ao lado da atual Drogaria Musa. A sinuca pertencia
ao Tenente Nélson Fiuza Pessoa. Antes, aquele mesmo local foi sede do tiro de
guerra do próprio Tenente Nélson. Os tiros de guerra eram corporações militares
da época da ditadura de Getúlio Vargas para funcionários públicos, comerciários
e estudantes, que, ao concluir o tiro de guerra, não precisavam servir o exército.
0 povo chamava seus integrantes, em virtude do uniforme e espingarda, de caçadores
de rolinha. A sinuca do Tenente Nélson era a maior das três da praça. Possuía
sete mesas tujagues e mais duas de bilhar francês (pequena mesa sem caçapa com
três bolas, cujo objetivo é carambolar, ou seja, com uma bola acertar as outras
duas na mesma tacada). Quem tomava conta da sinuca era o velho Miranda, ajudado
pelo Nena. De um modo geral, os taquinhos do Bernardino e Mau Cheiro também o
eram na sinuca do tenente. 0 Hélio Matos, entretanto, foi quem proporcionou as
partidas mais brilhantes do sobrado. 0 Antônio "Panela", jogador de sinuca profissional,
estava sempre na praça e no salão, porém, quase não jogava ali. Seu reduto foi
na sinuca de Cascadura, onde era considerado o melhor jogador do subúrbio da Central.
A sinuca do Tenente Nélson foi a última a terminar, no final da década de 1950.
Depois disso, alguns sinuqueiros da Praça Seca passaram a jogar no Campinho, no
botequim do Alvarino. O
ambiente na praça na década de 1940 era propicio às brincadeiras a rapaziada.
Após a ditadura de Getúlio Vargas e a promulgação da nova Constituição Brasileira
em 18 de setembro de 1946, realizaram-se no antigo Distrito Federal, atual município
do Rio de Janeiro, as eleições municipais em 1947. Na Praça Seca, surgiram diversos
candidatos verdadeiros e um fictício: o Sapo. Figura folclórica da praça, o Sapo
era caixeiro do armazém do Arnaldo, situado onde hoje é o Cine Baronesa (38).
Ninguém o conhecia pelo verdadeiro nome, Altamiro. Morava com os pais, Dona Maria
e Aniceto, num barraco nos fundos de um terreno baldio, onde atualmente existe
o prédio número 727 da Rua Baronesa, quase em frente à Academia Corpus. A
galhofa de fazer o Sapo um falso candidato a vereador partiu dos motoristas de
táxi da época, liderados pelo Manduca, Heitor e Russo do Marangá; Toda a população
aderiu à sátira, e houve até animados comícios no coreto. Lá em cima, o Sapo fazia
pose e discursava. Atrás dele, uma pessoa murmurava: e ele repetia tudo: "sou
candidato a varredor e se for eleito vou fazer jorrar cachaça do chafariz da praça".
0 encerramento da campanha foi digna de qualquer candidato
verdadeiro, com até desfile de carros. Muita gente levou a sério, e, quando abriram
as urnas, apareceram muitos votos para o Sapo. Quase nessa mesma época, os motoristas
da praça bolaram um concurso de feiúra entre o Sapo e o Barão , que terminou empatado
(o Barão também era caixeiro e trabalhava no armazém do Barros. Morou na Rua Baronesa
número 856). 0 Sapo morreu logo depois das eleições de 1947. Sua figura bastante
feia, porém, bondosa e sempre disposta a cooperar com a brincadeira, angariou
simpatia da população. Por isso, teve cortejo fúnebre nunca visto. 0 carro funeral
já estava no Largo do Tanque, e a fila de automóveis que o seguiam terminava na
Praça Seca. 0 Barão morreu anos depois, já na década de 1950, atropelado em frente
à quitanda do Vieira. Na
primeira metade da década de 1950, as pessoas vinham à praça comprar jornais e
revistas, pois o único jornaleiro da região ficava ao lado da Padaria Marangá.
Nos anos de 1950, o movimento na Rua Cândido Benício era bastante reduzido. Os
poucos automóveis europeus e americanos (a indústria automobilística brasileira
ainda não havia sido implantada) tornavam o trânsito suave e permitiam aos pedestres
atravessarem em fração de segundos, apesar de não existir sinal em toda a extensão
da Cândido Benício. Para o abastecimento, o veiculo tinha que ir fora dos limites
da Praça Seca. As duas bombas de gasolina mais próximas, movidas por alavanca
manual, eram no Largo do Campinho e na loja do Jacó e Milieme, no Tanque. Na época,
os jovens não dirigiam carros. Haviam exceções, como era o caso do Pedro Vieira,
filho do dono da pedreira da Rua Maricá; e dos irmãos Hélio e Paulo Matos, que
usavam o automóvel do pai. O
Darci era o único mecânico da região, com oficina no local da atual vila atrás
do edifício do Bradesco (que já foi loja do Bob's). Ele foi morar nos Estados
Unidos , onde prosperou, por causa da experiência em mecânica de carros americanos,
adquirida com os anos de trabalho na Praça Seca. O Dai faleceu nos Estados Unidos.
