Imagens de Jacarepaguá

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IMAGENS DE JACAREPAGUÁ

APRESENTAÇÃO

Com o objetivo idêntico ao do livro O Vale do Marangá, ou seja, resgatar a memória do bairro, apresentamos a obra Imagens de Jacarepaguá. É um volume praticamente ilustrado, pois, nas suas 112 páginas totais, oitenta são de fotografias. As demais contêm o resumo histórico de Jacarepaguá. Como havia sido no anterior, a tarefa de pesquisa para Imagens foi árdua. Quando lancei O Vale do Marangá em 1986, não imaginava o quanto os moradores de Jacarepaguá dariam importância ao mesmo. Nesses anos todos, recebi inúmeras demonstrações de carinho da população por o ter editado. Essas manifestações me deixam realizado, porque meu objetivo realmente aconteceu: ser lido por boa parte dos moradores e ser útil, principalmente aos estudantes. Tomei conhecimento que alguns exemplares serviram para mais de dez pessoas. Na Biblioteca Regional de Jacarepaguá, muitas crianças consultaram a obra a pedido de suas professoras. Também aconteceu na Biblioteca Nacional. Neste livro Imagens de Jacarepaguá, há um resumo histórico do bairro. Os personagens reverenciados pelos principais logradouros receberam pequena bibliografia. Juntando-se com as reproduzidas em O Vale do Marangá, elas se constituem em trabalho inédito. Na minha investigação sobre nomes de ruas de Jacarepaguá, desde o tempo da feitura de O Vale do Marangá, constatei que não há registros das vidas dos homenageados, nem na Prefeitura (Serviço de Nomenclatura), e nem em obra literária. O livro Histórias das Ruas do Rio de Janeiro de Brasil Gérson descreve apenas sobre os logradouros do Centro, Zona Sul e parte da Zona Norte. Não existe praticamente nada sobre os subúrbios. O próprio Gérson, no final da obra, relata o seguinte: "Aqui essas páginas terminam, sem que nelas faça a história das ruas suburbanas, porque essa não seria uma tarefa para um homem só, e sim para toda uma equipe, durante vários anos". Brasil Gérson (1904-1981) é nome de rua na Taquara, em uma das esquinas da Estrada do Cafundá. O trabalho dele é muito importante para o Rio, mas, como ele próprio disse, precisa ser completado. Eu fiz um pouco com as ruas de Jacarepaguá. Espero que outros façam com outras localidades suburbanas.

Rio de Janeiro, 27 de abril de 1995

Waldemar Costa

 

BIBLIOGRAFIA

LIVROS

Santuário Mariano - 1720 - Frei Agostinho Santa Maria

Memórias Históricas do Rio de Janeiro - 1820 - José Pizarro e Araújo

Crônicas da Cidade do Rio de Janeiro - 1945/1946 - Noronha Santos

Monografia da Irmandade de N. S. da Pena - 1946 - Amadeu Beaurepaire Rohan

A Família Fonseca Teles (o Barão da Taquara) - 1954 - Amadeu Beaurepaire Rohan

O Santuário Nacional de N. S. do Loreto - 1979 - Geraldo Mac-Dowell

As Sesmarias de Jacarepaguá - 1983 - Raul Teles Rudge

O Casal Furquim Werneck e sua Descendência - 1985 - Roberto Menezes de Moraes

O Vale do Marangá - 1986 - Waldemar Costa

Pedras de Um Mosaico - 1986 - Álvaro Tolentino Dias

COLABORADORES

 Albano Raimundo Fonseca Marques (neto do homenageado da Rua Albano)

Alberto Sampaio Ferraz (Companhia Predial)

Álvaro Dias Saraiva (antigo morador do Pechincha)

Antônio Carlos Valente Baeta (antigo morador do Pechincha e Praça Seca)

Antônio Silva (Mercearia da Rua Edgard Werneck)

Arnaldo Rodrigues (neto do poeta Aníbal Teófilo)

Celeste Lopes Egipto Rosa (sobrinha do Pepito Barbeiro)

Emília Barbosa de Andrade (nora do Cândido Benício)

Feliciano T. Mendes de Morais (filho do Marechal Miguel Salazar Mendes de Morais)

Francisco José Teles Rudge (neto do Barão da Taquara)

Jair Motta (repórter-fotográfico do Jornal dos Sports)

 

 

COLABORADORES

João Alberto Rocha - o Bebeto (morador antigo, nascido na Praça Seca)

José de Barros Ramalho Ortigão (bisneto do Mateus e neto do Barão do Engenho Novo)

José Duarte Macedo (sobrinho do Filgueira, dono do Torreão da Rua Pedro Teles)

Luís Carlos Batista Costa (Foto Síntese)

Lydia Machado Werneck (sobrinha do Edgard Werneck)

Marcelo Moura das Chagas (morador antigo da Praça Seca)

COLABORADORES

Maria José de Carvalho Santos (moradora antiga da Praça Seca e Freguesia)

Mervyn George Walter Hime (filho de Francis Walter Hime, dono da Fazenda Rio Grande)

Noel Vasquez - o Noel Leiteiro (morador antigo da Praça Seca)

Paulo Carneiro da Cunha (Colégio de Genealogia - IHGB)

Salvador Machado (filho do Capitão Machado)

Válter Vieira (morador antigo da Praça Seca, filho do Vieira da Quitanda)

 

RESUMO HISTÓRICO DE JACAREPAGUÁ

 

O topônimo Jacarepaguá deriva-se de três palavras da língua tupi-guarani: yakare (jacaré), upá (lagoa) e guá (baixa) - a "baixa lagoa dos jacarés". Na época da colonização, as lagoas da Baixada de Jacarepaguá estavam repletas de jacarés, daí o nome.

No início, Jacarepaguá não tinha dono, embora a rica diversidade de seres vivos. Índios, animais e vegetais conviviam com inteligência em simetria às leis da natureza. Essa harmonia ambiental cessou com o descobrimento do Brasil. O rei de Portugal passou a ser proprietário de tudo, com o poder de dividir o mundo descoberto entre os vassalos, sem contudo perder a autoridade central e absoluta. Seus representantes no Brasil também tinham direito de doar em seu nome terras para a agricultura. Eram as chamadas sesmarias.

Após a fundação da cidade do Rio de Janeiro em 1565, houve uma luta sangrenta para expulsar os franceses comandados por Nicolau Durand Villegagnon (1510-1575). Nessa guerra, morreu o fundador da cidade Estácio de Sá (1520-1567). O seu tio Mem de Sá (1504-1572), o então governador-geral do Brasil, foi quem comandou a expulsão definitiva dos corsários franceses. Depois, ele resolveu regressar para Salvador, a capital da colônia. Antes de embarcar, nomeou outro sobrinho para governar o Rio de Janeiro: Salvador Correia de Sá (1547-1631). Salvador administrou a cidade de 1567 a 1598; com exceções dos períodos de 1573 a 1575 governado por Cristóvão de Barros e 1576 a 1577, por Antônio Salema. Logo que assumiu a capitania, Salvador doou sesmarias no Rio de Janeiro para portugueses que combateram os franceses durante a fundação da cidade. Jerônimo Fernandes e Julião Rangel de Macedo receberam, naquele ano de 1567, terras na futura região de Jacarepaguá.

Os primeiros sesmeiros de Jacarepaguá, entretanto, não cultivaram os solos recebidos. Em 1594, os filhos do Governador Salvador Correia de Sá, Gonçalo Correia de Sá e Martim Correia de Sá, que na época que o progenitor concedeu a sesmaria a Jerônimo e Julião ainda não eram nascidos, fizeram petição ao pai-governador para a concessão da sesmaria de Jacarepaguá para eles, alegando que, passados quase trinta anos, os antigos sesmeiros não tomaram posse da mesma. Julião Rangel, amigo do governador e principal auxiliar da longa administração de Salvador Correia, achou justa a pretensão de Gonçalo e Martim. Assim, o administrador da cidade outorgou as terras aos filhos. A carta da sesmaria foi passada no dia 9 de setembro de 1594 pelo tabelião da cidade. Em 26 de maio de 1597, foi confirmada pelo rei Felipe II.

Os dois irmãos dividiram a região de comum acordo. A parte de Gonçalo compreendeu as terras desde a Barra da Tijuca, passando pela Freguesia, Taquara e Camorim, até o Campinho. A parte de Martim, a partir do Camorim, atravessando a Vargem Pequena e Vargem Grande, até o Recreio dos Bandeirantes. Martim Correia de Sá dedicou-se à política. Foi governador do Rio de Janeiro em dois períodos: 1602 a 1608 e 1623 a 1632. Casou-se com a espanhola Maria de Mendonza e Benevides. O primogênito dessa união foi Salvador Correia de Sá e Benevides, que iniciou a dinastia dos Viscondes de Asseca, de grande importância na história de Jacarepaguá. Enquanto o irmão Martim governava o Rio, Gonçalo ocupava a sua sesmaria. Construiu o Engenho do Camorim e arrendou boa parte das suas propriedades a terceiros. Assim, os domínios de Gonçalo se transformaram rapidamente em povoações, enquanto os de Martim até hoje têm grandes vestígios rurais.

Nas primeiras décadas do século XVII, as imediações da Pedra do Galo já possuíam razoável povoamento, em virtude dos diversos arrendamentos feitos por Correia de Sá. A chegada dos primeiros escravos no Rio de Janeiro aconteceu em 1614. A maioria veio para os grandes foros que surgiam em Jacarepaguá. Um dos principais foreiros foi Rodrigo da Veiga, que criou o Engenho D’Água por volta do ano de 1616, bem antes de Gonçalo Correia de Sá fundar o Engenho do Camorim em 1622. Três anos depois, em 1625, Gonçalo ergueria a Capela de São Gonçalo do Amarante nas terras desse engenho. Mais tarde, o Padre Manuel de Araújo construiria, no alto da Pedra do Galo, a Igreja de Nossa Senhora da Pena. Então, lá embaixo, no lugar chamado Porta D’Água, começaria a surgir o primeiro núcleo populacional de Jacarepaguá.

Até então a viagem para Jacarepaguá era somente feita pelo mar, pela Barra da Tijuca e lagoas. Os viajantes, todavia, ficavam na dependência de embarcações de algum calado, para enfrentar o mar. A fim de que esses pioneiros do século XVII pudessem levar a produção de seus engenhos e fazendas para a longínqua Freguesia de São Sebastião do Rio de Janeiro com mais facilidade, foram abertos caminhos que deram origens aos atuais logradouros. As mercadorias atravessavam o Vale do Marangá (atual região da Praça Seca) até o porto fluvial de Irajá (local onde surgiu a Freguesia de Irajá). Daí seguiam em pequenos barcos pelo Rio Irajá e Baía da Guanabara para atingir o cais da atual Praça Quinze.

Gonçalo Correia de Sá casou-se com Dona Esperança da Costa. Dessa união nasceu a filha Vitória de Sá. Em 1628, chegou ao Rio de Janeiro o fidalgo espanhol Dom Luís Céspedes Xeria, que viajava desde Madri para Assunção, a fim de assumir o cargo de governador do Paraguai. Céspedes foi hóspede oficial da cidade, pois, na época, Portugal e Espanha estavam unificados sobre a mesma coroa. No dia 21 de março de 1628, em grande festa na casa do então governador do Rio de Janeiro - Martim Correia de Sá, Céspedes casou-se com Vitória Correia de Sá, filha de Gonçalo e sobrinha de Martim. Como dote de casamento, Gonçalo doou parte de sua sesmaria de Jacarepaguá a Dom Luís Céspedes. Os irmãos Correia de Sá faleceram anos depois: Martim em 1632 e Gonçalo em 1634. Nesse mesmo ano de 1634, a mulher de Gonçalo, D. Esperança, e a filha Vitória venderam a propriedade a Salvador Correia de Sá e Benevides, filho do falecido Martim. Dona Vitória, entretanto, não se desfez de tudo. Ela continuou com a parte que o marido recebera de seu pai como dote de casamento. Essa grande fração de terras seria doada, em testamento feito por ela no dia 30 de janeiro de 1667, ao Mosteiro de São Bento. Até os dias de hoje há brigas judiciais por posses de terrenos, por causa das diversas cadeias sucessórias que se formaram a partir do século XVII.

Salvador Correia de Sá e Benevides (1601-1688) era general e lutou pelos interesses portugueses contra os holandeses em Angola. Ocupou em três períodos o governo do Rio de Janeiro: 1637 a 1642, 1648 a 1649 e 1659 a 1660. Proporcionou grandes desenvolvimentos em suas terras de Jacarepaguá ao vender muitas delas e auxiliar os compradores a fundar engenhos. Ele faleceu em Lisboa no dia 1 de janeiro de 1688.

Com o desenvolvimento da região foi criada em 6 de março de 1661 pelo governador do Rio de Janeiro, João Correia de Sá, a Freguesia de Nossa Senhora do Loreto e Santo Antônio de Jacarepaguá. Essa freguesia foi a quarta do Rio de Janeiro. A primeira fora a de São Sebastião, instituída no dia 20 de janeiro de 1569, quatro anos após a fundação da cidade. A segunda, em 1634, a da Candelária. E a terceira, em 1644, a de Irajá. A sede inicial da Freguesia de Jacarepaguá foi a capela da fazenda do Capitão Rodrigo da Veiga. A igreja matriz de Nossa Senhora do Loreto foi construída pelo Padre Manoel de Araújo. Na inauguração, houve grande festa, na qual compareceram o governador do Rio de Janeiro Dom Pedro de Melo, o prelado da província Manoel de Souza Almada e o Provedor Diogo Correia.

No final do século XVII, o juiz de órfãos Francisco Teles Barreto de Meneses e sua mulher Dona Inês de Andrade Souto Maior, pentavós do Barão da Taquara, eram proprietários da Fazenda da Taquara. Ele foi contemporâneo do General Salvador Correia de Sá e Benevides. No decorrer do século XVIII, a família Teles Barreto de Meneses expandiu muito seus domínios em Jacarepaguá, comprando outros engenhos. Ao final desse século, eles eram os maiores donos de terras da região, que, na época, era chamada de planície dos onze engenhos. Eram fábricas de produção de açúcar. Em documento apresentado ao vice-rei Dom José Luís de Castro (1744-1819) - Conde de Resende, o sargento-mor Sebastião José Guerreiro França narra que, em 1797, a freguesia de Jacarepaguá possuía 252 residências. Sua população total era de 1.905 habitantes (437 homens, 562 mulheres e 906 escravos). O comércio era formado por três lojas de fazenda (armarinho), setenta vendas e mercearias e cinco açougues.

No início do século XIX, o café expandiu-se bastante na província do Rio de Janeiro. Em Jacarepaguá, foram criadas muitas fazendas para sua plantação, além de ser cultivado também nos solos férteis dos antigos engenhos de açúcar. O político brasileiro Francisco Maria Gordilho Veloso Barbuda - Marquês de Jacarepaguá, possuía terras no bairro para essa cultura. Muito amigo de Dom Pedro I (1798-1834), ocupou diversos cargos de confiança no Governo brasileiro, após a independência. É bem provável que o imperador em suas andanças pela região tenha visitado a fazenda do Marquês de Jacarepaguá. O historiador Carlos Oberacker em seu livro "A Imperatriz Leopoldina - Sua Vida e Sua Época", narra que a primeira esposa de Dom Pedro I era exímia caçadora. E acompanhou o marido em caçadas na planície de Jacarepaguá durante a lua-de-mel. Na sacristia da Igreja Nossa Senhora da Pena existe uma cadeirinha, que, segundo a tradição, serviu à Dona Leopoldina. Mais tarde, essa mesma cadeirinha foi usada por Dona Teresa Cristina, esposa do Imperador Dom Pedro II (1825-1891). O autor do Hino Nacional Brasileiro, Francisco Manuel da Silva (1795-1865) também possuía grande sítio em Jacarepaguá. Conta a lenda que o músico se inspirou no canto de um pássaro existente em sua chácara de Jacarepaguá para compor o hino em 1831.

A partir de 1831, começaram a ser subdivididas as fazendas de café de Jacarepaguá. A produção continuou nas propriedades menores que surgiam. No recenseamento de 1838, feito pelo Ministro da Justiça do período das regências Bernardo Pereira Vasconcelos (1795-1850), Jacarepaguá totalizava 7.302 habitantes, sendo 4.491 escravos. Segundo esse censo, a freguesia de Jacarepaguá era a de maior população escrava no município da Corte.

A mais famosa família dos tempos colonial e imperial de Jacarepaguá foi a originária do primeiro juiz de órfãos do Rio de Janeiro Diogo Lobo Teles Barreto de Meneses (1593-1658). O cargo de juiz de órfãos foi transmitido de pai para o filho primogênito durante cinco gerações, como recompensa dos serviços prestados por essa família ao Reino de Portugal. O filho de Diogo, Francisco Teles Barreto de Meneses (1625-1679), também juiz de órfãos, provedor da Santa Casa da Misericórdia e pentavô do Barão da Taquara, comprou o Engenho da Taquara em 1658. Seu filho Luís Teles Barreto de Meneses (1656-1702), outro juiz de órfãos, herdou a propriedade. Seu sucessor foi Antônio Teles Barreto de Meneses (1682-1757), que comprou o Engenho Novo, aumentando os bens da família em Jacarepaguá. Seu primogênito Francisco Teles Barreto de Meneses (1733-1806), segundo da linhagem com esse nome e bisavô do Barão da Taquara, assumiu o controle das terras com a morte do pai.

Na época desse Francisco Teles Barreto de Meneses, os domínios dos Teles eram imensos. O Dr. Francisco era casado com Dona Francisca de Oliveira Brito, que morreu no dia 6 de dezembro de 1806. Dias depois da morte da esposa, em 13 de dezembro de 1806, ele também viria a falecer. Em 20 de abril de 1807, procedeu-se o inventário, ficando como inventariante a filha mais velha do casal, Dona Ana Inocência Teles de Meneses, casada com o sargento-mor João Alves Pinto Ribeiro.

Os outros filhos do Dr. Francisco eram: Luís Teles Barreto de Meneses, casado com Dona Maria Felicidade da Gama Freitas (avós do Barão da Taquara); Dona Catarina Josefa de Andrade Teles, casada com Pascoal Cosme dos Reis; Dona Maria Rosa Teles de Meneses; Dona Mariana da Penha França Teles de Meneses e Dona Escolástica Maria de Oliveira Teles. Eles dividiram as propriedades dos pais. Os dois principais engenhos da família ficaram sob o controle de duas irmãs e seus maridos: Dona Ana Inocência e João Alves com o Engenho da Taquara e Dona Catarina Josefa e Pascoal Cosme com o Engenho Novo de Jacarepaguá. Durante as primeiras décadas dos século XIX, houve acirrada disputa entre esses cônjuges das herdeiras para definir marcos das terras. A briga ficou conhecida como "guerra dos concunhados". O conflito permaneceu após as mortes dos casais e só terminou em 1839.

Pascoal Cosme dos Reis faleceu em 6 de janeiro de 1833. Catarina Josefa de Andrade Teles, em 2 de abril de 1838. O sargento-mor João Alves Pinto Ribeiro morreu em 28 de fevereiro de 1828; e a esposa Dona Inocência Teles de Meneses, em 16 de novembro de 1836. Como esse último casal não teve filhos e com os irmãos também falecidos, o Engenho da Taquara ficou para a sobrinha de Dona Ana Inocência, Dona Ana Maria Teles de Meneses (1811-1840), filha de Luís Teles Barreto de Meneses e Dona Maria Felicidade da Gama Freitas; e para o sobrinho de João Alves Pinto, o português Francisco Pinto da Fonseca (1800-1865). Em 29 de janeiro de l837, os dois legatários se casaram e passaram a residir na Fazenda da Taquara. Foi dessa união que nasceu o Barão da Taquara. Logo que tomou posse do Engenho da Taquara, o casal acabou definitivamente com a chamada "guerra dos concunhados", procurando os filhos herdeiros de Pascoal Cosme dos Reis: Teresa Cosme dos Reis (casada com Nicolau Antônio Gomes dos Reis), Joaquim Teles Cosme dos Reis e Maria Teles Cosme dos Reis. Reunida com os primos, Dona Ana Maria resolveu as dúvidas sobre as linhas divisórias das propriedades. A escritura, no cartório do Juizado de Paz de Jacarepaguá, foi lavrada em 30 de janeiro de 1839. Dona Ana Maria e o Comendador Francisco Pinto da Fonseca tiveram dois filhos: Francisca Rosa da Fonseca e Francisco Pinto da Fonseca Teles. Dona Ana faleceu em 31 de outubro de 1840. O Comendador Pinto, em 23 de fevereiro de 1865. Todas as propriedades deles em Jacarepaguá (engenhos D’Água, da Taquara e de Fora) ficaram para o filho Francisco Pinto da Fonseca Teles, o futuro Barão da Taquara.

O Barão da Taquara nasceu no dia 25 de outubro de 1839, na Fazenda da Taquara; e faleceu aos 78 anos de idade em 30 de agosto de 1918, na sua residência do Centro, na Praça Quinze. Desde menino era assíduo freqüentador do palácio imperial da Quinta da Boa Vista, porque o pai era guarda-roupa do Imperador Dom Pedro II. Assim, tinha laços fraternais com o soberano brasileiro, inclusive o imperador foi seu padrinho de batismo. O carinho da família imperial era bem grande com o futuro barão, pois ele era órfão de mãe desde um ano de idade. O Imperador Dom Pedro II, acompanhado da imperatriz Dona Teresa Cristina, também visitava a Fazenda da Taquara. A irmã de Dom Pedro, Princesa Leopoldina, inclusive se hospedou na fazenda para se recuperar de doença grave. Alguns títulos que o barão recebeu em vida: 1864 - moço honorário da imperial guarda roupa, 1865 - tenente-coronel, 1865 - comandante do Sétimo Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional (cargo que ocupou durante a Guerra do Paraguai). Em 21 de outubro de 1882, por sua dedicação ao povo de Jacarepaguá, o Imperador Dom Pedro II outorgou-lhe o título de Barão da Taquara.

O Barão da Taquara casou-se muito jovem com Joana Maria Penna, com a qual teve três filhos: Emília Joana, Maria Luiza e Jerônimo Pinto. Cerca de vinte anos mais tarde, em 3 de maio de 1881, esposou com Dona Leopoldina Francisca de Andrade (1862-1960), que no ano seguinte passou a ser chamada de Baronesa da Taquara, em virtude do marido ter recebido o título de barão. O casal teve dois filhos: Francisco Pinto da Fonseca Teles (1882-1955) e Ana Teles Rudge (1884-1969). O Francisco casou-se com a sobrinha Maria Emília Marques, filha de Emília Joana. Eles tiveram somente um filho: Francisco da Taquara da Fonseca Teles (1909-1988). A Ana casou-se com Alfredo Rudge, que tiveram três filhos: Francisco José, Elza e Raul Teles Rudge (1915-1978).