Na entrada para a oficina do Darci, exatamente onde é o Bradesco, naqueles tempos,
existiam duas casas geminadas, nas quais moravam o Lucas e o Álvaro do açougue.
0 Lucas foi quem fundou a Ótica Marli em 1951, que, inicialmente. ocupou meia-porta
do antigo Foto Mallet, no sobrado do Parames. Em 1956, a ótica mudou-se para a
loja atual. A
mais famosa brincadeira da rapaziada da praça, durante a década de 1950, foi a
de atirar colegas no lago. Cada dia, um estava escalado e, após o banho involuntário,
descobria que foi o escolhido. Certa feita, o Ricardo, hoje delegado de policia
(40)
foi jogado no lago. Como morava na própria praça, foi para casa, trocou de roupa
e voltou limpo. Aproximou-se da turma e, com um sorriso, comentou esportivamente
o fato. Foi lançado novamente ao lago. Outra vez foi para casa, retornando com
novo traje, mas caiu pela terceira vez dentro d'água. Então, o pessoal prometeu
que a brincadeira já havia terminado. 0 Ricardo foi e voltou arrumado, porém,
muito desconfiado. Quando tentaram agarrá-lo, desvencilhou-se e correu. Chegou
até a porta do Cine Ipiranga e pediu ao gerente Efraim para entrar. 0 próprio
Efraim foi quem o salvou, impedindo que os outros o seguissem já no interior do
cinema. Um
fato interessante, também sobre o lago, aconteceu com o Antônio "Panela". Tudo
surgiu na sinuca do Tenente Nélson, quando disseram para o Ivan do Tanque que
o Panela era bicha e para o Panela que o Ivan queria jogar sinuca com ele. A principio,
o Panela acreditou na estória, mas, depois, descobriu que tudo era gozação. Então,
fingiu que era mesmo afeminado, a fim de dar uma lição ao Ivan. Convenceu-o a
descer e, dizendo que o lago estava cheio de peixinhos dourados, o levou até a
sua proximidade. Chegando na beira, deu um empurrão, e o Ivan caiu na água de
terno e gravata. 0 Panela se divertia criando casos insólitos. Certa vez, um grupo,
cansado das suas brincadeiras, o amarrou numa árvore, escrevendo a palavra "ladrão"
e o deixou sozinho na praça. 0 Panela, porém, só ficou alguns minutos preso, pois
convenceu a um transeunte a soltá-lo. Logo que ficou livre, correu para o banheiro
do botequim do Bernardino, enchendo uma folha de jornal com merda. Pegou um lotação
e pediu ao motorista para diminuir a velocidade junto à turma que o amarrou, que
descontraída caminhava pela Rua Cândido Benício. 0 Panela saltou de surpresa e
lambuzou de merda os rostos de todos. A turma das brincadeiras do lago parava
muito no lado da praça, onde fica o Cine Baronesa (38).
Seu principal ponto de reunião era na antiga Leiteria e Bar dos Sports do Ataliba,
que nessa época, década de 1950, era o botequim do Aníbal Gordo, que trouxe de
Portugal, para trabalharem ali, o Arão, Mário e Zé. Na década de 1960, esse bar
passou a pertencer ao Antônio e Dona Isabel. A sinuca do Tenente Nélson era outro
lugar de reunião dessa rapaziada, que, às vezes, também ia ao botequim do Bernardino,
do outro lado da praça, a fim de confraternizar-se com o grupo de lá. A turma
do Bernardino era a mais antiga, com alguns remanescentes até da década de 1930. A
turma do lago, com intuito de seu próprio entretenimento, formou um time de futebol.