Os meios de transportes na época de adolescência do barão eram exatamente os mesmos usados por seus ancestrais nos tempos coloniais: carroças, carruagens, tropas de cargas e a montaria individual a cavalo. Para chegar à cidade, os habitantes de Jacarepaguá tinham que enfrentar a poeirenta Estrada Real de Santa Cruz, a mais antiga do Rio de Janeiro. O trecho original dessa estrada era o caminho que ligava São Cristóvão à fazenda dos jesuítas em Santa Cruz. Em 1917, o Prefeito Amaro Cavalcanti (1851-1922) desmembrou a estrada, batizando-a com diversos nomes. Vejamos, a partir de São Cristóvão, o seu percurso com as designações atuais: Rua São Luís Gonzaga, Avenida Suburbana (atual Avenida Hélder Câmara), Ponte de Cascadura, Avenida Ernâni Cardoso, Estrada Intendente Magalhães, Avenida Marechal Fontenele, Avenida Santa Cruz e Avenida Cesário de Melo.

Quando o barão tinha 18 anos de idade, uma das grandes maravilhas do seu século chegava bem perto de Jacarepaguá: o trem. No dia 29 de março de 1858, o Imperador Dom Pedro II (1825-1891) inaugurou a estrada de ferro, que recebeu seu nome e foi rebatizada no início da República como Estrada de Ferro Central do Brasil. No ponto de cruzamento com a Estrada Real de Santa Cruz foi também inaugurada nesse dia a estação de Cascadura, a mais próxima de Jacarepaguá (a estação de Madureira surgiu já na República no dia 15 de junho de 1890). A população de Jacarepaguá ia a cavalo, deixava os animais nas cocheiras perto da estação e sorridente embarcava no trem. Alguns, em regiões mais próximas, como do Vale do Marangá, quase sempre iam a pé. Não podiam, entretanto, perder o horário, pois apenas circulavam dois trens por dia para cada sentido.

Em março de 1875, o acesso de Jacarepaguá para a Estação de Cascadura melhorou bastante com a implantação dos bondes de tração animal. A Companhia Ferro-Carril de Jacarepaguá, cujo principal acionista era Etiene Campos, ligou com bondes as localidades de Cascadura e Tanque, passando pelo Vale do Marangá. Logo depois, aconteceu os prolongamentos para a Freguesia e Taquara. Durante todo o restante do século XIX e primeira década do século XX, os bondes de Jacarepaguá eram puxados a burros. Em abril de 1911, a Light comprou a companhia e, nesse mesmo ano, iniciou a eletrificação das linhas. Em 1912, já eletrificado, o bonde de Jacarepaguá serviu de cortejo fúnebre do republicano histórico Quintino Bocaiúva (1836-1912). O Senador Quintino possuía uma chácara no subúrbio na então Estação de Cupertino (atualmente Estação Quintino Bocaiúva). A casa ainda existe numa colina da Rua Goiás, quase em frente à estação. Antes de morrer, ele pediu para ser sepultado no Cemitério de Jacarepaguá. O féretro veio do Centro do Rio pelo trem da Estrada de Ferro Central do Brasil. Em Cascadura, o cortejo seguiu de bonde até o Pechincha. Entre as figuras ilustres que acompanharam o corpo de Quintino pelas ruas de Jacarepaguá, estava o então Presidente da República, o Marechal Hermes da Fonseca (1855-1923). Os bondes de Jacarepaguá foram desativados em 1964.

Roteiro Histórico dos bairros

O Largo do Campinho é o mais antigo portão de entrada de Jacarepaguá. Em 8 de dezembro de 1589, por doação da Marquesa Ferreira, viúva de Cristóvão Monteiro, primeiro ouvidor do Rio de Janeiro, os jesuítas adquiriram a Fazenda de Santa Cruz. Para atingir a nova propriedade, os padres da Companhia de Jesus foram os responsáveis pela formação do caminho que deu origem à Estrada Real de Santa Cruz (ver descrição do seu atual percurso na página 10). Os povoadores pioneiros de Jacarepaguá também usavam o caminho dos jesuítas, mas em certo trecho dobravam à esquerda para as suas terras. Exatamente no local desse desvio é que nasceu o Largo do Campinho. Nesse mesmo ponto, em direção oposta, outra curva seguia para a Freguesia de Irajá. Os viajantes elegeram o lugar para descansar, deixando os animais pastarem no campo existente no encontro desses caminhos. O campo não era muito grande. Assim, passou a ser chamado de campinho.

O lugar tornou-se passagem obrigatória não somente para se chegar à Fazenda de Santa Cruz. Para atingir outras localidades, o viajante tinha que passar pela Estrada Real de Santa Cruz e, por conseguinte, pelo Largo do Campinho. Muitos vinham das províncias, como São Paulo e Minas Gerais. Eles muitas vezes optavam em fazer uma pausa no Largo do Campinho, antes de enfrentar o trajeto final para a cidade do Rio de Janeiro. No século XVIII, foi aberta uma estalagem no largo, onde hoje existe o posto de gasolina Rio-São Paulo. Esse abrigo serviu por mais de cem anos aos viajantes. Joaquim José da Silva Xavier (1749-1792) - o Tiradentes, pernoitou por diversas vezes nessa hospedaria, em seus deslocamentos da Vila Rica (hoje Ouro Preto) para o Rio de Janeiro. Ao lado da estalagem havia o oratório da Fazenda do Campinho de propriedade de Dona Rosa Maria dos Santos (atualmente, no mesmo local, existe a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, construída a partir de 1862). Dona Rosa Maria faleceu em 1846. Suas terras, que iam do Campinho até a atual Estrada do Portela, foram divididas com ela ainda viva para parentes e amigos. Entre os que receberam glebas, destacamos Domingos Lopes e Vitorino Simões. A filha de Vitorino, Dona Clara Simões, era casada com Domingos Lopes.

Outro grande proprietário na região do Campinho no século XIX foi Ludovico Teles Barbosa, bisavô materno de Geremário Dantas (1889-1935). O Ludovico foi grande plantador de café na área das atuais ruas Francisco Gifoni, Teles e Comendador Pinto, inclusive o Morro da Bica (hoje mais conhecido como Morro do Fubá, e que na época do Ludovico era chamado de Morro das Pedras). Essas terras pertenciam à Fazenda do Engenho de Fora. Nesse local, no lado oposto da atual Rua Cândido Benício, existia a Fazenda do Macaco, cujos limites iam até a atual Rua Quiririm (na época chamada de Estrada do Macaco). Em 1890, o Barão da Taquara loteou parte da Fazenda do Macaco, abrindo três ruas homenageando familiares: Rua Comendador Pinto (Comendador Francisco Pinto da Fonseca, pai do barão), Rua Ana Teles (Ana Teles Rudge, filha do barão) e Rua Pinto Teles (Dr. Francisco Pinto da Fonseca Teles, filho do barão). O loteamento de 1890 foi do lado direito da Rua Cândido Benício de quem vem da direção do Campinho. Em 1900, essas três ruas foram prolongadas até a encosta do morro. Os descendentes do Ludovico Teles Barbosa também lotearam parte de seus domínios, abrindo a atual Rua Teles, mas a família continuou a morar no local. O domicílio do Geremário Dantas era onde hoje é o colégio de freiras "Externato Geremário Dantas", construído em terreno doado pela família, após a morte de Geremário, às irmãs da Sociedade das Filhas de Nossa Senhora do Sagrado Coração.

O Geremário Dantas só não nasceu nessa casa da Rua Cândido Benício pelo motivo da sua mãe, Dona Francisca Teles de Morais Barbosa, decidir ter o filho ao lado dos pais na casa-grande da Fazenda do Valqueire. Assim, no dia 24 de setembro de 1889, onde hoje é o atual bairro de Vila Valqueire, veio ao mundo Antônio Geremário Teles Dantas, que foi famoso jornalista, escritor e político. No antigo Distrito Federal (Rio de Janeiro), ocupou os cargos de intendente (vereador) e secretário de fazenda dos prefeitos Alaor Prata (1882-1964) no período de 1922 a 1926 e Antônio Prado Júnior (1880-1955) no período de 1926 a 1930. Geremário faleceu em Petrópolis no dia 20 de fevereiro de 1935, vítima de leucemia. Em 21 de outubro de 1936, a antiga Estrada da Freguesia passou a ser chamada de Avenida Geremário Dantas.

A Fazenda do Valqueire surgiu no século XVIII e era propriedade de Antônio Fernandes Valqueire. Nas últimas décadas do século passado, o avô materno do Geremário Dantas, Francisco Teles (o Chico Teles), arrendou a Fazenda do Valqueire ao proprietário que era o inglês Willian Newlads. Foi nessa época que o Geremário nasceu. Na década de 1920, Newlads vendeu a propriedade para a Companhia Territorial Edificadora Suburbana. Porém, o lançamento de vendas dos terrenos demorou um pouco. Foi iniciada quando Luís da Rocha Miranda (1863-1926) entrou no negócio, e o nome da firma mudou para Companhia Predial. O engenheiro Alencar Lima foi o autor do projeto de loteamento, com ruas bem largas e nomes de flores, que foi aprovado pela Prefeitura em 1927, um ano após a morte de Rocha Miranda. A Companhia Predial continuou com a família, coordenada pelo funcionário Alberto Sampaio Ferraz, que completa 70 anos de firma em 1995.

O desenvolvimento do Valqueire foi bastante lento, pois a maioria comprou terrenos para investir e não para construir. Durante a década de 1950, haviam poucas casas na grande área loteada. O grande boon de construções foi iniciado no final da década de 1960. O trecho da antiga Estrada Real de Santa Cruz que passa por Vila Valqueire recebeu o nome de Estrada Intendente Magalhães em homenagem ao Tenente-Coronel Carlos José de Azevedo Magalhães, também dono de muitas terras na região e que foi o candidato mais votado para a Intendência Municipal (atual Câmara dos Vereadores) nas eleições de 1899. No ano de 1943, Gustavo Capanema (1900-1985), então Ministro da Educação do governo de Getúlio Vargas (1883-1954), pretendia edificar a Cidade Universitária em uma das grandes áreas do Valqueire ainda não loteada. A compra chegou a ser anunciada em 16 de novembro de 1943. O Governo, porém, em novembro de 1944 não havia adquirido a tal área no Valqueire, mas continuava com a pretensão de construir a universidade no bairro. Todavia, a saída de Capanema do Ministério da Educação fez com que a idéia fosse abandonada. A União comprou terrenos na Ilha do Fundão, onde hoje se ergue a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A região cortada pela Rua Cândido Benício chamava-se no século passado de Vale do Marangá. A palavra vem do tupi-guarani e significa campo de batalha ou lugar de combate. Como a origem desse topônimo remonta os tempos coloniais, é possível que tenha acontecido alguma batalha entre portugueses e índios na atual região da Praça Seca. Aberta pelos colonizadores há mais de 300 anos, a Estrada de Jacarepaguá (atual Rua Cândido Benício) era passagem obrigatória dos tropeiros e carruagens que se dirigiam para Irajá ou para a cidade vindos da Freguesia do Loreto. A princípio, somente o perímetro ao redor da Igreja de Nossa Senhora do Loreto era chamado de Jacarepaguá. Ao passar dos tempos, porém, o topônimo identificava também as terras vizinhas. O Vale do Marangá, em virtude de ser cortado pela Estrada de Jacarepaguá, acabou igualmente a fazer parte de Jacarepaguá.