0 nome escolhido foi Champanhota, tirado de um termo muito usado pelo colunista
Ibrahim Sued e popularizado num samba cantado por Jorge Veiga. A idéia do Champanhota
vingou, e surgiram equipes rivais. Assim, o próprio Champanhota, liderado pelo
Geraldo Louro, organizou, em 1955, um torneio de futebol, disputado à noite no
Parames, exclusivamente para as diversas turmas da praça. 0 torneio foi o grande
acontecimento da época, com a participação de 13 times. Alguns, além do Champanhota,
tinham os nomes vinculados ao samba de Jorge Veiga, como era o caso da Dama de
Preto e Depois Eu Conto. Outros, possuíam nomes pitorescos, como os Onze Sinuqueiros,
Gravatinhas, Agrião, Canavial e Camarões. O principal favorito era a equipe dos
Onze Sinuqueiros, com ótimos jogadores, entre os quais, o Gilberto Gin, Manoel
Português, Amauri Cuca e João Bagulho. A Dama de Preto, formada por garotos do
Jacarepaguá Tênis Clube, também era um dos favoritos, com os cobras Miltinho e
Heraldo, além do gordo Iwalmar, que, por causa do volume do corpo, jogava parado
no meio campo, mas só dava passe certo no pé do companheiro. Ninguém
acreditava no Champanhota, pois criou-se em torno da turma uma idéia estereotipada
de bagunceiros, farristas e brincalhões. Mas o pessoal do Champanhota também sabia
jogar futebol. 0 Joaquim (professor) e o Maquinho (Max Noronha) eram excelentes
jogadores (o Maquinho, inclusive, na década de 1940, jogou pelo Marangá). Outras
virtudes do time, que surpreenderam os adversários, foram: o preparo físico do
Zé Perereca, o potente chute do Paulo Matos e o goleiro Orlando Careca (que jogou
no Vila Albano). 0 Champanhota acabou terminando em primeiro lugar, junto com
a Dama de Preto. Só que nunca houve decisão extra, e a turma do Jacarepaguá Tênis
Clube jamais viu a taça destinada ao campeão. 0 time do Champanhota era formado
com Orlando; Geraldo Louro e Amauri Coqueiro; Cadete, Zé Perereca e Tininho Louro;
Édson Viana, Joaquim, Paulo Matos, Maquinho e Hélio Matos. A Dama de Preto com
Zandelmo; Zeca e Paulo Cavina; Léo Migon, Ywalmar e Gilberto Bordalo; Gilson Bordalo,
Arlindo Ricon, Antônio Faya (o Boneco), Miltinho e Heraldo. O
pessoal da Praça Seca freqüentava a praia do canal e quebra-mar, únicos lugares
da Barra da Tijuca onde existiam habitações nos anos de 1950. A partir de uns
300 metros do quebra-mar até o Recreio não havia ninguém, nem aos domingos de
verão, parecendo a um Brasil pré-cabraliano (o loteamento do Recreio dos Bandeirantes
surgiu no início dos anos de 1960. E a Barra da Tijuca somente começou a crescer
a partir da década de 1970). 0 canal da Barra e a praia junto ao quebra-mar eram,
na década de 1950, quase exclusivamente usados pelos habitantes de Jacarepaguá.
Na década de 1960, é que começaram a aparecer por ali turmas do bairro da Tijuca.
A rapaziada da Praça Seca tinha seus cobras na natação, como o Marialvo, Tininho
Louro, Zé Perereca e, mais tarde, já na segunda metade da década de 1950, juntaram-se
a eles, o Hélio Colored e o Paulo Pintado. No
sábado de aleluia de 1958, na esquina do Cine Baronesa, houve um verdadeiro festival
de judas, com quinze bonecos pendurados nos postes, simbolizando os candidatos
a vereadores moradores da Praça Seca. Na hora da malharão, o movimento de pessoas
foi tão grande que parou o trânsito. Outro tipo de brincadeira da rapaziada era
a colocação de faixas fictícias, conclamando o povo para shows com artistas famosos
do rádio, como, por exemplo, Caubí Peixoto e Ângela Maria. A finalidade era trazer
muita gente para a praça nos dias mortos de meio da semana, principalmente atrair
as moças.
0 famoso baile do Havaí foi idealizado na Praça Seca. Foi criado por Cíd Bob Nélson
e Mato Grosso, que, no final da década de 1950, organizaram o primeiro no Jacarepaguá
Tênis Clube, cujo salão foi ornamentado imitando àquela ilha do Pacifico. A idéia
foi tão boa, que, mais tarde, diversos clubes realizaram também esse evento. Atualmente,
a Noite do Havaí faz parte da programação do carnaval carioca, mas quase ninguém
sabe que sua origem aconteceu na Praça Seca e que os bailes iniciais do Jacarepaguá
Tênis Clube eram no meio do ano ao invés do carnaval. 0
Bar Maracangalha foi o ponto de reunião da rapaziada, durante todo o período em
que funcionou, de 1958 a 1968. 0 estabelecimento ocupou a loja do antigo armazém
do Antônio, ao lado do açougue do Aielo. Hoje, essas duas lojas são partes do
Supermercado de Carnes Sol da Nave. 0 Maracangalha não tinha sequer porta e ficava
aberto às 24 horas do dia. Durante a madrugada, vinham pessoas de bairros adjacentes,
como foi o caso da Zaquia Jorge e outros artistas, que, após os espetáculos do
Teatro Madureira, terminavam a noite no bar. 0 proprietário do Maracangalha era
o Paulo Monteiro, filho do dono da Padaria Olga. Seus métodos de trabalho facilitavam
o contato com uma freguesia muito heterogênea. Certa vez, o Barral (uma das figuras
que foi para o folclore da praça) discutia com um empregado que não pagaria o
sanduíche de queijo, pois não era verdade que o tinha comido. 0 Paulo se aproximou
do Barral, que continuou negando. Então, com sua calma peculiar, pegou um palito.