Toda a região do Vale do Marangá, do Campinho ao Tanque, era a Fazenda do Engenho de Fora, que foi fundada pelo General Salvador Correia de Sá e Benevides no século XVII. Quando exerceu o cargo de governador do Rio de Janeiro, ele proporcionou muitos melhoramentos em Jacarepaguá, inclusive no Engenho de Fora. Para facilitar os viajantes que se dirigiam para a Estrada Real de Santa Cruz foi aberta na altura da Fazenda do Valqueire uma variante, que se chamou Estrada do Macaco (o trecho atual é a Rua Quiririm, parte da Rua Luís Beltrão e parte da Rua Baronesa), para encurtar o acesso à Estrada de Jacarepaguá. No ponto de bifurcação do novo caminho, surgiu um pequeno logradouro, que recebeu o nome de Largo do Asseca, em homenagem aos Viscondes de Asseca, descendentes do General Salvador Correia de Sá e Benevides. Por metaplasmo popular, houve a supressão das duas primeiras letras, quando o largo transformou-se em praça: Praça Seca ao invés de Praça Asseca.

Salvador Correia de Sá e Benevides vendeu o Engenho de Fora ainda no século XVII para Pedro Martins Negrão e Antônio da Silveira Vila Lobos. O engenho teve outros proprietários até o final do século XVIII: Manoel Correia de Araújo, Tomás Faleiro Homem, João Barbosa Sá Freire e Francisco de Macedo Freire de Azevedo Coutinho. Este último, em 1796, transferiu o engenho para o juiz de órfãos Francisco Teles Barreto de Meneses, avô do Barão da Taquara. Ao falecer, o juiz deixou suas terras em Jacarepaguá para ser divididas pelos filhos. O Engenho de Fora coube a Dona Maria Rosa Teles de Meneses (1769-1837). Ao morrer, solteira e sem filhos, ela deixou o engenho para a sobrinha Ana Maria Teles Barreto de Meneses, casada com o Comendador Francisco Pinto da Fonseca, pais do Barão da Taquara.

Na metade do século XIX, o Comendador Francisco Pinto da Fonseca, com a finalidade de criar grandes áreas para sítios e chácaras, abriu a Estrada do Marangá de Baixo, que fazia um semicírculo em relação à Estrada de Jacarepaguá. Iniciava na altura onde hoje é a Rua Capitão Meneses e terminava onde atualmente é o IPASE. Parte dessa Estrada do Marangá é hoje a Rua Pedro Teles (homenagem do barão ao seu tio, irmão da sua mãe, Pedro Antônio Teles Barreto de Meneses, falecido em 1882). A atual Rua Marangá se chamava Estrada do Marangá de Cima.

Em 1890, o Barão da Taquara abriu pequenos trechos das atuais ruas Baronesa, Barão, Florianópolis (então chamada Rua Emília) e Albano. Entre 1906 e 1909, ampliou essas ruas e construiu outras, realizando um grande loteamento com terrenos variando de 1.500 a 2.000 metros quadrados. O autor do projeto de urbanização foi o engenheiro Bernardino Marques da Cunha Bastos, morador da região do Vale do Marangá e falecido em 1910. Em sua homenagem um dos logradouros recebeu seu nome: Rua Dr. Bernardino. A Rua Capitão Meneses lembra o português Jerônimo Alpoim da Silva Meneses (1851-1923) casado com Maria Luiza da Fonseca Meneses (1865-1935), filha do barão. A Rua Albano é homenagem a outro genro do barão: o também português Albano Raimundo da Fonseca Marques (1852-1903) casado com Emília Joana (1861-1949). O filho do barão Jerônimo Pinto da Fonseca (1873-1930) é lembrado com o logradouro que atravessa as ruas Capitão Meneses e Pinto Teles.

A Rua Cândido Benício é em memória do grande médico sanitarista e intendente (vereador) Cândido Benício da Silva Moreira (1864-1897), que desfrutava grande popularidade em Jacarepaguá devido à sua personalidade nobre. Ele morou na própria Rua Cândido Benício num prédio que hoje funciona o Educandário Nossa Senhora da Vitória. Outro político famoso que habitou o Vale do Marangá foi o Senador Lauro Severiano Müller (1863-1926), que possuía casa de campo na região. O imóvel ainda existe é o que serve de administração da Beneficência Portuguesa na Rua Florianópolis. Aliás esse logradouro passou a ser chamado com esse nome após a morte de Lauro Müller em 1926, em referência a cidade em que ele nasceu e se projetou na política. Antes, a rua chamava-se Emília, em homenagem à Emília Joana, filha do barão e esposa do Albano.

Desde os tempos coloniais, o atual Largo do Tanque era local preferido para o descanso dos viajantes, pois havia bastante água para eqüinos e muares. O lugar era chamado de Itatindiba, porque ali passava o Rio Itatindiba (hoje é apenas um córrego denominado Tindiba). Em 1875, com a implantação dos bondes de tração animal em Jacarepaguá, foi construído enorme tanque para os burros saciarem a sede, antes de os veículos prosseguirem ou para a Porta D’Água (Freguesia) ou para a Taquara. Por isso, o local ficou conhecido como Largo do Tanque. No século passado, a administração pública de Jacarepaguá era no Tanque. A primeira delegacia de segurança pública do bairro foi instalada no Tanque (antes, no período colonial, Jacarepaguá fazia parte da jurisdição policial do Distrito Miliciano de Guaratiba). Dois famosos delegados de polícia no século passado: Francisco Pinto da Fonseca (pai do barão) e Dr. Bernardino Marques da Cunha Bastos. A agência de Jacarepaguá da Prefeitura Municipal também ficava no Tanque. Ocupava o velho prédio derrubado na década de 1980, após ser distrito policial e JDM Madeira (hoje é o edifício novo da Avenida Geremário Dantas número 34). O mais notável funcionário dessa agência municipal foi o escrivão da Prefeitura André Luís da Rocha (1870-1938). Em sua homenagem a antiga Estrada Tabapuã passou a ser chamada de Rua André Rocha em 1948. André Rocha morava em frente à agência da Prefeitura numa casa que ainda existe (Avenida Geremário Dantas número 51), habitada atualmente pelos seus descendentes.

A Rua Godofredo Viana lembra o político e magistrado maranhense Godofredo Mendes Viana (1878-1944). Governador e senador pelo Maranhão na década de 1920 e deputado federal também pelo Maranhão na década de 1930, Godofredo Viana morou no Rio de Janeiro, a então Capital Federal. Freqüentou muito a região da Praça Seca, pois era hóspede costumeiro do funcionário do Senado Galdino José da Silva, em sua casa na Rua Albano. Foi justamente por iniciativa do Galdino que o antigo Caminho do Sapé passou a ser denominado, em 1934, de Rua Godofredo Viana. O político maranhense ainda era vivo quando recebeu a homenagem.

A Avenida Nélson Cardoso chamava-se Estrada da Taquara. Recebeu o nome atual em 17 de dezembro de 1947 em homenagem ao político, advogado e funcionário do antigo Departamento de Correios e Telégrafos Nelson de Almeida Cardoso (1893-1943). Ele na época da República Velha representou Jacarepaguá na Intendência Municipal (atual Câmara dos Vereadores). Nas campanhas eleitorais, sempre recebeu o apoio do amigo Geremário Dantas. Em março de 1930, foi eleito para mais um mandato, mas foi cassado pela revolução chefiada por Getúlio Vargas. Carreiro de Oliveira, outro intendente municipal morador na Praça Seca, também perdeu o cargo eletivo pelo mesmo motivo. Na época em que era intendente, Nélson Cardoso residia na Rua Cândido Benício número 745 ao lado da Escola Bahia (os dois prédios não existem mais. Atualmente, há no mesmo lugar o CIEP Carlos Drumond de Andrade). Nélson Cardoso foi criado na Rua Barão com o irmão Orlando. O pai, Francisco Teles de Almeida Cardoso - o Chico Té, foi importante homem dos bastidores da política de Jacarepaguá no século XIX. O irmão Orlando de Almeida Cardoso foi dono da farmácia Santa Cecília na Rua Barão e presidente da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil durante a década de 1940.

O Instituto Estadual Curupaiti foi inaugurado em 15 de outubro de 1928, no governo do Presidente Washington Luís (1880-1957) e do prefeito do Distrito Federal Antônio Prado Júnior (1880-1955). A colônia dos hansenianos foi construída no antigo sítio de Manoel Rodrigues Campos. O primeiro diretor foi o Dr. Teófilo de Almeida. A Estrada do Cafundá foi aberta na segunda metade do século XIX dentro da Fazenda do Cafundá da Serra, cujo proprietário era Bernardo Boaventura. Antes, já havia surgido a Estrada do Catonho, que ligava a fazenda à Estrada Real de Santa Cruz (trecho atualmente da Avenida Marechal Fontenele). A região do Cafundá até a Boiúna era o Engenho Velho, parte integrante da Fazenda da Taquara.

A sede da Fazenda da Taquara ainda existe. O prédio fica numa colina junto à Estrada Rodrigues Caldas. Pertence aos descendentes do barão e foi tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. A casa-sede da fazenda (somente com um andar) foi construída em 1757 por Antônio Teles Barreto de Meneses (trisavô do Barão da Taquara). O próprio barão efetuou a grande reforma de 1882, quando surgiu o sobrado e as formas quase atuais. Antes de 1757, existia uma construção modesta. Ao lado do solar da Taquara, está edificada a Capela de Santa Cruz, construída em 1619 e reformada nos anos de 1738, 1745 e 1791. Nessa capela, foram sepultados o Comendador Francisco Pinto da Fonseca e Dona Maria Rosa da Fonseca Teles, respectivamente, pai e irmã do barão. Os restos mortais do barão, baronesa e filhos estão no mausoléu no Cemitério do Pechincha.

Ao redor do solar da Taquara, existiam diversos engenhos de açúcar e fazendas de café. O Engenho Velho, onde atualmente estão as estradas do Engenho Velho, Meringuava, São Gonçalo, Cafundá e Boiúna, era um dos mais antigos de Jacarepaguá. Por isso, recebeu o nome. Na Estrada dos Teixeiras, no final do século passado, havia a fazenda de plantação de café de propriedade de Manoel Carmino de Castro. Ao lado, existia a Fazenda Santa Maria. Em terras dessa fazenda, com as presenças do Presidente Getúlio Vargas (1883-1954) e do Prefeito Henrique Dodsworth (1895-1975) foi inaugurado, em 6 de julho de 1943, o Hospital Santa Maria; considerado, na época, um dos maiores da América do Sul para tratamento da tuberculose.

O Barão da Taquara possuía cafezais na Fazenda do Pau da Fome. O folclore da região conta que esse nome surgiu na época em que ele e convidados costumavam realizar caçadas a cavalo nas serras da fazenda. A comida era deixada junto a uma enorme árvore que era avistada com facilidade a grande distância. Quando chegava a hora do almoço, alguém sempre apontava ao longe para a árvore e gritava:

- Lá está o pau da fome!

E todos seguiam sorridentes para a direção apontada.

As nascentes do Rio Grande faziam parte da grande área das caçadas do barão. Mais de um século antes de ele nascer, existia no local o engenho do João Pimenta, com uma ermida em homenagem à Nossa Senhora do Socorro, cuja data de fundação gira em torno do ano de 1723. Também no século XVIII, na região onde o Rio Grande deixa a serra e ganha a planície, foi criada por Antônio Paio a Fazenda do Rio Grande. Nessa propriedade, por volta do ano de 1737, o mesmo Paio edificou a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, que ainda existe no Largo da Capela (o nome oficial do logradouro é Largo do Rio Grande). O último dono da Fazenda do Rio Grande foi Francis Walter Hime (1885-1948), que a comprou em 1935. Ele iniciou no local excelente criação de vacas leiteiras e cavalos puros-sangues. Recebeu em diversas oportunidades a visita do então presidente da República Getúlio Vargas. Ao falecer em 28 de novembro de 1948, Francis Hime deixou a propriedade para a esposa Verônica Hime e para os quatro filhos: Francis Walter Hime Júnior (pai do compositor Francis Hime), Mônica Hime, Cecil Owen Walter Hime e Mervyn George Walter Hime. A partir daí, a fazenda funcionou como haras, produzindo cavalos de corridas até os anos 70. Em 1978, já com outro proprietário, foi lançado o atual Condomínio Passaredo. Antes, em 1968, também nas antigas terras dos Hime, foi inaugurada a subestação de Jacarepaguá da Central Elétrica de Furnas. O Professorado Campestre Clube, que fica na Estrada do Pau da Fome, surgiu no dia 21 de julho de 1964.

A atual Colônia Juliano Moreira é originária de um dos mais antigos engenhos de Jacarepaguá. Inicialmente conhecido por Engenho de Nossa Senhora dos Remédios, passou a ser conhecido por Engenho Novo de Jacarepaguá, quando assumiu o controle do canavial a família Teles Barreto de Meneses. As terras do engenho foram desmembradas em 1653 da Fazenda do Camorim por Dona Vitória de Sá (filha de Martim Correia de Sá e esposas de Dom Luís Céspedes Xeria, ambos já falecidos naquele ano) para vender aos irmãos Tomé e João Silva. Eles deram início a construção do engenho e da igreja de Nossa Senhora dos Remédios. Os descendentes de Tomé da Silva negociaram o engenho em 1715 para o juiz de órfãos Antônio Teles Barreto de Meneses. No início do século XIX, como narramos na página 8, o casal Pascoal Cosme dos Reis e Catarina Josefa passou a administrar o engenho sem a outra parte da família. Algumas construções do Engenho Novo ainda existem na Colônia Juliano Moreira e foram tombadas pelo Patrimônio Histórico Nacional. O aqueduto, idêntico ao da Lapa, foi construído no século XVIII. Trazia água do maciço da Pedra Branca, local abundante de nascentes, inclusive do Rio Grande. O chafariz e a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios também são remanescentes da época do Engenho Novo. A igreja foi edificada no mesmo local da antiga capela do século XVII por Dona Maria Teles Cosme dos Reis, filha de Catarina e Pascoal, em 1862. O pavilhão I do Núcleo Rodrigues Caldas, igualmente tombado, foi construído na década de 1920, já na administração da colônia. No final do século passado, o dono do Engenho Novo era o Comendador Francisco Teles Cosme dos Reis.

Em 1912, o Governo do Presidente Marechal Hermes da Fonseca (1855-1923) desapropriou o Engenho Novo para transferir a colônia de psicopatas da Ilha do Governador para aquele local. O dono da propriedade era Antônio Mariano de Medeiros, que havia comprado as terras da família Cosme dos Reis. A transferência dos doentes foi feita em carros de bois. Os pacientes mais agitados foram acorrentados para não fugir durante o trajeto da Ilha do Governador para Jacarepaguá. O diretor da época da mudança foi o Dr. João Augusto Rodrigues Caldas, que dirigiu a colônia de 1907 a 1926. Em 1932, em sua homenagem, a antiga Estrada Velha do Rio Grande passou a ser chamada de Estrada Rodrigues Caldas. Até a década de 1930, o estabelecimento era denominado Hospital Colônia de Jacarepaguá. O nome atual é em memória do Dr. Juliano Moreira (1873-1933), batalhador em prol dos doentes mentais e um dos responsáveis pela lei de assistência aos alienados de 1904.

A Baronesa da Taquara iniciou na década de 1940 os loteamentos das terras da fazenda. Esses desmembramentos prolongaram-se até o final dos anos 50. Um dos mais interessantes é o que fica na Estrada Rodrigues Caldas em frente à antiga sede da Fazenda da Taquara. As ruas desse loteamento receberam, no ano de 1963, nomes de jornais históricos da cidade do Rio de Janeiro. Vejamos alguns dados sobre esses órgãos de imprensa homenageados.

  • Rua Correio Brasiliense - periódico mensal. Foi o primeiro jornal em língua portuguesa editado especialmente para o Brasil. Porém, foi publicado em Londres de 1808 a 1823. Chegava ao Rio de Janeiro clandestinamente. Seu redator foi Hipólito José da Costa, que apoiava a separação do Brasil de Portugal.
  • Rua Aurora Fluminense - diário fundado por Evaristo da Veiga em 1827, que circulou até 1835.
  • Rua Cidade do Rio - diário fundado por José do Patrocínio em 1887. Circulou até 1902.
  • Rua Observador - jornal político e literário, cujo principal redator foi Evaristo da Veiga. Era publicado às terças e sextas-feiras. Em maio de 1831, circulou com o nome de O Observador. Em julho de 1831, passou a ser chamado de O Americano.
  • Rua Gazeta do Rio - primeiro jornal imprimido no Rio de Janeiro de 1808 a 1822. O fundador foi o frade Tibúrcio Rocha. Em 1812, foi substituído pelo Brigadeiro Ferreira Araújo. O último redator foi Francisco Vieira Goulart.
  • Rua Correio do Rio - jornal da fase tumultuada, após a independência do Brasil. Foi defensor da convocação da Assembléia Constituinte. Seu redator único foi o português João Soares Lisboa. Circulou nos anos de 1822 e 1823.
  • Rua Opinião Liberal - jornal imprimido na Tipografia do Melo na Rua do Sabão de 1868 a 1870.
  • Rua Gazeta da Tarde - jornal fundado por Gentil José de Castro em 1880. Foi comprado por José do Patrocínio, onde iniciou a sua campanha abolicionista. Circulou até 1901.
  • Rua Gazeta da Noite - não existiu jornal com esse nome na cidade do Rio de Janeiro. Pode ter acontecido algum erro ao dar o nome ao logradouro. Achamos que a pretensão da homenagem deve ter sido à Gazeta de Notícias, histórico matutino carioca fundado em 1875 por José Ferreira de Araújo.
  • Praça Sentinela - homenagem a três jornais do tempo do Império: A Sentinela da Liberdade (1823) de Estêvão Grondona, A Sentinela da Monarquia (1840 a 1841) de Bernardo Vasconcelos e A Sentinela do Trono (1849) de Luís Antônio Navarro.
  • Praça Combate - jornal de 1892, cujos redatores foram Pardal Mallet e Lopes Trovão.
  • Praça Clarim - jornal de 1908 a 1909 dirigido por Venceslau Muniz.
  • Rua Tribuna - jornal de 1890 a 1891, cujo redator foi Antônio de Medeiros.
  • Rua Correio do Povo - Circulou de outubro de 1889 a março de 1890, sob a direção de Sampaio Ferraz e Chagas Lobato.
  • Rua Malagueta - A Malagueta circulou de 1821 a 1832, sob a direção de Luís Augusto May.
  • Rua Verdadeiro Patriota - jornal literário, político e mercantil dirigido por Paulo Merlim. Circulou de 1813 a 1814.
  • Rua Revérbero - O periódico O Revérbero Constitucional Fluminense (1821 a 1822) foi fundado por Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa. Divulgava as idéias da facção democrática da maçonaria a favor da independência do Brasil.

A atual Estrada dos Bandeirantes originou-se dos diversos caminhos abertos ao longo dos tempos em que surgiram as primeiras fazendas e engenhos. Essas vias transformaram-se em estradas que se uniam desde o Largo da Taquara até Piabas. A partir da Taquara, a Estrada dos Bandeirantes chamava-se Curicica e ia até o arroio Pavuna. Daí denominava-se Estrada de Guaratiba, que acabava do outro lado da serra. O nome Estrada de Guaratiba surgiu em 1917, com a incorporação de outras estradas: da Pavuna, de Ubaeté, da Vargem Pequena, da Vargem Grande, do Rio Bonito e do Grumari. Somente em 1947 é que essas primitivas vias se uniram para passar para a denominação de Bandeirantes, inclusive o trecho inicial na Taquara chamado até então de Curicica. O nome bandeirantes dado à estrada é por causa dela ser via de acesso ao Recreio dos Bandeirantes. O Recreio até o final da década de 1930 era conhecido somente por Pontal de Sernambetiba. Em virtude do local, no início da década de 1940, ser escolhido pelos paulistas para piqueniques surgiu o nome Recreio dos Bandeirantes.

Em 14 de março de 1957, o antigo IAPB (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários) inaugurou na Estrada dos Bandeirantes o Conjunto Residencial Marcílio Dias, conhecido na época como Vila da Taquara ou apenas Bancários. Em 1959, surgiu o Jardim Novo. Os dois loteamentos eram separados pela antiga Estrada da Estiva. Em 1964, esse logradouro recebeu o nome atual de Estrada Marechal Miguel Salazar Mendes de Morais. O homenageado era antigo morador da Estrada da Estiva, onde realizou grandes melhoramentos com dinheiro próprio, inclusive a construção da ponte sobre o Rio Grande. O Marechal Miguel Salazar Mendes de Morais (1886-1962) pertencia a uma tradicional família brasileira. Era sobrinho-neto do Presidente da República Prudente de Morais (1841-1902) e primo do Prefeito do Distrito Federal (Rio) Marechal Ângelo Mendes de Morais (1895-1990).

Em correspondência sobre limites da sua sesmaria de Jacarepaguá ao então governador do Rio de Janeiro Francisco Fajardo, datada de 31 de março de 1622, Gonçalo Correia de Sá faz referência à atual região de Curicica. Em certo trecho, diz o missivista: "serra da Curicica, que são dois morros divididos em cima um do outro". Não há dúvida que ele estava se referindo ao Morro dos Dois Irmãos. Curicica, nos séculos passados, fazia parte da Fazenda do Camorim. O bairro atual começou a surgir em 1956, quando a Imobiliária Curicica iniciou o loteamento.

As obras do Conjunto Sanatorial de Curicica foram feitas de 1949 a 1951 pelo então diretor do Serviço Nacional de Tuberculose, Professor Rafael de Paula Souza. Foi inaugurado em 2 de janeiro de 1952 pelo Presidente Getúlio Vargas. Em 1979, o hospital deixou de ser exclusivo para tuberculosos, passando a atender outras doenças. Os primeiros moradores do bairro de Curicica freqüentavam as missas dominicais na capela Nossa Senhora da Saúde, localizada dentro do hospital. Em 1964, o padre italiano Rino Contard (1917-1994) assumiu o cargo de capelão do hospital. Em 1968, ele conseguiu com a Imobiliária Curicica o terreno, onde hoje se ergue a Igreja Nossa Senhora da Saúde.

O autódromo de Jacarepaguá foi construído na década de 1960. As arquibancadas, porém, só foram feitas em 1977 e inauguradas em 7 de agosto desse ano. A primeira corrida da Fómula-1 foi disputada em 29 de janeiro de 1978, com a vitória do argentino Carlos Reutemann e o brasileiro Emerson Fittipaldi em segundo lugar. Ao lado do autódromo está o Rio Centro, que foi entregue ao público em 23 de outubro de 1977.