Pediu ao Barral para abrir a boca e, como se fosse um odontologista, tirou entre
os dentes um resíduo do queijo. 0 Barral ficou sem graça e acabou confirmando
que tinha comido realmente o sanduíche, mas que não tinha dinheiro. 0 Paulo não
se perturbou, apanhou um papel e mandou o Barral assinar um vale para acertar
depois. Outro
lugar tradicional dos anos de 1960 foi a Lanchonete Rajah, que, inicialmente,
pertenceu ás baianas. Antes de abrir esse bar, que ficava ao lado da Ótica Marli,
as duas baianas faziam ponto em frente aos cines Ipiranga e Baronesa. Depois das
baianas, o proprietário foi o Paulo do Maracangalha. No meado da década de 1960,
o bar possuía mesas na calçada, embaixo de cobertura metálica, quando foram donos
o Betinho e; depois, o Geraldo das batidas. Na
década de 1960, a turma da praça costumava-se reunir, no final da noite, no caramanchão
em frente â garagem da prefeitura. Ali se jogava xadrez, damas, pregobol (tipo
de futebol num tabuleiro cheio de pregos) e sueca. 0 jogo de sueca (atualmente
existente um frente ao supermercado e outro em frente à Prefeitura) é mais recente,
pois começou a aparecer, apôs a reforma da praça em 1977. Nos anos de 1960, a
turma do Champanhota participou do "boom" imobiliário da Zona Sul, pois o Júlio
Bogoricin, quando iniciou na corretagem de imóveis: formou sua equipe com o pessoal
da Praça Seca.
0 romantismo da praça começou a desaparecer no inicio da década de 1970. A formação
de grandes industrias, a edificações de enormes conjuntos residenciais e loteamentos
em várias regiões de Jacarepaguá tornaram a Rua Cândido Benício, local de passagem
obrigatória para todos os pontos do bairro, com um movimento de carros cada vez
maior. Quando a rua recebeu o nome de Cândido Benício, na década de 1890, a população
total de Jacarepaguá era, de apenas 16.070 habitantes. Menos de cem anos depois,
na década de 1970 atingiu 232.726 habitantes. No censo de 1980, chegou a 332.345
habitantes. A estimativa para 1986 ê de 385.418 habitantes. Em 1975, a Cândido
Benício tornou-se mão única na direção do Campinho à Praça Seca. A direção Praça
Seca ao Campinho passou a ser pelas ruas Baronesa, Pedro Teles, Maricá, Teles
e Francisco Gifoni (46). 0
trânsito continua crescendo, principalmente no verão, quando o fluxo de pessoas
que procuram a faixa litorânea aumenta consideravelmente. Assim, a Praça Seca
transformou-se do lugarejo bucólico e pitoresco, afastado do centro da cidade,
em uma cidade própria com todos os seus problemas. (38)
- Nota para a edição da Internet - O antigo Cine Baronesa é atualmente a Igreja
Universal do Reino de Deus. (39)-
Nota para a edição da Internet - O prédio (Bar da Bebel e açougue) foi demolido
em junho de 1997.
(40) - Nota para a edição da Internet - O Ricardo
Mesquita faleceu no início da década de 1990. (41)
- Nota para a edição da Internet - O Supermercado Leão acabou. Ficava no prédio
da esquina da praça com a Rua Barão (lado do coreto), onde hoje é o Centro
Comercial Paço da Praça. (42)
- Nota para a edição da Internet - O Supermercado Três Poderes foi vendido em
1999 para o Supermercado Sendas. (43)
- Nota para a edição da Internet - O Israel agora reside na Barra da Tijuca. (44)
- Nota para a edição da Internet - Todo o prédio (Bar Ramalhense, Bel Dete e relojoaria)
foi demolido em setembro de 1996. (45)
- Nota para a edição da Internet - A Zoraide Modas acabou. A loja é ocupada pela
relojoaria que existia no prédio demolido (ver nota 44). (46)
- Nota para a edição da Internet - O trânsito voltou a ter mão dupla na Rua Cândido
Benício em 1998, com o alargamento feito no logradouro. |
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