O Engenho do Camorim fazia parte das terras em que Gonçalo Correia de Sá ofereceu a Dom Luís de Céspedes Xeria como dote de casamento da filha Vitória de Sá. Ficando viúva, Dona Vitória deixou tudo que ainda possuía para o Mosteiro de São Bento, em testamento feito em janeiro de 1667. Ela faleceu em 27 de agosto de 1667, e os padres beneditinos ocuparam imediatamente a fazenda e ficaram ali por mais de duzentos anos. Para melhor administrar as terras, a Fazenda do Camorim foi inicialmente dividida em duas. Uma continuou com o mesmo nome e a outra parte chamou-se Vargem Pequena. Os padres construíram muitos prédios e conservaram a Igreja de São Gonçalo do Amarante, fundada por Gonçalo Correia de Sá em 1625. Na Vargem Pequena, o Frei Gaspar da Madre de Deus (1717-1800) edificou, em 1766, a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, atualmente conhecida por Nossa Senhora de Mont-Serrat. Coube ao Frei Lourenço da Expectação Valadares (1732-1797) expandir a propriedade dos beneditinos pelo sertão de Jacarepaguá, criando a Fazenda da Vargem Grande. Em 1891, o Frei Manuel da Santa Catarina Furtado vendeu todas as terras à Companhia Engenho Central de Jacarepaguá, que havia pedido o dinheiro emprestado para a compra ao Banco Crédito Móvel. Era a época da crise provocada pela política financeira - conhecida como "encilhamento", do então Ministro da Fazenda Rui Barbosa (1849-1923). Por isso, a companhia transferiu a propriedade adquirida em Jacarepaguá para o próprio Banco Crédito Móvel, já que ficou sem condição de saldar o débito.

O banco iniciou a venda de muitos terrenos, porque, com a criação do imposto territorial em 1920, não conseguiu mantê-los, em razão da renda diminuir com o novo tributo, pois eram baixos os aluguéis dos aforamentos. Uma enorme gleba de cerca de 10 milhões de metros quadrados, na Barra da Tijuca; e outra de dois milhões, em Jacarepaguá foram vendidas para a ESTA - Empresa Saneadora Territorial Agrícola. Como narramos antes, Dona Esperança e Dona Vitória - esposa e filha de Gonçalo, respectivamente, alienaram suas posses de Jacarepaguá para Salvador Correia de Sá e Benevides, filho de Martim. As terras do dote de casamento, todavia, ainda ficaram com Dona Vitória, que as deixou para o Mosteiro de São Bento. Sá e Benevides viveu mais 21 anos do que a prima Vitória. Após a morte dela, ele lutou, durante dez anos na justiça, para anular o testamento da parente, pois achava que as propriedades legadas aos beneditinos também faziam parte da venda que mãe e filha fizeram a ele. Porém, retrocedeu; e, em 19 de novembro de 1678, fez acordo amigável com os padres, que pagaram certa quantia para o general desistir da ação. Em 1843, entretanto, descendentes dos Viscondes de Asseca repassaram as terras dos beneditinos (hoje pertencentes à ESTA) ao empresário Aldo Bonardi, sem respeitar o acordo feito em 1678. Bonardi vendeu a Abílio Soares de Souza. Em 1981, o libanês Mohamad Ismail comprou o espólio de Abílio. Mas a ESTA (cadeia sucessória dos beneditinos), em 1993, após batalha judicial de aproximadamente 54 anos, teve seus direitos reconhecidos na Justiça definitivamente. O atual proprietário da ESTA é o cingapureano naturalizado brasileiro Tjong Hiong Oei, que comprou a empresa em 1958. Entretanto, somente a partir de 1968 é que ele iniciou seus negócios na Barra. Na década de 1970, nas terras de Tjong Oei, começaram a surgir os empreendimentos do bairro: Novo Leblon, Nova Ipanema, Santa Mônica, Casashopping, Barrashopping , Carrefour e Makro.

A via 11 passou a ser chamada Avenida Alvorada em 1970 por decreto do governador do antigo Estado da Guanabara Francisco Negrão de Lima (1901-1981). O nome do logradouro lembrava a famosa composição do maestro Carlos Gomes (1836-1896) O Escravo. O pedido para dar nome de Alvorada à via 11 foi feito pelo Tenente-Coronel Feliciano Mendes de Morais, filho do Marechal Miguel Salazar Mendes de Morais. No ofício ao governador, o Coronel Feliciano explicou que Alvorada é um dos intermezzos da ópera O Escravo de Carlos Gomes, editada em 1888, em que há referências à Baixada de Jacarepaguá e a Lagoa do Camorim. O governador aceitou a solicitação e batizou o nome do logradouro de Alvorada. Em 1994, a avenida recebeu o nome de Aírton Senna (1960-1994), piloto brasileiro da Fórmula-1 de automobilismo, que foi campeão mundial nos anos de 1988, 1990 e 1991.


O local onde hoje é o aeroporto de Jacarepaguá era um pequeno campo de pouso criado pela empresa francesa Aeropostale em 1928. Essa firma, que se transformou na Air France, foi proprietária do campo até 1939, quando o aeroporto passou para a aviação militar do Exército Brasileiro. Em 1944, o controle foi para o Ministério da Aeronáutica. Antes da abertura da via 11, não existiam vias por terra para o campo. A pista de pouso era alcançada por lanchas vindas da Barra pelas lagoas.

O mais antigo caminho terrestre da Barra da Tijuca para a Freguesia de Jacarepaguá era pelas antigas estradas da Tijuca e do Muzema, que unidas em 1950 formaram a atual Estrada de Jacarepaguá. A partir daí, seguia-se pela Estrada do Pica-Pau, bem antes da época em que foi feito o corte na Pedra do Itanhangá, criando a estrada com esse nome. A região já era conhecida pelos portugueses no século XVI. O Morro da Panela, que se destaca no início da planície, já chamava atenção dos pioneiros exploradores de Jacarepaguá, que vinham da cidade em embarcações e penetravam nas lagoas e no Arroio Fundo. Os primeiros cartógrafos do Rio de Janeiro já citavam o acidente geográfico com o nome de Morro da Panela.

Atualmente, junto ao Morro da Panela existe o Jardim Clarice. O empreendimento imobiliário foi feito pelo antigo dono das Lojas Brasileiras, Adolfo Basbaun, que homenageou a esposa Clarice dando seu nome ao jardim. A Praça Mário Tibiriça, que fica na entrada do loteamento, é em memória de Mário Tibiriça (1880-1974), um dos primeiros moradores da Estrada Curipós. As ruas do Jardim Clarice têm nomes de romances e livros de poesia da literatura brasileira. A sugestão foi feita no ano de 1976 pelo poeta Carlos Drumond de Andrade (1902-1987) ao Prefeito Marcos Tamoio (1926-1981). Eis os nomes dos logradouros, com o ano de publicação dos livros e os respectivos autores:

  • Rua Dona Flor - Ano: 1966 - Autor: Jorge Amado (1912-2001)
  • Rua Encontro Marcado - Ano: 1956 - Autor:Fernando Sabino (1925-2004)
  • Rua Dom Casmurro - Ano: 1900 - Autor: Machado de Assis (1839-1908)
  • Rua Escrava Isaura - Ano: 1875 - Autor: Bernardo Guimarães (1825-1884)
  • Rua Enamorado da Vila - Ano: 1939 - Autor: Olegário Mariano (1889-1958)
  • Rua Estrela da Manhã - Ano: 1936 - Autor: Manuel Bandeira (1886-1968)
  • Rua Borboleta Amarela - Ano: 1953 - Autor: Rubem Braga (1913-1990)
  • Rua O Tempo e o Vento - Ano: 1948 - Autor: Érico Veríssimo (1905-1975)
  • Rua Estrela Solitária - Ano: 1940 - Autor: Augusto Frederico Schimidt (1906-1965)

A personagem fictícia Capitu do romance Dom Casmurro é nome de logradouro em Jacarepaguá. A Rua Capitu faz esquina com a Rua Ituverava, no Anil. A denominação foi feita para recuperar erro de administrador não esclarecido com a literatura brasileira, que, em 1955, mudou uma do mesmo nome existente na Pavuna para Rua Afonso Terra. As ruas Capitu e Brás Cubas (homenagem também a romance de Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em 1881) foram oficializadas em logradouros da Vila Pedro Segundo, na Pavuna, em 1945. A Brás Cubas continua até hoje com o mesmo nome e no mesmo lugar, à margem da Avenida Automóvel Clube (atual Avenida Pastor Luther King). A Capitu ficou fora do mapa do Rio até o início da década de 1970, quando voltou a ser rua, mas em Jacarepaguá.

O bairro do Anil deve seu nome em razão do local, na época colonial, ser completamente tomado por arbustos nativos, que produziam o anil através dos frutos. As anileiras da região eram de alta qualidade. Por isso, houve grande aceitação do corante na Europa. O anil era transportado pelo rio que hoje tem esse nome até a Barra da Tijuca. Daí ao porto do Rio de Janeiro, para ser embarcado em navios para a Europa. A cultura do anil nessa parte de Jacarepaguá durou até o século XVIII. Depois, como aconteceu em toda a província do Rio de Janeiro, a região do Anil também foi tomada por plantações de café. No século XIX, havia na localidade a próspera Fazenda do Quitite, cujo dono era o cafeicultor Marcos Antônio Deslesdenier. A Estrada do Quitite era uma das vias no interior da propriedade. Na década de 1960, quando exercia o cargo de presidente da República, João Goulart (1918-1976) possuía casa de veraneio no final da Estrada do Quitite. Era o sítio do Capim Melado. Hoje, o local é um condomínio fechado, mas a casa principal do sítio, toda feita de pedra, ainda existe.

No início da década de 1950, José Padilha Coimbra era grande proprietário de terras na região do Anil entre as estradas do Engenho D’Água e do Capão (atual Avenida Tenente-Coronel Muniz de Aragão).O domicílio do Padilha era onde hoje é o Condomínio Aldeia. A residência era cinematográfica cercada de jardim em que predominavam gardênias e vitórias-régias. Por isso, a mansão serviu de cenário para muitos filmes. Em 1953, Padilha loteou as suas terras, dando nomes das plantas ornamentais que gostava aos loteamentos: Vitória-Régia (junto à Estrada Engenho D’Água) e Gardênia Azul (no final da Estrada do Capão). A favela entre a Gardênia Azul e Avenida Alvorada (hoje Aírton Senna) surgiu no início da década de 1980. O local era um grande laranjal de propriedade de Antônio Escalda. Na época que os descendentes de Escalda lutavam para recuperar o sítio embargado na Justiça por falta de pagamentos de impostos, aconteceram as invasões sem que as autoridades tomassem qualquer decisão.

Na antiga Estrada do Capão, onde hoje é o Condomínio das Amendoeiras, nas primeiras décadas deste século, morava o Tenente-Coronel João Muniz Barreto de Aragão (1874-1922). Médico e veterinário, ele é o patrono do Serviço de Veterinária do Exército, em virtude da dedicação com os animais. No seu sítio em Jacarepaguá, Muniz Aragão possuía muitos cavalos. No dia 16 de janeiro de 1922, ele se encontrava em repouso por recomendação médica por causa de agravamento de doença do coração. Mesmo assim, o devotado veterinário foi atender um potro que passava mal na baia da propriedade. O esforço para salvar a vida do animal foi muito grande, mas o militar conseguiu recuperar o cavalinho. Porém, Muniz de Aragão não agüentou e veio a falecer no mesmo dia vítima de enfarte. Em sua homenagem a Estrada do Capão atualmente se chama Avenida Tenente-Coronel Muniz de Aragão.

A região do Anil, Gardênia Azul e Cidade de Deus faziam parte nos séculos passados da Fazenda do Engenho D’Água. A casa-sede ainda existe numa colina, situada no entroncamento da Estrada do Gabinal, Rua Edgard Werneck, Avenida Tenente-Coronel Muniz de Aragão e Avenida Aírton Senna. O prédio está tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional e pertence aos descendentes do Barão da Taquara. Junto da casa se ergue a capela de Nossa Senhora da Cabeça, a mais antiga de Jacarepaguá, também tombada. A sede do Engenho D’Água e a igreja foram construídos em 1616 por Rodrigo da Veiga. Esse engenho foi a última propriedade que a descendência dos Correia de Sá possuiu em Jacarepaguá. Pertenceu à família desde a Colônia até o Império, em virtude da condição de morgado deixado pelo General Salvador Correia de Sá e Benevides. O morgadio consistia em passar o domínio sempre para os filhos primogênitos, que não podiam vendê-lo.

Os descendentes do general foram os Viscondes de Asseca. Durante o tempo em que foram donos do Engenho D’Água, existiram sete viscondes: primeiro - Martim Correia de Sá e Benevides (1639-1678), segundo - Salvador Correia de Sá (falecido em 1712), terceiro - Diogo Correia de Sá (falecido em 1746), quarto - Martim Correia de Sá (1698-1777), quinto - Salvador Correia de Sá e Benevides (1760-18l7), sexto - Antônio Maria Correia de Sá e Benevides (falecido em 1844) e sétimo - Salvador Correia (nascido em 1823). Com o sétimo Visconde de Asseca, acabava o prazo de validade do morgadio. Podendo vender as terras, Salvador Correia usou o direito e passou o engenho, em 1847, para o seu tio José Maria Correia de Sá. Em 1852, o Comendador Francisco Pinto da Fonseca (pai do barão) comprou de José Maria Correia de Sá o Engenho D’Água.

A Cidade de Deus foi construída pelo Governador Carlos Lacerda (1914-1977) para ser conjunto residencial dos funcionários públicos do antigo Estado da Guanabara. A obra estava praticamente pronta, quando ele deixou o Governo. Seu sucessor, Francisco Negrão de Lima (1901-1981), logo após a posse, em janeiro de 1966, enfrentou um dos maiores temporais da história da cidade, ocasionando enchentes, tragédias e milhares de desabrigados, obrigando-o a abrir a Cidade de Deus para receber parte da população atingida. A medida era provisória, mas acabou sendo definitiva. Com o tempo ocorreram invasões, surgindo construções ilegais ao lado das casas planejadas. A Cidade de Deus expandiu-se desordenadamente e hoje tem uma densidade demográfica bastante alta. Os logradouros do bairro têm nomes de personalidades, localidades e fatos da Bíblia Sagrada.

A Rua Edgard Werneck é homenagem ao morador local Edgard Werneck Furquim de Almeida (1888-1925), que foi covardemente assassinado em Recife. Edgard era filho do jornalista e fazendeiro de Pati de Alferes, Antônio Furquim Werneck de Almeida (1856-1917), também morador antigo de Jacarepaguá, onde criou os três filhos: Edgard, Fausto e Vladimir. Edgard Werneck era colega de Geremário Dantas. Muitas vezes, acompanhado do irmão Fausto, ele embarcava no bonde puxado a burro na Porta D’Água, onde morava quando criança. Na Rua Cândido Benício, na altura do Campinho, subia no mesmo bonde o Geremário Dantas. Em Cascadura, os três seguiam para a cidade no trem maria-fumaça, pois estudavam no Colégio Pedro Segundo da Avenida Marechal Floriano. Mais tarde, quando Edgard passou a estudar na Escola Politécnica do Largo de São Francisco e Fausto e Geremário na Faculdade de Direito da Praça da República, eles continuaram a fazer o mesmo percurso na então bucólica região de Jacarepaguá.

A morte de Edgard Werneck emocionou a população de Jacarepaguá. Após se formar em Engenharia, ele foi trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil. Ganhou prestígio na profissão e constantemente recebia convites para solucionar problemas em outras ferrovias do interior do País. Em 3 de dezembro de 1924, junto com Joaquim de Assis Ribeiro, foi contratado pelos diretores ingleses da Estrada de Ferro Great Western, cuja sede era em Recife, para resolver dificuldades graves da companhia. Com pouco tempo na capital pernambucana, eles descobriram desfalques na empresa efetuados por comerciantes em conluio com funcionários da ferrovia. A descoberta de Edgar e Assis fez com que a diretoria da Western sanasse o óbice, e a companhia passou a dar lucro ao invés do costumeiro prejuízo. Porém, custou a vida de um inocente. Em 8 de junho de 1925, a mando dos implicados, João Viana atirou pelas costas em Edgard Werneck, quando ele e Assis Ribeiro subiam a escadaria do prédio da Great Western. Mesmo com o estômago e fígado perfurados pela bala, a vítima correu atrás do agressor por uns duzentos metros, mas caiu sem forças. Veio a falecer vinte dias depois, em 28 de junho de 1925, no Hospital Centenário, em Recife, onde estava internado e tinha sido operado.

Antes de morrer, Edgard Werneck pediu para ser sepultado no Cemitério do Pechincha. O enterro foi o maior acontecimento daquele ano em Jacarepaguá. O corpo embalsamado chegou de navio no cais da Praça Mauá, seguindo para a estação da Central do Brasil. Após a presença do então Ministro de Viação e Obras Públicas, Francisco Sá (1862-1936), no saguão da Central, para o seu último adeus ao engenheiro, o féretro seguiu em trem especial até Cascadura. Daí, em coche até a residência da família na Estrada da Banca Velha (hoje Rua Edgard Werneck), acompanhado pela população em bondes especiais e caminhões. Edgard foi sepultado no Pechincha, com muitos discursos, inclusive do amigo Geremário Dantas (na época, secretário municipal de finanças). A Estrada da Banca Velha passou a ser chamada de Rua Edgard Werneck em 27 de agosto de 1925. A Terceira Escola Elementar Feminina, cuja diretora naqueles tempos era a mãe de Edgard, Dona Francisca Vieira de Castro (1868-1941), também recebeu o nome do engenheiro assassinado. A Escola Edgard Werneck atualmente está na Rua Mamoré, na Freguesia.

A Igreja Nossa Senhora da Pena foi fundada pelo Padre Manoel de Araújo em 1664 em lugar da ermida construída por um fazendeiro em 8 de setembro de 1661. Narra a lenda que um pequeno escravo perdeu de vista a vaca que tomava conta, sendo ameaçado de punição por seu senhor se não a encontrasse. Muito aflito, o menino pediu ajuda à Virgem Maria. Nesse exato momento do alto da Pedra do Galo, surgiu Nossa Senhora apontando para o lugar onde se encontrava o animal desaparecido. O milagre foi presenciado pelo fazendeiro, que, em agradecimento à Virgem, mandou construir a ermida e alforriou o escravo.

José Rodrigues Aragão, proprietário do Engenho da Serra, foi um grande benfeitor da Igreja da Pena. Em 1771, ele doou terras em favor do patrimônio do santuário e realizou profundas reformas em sua arquitetura. Existe atualmente na sacristia em nicho envidraçado o crânio de Aragão, que faleceu em 1778. Dentro do templo, estão sepultados Pascoal Cosme dos Reis e sua esposa Catarina Josefa de Andrade, donos do Engenho Novo de Jacarepaguá, bem como o filho do casal Francisco Teles Cosme dos Reis. Na entrada do santuário, também está o túmulo do Monsenhor Antônio Marques de Oliveira (1826-1901), um dos maiores vigários de Jacarepaguá e juiz da Irmandade de Nossa Senhora da Pena. A Rua Monsenhor Marques, esquina da Avenida Geremário Dantas, no Barro Vermelho, é em memória a esse sacerdote do século passado.

Na primeira metade do século XVII, Jacarepaguá já era bem povoado para os padrões da época. Porém, pertencia à Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá. A autonomia aconteceu em 6 de março de 1661 com a criação da Freguesia de Nossa Senhora do Loreto e Santo Antônio. Esta é a data mais lógica da fundação do bairro de Jacarepaguá. Existem outras marcantes a partir da fundação da cidade do Rio de Janeiro em 1565, mas são apenas referências a posses de terras. O território naquela época era constituído por inúmeras propriedades particulares vinculadas à jurisdição de Irajá. O povoado de Jacarepaguá ganhou independência quando as certidões de nascimentos, óbitos, casamentos e batizados passaram a ser feitos na localidade e não em Irajá. Em passado recente, as comemorações de aniversário do bairro eram feitas no dia 6 de março. Em 196l, realizou-se em varias localidades da região grandes festas em exaltação aos trezentos anos de Jacarepaguá. O ponto máximo da solenidade aconteceu no domingo, dia 28 de maio de 1961, na Igreja do Loreto e no campo de futebol do Nova Estrela (Rua Araguaia, esquina com a Estrada do Bananal). A festividade contou com a presença de altas autoridades, inclusive o então Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Grum Moss.

A primitiva capela de Nossa Senhora do Loreto era nas terras do Capitão Rodrigo da Veiga. Em 1664, o Padre Manoel de Araújo construiu outra maior, no local em que se ergue a atual matriz. O lugar onde foi levantada a Igreja de Nossa Senhora do Loreto era conhecido como Porta D’Água, desde os tempos remotos, em virtude da quantidade de riachos que vinham da serra em direção às lagoas. Com a construção em 1875 da linha de bondes puxados a burro em Jacarepaguá, foi aberto uma área para ser ponto final dos veículos na Freguesia. Esse logradouro passou a se chamar de Largo da Porta D’Água. Em 1928, mudou o nome para Praça Professora Camisão em homenagem à Júlia de Andrade Camisão, dona da primeira escola do lugar e moradora no referido largo.

A Estrada dos Três Rios surgiu do caminho do Mateus. Essa via ligava a Porta D’Água aos domínios do português Mateus José Nunes (1781-1854), terminando na casa-grande da sua propriedade, que ficava onde hoje é a estação ferroviária do Engenho Novo. O Mateus veio do arquipélago dos Açores com a esposa Rita Vitoriana de Cássia Nunes (1794-1856), com o objetivo de arrematar em leilão as terras dos jesuítas, que foram expulsos de Portugal e sua colônias. Não conseguindo comprar a Fazenda de Santa Cruz, acabou adquirindo outras antigas terras que pertenceram aos mesmos padres: o Engenho Novo e a Fazenda Boa Vista, no início do século XIX. O Engenho Novo era toda a grande área plana ao redor da atual estação, que não existia naquela época, pois a ferrovia só seria inaugurada tempos depois em 1858. A Fazenda Boa Vista era na serra adiante, onde hoje passa a Estrada Grajaú-Jacarepaguá. Mateus e Rita Vitoriana tiveram apenas uma filha: Rita Nunes Souza Barros (1821-1885), que casou-se com Antônio Pereira de Souza Barros (1815-1884) - o Barão do Engenho Novo. A família ainda mantém grande parte da Fazenda Boa Vista, inclusive o Sítio da Serra e o restaurante Cabana da Serra. O bisneto do Barão do Engenho Novo é José de Barros Ramalho Ortigão Júnior, casado com Dona Nedda Góis Ramalho Ortigão. A Dona Nedda é descendente de personagem de nome de rua em Jacarepaguá. Ela é neta do político e espírita Geminiano Brasil de Oliveira Góis (1844-1904), cuja Rua Geminiano de Góis na Freguesia o torna imortal.

Em 1927, aproveitando o caminho do Mateus, o Presidente Washington Luís (1869-1957) construiu parte da atual Estrada Grajaú-Jacarepaguá até a Cabana da Serra. Em 1941, Yedo Fiúza (1894-1975), diretor do Departamento de Estrada de Rodagem, retomou o projeto avançando mais um pouco em direção ao Grajaú (o antigo caminho do Mateus desviava logo depois da Cabana da Serra. Descia para o Engenho Novo pelas ruas Sincorá e Maria Luiza, no Lins de Vasconcelos). Em 1943, o Prefeito Henrique Dodsworth (1895-1975) concluiu mais um trecho. O final da construção da estrada só aconteceu em 1950 no governo do Prefeito Ângelo Mendes de Morais (1895-1990). A Grajaú-Jacarepaguá era de terra batida de difícil acesso e intransitável em dias de chuvas. O asfaltamento se deu no início da década de 1960. A estrada foi duplicada em 1982. Até 1963, o nome oficial era Estrada Grajaú-Jacarepaguá. Nesse ano, passou a ser chamada Avenida Meneses Cortes em memória ao político e militar Geraldo Meneses Cortes (1911-1962), falecido em desastre aéreo ao viajar para Brasília.

O local onde hoje se encontra o Hospital Cardoso Fontes era a Fazenda Cantagalo, que pertencia aos descendentes do Mateus José Nunes. O Comendador Joaquim da Costa Ramalho Ortigão (1843-1889) vendeu a propriedade para o Comendador Siqueira, dono do Engenho da Serra. O Comendador Joaquim Ortigão era irmão do escritor português José Duarte Ramalho Ortigão (1836-1915) e casado com Rita de Barros Ramalho Ortigão (1840-1912), neta do Mateus e filha do Barão do Engenho Novo. O Hospital Geral de Jacarepaguá (Cardoso Fontes) foi construído na década de 1940 pelo IAPB - Instituto de Aposentadorias e Pensões do Bancários. Funcionou durante muitos anos como sanatório para tuberculosos. O nome do nosocômio é em homenagem ao Dr. Antônio Cardoso Fontes (1879-1943), bacteriologista brasileiro, que se destacou no combate à tuberculose.

A Fazenda do Engenho da Serra era a região compreendida a partir do atual Hospital Cardoso Fontes e Serra dos Pretos Forros até o local onde hoje está a Avenida Geremário Dantas. Abrangia parte da Freguesia, Pechincha, Barro Vermelho e Covanca. Essa área fazia parte da grande propriedade desmembrada e vendida em 30 de outubro de 1634 pelo General Salvador Correia de Sá e Benevides a Jorge de Souza Coutinho. Este repassou as terras para muitos outros fazendeiros. Por volta do ano de 1690, Manoel de Paredes comprou parte delas de João da Fonseca Coutinho e fundou o Engenho da Serra.

Em 1694, Manoel de Paredes casou-se com Catarina Marques. Muitos convidados compareceram à cerimônia matrimonial. Uma das pessoas que esteve nessas núpcias foi a portuguesa Catarina Soares Brandoa. Anos mais tarde (1706), Dona Brandoa regressou à Lisboa e acusou todos os presentes na festa do casamento, inclusive os noivos, como praticantes do judaísmo. A partir dessa denúncia, o Tribunal da Inquisição iniciou longa perseguição aos cristãos novos do Rio de Janeiro. Manoel Paredes faleceu em 1708 e não foi atingido pelas medidas impiedosas do Santo Ofício. Sua esposa e herdeira - Catarina Marques, porém, sofreu bastante. Foi presa e teve seus bens seqüestrados, inclusive o Engenho da Serra. Ela faleceu em 1712 em pleno mar, durante a viagem que a levaria aos cárceres de Lisboa. Em 1765, muitos anos após sua morte, o Tribunal da Inquisição reconheceu o erro e absolveu Catarina Marques.

O Engenho da Serra foi arrematado em leilão por José Rodrigues Aragão. Ele era muito religioso e doou terras para as igrejas da Pena e Nossa Senhora do Loreto. Falecendo em 1778, a propriedade passou para o filho, Capitão Manoel Rodrigues de Aragão. Em 1788, o Fisco Real seqüestrou novamente a fazenda por rendas devidas ao Quinto Visconde de Asseca, proprietário do Engenho D’Água.

Em 27 de abril de 1789, o Sargento-Mor Manoel Joaquim da Silva e Castro, casado com Dona Teresa Firminiana Azambuja, arrematou o leilão do Engenho da Serra. Com a morte do casal, a filha Joaquina Flora de Castro e Azambuja, com apenas doze anos de idade, tornou-se proprietária das terras em 1802. Dona Joaquina casou-se em 1808 com o Tenente-Coronel João de Siqueira Tedim, natural da cidade do Porto e que veio junto com a corte de Dom João VI (1767-1826) para o Brasil - a Rua Coronel Tedim é em sua homenagem. O Príncipe Dom Pedro, futuro imperador do Brasil, foi na mocidade amigo do Coronel Tedim. Os dois promoviam caçadas na Fazenda do Engenho da Serra. O coronel só teve um filho com Dona Joaquina: João de Siqueira Tedim Filho (o Comendador Siqueira, também nome de rua no Barro Vermelho). Dona Joaquina faleceu em 1832; e o Coronel Tedim, logo depois.

Com a morte dos pais, a Fazenda do Engenho da Serra ficou com o Comendador Siqueira até seu falecimento. Ele deixou a propriedade para as filhas Francisca e Joaquina. Casando-se com Joaquim José de Sequeira Filho, Dona Francisca comprou, em 1877, a parte da irmã Joaquina, que era esposa de João de Saldanha da Gama. A Rua Dona Francisca de Siqueira, esquina da Avenida Geremário Dantas, é em memória à proprietária do Engenho da Serra. Em 1923, já viúva, Dona Francisca e seus filhos e netos (Joaquim de Sequeira Neto, Augusto Tedim de Sequeira, Luís Tedim de Sequeira, Otávio Sequeira Melo, Olga de Sequeira Melo e Vera de Sequeira Melo) venderam todos os seus domínios em Jacarepaguá para a Companhia Expansão Territorial.

O fundador da Companhia Expansão Territorial foi Roberto Mac Gregor (1894-l980). A criação da imobiliária em 10 de abril de 1923 foi somente para a compra da Fazenda do Engenho da Serra e planejar o seu loteamento. A Praça Mac Gregor (no meio dos encontros das ruas Araguaia, Geminiano Góis e Joaquim Pinheiro) é homenagem ao fundador da companhia. A sede principal da Fazenda do Engenho da Serra ainda existe. É o imóvel de número 1.721 da Estrada dos Três Rios.

A Estrada do Pau Ferro passava dentro da Fazenda do Engenho da Serra. O nome pegou em virtude da abundância nessa parte da propriedade de paus-ferros, árvore da família da leguminosas. Na bifurcação das estradas do Pau Ferro e da Freguesia (atual Avenida Geremário Dantas) surgiu o Largo do Pechincha. A denominação do logradouro é em referência ao comerciante José Pechincha, que se estabeleceu no local na primeira metade do século passado com uma venda de secos e molhados, a primeira da localidade.

O atual prédio do Retiro dos Artistas foi inaugurado em 20 de janeiro de 1925. Porém, a instituição já existia em Jacarepaguá desde 1918, quando foi construída uma casa de barro e bambu no enorme terreno doado pelo industrial Fred Figner na antiga Rua Floresta (hoje Rua Retiro dos Artistas). A idéia do movimento para criação do abrigo foi do ator de teatro de cinema brasileiro Leopoldo Fróis (1882-1932), que liderou um grupo de artistas da época e recebeu apoio do jornalista Irineu Marinho (1876-1925).

A origem da atual Avenida Geremário Dantas (ver dados sobre o homenageado na página 3) vem do século XVII, quando, a partir da localidade de Itatindiba (hoje Largo do Tanque), foi aberto o caminho real para o Engenho D’Água. Mais tarde, com a criação da Freguesia de Nossa Senhora do Loreto de Jacarepaguá, o logradouro passou a ser chamado de Estrada da Freguesia. Em 1936, recebeu o nome atual.

Na localidade do Barro Vermelho, como vimos antes, há três ruas em memória a três gerações de proprietários do Engenho da Serra: Coronel Tedim, que foi pai do Comendador Siqueira e avô de Dona Francisca Siqueira. A Rua Alberto Pasqualine é homenagem ao senador gaúcho Alberto Pasqualine (1901-1960), que sofreu derrame cerebral em 1956, quando o Senado Federal era no Rio de Janeiro. Ficou paralítico até a morte em 1960. A Rua Samuel das Neves é em lembrança ao dono de um sítio nessa rua, onde hoje é o condomínio de blocos de apartamentos. A Rua Lopo Saraiva é em memória ao espírita com esse nome; que, a partir de 1907, freqüentava a casa de campo do irmão Álvaro Antônio Saraiva, no quarteirão onde atualmente se situa a rua. A Rua Renato Meira Lima homenageia o político e engenheiro da Prefeitura com esse nome, falecido em 1950. Esse logradouro de 1918 a 1950 chamava-se Rua Caicó. Antes de 1918, o nome da Renato Meira Lima era Rua Bento Pereira Guedes, que era português e construtor da maioria das residências da região erguidas no início deste século.

A Igreja de Santo Antônio Maria Zacarias foi inaugurada no dia primeiro de janeiro de 1945, com a presença do Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros Câmara (1894-1971). O responsável pela construção dessa paróquia do Tanque foi o vigário da Igreja de Nossa Senhora do Loreto, Padre Ambrósio Maria Molteni (1899-1971). A Praça Padre Ambrósio, localizada também no Tanque, é em homenagem a esse religioso barnabita. O Padre Ambrósio ficou famoso pela sua dedicação e caridade aos fiéis. Ele quase sempre era visto montado no lombo de um eqüino nas suas peregrinações para visitar as diversas capelas do bairro de Jacarepaguá.

Aqui termina esse pequeno relato com histórias de algumas das pessoas que viveram durante quatro séculos em Jacarepaguá. O bairro sempre fascinou a todos seus moradores. No início do século XX, era conhecido por seu ótimo clima. Os médicos aconselhavam aos doentes a ir morarem no bairro, principalmente os tuberculosos, cuja doença era incurável naqueles tempos. Mas Jacarepaguá ficou de fato conhecido em todo o Brasil no carnaval de 1949. A marchinha Jacarepaguá dos compositores Paquito, Marino Pinto e Romeu Gentil, interpretada pelos Vocalistas Tropicais, foi a música mais cantado pelo povo nos salões dos clubes nas ruas e avenidas. Vejamos abaixo a letra da famosa marcha.

É hoje que eu vou me acabar

Com chuva ou sem chuva, eu vou prá lá

Eu vou... eu vou... prá Jacarepaguá

Mulher é mato, eu preciso me arrumar

Copacabana tem: romance ao luar

Em Paquetá, também: a gente pode amar

Porém, o lugar neste mundo...

Melhor é prá mim: Jacarepaguá